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Duo

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Prefácio Será que tudo o que vemos é apenas o que enxergamos? Com a individualidade que permeia cada vez mais o nosso mundo, acabamos nos esquecendo de olhar para dentro antes de julgar o que está a nossa volta. Inspirado no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe, Duo traz duas histórias adaptadas para a vida contemporânea na cidade de São Paulo. O objetivo delas, mais do que entreter por alguns minutos em uma tarde chuvosa, é permanecer para sempre, mesmo que silenciosas, em algum lugar de nossas consciências. Por meio de um passeio pela rotina de seus complexos personagens, os contos convidam os leitores a repensarem o modo como cultivam seu relacionamento com o próximo. As ilustrações, por sua vez, transportam as histórias para dentro de nós, fazendo-nos vivenciar uma atmosfera repleta de duplicidades e significados.


Reflexo A história que vou contar agora pode fazer com que você me ache doido. Talvez isso seja em parte verdade, mas eu juro que tudo que vi e senti foi muito real. A todo o momento eu me pergunto por que essas coisas tinham que acontecer comigo… eu sou apenas uma pessoa como todas as outras. Tudo o que faço é o que julgo ser o melhor para a mim nessa loucura que é São Paulo. Aqui, cada um faz o que pode para sobreviver, e eu não sou exceção. O modo como sempre agi é o que vinha garantindo uma vida tranquila e confortável para mim, até há pouco tempo, quando as coisas começaram a acontecer. Todos me acham o homem perfeito. Educado, bonzinho, o funcionário modelo da empresa, o filho exemplar… o típico bom cidadão. Sim, talvez para eles eu fosse. Talvez eu mesmo acreditasse nisso. Ao pegar o metrô de manhã para ir trabalhar, noto que uma senhora de uns setenta anos acaba de entrar. Os assentos preferenciais estão todos ocupados, até por gente que não é preferencial. Como estou sentado em um assento comum, simplesmente fecho os olhos e ignoro sua presença, temendo que ela faça contato visual comigo. Certamente não vou levantar e ceder meu lugar, da mesma forma que as outras pessoas também não o fazem. Já estou cansado desses velhos que sempre têm que roubar nosso assento no metrô. Chegando à minha estação, saio andando pela rua. Sinto uma sensação estranha, a de que estou sendo seguido. Olho para trás, temendo ser um bandido, mas nada vejo. Ao cruzar a esquina, vejo um mendigo sentado no chão, pedindo esmolas. O dia está bem frio para estar tão desagasalhado como ele está. Ainda que eu tenha algumas moedas no bolso, desvio os olhos e mudo para a outra calçada para não passar perto dele. Esses mendigos não valem nada mesmo. Quando chego no prédio do meu escritório, passo meu cartão e fico esperando o elevador. Enquanto isso, vejo um homem que parece ter uma posição importante, pelo seu jeito de se achar superior ao esbarrar em uma faxineira, fazendo-a derrubar um balde de água em seus pés e, então, começar a gritar com ela. “Não olha por onde anda? Vê se presta mais atenção no seu trabalho! Sabe quanto custaram esses sapatos? Mais do que o seu salário todo!” A moça, que


sei que se chama Maria, parece completamente assustada e em choque. Eu poderia falar alguma coisa, me manifestar em favor dela, mas simplesmente fico quieto e finjo que não vi nada. Afinal de contas, isso não é problema meu. Enquanto faço meu trabalho durante o dia não posso deixar de pensar na atitude daquele cara, tão arrogante, e daquelas pessoas que estavam no assento preferencial e não deram o lugar para a senhora. Tudo bem que eu também não dei, mas eu não estava no assento preferencial não é mesmo? Eu sou o típico bom cidadão, não é? Quando a Cris passa vem deixar alguns documentos na minha sala, não posso deixar de notar que ela está linda. “Ei, como você está princesa? O que acha de jantar comigo hoje?” Ela me lança um sorriso de quem já me conhece. “Pensei que você estivesse noivo.” “A Rebeca não vai saber. Além disso, é só um jantar entre amigos, não é?” Respondo. “Claro, claro que é.” Ela diz, dando uma piscadinha. “Ok, hoje às sete. Te espero depois do expediente”. Então sai da minha sala sorrindo. Ah, eu sei que ela me adora. Quem não adoraria? À noite, enquanto jantamos, minha noiva me liga para saber onde estou. Digo que estava fazendo hora extra na empresa, mas que já estou indo para casa. Felizmente ela acredita (é claro, todos acreditam em mim). Então me despeço da Cris e vou para o metrô. No caminho, talvez por estar já escuro, a sensação de estar sendo perseguido aumenta terrivelmente. Tenho quase certeza de que há alguém atrás de mim. Então vejo alguém sair das sombras, e quando penso que vou ser assaltado, o homem ataca um mendigo que está sentado ali perto, o mesmo por quem eu passei de manhã. Ele bate nele, diz que não vale nada e nem deveria viver. A voz dele me dá calafrios, pois é sobrenaturalmente muito semelhante à minha. Será que estou ficando maluco? Eu me afasto rapidamente para que ele não me veja. Que cara louco! Antes que eu possa ver seu rosto, ele desaparece na escuridão, deixando o mendigo desacordado, talvez quase morto. Com o coração acelerado, eu apresso o passo, com medo de algo pior acontecer. No metrô, vejo uma pequena confusão se forma do outro lado do vagão, onde um homem se recusa a ceder seu assento para uma mulher grávida. Todos em volta parecem


