Francisco Campos I Beatriz Natário
Daniela Mendes I Maria Mendes
Guilherme Reis I Gonçalo Dias
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Francisco Campos I Beatriz Natário
Daniela Mendes I Maria Mendes
Guilherme Reis I Gonçalo Dias
Recriação e Abordagem
Interdisciplinar
Prefácio de: Rui Antunes

Francisco Campos I Beatriz Natário
Daniela Mendes I Maria Mendes
Ma�s do que br�ncar, aprender com propós�to
Guilherme Reis I Gonçalo Dias

A Rede e os Peixes
Apanhada
Barra do Lenço
Batata Quente
Bola às Latas
Bom Barqueiro
Abordagem Interdisciplinar
Cabra-cega
Camaleão
Chicha
Coelhos às Tocas
Corrida da Colher e do Ovo
Corrida de Perna Atada
Corrida de Sacos
Dança das Cadeiras
Galo
Lencinho
Macaca
Macaquinho do Chinês
Malha
Mamã, dá licença?
Mensagem
Mímica
Mosca
O Gato e o Rato
O Rei Manda
Pela
Sete Vidas
Vara
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Anel
Argolas
Berlinde
Burro
Cântaro
Caracol
Cauda das Raposas
Colheita da Maçã
Corrente
Prefácio de: Rui Antunes
Corrida de Andas
Corrida de Arco e Gancheta
Corrida de Batatas
Corrida de Cântaros
Dança da Laranja
Escondidas
Estátua
Futebol Humano
Galo
Jogo dos Bilros
Lá Vai Alho
Luta de Galos
Moeda
Pisa-pé
Quente e Frio
Rabo da Vaca
Salto ao Eixo
Sardinha
Senhor Doutor
Serpente
Telefone Estragado
Tração à Corda
Vizinha, dá-me lume?

Francisco Campos
Professor Adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Centro de Investigação e Inovação em Desporto, Atividade Física e Saúde (SPRINT).

Beatriz Natário
Mestranda em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º CEB na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC).

Para educadores de infância, professores de Educação monitores de ATL e outros profissionais de Pré-Escolar, assim como para estudantes de de Educação Básica e similares, este livro é à ação pedagógica consciente, em que o brincar o seu lugar central no processo educativo
Redescobrir o valor do brincar é, hoje, mais do que uma tendência, Neste livro, os jogos tradicionais infantis ganham nova vida ao serem forma intencional e estruturada, no contexto da Educação Pré-Escolar.
Daniela Mendes
Mestranda em Educação Pré-Escolar na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC).

Pensado para educadores de infância, professores de Educação ATL e outros profissionais da área, este recurso oferece propostas e pedagogicamente fundamentadas que promovem o desenvolvimento criança. Através de jogos enraizados na cultura lúdica, as crianças comunicam e crescem, desenvolvendo competências motoras, e emocionais de modo significativo.
Maria Mendes
Mestranda em Educação Pré-Escolar na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC).
Cada jogo é apresentado em três versões: original, recriação e ciplinar, permitindo ao adulto adaptar as atividades a diferentes interesses. Com um total de 32 jogos organizados em quatro grandes volvimento, esta obra convida à experimentação, à inclusão e à valorização

Mais do que um conjunto de atividades, este livro é um ponto para transformar momentos lúdicos em oportunidades ricas de aprendizagem.
Guilherme Reis
Licenciado em Desporto e Lazer pela Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC).

Gonçalo Dias
Professor Adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Centro de Investigação e Inovação em Desporto, Atividade Física
ISBN 978-989-693-206-0
9 789896 932060
Ver currículos completos no interior do livro.
Francisco Campos Beatriz Natário Daniela Mendes
Maria Mendes Guilherme Reis Gonçalo Dias
Com a colaboração de:
Ana Coelho
Ana Santiago
Catarina Cruz
Fernando Martins
Filomena Teixeira
Pedro Balaus Custódio

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© Copyright 2026, FCA PACTOR Editores, Lda. ® FCA e PACTOR são marcas registadas de FCA PACTOR Editores, Lda.
