

FICHA TÉCNICA
DIRETOR
Bruno Santos
EDITOR-CHEFE
Daniel Nuñez
COMISSÃO CIENTÍFICA
Ana Rita Clara, Ana Silva Fernandes, Andriy Krystopchuk, Carlos Álvarez Leiva, Carlos Raposo, Cristina Granja, Eunice Capela, Gonçalo Castanho, José A. Neutel, Margarida Rodrigues, Maria Manuel Vieira, Miguel Jacob, Miguel Varela, Nuno Mourão, Pilar Crugeiras, Rita Meireles, Rui Ferreira de Almeida, Sérgio Menezes Pina, Sílvia Firmino, Stéfanie Pereira, Vasco Fernandes Vera Santos.
Periodicidade: Trimestral
Linguagem: Português
ISSN: 2184-9811
EDITORES ASSOCIADOS
TEMAS EM REVISÃO
Ana Agostinho, Ana Vieira, André Villarreal, Catarina Jorge, Catarina Tavares, Djamila Neves, Guilherme Henriques, Hugo Costa, João Nuno Oliveira, Vasco Monteiro.
HOT TOPIC
Jorge Miguel Mimoso, Daniel Garrido.
RUBRICA PEDIÁTRICA
Cláudia Calado, Mónica Bota.
CASO CLINICO ADULTO
Noélia Alfonso, Rui Osório.
CASO CLINICO PEDIÁTRICO
Inês Coelho, Marta Soares.
CASO CLINICO NEONATAL/TIP
Nuno Ribeiro, Luísa Gaspar.
BREVES REFLEXÕES
SOBRE A EMERGÊNCIA MÉDICA
Inês Simões.
CARTAS AO EDITOR
Catarina Jorge, Júlio Ricardo Soares.
VAMOS PÔR O ECG NOS EIXOS
Hugo Costa, Joana Massa Pereira; Miguel Espirito Santo.
LIFESAVING TRENDS
Ana Catarina Segundo.
IMAGEM EM URGÊNCIA E EMERGÊNCIA Catarina Costa.
EXCEÇÃO À REGRA - DISASTER MEDICINE - YOUR SECOND SPECIALTY
Verónica Aquilino.
LIFESAVING AIRWAY CHALLENGES
Cláudia Pimentel Martins, Inês Portela
ILUSTRAÇÕES
João Paiva.
FOTOGRAFIA
Joana Oliveira, Pedro Rodrigues Silva, Maria Luísa Melão, Solange Mega, Carlos Martins.
AUDIOVISUAL
Pedro Lopes Silva.
DESIGN
Luis Gonçalves.
PARCERIAS

Ganhar Tempo. Pensar Melhor. Salvar Mais.
No nosso dia a dia, no pré-hospitalar, o tempo não perdoa. Muitas decisões são tomadas sob pressão; cada gesto tem consequências, cada minuto pode ser vital.
Durante anos, treinámo-nos para chegar mais rápido, intervir mais cedo, transportar melhor e isso salva milhares de vidas.
Hoje, na edição V6N2 da nossa revista, vamos mais longe. Vamos responder a questões fulcrais.
O objetivo principal já não está apenas em fazer mais depressa. Está em ganhar tempo onde ele não existe, evitar erros onde eles custam vidas e decidir melhor quando tudo é incerto.
Perante uma hemorragia potencialmente fatal numa extremidade, como devemos atuar?
O garrote: sabemos que a sua aplicação precoce reduz a mortalidade, limita o choque hemorrágico e altera o prognóstico antes mesmo da chegada ao hospital. Mas o mais relevante não é apenas a evidência é o que ela representa: a capacidade de transformar segundos em sobrevivência através de uma ação simples, eficaz e replicável.
Soterramentos. Ambientes confinados. Falhas de suporte. Locais onde o tempo de resgate não depende de nós. Nestes contextos, a pergunta muda: não é “como agir mais rápido?”, mas sim “como manter alguém vivo durante mais tempo?”.
É aqui que a investigação em hipometabolismo começa a desafiar os limites do que considerávamos possível. A ideia de que o corpo humano pode ser “treinado” a reduzir o seu consumo metabólico abre uma nova porta: não apenas ganhar tempo externamente, mas criá-lo internamente. O chamado Disaster Gap deixa de ser um vazio inevitável e passa a ser um espaço de intervenção.
E, enquanto o corpo aprende a resistir, a tecnologia começa a aprender a pensar connosco. Como podemos ganhar mais tempo? Talvez “poupando neurónios”.
Os óculos inteligentes com realidade aumentada já não são fição. São ferramentas que, em ambiente simulado e progressivamente em contexto real, demonstram melhorar a triagem, reduzir erros e apoiar decisões em tempo real. Num cenário onde a sobrecarga cognitiva é constante, estas tecnologias não substituem o profissional, potenciam-no. Reduzem a hesitação. Organizam o pensamento. Ganham segundos críticos. Mas há uma verdade incómoda que nenhum avanço tecnológico resolve por si só. O erro diagnóstico continua a ser uma das maiores ameaças silenciosas.
Os casos apresentados nesta edição são um exemplo claro: uma “pseudo-isquemia” que não era isquemia. Uma dor torácica aparentemente banal que escondia um pneumomediastino por perfuração esofágica. Situações em que tudo parecia apontar numa direção e não era essa. E aqui reside um dos maiores desafios da nossa prática: agir rapidamente, sem agir de forma errada.
Porque, na urgência, o problema raramente é não fazer nada. O problema é fazer a coisa certa… para o diagnóstico errado. É neste ponto que esta revista se torna essencial.
Porque, não falamos apenas de técnicas. Falamos de pensamento clínico em condições reais. Falamos de decisão sob pressão. Falamos daquilo que distingue o executante do especialista.
A integração de tudo isto: controlo hemorrágico, modulação fisiológica, suporte tecnológico e precisão diagnóstica não é teoria, é o futuro operacional da emergência pré-hospitalar. Um futuro onde: controlamos melhor o que mata rapidamente, prolongamos a tolerância do organismo ao extremo, decidimos com mais apoio e menos erro, pensamos melhor quando tudo nos empurra para simplificar.
Este é o verdadeiro desafio lançado a quem lê estas páginas. Não apenas acompanhar a evolução mas liderá-la no terreno.
Porque, no fim, não será o mais rápido a fazer a diferença, será o mais preparado, o mais lúcido, o mais capaz de manter vida onde tudo aponta para a sua perda.
Se há uma ideia que deve ficar após esta leitura, é esta: Salvar vidas no pré-hospitalar já não depende apenas de chegar a tempo. Depende de saber criar tempo, proteger esse tempo e usá-lo com precisão.
Este número não é apenas informativo. É um convite.
A pensar melhor.
A fazer melhor.
A salvar mais.
Carpe diem!

Daniel Núñez Editor Chefe LIFESAVING Scientific








HOT TOPIC GUIDELINES ERC 2025 NO SAV DE ADULTO: O QUE MUDA NA
PRÁTICA DO DIA-À-DIA? UMA ANÁLISE CRÍTICA
EXCEPÇÃO À REGRA – DISASTER MEDICINE, YOUR SECOND SPECIALTY ADVANCING HUMAN HIBERNATION RESEARCH IN PARTNERSHIP WITH DISASTER MEDICINE AND MILITARY KNOW-HOW FROM TORPOR THEORY TO FIELD APPLICATION: HOW EMERGENCY RESPONSE SCENARIOS ARE OPENING NEW PATHWAYS TOWARD HUMAN HYPOMETABOLISM
ARTIGO DE REVISÃO
GARROTE NO CONTROLO DE HEMORRAGIA AGUDA EM CONTEXTO PRÉ-HOSPITALAR: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA
LIFESAVING AIRWAY CHALLENGES
CRICOTIROTOMIA DE EMERGÊNCIA EM DOENTE COM HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA ATIVA
LIFESAVING TRENDS - INOVAÇÕES EM EMERGÊNCIA MÉDICA VER MAIS ALÉM - ÓCULOS INTELIGENTES NO PRÉ-HOSPITALAR
VAMOS PÔR O ECG NOS EIXOS
PSEUDO-ISQUEMIA NO ECG: A AVÓ DISFARÇADA DE LOBO
IMAGEM EM URGÊNCIA E EMERGÊNCIA
UMA CAUSA RARA DE DOR TORÁCICA NO SERVIÇO DE URGÊNCIA


GUIDELINES ERC 2025 NO SAV DE ADULTO: O QUE MUDA NA PRÁTICA DO DIA-À-DIA? UMA ANÁLISE CRÍTICA
Rui Estevens1, João Martins1, Miguel Monteiro1
1VMER
do Barlavento, Unidade Local de Saúde do Algarve, Hospital de Portimão
RESUMO
As Guidelines do European Resuscitation Council (ERC) de 2025 introduzem alterações relevantes no Suporte Avançado de Vida (SAV) do adulto, com impacto direto na abordagem inicial da paragem cardiorrespiratória. Este artigo apresenta uma análise crítica das principais atualizações, com enfoque na sua aplicabilidade clínica. Destacam-se a valorização dos primeiros 3-5 minutos como determinantes do prognóstico neurológico, a priorização do acesso venoso periférico condicionada pelo tempo até administração de fármacos, e a introdução da mudança de vetor na abordagem da fibrilhação ventricular refractária. Adicionalmente, são discutidos o papel da capnografia como ferramenta central de monitorização, a utilização seletiva do POCUS e a abordagem pragmática da via aérea. Para além das recomendações técnicas, é enfatizado o papel dos sistemas de saúde e da qualidade da ressuscitação como determinantes críticos de outcome. A análise evidencia que a implementação eficaz destas guidelines depende menos da complexidade dos algoritmos e mais da capacidade das equipas em executar intervenções
fundamentais de forma precoce, contínua e coordenada.
Palavras-Chave: Suporte Avançado de Vida; Guidelines ERC 2025; Paragem Cardíaca; Ressuscitação Cardiopulmonar; Acesso Vascular; Desfibrilhação.
ABSTRACT
The 2025 European Resuscitation Council (ERC) Guidelines introduce relevant changes in adult Advanced Life Support (ALS), with direct implications for the initial management of cardiac arrest. This article provides a critical analysis of the main updates, focusing on their clinical applicability.
Key aspects include the emphasis on the first 3-5 minutes as a determinant of neurological outcome, the prioritization of peripheral intravenous access balanced against time to drug delivery, and the introduction of vector change strategies in refractory ventricular fibrillation. Additional considerations include the central role of capnography in monitoring, the selective use of point-of-care ultrasound (POCUS), and a pragmatic approach to airway management. Beyond technical recommendations, the importance of healthcare systems and resuscitation quality is highlighted as a major determinant
of outcomes. Effective implementation of these guidelines depends less on algorithm complexity and more on the ability of teams to deliver timely, coordinated, and high-quality interventions.
Keywords: Advanced Life Support; ERC 2025 Guidelines; Cardiac Arrest; Cardiopulmonary Resuscitation; Vascular Access; Defibrillation.
INTRODUÇÃO
Em outubro de 2025, o European Resuscitation Council publicou a mais recente atualização das suas recomendações para a ressuscitação, consolidando evidência produzida no âmbito do International Liaison Committee on Resuscitation e de ensaios clínicos contemporâneos de elevada qualidade metodológica1,2 Estas novas guidelines representam mais do que uma revisão incremental: configuram uma reorientação pragmática de aspetos nucleares do Suporte Avançado de Vida (SAV) no adulto, com impacto direto na tomada de decisão em contextos de elevada pressão temporal. Ao contrário de versões anteriores, fortemente centradas na padronização algorítmica, as Guidelines ERC 2025 introduzem nuances operacionais relevantes, baseadas em dados
farmacocinéticos, fisiológicos e organizacionais, que exigem uma interpretação crítica e contextualizada1,10. Destacam-se, entre outras, a redefinição da janela temporal crítica inicial da paragem cardíaca, a revalorização do acesso venoso periférico em detrimento do intraósseo, e a introdução de estratégias adicionais na abordagem da fibrilhação ventricular refratária. Contudo, a transposição destas recomendações para a prática clínica não é linear. Em sistemas de emergência médica heterogéneos, como o português, fatores como a variabilidade de recursos, a experiência das equipas e as limitações logísticas condicionam a aplicabilidade real dos algoritmos propostos. Acresce que algumas recomendações assentam em evidência emergente, ainda com limitações externas, exigindo prudência na sua implementação universal.
Neste contexto, o presente artigo tem como objetivo realizar uma análise crítica das principais alterações introduzidas pelas Guidelines ERC 2025 no SAV do adulto, privilegiando a sua relevância prática, os fundamentos fisiopatológicos subjacentes e as implicações operacionais para equipas de emergência médica pré-hospitalar e hospitalar.
METODOLOGIA
Este artigo consiste numa análise crítica narrativa das recomendações das Guidelines do European Resuscitation Council (ERC) de 2025 relativas ao Suporte Avançado de Vida no adulto.
A identificação das principais
alterações foi realizada através da revisão dos documentos oficiais publicados pelo ERC em 2025, incluindo os capítulos de Suporte Avançado de Vida, Suporte Básico de Vida e “Systems Saving Lives”, bem como das recomendações internacionais do International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) que lhes servem de base.
Adicionalmente, foi efetuada uma análise dirigida da literatura científica recente, com foco em ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais de grande dimensão que sustentam as principais mudanças recomendadas.
8
A seleção dos temas abordados neste artigo teve por base a sua relevância clínica e impacto potencial na prática diária dos profissionais de emergência médica pré-hospitalar, privilegiando intervenções com implicações diretas na abordagem inicial da paragem cardiorrespiratória.
A análise foi conduzida de forma crítica e contextualizada, integrando a evidência disponível com a experiência clínica dos autores e a realidade operacional dos sistemas de emergência médica, com particular enfoque no contexto pré-hospitalar.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO (ANÁLISE CRÍTICA)
1. OS PRIMEIROS 3-5 MINUTOS: A JANELA CRÍTICA DE OPORTUNIDADE
As Guidelines ERC 2025 reforçam que os primeiros 3-5 minutos após a paragem cardíaca são determinantes para a sobrevivência neurológica, colocando o foco na execução precoce e eficaz das intervenções
com maior impacto prognóstico1,10 Nesta fase, a prioridade é o reconhecimento imediato da paragem, a ativação do sistema de emergência, o início de compressões torácicas de elevada qualidade e a desfibrilhação sem atrasos quando indicada, sendo que intervenções avançadas precoces não compensam falhas nestes passos fundamentais11
A abordagem deve assentar num continuum entre Suporte Básico de Vida e Suporte Avançado de Vida, evitando interrupções na RCP3. As intervenções avançadas devem ser integradas de forma progressiva, sem comprometer a qualidade das compressões, sendo este o principal valor acrescentado do SAV nos minutos iniciais10. Sempre que disponível, a capnografia pode ser utilizada para monitorizar a qualidade da RCP e apoiar a deteção precoce de retorno à circulação espontânea.
2. ACESSO VASCULAR: A (RE) AFIRMAÇÃO DA VIA VENOSA PERIFÉRICA
A alteração mais significativa das Guidelines ERC 2025 no domínio farmacológico é a priorização do acesso venoso periférico (IV) no membro superior sobre o acesso intraósseo (IO) durante a paragem cardíaca5. Esta mudança de paradigma baseia-se em evidência de alta qualidade publicada em 2024-2025. O ensaio clínico randomizado VICTOR, publicado no The BMJ em 2024, demonstrou que o acesso IV na extremidade superior apresenta menor tempo até à administração de fármacos e maiores concentrações plasmáticas de adrenalina comparativamente ao acesso IO na tíbia6. O

