

FICHA TÉCNICA
DIRETOR
Bruno Santos
EDITOR-CHEFE
Daniel Nuñez
COMISSÃO CIENTÍFICA
Ana Rita Clara, Ana Silva Fernandes, Andriy Krystopchuk, Carlos Álvarez Leiva, Carlos Raposo, Cristina Granja, Eunice Capela, Gonçalo Castanho, José A. Neutel, Margarida Rodrigues, Maria Manuel Vieira, Miguel Jacob, Miguel Varela, Nuno Mourão, Pilar Crugeiras, Rita Meireles, Rui Ferreira de Almeida, Sérgio Menezes Pina, Sílvia Firmino, Stéfanie Pereira, Vasco Fernandes Vera Santos.
Periodicidade: Trimestral
Linguagem: Português
ISSN: 2184-9811
EDITORES ASSOCIADOS
TEMAS EM REVISÃO
Ana Agostinho, Ana Vieira, André Villarreal, Catarina Jorge, Catarina Tavares, Djamila Neves, Guilherme Henriques, Hugo Costa, João Nuno Oliveira, Vasco Monteiro.
HOT TOPIC
Jorge Miguel Mimoso, Daniel Garrido.
RUBRICA PEDIÁTRICA
Cláudia Calado, Mónica Bota.
CASO CLINICO ADULTO
Noélia Alfonso, Rui Osório.
CASO CLINICO PEDIÁTRICO
Inês Coelho, Marta Soares.
CASO CLINICO NEONATAL/TIP
Nuno Ribeiro, Luísa Gaspar.
BREVES REFLEXÕES
SOBRE A EMERGÊNCIA MÉDICA
Inês Simões.
CARTAS AO EDITOR
Catarina Jorge, Júlio Ricardo Soares.
VAMOS PÔR O ECG NOS EIXOS
Hugo Costa, Joana Massa Pereira; Miguel Espirito Santo.
LIFESAVING TRENDS
Ana Catarina Segundo.
IMAGEM EM URGÊNCIA E EMERGÊNCIA Catarina Costa.
EXCEÇÃO À REGRA - DISASTER MEDICINE - YOUR SECOND SPECIALTY
Verónica Aquilino.
LIFESAVING AIRWAY CHALLENGES
Cláudia Pimentel Martins, Inês Portela
ILUSTRAÇÕES
João Paiva.
FOTOGRAFIA
Joana Oliveira, Pedro Rodrigues Silva, Maria Luísa Melão, Solange Mega, Carlos Martins.
AUDIOVISUAL
Pedro Lopes Silva.
DESIGN
Luis Gonçalves.
PARCERIAS

A decisão que faz a diferença
Há momentos na medicina em que tudo parece reduzir-se a um único verbo: decidir. Decidir quando permanecer. Decidir quando partir. Decidir quando tratar. Decidir quando esperar. Decidir quando confiar na experiência, quando seguir a evidência e quando reconhecer que ambas precisam de caminhar lado a lado.
As vezes decidimos de forma quase instintivas, fruto de anos de experiência. Outras vezes obrigam-nos a parar por breves segundos, pesar riscos, rever mentalmente a evidência e escolher o caminho que acreditamos ser o melhor para aquele doente. Nem sempre dispomos de toda a informação que gostaríamos de ter. Nem sempre existe uma resposta única.
Ao percorrer este novo número da LifeSaving, dei por mim a pensar que, apesar da diversidade dos temas abordados, todos acabam por convergir na mesma pergunta: como podemos decidir melhor?
É uma pergunta que começa muito antes da chegada ao hospital. No trauma, continua a existir um debate entre muitos profissionais: permanecer mais tempo no local para estabilizar a vítima ou privilegiar um transporte rápido para um centro diferenciado? A resposta nunca é tão simples como gostaríamos. Depende do doente, do mecanismo de lesão, da equipa, dos recursos disponíveis e da capacidade de reconhecer aquilo que realmente importa nos primeiros minutos. É neste equilíbrio delicado entre rapidez e precisão que a medicina pré-hospitalar continua a evoluir.
Noutras situações, a resposta pode estar escondida num detalhe aparentemente insignificante. Uma erupção cutânea que desaparece e reaparece, um padrão eletrocardiográfico pouco habitual ou um sinal clínico facilmente desvalorizado podem alterar completamente o raciocínio diagnóstico. A experiência ensina-nos que a medicina continua a premiar quem observa com atenção e mantém a curiosidade clínica intacta.
Também é impossível ignorar o momento que vivemos. Os conflitos armados dos últimos anos, apesar da tragédia humana que representam, voltaram a acelerar a inovação na abordagem ao trauma hemorrágico. A história mostra-nos que muitas das grandes mudanças na medicina nasceram em circunstâncias extremas. O verdadeiro desafio é conseguir transformar essas lições em melhores cuidados para os nossos doentes, nos serviços de urgência onde trabalhamos todos os dias.
Ao mesmo tempo, outra revolução decorre de forma muito mais silenciosa. A inteligência artificial já faz parte da investigação biomédica, da escrita científica e, progressivamente, da prática clínica. Mais do que perguntar se a IA irá substituir os profissionais de saúde, talvez devamos perguntar se conseguiremos utilizá-la para produzir melhor ciência, tomar melhores decisões e aprender de forma mais inteligente. Essa responsabilidade continuará sempre a ser nossa.
Este número termina com uma entrevista que, de certa forma, reúne todas estas ideias. Ouvir alguém que pertence a uma nova geração de médicos dedicados ao pré-hospitalar é recordar que o futuro não depende apenas da tecnologia ou das organizações. Depende sobretudo das pessoas. Da sua preparação, da sua capacidade de liderança, da vontade de aprender continuamente e do compromisso em fazer sempre melhor. É essa também a ambição da LifeSaving. Mais do que publicar artigos, queremos criar um espaço onde a experiência encontra a evidência, onde diferentes áreas da urgência dialogam entre si e onde cada leitor possa encontrar uma ideia, uma reflexão ou uma pergunta que leve consigo para o turno seguinte.
Se, depois de terminar esta edição, algum destes trabalhos o fizer olhar para um problema clínico de uma forma diferente, discutir um caso com a sua equipa ou questionar uma prática que parecia adquirida, então este número terá cumprido a sua missão.
No fim, a medicina nunca será apenas a soma de protocolos, algoritmos ou tecnologias.
Continuará sempre a ser, acima de tudo, a arte de decidir bem quando mais importa.
Carpe diem!

Daniel Núñez Editor Chefe LIFESAVING







ARTIGO DE REVISÃO
STAY AND PLAY OU SCOOP AND RUN: QUAL O MELHOR ÍNDICE
DE GRAVIDADE PARA A DECISÃO PRÉ-HOSPITALAR?
LIFESAVING TRENDS - INOVAÇÕES EM EMERGÊNCIA MÉDICA
INOVAÇÕES NO TRAUMA HEMORRÁGICO
EM CONTEXTO DE GUERRA E A SUA TRANSPOSIÇÃO
PARA A MEDICINA DE EMERGÊNCIA CIVIL
LIFESAVING TRENDS - ESPECIAL
UMA CONVERSA SOBRE O FUTURO DA EMERGÊNCIA MÉDICA
REFLEXÕES BREVES SOBRE A EMERGÊNCIA MÉDICA
DA EVIDÊNCIA AO SISTEMA DE APRENDIZAGEM:
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ESCRITA CIENTÍFICA
VAMOS PÔR O ECG NOS EIXOS
DISSOCIAÇÃO ISORRÍTMICA:
QUANDO O CORAÇÃO TOCA COM 2 MAESTROS.
IMAGEM EM URGÊNCIA E EMERGÊNCIA
QUANDO A PELE SE MANIFESTA:







STAY AND PLAY
OU
SCOOP AND RUN: QUAL O MELHOR
ÍNDICE DE GRAVIDADE PARA A DECISÃO
PRÉ-HOSPITALAR? STAY AND PLAY OR SCOOP AND RUN: WHAT IS THE BEST SEVERITY INDEX FOR THE PRE-HOSPITAL DECISION?
1Enfermeiro Gestor no INEM
2Especialista em Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica
3PhD student
4INEM
5PhD em Enfermagem
6Gabinete de Coordenação Regional do INEM
7Médica Especialista em Medicina Interna
8SIV
9VMER
10SHEM
11CODU
12Formador SAV
RESUMO
Enquadramento: Os índices de gravidade em trauma são amplamente utilizados na emergência pré-hospitalar para estratificação de risco, tomada de decisão clínica e pesquisa científica. Embora eficazes na previsão do outcome clínico, a aplicabilidade desses índices pode variar entre os diferentes sistemas de emergência médica a nível mundial.
Objetivos: O objetivo deste estudo é investigar qual ou quais os índices de trauma com maior predictibilidade de outcome clínico para a emergência pré-hospitalar e, simultaneamente, qual ou quais são os mais utilizados nos principais sistemas de emergência médica.
Metodologia: Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, com análise de 12 artigos que abordam os índices PHI, T-RTS, MGAP, MREMS, KTS e T-NTS.
Resultados: A análise dos artigos evidenciou que todos os índices estudados podem contribuir para
identificar a gravidade do trauma e otimizar as decisões sobre o encaminhamento das vítimas. Cada índice apresenta diferentes níveis de precisão e confiabilidade, com alguns sendo mais aplicáveis em contextos específicos de recursos limitados.
Conclusões: A integração do iTEAMS®, representa um avanço significativo, possibilitando o cálculo automático dos índices T-RTS e MGAP. Esta inovação melhora a precisão do processo de triagem, tornando-o mais ágil e eficiente, o que pode contribuir para melhores outcomes clínicos no atendimento a vítimas de trauma.