ISBN edição impressa: 978-989-693-206-0 1.ª edição impressa: maio de 2026
Paginação: Carlos Mendes
Impressão e acabamento: Tipografia Lousanense, Lda. – Lousã
Depósito Legal n.º 564527/26
Capa: José Manuel Reis
Imagem de capa: © Francoimage/Adobe Stock Photo Ilustração: Bruna Murta
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Francisco Campos
Doutor em Ciências do Desporto pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Professor Adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Centro de Investigação e Inovação em Desporto, Atividade Física e Saúde (SPRINT).
Beatriz Natário
Licenciada em Educação Básica pela Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Mestranda em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º CEB na ESEC-IPC.
Daniela Mendes
Licenciada em Educação Básica pela Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Mestranda em Educação Pré-Escolar na ESEC-IPC.
Maria Mendes
Licenciada em Educação Básica pela Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Mestranda em Educação Pré-Escolar na ESEC-IPC.
Guilherme Reis
Licenciado em Desporto e Lazer pela Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Mestrando em Treino Desportivo na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEFUC).
Gonçalo Dias
Doutor em Ciências do Desporto pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEFUC). Professor Adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Centro de Investigação e Inovação em Desporto, Atividade Física e Saúde (SPRINT).
Ana Coelho
Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Aveiro (UA). Professora Coordenadora na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC).
Ana Santiago
Doutora em Didática da Matemática e das Ciências Experimentais pela Universidade de Salamanca (US). Professora Adjunta na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigadora Colaboradora no Polo de Coimbra do Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED).
Catarina Cruz
Doutora em Matemática pela Universidade de Aveiro (UA). Professora Adjunta na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigadora Colaboradora no Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações (CIDMA) e no Polo de Coimbra do Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED).
Fernando Martins
Doutor em Matemática pela Universidade da Beira Interior (UBI). Agregado em Estudos da Criança, na especialidade de Infância, Desenvolvimento e Aprendizagem, pela Universidade do Minho (UM). Professor Coordenador Principal na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Polo de Coimbra do Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED).
Filomena Teixeira
Doutora em Didática pela Universidade de Aveiro (UA). Professora Coordenadora na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigadora Colaboradora no Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF).
Pedro Balaus Custódio
Doutor em Didática da Literatura pela Universidade de Coimbra (UC). Agregado em Estudos Literários pela Universidade de Aveiro (UA). Professor Coordenador Principal na Escola Superior de Educação de Coimbra do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC). Investigador Integrado no Centro de Literatura Portuguesa (CLP).
Anel | Beatriz Natário, Daniela Mendes e Francisco Campos
Argolas | Gonçalo Dias e Guilherme Reis
Berlinde | Adriana Caetano, Ana Simões, Iris Monteiro, Maria Martinho, Beatriz Natário e Daniela Mendes
Burro | Ana Correia, Ana Pereira, Beatriz Rocha, Filipa Galhano e Francisco Campos
Cântaro | Catarina Bita, Guilherme Simões, Laura Gentil, Mariana Medina, Beatriz Natário e Francisco Campos
Caracol | Ema Seco, Sílvia Mendes e Daniela Mendes
Cauda das Raposas | Mariana Elias, Miguel Gonçalves, Alexandra Oliveira e Daniela Mendes
Colheita da Maçã | Beatriz Natário, Daniela Mendes e Francisco Campos
Corrente | Ana Correia, Ana Pereira, Anaíde Cadima, Beatriz Santos, Beatriz Rocha, Catarina Rodrigues, Filipa Galhano, Luana Melo, Maria Pedroso e Maria Duarte
Corrida de Andas | Ema Seco, Sílvia Mendes e Francisco Campos
Corrida de Arco e Gancheta | Daniela Mendes e Francisco Campos
Corrida de Batatas | Ariana Nunes, Catarina Borda D’Água, Ema Braga, Luana Santos e Francisco Campos
Corrida de Cântaros | Ana Cintrão, Carolina Assis, Clara Costa, Inês Albuquerque e Beatriz Natário