estudo complementar publicado no New England Journal of Medicine em 2025 confirmou estas descobertas numa coorte mais ampla, evidenciando taxas superiores de retorno à circulação espontânea (ROSC) no grupo IV7,8
A justificação farmacocinética é clara: durante a RCP, o fluxo sanguíneo é predominantemente sistémico; a administração IO requer tempo adicional para atingir a circulação central, podendo comprometer a eficácia da adrenalina nas primeiras doses críticas6
Contudo, estas orientações mantêm o acesso IO como alternativa válida quando o acesso IV não é viável em menos de 90 segundos ou implica interrupção das compressões torácicas5. Para os profissionais de emergência médica, isto implica uma abordagem hierarquizada: tentativa inicial de canalização periférica no membro superior (veia cefálica ou basílica), com recurso ao IO (tíbia proximal ou úmero proximal) apenas em caso de falha ou contraindicação. Em todas as circunstâncias, o balanço entre tempo de acesso e eficácia farmacocinética deve ser ponderado. Na prática, esta decisão é frequentemente influenciada pela experiência do operador e pelas condições do cenário, podendo justificar uma abordagem mais pragmática do que estritamente protocolada. Importa sublinhar que o determinante crítico não será exclusivamente a via de administração, mas sim o tempo até à primeira dose de adrenalina, devendo a escolha da via ser adaptada ao contexto operacional e à experiência da equipa.
3. DESFIBRILHAÇÃO: MUDANÇA DE VETOR E ESTRATÉGIAS PARA FV REFRACTÁRIA
As Guidelines ERC 2025 introduzem recomendações específicas para a abordagem da fibrilhação ventricular refractária, definida como persistência de ritmo chocável após três tentativas de desfibrilhação10 Neste contexto, recomenda-se considerar a mudança de vetor de desfibrilhação, através do reposicionamento dos elétrodos — tipicamente para configuração antero-posterior — com o objetivo de alterar a distribuição do campo elétrico através do miocárdio e aumentar a probabilidade de despolarização eficaz.
Esta estratégia deve ser integrada de forma estruturada após o terceiro choque, em articulação com a terapêutica farmacológica (nomeadamente administração de adrenalina e amiodarona), sem comprometer a continuidade das compressões torácicas.
A base fisiológica desta intervenção é plausível, estando relacionada com a impedância transtorácica e a orientação das fibras miocárdicas. No entanto, importa salientar que a evidência clínica que suporta esta estratégia permanece limitada, devendo a sua utilização ser enquadrada numa abordagem pragmática e sistematizada da FV refractária10 Por outro lado, as guidelines mantêm uma posição cautelosa relativamente à dupla desfibrilhação sequencial (DSD), cuja eficácia não está estabelecida, não sendo atualmente recomendada como prática standard.
4. POCUS DURANTE A RCP: INTEGRAÇÃO SELETIVA E SEGURA
A utilização de ecografia point-of-care (POCUS) durante a paragem cardíaca é considerada uma opção em contexto de operadores experientes, desde que não interfira com a qualidade das compressões torácicas5
O principal valor do POCUS reside na identificação rápida de causas potencialmente reversíveis de paragem cardíaca, nomeadamente tamponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo ou tromboembolismo pulmonar maciço, podendo orientar intervenções específicas5 Contudo, o POCUS deve ser entendido como uma ferramenta adjunta, limitada a avaliações rápidas e orientadas, e nunca como um exame diagnóstico completo. A sua utilização deve restringir-se a janelas temporais curtas, idealmente durante pausas naturais da RCP, com duração inferior a 10 segundos, evitando qualquer prolongamento da interrupção das compressões5
A realização de exames ecográficos prolongados ou tecnicamente exigentes durante a paragem cardíaca está associada à degradação da qualidade da RCP e deve ser evitada. Assim, a integração do POCUS depende criticamente da experiência do operador e da existência de treino prévio em cenários simulados10
5. SISTEMAS DE SAÚDE E CADEIA DE SOBREVIVÊNCIA
As Guidelines ERC 2025 reforçam o papel determinante dos sistemas de saúde na sobrevivência à paragem cardíaca, expandindo significativamente o conceito de “Systems


Saving Lives”9,10
Para além da formação da população em Suporte Básico de Vida e da implementação de programas de desfibrilhação precoce, destaca-se a necessidade de sistemas estruturados de monitorização da qualidade da RCP, incluindo registos nacionais de paragem cardíaca, auditoria sistemática e utilização de dispositivos de feedback em tempo real9
A educação da população é identificada como responsabilidade partilhada dos profissionais de saúde, sendo incentivada a utilização de metodologias inovadoras para aumentar a taxa de RCP por testemunhas e reduzir o tempo até à primeira intervenção. Contudo, importa reconhecer que, em muitos sistemas — incluindo o contexto português — persistem limitações na implementação uniforme destas estratégias, nomeadamente na distribuição de desfibrilhadores automáticos externos e na monitorização sistemática da qualidade da ressuscitação. A ausência de estruturas robustas de avaliação contínua constitui uma barreira significativa à melhoria dos resultados.
6. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
CLÍNICA E PROTOCOLOS INSTITUCIONAIS
A implementação das Guidelines ERC 2025 implica uma adaptação dos protocolos institucionais e uma reorientação prática das equipas de emergência médica.
Em primeiro lugar, deve ser reforçada a centralidade da qualidade da RCP nos minutos iniciais, garantindo compressões eficazes e minimizando
interrupções durante a integração de intervenções avançadas.
Em segundo lugar, a abordagem ao acesso vascular deve ser pragmática, privilegiando o acesso venoso periférico sempre que rapidamente exequível, sem atrasar a administração de fármacos.
Em terceiro lugar, estratégias como a mudança de vetor na desfibrilhação devem ser incorporadas em protocolos operacionais claros para a abordagem da fibrilhação ventricular refractária.
A implementação eficaz destas recomendações depende criticamente de treino estruturado em simulação, particularmente no que respeita à integração de intervenções avançadas sem interrupção das compressões torácicas, à tomada de decisão em tempo real e à coordenação de equipas multidisciplinares.
7. GESTÃO DA VIA AÉREA: PRAGMA-
TISMO VS CONTROLO DEFINITIVO
As Guidelines ERC 2025 reforçam uma abordagem progressiva à gestão da via aérea durante a paragem cardíaca, privilegiando inicialmente técnicas simples e rapidamente exequíveis, como ventilação com máscara e balão, com progressão para dispositivos supraglóticos e, posteriormente, entubação orotraqueal em operadores experientes4 O objetivo central não é a obtenção precoce de uma via aérea definitiva, mas sim a garantia de ventilação eficaz sem comprometer a continuidade das compressões torácicas. A entubação deve ser realizada apenas quando não implique interrupções prolongadas ou múltiplas tentativas.
A hiperventilação deve ser evitada, dado o seu impacto negativo no retorno venoso e na perfusão coronária. A decisão de avançar para via aérea definitiva, na prática, deve ser individualizada, tendo em conta a não só experiência do operador, mas também o momento de RCP, podendo em muitos casos uma estratégia menos invasiva ser mais eficaz na preservação da qualidade global de RCP.
8. ADRENALINA: TIMING, EVIDÊNCIA E CONTROVÉRSIA
A administração de adrenalina mantém-se recomendada nas Guidelines ERC 2025, sendo preconizada precocemente em ritmos não chocáveis e após o terceiro choque em ritmos chocáveis. Contudo, persiste controvérsia quanto ao seu impacto nos outcomes neurológicos, apesar da sua associação consistente com aumento das taxas de retorno à circulação espontânea12
Este equilíbrio entre benefício hemodinâmico imediato e potencial impacto neurológico a longo prazo reforça a necessidade de integração da administração de adrenalina numa estratégia global de ressuscitação de elevada qualidade.
9. CAPNOGRAFIA: FERRAMENTA CENTRAL NA RCP
A capnografia quantitativa assume um papel central na monitorização da paragem cardíaca, permitindo confirmar a correta colocação da via aérea, avaliar indiretamente a qualidade das compressões torácicas e identificar precocemente sinais de retorno à circulação espontânea.
DOMÍNIO
Primeiros 3-5 minutos
Integração SBV-SAV
Acesso vascular
Desfibrilhação
POCUS
MENSAGEM-CHAVE
Janela crítica para sobrevivência neurológica
Abordagem em continuum, sem interrupções
IV preferido, mas tempo é determinante
Mudança de vetor após 3 choques
Ferramenta adjunta e dependente do operador
Sistemas de saúde “Systems saving lives” como determinante de outcome
Qualidade da RCP
Via aérea
Adrenalina
Capnografia
Valores persistentemente baixos podem sugerir RCP ineficaz, enquanto aumentos súbitos de ETCO2 podem indicar recuperação da circulação. Assim, mais do que um valor absoluto isolado, a tendência evolutiva de ETCO2 ao longo da ressuscitação assume particular relevância na avaliação da eficácia global da RCP.
CONCLUSÃO
As Guidelines ERC 2025 traduzem uma evolução conceptual no Suporte Avançado de Vida, deslocando o foco de uma abordagem predominantemente algorítmica para uma lógica mais pragmática, centrada no tempo, na qualidade da execução e na integração das intervenções. Mais do que introduzir novas técnicas, estas recomendações reforçam a importância de executar de forma consistente e precoce os
Principal determinante modificável
Abordagem progressiva e pragmática
Benefício em ROSC, controvérsia neurológica
Ferramenta central de monitorização
IMPLICAÇÃO PRÁTICA
Priorizar reconhecimento precoce, compressões de qualidade e desfibrilhação imediata; evitar atrasos por intervenções avançadas
Integrar intervenções avançadas sem interromper RCP; evitar pausas para “reorganização”
Tentar IV rapidamente (<60-90s); usar IO se atraso ou dificuldade; foco no tempo até adrenalina
Reposicionar elétrodos (ex: antero-posterior); integrar em algoritmo de FV refractária
Utilizar apenas se não interromper compressões; avaliações rápidas (<10s)
Investir em formação populacional, DAE, auditoria e feedback de RCP
Monitorizar continuamente; minimizar interrupções; otimizar compressões
Ventilação manual supraglótico entubação (se experiente); evitar pausas prolongadas
Administrar conforme algoritmo, integrada numa RCP de alta qualidade
Confirmar via aérea, avaliar qualidade da RCP e identificar ROSC precocemente
pilares fundamentais da ressuscitação, tais como compressões torácicas eficazes, desfibrilhação atempada e administração adequada de terapêutica. Estratégias como a priorização do acesso venoso periférico, a mudança de vetor na desfibrilhação ou a utilização seletiva do POCUS devem ser entendidas como ferramentas complementares, cuja eficácia depende do contexto e da sua integração num sistema funcional. Neste enquadramento, a melhoria dos resultados em paragem cardiorrespiratória dependerá menos da sofisticação técnica isolada e mais da capacidade das equipas e dos sistemas de saúde em garantir uma resposta coordenada, treinada e orientada para a qualidade. A implementação destas guidelines constitui, assim, não apenas um desafio técnico, mas sobretudo organizacional e cultural