ABSTRACT
Background: Trauma severity indices are widely used in prehospital emergency care for risk stratification, clinical decision-making, and scientific research. Although effective
in predicting clinical outcome, the applicability of these indices may vary across different emergency medical systems worldwide.
Objectives: The aim of this study is to investigate which trauma indices are most predictive of clinical outcome in prehospital emergency care and, simultaneously, which are most widely used in the main emergency medical systems.
Methodology: A narrative review of the literature was conducted, with analysis of 12 articles that address the PHI, T-RTS, MGAP, MREMS, KTS, and T-NTS indices.
Results: The analysis of the articles showed that all the indices studied are crucial for identifying trauma severity and optimizing decisions about victim referral. Each index presents different levels of accuracy and reliability, with some being more applicable in specific contexts with limited resources.
Conclusions: The integration of iTEAMS® represents a significant
Palavras-Chave: Escala de gravidade do ferimento; politrauma; mortalidade; emergência pré-hospitalar
Pedro Vasconcelos1 2
4, Ana Sá Fernandes2 4 5, João Lourenço2
10 11, Marta Custódio7 9 12, Bruno Rito2
advance, enabling the automatic calculation of the T-RTS and MGAP indices. This innovation improves the accuracy of the triage process, making it more agile and efficient, which can contribute to better clinical outcomes in the care of trauma victims.
Keywords: Injury severity score; polytrauma; mortality; prehospital emergency care.
INTRODUÇÃO
O trauma constitui um importante problema de saúde pública1,2,3,4,5, sendo uma das principais causas de mortalidade e morbilidade em idade ativa1,2,4,5 e a terceira causa de morte independentemente da idade6. O outcome da vítima depende da severidade das forças envolvidas, da reserva fisiológica e, sobretudo, da capacidade do sistema de trauma para implementar ressuscitação adequada e assegurar transporte célere para o centro de trauma apropriado, sendo estes últimos fatores modificáveis pela qualidade do sistema7
A identificação pré-hospitalar do trauma grave é complexa. O undertriage pode contribuir para morte ou incapacidade evitável, enquanto o overtriage consome recursos técnicos e humanos potencialmente necessários noutras ocorrências8,9,10 São geralmente aceites taxas até 5% de undertriage e 25–35% de overtriage1. Embora o mecanismo de lesão seja historicamente utilizado como critério de suspeição, isoladamente associa-se a elevadas taxas de overtriage; os critérios fisiológicos apresentam melhor capacidade para prever a severidade, sobretudo
quando integrados em índices e não utilizados de forma isolada11 O trauma grave é habitualmente definido por Injury Severity Score (ISS) superior a 15. Contudo, o ISS depende de exames de imagem e achados clínicos, não sendo adequado à decisão pré-hospitalar9. Neste contexto, os índices fisiológicos permitem objetivar a gravidade, apoiar a decisão clínica e reduzir undertriage e overtriage. Devem, porém, ser de simples e rápida avaliação e registo, porque a abordagem pré-hospitalar decorre frequentemente com informação limitada, elevada pressão temporal e necessidade de manter cuidados durante o transporte12
12
A avaliação estruturada da gravidade permite padronizar resultados, apoiar investigação e desenvolver políticas de melhoria dos cuidados 13,14,15 . Índices como MGAP, GAP, RTS e ISS demonstraram capacidade para prever mortalidade em vítimas de trauma múltiplo 16 , podendo os índices pré-hospitalares apoiar a identificação precoce do trauma grave e o encaminhamento direto para o centro de trauma mais adequado 17
A triagem correta reduz atrasos associados ao encaminhamento para unidades menos diferenciadas18,19, problema particularmente relevante em regiões rurais20, e constitui um determinante do outcome clínico21 Nirula et al. identificaram risco de mortalidade 3,8 vezes superior nas vítimas inicialmente transferidas para unidades não especializadas18, enquanto Meisler et al. demonstraram atrasos relevantes associados ao transporte secundário22
Em Portugal, a resposta pré-hospitalar integra três níveis de diferenciação, desde os meios de suporte básico de vida, passando pelas ambulâncias de Suporte Imediato de Vida, e culminando nos meios de suporte avançado de vida, as Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação e Serviço de Helitransporte de Emergência Médica. Neste modelo, índices de gravidade simples e rápidos podem apoiar a priorização, o reforço de meios e o encaminhamento para unidades com recursos adequados6,23,24,25,26,27,28
A avaliação e o registo em tempo real de índices de gravidade podem ainda apoiar o médico regulador do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) na decisão sobre o reforço de meios e na ativação da Via Verde de Trauma. Este artigo apresenta uma revisão narrativa destinada a comparar a efetividade dos índices atualmente integrados no INEM Tool for Emergency Alert Medical System® (iTEAMS®) com outros índices, de aplicação simples no contexto pré-hospitalar, procurando identificar aqueles com maior capacidade preditiva e potencial utilidade na decisão sobre transporte para centro de trauma.
METODOLOGIA
Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, baseada em pesquisa estruturada em bases de dados. A questão foi estruturada segundo a metodologia PICO: P – vítimas de trauma em contexto pré-hospitalar; I – utilização de índices de gravidade para apoio à decisão; C – comparação entre diferentes índices; O – pre-

cisão na previsão do outcome clínico, incluindo mortalidade, morbilidade e sobrevivência. O objetivo geral foi analisar os índices de trauma com maior capacidade preditiva de outcomes clínicos no pré-hospitalar. Como objetivos específicos procurou-se identificar os índices mais utilizados nos sistemas de emergência médica e analisar os fatores que condicionam a sua escolha e aplicabilidade. A pesquisa foi realizada nas bases PubMed e Scopus, abrangendo o período temporal entre janeiro e fevereiro de 2025, utilizando as palavras-chave e combinações
Prehospital Index, Trauma, Injury

Severity Score, Major trauma e Mortality, recorrendo aos operadores booleanos AND e OR. Foram incluídos artigos originais publicados em inglês, relacionados com a criação, desenvolvimento ou validação dos índices PHI, T-RTS, MGAP, MREMS, KTS e T-NTS. Foram excluídos estudos secundários, revisões sistemáticas, meta-análises, artigos que não abordassem os índices de gravidade. Após triagem por título e resumo e leitura integral dos textos elegíveis, foram incluídos 12 artigos. Extraíram-se os índices avaliados, amostra e principais resultados relativos à mortalidade e capacidade preditiva (Tabela 1).
RESULTADOS
Foram analisados seis índices de gravidade com aplicabilidade potencial no contexto pré-hospitalar: PHI, T-RTS, MGAP, MREMS, KTS e T-NTS. As suas principais características encontram-se resumidas na Tabela 2.
PHI – PreHospital Index
Criado em 1986, o PHI é um índice fisiológico que integra pressão arterial sistólica (PAS), frequência cardíaca, frequência respiratória e estado neurológico, classificado em três níveis clínicos. Varia entre 0 e 20: valores de 0–3 correspondem a baixo risco, enquanto valores de
Tabela 1. Resumo das escalas de gravidade em trauma

4–20 identificam maior risco, associado no estudo original a mortalidade de 27% e necessidade de cirurgia urgente de 40,5%29
A simplicidade do PHI é uma das razões para a sua persistência histórica: utiliza variáveis disponíveis na avaliação inicial e não exige exames complementares. A principal limitação é a categorização relativamente ampla do risco, que pode favorecer referenciação excessiva.
T-RTS – Triage-Revised Trauma Score
O RTS, desenvolvido em 1989, deriva do Trauma Score e tornou-se um dos índices mais citados, sendo posteriormente incorporado no TRISS30,31,32
O T-RTS utiliza as mesmas variáveis fisiológicas — frequência respiratória, PAS e Glasgow Coma Scale (GCS) — mas simplifica a codificação, facilitando a aplicação pré-hospitalar e na sala de emergência4,17
A utilização seriada é uma vantagem relevante do T-RTS, uma vez que
permite reconhecer a deterioração fisiológica durante o transporte e não apenas classificar o doente num único momento.
MGAP – Mechanism, Glasgow Coma Scale, Age and Arterial Pressure
O MGAP foi desenvolvido especificamente para o pré-hospitalar e combina GCS, PAS, idade e mecanismo de lesão, constituindo um índice misto33. Varia entre 6 e 29 e estratifica a vítima em categorias de risco, tendo sido amplamente validado em sistemas europeus17
A inclusão do mecanismo torna-o diferente dos índices exclusivamente fisiológicos e pode aumentar a capacidade discriminativa em alguns contextos.
MREMS – Modified Rapid Emergency Medicine Score
O MREMS resulta da adaptação do REMS, inicialmente desenvolvido para situações médicas e posterior-
mente aplicado ao trauma34. Integra idade, PAS, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigénio e GCS. A substituição da pressão arterial média pela PAS e o ajuste da codificação tornaram-no mais adequado ao contexto pré-hospitalar17
A inclusão de maior número de variáveis fisiológicas pode aumentar a capacidade preditiva, embora torne o cálculo manual mais exigente. Esta limitação reduz-se quando os dados são recolhidos e processados automaticamente em plataformas digitais.
KTS – Kampala Trauma Score
O KTS foi desenvolvido no Uganda para avaliação de trauma em contextos com recursos limitados35 Combina variáveis fisiológicas, idade e critérios anatómicos, procurando manter simplicidade e aplicabilidade em ambientes com menor disponibilidade tecnológica.
Tabela 2. Resumo dos índices de gravidade de trauma

A sua construção procurou responder à necessidade de instrumentos robustos em sistemas onde exames, monitorização avançada e recursos hospitalares diferenciados podem ser escassos.
T-NTS – New Trauma Score
O NTS foi desenvolvido em 2017 a partir do T-RTS, substituindo a frequência respiratória pela saturação periférica de oxigénio, dada a reconhecida imprecisão da medição da frequência respiratória em contexto de urgência 32 . Varia entre 3 e 23, estratificando o risco em quatro níveis; valores inferiores a 18 foram propostos como critério para encaminhamento para centro de trauma.
A substituição da frequência respiratória pela SpO2 pretende reduzir a variabilidade interobservador e tornar o índice mais reprodutível, embora a oximetria também possa ser afetada por hipoperfusão, movimento e condições ambientais.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O PHI apresenta como principais vantagens a simplicidade, objetividade e capacidade de refletir dinamicamente o estado fisiológico da vítima. Estudos demonstraram validade preditiva para identificar trauma grave e necessidade de intervenção precoce3,29,36. Esta característica é relevante porque o valor de um índice pré-hospitalar não reside apenas em prever mortalidade, mas em produzir informação suficientemente simples para integrar a decisão clínica em poucos minutos. Contudo, apesar da elevada sensibilidade, pode associar-se a sobretria-
gem, limitando a eficiência como critério isolado de referenciação para centros de trauma37
O T-RTS mantém ampla utilização pela facilidade de aplicação e pelo recurso exclusivo a variáveis fisiológicas. A deterioração do T-RTS entre a primeira avaliação e a chegada ao hospital associa-se de forma independente a maior mortalidade, justificando avaliação precoce e reavaliação durante o transporte38. A possibilidade de acompanhar a tendência do score acrescenta valor em transportes prolongados. Por outro lado, a dependência da frequência respiratória, frequentemente estimada de forma imprecisa, constitui uma fragilidade que motivou o desenvolvimento de índices alternativos como o NTS32 Alguns estudos apontam ainda sensibilidade limitada do T-RTS em determinados sistemas49
O MGAP foi concebido para avaliação pré-hospitalar e demonstrou boa capacidade para prever mortalidade em diferentes sistemas6,17,33. Estudos comparativos com GAP e RTS mostram desempenho semelhante ou superior, com vantagem frequente na sensibilidade para mortalidade precoce24,25,28,39. Comparações que incluíram ISS reforçam a sua capacidade discriminativa16,40 Sartorius et al. demonstraram melhor discriminação relativamente ao T-RTS4, achado reproduzido em outras populações31. A utilização de apenas quatro componentes favorece a aplicação no terreno. Como limitações, o mecanismo é reduzido à distinção entre trauma penetrante e fechado, não integra comorbilidades ou anticoagulação e a aplicação
pediátrica permanece restrita. Alguns autores defendem o GAP pela utilização de menos variáveis e maior rapidez de cálculo24,40,41
O MREMS demonstrou elevada capacidade preditiva de mortalidade hospitalar17,34,42, confirmada em estudos posteriores19,21,43. Mantém objetividade e pode ser utilizado no hospital e no pré-hospitalar. A grande amostra de validação de Miller et al. reforça a robustez estatística do modelo17. Em várias comparações apresentou desempenho superior ao RTS, embora inferior a índices hospitalares como TRISS, ISS ou NISS, que dependem de informação indisponível no terreno19,43. Quando comparado com MGAP, nem sempre foram identificadas diferenças estatisticamente significativas21. A maior quantidade de variáveis pode dificultar o cálculo manual, desvantagem que perde importância quando o processamento é automático.
O KTS foi desenvolvido para contextos de recursos limitados e conserva particular relevância nesses ambientes14,35,44. Permite avaliação precoce, previsão de sobrevivência e estimativa de utilização de recursos13,44. A sua revisão histórica confirma uma utilização prolongada e reforça a importância de adequar o instrumento ao sistema onde é aplicado14 Contudo, apresenta sensibilidade e especificidade inferiores a alguns índices alternativos e possibilidade de classificação incorreta de vítimas de maior risco45. Comparações mostram menor precisão do que RTS em alguns estudos44, menor sensibilidade que NTS46 e desempenho próximo do ISS13. A principal vantagem continua a ser a menor depen-