Dança da Laranja | Beatriz Sousa, Beatriz Órfão, Maria Carreira, Maria José, Ana Ferreira e Beatriz Belém
Escondidas | Ana Coelho, Francisca Correia, Daniela Mendes, Maria Mendes e Guilherme Reis
Estátua | Ana Mesquita, Bruna Pádua, Luísa Frazão, Maria Ribeiro, Patrícia D’Ercole, Beatriz Natário e Francisco Campos
Futebol Humano | Beatriz Costa, Daniela Dias, Patrícia Luís, Rita Lopes e Francisco Campos
Galo | Adriana Caetano, Ana Simões, Iris Monteiro, Lara Batista, Maria Martinho e Francisco Campos
Jogo dos Bilros | Ana Bento, Ana Nunes, Bianca Santos, Beatriz Natário e Maria Mendes
Lá Vai Alho | Maria Mendes, Daniela Mendes e Francisco Campos
Luta de Galos | Ana Coelho, Francisca Correia, Daniela Mendes, Maria Mendes e Francisco Campos
Moeda | Ana Carvalheiro, Ana Lima, Ana Saltão, Matilde Jorge e Patrícia Morais
Pisa-pé | Bárbara Bernardo, Beatriz Maia, Lara Neves, Luís Amaral, Luísa Agante, Beatriz Natário, Daniela Mendes e Francisco Campos
Quente e Frio | Camila Costa, Catarina Oliveira, Catarina Almeida, Gabriela Pinto, Inês Brites, Maria Louro, Soraia Leão e Francisco Campos
Rabo da Vaca | Adriely Miranda, Ana Reis, Hugo Rosete, Margarida Silva, Mónica Dias e Francisco Campos
Salto ao Eixo | Gabriela Cordeiro, Luísa Almeida, Maria Barroso, Maria Jesus, Nair Ferreira, Maria Mendes e Francisco Campos
Sardinha | Alice Cavaleiro, Ana Aguilar, Maria Arraião, Guilherme Reis e Francisco Campos
Senhor Doutor | Ariana Nunes, Catarina Borda D’Água, Ema Braga, Luana Santos e Maria Mendes
Serpente | Daniela Mendes e Francisco Campos
Telefone Estragado | Ana Cerca, Juliana Costa, Vânia Nascimento, Maria Ferreira, Maria Mendes e Daniela Mendes
Tração à Corda | Francisco Campos e Gonçalo Dias
Vizinha, dá-me lume? | Maria Mendes, Daniela Mendes e Francisco Campos
Foi com genuíno orgulho que aceitei prefaciar a obra Jogos Tradicionais Infantis para o Pré-Escolar: Recriação e Abordagem Interdisciplinar. Enquanto Presidente da Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC), reconheço neste livro a expressão clara da nossa missão: formar com qualidade, investigar com relevância e intervir com sentido social e cultural.
A ESEC tem afirmado, ao longo dos anos, um percurso consistente na formação de educadores e professores, bem como na área das Ciências do Desporto, articulando saber científico, reflexão pedagógica e compromisso com a realidade educativa. Este livro representa, de forma exemplar, essa identidade. Nele convergem investigação aplicada, experiência formativa e valorização do património lúdico-cultural, numa proposta que articula a tradição e a inovação pedagógica.
Particularmente interessante para mim é o facto de este manual resultar de uma colaboração entre docentes e estudantes da ESEC. Esta simbiose intergeracional constitui um sinal de vitalidade académica: por um lado, preserva o rigor, a exigência e a profundidade da reflexão científica; por outro, aproxima o conhecimento das práticas concretas e dos desafios reais dos contextos educativos. O resultado é um livro sólido, útil e pedagogicamente consistente.
Ao percorrer as páginas deste livro, torna-se evidente que não se trata de um simples levantamento de jogos tradicionais. Estamos, na verdade, perante um instrumento de trabalho cuidadosamente concebido, que oferece ao educador de infância propostas estruturadas, contextualizadas e ajustáveis. A organização das fichas, a identificação dos materiais, a descrição dos procedimentos, as variantes, as progressões pedagógicas e a explicitação das competências mobilizadas fazem dele um recurso de planeamento e intervenção de grande qualidade. O livro assume, assim, uma função simultaneamente didática, formativa e inspiradora para a prática pedagógica.
Um dos seus maiores méritos reside na forma como evidencia a riqueza educativa do jogo tradicional. Os autores mostram, com clareza, que o brincar não é um intervalo da aprendizagem: é uma das suas formas mais completas. Através de jogos enraizados na memória coletiva, convocam-se aprendizagens nos domínios da motricidade, da linguagem, da matemática, do conhecimento do mundo, da autonomia, da cooperação e da cidadania. Esta transversalidade, coerente com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, confirma o valor do jogo tradicional como recurso pedagógico integrador, capaz de articular corpo, pensamento, emoção, cultura e relação.