BIBLIOGRAFIA
1. Rott N, et al. The new European Resuscitation Council (ERC) guidelines 2025-Overview of the most important changes; the first 3-5 min are decisive. Anaesthesiologie. 2026;75(1). doi: 10.1007/s00101-025-01619-1
2. The 2025 updated European Resuscitation Council (ERC) Guidelines: overview of the most important changes. QxMD Read. 2025.
3. Resuscitation Council UK. 2025 Resuscitation Guidelines. Resus.org.uk. 2025.
4. Panchal AR, et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2025;152(18). doi: 10.1161/ CIR.0000000000001376
5. European Resuscitation Council Guidelines 2025 Adult Advanced Life Support. Resuscitation. 2025. doi: 10.1016/S0300-9572(25)00281-3
6. Ko YC, et al. Intraosseous versus intravenous vascular access in upper extremity among adults with out-of-hospital cardiac arrest: cluster randomised clinical trial (VICTOR trial). BMJ. 2024;386:e079878. doi: 10.1136/bmj-2024079878
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8. Vallentin MF, et al. Intraosseous or Intravenous Vascular Access for Out-of-Hospital Cardiac Arrest. N Engl J Med. 2025;392:349-360.
9. Soar J, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Systems saving lives. Resuscitation. 2025.
10. Perkins GD, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Adult advanced life support. Resuscitation. 2025.
11. Olasveengen TM, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Adult basic life support. Resuscitation. 2025.
12. Couper K, et al. A randomized trial of drug route in out-of-hospital cardiac arrest. N Engl J Med. 2024;392:336-348. doi: 10.1056/NEJMoa2407780



REVISÃO
DANIEL GARRIDO
Médico VMER do Barlavento Algarvio
EDITOR
JORGE MIGUEL MIMOSO Médico Coordenador VMER do Barlavento Algarvio
EDITOR

ADVANCING HUMAN HIBERNATION RESEARCH IN PARTNERSHIP WITH DISASTER MEDICINE AND MILITARY KNOW-HOW FROM TORPOR THEORY TO FIELD APPLICATION: HOW EMERGENCY RESPONSE SCENARIOS ARE OPENING NEW PATHWAYS TOWARD HUMAN HYPOMETABOLISM
Kostioukhina Ekaterina1, Aquilino Verónica do Carmo2, César Nelson3
1Extreme Medicine Expert, HIBERIA (Hibernation Intelligence Base for Educational Research and International Alliance), Harvard University 2Secretary- General European Council of Disaster Medicine, Disaster Medicine Instructor, MEDKAUS Militar Coach Disaster Medicine Coordinator, Counter-Terrorism Medicine Europe (CTM-E) Board 3Portuguese Paratrooper and Commando, Military Special Forces, Militar Coach Coordinator
ABSTRACT
When rescue cannot arrive in time, survival depends on how efficiently the body manages what remains. The deliberate reduction of metabolic rate is not a theoretical concept, it is a biological capability, grounded in hibernation science, with direct applications in disaster medicine, aerospace medicine, and military training. This article argues that integrating metabolic conservation into the disaster preparedness cycle is both scientifically feasible and operationally urgent.
Keywords: hypometabolism · disaster gap · quasitorpor · space medicine · survival physiology
INTRODUCTION
When rescue cannot arrive in time, survival depends on one variable: how efficiently the body manages the resources it has left. Oxygen, water, and caloric reserves are finite. Carbon dioxide clearance can be compromised in the immediate environment. Their rate of depletion and production is not fixed — it is modulated by metabolic rate. And metabolic rate, under the right conditions, can be deliberately reduced. Hibernating mammals routinely suppress their metabolism by 70–95%, tolerate extreme physiological stress, and emerge intact. The molecular machinery that governs this process — adenosine signaling, autonomic regulation, metabolic substrate switching — exists in humans1. What does not yet exist is a validated, deployable protocol for activating it under field conditions. This article argues that building that protocol is both scientifically feasible and operationally urgent, and that the disaster medicine and military medicine communities are uniquely positioned to advance it.

The science is ready for translation Targeted Temperature Management offered the first clinical evidence that deliberate human metabolic suppression was achievable, demonstrating neuroprotection through mild hypothermia in cardiac arrest survivors. However, its dependence on specialized equipment and intensive monitoring limits applicability in resource-constrained environments, and subsequent trials tempered initial enthusiasm2. Human hibernation research stepped back from Technology Readiness Level 83) to level 4 — not a failure, but a recalibration toward a more achievable target.
The emergence of quasitorpor and shallow torpor as research constructs reframes the question productively4. The goal is not deep, equipment-dependent hibernation. It is a modest 10–20% reduction in resting metabolic rate, achievable through means the human body already possesses. Even this modest reduction meaningfully extends survival windows: less oxygen
consumed, less CO2 produced, less water demanded. In a sealed debris void, a compromised habitat, or a buried snow pocket, that margin is the difference between rescue and recovery of a body.
The operational need is already present. The scenarios where hypometabolism would save lives are not hypothetical. Earthquake survivors trapped in structural collapse, miners in sealed atmospheres, avalanche victims with closing air pockets, divers with failed equipment, crews on future lunar stations with compromised life support — all share the same defining constraint: metabolic demand is exceeding available resources, and organized rescue has not yet arrived.
This interval — the Disaster Gap — is the window where hypometabolic techniques have the greatest potential impact, and where, by definition, no external tools are available. A deployable protocol must therefore begin with what the human body can do for itself: controlled breathing, parasympathetic activation, panic suppression, deliberate stillness. Equipment and pharmacology are augmenters. The body is the foundation.
NASA's Gateway lunar station, currently in development for lunar-distance orbit, makes the space medicine dimension of this argument urgent. Unlike the International Space Station, where emergency return takes hours, Gateway will require days to weeks for evacuation. CO2 scrubber failure, oxygen generation anomalies, or water recycling disruptions will be managed with on-board resources only5. Hypometa-
bolic crew protocols could extend every life support margin simultaneously — and the astronaut, like the earthquake survivor, will have nothing but their own physiology to work with in the critical first hours.
A pilot program, a proof of concept, and a path forward.
The integration of hypometabolic survival scenarios into disaster response training is now underway within the MEDKAUS–MILITAR COACH–HIBERIA collaboration, as part of iterative quality improvement cycles. The premise is disarmingly simple: in an emergency, a survivor may have nothing. No equipment, no medication, no trained rescuer present. Whatever protocol exists must work with that constraint as its starting point — not as an exception, but as the design rule.
This is a call to action. The breathing techniques, parasympathetic shifting strategies, and behavioral interventions that could form the foundation of a deployable hypometabolic protocol already exist in scattered form across free-diving physiology, stress inoculation research, autonomic neuroscience, and military conditioning methodology. What does not yet exist is a systematic review of that literature oriented toward disaster applicability — identifying what is effective, what is teachable to non-specialists, and what can be realistically tested in field training scenarios. That work needs to happen in the disaster scenario training as the laboratory.
The path forward proceeds in stages: first, establishing a baseline through repeated scenario deployment with
heart rate and respiratory rate monitoring as field-accessible metabolic proxies; second, introducing and evaluating non-invasive techniques including controlled breathing protocols, cold-face vagal stimulation, and postural interventions; and third, as evidence matures, incorporating pharmacological adjuncts selected for safety, simplicity of administration, and compatibility with the autonomic foundation established in earlier tiers.
Biological Sovereignty in the Field:
The Intersection of Disaster Medicine, Space Medicine, and Military Special Forces.
The hypometabolism protocol integration in disaster medicine under the aegis of merging these three fields represents a paradigm shift in operational survival, transforming the Disaster Gap into a maneuver of biological flanking. Our aim is to dominate time through mastery of the body, ensuring that mission success is measured by the expansion of human biological limits in the face of chaos and uncertainty.
CONCLUSION
Disaster medicine has taught us to expect the unexpected and to prepare for it anyway. The Disaster Gap is not a new problem — it is a persistent one. What is new is the recognition that the human body, properly trained, carries a survival tool that has never been formally deployed: the capacity to slow itself down. Hypometabolism is not a technology waiting to be invented. It is a biological capability waiting to be trained. The conver-

gence of hibernation science, disaster medicine experience, and military conditioning methodology creates, for the first time, a credible pathway from laboratory concept to field protocol. The question is not whether this is possible. The question is whether we will build the evidence base before the operational need makes it unavoidable


BIBLIOGRAFIA
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TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS AVANÇANDO A INVESTIGAÇÃO EM HIBERNAÇÃO HUMANA EM SINERGIA COM A MEDICINA DE CATÁSTROFE E O KNOW-HOW MILITAR DO CONCEITO DE TORPOR À APLICAÇÃO NO TERRENO: COMO OS CENÁRIOS DE RESPOSTA A EMERGÊNCIAS ESTÃO A ABRIR NOVOS CAMINHOS PARA O HIPOMETABOLISMO HUMANO
RESUMO
Quando o resgate não pode chegar a tempo, a sobrevivência depende de quão eficientemente o corpo gere o que resta. A redução deliberada da taxa metabólica não é um conceito teórico; é uma capacidade biológica, fundamentada na ciência da hibernação, com aplicações diretas na medicina de catástrofe, medicina aeroespacial e treino militar. Este artigo defende que integrar a conservação metabólica no ciclo de preparação para desastres é simultaneamente cientificamente viável e operacionalmente urgente.
Palavras chave: hipometabolismo · intervalo de desastre · quasitorpor · medicina espacial · fisiologia da sobrevivência
INTRODUÇÃO
Quando o resgate não pode chegar a tempo, a sobrevivência depende de uma variável: quão eficientemente o corpo gere os recursos que ainda possui. Oxigénio, água e reservas calóricas são finitos. A eliminação de dióxido de carbono pode ser comprometida no ambiente imediato. A sua taxa de consumo e produção não é fixa — é modulada pela taxa metabólica. E a taxa metabólica, nas condições certas, pode ser deliberadamente reduzida.
Mamíferos hibernantes suprimem rotineiramente o seu metabolismo em 70–95%, toleram stress fisiológi-
co extremo e emergem intactos. A maquinaria molecular que governa este processo — sinalização da adenosina, regulação autonómica, mudança de substratos metabólicos — existe nos humanos1. O que ainda não existe é um protocolo validado e aplicável no terreno para o ativar. Este artigo defende que construir esse protocolo é simultaneamente cientificamente viável e operacionalmente urgente, e que as comunidades da medicina de catástrofe e da medicina militar estão numa posição única para o impulsionar.
A ciência está pronta para a tradução.
A Gestão Direcionada da Temperatura ofereceu a primeira evidência clínica de que a supressão metabólica humana deliberada era possível, demonstrando neuroproteção através de hipotermia ligeira em sobreviventes de paragem cardíaca. Contudo, a sua dependência de equipamento especializado e monitorização intensiva limita a aplicabilidade em ambientes com poucos recursos, e estudos subsequentes moderaram o entusiasmo inicial2
A investigação em hibernação humana recuou do Nível 8 de Prontidão Tecnológica3 para o nível 4 — não como falha, mas como recalibração para um objetivo mais alcançável. O surgimento dos conceitos de quasitorpor e torpor superficial reformula a questão de forma produtiva4. O objetivo não é uma hibernação profunda dependente de tecnologia. É uma redução modesta de 10–20% da taxa metabólica basal, alcançável através de mecanismos que o corpo humano já possui. Mesmo esta redução modesta prolonga significa-
tivamente as janelas de sobrevivência: menos oxigénio consumido, menos CO2 produzido, menor necessidade de água. Num vazio de escombros selado, num habitat comprometido ou numa bolsa de neve enterrada, essa margem é a diferença entre resgate e recuperação de um corpo.
A necessidade operacional já existe. Os cenários onde o hipometabolismo salvaria vidas não são hipotéticos. Sobreviventes de sismos presos em estruturas colapsadas, mineiros em atmosferas seladas, vítimas de avalanches com bolsas de ar a fechar, mergulhadores com falha de equipamento, tripulações em futuras estações lunares com suporte de vida comprometido — todos partilham a mesma limitação: a procura metabólica excede os recursos disponíveis, e o resgate organizado ainda não chegou.
Este intervalo — o Intervalo do desastre — é a janela onde técnicas hipometabólicas têm maior impacto e onde, por definição, não existem ferramentas externas. Um protocolo aplicável deve, portanto, começar pelo que o corpo humano pode fazer sozinho: respiração controlada, ativação parassimpática, supressão do pânico, imobilidade deliberada. Equipamento e farmacologia são complementos. O corpo é a base.
A estação lunar Gateway da NASA, atualmente em desenvolvimento para órbita lunar, torna urgente a dimensão da medicina espacial. Ao contrário da Estação Espacial Internacional, onde o retorno de emergência demora horas, a Gateway exigirá dias a semanas para evacua-

