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Mentes de Sucesso volume 2

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Este e-Book é o segundo de uma série escrito pelos professores Daniel Capella e Eloisa Lages com o objetivo de inspirar jovens. Para nós é uma realização pessoal e profissional, uma vez que nosso papel de educadores deve ir além da sala de aula. Projeto Gráfico: Ligia Camolesi Ilustrações: Ligia Camolesi Revisão: Denise Guaranha

Capella, Daniel. Lages, Eloisa. Mentes de sucesso: histórias que contam a jornada de jovens vencedores. São Paulo: Eloisa Lages Nunes, 2018. ISBN 978-85-924200-1-7


MENTES DE SUCESSO: histรณrias que contam a jornada de jovens vencedores Volume 2

DANIEL CAPELLA ELOISA LAGES Sร O PAULO Eloisa Lages Nunes 2017


Prefácio Todo profissional comprometido com a missão de transmitir conhecimento tem como maior remuneração os resultados obtidos por seus aprendizes. O salário que cai na conta é necessário para a subsistência material, mas as histórias de sucesso que caem nos ouvidos são fundamentais para a continuidade dessa grande tarefa. A confirmação de estar no caminho certo vale mais do que os números confirmados no extrato bancário, pois, se não fosse assim, não teríamos

tantos professores de escola pública lutando para levar o melhor às suas turmas, mesmo com os poucos recursos que têm. Neste livro, você conhecerá algumas das diversas histórias de sucesso de alunos que cursaram o ensino técnico, que só existem pela combinação de esforços dos alunos aqui citados e de dois de seus professores: Daniel Capella e Eloisa Lages. Tenho acompanhado o empenho de ambos e posso dizer que a hashtag que comumente

usam em suas redes sociais ao publicarem detalhes do dia a dia em sala de aula, eventos e projetos especiais – #lovemyjob – é real. Eles amam o que fazem e, por isso, fazem a diferença. Este livro é exemplo disso, pois em suas poucas horas vagas, depois de corrigirem provas, avaliarem trabalhos e prepararem as aulas – tarefas feitas fora do horário de trabalho – dedicaram tempo para organizar as histórias e preparar este material.

O objetivo dessa obra é fazer com que cada leitor veja que o ensino público pode ser uma grande ferramenta transformadora, que


o ensino é uma arma poderosa e que, como sociedade, devemos

apoiar, incentivar e nos colocar à disposição para cobrar das autoridades competentes, mais competência quando o assunto é educação. O professor tem o poder de estimular o aluno ou fazê-lo odiar a matéria que leciona, de incentivá-lo em sala de aula ou apenas deixar o tempo correr até ouvir o toque do sinal, de motivá-lo e premiar seus esforços ou de abafar seus sonhos. Todos nós sabemos disso, pois fomos alunos e tivemos nossas próprias experiências. Por

isso, quando testemunho o trabalho primoroso de algum docente, me sinto na obrigação de apoiar e, sempre que possível, colaborar de alguma forma, ainda que seja com um simples “parabéns”, palavra escassa nos dias de hoje, mas tão merecida por essa classe. Há uma frase comum que diz que o Brasil não valoriza o ensino, mas somos nós que formamos o país e não o país que nos forma. Não valorize apenas a infraestrutura das escolas, pois não é isso que fará a

diferença, mas procure conhecer os professores e oferecer a eles o apoio que puder. Fazendo isso, você também será um elemento fundamental para que mais histórias de sucesso sejam contadas e, quem sabe, termos não apenas um livro, mas uma série de histórias de alunos bem-sucedidos que serão profissionais mais capazes futuramente. Não importa que nossos atos não mudarão o mundo todo, mas vale muito quando, juntos, mudamos o mundo de alguém.

Patrícia Lages


Sumário 7 9 10 12 16 18 23 27 30 32

Introdução Inspiração Apresentação A escolha Os medos Os desafios A tormenta Fica a dica Sonhos Erros


Introdução Certo dia começamos a divagar acerca do que nos move. O que nos faz passar de um ponto ao outro, sair de uma situação para atingir outros patamares. Falamos na questão da sobrevivência, das necessidades de ser empregável em um mundo que começa a mudar as perspectivas e o entendimento das relações de trabalho.