Merece também destaque a forma como o livro não se limita a preservar jogos do passado, recriando-os pedagogicamente, tornando-os ajustáveis aos contextos da Educação Pré-Escolar e às necessidades concretas das crianças. É precisamente nessa capacidade
de recriação – informada, intencional e fundamentada – que reside outra das grandes qualidades desta publicação.
Importa, igualmente, salientar a atualidade da obra. Num tempo em que o sedentarismo, a excessiva mediação tecnológica e o empobrecimento das experiências de jogo espontâneo colocam novos desafios à infância, este livro devolve centralidade ao jogo enquanto recurso educativo vivo, adaptável e pedagogicamente intencional. Sublinha-se uma ideia essencial: o jogo orientado não substitui o brincar livre, complementa-o e valoriza-o.
A possibilidade de recriação e adaptação das propostas é, também, outro dos aspetos que mais valorizo nesta publicação. Ao prever variantes e ajustamentos em função da idade, do contexto, dos materiais disponíveis e das características do grupo, os autores reforçam uma visão inclusiva e diferenciada da ação educativa. Este manual não nos dá receitas, oferece-nos caminhos. Não fecha possibilidades, abre horizontes. E é precisamente nessa flexibilidade, sustentada por critérios pedagógicos claros, que reside uma parte significativa da sua força.
Jogos Tradicionais Infantis para o Pré-Escolar: Recriação e Abordagem Interdisciplinar é, por tudo isto, muito mais do que um repositório de práticas lúdicas do passado. É um livro que transforma memória em conhecimento, património em recurso educativo e tradição em proposta pedagógica. Ao fazê-lo, presta um contributo relevante à Educação Pré-Escolar e à formação daqueles que nela exercem a sua missão.
Felicito vivamente os autores por este trabalho, que honra a ESEC e reforça o seu papel na produção de conhecimento com utilidade social. Estou certo de que este livro se tornará uma referência para educadores, estudantes e todos os profissionais que reconhecem no brincar uma linguagem essencial da infância e um caminho incontornável para o desenvolvimento integral da criança.
Que esta obra encontre, nos contextos educativos em que vier a ser lida, pensada e aplicada, a mesma energia, criatividade e sentido de compromisso que estiveram na sua origem.
Rui Antunes
Presidente da Escola Superior de Educação de Coimbra
No final do século xix, com a realização dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896 (Atenas, Grécia), assistiu-se a uma maior massificação da prática desportiva. Anteriormente, a Revolução Industrial criara um conjunto de condições favoráveis ao desenvolvimento do desporto, como a redução do tempo de trabalho, o aumento do tempo livre e a melhoria das condições salariais. A prática desportiva foi, assim, progressivamente democratizada e passou a ser encarada, em muitos casos, como uma forma de lazer, integrando o quotidiano de um número crescente de pessoas, independentemente do sexo, etnia ou classe social (Correia, 1975; Silva & Almeida, 2025).
Se, em 1975, esse progresso era já evidente, sobretudo no período imediatamente a seguir ao fim do Estado Novo (1974), facilmente se compreende que, atualmente, a evolução se intensificou de forma significativa. A massificação da prática em ginásios e o boom das atividades de grupo (e.g., aeróbica, step, localizada) contribuíram para uma participação mais regular do público feminino, que, até então, se via muitas vezes limitado por constrangimentos sociais relacionados com o sexo.
Novas práticas dirigidas a grávidas ou a pessoas com deficiência constituem igualmente exemplos paradigmáticos do lema “Desporto para Todos”, ilustrando a forma como a prática desportiva se disseminou até aos dias de hoje. Torna-se, deste modo, evidente que o desporto, enquanto fenómeno social, tem acompanhado o desenvolvimento das sociedades, sendo continuamente influenciado e moldado por diferentes mudanças, crises e conjunturas (e.g., políticas, económicas), ao longo das diversas épocas (Carvalho, 1975, 1976; Meynaud, 1975; Pinto & Marques, 2025; Vasconcelos-Raposo, 1976).
Foi apenas na segunda metade da década de 70, com a instauração da democracia, que o desporto passou a ser reconhecido e consagrado como um direito, inexistindo até então uma política desportiva orientada para a generalização da sua prática junto da população portuguesa (Carvalho, 1975; Correia, 1975). Neste contexto, os baixos índices de prática desportiva em Portugal no início do século são particularmente evidentes (Marivoet, 2001) e persistem até à atualidade (Comissão Europeia, 2022). Contudo, verifica-se o crescimento de uma realidade emergente: a prática desportiva com fins lúdicos e não competitivos, com um número cada vez maior de praticantes a procurar, em health clubs (e.g., step, hidroginástica) ou em espaços naturais (e.g., pedestrianismo, rafting), momentos de prazer e bem-estar proporcionados pela atividade física (Comissão Europeia, 2022).