ção. Falhas nos scrubbers de CO2, anomalias na geração de oxigénio ou falhas no sistema de reciclagem de água terão de ser geridas apenas com recursos a bordo5. Protocolos hipometabólicos das equipas poderiam aumentar simultaneamente todas as margens de suporte de vida — e o astronauta, tal como o sobrevivente de um sismo, terá apenas a sua própria fisiologia nas primeiras horas críticas.
Um programa piloto, uma prova de conceito e um caminho a seguir.
A integração de cenários de sobrevivência hipometabólica no treino de resposta a desastres está agora em curso na colaboração MEDKAUS–MILITAR COACH–HIBERIA, como parte de ciclos iterativos de melhoria contínua.
A premissa é simples: numa emergência, um sobrevivente pode não ter nada. Sem equipamento, sem medicação, sem socorrista treinado presente. Qualquer protocolo existente deve funcionar com essa limitação como ponto de partida — não como exceção, mas como regra de design.
Este é um apelo à ação. As técnicas de respiração, estratégias de ativação parassimpática e intervenções comportamentais que podem formar a base de um protocolo hipometabólico aplicável já existem, dispersas pela fisiologia do mergulho livre, investigação em inoculação ao stress, neurociência autonómica e metodologia de condicionamento militar. O que ainda não existe é uma revisão sistemática dessa literatura orientada para a aplicabilidade em desastres — identificando o que é
eficaz, o que é ensinável a não especialistas e o que pode ser realisticamente testado em cenários de treino no terreno. Esse trabalho precisa acontecer no treino de cenários de desastre como laboratório.
O caminho segue em etapas:
1. estabelecer uma linha de base através de repetidas implementações de cenários com monitorização de frequência cardíaca e respiratória como parâmetros metabólicos acessíveis no terreno; 2. introduzir e avaliar técnicas não invasivas, incluindo protocolos de respiração controlada, estimulação vagal por frio no rosto e intervenções posturais; 3. à medida que a evidência amadurece, incorporar adjuvantes farmacológicos selecionados pela segurança, simplicidade de administração e compatibilidade com a base autonómica estabelecida nas fases anteriores.
A Soberania Biológica no Terreno: A Interseção entre Medicina de Catástrofe, Medicina Espacial e Forças Militares Especiais
A integração do protocolo de hipometabolismo na medicina de catástrofe sob a égide da metodologia MilitarCoach e HIBERIA representa uma quebra de paradigma na sobrevivência operacional, transformando o "Disaster Gap" numa manobra de flanqueamento biológico. O nosso objetivo é dominar o tempo através do domínio do corpo, garantindo que o sucesso da missão seja medido pela expansão dos limites biológicos humanos perante o caos e a incerteza.
CONCLUSÃO
A medicina de catástrofe ensinou-nos a esperar o inesperado e a preparar-nos mesmo assim. O Disaster Gap não é um problema novo — é um problema persistente. O que é novo é o reconhecimento de que o corpo humano, devidamente treinado, possui uma ferramenta de sobrevivência que nunca foi formalmente utilizada: a capacidade de se abrandar.
O hipometabolismo não é uma tecnologia à espera de ser inventada. É uma capacidade biológica à espera de ser treinada. A convergência da ciência da hibernação, da experiência em medicina de catástrofe e da metodologia de condicionamento militar cria, pela primeira vez, um caminho credível do conceito laboratorial ao protocolo de campo.
A questão não é se isto é possível. A questão é se construiremos a base de evidência antes de a necessidade operacional o tornar inevitável

BIBLIOGRAFIA. Vide REFERENCES no final da versão original em inglês

EDITORA


COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
VERÓNICA AQUILINO Secretária-Geral do ECDM (European Council of Disaster Medicine). Formadora em Medicina de Catástrofe.

GARROTE NO CONTROLO DE HEMORRAGIA AGUDA EM CONTEXTO PRÉ-HOSPITALAR: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA TOURNIQUET IN THE CONTROL OF ACUTE HEMORRHAGE IN THE PRE-HOSPITAL SETTING: A SYSTEMATIC REVIEW
Catarina Costa1, Eduardo Cernadas2, Ricardo Pinto3
1Interna de Formação Especializada de Medicina Intensiva, Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga, Santa Maria da Feira (https://orcid.org/0009-0005-6084-0524).
2Assistente Hospitalar de Medicina Intensiva, Medicina Interna e Competência em Emergência Médica, Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga, Santa Maria da Feira
3Assistente Hospitalar Graduado de Medicina Interna e Medicina Intensiva. Diretor do Serviço de Medicina Intensiva, Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga, Santa Maria da Feira
RESUMO
A hemorragia é uma das principais causas de morte evitável no trauma, particularmente na abordagem pré-hospitalar. A aplicação do garrote (ou torniquete), dispositivo aplicado em hemorragias de extremidade, é reconhecida como uma intervenção que salva vidas. Esta revisão sistemática tem como objetivo resumir a evidência atual sobre a sua eficácia e segurança em ambientes pré-hospitalares para a gestão inicial de hemorragias incontroláveis. Realizou-se uma pesquisa e seleção de artigos para revisão pela metodologia PRISMA. Com recurso às bases de dados PubMed, EMBASE, Cochrane e Web of Science, definido o período entre 2000 e 2025 e selecionando termos como "torniquete", "hemorragia pré-hospitalar" e "trauma", 50 estudos cumpriram os critérios de inclusão. Esta revisão engloba populações civis e militares, e avalia como outcomes a eficácia, mortalidade, necessidade de transfusão, necessidade de amputação e complicações diretas da aplicação de torniquete.

Os resultados sugerem que o uso precoce e adequado de torniquete reduz a mortalidade e necessidade de transfusão, quando aplicados nas primeiras duas horas após o trauma. Embora complicações associadas (como isquemia, lesão nervosa e síndrome compartimental), sejam relatadas, encontram-se frequentemente ligadas ao uso prolongado ou incorreto do dispositivo. Os torniquetes fabricados comercialmente apresentaram desempenho superior ao dos improvisados e os sistemas de atendimento pré-hospitalar portugueses parecem ter protocolos atualizados para as equipas de emergência. Esta revisão conclui que, quando usados adequadamente, os torniquetes são ferramentas essenciais no controlo da hemorragia extensa. Estudos específicos para cada contexto continuam a ser necessários para maximizar os benefícios e minimizar os danos.
ABSTRACT
Hemorrhage remains one of the leading causes of preventable death in trauma, particularly in prehospital settings. The application of a tourniquet, a device applied proximally to bleeding extremities, is recognized as a life-saving intervention. This systematic review aims to summarize current evidence regarding its efficacy and safety in prehospital settings to manage uncontrolled hemorrhage.
A PRISMA-guided search was conducted in PubMed, EMBASE, Cochrane and Web of Science for studies published between 2000 and 2025, focusing on terms such as "tourniquet", "prehospital hemorrhage" and "trauma". Fifty studies met inclusion criteria, encompassing both civilian and military populations and evaluating outcomes such as efficacy, mortality, transfusion requirements, amputation and direct complications of the device’s use. Findings suggest that early and proper tourniquet use reduces mortality and the need for transfusion, when applied within two hours of injury. While
Palavras-Chave: Hemorragia, Torniquete, Trauma, Emergências, Primeiros Socorros
associated complications such as ischemia, nerve damage and compartment syndrome are reported, these are often linked to prolonged or incorrect use. Commercially manufactured tourniquets consistently outperformed improvised devices. Portuguese prehospital systems appear to have up-to-date protocols in place for emergency teams. This review concludes that when used appropriately, tourniquets are essential tools in hemorrhage control. Context-specific studies remain critical to maximize benefit and minimize harm.
Keywords: Hemorrhage, Tourniquets, Trauma, Emergencies, First Aid
1 - INTRODUÇÃO
Em contexto de trauma, a hemorragia constitui uma das principais causas de morte evitável, sobretudo quando há progressão para choque hemorrágico consequente.1,2 O controlo precoce da hemorragia externa representa, assim, um pilar fundamental, sendo particularmente relevante em ambiente pré-hospitalar, onde atrasos no controlo hemorrágico podem ter impacto significativo na sobrevivência.
A abordagem inicial à vítima encontra-se universalmente estabelecido com o protocolo ABCDE, proposto pelo American College of Surgeons e amplamente disseminada pelas orientações clínicas do Advanced Trauma Life Support (ATLS). Há, contudo, uma ressalva que se prende com a existência de hemorragia exsanguinante, que assume o primeiro lugar na ordem de gestão de problemas, quando identificada.2
Neste enquadramento, iniciativas internacionais orientadas para a redução da mortalidade evitável por hemorragia, como o Hartford Consensus ou a campanha Stop the Bleed vieram reforçar a importância do controlo hemorrágico precoce no trauma grave.3-4
Assim, os objetivos na estabilização clínica do doente passam pelo controlo de hemorragia, ressuscitação volémica e estabilização hemodinâmica, com início de transporte o mais rapidamente possível para um hospital com capacidade cirúrgica e suporte transfusional.2,5,6
24
Uma lesão distrativa não deverá ser confundida com esta situação ameaçadora de vida e essa distinção é um passo determinante no algoritmo a seguir. As atitudes a adotar podem ser mecânicas e/ou farmacológicas. Particularmente nas mecânicas, ao escolher a mais apropriada, é necessário considerar dois grupos. Por um lado, a hemorragia em local compressível e por outro em local não compressível.2 Estas atitudes podem geralmente ser explicadas de forma breve e simples no momento de ativação telefónica de socorro e iniciadas por qualquer pessoa presente no local, mesmo sem formação em saúde, antes da chegada das equipas de emergência. A compressão mecânica é a primeira linha; deve ser manual e diretamente aplicada sobre o(s) vasos(s) sangrante(s), se identificado(s).5-7 Se esta atitude for insuficiente, a aplicação de torniquete deve ser considerada perante a hemorragia de extremidades.5,6,8 O torniquete ou garrote é um dispositivo posicionado proximalmente ao local da
hemorragia com intuito de diminuir a irrigação sanguínea para os tecidos a jusante do dispositivo e, consequentemente, cessá-la.2
O foco da presente publicação incide sobre o uso do garrote ou torniquete no contexto de trauma em setting pré-hospitalar, uma vez que o benefício imediato e o risco a médio-longo prazo do uso destes dispositivos são continuamente debatidos, especialmente quando o tempo de transporte do doente até ao local de tratamento definitivo é prolongado. 8 Esta revisão sistemática tem, portanto, como objetivo, avaliar criticamente a evidência atual sobre a utilização de torniquetes no contexto pré-hospitalar, focando-se na sua eficácia, segurança e práticas recomendadas. Pretende ainda refletir sobre os protocolos vigentes em Portugal e perceber se se encontram atualizados à luz das recomendações internacionais mais recentes.
2 - METODOLOGIA
Com recurso às ferramentas de inteligência artificial (Open AI®), foi efetuada uma pré-seleção de artigos considerados para revisão. Para este efeito, os autores definiram as palavras-chave “tourniquet”, “prehospital hemorrhage”, “extremity trauma”, “bleeding control”, “hemorrhage control”, “trauma patient”, “emergency bleeding management”, “penetrating trauma”, “civilian trauma”, “traumatic injury”, “field hemostasis”, “trauma”, “torniquete”, “garrote”, “hemorragia compressível”, “pré-hospitalar" e optaram por não fazer restrição de idioma de publicação. Para otimiza-
ção da qualidade de dados e, consequentemente, da força da evidência, a pesquisa foi limitada às principais bases de dados médicos disponíveis online, designadamente a PubMed, a EMBASE, a Cochrane Library e a Web of Science. Selecionou-se o período abrangido entre 2000 e 2025 e definiram-se os seguintes critérios de inclusão:
• Estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas e meta-análises;
• População adulta (militar ou civil) com trauma e hemorragia de extremidades;
• Intervenção com torniquete (comercial ou improvisado);
• Mortalidade ou sobrevivência a curto prazo.
Os autores definiram que seriam excluídos estudos exclusivamente intrahospitalares, literatura com dados empíricos (opiniões, cartas, editoriais), casos clínicos isolados ou em que o uso de torniquete foi usado em contextos não traumáticos.
Excluíram-se ainda os que se enquadravam em nível 4 de evidência pela classificação Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation (GRADE). Para este processo foram seguidas as diretrizes PRISMA (Figura 1).9
3 - RESULTADOS
3.1 - Processo de seleção
De 3456 publicações identificadas, 50 foram incluídas após processo de seleção e aplicação de critérios de inclusão e exclusão (Figura 1). As amostras variaram entre 4 a 1409