Finalmente relembramos experiências que vivenciamos até aqui e quantos jovens perderam ou ganharam alguma coisa ouvindo nossas tentativas de ensinar. Percebemos que na maioria das vezes contagiá-los nos momentos de aprendizagem é uma tarefa numericamente infrutífera. Pensamos em um primeiro momento que todas as iniciativas e ações não compensavam o esforço. Em seguida constatamos que estamos falando de gente, gente que sonha, que sofre,

que chora, que dá risada, e assim sendo, porque não buscar entender o que as motiva. Já ouviu o ditado ‘se te derem um limão, faça uma limonada’? É esse o ponto, conhecer a história de jovens que fizeram a limonada. São eles que nos movem e nos fazem acreditar que: Sim,

nós podemos! (nos desculpe o clichê, rs) Decidimos ouvir aqueles e aquelas que hoje estão transformando suas realidades por meio de todo o conhecimento que construíram

até aqui. O ponto que une nossas histórias é a escola, mais precisamente a escola técnica pública! Convivemos com esses garotos e garotas, participamos de parte de suas vidas, trocamos ideias, repreendemos, medimos forças, impusemos regras e ao final eles voltaram

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8 para nos contar como estão e nos ensinar tudo aquilo que boa parte dos livros não ensinam!

Sou Daniel Capella, professor de Administração, Finanças e Contabilidade. A docência foi um sonho conquistado e hoje é um dos meus maiores desafios. Fazer parte desse projeto e contar histórias de mentes brilhantes que buscam seus sonhos com determinação

é uma imensa alegria.

Sou Eloisa Lages, professora de Marketing, apaixonada pelo meu trabalho e essa é uma das maneiras de fazer o que gosto, escrever. E contar as histórias desses jovens é

uma satisfação enorme, são momentos como esse que me fazem ter certeza da carreira que escolhi pra mim.

No segundo volume da série você conhecerá a Mariana, uma jovem de muito valor que nos enche de orgulho.


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Inspiração Curiosidade: instinto que leva alguns a olhar pelo buraco da fechadura, e outros a descobrir a América. Eça de Queiroz


Apresentação Chegamos à segunda história dessa incrível jornada pelas Mentes de Sucesso com uma personagem extremamente interessante: - Apresentamos à vocês Mariana Jardim! Nada mais difícil do que falar sobre nós, chegar a adjetivos que

mostrem quem somos é uma tarefa cruel, primeiro porque temos medo de enaltecer nossas qualidades e parecer arrogantes, mas também tememos parecer pequenos demais. Não são poucas as vezes que as pessoas nos perguntam isso, inclusive em entrevistas de emprego e estágio. Para conhecer nossa personagem não podia ser diferente, fizemos essa ingrata pergunta e a resposta foi surpreendente! “Ainda bem que sou uma metamorfose, os valores permanecem, mas busco

me despir de preconceitos, isso porque o mundo precisa de pessoas mais tolerantes e minha área de atuação profissional também exige isso. Sinceramente, não sei te responder quem sou, posso apenas me definir como uma pessoa inquieta e mortalmente curiosa.”

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11 Mariana diz ainda que está aberta a rever seus gostos e opiniões e

encontra pistas de quem é nas palavras ditas pelas pessoas próximas e queridas. É fato que o mundo está em constante mudança e como ficou bem claro em nosso primeiro livro essas mudanças trazem coisas maravilhosas como a proximidade com pessoas distantes, a conexão e laços de amizade com gente que ainda não conhecemos pessoalmente. E assim, com tantas possibilidades não podemos mais ser rígidos e inflexíveis, é preciso olhar o outro, ouvir, dar e receber feedback.


A escolha A vida é repleta de incertezas e quando a gente cresce as dúvidas aumentam ainda mais, começam a pesar o medo de errar e de não ser bom em algo. Mariana desde muito cedo lidou com escolhas, fez balé em uma instituição pública por algum tempo, mas devido a saída da professora as aulas foram interrompidas e por isso candidatou-se a uma vaga para estudar no Teatro Municipal de São Paulo. Ao final da avaliação flagrou os selecionadores dizendo que ela dançava bem, mas que era muito baixa e tinha as pernas "muito gordinhas", logo não teria perfil para prosseguir. A frustração foi grande, pois via no balé algo que amava e que sabia que podia fazer bem, mas

diante da negativa, seguiu o exemplo de sua prima mais velha e resolveu estudar inglês para dar novos rumos em sua vida.