dência de tecnologia em contextos com recursos escassos47
O T-NTS procura reduzir o viés associado à frequência respiratória substituindo-a pela oximetria de pulso32. Esta opção melhora a objetividade, mas depende da disponibilidade e fiabilidade do oxímetro; choque, hipotermia, movimento ou hipoperfusão podem comprometer a leitura, e a necessidade de equipamento limita a utilização em ambientes de poucos recursos46,47. Estudos recentes demonstram boa capacidade preditiva para
mortalidade e prioridade de atendimento, com desempenho igual ou superior ao GAP e T-RTS em algumas populações23,27,48 Khajoei et al. identificaram maior capacidade preditiva relativamente ao GAP 27,; Amini et al. demonstraram bom desempenho de NTS, RTS e GAP, com NTS e RTS a destacarem-se na previsão de sobrevivência48. Ali et al. corroboraram a precisão de NTS e RTS23, enquanto Kenarangi et al. reforçaram a equivalência do NTS face a outros índices15
A comparação global evidencia que
nenhum índice reúne simultaneamente máxima sensibilidade, especificidade, simplicidade e aplicabilidade universal. A escolha do “melhor” score depende também do outcome: um índice pode prever bem mortalidade e ser menos eficaz na identificação de lesão anatómica grave ou necessidade de intervenção. Sewalt et al., numa amostra superior a 150 mil vítimas, identificaram o MREMS como o melhor modelo para previsão de mortalidade, enquanto o KTS apresentou melhor desempenho na distinção entre

trauma grave e ligeiro 9 . A Tabela 1 demonstra esta heterogeneidade, embora vários estudos apresentem resultados favoráveis ao MGAP, MREMS e NTS 2,7,31
Para a realidade portuguesa, a integração digital assume particular relevância. O iTEAMS® permite registar variáveis fisiológicas em tempo real e calcular automaticamente os índices de gravidade, reduzindo a carga cognitiva e disponibilizando os scores para apoio à decisão no terreno e no CODU. A automatização é especialmente útil no pré-hospitalar, onde qualquer ferramenta adicional deve acrescentar informação sem atrasar o transporte ou aumentar de forma significativa a carga documental. A utilização complementar de dois índices pode atenuar limitações individuais e apoiar decisões sobre reforço de meios, ativação da Via Verde de Trauma e transporte direto para centro de trauma.
A utilidade de um índice não deve ser avaliada apenas pela capacidade estatística de prever mortalidade. Importa considerar rapidez de cálculo, necessidade de equipamento, reprodutibilidade, aplicabilidade a diferentes idades e mecanismos, capacidade para apoiar decisões de destino e impacto nas taxas de undertriage e overtriage. Os scores podem também favorecer uniformidade entre equipas com diferentes níveis de experiência, criando uma linguagem objetiva para justificar encaminhamento ou reforço de meios. Contudo, a interpretação deve permanecer contextualizada: um score baixo não exclui lesão anatómica ou mecanismo que justifique
elevada suspeição. Do ponto de vista organizacional, a recolha estruturada dos scores permite relacionar avaliação, decisão e outcome. Torna possível analisar retrospetivamente se vítimas classificadas como baixo risco tiveram evolução desfavorável, se existiu overtriage evitável ou se determinados limiares melhoram a identificação de trauma grave. Estes dados podem sustentar auditoria, formação, revisão de protocolos e melhoria contínua da rede de trauma.
A evidência disponível sustenta, assim, a utilização de índices fisiológicos ou mistos como complemento — e não substituto — do julgamento clínico. A sua maior utilidade parece residir na objetivação da gravidade, identificação precoce de deterioração e uniformização da comunicação entre equipas, regulação médica e centros de trauma. Estudos futuros deverão avaliar prospectivamente o impacto do cálculo automático destes índices no iTEAMS®, bem como comparar os índices de gravidade inseridos no registo clínico informatizado com ferramentas como MREMS e NTS na população portuguesa.
A análise dos estudos comparativos sugere ainda que a simplicidade operacional deve ser valorizada tanto quanto a capacidade preditiva. Em ambiente pré-hospitalar, um score que exija cálculos complexos ou variáveis de difícil obtenção pode ter excelente desempenho estatístico e, ainda assim, pouca utilidade real. A digitalização modifica este equilíbrio: quando as variáveis já são recolhidas no processo clínico e o cálculo é
automático, torna-se possível utilizar modelos mais completos sem aumentar o tempo de permanência no local. Esta possibilidade favorece índices como o MREMS e permite comparar em tempo real diferentes scores utilizando os mesmos dados clínicos.
Outro aspeto relevante é a reavaliação. A vítima de trauma apresenta uma fisiologia dinâmica, podendo deteriorar-se apesar de uma avaliação inicial pouco expressiva. A evidência relativa à variação do T-RTS demonstra que a alteração do score entre a primeira observação e a chegada ao hospital acrescenta informação prognóstica38. A integração digital pode, por isso, permitir não apenas um valor isolado, mas a visualização da tendência do índice ao longo da assistência, criando alertas para deterioração e apoiando decisões de escalada de cuidados ou alteração do destino inicialmente previsto.
A decisão sobre o destino hospitalar é provavelmente uma das áreas onde estes instrumentos podem produzir maior impacto. Os estudos de Nirula et al. e Meisler et al. demonstram as consequências do encaminhamento inicial para unidades sem diferenciação adequada, com aumento do risco ou atraso associado à transferência secundária18,22. Um score pré-hospitalar não substitui os restantes critérios de triagem, mas pode acrescentar objetividade à decisão de transportar diretamente para um centro de trauma, sobretudo quando integrado com critérios anatómicos, mecanismo de lesão e julgamento clínico da equipa.
Esta revisão apresenta limitações inerentes à metodologia narrativa e à

heterogeneidade dos estudos incluídos. As populações, sistemas de emergência, outcomes e limiares utilizados não são uniformes, dificultando a comparação direta entre índices. Além disso, alguns instrumentos foram desenvolvidos para contextos específicos, nomeadamente sistemas com recursos limitados, enquanto outros foram validados em redes de trauma altamente diferenciadas. Assim, a capacidade preditiva descrita na literatura não deve ser transposta automaticamente para a realidade portuguesa sem validação local e avaliação do efeito sobre decisões clínicas, utilização de recursos e resultados das vítimas.
CONCLUSÕES
A seleção de uma revisão narrativa da literatura possibilitou reunir, interpretar e fornecer uma visão abrangente e crítica de estudos originais, permitindo uma visão abrangente histórica dos diferentes índices de gravidade, ao mesmo tempo que permitiu não seguir uma metodologia PRISMA.
Os índices de gravidade analisados apresentam vantagens e limitações distintas, mas todos podem contribuir para identificar precocemente trauma grave e apoiar o encaminhamento adequado. O PHI destaca-se pela simplicidade, embora possa associar-se a sobretriagem; o T-RTS é amplamente utilizado e sensível à deterioração fisiológica; o MGAP apresenta boa capacidade preditiva e aplicação pré-hospitalar simples; o MREMS evidencia elevada capacidade preditiva; o KTS mantém particu-
lar utilidade em contextos de recursos limitados; e o NTS apresenta resultados promissores na previsão de mortalidade e prioridade de atendimento.
A heterogeneidade entre estudos, populações e outcomes impede afirmar a superioridade universal de um único instrumento. A escolha deve considerar não apenas métricas de discriminação, mas também facilidade de utilização, qualidade das variáveis disponíveis e impacto real na decisão de destino e mobilização de recursos.
Na realidade do INEM, a integração de dois desses índices de gravidade no iTEAMS® constitui uma oportunidade para automatizar o cálculo, melhorar a comunicação com o CODU e apoiar a ativação precoce da Via Verde de Trauma. A utilização digital permite ainda auditoria sistemática e produção de dados sobre qualidade da triagem e outcomes.
Nenhum índice deve substituir a avaliação clínica, e a sua utilidade deve ser confirmada no sistema onde é aplicado. São necessários estudos prospetivos que avaliem o impacto desta integração na prática clínica portuguesa e comparem o desempenho das ferramentas atualmente disponíveis com outros modelos, nomeadamente MREMS e NTS

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COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
GUILHERME HENRIQUES Médico VMER/CODU e Heli INEM
EDITOR