doentes, com as amostras mais pequenas encontradas maioritariamente nos estudos observacionais. Foram encontrados dados de países variados, com resultados referentes a cenários militares (Afeganistão, Iraque, Rússia, Ucrânia), civis (Estados Unidos da América, Alemanha, Noruega) ou mistos (Israel, Reino Unido). As revisões sistemáticas e metanálises frequentemente agregaram simultaneamente dados de vários países.
3.2 - Eficácia
Face à sua evicção, a evidência mostra que o uso de torniquete se associa a redução da mortalidade e aumento da sobrevida8, 10-24, menor necessidade de transfusões de hemoderivados (incluindo plasma fresco congelado e unidades de concentrado eritrocitário)16,17,25-28, menor tempo até ao controlo de hemorragia e limitação da progressão fisiopatológica para choque hemorrágico.22,29 Outros benefícios

mencionados incluem a diminuição da necessidade de ressuscitação volémica com fluidoterapia agressiva e o ganho de tempo para intervenções definitivas hospitalares.20,22
3.2.1 - Mortalidade
A redução da mortalidade associada ao uso pré-hospitalar de torniquetes foi estatisticamente significativa em estudos observacionais civis e militares17-19, enquanto outras revisões e coortes demonstram uma tendência consistente favorável, embora sem confirmação estatística formal.16,20-23 Observou-se uma redução reportada da mortalidade em até 30%.11,30 Já as metanálises apontaram para um risco relativo de mortalidade de aproximadamente 0,70 (IC 95% 0,46–1,07), sugerindo benefício clínico relevante, embora o intervalo de confiança cruzasse a unidade.10,11
Figura 1. Metodologia: Processo de seleção de artigos segundo as recomendações PRISMA.

3.2.2 - Transfusão de hemoderivados
Relativamente ao uso de hemoderivados, Smith et al. observou uma diferença estatisticamente significativa na quantidade destes produtos transfundidos no grupo que utilizou torniquete.30 Em média, este grupo precisou de 2 unidades de concentrado de eritrócitos em comparação com 9,3 unidades em média no grupo que não o usou (2.0 ± 0.1 vs. 9.3 ± 0.6, p < 0.001). As necessidades de plasma fresco congelado seguiram a mesma direção (1.4 ± 0.08 vs. 6.2 ± 0.4, p < 0.001). Apesar de nem todos atingirem a significância estatística, esta tendência parece ser suportada por diversos estudos, indicando
menor gravidade fisiológica no momento de abordagem hospitalar nos grupos com torniquete previamente aplicado.10-15,31,32
3.2.3
- Amputações
As amputações imediatas ou realizadas nas primeiras horas ou dias após o trauma são consideradas precoces e foram relacionadas com a gravidade da lesão inicial, geralmente infligidas por trauma de maior cinética, como por explosão ou esmagamento, e não diretamente relacionadas com o uso do torniquete.12,24,31,32
Segundo Kragh JF et al., em contexto militar, as amputações tardias parecem ser eventos menos frequen-
tes quando o torniquete é aplicado precocemente em comparação com aqueles em que houve atraso ou não uso (1% versus 6%).13 Este facto pode dever-se com a limitação da hemorragia e menor e menor deterioração fisiológica sistémica.
Assim, a aplicação precoce do torniquete está correlacionada com outcomes favoráveis e a evidência não sugere a necessidade de alívio de garrote dentro de um intervalo de tempo inferior a 2 horas, considerando a intervenção globalmente segura.33,34
As complicações reportadas, como neuropraxia, rabdomiólise e isquemia transitória, foram geralmente autolimitadas e reversíveis.13-14,29,31
Quando este dispositivo é aplicado por períodos mais prolongados, recomenda-se a conversão de torniquete. Esta técnica consiste na aplicação de um segundo torniquete mais proximal ao primeiro, com alívio gradual do torniquete original enquanto se observa a ferida continuamente. Se a hemorragia não reiniciar, o torniquete pode ser removido ou optar-se por métodos alternativos de controlo de hemorragia, como agentes físicos hemostáticos ou compressão direta; caso contrário, deve ser mantido e reajustado. 14,35
Ressalva-se que, em ambientes civis, uma proporção significativa dos torniquetes foi inicialmente aplicada por socorristas leigos e forças de segurança muitas vezes sem formação formal e com soluções improvisadas. Iniciativas civis estruturadas de controlo de hemorragia, como o Hartford Consensus e a campanha Stop the Bleed , visam mitigar esta lacuna

formativa. 3,4 Os torniquetes comerciais (em Portugal, preconizados os C.A.T.®, SAM XT®, SOF TT®) mostraram-se significativamente mais eficazes e seguros do que os improvisados, além de mais fáceis de aplicar corretamente mesmo que a primeira abordagem seja feita por elementos não experientes. 35,36 No entanto, por norma, estes dispositivos só estão disponíveis geralmente à chegada das equipas de emergência, limitando a aplicabilidade universal desta vantagem.
3.3 - Complicações diretas da aplicação do garrote
A evidência confirma o que a literatura sugere quanto às principais complicações associadas ao uso de compressão mecânica. Se até às duas horas de aplicação do garrote o benefício supera o dano, a partir desse tempo há um risco crescente de lesões musculares (rabdomiólise, síndrome compartimental ou, mais tarde, síndrome miofascial), lesões vasculares e necrose cutânea, lesões nervosas periféricas ou amputações (particularmente se feridas com destruição tecidual associada).13,15,18,31,32,37 Com tempos mais longos de torniquete pode associar-se um aumento da incidência de lesão renal aguda relacionada com fenómenos de isquemia-reperfusão, potencialmente aumentando a necessidade de técnicas de substituição renal (o que globalmente diminui a probabilidade sobrevivência).8
Destacam-se, no entanto, as contraindicações absolutas ao alívio do garrote, nomeadamente hemorragia não controlada, a presença de choque e a amputação

completa ou quase completa de extremidade. 12 O transporte rápido até a um hospital não constitui, por si só, indicação absoluta para o alívio do garrote previamente à chegada à urgência, sobretudo em hemorragia abundante. 12,35
4 - DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão indicam que o uso do torniquete na hemorragia grave por trauma em contexto pré-hospitalar apresenta uma associação favorável com a redução da mortalidade e da necessidade de transfusão, particularmente em casos de hemorragia ativa em extremidades, com ou sem choque hemorrágico associado. Será adequado inferir que, consequentemente, existirá redução de outras complicações associadas à intervenção, ou seja, minimização da iatrogenia (por exemplo, pensar que o número absoluto de reações adversas aos hemoderivados transfundidos terá sido menor, pelo facto de que se transfundiu menos).20,26-28 Apesar da tendência demonstrada, a maioria dos dados vem de estudos
observacionais civis e militares, além de coortes retrospectivas, o que limita a robustez dos dados disponíveis. Ainda assim, os riscos, incluindo lesão nervosa, síndrome compartimental e rabdomiólise, associam-se sobretudo ao tempo de aplicação excessivo (maximizados com o prolongamento da compressão superior a duas horas) e à técnica inadequada. A evidência também destaca a necessidade de uma avaliação criteriosa, uma vez que, sem uma necessidade clara do seu uso, os riscos de lesões iatrogénicas tornam-se significativos.14 Há ainda que ressalvar que os doentes nos quais foi aplicado garrote se tratavam, em geral, de situações de maior gravidade, o que comporta um viés na avaliação de complicações e sequelas. É importante destacar que nestes cenários estamos perante vítimas críticas, nas quais o facto de se obter controlo hemorrágico não diminui a necessidade de vigilância apertada. Ou seja, a eficácia do uso de torniquete não deve levar ao transporte prolongado sem vigilância médica.12,33 Particularmente em Portugal, os protocolos de primeira abordagem, como os do Instituto Nacional de
Emergência Médica (INEM) e das unidades locais de saúde, orientam o uso do garrote como segunda linha apenas quando a compressão manual direta é insuficiente e falha no controlo de uma hemorragia arterial grave.36 Esta metodologia está em conformidade com as principais recomendações internacionais, registando obrigatoriamente a hora de aplicação do torniquete, quando usado.33,38,39 Algumas ainda sugerem a elevação do membro, que atualmente já não se encontra nos protocolos mais atualizados.11 Em hemorragias de membros em que não é possível controlo com aplicação direta de pressão, especialmente com sinais de exsanguinação, o torniquete é frequentemente a única medida eficaz de controlo imediato.12,38 Os protocolos em vigor já têm em consideração as recomendações de segurança referente às duas horas de aplicação, nomeadamente no Manual de Procedimentos e Equipamentos do INEM.36 Assim, globalmente a prática em Portugal permanece alinhada com os melhores padrões de segurança e eficácia internacionais. Ressalva-se, no entanto, que há outros protocolos disponíveis nacionalmente que ainda não sofreram atualizações em conformidade com a evidência apresentada nesta revisão (como o da Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental ou mesmo o do INEM na versão dirigida à da população). Assim, seria vantajoso atualizar e uniformizar toda a informação oficial disponibilizada, com vista a melhor capacitar todos aqueles que procuram saber como agir perante estas emergências.41 Por fim, a evidência reforça a
necessidade de estudos prospetivos controlados em ambiente civil e de registos multicêntricos padronizados para consolidar a qualidade das recomendações atuais.
5 - CONCLUSÃO
A aplicação de torniquetes no contexto pré-hospitalar é uma prática suportada pela evidência atual, que destaca, em paralelo, considerações de segurança e ética clínica na sua utilização, com evidência de eficácia e impacto positivo nos outcomes do trauma de membro grave.42-46 O benefício é evidente quando a intervenção é precoce, com técnica adequada, seguindo protocolos definidos. As estratégias de mitigação devem passar pela formação contínua dos profissionais e civis, pelo uso de protocolos nacionais uniformizados, incluindo tempos máximos de aplicação, algoritmos claros sobre conversão e duplicação de torniquetes. Evidentemente, há outras medidas que não foram o foco desta revisão, mas que são essenciais na gestão da hemorragia moderada a grave (como o uso combinado com medidas farmacológicas com, por exemplo, ácido tranexâmico precoce).47,48 O tempo médio de transporte em Portugal, dada a sua dimensão territorial e boa cobertura pré-hospitalar, raramente ultrapassa o limite seguro das duas horas. Contudo, cenários como acidentes rurais ou em montanha, ilhas, estruturas colapsadas ou outros cenários de exceção ou de difícil extração justificam o reforço da formação dos profissionais que atuam no pré-hospi-
talar e da definição de protocolos, assim como do reforço da sensibilização e literacia da população.
A abordagem em contexto pré-hospitalar pode ser uma atitude verdadeiramente lifesaving. A atualização de protocolos e o treino de primeiros intervenientes à luz dos avanços recentes são estratégias fundamentais para maximizar os ganhos desta intervenção simples, porém fundamental.49,50 Se em primeira instância a sobrevivência é impreterivelmente a prioridade, não é incompatível pensar que a melhor atuação é aquela que permite, associadamente, reduzir o risco de sequelas, quando tal é possível. A redução de mortalidade evitável em trauma exige auditoria contínua e protocolos claros, devendo este enquadramento ser interpretado

Conflitos de Interesse:
Os autores declaram não haver conflitos de interesse
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DISCLAIMER: À data da publicação deste artigo já se encontra disponível um esboço da atualização ‘’2025 International Consensus on First Aid Science With Treatment Recommendations’’, no entanto, a versão final ainda aguarda revisão de pares, pelo que foi utilizada a versão prévia ‘’ILCOR First Aid Consensus (2020)’', no entanto, sem previsão de que altere as recomendações mencionadas na presente revisão.

COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO Médica VMER
CATARINA JORGE
EDITORA

CRICOTIROTOMIA
DE EMERGÊNCIA EM DOENTE
COM HEMORRAGIA DIGESTIVA
ALTA ATIVA

Luís Cantante1; Marta Mugeiro1; Sandra Gestosa2; Ana Lares3
1Médico Interno de Formação Específica em Anestesiologia, Unidade Local de Saúde do Algarve – Unidade de Faro
2Assistente Hospitalar Graduada em Anestesiologia e Coordenadora de Formação do Internato de Anestesiologia, Unidade Local de Saúde do Algarve - Unidade de Faro
3Diretora do Serviço de Anestesiologia, Unidade Local de Saúde do Algarve - Unidade de Faro
RESUMO
Objetivo: Descrever um caso clínico que exemplifica a aplicação do algoritmo de Via Aérea Difícil (VAD), culminando numa cricotirotomia de emergência.
Caso Clínico: Homem de 61 anos, com hemorragia digestiva alta, admitido no bloco operatório para endoscopia digestiva alta (EDA) sob intubação orotraqueal (IOT). Após a indução anestésica, verificou-se uma VAD, condicionada por hemorragia abundante que impedia a visualização glótica. Realizaram-se duas tentativas de intubação sob videolaringoscopia, ambas sem sucesso, associadas a impossibilidade de ventilação com máscara facial e máscara laríngea, configurando um cenário de “Can’t Intubate, Can’t Oxygenate” (CICO). A aplicação sistemática do algoritmo de VAD culminou numa cricotirotomia de emergência, que permitiu a ventilação, garantindo a permeabilidade da via aérea.
Conclusão: A abordagem da via aérea em doentes com hemorragia digestiva alta ativa constitui um desafio clínico de elevada complexidade. A implementação eficaz de protocolos atualizados, o treino prévio das equipas e a coordenação
multidisciplinar são determinantes para um desfecho favorável em situações críticas como a CICO.
ABSTRACT
Objective: To describe a clinical case that illustrates the application of the Difficult Airway (DA) algorithm, culminating in an emergency cricothyrotomy.
Case report: A 61-year-old man presenting with upper gastrointestinal bleeding was admitted to the operating room for upper endoscopy under orotracheal intubation. After anesthetic induction, a difficult airway was encountered due to profuse bleeding that prevented glottic visualization. Two videolaryngoscopic intubation attempts failed, and ventilation was unsuccessful with both a face mask and a laryngeal mask, resulting in a “Can’t Intubate, Can’t Oxygenate” (CICO) scenario. Strict adherence to the DA algorithm prompted the performance of an emergency cricothyrotomy, which enabled effective ventilation and definitive airway control.
Conclusion: Airway management in patients with active upper gastrointestinal bleeding presents a major clinical challenge. Successful outcomes depend on adherence to
updated protocols, the availability of well-trained teams, and effective multidisciplinary coordination, particularly in CICO situations.
INTRODUÇÃO
A abordagem da via aérea é um passo crítico na prática anestésica que exige um planeamento rigoroso e a definição prévia de estratégias alternativas quando existe suspeita de dificuldade1. A antecipação de diferentes planos de atuação é fundamental para garantir uma adequada ventilação e oxigenação, e assim a segurança do doente1,2 Descreve-se um caso clínico em que, após a indução anestésica, múltiplas tentativas de ventilação e intubação foram infrutíferas, culminando na necessidade de realização de cricotirotomia de emergência.
CASO CLÍNICO
Doente do sexo masculino, 61 anos de idade, autónomo, com antecedente de doença hepática crónica (DHC) de etiologia alcoólica, classificada como CHILD-Pugh B, foi proposto para realização de endoscopia digestiva alta (EDA) no contexto de episódio agudo de hemorragia

digestiva alta (HDA).
Considerando o elevado risco anestésico (ASA V-E, segundo a classificação da American Society of Anesthesiologists) e à previsão de via aérea difícil (VAD), o procedimento foi programado para ser realizado em contexto de bloco operatório (BO). À admissão no BO, apresentava taquicardia, hipertensão arterial e saturação periférica de oxigénio (SpO2) de 95%. Antes da indução anestésica ocorreu um episódio de hematemese abundante (estimado em 500 mL), com dessaturação para 86%.
Foi realizada indução anestésica em sequência rápida, com etomidato e rocurónio. A primeira tentativa de intubação orotraqueal (IOT), sob videolaringoscopia, revelou-se infrutífera devido à presença de conteúdo hemático abundante que impossibilitava a visualização glótica, apesar da aspiração contínua com sonda de Yankauer. Após ventilação manual com ligeira melhoria da oxigenação, procedeu-se a nova
tentativa de IOT sob videolaringoscopia, igualmente sem sucesso, registando-se rápida dessaturação até 55%. Neste momento foi pedida ajuda. Perante a deterioração clínica e a impossibilidade de ventilação eficaz com máscara facial ou dispositivo supraglótico, declarou-se uma situação de “Can’t Intubate, Can’t Oxygenate” (CICO). Neste contexto, procedeu-se de imediato à realização de cricotirotomia cirúrgica de emergência (“Front of Neck Access”, FONA), através de incisão cutânea horizontal seguida de incisão vertical da membrana cricotiroideia. Após a introdução de um bougie, introduziu-se um tubo traqueal (TT) de 6,5 mm, confirmando-se ventilação eficaz. Enquanto se finalizava a abordagem da via aérea do doente, o mesmo iniciou um quadro de instabilidade hemodinâmica, evoluindo para paragem cardiorrespiratória (PCR) em atividade elétrica sem pulso (AESP). Foi iniciado de imediato o protocolo de Suporte Avançado de
Vida (SAV), com recuperação da circulação espontânea após um ciclo completo. Posteriormente, ativou-se o protocolo de transfusão maciça. Conseguida a estabilização hemodinâmica, procedeu-se à realização da EDA, com colocação de prótese esofágica e paracentese evacuadora, sem outras intercorrências adicionais. O doente foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI). No dia seguinte, o TT introduzido por cricotirotomia foi substituído sob videolaringoscopia por tubo orotraqueal convencional, optando-se por cicatrização por segunda intenção do orifício de FONA. O doente permaneceu internado na UCI durante duas semanas. A TC-CE descartou alterações agudas. Apesar das medidas terapêuticas instituídas, o quadro clínico evoluiu desfavoravelmente, com manutenção da hemorragia pelas varizes esofágicas e progressiva disfunção multiorgânica, sendo que o doente acabou por falecer.
DISCUSSÃO
No caso descrito, a identificação precoce de uma VAD após a indução e a aplicação sequencial do algoritmo de VAD culminaram na realização de cricotirotomia de emergência, que permitiu restabelecer a oxigenação e garantir a permeabilidade da via aérea. A atuação célere e coordenada da equipa, bem como a existência de recursos disponíveis, foram determinantes para o desfecho favorável, refletindo a importância das recomendações atuais quanto à preparação prévia, treino regular da equipa e disponibilidade de equipa-

mento adequado1,2
Contudo, à luz das novas diretrizes internacionais de 2025 sob VAD1, é pertinente uma análise crítica das estratégias adotadas. Estas salientam a importância da otimização da pré-oxigenação, idealmente com oxigénio de alto fluxo nasal (HFNO) ou ventilação com pressão positiva, especialmente em doentes com hipoxemia iminente e risco de apneia prolongada. Embora tal abordagem possa ter sido limitada pela hemorragia ativa, a sua utilização poderia ter atenuado a rápida dessaturação observada1
Adicionalmente, as diretrizes reforçam a necessidade de considerar a intubação com o doente acordado (“awake intubation”) em doentes com via aérea de risco, sempre que o estado clínico o permita1,3. Num cenário de hemorragia controlada e estabilidade hemodinâmica relativa, esta poderia constituir uma alternativa segura, preservando a ventilação espontânea e reduzindo o risco de CICO. No caso em análise, a indução anestésica foi considerada necessária para permitir o procedimento endoscópico urgente4 e, considerando esse contexto, o recurso ao videolaringoscópio (como alternativa ao laringoscópio) foi adequado5; ainda assim, esta decisão deve ser cuidadosamente ponderada face à elevada probabilidade de via aérea comprometida1,3 Outro aspeto relevante prende-se com o número de tentativas de intubação. As recomendações atuais desencorajam múltiplas tentativas consecutivas, uma vez que cada falha aumenta o risco de trauma e hipoxemia. Assim, a
transição para uma via invasiva –nomeadamente cricotirotomia – poderia ter sido considerada mais precocemente, evitando o tempo adicional de hipóxia grave1. Ainda, o pedido de ajuda poderia ter sido feito mais prontamente, nomeadamente poderia ter sido realizado ainda antes da indução anestésica, sendo a segunda tentativa de intubação apoiada, ou mesmo realizada, pelo segundo operador1
Por fim, a PCR deveu-se provavelmente à hipoxemia, o que justifica o seu início concomitante com a apneia prolongada, bem como a sua recuperação pouco tempo após o início da ventilação (1 ciclo)6
CONCLUSÃO
A gestão da via aérea em contexto de hemorragia digestiva alta maciça representa um cenário de elevada complexidade, que exige planeamento rigoroso, decisões céleres e equipas experientes. O caso apresentado evidencia a importância da execução precoce de técnicas invasivas em situações de CICO, determinante para o desfecho favorável.
À luz das guidelines internacionais de 2025, reforça-se a relevância de uma abordagem estruturada que inclua a pré-oxigenação otimizada, limitação do número de tentativas de intubação e preparação antecipada de uma via aérea cirúrgica. Este caso sublinha, assim, que a segurança na gestão da via aérea depende tanto da competência técnica como da antecipação e adesão a protocolos atualizados

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EDITORA


COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
INÊS PORTELA Médica Anestesiologista, VMER
EDITORA
CLÁUDIA PIMENTEL MARTINS Médica IF de Anestesiologia VMER, CODU