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13 É preciso saber recomeçar, serão muitos os "nãos" que ouviremos ao longo da vida e o destino será traçado por nós, pela nossa atitude

diante das negativas da vida. O mundo é muito grande e as possibilidades são muitas para que paremos em um, dois ou dez obstáculos que apareçam. Nossa personagem se entregou de cabeça aos estudos e ficou encantada com a possibilidade de aprender um novo idioma e graças aos esforços financeiros dos pais conseguiu estudar a língua do Tio Sam (do inglês, Uncle Sam, foi um comerciante americano que aca-

bou por representar toda a nação dos Estados Unidos da América). Atualmente há muitas ferramentas disponíveis que dão aquele empurrão no aprendizado de coisas novas, principalmente na língua inglesa e Mariana aproveitou esse universo de possibilidades para desenvolver o seu aprendizado. Escolhas são muito complicadas, principalmente nos dias de hoje em que recebemos tantas informações e parecemos ter tantos

caminhos, mas Mariana sempre teve em seus familiares um referencial, ao ver sua prima ingressar na escola técnica para fazer Administração e se desenvolver como profissional, decidiu que queria trilhar o mesmo caminho, ou melhor dizendo, quase o mesmo. Optou por candidatar-se ao processo seletivo para o ensino médio integrado ao técnico em Marketing, assim faria o ensino médio regular e o técnico em marketing em um único curso. Marketing

tinha mais a ver com seu perfil do que Administração.


14 No ano de 2013, Mariana foi aprovada na seleção e ingressou no mundo do marketing, lugar do qual nunca mais saiu e nem pretende sair. O tempo foi passando e os desafios que uma escola técnica propõem ao jovem são muitos, pois ela tinha cerca de dezessete matérias entre as do ensino médio e as do técnico, o que lhe trouxe muitas responsabilidades. Certo dia estava na escola e foi informada pela amiga Thais Gazarra de que uma das universidades mais conceituadas da área do marketing estava de portas abertas para jovens que quisessem conhecer os cursos oferecidos. E lá foi nossa

curiosa personagem descobrir um novo mundo! Chegando na universidade ficou maravilhada com a estrutura daquele lugar, mas o que mais lhe chamou a atenção foi quando descobriu que a instituição oferecia um curso de “Ciências Sociais e do Consumo”, que forma profissionais que podem entender o comportamento das pessoas do ponto de vista cultural, social e sua relação com o consumo. Nesse momento lembrou-se com muita

satisfação e saudades das aulas de “Comportamento do Consumidor” e de como gostava de psicologia, comportamento e Marketing. “Tive a impressão de que fizeram esse curso para mim”, brinca Mariana. A experiência na universidade foi muito marcante, nas dinâmicas e atividades realizadas durante o evento percebeu que muito do que aprendeu no curso técnico era desenvolvido ali. Durante o evento ficou encantada ao assistir uma palestra de um

cientista social que comparou o comportamento de gerações


15 passadas com as tendências trazidas pela cantora Madonna. Era isso que Mariana queria estudar, era com isso que ela queria trabalhar! Já falamos algumas vezes e falaremos muitas outras que a vida é feita de conexões e que é muito importante conhecer pessoas e trocar figurinhas, afinal de contas, aquilo que sobra para um pode faltar para outro. E foi graças a essas conexões, que muitas vezes são des-

pretensiosas que Mariana ficou sabendo por intermédio de um amigo, que essa universidade tinha um programa de bolsa de estudos que oferecia descontos de até 90% no valor da mensalidade dos cursos. Nesse momento nossa personagem não pensou duas vezes e decidiu prestar a prova para concorrer a bolsa.