Presentemente, além da crescente valorização do desporto, assiste-se a uma discussão mais profunda e fundamentada sobre os benefícios da atividade física, sobretudo no contexto da população infantojuvenil (Neto, 2020). Entendemos, neste sentido, a atividade física como qualquer movimento corporal voluntário, realizado através da ação do sistema
músculo-esquelético, que implique um gasto energético superior ao verificado em estado de repouso (Ratamess, 2022).
As crianças passam cada vez mais tempo em ambientes escolares, envolvidas em atividades de cariz cognitivo, digital e tecnológico, e cada vez menos tempo envolvidas em movimento. Torna-se, portanto, fundamental criar condições que contrariem esta tendência (Ratamess, 2022). A responsabilidade é coletiva: pais, familiares, educadores, professores, governo, todos devemos refletir e agir. Nesta perspetiva, nós, enquanto autores e agentes educativos, pretendemos que esta obra constitua um modesto contributo nesse sentido.
Como mencionado, em 2024, foi publicado pela PACTOR o livro intitulado Jogos Tradicionais Infantis: Recriação e Abordagem Interdisciplinar: Para o 1.º Ciclo do Ensino Básico. Antes mesmo da sua publicação e comercialização, compreendemos o interesse em desenvolver um trabalho semelhante, mas focado na Educação Pré-Escolar. Conforme refere o Professor Carlos Neto no prefácio que gentilmente redigiu para essa obra, “[…] a implementação do jogo ativo na escola constitui-se como um urgente combate ao sedentarismo e à iliteracia motora, que no momento atual se torna numa tarefa gigantesca a implementar […]” (Campos et al., 2024, p. 13). Este é um dos pressupostos que fundamentou a elaboração do presente manual, que se debruça, exclusivamente, sobre o jogo tradicional infantil no contexto da Educação Pré-Escolar.
Importa, no entanto, referir que as propostas aqui apresentadas, organizadas e supervisionadas pelo educador de infância (EI) ou pelo professor de Educação Física, não pretendem substituir o brincar livre. Reconhecemos o seu valor inestimável e acreditamos que deve continuar a ser promovido, talvez hoje mais do que nunca. Na verdade, a excessiva organização e orientação adulta das rotinas infantis tem vindo a comprometer a capacidade das crianças para desenvolverem, de forma espontânea, as suas próprias brincadeiras. Acreditamos que o “brincar livre” promove competências essenciais como o pensamento crítico, a criatividade, a proatividade e o dinamismo (Neto, 2020).
Como refere Amado (2016), “[…] o brincar constitui-se como meio de construção da cultura identitária de uma geração, traduzida no modo como as crianças, coletivamente, dão significado à vida e às ações adultas que imitam de forma muito livre e fantasista” (p. 136). É neste contexto que se inscreve o brincar livre, que deve continuar a ser promovido, pois também se aprende a brincar (Neto, 2020). Considerando que o jogo é uma forma privilegiada de brincar, estando integrado no Domínio da Educação Física das Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE) (Silva et al., 2016), este representa a base estruturante do presente trabalho.
Neste sentido, utilizámos o jogo tradicional infantil como forma de brincar simultaneamente lúdica, motivadora e educativa, permitindo às crianças construir conhecimentos em diversas áreas e desenvolver competências motoras fundamentais (correr, lançar, saltar, entre outras) (Dias et al., 2022; Mendes & Dias, 2013).
Conforme enaltecem Campos e colaboradores (2024), os princípios aqui apresentados são suscetíveis de adaptação criativa por parte do EI, podendo originar “[…] novas ideias, outras organizações e situações de aprendizagem, abordagem de outros conteúdos e/ou
utilização de outros materiais […]” (p. xxv). Esta é, precisamente, a base que nos propomos partilhar: uma estrutura aberta, flexível e ajustável à realidade de cada contexto educativo.