LIFESAVING TRENDS - INOVAÇÕES EM EMERGÊNCIA MÉDICA
VER MAIS ALÉM ÓCULOS INTELIGENTES NO PRÉ-HOSPITALAR
Joel Lage1
1Médico
Interno de Formação Específica em Medicina Interna, Unidade Local de Saúde do Algarve -Unidade de Faro
O contexto pré-hospitalar para além de ser imprevisível, reveste-se de uma amálgama de estímulos sensoriais, recursos limitados e urgência temporal que se podem transformar num inimigo e toldar o pensamento e ação da equipa de emergência médica. É necessário pensar rápido e bem, executar procedimentos complexos que carecem de cadência própria, tomar decisões ao mesmo tempo que se recolhem informações clínicas relevantes e se estabelece contacto com centros de coordenação 1,2
A emergência de novos dispositivos aliados à inteligência artificial (IA) são uma realidade próxima com vários modelos a serem testados em cenário real. Os óculos inteligentes com realidade aumentada (RA) representam uma das tecnologias onde se deposita maior foco. Estes óculos são capazes de projetar informação clínica no campo visual do utilizador proporcionando liberdade de movimentos. Podem integrar hardware que permite transmissão audiovisual em tempo real, interação áudio e integração de sistemas de IA 2,3
Atualmente os óculos inteligentes são plataformas móveis de suporte cognitivo, que fornecem informação
enquadrada em tempo real, sem interromper o fluxo operacional. Para isso conjugam tecnologia de 2,3:
- Realidade Aumentada (RA), sobreposição de imagens, dados 3D ou sons ao ambiente físico, em tempo e ambiente físico real;
- Processamento multimodal, permite a integração audiovisual, sinais fisiológicos e dados contextuais;
- Edge computing , processamento de dados próximos da sua origem, evita latência no tempo de resposta;
- Conectividade móvel avançada, utilizam redes 4/5G e Wi-Fi.
Os óculos inteligentes podem aplicar-se ao contexto préhospitalar em várias vertentes, são exemplos:
Incidentes Multivítimas, Apoio Logístico e Gestão Operacional Um estudo de 2025 com 108 participantes em ambiente simulado de triagem multivítimas, com o algoritmo Simple Triage and Rapid Treatment (START) , revelou melhoria significativa relativamente à precisão de triagem para além da redução do tempo de classificação das mesmas, com uma métrica de desempenho superior a 98% com
óculos inteligentes vs 79% por métodos convencionais. O tempo médio de triagem por vítima diminuiu 60% com esta tecnologia 1
Os óculos inteligentes podem também aplicar-se no apoio logístico. Um estudo recente demonstrou que a utilização de realidade aumentada para medição de distância e posicionamento de ambulâncias melhorou significativamente a segurança e a eficiência operacional em cenários complexos relacionados com ameaça de natureza química, biológica, nuclear ou explosiva 6
Suporte Cognitivo e Assistência
Baseada em Inteligência Artificial Cada vez mais estudos são concordantes relativamente ao papel das novas tecnologias ne redução dos erros de procedimento e decisão em ambientes de alta pressão. Óculos inteligentes integrados com modelos multimodais de IA, analisam dados audiovisuais, em determinado contexto clínico e dão resposta em tempo real com ajuda cognitiva, recomendão ações subsequentes, minimizando o tempo de latência operacional 2,3 O futuro irá permitir aprimorar a precisão e o desempenho em tempo


Figura 2: Cenário de dor torácica. Adaptado de Abo-Zahhad, et al.4
Figura 1: Óculos inteligentes (A); Triagem através de realidade aumentada utilizando algoritmo START. Adaptado de Apiratwarakul S, et al.1
real, bem como em validar a utilidade prática e a facilidade destes sistemas.
Guia de Orientação em Tempo Real para Procedimentos
e Técnicas
Os óculos inteligentes permitem sobrepor instruções visuais passo a passo durante procedimentos críticos, como controlo de hemorragia, desfibrilhação ou suporte avançado de vida. Um estudo recente descreveu o desenvolvimento de um sistema de óculos AR com inteligência artificial para orientação de primeiros socorros para capacitar pessoas sem treino a agir com confiança, demonstrando melhoria significativa na execução técnica dos procedimentos. Este estudo torna-se particularmente relevante para equipas menos experientes, com baixo número de ocorrências ou situações de alta complexidade 4

Comunicação Bidirecional e Telemedicina Pré-Hospitalar A transmissão audiovisual em tempo real permite que a equipa hospitalar tenha acesso ao cenário da emergência e forneça orientação clínica remota. A utilização de óculos inteligentes está no centro das atenções como método para melhorar a coordenação entre equipas pré-hospitalares e hospitalares, podendo futuramente assumir um papel relevante na redução do tempo de ativação de equipas intra-hospitalares especializadas, bem como elevar o nível de cuidados pré-hospitalares 5 Os benefícios dos dispositivos de realidade aumentada no préhospitalar mostram-se consistentes na execução de procedimentos, adesão a protocolos e redução da carga cognitiva dos profissionais, porém existem francas limitações metodológicas, como por exemplo
amostras reduzidas e ambientes simulados, o que reforça a necessidade de estudos multicêntricos em contexto real 7 Há também ainda a apontar algumas limitações técnicas e obstáculos à implementação desta tecnologia. É necessário otimização ergonómica e redução de peso dos dispositivos. O uso prolongado está associado a fadiga visual, cefaleia e cervicalgia 8. A qualidade da imagem e a legibilidade das projeções AR pode ser facilmente comprometida com a variação da luz, vibração e exposição a fatores ambientais adversos 9 A integração de óculos inteligentes com sistemas de informação clínica e plataformas de emergência está limitada pela ausência de padrões universais de interoperabilidade, tornando difícil a produção em escala deste tipo de soluções 10 Inerentes à captação de dados

Figura 3: Transmissão de vídeo e áudio captados no local através de óculos inteligentes. Transmissão para um computador do departamento de emergência hospitalar através de Wi-Fi móvel. Com base nas informações compartilhadas são implementados sistema de admissão e ação intra-hospitalares ajustados ao caso. Adaptado de Iwata Y. et al.5

audiovisuais surgem questões éticas relacionadas com consentimento informado, proteção de dados sensíveis e utilização secundária da informação clínica 11 Os óculos inteligentes constituem uma tecnologia emergente com elevado potencial para transformar os cuidados pré-hospitalares. A evidência científica recente demonstra benefícios claros na triagem, suporte cognitivo, execução de procedimentos e comunicação clínica. Porém, a adoção generalizada exige validação clínica robusta, superação de desafios técnicos e enquadramento ético e regulador adequado


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EDITORA

COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO
ANA CATARINA SEGUNDO Serviço de Anestesiologia - ULS Algarve

PSEUDO-ISQUEMIA
NO ECG: A AVÓ DISFARÇADA DE LOBO

1Serviço de Cardiologia – ULS Algarve
2Serviço Medicina Intensiva – ULS Algarve
Mulher de 84 anos, com hipertensão arterial e doença renal crónica, recorreu ao Serviço de Urgência por desconforto espigástrico/retroesternal e dispneia para médios esforços com uma semana de evolução. Tinha realizado ecocardiograma transtorácico (ETT) prévio, fora do hospital, que mostrou função ventricular esquerda (FEVE) preservada, mas com alterações segmentares sugestivas de cardiopatia isquémica, sem avaliação subsequente. Ao exame objetivo, encontrava-se hipertensa (160/77 mmHg) e sob oxigenoterapia, sem congestão pulmonar ou periférica. Analiticamente apresentava elevação de troponina (362 410 pg/mL, N<14 pg/ mL) e NT-proBNP (2190 pg/mL; basal 1574 pg/mL, N<450pg/mL).
O eletrocardiograma (ECG) evidenciava alterações difusas da repolarização: onda T bifásica em V2-V4 e negativa de V5–V6, DI e aVL, (Figura 1), sobeponível ao ECG seis meses antes (Figura 2).

1. ECG na admissão no Serviço de Urgência: Ritmo sinusal, 75/min, onda T bifásica em V2-V4, DII, DIII e aVF, e invertida (simétrica) em V5-V6, DI e aVL. Notar simetria da onda T em V5-V6 e ausência de outros critérios de sobrecarga do ventrículo esquerdo.

DISCUSSÂO DO CASO
Perante este quadro clínico, assumiu-se inicialmente o diagnóstico de insuficiência cardíaca de provável etiologia isquémica, nomeadamente no contexto de síndrome coronário agudo e a
doente foi internada para avaliação da anatomia coronária. A miocardiopatia hipertrófica apical (MCHA) é uma variante da miocardiopatia hipertrófica, com hipertrofia predominante no ápex do ventrículo esquerdo e apresentação clínica
Joana Guerreiro Pereira1, António Padilha2, Joana Massa Pereira1, Raquel Menezes Fernandes1, Miguel Espírito Santo1, Jorge Mimoso1
Figura 2. ECG 6 meses antes da admissão no Serviço de Urgência: Ritmo sinusal, 81/min, onda T bifásica em V2-V4, e invertida em V5-V6, DI e aVL.
Figura

heterogénea. No ECG, além de critérios de hipertrofia ventricular esquerda, verifica-se frequentemente inversão profunda e simétrica da onda T, sobretudo nas derivações precordiais esquerdas, mimetizando alterações de significado isquémico 1,2 . O ETT é o exame de imagem de primeira linha, sendo que o contraste melhora a avaliação do ápex.
Conclusão: este caso mostra que alterações da repolarização ventricular, nomeadamente inversão simétrica da onda T, nem sempre têm significado isquémico. Importa considerar outras hipóteses de diagnóstico, nomeadamente MCHA, perante estas alterações electrocardiográficas, integrando a clínica e o resultado de outros exames complementares, nomeadamente o ETT


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4. 4. Huang G, Fadl SA, Sukhotski S, Matesan M. Apical variant hypertrophic cardiomyopathy "multimodality imaging evaluation". Int J Cardiovasc Imaging. 2020 Mar;36(3):553-561. doi: 10.1007/s10554-019-01739-x. Epub 2019 Dec 18. PMID: 31853820.
EDITOR




MIGUEL ESPIRITO SANTO Médico Assistente Hospitalar de Cardiologia. ULS Algarve - Unidade de Faro
JOANA MASSA PEREIRA Médica Interna de Formação Específica de Cardiologia ULS Algarve - Unidade de Faro
EDITORA

UMA CAUSA RARA DE DOR TORÁCICA NO SERVIÇO DE URGÊNCIA
Núria Condé Pinto1, Sílvia Oliveira1, Helga Martins2
1Interna de formação específica de Medicina Interna, ULS Médio Ave
2Assistente Hospitalar Graduada de Medicina Interna, ULS Médio Ave
Homem de 47 anos, fumador, consumidor ativo de heroína e cocaína inaladas, recorreu ao serviço de urgência por dor retroesternal com duas horas de evolução, de início súbito após o almoço com irradiação cervical e epigástrica e posição antálgica em flexão anterior do tronco. Encontrava-se normotenso, taquicárdico, sem alterações à auscultação ou insuficiência respiratória e apirético.
O estudo inicial com eletrocardiograma, radiografia de tórax e análises não apresentou alterações, pelo que realizou tomografia computorizada (TC) torácica (imagens 1 e 2).

QUAL O DIAGNÓSTICO MAIS PROVÁVEL?
A. Pneumotórax
B. Derrame pericárdico
C. Disseção aórtica
D. Pneumomediastino


Imagem 2 - TC torácica - plano axial, em janela pulmonar
Imagem 1 - TC torácica - plano sagital, em janela mediastínica

TEXTO EXPLICATIVO
Resposta correcta: D
A imagem revela pneumomediastino posterior (imagem 1) secundário a perfuração esofágica por corpo estranho linear com dois centímetros (imagem 2).
O pneumomediastino define-se pela presença de ar livre no mediastino, caracterizado radiograficamente por hipertransparência no espaço mediastínico. É uma causa rara de dor torácica, podendo mimetizar síndrome coronária aguda. Casos de pneumomediastino espontâneo estão descritos, nomeadamente associado a drogas inaladas. Pode ocorrer por trauma, como perfuração esofágica. 1,2
Exclusão das outras opções:
A) Pneumotórax
O pneumotórax caracteriza-se imagiologicamente pela presença de ar na cavidade pleural (hipotransparência demarcada por linha correspondente à pleura visceral), sendo geralmente identificado por radiografia. A TC demonstra maior sensibilidade em pneumotórax de pequeno volume. Não está associado a ar no mediastino.3
B) Derrame pericárdico
Ainda que não seja o exame preferível para avaliação de derrame pericárdico, este pode ser identificado em TC como uma coleção líquida (hipodensa), mesmo em pequeno volume, o que não foi identificado.4

rotura da íntima, com fluxo sanguíneo para a camada média da parede do vaso, resultando imagiologicamente numa separação longitudinal do vaso, formando dois lúmens. Nesta imagem, mantém-se a integridade da aorta.5
BIBLIOGRAFIA
1. Barroso D, Rocha D, Abelha Pereira F, Ribeiro R, Pimenta Fernandes J, Pais Monteiro A, Fonseca Silva I, Gonçalves F. Spontaneous pneumomediastinum: a rare cause of chest pain. Cureus. 2023;15(10):e47015. doi:10.7759/ cureus.47015
2. Marchiori E, Hochhegger B, Zanetti G. Pneumomediastinum. J Bras Pneumol. 2019;45:e20190169. doi:10.1590/1806-3713/ e20190169
3. Yamada A, Taiji R, Nishimoto Y, Itoh T, Marugami A, Yamauchi S, Minamiguchi K, Yanagawa M, Tomiyama N, Tanaka T. Pictorial review of pleural disease: multimodality imaging and differential diagnosis. Radiographics. 2024;44(4):e230079. doi:10.1148/rg.230079
4. Bogaert J, Francone M. Pericardial disease: value of CT and MR imaging. Radiology. 2013;267(2):340–356. doi:10.1148/ radiol.13121059
5. Awal SS, Prasad N, Biswas S. CT evaluation of aortic dissection and other acute aortic syndromes: an update. Int J Radiol Radiat Ther. 2022;9(5):159–165. doi:10.15406/ ijrrt.2022.09.00343

