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A Psicologia da Pandemia - Compreender e Enfrentar a COVID-19

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Av. Praia da Vitória, 14 A – 1000-247 LISBOA Tel: +351 213 511 448 livraria@lidel.pt Copyright © 2020, PACTOR – Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação ® Marca registada da FCA – Editora de Informática, Lda. ISBN edição impressa: 978-989-693-117-9 1.ª edição impressa: setembro de 2020 Paginação: Carlos Mendes Capa: José Manuel Reis Imagens de capa: © Svsunny

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ÍNDICE Os Autores

VII

Prefácio XVII Nota dos Coordenadores

XVI

CAPÍTULO 1 COVID-19: uma nova pandemia, uma nova era?

1

Mauro Vicente e Elsa Jovita Gomes

CAPÍTULO 2 Abordagem clínica: da gestão do sistema de saúde à imunização

17

Marta Silva e Pedro Correia

CAPÍTULO 3 Comunicação de riscos: mensagens eficazes no controlo e prevenção da pandemia

33

Mauro Paulino, Rodrigo Dumas-Diniz e Miguel Telo de Arriaga

CAPÍTULO 4 Respostas psicológicas: o impacto da pandemia na saúde mental

45

Mauro Paulino e Rodrigo Dumas-Diniz

CAPÍTULO 5 Traços de personalidade: influência na adesão às recomendações oficiais de saúde

57

Mauro Paulino, Rodrigo Dumas-Diniz, Mário R. Simões, Rute Brites e Sandra Freitas

CAPÍTULO 6 Complicações neurológicas e psiquiátricas: dos sintomas à resposta terapêutica

73

Sofia Brissos e Camila Nóbrega

CAPÍTULO 7 Modelos de intervenção psicológica: agir em tempos de crise

83

Eduardo Carqueja e Cláudia Sousa

CAPÍTULO 8 Intervenção psicológica com profissionais de saúde: promover a segurança e evitar o burnout

93

Mauro Paulino e Rodrigo Dumas-Diniz

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CAPÍTULO 9 Intervenção psicossocial em contexto comunitário: os desafios e as novas realidades humanas e sociais 103 Maria Teresa Ribeiro, Maria Minas e Raquel Martinho Ciancio

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III


CAPÍTULO 10 Intervenção Psicossocial nas instituições sociais: da gestão à ação 113 Ana Lopes, Luísa Carvalho, Raquel Roseiro e Inês Soares

CAPÍTULO 11 Processo de luto: viver a perda em tempos de pandemia 131 Mauro Paulino e Sofia Gabriel

CAPÍTULO 12 Estabelecimentos de educação e ensino: do regresso às (in)seguranças 149 João Núncio Crispim

CAPÍTULO 13 Violência doméstica: a pandemia invisível 161 Mauro Paulino e Dália Costa

CAPÍTULO 14 Direito da família e das crianças: reflexões e repercussões 181 Maria Perquilhas

CAPÍTULO 15 Educação e ensino a distância: desafios da adaptação à (nova) realidade 195 Luís Graça

CAPÍTULO 16 Trabalhar durante a pandemia: a afirmação do teletrabalho 205 Laura Alho

CAPÍTULO 17 O exercício do Direito: da legislação aos tribunais 217 António Paulo Santos e Victor Castro Rosa

CAPÍTULO 18 Crise económica global: do impacto pandémico às respostas políticas e económicas dos governos 235 Abel Mateus

CAPÍTULO 19 Intermitências emocionais e religiosas: novos desafios às comunidades de fé 255 José Brissos-Lino

CAPÍTULO 20 Os cães e a pandemia: do animal de companhia ao hiperapego 265 Pedro Emanuel Paiva

Considerações Finais

275

Posfácio 283

IV

Í ndice


OS AUTORES

Coordenadores Mauro Paulino Psicólogo Forense. Consultor do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com grau de Especialidade Avançada em Psicologia da Justiça. Docente convidado em várias universidades nacionais e internacionais. Mestre em Medicina Legal e Ciências Forenses. Doutorando em Psicologia Forense. Autor e coordenador de diversos livros.

Rodrigo Dumas-Diniz Psicólogo Júnior. Colabora na recolha de protocolos de investigação em contexto forense. Licenciado em Psicologia Criminal. Mestre em Neuropsicologia. Com experiência hospitalar em avaliações neuropsicológicas a adultos e idosos, nas diversas patologias do Sistema Nervoso.

Autores Abel Mateus Professor Universitário de Economia na Universidade Nova de Lisboa (jubilado), na Universidade Católica Portuguesa e no University College of London. Presidente da Autoridade da Concorrência e membro do Conselho do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento. Conselheiro de mais de 11 países nos vários continentes. Foi economista sénior do Banco Mundial e administrador do Banco de Portugal. Doutorado pela Universidade de Pennsylvania, EUA.

Ana Lopes

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Formadora na área das Ciências Sociais. Coordenadora na Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades de Águeda (CERCIAG). Desempenhou funções técnicas nas áreas da formação e emprego, atividades ocupacionais, residências e apoio domiciliário de pessoas com deficiência. Licenciada em Serviço Social, com especialização em Justiça e Reinserção Social.