Esta obra está organizada em torno de quatro vertentes principais:
Formação Pessoal e Social;
Expressão e Comunicação – Domínio da Linguagem Oral e Abordagem à Escrita;
Expressão e Comunicação – Domínio da Matemática; Conhecimento do Mundo.
Do ponto de vista operacional, apresentamos três versões para cada jogo (original, recriação e abordagem interdisciplinar), acompanhadas de diferentes progressões pedagógicas, totalizando 32 jogos distintos, diferentes dos 28 jogos incluídos no livro anteriormente referido, destinado ao 1.º Ciclo do Ensino Básico (cf. Campos et al., 2024). Os jogos que denominamos originais são apresentados tal como são realizados no recreio, na rua, em casa ou em outro contexto. Essa é a essência e o desafio a que nos propusemos. Pegar em jogos de rua (e.g., Berlinde), alguns pouco pedagógicos e/ou “saudáveis” (e.g., Lá Vai Alho), e trazê-los para a escola, adaptando-os e reorganizando-os em termos pedagógicos e didáticos. É igualmente importante reforçar que a originalidade dos jogos é sempre discutível. O mesmo jogo pode diferir em termos de regras, organização ou material utilizado, de aldeia para aldeia, por vezes bastante próximas em termos geográficos. Nesses casos, optámos pela apresentação de uma dessas possibilidades.
A Educação Pré-Escolar assume um papel crucial no desenvolvimento integral da criança, constituindo uma base privilegiada para a realização de diversas aprendizagens, nomeadamente sociais, interpessoais, entre outras. Em Portugal, esta etapa educativa abrange crianças dos três anos até à entrada no Ensino Básico, geralmente por volta dos cinco ou seis anos. Neste enquadramento, Vasconcelos (2005) considerou a Educação Pré-Escolar como a primeira etapa do Sistema Educativo.
A responsabilidade pela qualidade pedagógica das instituições de Educação Pré-Escolar, sejam elas públicas ou privadas, é atribuída ao Ministério da Educação, que tem vindo a definir e a atualizar orientações com vista à promoção da qualidade do processo educativo. Em 1997, foram publicadas as OCEPE, as quais apresentavam três áreas de conteúdo de referência para o planeamento e avaliação curricular (Ministério da Educação, 1997, p. 14):
1 Formação Pessoal e Social.
2 Expressão e Comunicação.
2.1 Domínio das Expressões (Motora, Dramática, Plástica e Musical).
2.2 Domínio da Linguagem Oral e Escrita.
2.3 Domínio da Matemática.
3 Conhecimento do Mundo.
Com a revisão das OCEPE em 2016, algumas designações foram ajustadas, refletindo uma abordagem mais atualizada das práticas pedagógicas. Destaca-se, por exemplo, a reformulação do domínio “Linguagem Oral e Escrita”, que passou a denominar-se “Linguagem Oral e Abordagem à Escrita” (Silva et al., 2016).
Ao longo desta obra, serão exploradas as aprendizagens a promover nos principais domínios definidos pelas OCEPE (2016): Formação Pessoal e Social (Quadro 1), Expressão e Comunicação – Linguagem Oral e Abordagem à Escrita (Quadro 2), Expressão e Comunicação – Domínio da Matemática (Quadro 3) e Conhecimento do Mundo (Quadro 4). Estes domínios constituem o alicerce da nossa abordagem e servirão de fio condutor ao trabalho que se apresenta de seguida (Silva et al., 2016).
Construção da identidade e da autoestima
Conhecer e aceitar as suas características pessoais e a sua identidade social e cultural, situando-as em relação às de outros;
Reconhecer e valorizar laços de pertença social e cultural.
Independência e autonomia
Saber cuidar de si e responsabilizar-se pela sua segurança e bem-estar;
Ir adquirindo a capacidade de fazer escolhas, tomar decisões e assumir responsabilidades, tendo em conta o seu bem-estar e o dos outros.
Consciência de si como aprendente
Ser capaz de ensaiar diferentes estratégias para resolver as dificuldades e problemas que se lhe colocam;
Ser capaz de participar nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem; Cooperar com outros no processo de aprendizagem.
Convivência democrática e cidadania
Desenvolver o respeito pelo outro e pelas suas opiniões, numa atitude de partilha e de responsabilidade social;
Respeitar a diversidade e solidarizar-se com os outros;
Desenvolver uma atitude crítica e interventiva relativamente ao que se passa no mundo que a rodeia;
Conhecer e valorizar manifestações do património natural e cultural, reconhecendo a necessidade da sua preservação.