LIFESAVING TRENDS - INOVAÇÕES EM EMERGÊNCIA MÉDICA
INOVAÇÕES NO TRAUMA HEMORRÁGICO
EM CONTEXTO DE GUERRA E A SUA TRANSPOSIÇÃO PARA
Michael Isidro1
A MEDICINA DE EMERGÊNCIA CIVIL
1Médico Interno de formação Específica em Medicina Intensiva – ULS Algarve
RESUMO
A hemorragia continua a ser a principal causa de morte evitável em contexto de conflito armado. Os conflitos recentes, nomeadamente na Ucrânia e no Médio Oriente, têm impulsionado avanços significativos na ressuscitação hemorrágica pré-hospitalar, na cirurgia de controlo de danos e na utilização de dispositivos endovasculares como o REBOA (Resuscitative Endovascular Balloon Occlusion of the Aorta). Esta revisão narrativa sintetiza a evidência mais recente sobre estas inovações, discutindo o seu potencial de transposição para a medicina de emergência civil, sobretudo em contextos de recursos limitados.
Palavras-Chave: trauma de guerra; hemorragia; ressuscitação de controlo de danos; REBOA; sangue total; plasma liofilizado.
INTRODUÇÃO
Nos conflitos armados contemporâneos, marcados por guerra híbrida, cadeias de evacuação fragmentadas e atrasos frequentes no acesso a cuidados cirúrgicos definitivos, a hemorragia mantém-se como a principal causa de mortalidade evitável1. A experiência acumulada no teatro de operações da Ucrânia, em particular, expôs a complexidade
crescente das lesões de guerra e a necessidade de adaptar continuamente os protocolos de ressuscitação hemorrágica1. Paralelamente, a experiência militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e mais recentemente no Médio Oriente, tem gerado um corpo de conhecimento relevante sobre transfusão pré-hospitalar e ressuscitação hemostática6,7. O objetivo desta revisão é sistematizar as principais inovações reportadas na literatura recente relativas ao trauma hemorrágico de guerra e discutir a sua aplicabilidade à prática civil.
Damage Control Resuscitation
A Damage Control Resuscitation (DCR) constitui atualmente o paradigma central da abordagem ao doente traumatizado grave em contexto de combate. O conceito assenta em três pilares: controlo rápido da fonte hemorrágica, transfusão precoce de produtos sanguíneos e estabilização fisiológica do doente, com a coagulopatia traumática aguda a ser identificada como o principal determinante da mortalidade e, consequentemente, o alvo terapêutico central desta estratégia3
A implementação da DCR no campo de batalha exige adaptação a
cenários com recursos limitados, evacuação prolongada e acesso tardio a cuidados definitivos, fatores que distinguem significativamente o ambiente militar do civil3
Uma revisão sobre a gestão inicial da hemorragia sublinha a importância de prioridades táticas, desde o controlo da hemorragia externa com torniquetes e pensos hemostáticos até à administração de produtos injetáveis hemostáticos, como componentes essenciais da resposta imediata em combate1. Estas abordagens têm vindo a incorporar progressivamente produtos sanguíneos mais avançados, nomeadamente sangue total leucodepletado e plasma liofilizado, que permitem iniciar a ressuscitação hemostática mais precocemente e mais próximo do ponto de lesão1

Avanços Pré-Hospitalares
O cuidado pré-hospitalar e o cuidado prestado durante a evacuação médica, têm sido objeto de particular atenção na literatura militar recente. Entre os avanços destacados encontram-se a utilização generalizada de torniquetes, o recurso ao REBOA, a transfusão de sangue total e a administração de plasma liofiliza-
do como forma de ressuscitação hemostática precoce2. Adicionalmente, identificam-se diversas áreas de investigação futura com potencial relevância para operações de combate de larga escala, incluindo o desenvolvimento de fármacos anti-choque, a aplicação de ECMO (oxigenação por membrana extracorporal) em trauma grave, novos agentes antimicrobianos, tecnologias de energia dirigida, telemedicina e sistemas autónomos de evacuação e monitorização2
Esta evolução reflete uma tendência mais ampla de aproximar as capacidades cirúrgicas e transfusionais avançadas do ponto de lesão, reduzindo o intervalo temporal entre o trauma e a intervenção hemostática definitiva, um fator reconhecidamente determinante para a sobrevivência do doente hemorrágico grave.
REBOA
O REBOA tem-se consolidado como um adjuvante minimamente invasivo relevante no controlo da hemorragia não compressível do tronco. Uma revisão conduzida por uma equipa de peritos da NATO analisou a utilização do REBOA em vítimas de combate, com particular incidência no seu uso pelas Forças Especiais dos EUA e pelas tropas Ucranianas, propondo recomendações destinadas a padronizar a sua utilização entre as Forças Aliadas4. Este trabalho salienta a rápida evolução tecnológica dos dispositivos e o desenvolvimento contínuo de boas práticas clínicas, bem como a implementação crescente do REBOA em zonas de
conflito ativo4
No plano da evidência clínica, uma revisão sistemática que incluiu 2.705 doentes comparou a associação entre cirurgia de controlo de danos e REBOA com a cirurgia de controlo de danos isolada em contexto de trauma torácico penetrante5. Os resultados sugerem, em vários estudos incluídos, uma melhoria da sobrevivência e um controlo mais rápido da hemorragia com a utilização combinada, ao passo que outros estudos apontam para taxas de controlo hemorrágico superiores face à toracotomia de ressuscitação5. No conjunto, esta evidência posiciona o REBOA como uma alternativa minimamente invasiva promissora perante hemorragia não compressível do tronco, particularmente em cenários onde a toracotomia imediata não é exequível.
24
Sangue Total e Ressuscitação
Hemostática
A adoção de transfusão pré-hospitalar constitui outro eixo central da inovação militar recente. Refere-se que muito poucas unidades civis de emergência médica dispõem atualmente de capacidade para realizar transfusão pré-hospitalar ou procedimentos avançados de controlo de hemorragia, ao contrário do que se verifica em operações militares recentes, onde o exército dos EUA implementou transfusões pré-hospitalares apoiadas por equipas cirúrgicas avançadas posicionadas o mais próximo possível do ponto de lesão6. Este modelo é apontado como potencialmente transponível para a emergência médica civil6
O ressurgimento do uso de sangue total no trauma, impulsionado pela experiência militar no Iraque e no Afeganistão, está atualmente a ser progressivamente adotado em centros civis7. Uma meta-análise recente confirma que o sangue total de grupo O com título baixo de anticorpos melhora a sobrevivência às 24 horas e reduz a mortalidade tardia7. É ainda explorado o papel emergente de drones na distribuição de sangue, com exemplos de implementação no Ruanda e no Gana, como modelo logístico escalável para contextos com recursos limitados, incluindo cenários de catástrofe civil7
A Associação Nacional de Médicos de Serviços de Emergência Médica dos EUA (NAEMSP) publicou uma declaração de posição sobre a transfusão pré-hospitalar de produtos sanguíneos no trauma hemorrágico, que reforça a legitimidade científica da transposição destas práticas para o contexto civil, nomeadamente em sistemas de emergência médica com capacidade logística adequada8
Plasma Liofilizado e Novos Produtos Hemostáticos O plasma liofilizado representa uma alternativa logisticamente vantajosa ao plasma fresco congelado em cenários onde a cadeia de frio não pode ser garantida, como é frequentemente o caso em ambiente de combate. Um estudo experimental em modelo suíno avaliou três formulações distintas de plasma liofilizado — plasma liofilizado padrão (LP), e duas formulações modificadas

(CLP e PCLP)9. Os resultados demonstraram que as formulações CLP e PCLP melhoraram significativamente a pressão sistólica, o débito cardíaco e os marcadores tromboelastométricos de coagulação (ROTEM), quando comparadas ao plasma liofilizado padrão, no contexto de trauma associado a choque hemorrágico9. Estes achados sugerem um potencial terapêutico promissor destes novos produtos em cenários com disponibilidade limitada de sangue total, reforçando a sua relevância tanto para o ambiente militar como para sistemas civis de saúde com recursos escassos.

Transposição para a Emergência Civil e Ambientes de Recursos Limitados Um dos aspetos mais relevantes da
literatura recente é a análise sistemática das inovações desenvolvidas em conflitos armados entre 2014 e 2025 com potencial de transposição para unidades de cuidados intensivos em ambientes de recursos limitados10
Entre as inovações identificadas como transponíveis incluem-se a analgesia regional guiada por ecografia, a utilização do REBOA, plataformas portáteis de transfusão sanguínea e sistemas de monitorização de traumatismo crânio-encefálico assistidos por inteligência artificial10. Esta revisão sublinha que muitas das soluções desenvolvidas sob pressão operacional militar — caracterizadas pela necessidade de simplicidade, portabilidade e eficácia em contextos de recursos escassos — apresentam elevada aplicabilidade a sistemas de saúde civis com
limitações estruturais semelhantes, incluindo contextos de catástrofe, zonas rurais isoladas ou países de baixo e médio rendimento.
DISCUSSÃO
O conjunto da evidência analisada evidencia uma convergência progressiva entre a medicina de trauma militar e civil, particularmente no que respeita à ressuscitação hemostática precoce, à utilização de sangue total e à adoção de dispositivos endovasculares como o REBOA. Esta convergência é impulsionada, por um lado, pela necessidade militar de aproximar capacidades cirúrgicas avançadas do ponto de lesão em cenários de evacuação prolongada, e, por outro, pela crescente consciência de que muitos sistemas de emergência

civis, sobretudo em áreas rurais ou de recursos limitados, enfrentam desafios logísticos semelhantes aos do ambiente de combate.
Não obstante, a transposição direta destas inovações para a prática civil não é isenta de limitações. A escala, a regulação gonervamental, os custos de implementação e as diferenças no perfil epidemiológico das vítimas (por exemplo, predomínio de trauma penetrante em combate versus trauma contuso na maioria dos sistemas civis) constituem barreiras que devem ser consideradas na adaptação destes protocolos. Ainda assim, iniciativas como a distribuição de sangue por drones ou a normalização da transfusão pré-hospitalar ilustram exemplos concretos e já em curso desta transferência de conhecimento.
CONCLUSÃO
A literatura recente aponta que a hemorragia continua a ser a principal causa de mortalidade evitável em contexto de guerra, mas evidencia também um período de inovação acelerada na resposta a este desafio. A crescente evidência sobre a eficácia destas intervenções, associada ao reconhecimento explícito do seu potencial de aplicação em ambientes civis de recursos limitados, reforça a importância de continuar a promover a partilha de conhecimento entre a medicina militar e civil, com benefício potencial direto para a sobrevivência de vítimas de trauma hemorrágico grave em ambos os contextos

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COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
ANA CATARINA SEGUNDO Serviço de Anestesiologia - ULS Algarve
EDITORA