perplexos, ele grita sem nenhuma vergonha: “Vocês mulheres não queriam direitos iguais? Pois então, vocês têm o direito de ficar em pé também! Eu não vou me levantar pra você sentar, eu cheguei primeiro e tenho o direito de ficar!” Mais uma vez a voz parece terrivelmente familiar. É a minha voz. É a mesma voz do maluco que espancou o mendigo. Tento enxergar o homem, mas não consigo vê-lo pela distância. Por via de dúvidas, decido descer na próxima estação e esperar o próximo trem. Finalmente chego em casa, imaginando o que mais poderia acontecer naquela noite tão estranha. Tento me convencer de que tudo não passou de fantasias da minha cabeça. Eu havia trabalhado demais naquele dia… Mas ao chegar à porta, vejo que as luzes estão acesas e minha noiva está lá conversando com alguém. Antes que eu gire a maçaneta, meu coração parece falhar. Se eu não fosse eu mesmo, poderia dizer que ela estava comigo lá dentro. “É melhor você acordar para a vida Rebeca. Você é linda, inteligente, mas… eu sinto que falta alguma coisa, sabe? E já encontrei outra pessoa que pode me fazer mais feliz. Aliás, já faz algum tempo que estamos juntos, mas só consegui te contar agora. Sinto muito.” O que estava acontecendo ali? Só ouço minha noiva chorando sem parar, sem responder. Então o homem misterioso se despede, sem a menor ponta de ressentimento na voz, e sai de casa. Quando o vejo no jardim, iluminado pela luz que vem de dentro da casa, meus maiores temores são confirmados. Ele é exatamente igual a mim. Em tudo. Na falsa expressão de anjo, no sorriso dissimulado, nas roupas impecáveis, nos malditos olhos azuis… tudo parece ter sido copiado de mim. Ele poderia ser meu irmão gêmeo. Antes que ele se vá, crio coragem para puxá-lo e ameaçá-lo. “Quem é você e o que você quer com a minha noiva?” Ao me ver, ele nem parece surpreso, simplesmente sorri. “Ah, você quer dizer sua ex-noiva? Só fiz o que era certo. Acho que ela merecia saber a verdade. Aliás, todos merecem. Mas não se preocupe, afinal não era tudo isso que você vinha escondendo? Só te ajudei a colocar para fora. Deveria estar aliviado.” “Eu não entendo! Quem é você? O que fez com aquele mendigo? E no metrô, também era você? “Você não entendeu ainda? Sempre foi você.”


Inverso Meu humor não está dos melhores esta manhã. Para piorar, o trânsito está terrível e meu motorista estúpido não está ajudando em nada. “Será que você não vê que estou atrasada? Não dá para mudar o caminho?” Pergunto ríspida. “Sinto muito dona Amélia, não tem como cortar esse trânsito.” Ele diz. Reviro os olhos e bufo. Esse será o terceiro motorista que demito esse ano. Quando chego no escritório, Bernardo vem apressado falar comigo, segurando uma pilha de papeis. “Que bom que a senhora chegou! Os gerentes da Lancome estão esperando há meia hora e precisamos que você olhe esses documentos, o prazo de envio é ho-” “Será que você não pode voltar para a sua sala Bernardo? Não preciso que me digam o que fazer.” Eu o corto antes que ele termine a frase. Bernardo simplesmente murmura um “sim, senhora” e sai. A verdade é que ele é meu melhor funcionário e sem ele eu ficaria totalmente perdida. Mas é claro que ele nunca saberá disso. Se a gente dá um pouco de liberdade eles já colocam as asas para fora. Depois de uma longa reunião e uma negociação fracassada, meu humor está ainda pior. Que bom que eu ganho bastante por isso. Mas para me sentir melhor, nada como me divertir um pouco com os meus subordinados. Mando chamar a nova estagiária na minha sala. Quando ela entra, timidamente, percebo que está super nervosa. “Fernanda, conseguiu terminar o relatório que te pedi?” “Sim, senhora. Aqui está.” Ela me entrega um maço de cinquenta folhas, e enquanto eu o analiso, ela fica me olhando com uma expressão ansiosa. Finjo prestar muita atenção ao que está escrito. “Estou muito decepcionada em saber que isso é o melhor que pode fazer. Eu sugiro que repense seu modo de trabalhar se pretende chegar a algum lugar na vida.” Nada mais divertido do que ver o rosto chocado à minha frente. “M-mas eu… Eu fiz tudo o que a senhora pediu. Eu demorei dias fazendo…” “É melhor não tentar se justificar. Apenas saia. Ah e quero que me traga uma pesquisa sobre o mercado de cosméticos na Ásia, para amanhã.”