Fonte: Silva et al. (2016, p. 42).
A Formação Pessoal e Social assume um papel central na Educação Pré-Escolar, constituindo a base sobre a qual se estrutura o desenvolvimento global da criança. Ao promover aprendizagens neste domínio, o EI contribui para a construção da identidade, da autonomia,
O Jogo do Berlinde tem origens muito antigas e é tradicionalmente praticado em várias culturas, com versões diferentes em todo o mundo. Em Portugal, já foi uma brincadeira muito popular entre crianças. Os participantes usam pequenas esferas de vidro, chamadas berlindes, e o objetivo é lançá-los de forma a acertar nos berlindes adversários, utilizando várias estratégias e técnicas de lançamento (Associação de Desenvolvimento Dão, Lafões e Alto Paiva, s.d.; Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto s.d.; Cortinhas, s.d.; Santos, 2006).
MATERIAIS: Berlindes (1 por participante).
PRINCIPAIS BENEFÍCIOS:





DESCRIÇÃO:
Coordenação
Diferenciação cinestésica
Relacionamento interpessoal
Respeito
Autorregulação
Concentração
Foco
Escuta ativa
Linguagem oral

Orientação
Pensamento lógico
Raciocínio estratégico
1 O jogo deve decorrer num espaço de terra batida, preferencialmente plano e livre de obstáculos (como pedras ou paus), de modo a permitir que os berlindes rolem facilmente no chão.
2 É feito um buraco no solo, com cerca de um punho de profundidade, denominado “cova”.
3 A uma distância previamente acordada entre os participantes, traça-se uma linha de lançamento. A partir desta linha, cada participante lança o seu berlinde com o objetivo de o fazer entrar na cova ou, pelo menos, posicioná-lo o mais próximo possível.
4 A ordem de lançamento, na primeira ronda, é definida aleatoriamente ou por acordo entre os participantes; nas rondas seguintes, pela classificação obtida anteriormente (i.e., o vencedor será o primeiro a lançar, depois o segundo classificado e assim sucessivamente).
5 Apesar de a forma de lançar o berlinde ser livre, por norma, opta-se por um lançamento similar ao serviço por baixo realizado no voleibol.
6 Após todos os participantes lançarem o seu berlinde para a cova, um novo ordenamento pode surgir. Jogará primeiro o que colocou o berlinde dentro da cova (se forem vários, será o primeiro que o conseguir, seguido do segundo e assim sucessivamente) e depois os que se encontram mais próximos; o último é sempre o que se encontra mais longe da cova ou o último a conseguir colocar o seu berlinde dentro da cova.
7 Colocar o berlinde na cova permitirá tentar eliminar os adversários; até lá, não é possível. Para tal, é dado um palmo (direção livre, numa perspetiva de 360º, consoante a estratégia definida e a posição dos berlindes adversários), colocando o dedo polegar junto à cova e o dedo mínimo na direção do berlinde que se pretende eliminar, para assim ficar mais próximo deste.
8 A posição do dedo mínimo indica o local onde se joga, lançando o berlinde com o objetivo de este bater no berlinde do opositor, eliminando-o do jogo.
9 Existe, por vezes, a tendência de, com os lançamentos, se ir aproximando do berlinde adversário (varela), o que não é permitido. Apesar de a técnica de lançamento ser própria de cada participante, habitualmente, utilizam-se os dedos polegar ou indicador para o fazer.
10 Os participantes cujos berlindes são eliminados saem sequencialmente do jogo, até restar apenas um, o vencedor da ronda.
MATERIAIS: Arcos (4) e bolas de ténis (1 por criança).
DESCRIÇÃO:
1 Para rentabilizar o tempo de empenhamento motor, e caso disponha de material e espaço para tal, o EI deve criar mais campos de jogo (e.g., para um grupo de 24 crianças, criar seis espaços, cada um com quatro crianças).
2 A dinâmica é similar à do jogo original, com as devidas adaptações: a cova é substituída por um arco e os berlindes, por bolas de ténis (ou de tamanho similar); as restantes regras aplicam-se conforme o descrito na proposta anterior.
3 Nesta, como as bolas – que substituem os berlindes – são maiores, o lançamento deve ser feito por baixo, com a palma da mão, semelhante aos movimentos característicos do Bowling ou do Jogo da Malha.