Os medos A simples dúvida de nossa capacidade de fazer algo nos impede de realizar muitas coisas na vida. Mariana sentiu um medo enorme de não ingressar no curso técnico quando se deparou com a quantidade de candidatos inscritos e o número de vagas que a escola oferecia. Começou a pensar que muita gente tinha feito o ensino fundamental em escolas particulares e que ela por muitas vezes ficou sem

aulas por falta de professor na escola pública em que estudou. Foi então que seus pais apertaram o orçamento e custearam um curso preparatório. Essa ajuda foi muito importante, mas a deixou com muito mais medo de não passar e desperdiçar o dinheiro investido pelos pais. Depois de aprovada na seleção do curso técnico se deparou com uma realidade também assustadora, pois dos quarenta alunos de sua turma apenas cinco tinham cursado o ensino funda-

mental em escola pública. Teve muito medo de não conseguir acompanhar o ritmo de seus colegas e temia “não ter tanto conhecimento quanto eles”. Mariana admite que não foi fácil no começo conviver com pessoas com realidades tão diferentes, mas que ainda assim conseguiu fazer bons amigos e que as experiências foram muito importantes na formação de quem é hoje. Lidar com diferenças é fundamental! Nos dias de hoje, muitos

produtos e inovações que fazem parte do nosso cotidiano foram

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17 construídos ou inventados por pessoas diferentes que tinham conhecimentos incomuns e que muitas vezes pensavam de modo diferenciado, isso porque gente muito parecida tende a pensar nas mesmas coisas e fazer tudo do mesmo jeito e isso, muitas vezes, vai na contramão da criatividade e da inovação. Não significa dizer que você precisa romper com seus amigos do peito, mas que precisamos

conviver e construir conhecimento com pessoas que pensam diferente da gente. Até o exato momento em que nos contou sua história, estamos em 2017, Mariana passou por muitas situações assustadoras, mas cada friozinho na barriga escondia uma oportunidade de fazer algo que considerava desafiador e muitas vezes difícil. Não deixe que o medo de falhar te impeça de prosseguir, porque em muitas situações nós

mesmos nos sabotamos ou escutamos as pessoas erradas.


Os desafios A vida é repleta de problemas! Sim pessoal, sabe aquelas situações

inusitadas ou inesperadas que provocam medo, ansiedade e colocam nossa capacidade à prova? Elas existem aos montes, mas podemos dizer sem medo de errar que o mundo é movido por problemas, muitas inovações e descobertas só foram possíveis porque em algum momento “deu ruim”. Na vida de Mariana não foi diferente, pois, no último ano do curso técnico, em 2015, depois de muitas tentativas frustradas de

produzir o trabalho de conclusão de curso (o tão temido TCC) em grupo e muitos problemas de relacionamento com os colegas, diferenças na ideia e no enfoque do trabalho decidiu sair do grupo e fazer um novo trabalho, sozinha. Recebeu convites para entrar em grupos já formados, mas não queria apenas fazer parte de equipes que já haviam construído bons trabalhos e não acreditava que fosse capaz de ajudar muito, porque muitos trabalhos já estavam quase

prontos.

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19 O medo foi grande, pois muitas ideias foram deixadas no trabalho que ficou para trás. “Eu que adoro escrever e pesquisar me vi sozinha precisando encontrar uma empresa para prestar consultoria e vender meu trabalho como profissional, foi assustador” contou Mariana. E como “quem procura, acha” Mariana encontrou uma empresa cliente. Durante as reuniões foram levantadas várias necessidades e dificuldades que não eram somente relativas ao tema de seu trabalho, mas diante da receptividade do cliente ela não pode negar ajuda. Hoje conta que os pedidos extras feitos pelo cliente

ampliaram absurdamente seus conhecimentos e habilidades, porque precisava rapidamente pensar em uma resposta, sendo assim, antes de falar “isso não é comigo” ou “isso não é minha obrigação” ou até mesmo “não vai dar tempo” pense em quantas oportunidades de aprendizado está deixando passar. Mariana destaca bastante a importância de fazer conexões com pessoas, porque ao fazer o trabalho sozinha pôde contar com a ajuda

de muitas pessoas, pois é impossível saber fazer tudo, por isso sempre podemos aprender com os outros e contar com o apoio de gente que acredita em nós. Você deve se lembrar que nossa personagem foi parar no processo seletivo para a bolsa de estudos na universidade de seus sonhos, pois bem, mas para que fosse possível ingressar nesse curso tinha que passar na prova e ser contemplada com a bolsa de 90%, do