UMA CONVERSA SOBRE O FUTURO DA EMERGÊNCIA MÉDICA

“PORQUE A TECNOLOGIA
VAI FALHAR...
E, quando isso acontecer, serão a experiência, o raciocínio clínico e a capacidade de decidir sob pressão que continuarão a fazer a diferença.”
ENTREVISTA A
ALEXANDRE CALDEIRA
Um jovem e com uma carreira inteira pela frente no pré-hospitalar. Representa uma geração que tem espírito de missão e a ambição de tornar o pré-hospitalar um serviço de excelência.
Para começar de forma leve: há quanto tempo estás no cargo de coordenação da VMER da ULS Santa Maria, como tem sido essa experiência?
Sou operacional da VMER há nove anos e coordeno a equipa há 3 anos. Tem sido uma experiência bastante exigente, mas extremamente enriquecedora. Acho que a parte mais difícil da coordenação é conseguir acompanhar o nível de uma equipa tao competente como a minha. Continuo a gostar de estar no terreno, mas a coordenação obrigou-me a mudar de perspetiva. Passei de me preocupar apenas com o doente que tenho à minha frente para pensar como criar as melhores condições para que toda a equipa possa prestar os melhores cuidados possíveis. Isso significa olhar para a organização, investir na formação contínua, desenvolver protocolos e procurar melhorar continuamente a qualidade dos cuidados e a resposta do sistema. No fim do dia, o mais gratificante é ver uma equipa motivada, competente e comprometida com a missão de prestar os melhores cuidados possíveis aos doentes, muitas vezes nos momentos mais críticos das suas vidas.
Se tivesses de resumir em uma frase como imaginas a Emergência Médica em 2036, o que dirias? Imagino uma emergência médica mais integrada, onde a tecnologia acelera a tomada da decisão, mas onde a experiência clínica da equipa continua a fazer a diferença.
Vamos falar de tecnologia. Achas que a Inteligência Artificial vai mesmo mudar o trabalho no terreno, ou isso é mais conversa do que realidade prática?
Acredito que a Inteligência Artificial vai transformar profundamente a emergência médica. Não como um substituto dos profissionais, mas como uma poderosa ferramenta de apoio à decisão.
A Inteligência Artificial não veio substituir os profissionais de saúde. Veio substituir alguma da incerteza. Na emergência médica, trabalhamos frequentemente com informação incompleta, sob enorme pressão temporal e com consequências imediatas. Qualquer tecnologia que consiga identificar precocemente situações críticas, reconhecer padrões que nos podem escapar, apoiar a regulação médica, otimizar a distribuição de meios ou reduzir a carga administrativa terá um impacto significativo.
Alexandre Caldeira1
1Médico Anestesiologista e Coordenador da VMER da ULS Santa Maria.
Mas há um equívoco que devemos evitar: a Inteligência artificial dá-nos respostas, mas continua a ser o profissional quem decide quais são as perguntas certas, tendo em conta a sua experiência clínica e leitura do cenário, assumindo a responsabilidade pela decisão clínica.
Acredito que, no futuro, o maior erro já não será utilizar Inteligência artificial. Será não saber utilizá-la.
Drones a entregar desfibrilhadores, telemedicina em direto durante o transporte, triagem assistida por algoritmos... o que destas ideias achas que vai mesmo acontecer nos próximos 10 anos?
Penso que todas essas tecnologias vão ganhar espaço, embora em ritmos diferentes. A telemedicina durante o transporte parece-me uma evolução quase inevitável, permitindo a partilha contínua de sinais vitais, imagens e outros dados clínicos com o hospital, facilitando decisões conjuntas e preparação da equipa de destino antes da chegada do doente. Também acredito que a triagem assistida por algoritmos terá um papel crescente, sobretudo no apoio à decisão em momentos de maior pressão sobre o sistema.
Quanto aos drones, acredito que terão um papel importante em contextos específicos, como locais de difícil acesso ou na entrega rápida de desfibrilhadores e outros equipamentos críticos. Não substituirão os meios tradicionais, mas poderão reduzir tempos de resposta em situações muito concretas.
Ainda assim, acredito que a verdadeira revolução será menos visível. Não serão os drones nem os algoritmos,
mas a integração e analise da informação. O profissional que recebe o doente no Serviço de Urgência deverá conhecer, antes da sua chegada, os sinais vitais, exames realizados no terreno, a terapêutica já administradas e até a evolução clínica durante o transporte. Quando isso acontecer, o pré-hospitalar deixará de ser visto como uma etapa isolada e passará a ser, verdadeiramente, o primeiro capítulo do tratamento hospitalar.
E o fator humano? Com tanta tecnologia a entrar, corremos o risco de perder alguma coisa essencial no contacto com o doente?
Esse é um risco que devemos reconhecer. A tecnologia pode aproximar-nos da melhor decisão clínica, mas nunca deve afastar-nos do doente que está à nossa frente. Na emergência médica entramos na casa dos doentes e acompanhamo-los em alguns dos momentos mais difíceis das suas vidas. Muitas vezes, aquilo de que se recordam não é da tecnologia utilizada, mas da forma como foram tratados, da empatia demonstrada e da confiança transmitida.
O desafio será precisamente esse: usar a tecnologia para cuidar melhor e não para transformar o contacto humano numa interação mecânica e distante. Um algoritmo nunca vai pegar na mão de uma família depois de uma paragem cardiorrespiratória. Nunca vai perceber que um doente tem medo antes mesmo de falar. Nunca vai inspirar confiança apenas pela presença. A tecnologia deve libertar-nos das tarefas repetitivas para que possamos dedi -
car mais tempo naquilo que nenhuma máquina consegue fazer: comunicar, confortar, decidir e cuidar. Na emergência médica, a competência salva vidas. Mas a humanidade também.
Como imaginas os profissionais do pré-hospitalar daqui a uma década? Vamos precisar de perfis diferentes dos de hoje?
As competências clínicas e a formação contínua continuarão a ser a base da emergência médica. No entanto, os profissionais terão de estar cada vez mais preparados para integrar tecnologia na prática clínica, interpretar informação em tempo real, utilizar sistemas de apoio à decisão.
Ao mesmo tempo, acredito que as competências não-técnicas – como a liderança, a comunicação, o trabalho em equipa, a gestão de crise e a capacidade de adaptação - serão ainda mais valorizadas. O profissional do futuro terá de trabalhar lado a lado com sistemas inteligentes, sem nunca deixar de assumir a responsabilidade pela decisão clínica.
Porque a tecnologia vai falhar. E, quando isso acontecer, será a experiência, o raciocínio clínico e a capacidade de decidir sob pressão que continuarão a fazer a diferença.
Achas que a formação atual prepara bem quem está a entrar agora nesta área, ou há ali um fosso entre o que se ensina e o que se vive no terreno?
Temos hoje uma formação de elevada qualidade, quer durante o internato médico, quer através de uma oferta cada vez maior de cursos certificados internacionalmente.
Ainda assim, existirá sempre uma

diferença entre o contexto formativo e a realidade operacional. Nenhum curso consegue ensinar aquilo que se sente quando entramos numa casa onde acabou de acontecer uma tragédia ou quando lideramos uma equipa de vários elementos perante um doente crítico. O cenário da “rua” é imprevisível, obriga a tomar decisões sob pressão, em ambientes por vezes adversos e com informação incompleta. Ainda me recordo de uma frase que a minha coordenadora me disse quando iniciei atividade na VMER, “O mais difícil na rua é a gestão do cenário”. Ao longo dos anos percebi o que quão verdadeira essa afirmação é. Por isso, mais do que investir apenas na formação inicial, penso que é fundamental apostar na simulação clínica, no treino em equipa, na discussão estruturada dos casos mais complexos e aprendizagem com elementos mais experientes da equipa. Na aviação ninguém deixa de treinar porque já sabe voar. Na emergência médica deveria ser exatamente igual: a competência constrói-se ao longo de toda uma carreira.
Se pudesses mudar uma coisa amanhã de manhã no sistema de Emergência Médica, sem restrições de orçamento ou burocracia, o que mudavas?
Mudaria a integração da informação entre o pré-hospitalar e o hospital. Ainda temos sistemas que comunicam pouco entre si, informação que não acompanha o doente ao longo do seu percurso e equipas altamente competentes que, muitas vezes, continuam a trabalhar em silos. É curioso que hoje consigamos acompanhar, em tempo real, onde está o estafeta que nos traz o jantar e saber exatamente a que horas vai chegar, mas continuemos sem conseguir acompanhar, com o mesmo nível de detalhe, o percurso de um doente critico até ao hospital. Na saúde, isto faz toda a diferença. Todas as equipas deveriam ter acesso, de forma segura e em tempo real, aos dados clínicos relevantes do doente e toda a informação recolhida no terreno deveria estar imediatamente disponível para a equipa hospitalar. Essa continuidade não só melhoraria a tomada de

decisão e evitaria duplicação de procedimentos, como também permitiria analisar resultados, identificar oportunidades de melhoria e tornar o sistema mais eficiente. Se conseguirmos ligar verdadeiramente todo o percurso do doentedo CODU ao pré-hospitalar, dos cuidados de saúde primários ao hospital – estaremos a ganhar aquilo que mais importa na emergência médica: Tempo! E, na nossa área, tempo não é dinheiro; é cérebro; é miocárdio, é vida!
Achas que o público em geral vai passar a ter um papel mais ativo na emergência médica — por exemplo, com mais formação em suporte básico de vida, apps de alerta, comunidades preparadas? Espero sinceramente que sim, porque o primeiro elo da cadeia de sobrevivência não é o profissional de saúde, mas sim o cidadão que está ao lado da vítima. Quanto maior for a literacia em saúde, mais pessoas souberem executar Suporte Básico de Vida e mais disseminados estiverem os


desfibrilhadores automáticos externos, maior será a probabilidade de salvar vidas, sobretudo na paragem cardiorrespiratória.
Acredito que o futuro passe por comunidades mais preparadas e escolas onde aprender Suporte Básico de Vida seja tão natural como aprender matemática. Vejo também um enorme potencial nas aplicações que mobilizam voluntários treinados para ocorrências próximas, integrando a comunidade de forma organizada e segura na resposta à emergência.
No fundo, o maior avanço da próxima década pode não ser um novo equipamento ou uma nova tecnologia, mas sim uma sociedade mais capacitada para agir nos primeiros minutos, quando cada segundo pode fazer a diferença.
Para fechar: se um jovem estivesse hoje a decidir se entra nesta área, o que lhe dirias sobre o futuro que o espera?
Dir-lhe-ia que vai encontrar uma das áreas mais exigentes da medicina, mas também uma das mais gratificantes. Na emergência médica não há dois dias iguais: haverá turnos difíceis, saídas e decisões que ficarão na memória durante anos e momentos em que será posto à prova, tanto técnica como emocionalmente.
Mas também lhe diria que encontrará poucas áreas da medicina em que o impacto do nosso trabalho seja tão imediato e tão visível.
O futuro da emergência médica será, provavelmente, tecnologicamente diferente do atual, mas continuará a precisar de pessoas com conhecimentos clínicos, capacidade de decisão, espírito de equipa e enorme sentido de missão.
A tecnologia irá ajudar-nos a decidir melhor, mas nunca substituirá a responsabilidade, a empatia e a humanidade de quem está ao lado do doente quando ele vive o pior dia da sua vida