4 A ronda termina imediatamente após a primeira criança ser eliminada. É declarado apenas um vencedor: o que o conseguir fazer, batendo com a sua bola na bola de uma criança adversária. Esta regra faz com que não exista tempo de espera e as crianças estejam sempre em atividade, a participar e envolvidas no jogo.

AaP: Usar a linguagem oral em contexto, conseguindo comunicar eficazmente de modo adequado à situação (produção e funcionalidade).
MATERIAIS: arcos (2), bolas de ténis (1 por criança) e cartões com ilustrações/ /imagens (24).
DESCRIÇÃO:
1 Na mesma lógica de organização, sugere-se a criação de vários campos de jogo (e.g., para um grupo de 24 crianças, dois espaços com 12 crianças). Assim, cada criança terá mais oportunidades de intervir ativamente no jogo.
2 As crianças dispõem-se à volta do arco, formando um círculo a cerca de 3 metros de distância deste.
3 Dentro do arco, encontram-se ilustrações/imagens, que remetem para determinados contextos específicos diversificados (e.g., praia, supermercado, hospital), 12 num arco e 12 no outro.
4 Ao sinal do EI, em simultâneo, todas as crianças lançam a bola, tentando colocá-la dentro do arco. Devem estar atentas, seguindo a trajetória da sua bola com o olhar, para perceber a sua posição final.
5 Das crianças que conseguirem colocar a bola dentro do arco, partindo do pressuposto de que, pelo menos, uma consegue (se nenhuma o fizer, o lançamento repete-se), o EI seleciona uma criança, pede que se desloque até ao centro e retire uma das ilustrações/ /imagens. Em seguida, pede-lhe que a identifique e partilhe com todos o que significa para si e as memórias que lhe transmite.
6 O EI faz, depois, a mesma questão a uma das crianças que não conseguiu colocar a bola no arco, permitindo, igualmente, que se exprima sobre o contexto em análise.
7 Na segunda ronda e seguintes, o EI deve permitir que todas as crianças assumam o papel que foi descrito anteriormente. Após cada análise, a ilustração/imagem em causa é removida, para promover maior diversidade e não tornar o jogo repetitivo.

VARIANTES/PROGRESSÕES PEDAGÓGICAS:
Adaptar o nível de dificuldade do lançamento consoante a idade e competência motora das crianças (e.g., maior ou menor distância em relação ao arco, maior ou menor tamanho da bola, maior ou menor tamanho do arco, lançar com mão dominante ou não dominante, lançar com a mão ou pontapear); Perante uma temática específica (e.g., estação do ano verão), as ilustrações/imagens remeterem para objetos que as crianças geralmente conhecem desse meio (e.g., guarda-sol, gelado, praia, calções, boia). Neste caso, a análise focar-se-ia na utilidade (e.g., calções, boia), função (e.g., guarda-sol) ou sensação veiculada (e.g., gelado, praia).
Para educadores de infância, professores de Educação Física, monitores de ATL e outros profissionais de Educação
Pré-Escolar, assim como para estudantes de cursos de Educação Básica e similares, este livro é um convite à ação pedagógica consciente, em que o brincar assume o seu lugar central no processo educativo .
Redescobrir o valor do brincar é, hoje, mais do que uma tendência, uma necessidade. Neste livro, os jogos tradicionais infantis ganham nova vida ao serem integrados, de forma intencional e estruturada, no contexto da Educação Pré-Escolar.
Pensado para educadores de infância, professores de Educação Física, monitores de ATL e outros profissionais da área, este recurso oferece propostas práticas, acessíveis e pedagogicamente fundamentadas que promovem o desenvolvimento global da criança. Através de jogos enraizados na cultura lúdica, as crianças exploram, criam, comunicam e crescem, desenvolvendo competências motoras, cognitivas, sociais e emocionais de modo significativo.
Cada jogo é apresentado em três versões: original, recriação e abordagem interdisciplinar, permitindo ao adulto adaptar as atividades a diferentes contextos, ritmos e interesses. Com um total de 32 jogos organizados em quatro grandes áreas de desenvolvimento, esta obra convida à experimentação, à inclusão e à valorização do património cultural.
Mais do que um conjunto de atividades, este livro é um ponto de partida inspirador para transformar momentos lúdicos em oportunidades ricas de aprendizagem.


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