contrário, não teria condições de arcar com os custos. Isso tudo


20 aconteceu em meio aos problemas com o TCC e ao turbilhão de matérias que ela tinha que estudar para se formar no ensino médio. E assim, foi pesquisar o que precisaria estudar para passar na prova da bolsa. Por estratégia focou nas ciências humanas e não deu

muita ênfase às ciências exatas, pois tinham peso menor nesse processo. Mariana fala com muita gratidão das incríveis aulas que recebeu da professora de Língua Portuguesa e Literatura, das discussões sobre atualidades com o colega Renato Bilotta e das aulas extras, secretas e não remuneradas que o professor de História deu para ajudar seus alunos em fase de vestibular. No dia da prova a surpresa não podia ser maior e melhor, pois

Mariana estava totalmente familiarizada com as questões, tanto específicas da área de Marketing, quanto as relativas ao ensino médio “parecia que o professor de história estava sussurrando as respostas no meu ouvido”, brinca. O tema da redação também foi amplamente discutido em sala com os professores de marketing e essa experiência rendeu boas argumentações. O processo seletivo foi concorrido e considerando a fama da

universidade Mariana temia também pela qualidade dos candidatos, porque tinha receio que as defasagens do ensino fundamental atrapalhassem seu desempenho na prova. Seu aniversário 04/11/2015 passou e não tinha a mínima vontade de comemorar porque a ansiedade pelo resultado era muito grande. Quando finalmente saiu a lista viu que estava em quarto lugar no ranking geral, mas a bolsa era destinada a alunos que cursaram o ensino médio em escola pública e


21 a lista também trazia ex-alunos de escolas particulares, logo não sabia se as três pessoas que estavam em sua frente tinham direito a

bolsa ou não. Abriu o e-mail e recebeu felicitações da universidade pela conquista da bolsa, mas a mensagem não deixava claro qual era o percentual. Mariana entrou em desespero, porque somente poderia estudar lá se conseguisse a bolsa de 90%, pois as finanças da família não comportavam um gasto maior. A angústia durou mais um bom tempo, até que Ana Paula Yoshimaro, sua colega de classe que também prestou a prova, ligou informando que havia ficado depois

dela no ranking e que tinha conquistado a bolsa de 80%, logo a bolsa com maior desconto só poderia ser de Mariana. Mariana conta que foi um dos dias mais felizes de sua vida e que seu pai, apesar de não entender muito bem o que um Cientista Social do Consumo faz e de sonhar com uma filha engenheira viu a importância que essa conquista tinha para ela e pediu dispensa do trabalho para acompanha-la na matrícula. “Posso contar nos dedos as vezes

que meu pai faltou no trabalho, mas nesse dia sem que eu pedisse ele me acompanhou, foi muito bom contar com ele nesse momento”. O resultado obtido no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda servia para entrar nos cursos de Engenharia e Medicina em uma Universidade Federal, mas Mariana não teve dúvidas de que seu lugar era no mundo do Marketing. Muitas vezes nós vivemos os sonhos dos outros e deixamos de lado os nossos, mas para saber o que


22 de fato gostamos é preciso se autoconhecer, para isso é muito importante ler, pesquisar e conversar com pessoas que já estão no mercado ocupando posições em áreas que considera interessantes. O desempenho e sucesso profissional estão muito atrelados a entrega e dedicação da pessoa e isso depende muito da felicidade que aquele trabalho pode trazer. Quem nunca conheceu alguém que detesta seu

trabalho? Qual é a qualidade do que essa pessoa produz? Os desafios não pararam por aí, porque depois que ingressou na universidade, no ano de 2016, Mariana não achou justo que seus pais arcassem com todos os seus gastos sozinhos e ingressou em um programa de iniciação científica, que consiste em fazer pesquisas orientadas por um professor sobre temas relativos ao curso que escolheu. Esse programa oferecia uma ajuda de custo, mas além dessa

renda foi preciso vender doces aos colegas de universidade para dar uma força no orçamento da família. “Dentre outras opções gratuitas eu escolhi estudar aqui e não achei justo que meus pais pagassem tudo sozinhos” conta. Hoje, 2017, estagia em uma empresa de pesquisa de mercado e recentemente se dedicou a um projeto internacional de pesquisa com países da América Latina. Usou o pouco conhecimento de espanhol

que tem e aceitou o convite do gestor que desesperado procurava alguém capaz de entrevistar consumidores em espanhol. Ela conta que foi extremamente desafiador não só conversar, mas fazer relatórios em espanhol e o resultado foi elogiado pela empresa cliente que a contratou para o serviço de pesquisa.