C) Disseção aórtica
A disseção aórtica caracteriza-se por
O doente foi submetido a remoção endoscópica do corpo estranho, espinha de peixe, com reabsorção espontânea do pneumomediastino


CATARINA COSTA
Médica VMER. Médica Medicina Interna - ULS Algarve - Unidade de Faro
EDITORA
COMISSÃO CIENTÍFICA
REVISÃO




Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algar ve








CRITÉRIOS DE PUBLICAÇÃO
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO – Novembro de 2022
1. Objectivo e âmbito
A Revista LIFESAVING SCIENTIFIC (LF Sci) é um órgão de publicação pertencente ao Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) e dedica-se à promoção da ciência médica pré-hospitalar, através de uma edição trimestral.
A LF Sci adopta a definição de liberdade editorial descrita pela World Association of Medical Editors, que entrega ao editor-chefe completa autoridade sobre o conteúdo editorial da revista. O CHUA, enquanto proprietário intelectual da LF Sci, não interfere no processo de avaliação, selecção, programação ou edição de qualquer manuscrito, atribuindo ao editor-chefe total independência editorial.
A LF Sci rege-se pelas normas de edição biomédica elaboradas pela International Commitee of Medical Journal Editors e do Comittee on Publication Ethics
2. Informação Geral
A LF Sci não considera material que já foi publicado ou que se encontra a aguardar publicação em outras revistas. As opiniões expressas e a exatidão científica dos artigos são da responsabilidade dos respetivos autores.
A LF Sci reserva-se o direito de publicar ou não os artigos submetidos, sem necessidade de justificação adicional.
A LF Sci reserva-se o direito de escolher o local de publicação na revista, de acordo com o interesse da mesma, sem necessidade de justificação adicional.
A LF Sci é uma revista gratuita, de livre acesso, disponível em https://issuu.com/lifesaving. Não pode ser comercializada, sejam edições impressas ou virtuais, na parte ou no todo, sem autorização prévia do editor-chefe.
3. Direitos Editoriais
Os artigos aceites para publicação ficarão propriedade intelectual da LF Sci, que passa a detentora dos direitos, não podendo ser reproduzidos, em parte ou no todo, sem autorização do editor-chefe.
4. Critérios de Publicação
4.1 Critérios de publicação nas rúbricas
A LF Sci convida a comunidade científica à publicação de artigos originais em qualquer das categorias em que se desdobra, de acordo com os seguintes critérios de publicação:
Artigo Científico Original - Âmbito: apresentação de resultados sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar de adultos. Dimensão recomendada: 1500 a 4000 palavras.
Temas em Revisão
- Âmbito: Revisão extensa sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar de adultos. Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Hot Topic
- Âmbito: Intrepretação de estudos clínicos, divulgação de inovações na área pré-hospitalar recentes ou contraditórias.
Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Rúbrica Pediátrica - Âmbito: Revisão sobre tema pertinente para atuação das equipas em contexto de emergência pré-hospitalar no contexto pediátrico.
Dimensão recomendada: 1500 a 3500 palavras.
Casos Clínicos (Adulto)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, relacionados com situações de emergência em adultos.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
Casos Clínicos (Pediatria)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, em contexto de situações de emergência em idade pediátrica.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
Casos Clínicos (Neonatalogia)
- Âmbito: Casos clínicos que tenham interesse científico, que reportem situações de emergência em idade neonatal.
Dimensão recomendada: 1000 palavras.
LIFESAVING Trends - Inovações em Emergência Médica - Âmbito: Artigo com estrutura de "Correspondência", privilegiando a divulgação de novidades tecnológicas, de dispositivos inovadores, ou de atualizações de equipamentos ou práticas atuais.
Limite de Palavras: máximo 1500 palavras; Limite de tabelas e figuras:6

Imagem em Urgência e Emergência
- Âmbito/Objetivo: divulgar imagens-chave no diagnóstico e abordagens de patologias no âmbito da urgência e emergência. Podem ser obtidas através do exame físico, investigação básica ou estudo imagiológico. O consentimento informado escrito é requerido no caso em que a imagem contenha a face ou outro detalhe que permita identificar os intervenientes.
Estrutura do artigo: Título (que não deve conter o diagnóstico); autores e filiação; nota introdutória com descrição breve da imagem e/ou do seu contexto; 1 a 2 imagens; questão de escolha múltipla com 4 hipóteses (apenas uma resposta correta); texto explicativo da resposta correta com referência à literatura. Máximo de 300 palavras. Imagem: em formato .jpeg, com resolução original. Bibliografia: máximo de 5 referências
4.2 Critérios gerais de publicação
O trabalho a publicar deverá ter no máximo 120 referências. Deverá ter no máximo 6 tabelas/figuras devidamente legendadas e referenciadas.
O trabalho a publicar deve ser acompanhado de no máximo 10 palavras-chave representativas.
No que concerne a tabelas/ figuras já publicadas é necessário a autorização de publicação por parte do detentor do copyright (autor ou editor). Os ficheiros deverão ser submetidos em alta resolução, 800 dpi mínimo para gráficos e 300 dpi mínimo para fotografias em formato JPEG (.Jpg), PDF (. pdf). As tabelas/figuras devem ser numeradas na ordem em que ocorrem no texto e enumeradas em numeração árabe e identificação.
No que concerne a casos clínicos é necessário fazer acompanhar o material a publicar com o consentimento informado do doente ou representante legal, se tal se aplicar.
No que concerne a trabalhos científicos que usem bases de dados de doentes de instituições é necessário fazer acompanhar o material a publicar do consentimento da comissão de ética da respetiva instituição.
As submissões deverão ser encaminhadas para o e-mail: revistalifesaving@gmail.com
4.3 Critérios de publicação dos artigos científicos.
Na LIFESAVING SCIENTIFIC (LF Sci) podem ser publicados Artigos Científicos Originais, Artigos de Revisão ou Casos Clínicos de acordo com a normas a seguir descritas.
Artigos Científicos
O texto submetido deverá apresentado com as seguintes secções: Título (português e inglês), Autores (primeiro nome, último nome, título, afiliação), Abstract (português e inglês), Palavras-chave (máximo 5), Introdução e Objetivos, Material e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusão, Agradecimentos, Referências.
O texto deve ser submetido com até 3 Take-home Messages que no total devem ter até 50 palavras.
Não poderá exceder as 4.000 palavras, não contando Referências ou legendas de Tabelas e Figuras. Pode-se fazer acompanhar de até 6 Figuras/ Tabelas e de até 60 referências bibliográficas.
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O resumo/ abstract não deve exceder as 250 palavras. Se revisão sistemática ou meta-análise deverá seguir as PRISMA guidelines.
Se meta-análise de estudo observacionais deverá seguir as MOOSE guidelines e apresentar um protocolo completo do estudo.
Se estudo de precisão de diagnóstico, deverá seguir as STARD guidelines.
Se estudo observacional, siga as STROBE guidelines.
Se se trata da publicação de Guidelines Clínicas, siga GRADE guidelines.
Este tipo de trabalhos pode ter no máximo 6 autores.
Artigos de Revisão
O objetivo deste tipo de trabalhos é rever de forma aprofundada o que é conhecido sobre determinado tema de importância clínica.
Poderá contar com, no máximo, 3500 palavras, 4 tabelas/
figuras, não mais de 50 referências.
O resumo (abstract) dos Artigos de Revisão segue as regras já descritas para os resumos (abstract) dos Artigos Científicos.
Este tipo de trabalho pode ter no máximo 5 autores.
Caso Clínico
Com este tipo de publicação pretende-se o relato de caso, ou séries de casos, que pela sua raridade, inovações diagnósticas, terapêuticas aplicadas ou resultados clínicos inesperados, seja digno de partilha com a comunidade científica.
Encoraja-se o uso da checklist das CARE Guidelines na organização do artigo.
O autor deverá possuir consentimento informado para publicação do caso.
Instruções para os autores:
- Máximo de 4 autores (sem possibilidade de alterar ou acrescentar autores após submissão à revista)
- Subdivisão em Resumo, Relato de Caso, Discussão
- Resumo inferior a 150 palavras, acompanhado de até um máximo de 5 palavras chave, dirigido em português com tradução para inglês (Abstract/Keywords).
- Descrição do caso e discussão, até 1000 palavras, excluindo referências bibliográficas.
- As figuras ou tabelas deverão ser clinicamente relevantes e estar devidamente legendadas, com referência bibliográfica caso aplicável;
- Máximo de 10 referências bibliográficas, devendo cumprir as normas instituídas na revista.

Cartas ao Editor
- Objetivo: comentário/exposição referente a um artigo publicado nas últimas 4 edições da revista promovendo a discussão e visão crítica. Poderão ainda ser enviados observações, casuísticas particularmente interessantes de temáticas atuais que os autores desejem apresentar aos leitores de forma concisa.
- Instruções para os autores:
1. O corpo do artigo não deve ser subdividido; sem necessidade de resumo ou palavras-chave.
2. Deve contemplar entre 500 a 1000 palavras, excluindo referências, tabelas e figuras.
3. Apenas será aceite 1 figura e/ou 1 tabela.
4. Não serão aceites mais de 5 referências bibliográficas. Devendo cumprir as normas instituídas para revista.
5. Número máximo de autores são 4.
Breves Reflexões sobre a Emergência Médica Âmbito: artigo de reflexão/ opinião, com a exposição de ideias e pontos de vista sobre tema no âmbito da emergência médica, do ponto de vista conceptual, podendo a argumentação do Autor convidado, ser baseada na sua experiência pessoal ou na citação de livros, revistas, artigos publicados, entre outros recursos de pesquisa, devidamente assinalados no texto; Estrutura do artigo: título, Autor(es) e afiliação; resumo e palavras-chave (facultativos), introdução, desenvolvimento, conclusão final, referências bibliográficas.
Limite de palavras: 1500 Resumo (facultativo): máximo 100 palavras, em formato bilingue (português e inglês)
Palavras-chave: máximo 5 palavras chave, em formato bilingue (português e inglês) Limite de tabelas e figuras: 3 Bibliografia: máximo 5 referências bibliográficas
“Vamos pôr o ECG nos eixos”
- Âmbito: Análise e interpretação de traçados eletrocardiográficos clinicamente contextualizados
- Formato: Título; Autores –máx. 2 autores (primeiro nome, último nome, título, afiliação); 2 palavras-chave; 1 imagem (ECG ou tira de ritmo, em formato JPEG com resolução original); Legenda explicativa com breve enquadramento clínico e interpretação do traçado (ritmo, frequência, alterações da despolarização ou repolarização pertinentes no contexto) – máx. 300 palavras; Referências bibliográficas.
LIFESAVING Airway Challenges
Âmbito: Rubrica dedicada à apresentação e discussão de casos clínicos desafiantes e artigos de revisão centrados na abordagem da via aérea. O objetivo é promover a análise crítica, a partilha de estratégias e a reflexão sobre decisões clínicas em cenários reais, com foco na gestão da via aérea difícil e na segurança do doente. Os conteúdos podem ilustrar situações complexas, complicações inesperadas, abordagens inovadoras ou revisões temáticas fundamentadas na evidência científica atual, mantendo sempre uma componente pedagógica. Pretende-se, assim, estimular a aprendizagem entre pares e fomentar o desenvolvimento contínuo das
equipas envolvidas em emergência médica e cuidados críticos.
Dimensão recomendada: 1000 a 1500 palavras
5. Referências
Os autores são responsáveis pelo rigor das suas referências bibliográficas e pela sua correta citação no texto.
Deverão ser sempre citadas as fontes originais publicadas. A citação deve ser registada empregando Norma de Vancouver.
6. Revisão por pares
A LF Sci segue um processo single-blind de revisão por pares (peer review).
Todos os artigos são inicialmente revistos pela equipa editorial nomeada pelo editor-chefe e caso não estejam em conformidade com os critérios de publicação poderão ser rejeitados antes do envio a revisores.
A aceitação final é da responsabilidade do editor-chefe. Os revisores são nomeados de acordo com a sua diferenciação em determinada área da ciência médica pelo editor-chefe, sem necessidade de justificação adicional.
Na avaliação os artigos poderão ser aceites para publicação sem alterações, aceites após modificações propostas pela equipa editorial ou recusados sem outra justificação.
7. Erratas e retrações
A LF Sci publica alterações, emendas ou retrações a artigos previamente publicados se, após publicação, forem detetados erros que prejudiquem a interpretação dos dados