Obrigada, Alexandre!
Fica o desafio: daqui a 10 anos, repetimos esta conversa e veremos em que direção os anos nos levaram

COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
ANA CATARINA SEGUNDO Serviço de Anestesiologia - ULS Algarve
EDITORA


REFLEXÕES
BREVES SOBRE A EMERGÊNCIA MÉDICA
DA EVIDÊNCIA AO SISTEMA DE APRENDIZAGEM: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ESCRITA CIENTÍFICA
E FORMAÇÃO EM MEDICINA DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA
Tiago Alexandre1, Antonio Alejandro Villasana2, Sara Campos1
1ULS Algarve, Hospital de Portimão, Interno de Formação Especializada em Medicina Interna
2ULS Algarve, Hospital de Portimão, Interno de Formação Especializada em Medicina de Urgência e Emergência
RESUMO
A escrita científica e a publicação em revistas com revisão por pares continuam a ser centrais para o conhecimento coletivo em Medicina de Urgência e Emergência. No entanto, o artigo tradicional deixou de ser, por si só, suficiente para extrair valor do volume, velocidade e heterogeneidade dos dados produzidos na prática urgente e emergente. A inteligência artificial (IA) está a remodelar toda a cadeia de valor do conhecimento: extração automática de variáveis a partir dos registos clínicos eletrónicos, integração multicêntrica através de terminologias normalizadas e modelos comuns de dados, análise preditiva incorporada em sistemas de saúde aprendentes e novas formas de disseminação, incluindo síntese automatizada de evidência, simulação e aprendizagem adaptativa. A questão estratégica não é saber se a IA substituirá a escrita científica, mas se clínicos, revistas e serviços de urgência serão capazes de a governar como instrumento para melhorar a ciência produzida. O futuro da Medicina de Urgência e Emergência dependerá menos da produção de mais manuscritos e mais da transformação de
dados clínicos fiáveis em conhecimento validado, auditável e utilizável à cabeceira do doente.
Palavras-Chave: Inteligência Artificial, Medicina de Urgência e Emergência, Escrita Científica, Sistemas de Saúde Aprendentes, Educação Médica, Governação Algorítmica. . .
ABSTRACT
Scientific writing and peer-reviewed publication remain central to collective knowledge in Emergency Medicine. However, the traditional article is no longer sufficient, by itself, to extract value from the volume, velocity and heterogeneity of data generated in emergency care. Artificial intelligence (AI) is reshaping the knowledge value chain: automated extraction of variables from electronic health records, multicentre integration through standardised terminologies and common data models, predictive analytics embedded in learning health systems, and new forms of dissemination such as automated evidence synthesis, simulation and adaptive learning. The strategic issue is therefore not whether AI will replace scientific writing, but whether clinicians, journals and emergency departments will be able to govern AI as an instrument of better science. The
future of Emergency Medicine will depend less on producing more manuscripts and more on converting reliable clinical data into validated, auditable and usable knowledge at the bedside.
Keywords: HEmergency Medicine, Scientific Writing. Learning Health Systems, Medical Education, Algorithmic Governance.
INTRODUÇÃO
O exercício de transformar observações clínicas em perguntas, métodos, resultados e conclusões disciplinou gerações de médicos no pensamento crítico, obrigando-os a explicitar pressupostos, quantificar a incerteza e submeter o raciocínio à crítica dos pares. Na Medicina de Urgência e Emergência, onde a decisão é frequentemente tomada sob pressão temporal, informação incompleta e elevado risco clínico, a escrita científica é também uma forma de maturação profissional. As revistas científicas converteram esse esforço individual em memória coletiva. A revisão por pares, a indexação, a citação e as normas de edição tornaram possível uma literatura cumulativa, auditável e reutilizável, que sustenta desde recomendações de reanimação até
modelos de triagem. Este modelo foi extraordinariamente bem-sucedido; mas enfrenta agora uma assimetria estrutural: publica-se mais do que se consegue ler, a síntese de evidência demora demasiado tempo e grande parte dos dados produzidos nos serviços de urgência nunca chega a ser transformada em conhecimento. A IA torna visível uma mudança de paradigma. O manuscrito mantém valor, mas deixa de ser o único produto científico relevante. Dados clínicos de qualidade, estruturados, interoperáveis e governados passam a ser a infraestrutura primária da ciência. Em termos práticos, os registos eletrónicos, as terminologias clínicas, os modelos preditivos, as auditorias de desempenho, a simulação e a formação contínua deixam de ser domínios separados: tornam-se componentes de uma mesma cadeia de produção de conhecimento.
DO DADO CLÍNICO AO CONHECIMENTO ESTRUTURADO
O primeiro elo desta cadeia é o menos visível e, provavelmente, o mais decisivo: transformar atividade clínica em dados analisáveis. Os registos clínicos eletrónicos dos serviços de urgência contêm volume extraordinário de informação, mas uma proporção relevante permanece fragmentada, não estruturada e dependente de sistemas proprietários. Modelos de linguagem e técnicas de processamento de linguagem natural permitem extrair, de forma escalável, variáveis clínicas a partir de texto livre, relatórios e notas de evolução, reduzindo uma barreira que, até há pouco, dependia
quase exclusivamente de revisão manual de processos1 Contudo, a extração automática não é suficiente. Os dados só geram ciência se forem comparáveis, auditáveis e reutilizáveis. Terminologias normalizadas, como SNOMED CT e LOINC, modelos comuns de dados e princípios FAIR são, hoje, equivalentes às normas editoriais da escrita científica: parecem burocráticos, mas tornam possível a investigação multicêntrica e a reprodutibilidade2. Sem esta fundação, cada serviço de urgência produz o seu próprio dialeto de dados e a promessa de estudos com milhões de episódios mantém-se retórica.
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Sobre esta base assentam algoritmos preditivos para deteção precoce de sépsis, estratificação de risco, previsão de deterioração clínica, otimização de fluxos e apoio à decisão. O verdadeiro salto conceptual não é o algoritmo isolado, mas sim o learning health system: um sistema em que cada episódio clínico fortalece a análise, a análise refina a prática e esta gera novos dados, num ciclo contínuo de melhoria. Neste paradigma, o serviço de urgência deixa de ser apenas um consumidor de evidência produzida noutros contextos e passa a ser produtor permanente de conhecimento sobre a sua própria população.
DA EVIDÊNCIA PUBLICADA À DECISÃO CLÍNICA
A IA também altera a relação entre publicação, síntese e decisão. Revisões sistemáticas e recomendações clínicas continuam a exigir método, julgamento e transparência;
ainda assim, ferramentas de aprendizagem automática já apoiam a triagem de resumos, a identificação de estudos elegíveis, a extração de dados e a atualização viva de revisões3. Esta capacidade é particularmente relevante em Medicina de Urgência e Emergência, onde a prática muda rapidamente e onde a decisão depende frequentemente de evidência dispersa por múltiplas áreas: medicina interna, cuidados intensivos, trauma, cardiologia, neurologia e saúde pública.
Uma síntese automatizada não é, por definição, uma síntese confiável. A sua utilidade dependerá da rastreabilidade das fontes, da explicitação dos critérios de inclusão, da capacidade de auditoria e da separação clara entre factos, inferências e recomendações. As revistas científicas deverão evoluir de repositórios de artigos para plataformas de curadoria, validação e atualização de conhecimento.
DO CONHECIMENTO À APRENDIZAGEM CONTÍNUA
O médico de emergência trabalha por turnos, com carga cognitiva elevada e tem pouco tempo protegido para o estudo. O artigo longo, lido semanas ou meses após a publicação, é indispensável para a validação científica, mas mal adaptado à aprendizagem quotidiana. A IA permite transformar evidência validada em formatos mais próximos do ponto de necessidade: sínteses curtas, algoritmos explicáveis, casos interativos, treino espaçado e microlearning personalizado. O microlearning em educação médica tem demonstrado aceitabilidade e

potencial pedagógico, sobretudo quando integrado numa estratégia formativa mais ampla.
A simulação é outro domínio crítico. A simulação de alta fidelidade melhora competências técnicas, comunicação, liderança e trabalho em equipa, mas é dispendiosa, dependente de instrutores e episódica. Doentes virtuais baseados em modelos de linguagem podem complementar este modelo, permitindo treino repetido de raciocínio clínico, comunicação de más notícias, priorização em triagem e liderança de equipa em cenários variados, com feedback imediato e disponibilidade permanente. Este complemento não substitui a

simulação presencial, sobretudo nas dimensões físicas, emocionais e de coordenação de equipa; mas pode aumentar frequência, personalização e acessibilidade do treino.
O passo seguinte será o acompanhamento longitudinal de competências. Sistemas que integrem desempenho em simulação, padrões de decisão, indicadores clínicos e necessidades formativas poderão identificar lacunas precoces e dirigir formação onde ela é necessária. Esta visão exige prudência: avaliação de competências não pode transformar-se em vigilância punitiva. Deve ser desenhada para aprendizagem, segurança do doente e melhoria institucional.
CONDIÇÕES DE CONFIANÇA
A adoção de IA em Medicina de Urgência e Emergência exige uma posição de risco automatizado. Algoritmos treinados em dados enviesados podem reproduzir e amplificar desigualdades, alterando prioridades de triagem, acesso a recursos ou intensidade de vigilância. Num ambiente onde minutos importam, pequenos desvios sistemáticos podem traduzir-se em dano clínico real. A confiança depende de requisitos mínimos: validação externa, monitorização pós-implementação, avaliação de impacto clínico, análise de enviesamentos, explicabilidade proporcional ao risco, segurança de dados, responsabilidade institucional e possibilidade


de auditoria. Ensaios e protocolos envolvendo IA devem seguir normas específicas de reporte, como CONSORT-AI e SPIRIT-AI, para que os leitores compreendam a intervenção, o contexto, as atualizações do algoritmo, o papel do clínico e os mecanismos de falha4
A IA generativa merece cautela adicional. Pode redigir, resumir, traduzir, classificar e sugerir hipóteses; mas não assume responsabilidade científica, ética ou legal. A literatura recente mostra entusiasmo, mas também preocupação legítima com erros, alucinações, referências fabricadas e erosão do rigor metodológico5
O NOVO PAPEL DAS REVISTAS CIENTÍFICAS
As revistas científicas não devem resistir à IA por reflexo conservador, nem adotá-la por fascínio tecnológico. Além de publicar artigos, deverão exigir transparência sobre uso de IA na escrita e análise, disponibilização de código e dados quando eticamente possível, descrição de modelos e versões, documentação de prompts relevantes, validação externa, análise de subgrupos vulneráveis e planos de monitorização após implementação. Em estudos de IA clínica, a pergunta editorial central deve ser simples: este trabalho aumenta conhecimento reutilizável ou apenas apresenta desempenho técnico em condições artificiais? Para a Medicina de Urgência e Emergência, esta exigência é importante. O serviço de urgência é complexo, pela abordagem a múltiplas patologias, incerteza diagnóstica, pressão temporal, sobrelotação, equipas rotativas e decisões de alto risco.