A tormenta As limitações financeiras tiram o sono

de muitas pessoas, pois é muito complicado necessitar de coisas e não ter condições de comprar. Mariana vem de uma família de muita gente trabalhadora, mas não esconde que passaram por dificuldades financeiras. Mesmo com tantas limitações o apoio e união da família sempre foi muito importante, porque um sempre ajudou o outro quando necessário. As condições financeiras modestas não impediram que seus pais construíssem sua casa e que oferecessem educação e uma vida feliz

para seus filhos. Um dos grandes equívocos desse mundo em que vivemos é que muitas vezes nos pegamos valorizando demais as coisas, quando na verdade são as pessoas e experiências que dão sentido a muitas de nossas conquistas. De que adianta dar uma grande festa se não tiver convidados? É como uma frase de Jim Carrey que diz: I wish everyone could

become rich and famous so they could realize it’s not the answer. – Desejo que todos possam ficar ricos e famosos para que percebam que esta não é a resposta. As limitações financeiras sempre foram um problema grave, mas isso não a impediu de lutar pelo que sonha. Certa vez, cismou de participar de um congresso de Neuromarketing, pois esse assunto fazia parte do tema de seu TCC, mas o ingresso para o evento era

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24 muito caro. Usou as redes sociais para entrar em contato com um dos organizadores e conseguiu um desconto generoso, mas para ter direito precisava indicar um grupo de pessoas. E lá foi ela convidando todo mundo, nós inclusive nos inscrevemos por insistência de Mariana. Foi nesse congresso, inclusive, que conhecemos um grande amigo e profissional que muito nos apoia em nossas realizações, o brilhante,

Fernando Kimura! As dificuldades financeiras também tornaram as visitas aos parentes na Bahia eventos um tanto quanto raros, mas quando aconteciam eram as melhores férias que você respeita! Mariana, filha de “Fia” e neta de “Ameriquim” – apelidos que identificam sua mãe e seu avô na cidade natal – tem muito orgulho de sua família e origem. Não é pouca gente não! São dezoito tios e por consequência

muitos primos. A família é grande, mas mesmo com poucos recursos para muita gente, nunca deixaram de ter momentos felizes e de contar com o apoio nos momentos difíceis. “Te tornas responsável por aquilo que cativas”, família grande e unida garante muitos momentos de alegria, mas não podemos esquecer que coisas tristes também acontecem. Mariana havia superado as tormentas com o TCC e estava com

muitas expectativas com a faculdade, pensou que podia finalmente respirar quando recebeu a notícia de que sua avó sofrera um aneurisma e infelizmente veio a falecer. Tudo isso aconteceu as vésperas do Natal e ela não pôde se despedir. Algum tempo depois também


25 não pôde visitar seu bisavô porque recebera um prêmio de membro destaque em uma entidade da qual fazia parte na universidade, passados alguns meses ele faleceu. Sentiu-se culpada por ter deixado passar a oportunidade de visitá-lo.

Esses acontecimentos provocaram muitos questionamentos e a fizeram pensar em como as coisas na vida passam e tudo acaba. Ficou muito insegura e começou a questionar os motivos de ter recusado a vaga na faculdade de medicina e desistido da oportunidade de salvar vidas. Nesse momento, o apoio de seus professores da universidade foi fundamental, eles disseram que as coisas acontecem independente da nossa vontade.

Disseram também que por fazer o melhor dentro da área que escolheu e ser feliz fazendo isso, Mariana está contribuindo, do seu jeito, com o mundo e honrando a memória de todas essas pessoas queridas que a ajudaram desde pequena. Foi assim que superou a

bad, levantou a cabeça e pensou “meus familiares lutaram para dar vida digna e tirar seus filhos da roça e isso me deu condições de chegar a universidade, não posso deixar tudo para trás”.