Ela arregala os olhos, mas responde baixo “sim senhora.” Quando ela sai, já me sinto bem melhor. É incrível como ter um cargo importante pode fazer com que você seja tratado como o dono do mundo. Todos nessa empresa me temem e me respeitam. Eu levanto o dedo e mil mãos aparecem para me dar o que quero. Sei que ninguém gosta de mim, mas eu não preciso de afeto… As pessoas simplesmente não prestam. É só virar as costas, que puxam seu tapete. Por isso que eu mantenho tudo sob controle aqui. Tudo estava na mais perfeita ordem, até o dia seguinte, quando o presidente chefe de todas as unidades da empresa aparece de repente no meu escritório e me apresenta a minha nova companheira de cargo. Só de ouvir isso eu já a detesto. Mas quando a vejo, a raiva se transforma em susto e curiosidade: a nova co-presidente é muito parecida comigo. Até seu nome parece com o meu, Cornélia. Sou obrigada a fingir um sorriso quando ela me cumprimenta alegremente com um beijo e um rápido abraço. “Prazer em conhecê-la! Imagino que vamos trabalhar muito juntas daqui pra frente.” “É… o prazer é meu” digo sem conseguir disfarçar o desprezo na minha voz. Naquele momento, juro para mim mesma que não vou deixar que ela atrapalhe minha vida. Apesar de todos os meus esforços, o que eu temia aconteceu. Cornélia parece querer fazer tudo ao contrário de mim. Ela ouve as sugestões dos funcionários, faz mudanças nos planos da empresa, é atenciosa com todos e trata bem até mesmo os estagiários! Em menos de um mês eu já percebo que os funcionários estão criando um certo afeto por ela, e não têm mais tanto medo de mim. O que mais me irrita nisso tudo é que eu não posso falar para ela o que penso, humilhá-la na frente de todos nem demiti-la. Nós estamos no mesmo cargo, e ela foi indicada pelo dono da empresa. Mas, claro, eu não a deixo fazer tudo isso, sem fazer nada a respeito. Na frente dela, eu tento, ao máximo, parecer cordial e compreensiva, mas assim que ela vira as costas eu desfaço suas decisões e planejo como incriminá-la de algum escândalo para tirá-la da empresa o mais rápido possível. Infelizmente, todos os meus planos sempre dão errado. Cornélia não tem do que ser incriminada… Ela não trapaceia (como eu), não difama os outros (como eu), não toma


decisões de acordo com a sua própria vontade (como eu). E, para completar, todos a amam. E me odeiam… Essa situação está acabando comigo, minha mente e meu humor estão virando um caos. Está bem difícil controlar os xingamentos na minha cabeça sempre que a vejo. E eu sei que ela já percebeu que não gosto dela, mas sempre me trata bem. Será que ela está sendo sincera ou no fundo também me odeia? Um dia, Cornélia entra em minha sala e eu esqueço que deixei um papel incriminatório em cima de minha mesa. Ali estava a carta que eu mandaria para um dos nossos colaboradores mais importantes, em nome dela. O que estava ali escrito arruinaria sua carreira. Meu sangue gela quando os olhos dela pousam sobre o papel, enquanto fala comigo. E agora? Ela sabe de tudo e serei demitida, não tenho como fugir. Mas o que ela faz é balançar a cabeça, suspirar e sorrir. “Vamos fingir que nada disso aconteceu.” Ela diz calmamente, enquanto rasga a carta. Eu continuo lá, parada, incrédula, olhando fixamente para a mesa, sem coragem de olhá-la nos olhos. Eu nunca senti tanta vergonha na vida. Ela disse aquilo, mas sei que até segunda-feira serei demitida. Por incrível que pareça, os dias vão passando e nada acontece. Cornélia está ainda mais simpática comigo. Parece que ela já esqueceu tudo o que aconteceu. A forma como ela é gentil comigo no começo me assusta, mas com o tempo me acostumo e começo até a gostar de sua companhia. Tudo o que sempre fiz foi maltratar, mentir, enganar, e mesmo quando fui descoberta, Cornélia me perdoou. Começo a refletir… será que esse tempo todo o problema era eu e não ela? Talvez eu devesse dar uma chance a ela. Talvez… eu devesse dar uma chance a todos os outros. Quando paro para me olhar no espelho percebo que estou um pouco diferente. Talvez seja tudo coisa da minha cabeça, mas sinto que já não sou a mesma de antes. Será que estou mudando? Será que Cornélia teria mesmo esse poder de me transformar?


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Ana Flávia de Oliveira e Lígia Camolesi Profª Regina Ferreira Silva Design |3º semestre | Novembro/2017


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Duo by Ligia Camolesi - Issuu