CONCLUSÃO
A Medicina construiu-se sobre investigação, escrita e revisão crítica. Esse fundamento não desaparece com a IA, mas torna-se mais relevante. O futuro do conhecimento em Medicina de Urgência e Emergência dependerá menos da produção isolada de artigos e mais da capacidade de transformar dados clínicos de elevada qualidade em conhecimento validado, auditável e distribuído através de sistemas de aprendizagem contínua.
A transição não é inevitável nem eticamente neutra. Exige investimento em infraestruturas de dados, literacia em ciência de dados na formação dos médicos de emergência, governação firme dos algoritmos e uma nova ambição editorial. A revista científica do futuro não será apenas o local onde a ciência é publicada. Será parte ativa do sistema que a valida, atualiza, distribui e devolve à prática clínica.
DECLARAÇÃO SOBRE UTILIZAÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O manuscrito foi revisto editorialmente com apoio de ferramentas de inteligência artificial generativa. A responsabilidade pelo conteúdo científico, verificação factual, adequação das referências, autoria e decisão final de submissão permanece exclusivamente nos autores

BIBLIOGRAFIA
1. Rajkomar A, Dean J, Kohane I. Machine learning in medicine. N Engl J Med. 2019;380(14):13471358.
2. Wilkinson MD, Dumontier M, Aalbersberg IJ, Appleton G, Axton M, Baak A, et al. The FAIR Guiding Principles for scientific data management and stewardship. Sci Data. 2016;3:160018.
3. Marshall IJ, Wallace BC. Toward systematic review automation: a practical guide to using machine learning tools in research synthesis. Syst Rev. 2019;8(1):163.
4. Liu X, Cruz Rivera S, Moher D, Calvert MJ, Denniston AK; SPIRIT-AI and CONSORT-AI Working Group. Reporting guidelines for clinical trial reports for interventions involving artificial intelligence: the CONSORT-AI extension. Nat Med. 2020;26(9):1364-1374.
5. Van Noorden R, Perkel JM. AI and science: what 1,600 researchers think. Nature. 2023;621(7980):672-675.

COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
INÉS SIMÕES Médica Assistente Hospitalar em Medicina Interna; Médica VMER, SHEM.
EDITORA

DISSOCIAÇÃO ISORRÍTMICA: QUANDO O CORAÇÃO TOCA COM 2 MAESTROS.
Joana Massa Pereira 1, Joana Guerreiro Pereira 1 1Médica Interna de formação específica em Cardiologia, ULS-Algarve

A dissociação isorrítmica (DI) é um fenómeno eletrocardiográfico que ocorre quando as aurículas e os ventrículos são ativados por dois ritmos independentes, mas a frequências muito semelhantes. Isto ocorre normalmente em situações de bradicardia sinusal, em que a frequência sinusal se aproxima da frequência de um foco juncional, o mais comum, ou ventricular (ritmo idioventricular). Este fenómeno leva à dissociação aurículo-ventricular (AV) sem que haja um bloqueio na condução do estímulo elétrico entre as aurículas e os ventrículos, ou seja, sem bloqueio aurículo-ventricular (BAV) completo. Esta situação ocorre mais comumente por sobreestimulação vagal - durante o sono, em atletas, sob efeito de medicação bradicardizante ou em casos de doença do nódulo sinusal com bradicardia sinusal. Esta entidade pode ser confundida com BAV completo. Em ambos os casos há dissociação AV e habitualmente bradicardia, mas, contrariamente ao BAV completo, na DI a frequência auricular e ventricular são muito semelhantes.

Figura 1. ECG interpretado como BAV completo e que motivou a consulta de cardiologia. Ritmo sinusal, com dissociação isorrítmica, 40bpm, QRS estreito (96 ms). Note-se os 2 ritmos, sinusal e juncional, dissociados e com frequências muito semelhantes, aproximadamente 40 ciclos por minuto. Traço azul identifica a onda P e o vermelho o QRS. Notar ainda o facto do 3º QRS, na tira de ritmo, coincidir com a onda P, razão pela qual parece não haver onda P.

grau (PR 222 ms), sem outras alterações relevantes.
O caso clínico que ilustra esta entidade ocorreu com um doente do sexo masculino, de 76 anos, com antecedentes de flutter auricular, consistentemente em ritmo sinusal há vários anos, medicado com bisoprolol 2.5 mg id. Foi referenciado à consulta de cardiologia por BAV completo, assintomático, que teria recuperado a condução 1:1 após suspender bisoprolol. Na consulta, o doente confirma estar assintomático, tal como estava na altura em que o referido diagnóstico foi realizado.
Figura 2. ECG no dia da consulta, já sem efeito do bisoprolol. Ritmo sinusal, 48bpm, BAV 1º


Observado o eletrocardiograma (ECG) que motivou o diagnóstico de BAV completo (figura 1), verificou-se não se tratar verdadeiramente de BAV completo, mas sim de DI. No momento da consulta o doente já não se encontrava a tomar bisoprolol e o ECG mostrava ritmo sinusal, com frequência cardíaca de 48 bpm (figura 2).
Este caso demonstra a importância de distinguir a DI do BAV completo, já que a primeira é uma entidade benigna e habitualmente sem necessidade de terapêutica, enquanto a segunda se associa a aumento do risco de morte súbita, carece de implantação de pacemaker e frequentemente implica medidas terapêuticas na abordagem pré-hospitalar

BIBLIOGRAFIA
1. Kaplinsky E, Aronson R, Neufeld HN. Isorhythmic Dissociation--a "physiological" arrhythmia. J Electrocardiol. 1977 Apr;10(2):179-88. doi: 10.1016/s0022-0736(77)80052-6. PMID: 870580
2. Delforge B, Spruyt L, Alzand BSN. In sync or out of sync? Neth Heart J. 2025 Feb;33(2):69-70. doi: 10.1007/s12471-024-01919-y. Epub 2024 Dec 23. PMID: 39792284; PMCID: PMC11757823.

EDITOR



EDITORA

MIGUEL ESPIRITO SANTO Médico Assistente Hospitalar de Cardiologia. ULS Algarve - Unidade de Faro
JOANA MASSA PEREIRA Médica Interna de Formação Específica de Cardiologia ULS Algarve - Unidade de Faro


QUANDO A PELE SE MANIFESTA: UMA ERUPÇÃO CUTÂNEA QUE VAI E VEM
Marisa Alves1, Nelson Carvalho2, Catarina Costa3
1Unidade de Saúde Familiar Lauroé, Loulé
2Unidade de Saúde Familiar Gilão, Tavira
3Assistente hospitalar em Medicina Interna, Serviço de Urgência, ULS Algarve – Unidade de Faro
Mulher de 67 anos com antecedentes de patologia tiroideia, recorre ao Serviço de Urgência por prurido e lesões cutâneas na região cervical posterior e região inguinal com 5 dias de evolução (Fig. 1 e 2).
As lesões eram indolores, mas pruriginosas, de carácter migratório, com menos de 24 horas de duração de cada uma das lesões isoladamente. Não apresentava atingimento mucoso.
Refere toma de nitrofurantoína uma semana antes, sem outros fatores de exposição.

Imagem 1 – Placas eritematosas na região cervical posterior

Imagem 2 – Placas eritematosas na região inguinal esquerda
QUAL O DIAGNÓSTICO MAIS PROVÁVEL?
A. Exantema medicamentoso maculopapular
B. Urticária Aguda
C. Vasculite urticariforme
D. Eritema multiforme

TEXTO EXPLICATIVO
Resposta correcta: B
A urticária aguda caracteriza-se pelo aparecimento súbito de pápulas ou placas eritematosas pruriginosas, resultantes de edema da derme superficial mediado pela libertação de histamina por mastócitos e basófilos. As lesões apresentam tipicamente bordos eritematosos com centro mais pálido ou configuração anular, podendo variar de tamanho e localização ao longo das horas. Uma característica fundamental é a natureza transitória das lesões, que desaparecem em menos de 24 horas sem deixar lesões residuais1
Os fármacos constituem uma causa frequente de urticária aguda em adultos, sendo frequentemente implicados antibióticos, antiinflamatórios não esteroides e opiáceos. Embora menos comum do que com os β-lactâmicos, a nitrofurantoína pode desencadear reações de hipersensibilidade cutânea, incluindo urticária e angioedema1. No presente caso, a relação temporal entre a exposição à nitrofurantoína e o início das lesões, favorece o diagnóstico de urticária aguda induzida por fármaco.
O tratamento da urticária aguda baseia-se sobretudo na suspensão do agente desencadeante e na utilização de anti-histamínicos H1 de segunda geração, podendo ser necessário corticoterapia sistémica em casos mais sintomáticos ou extensos1

As restantes hipóteses diagnósticas têm características diferentes:
A) Exantema medicamentoso maculopapular: apresenta lesões mais difusas e persistentes, sem carácter migratório2;
C) Vasculite Urticariforme: caracteriza-se por lesões persistentes (>24 horas), frequentemente dolorosas ou em queimadura, podendo deixar hiperpigmentação residual2;
D) Eritema Multiforme: tipicamente apresenta lesões em alvo e possível envolvimento mucoso2


BIBLIOGRAFIA
1. Zuberbier T, Abdul Latiff AH, Abuzakouk M, et al. The international EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/ APAAACI guideline for the definition, classification, diagnosis and management of urticaria. Allergy. 2022.
2. Kang S, Amagai M, Bruckner AL, et al. Fitzpatrick's Dermatology. 9th ed. McGraw-Hill; 2019

CATARINA COSTA
Médica VMER. Médica Medicina Interna - ULS Algarve - Unidade de Faro
EDITORA
COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO




Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algar ve








CRITÉRIOS DE PUBLICAÇÃO
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO – Novembro de 2022
1. Objectivo e âmbito
A Revista LIFESAVING SCIENTIFIC (LF Sci) é um órgão de publicação pertencente ao Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) e dedica-se à promoção da ciência médica pré-hospitalar, através de uma edição trimestral.
A LF Sci adopta a definição de liberdade editorial descrita pela World Association of Medical Editors, que entrega ao editor-chefe completa autoridade sobre o conteúdo editorial da revista. O CHUA, enquanto proprietário intelectual da LF Sci, não interfere no processo de avaliação, selecção, programação ou edição de qualquer manuscrito, atribuindo ao editor-chefe total independência editorial.
A LF Sci rege-se pelas normas de edição biomédica elaboradas pela International Commitee of Medical Journal Editors e do Comittee on Publication Ethics
2. Informação Geral
A LF Sci não considera material que já foi publicado ou que se encontra a aguardar publicação em outras revistas. As opiniões expressas e a exatidão científica dos artigos são da responsabilidade dos respetivos autores.
A LF Sci reserva-se o direito de publicar ou não os artigos submetidos, sem necessidade de justificação adicional.
A LF Sci reserva-se o direito de escolher o local de publicação na revista, de acordo com o interesse da mesma, sem necessidade de justificação adicional.
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3. Direitos Editoriais
Os artigos aceites para publicação ficarão propriedade intelectual da LF Sci, que passa a detentora dos direitos, não podendo ser reproduzidos, em parte ou no todo, sem autorização do editor-chefe.
4. Critérios de Publicação
4.1 Critérios de publicação nas rúbricas
A LF Sci convida a comunidade científica à publicação de artigos originais em qualquer das categorias em que se desdobra, de acordo com os seguintes critérios de publicação:
Artigo Científico Original - Âmbito: apresentação de resultados sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar de adultos. Dimensão recomendada: 1500 a 4000 palavras.
Temas em Revisão
- Âmbito: Revisão extensa sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar de adultos. Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Hot Topic
- Âmbito: Intrepretação de estudos clínicos, divulgação de inovações na área pré-hospitalar recentes ou contraditórias.
Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Rúbrica Pediátrica - Âmbito: Revisão sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar no contexto pediátrico.
Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Casos Clínicos (Adulto)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, relacionados com situações de emergência em adultos.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
Casos Clínicos (Pediatria)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, em contexto de situações de emergência em idade pediátrica.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
Casos Clínicos (Neonatalogia)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, que reportem situações de emergência em idade neonatal.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
LIFESAVING Trends - Inovações em Emergência Médica - Âmbito: Artigo com estrutura de "Correspondência", privilegiando a divulgação de novidades tecnológicas, de dispositivos inovadores, ou de atualizações de equipamentos ou práticas atuais.
Limite de Palavras: máximo 1500 palavras; Limite de tabelas e figuras:6

Imagem em Urgência e Emergência
- Âmbito/Objetivo: divulgar imagens-chave no diagnóstico e abordagens de patologias no âmbito da urgência e emergência. Podem ser obtidas através do exame físico, investigação básica ou estudo imagiológico. O consentimento informado escrito é requerido no caso em que a imagem contenha a face ou outro detalhe que permita identificar os intervenientes.
Estrutura do artigo: Título (que não deve conter o diagnóstico); autores e filiação; nota introdutória com descrição breve da imagem e/ou do seu contexto; 1 a 2 imagens; questão de escolha múltipla com 4 hipóteses (apenas uma resposta correta); texto explicativo da resposta correta com referência à literatura. Máximo de 300 palavras. Imagem: em formato .jpeg, com resolução original. Bibliografia: máximo de 5 referências
4.2 Critérios gerais de publicação
O trabalho a publicar deverá ter no máximo 120 referências. Deverá ter no máximo 6 tabelas/figuras devidamente legendadas e referenciadas.
O trabalho a publicar deve ser acompanhado de no máximo 10 palavras-chave representativas.
No que concerne a tabelas/ figuras já publicadas é necessário a autorização de publicação por parte do detentor do copyright (autor ou editor). Os ficheiros deverão ser submetidos em alta resolução, 800 dpi mínimo para gráficos e 300 dpi mínimo para fotografias em formato JPEG (.Jpg), PDF (. pdf). As tabelas/figuras devem ser numeradas na ordem em que ocorrem no texto e enumeradas em numeração árabe e identificação.
No que concerne a casos clínicos é necessário fazer acompanhar o material a publicar com o consentimento informado do doente ou representante legal, se tal se aplicar.
No que concerne a trabalhos científicos que usem bases de dados de doentes de instituições é necessário fazer acompanhar o material a publicar do consentimento da comissão de ética da respetiva instituição.
As submissões deverão ser encaminhadas para o e-mail: revistalifesaving@gmail.com
4.3 Critérios de publicação dos artigos científicos.
Na LIFESAVING SCIENTIFIC (LF Sci) podem ser publicados Artigos Científicos Originais, Artigos de Revisão ou Casos Clínicos de acordo com a normas a seguir descritas.
Artigos Científicos
O texto submetido deverá apresentado com as seguintes secções: Título (português e inglês), Autores (primeiro nome, último nome, título, afiliação), Abstract (português e inglês), Palavras-chave (máximo 5), Introdução e Objetivos, Material e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão, Agradecimentos, Referências.
O texto deve ser submetido com até 3 Take-home Messages que no total devem ter até 50 palavras.
Não poderá exceder as 4.000 palavras, não contando Referências ou legendas de Tabelas e Figuras. Pode-se fazer acompanhar de até 6 Figuras/ Tabelas e de até 60 referências bibliográficas.
54
O resumo/ abstract não deve exceder as 250 palavras. Se revisão sistemática ou meta-análise deverá seguir as PRISMA guidelines.
Se meta-análise de estudo observacionais deverá seguir as MOOSE guidelines e apresentar um protocolo completo do estudo.
Se estudo de precisão de diagnóstico, deverá seguir as STARD guidelines.
Se estudo observacional, siga as STROBE guidelines.
Se se trata da publicação de Guidelines Clínicas, siga GRADE guidelines.
Este tipo de trabalhos pode ter no máximo 6 autores.
Artigos de Revisão
O objetivo deste tipo de trabalhos é rever de forma aprofundada o que é conhecido sobre determinado tema de importância clínica.
Poderá contar com, no máximo, 3500 palavras, 4 tabelas/
figuras, não mais de 50 referências.
O resumo (abstract) dos Artigos de Revisão segue as regras já descritas para os resumos (abstract) dos Artigos Científicos.
Este tipo de trabalho pode ter no máximo 5 autores.
Caso Clínico
Com este tipo de publicação pretende-se o relato de caso, ou séries de casos, que pela sua raridade, inovações diagnósticas, terapêuticas aplicadas ou resultados clínicos inesperados, seja digno de partilha com a comunidade científica.
Encoraja-se o uso da checklist das CARE Guidelines na organização do artigo.
O autor deverá possuir consentimento informado para publicação do caso.
Instruções para os autores:
- Máximo de 4 autores (sem possibilidade de alterar ou acrescentar autores após submissão à revista)
- Subdivisão em Resumo, Relato de Caso, Discussão
- Resumo inferior a 150 palavras, acompanhado de até um máximo de 5 palavras chave, dirigido em português com tradução para inglês (Abstract/Keywords).
- Descrição do caso e discussão, até 1000 palavras, excluindo referências bibliográficas.
- As figuras ou tabelas deverão ser clinicamente relevantes e estar devidamente legendadas, com referência bibliográfica caso aplicável;
- Máximo de 10 referências bibliográficas, devendo cumprir as normas instituídas na revista.

Cartas ao Editor
- Objetivo: comentário/exposição referente a um artigo publicado nas últimas 4 edições da revista promovendo a discussão e visão crítica. Poderão ainda ser enviados observações, casuísticas particularmente interessantes de temáticas atuais que os autores desejem apresentar aos leitores de forma concisa.
- Instruções para os autores:
1. O corpo do artigo não deve ser subdividido; sem necessidade de resumo ou palavras-chave.
2. Deve contemplar entre 500 a 1000 palavras, excluindo referências, tabelas e figuras.
3. Apenas será aceite 1 figura e/ou 1 tabela.
4. Não serão aceites mais de 5 referências bibliográficas. Devendo cumprir as normas instituídas para revista.
5. Número máximo de autores são 4.
Breves Reflexões sobre a Emergência Médica Âmbito: artigo de reflexão/ opinião, com a exposição de ideias e pontos de vista sobre tema no âmbito da emergência médica, do ponto de vista conceptual, podendo a argumentação do Autor convidado, ser baseada na sua experiência pessoal ou na citação de livros, revistas, artigos publicados, entre outros recursos de pesquisa, devidamente assinalados no texto; Estrutura do artigo: título, Autor(es) e afiliação; resumo e palavras-chave (facultativos), introdução, desenvolvimento, conclusão final, referências bibliográficas.
Limite de palavras: 1500 Resumo (facultativo): máximo 100 palavras, em formato bilingue (português e inglês)
Palavras-chave: máximo 5 palavras chave, em formato bilingue (português e inglês) Limite de tabelas e figuras: 3 Bibliografia: máximo 5 referências bibliográficas
“Vamos pôr o ECG nos eixos”
- Âmbito: Análise e interpretação de traçados eletrocardiográficos clinicamente contextualizados
- Formato: Título; Autores –máx. 2 autores (primeiro nome, último nome, título, afiliação); 2 palavras-chave; 1 imagem (ECG ou tira de ritmo, em formato JPEG com resolução original); Legenda explicativa com breve enquadramento clínico e interpretação do traçado (ritmo, frequência, alterações da despolarização ou repolarização pertinentes no contexto) – máx. 300 palavras; Referências bibliográficas.
LIFESAVING Airway Challenges
Âmbito: Rubrica dedicada à apresentação e discussão de casos clínicos desafiantes e artigos de revisão centrados na abordagem da via aérea. O objetivo é promover a análise crítica, a partilha de estratégias e a reflexão sobre decisões clínicas em cenários reais, com foco na gestão da via aérea difícil e na segurança do doente. Os conteúdos podem ilustrar situações complexas, complicações inesperadas, abordagens inovadoras ou revisões temáticas fundamentadas na evidência científica atual, mantendo sempre uma componente pedagógica. Pretende-se, assim, estimular a aprendizagem entre pares e fomentar o desenvolvimento contínuo das
equipas envolvidas em emergência médica e cuidados críticos.
Dimensão recomendada: 1000 a 1500 palavras
5. Referências
Os autores são responsáveis pelo rigor das suas referências bibliográficas e pela sua correta citação no texto.
Deverão ser sempre citadas as fontes originais publicadas. A citação deve ser registada empregando Norma de Vancouver.
6. Revisão por pares
A LF Sci segue um processo single-blind de revisão por pares (peer review).
Todos os artigos são inicialmente revistos pela equipa editorial nomeada pelo editor-chefe e caso não estejam em conformidade com os critérios de publicação poderão ser rejeitados antes do envio a revisores.
A aceitação final é da responsabilidade do editor-chefe. Os revisores são nomeados de acordo com a sua diferenciação em determinada área da ciência médica pelo editor-chefe, sem necessidade de justificação adicional.
Na avaliação os artigos poderão ser aceites para publicação sem alterações, aceites após modificações propostas pela equipa editorial ou recusados sem outra justificação.
7. Erratas e retrações
A LF Sci publica alterações, emendas ou retrações a artigos previamente publicados se, após publicação, forem detetados erros que prejudiquem a interpretação dos dados