Guaianazes é um bairro da Zona Leste de São Paulo com cerca de 164 mil habitantes. Com toda certeza há muitas cidades ao redor do mundo que possuem população menor. Distante do centro da cidade e imerso em muitos problemas sociais como a violência e a falta de oportunidades de trabalho na região, oferece aos seus moradores muitos desafios, pois muita gente trabalha e estuda bem


26 longe de lá. Mariana diz que não é fácil levantar da cama antes de amanhecer para chegar no horário e esse fato nunca foi motivo para que chegasse atrasada ou faltasse, tanto na escola técnica quanto no trabalho. Os problemas não deixam de ser pesados, na verdade a

tendência é que piorem, logo, quem pode mudar o jogo somos nós. Os problemas servem para que possamos testar nossos limites e conhecer até aonde vai a nossa força, além de mostrar quais são as pessoas que realmente estão do nosso lado.


Fica a dica Nossa personagem adquiriu ao longo de sua curta jornada bastante sabedoria, mas isso não lhe foi dado por um oráculo de mão beijada.

O sucesso e o fracasso ensinaram importantes lições. Mariana destaca que a vida não possui uma única receita, cada um tem uma história e características que dão aquele tempero para seus caminhos. Diante das dúvidas que são comuns na vida podemos encontrar mais esclarecimento nas perguntas do que nas respostas! Ficou na dúvida? Mariana explica que conhecer a si próprio dá pistas do que tem mais a ver com você, mas para isso é preciso refletir sobre suas características e receber feedback ou impressões do que as pessoas pensam de você, como elas te veem. Claro que não devemos ser dependentes da opinião dos outros e que não vamos ouvir qualquer opinião, é preciso interagir com pes-

soas sensatas.

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28 Outra pergunta que vive rondando a mente de nossa entre-

vistada é “Por que não?” Muitos dos progressos do mundo aconteceram porque alguém ficou inconformado com algum “não” recebido. Lembre-se que Mariana NÃO podia estudar naquela universidade! Os dilemas da vida precisam de perguntas e não só de respostas. Diante dos problemas é importante perguntar para si “Quais as opções que tenho? Nada muito elaborado, uma folhinha com duas colunas, uma para os prós e outra para os contras da situação, isso pode ser muito esclarecedor”. Vale fazer uma análise SWOT da vida, não sabe o que é? Dá um Google! A gente precisa refletir sozinho, mas também precisamos conversar com as pessoas, porque não podemos nos esquecer de que o

mundo é feito de conexões! Lembra de como conhecemos o brilhante Fernando Kimura?! Você deve se lembrar que Mariana entrou na universidade com muitas dificuldades, pois até para pagar os 10% da mensalidade estava difícil. Precisava encontrar um jeito de ajudar e, além da venda de doces, o programa de Iniciação Científica deu aquela força, mas consegui-lo não foi nada fácil! A seleção foi bastante

disputada e Mariana resolveu candidatar-se em dupla com a amiga Ana Paula. A necessidade e a insegurança quanto ao processo fizeram Mariana ter a ideia de enviar um conjunto de slides com a ficha de inscrição que ilustravam melhor o que ela e Ana Paula queriam fazer nesse trabalho. Ana Paula topou imediatamente e


29 deu excelentes ideias para esses slides, e o resultado não poderia ter sido diferente! As duas foram selecionadas, porque aproveitaram a oportunidade de se destacar ante aos demais concorrentes que também eram competentes. Em muitas situações fazer o que todo mundo está fazendo é muito confortável, mas as empresas esperam pessoas

com energia e disposição para ir além. Sobre ir na contramão temos uma dica de livro bem bacana: A

estratégia do oceano azul: como criar novos mercados e tornar a concorrência irrelevante, de W. Chan Kim, editora Elsevier.


Sonhos O sonho de fazer balé não foi abandonado, pretende voltar, mas por lazer. Estudar inglês despertou em Mariana o sonho de fazer um Intercâmbio, “sou inconformista, não posso fazer intercâmbio porque não tenho dinheiro, mas não posso hoje!” As dificuldades que a separam de seu sonho não são suficientes para impedir que siga em frente. Como não teve condições de ir para outro país encontrou um jeito de conhecer outras realidades do mundo. Aproveitou a

oportunidade de ingressar em uma associação internacional de estudantes de ciências econômicas, que possui uma sede dentro da universidade. Essa entidade estimula o desenvolvimento de jovens líderes em trabalhos voluntários e recebe pessoas do mundo todo, enquanto envia outros jovens para trabalhos sociais em outros países. “Conheço o mundo pela lente dos outros, mas não desisti de fazer

intercâmbio, sempre que vejo alguém que já fez, chego junto e quero saber como foram as experiências.”

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31 Os sonhos profissionais mudam, já quis ser diretora de mar-

keting, hoje quer ter a própria consultoria, mas tem ciência que esses desejos podem mudar à medida que sua carreira evolui e que há muito o que aprender para que isso seja possível. No âmbito familiar sonha em dar condições para que seus pais não precisem trabalhar de sol a sol para pagar as contas. Tem certeza de que eles jamais deixarão de trabalhar, pois não conseguiriam ficar parados, sempre batalharam na vida. Uma das maiores realizações

para ela será fazer por eles um pouco do que se esforçaram tanto para fazer por ela e seu irmão. Sonhos são projeções que fazemos para coisas que almejamos, mas para que sejam possíveis é preciso determinação, persistência e foco. As dificuldades aparecem e precisamos ficar firmes no objetivo que traçamos. Colocar sonhos no papel e escrever o que é preciso fazer para que se torne realidade é um bom começo para alcançá-los.


Erros Não são poucas as vezes em que colocamos toda nossa energia em algo, fazemos o possível e o impossível e o resultado é péssimo. Temos muitas alternativas quando isso acontece, podemos reclamar

de tudo e culpar os astros, outras pessoas, o governo, o vizinho, enfim. Ou podemos parar, pensar o que nos levou a essa situação e de que modo poderemos resolver a questão. Mariana entende a importância dos erros na formação de mentes de sucesso. “Ainda bem que sigo errando, pois são oportunidades de aprender e evoluir”. Confessa que já precisou lutar muito por conta das dificuldades nas relações interpessoais nos grupos de es-

cola. “O estudo e o trabalho sempre foram minha oportunidade de ser alguém na vida e dar uma vida melhor para meus pais, por isso, sempre tive dificuldades em lidar com pessoas que não levavam essas coisas tão a sério.”

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33 Reconhece que enquanto pôde fez suas coisas sozinha e que era muito confortável quando os resultados dependiam só dela, mas na escola técnica, na universidade e no trabalho é impossível fazer as coisas sozinha. “Tive muitas dificuldades e errei muito na convivência com grupos, principalmente por conta da nossa dificuldade em separar o lado pessoal do profissional. Ouvir muitas brincadeiras

cruéis por ser a garota de Guaianazes, nunca fui uma garota que vai pra balada, mas precisei trabalhar junto com pessoas que tinham outro estilo de vida, outras prioridades”. No trabalho, na escola e na universidade gosta de fazer as coisas de forma rápida, mas ao invés de perder tempo tentando não perder tempo com discussões e brigas sobre quando as coisas devem ser feitas entendeu que não precisa mudar seu jeito por conta dos ou-

tros, mas buscar formas de influenciar positivamente as pessoas, expondo os benefícios de se antecipar. Argumentar ao invés de impor suas ideias e ceder em alguns momentos são formas de evitar problemas e fazer o trabalho fluir. Mariana mais uma vez ressalta que fazer curso técnico antes da faculdade foi determinante, porque aprendeu com os conflitos e problemas na escola antes de chegar na universidade. O resultado disso

é que no trabalho não tem problemas de relacionamento e seus projetos fluem. “O aprendizado do técnico foi levado para a faculdade, o da faculdade foi levado para o trabalho e as coisas que aprendo no trabalho levo de volta para a universidade”, tudo se liga e o impor-


34 tante é não insistir nos mesmos erros, mas tentar caminhos diferentes. E já que falamos de aprendizado, o ponto alto da conversa

que resultou neste livro se deu quando Mariana nos revelou que fica extremamente feliz em dividir suas experiências, mas quer ir além na missão de construir conhecimento e ajudar pessoas a encontrar seus caminhos, quer ser professora! E aqui nos despedimos da história da inquieta Mariana.


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Mentes de Sucesso volume 2 by Ligia Camolesi - Issuu