António Paulo Santos Advogado. Diretor-Geral da Associação para a Gestão de Direitos de Autor, Produtores Audiovisuais e Cinematográficos (GEDIPE). Presidente de Direção do Movimento

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Cívico Antipirataria na Internet (MAPINET). Ex-inspetor da Polícia Judiciária. Diretor Geral da Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais. Pós-graduado em Direito da Comunicação. Doutorando em Ciências da Comunicação.

Camila Nóbrega Assistente Hospitalar de Neurologia e Coordenadora da Unidade de Diagnóstico e Intervenção do Serviço de Psiquiatria Geriátrica no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Exerce atividade clínica e investigação. Exerce consultoria forense e clínica de Neuropsiquiatria. Licenciada em Medicina com Internato Médico na especialidade de Neurologia.

Cláudia Sousa Coordenadora da Unidade de Neuropsicologia do Serviço de Psicologia do Centro Hospitalar Universitário de São João e Membro da Ordem dos Psicólogos. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Neuropsicologia. Licenciada em Psicologia Clínica e Mestre em Psicologia da Saúde.

Dália Costa Professora Auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa), onde é Investigadora, fundadora e cocoordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG) e também Investigadora no Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP). Coordenação de projetos de investigação nacionais e internacionais. Licenciada em Política Social. Pós-graduada em Ciências Criminais. Mestre em Sociologia. Doutorada em Sociologia da Família.

Eduardo Carqueja Diretor do Serviço de Psicologia do Centro Hospitalar Universitário de São João. Docente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Docente da Universidade Católica Portuguesa. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde. Especialista em Luto. Presidente da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Licenciado em Psicologia Clínica. Mestre em Ciências Religiosas. Doutorado em Bioética.

Elsa Jovita Gomes Enfermeira no Agrupamento de Centros de Saúde Arrábida em Setúbal – Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados São Sebastião. Licenciada em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. Licenciada em Direito pela Universidade Moderna – Pólo de Setúbal. Pós-graduada em Mutilação Genital Feminina.

Inês Soares Diretora Técnica na Unidade de Cuidados Continuados Integrados da Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede. Desempenhou funções de direção técnica em diversas respostas sociais. Desempenhou funções técnicas na Linha Nacional de Emergência (Linha 144) do Serviço de Emergência Social (SES). Licenciada em Serviço Social.

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O s A utores


João Núncio Crispim Pediatra no Hospital da Luz, em Lisboa e Coordenador do Atendimento Urgente de Pediatria. Formador do Grupo de Reanimação Pediátrica do Conselho Português de Ressuscitação/INEM. Trabalhou como Pediatra no Hospital de Santa Maria, Hospital Beatriz Ângelo e Hospital Garcia de Orta. Foi docente da Faculdade de Medicina de Lisboa. Colaborou com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) no Transporte Inter-hospitalar Pediátrico.

José Brissos-Lino Docente e diretor do Mestrado em Ciência das Religiões, na Universidade Lusófona (Lisboa). Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo. Investigador doutorado integrado do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Desenvolve atividade associativa em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou. Doutorado em Psicologia.

Laura Alho Psicóloga clínica. Membro de associações nacionais e internacionais científicas. Desenvolve trabalho de investigação na área da Psicologia do Testemunho. Oradora e palestrante convidada em várias entidades e instituições de ensino. Autora e coordenadora de livros e publicações científicas. Licenciada em Psicologia. Pós-graduada em Criminologia. Mestre em Psicologia. Doutorada em Psicologia.

Luís Graça Gestor de formação, responsável pelo departamento de Ensino a Distância e Relações Públicas do Instituto CRIAP. Formador desde 1998, com vasta experiência formativa em Informática, Relações Públicas, Turismo, Redes Sociais, Fotografia, Formação Pedagógica Inicial de Formadores, Gestão da Formação e Ensino a Distância. Foi responsável pelo desenvolvimento do Ensino a Distância em diversas entidades. Licenciado em Relações Públicas.

Luísa Carvalho Diretora-Geral e Secretária da Direção da Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades de Águeda (CERCIAG). Secretária da Mesa da Assembleia Geral da Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social (FENACERCI) e Delegada Regional do Centro da FENACERCI. Licenciada em Direito. Pós-graduada em Economia Social – Cooperativismo, Mutualismo e Solidariedade.

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Maria Minas Professora Assistente Convidada na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Tem colaborado na conceção e implementação do ComParte (projeto que atua em áreas como a Educação e a integração de refugiados). Coordenou o projeto “Educar para a Cidadania”, do Banco Alimentar contra a Fome de Lisboa. Desenvolve projetos, enquanto terapeuta comunitária. Doutorada em Psicologia, com especialidade em Psicologia Clínica.

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Maria Perquilhas Juíza Desembargadora. Docente convidada em diversas universidades e instituições de formação na área do Direito da Família e das Crianças. Perita da Rede Europeia de Formação Judiciária. Oradora e moderadora de Conferências e Seminários. Pósgraduada em “A proteção de Menores Vítimas de Crime Sexual”, “Jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem” e “Proteção de Menores”. Formação em “Avaliação e Promoção de Competências Parentais” e Curso de Especialização em Grandes Temas de Direito da Família e das Crianças.

Maria Teresa Ribeiro Professora Associada da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Exerce clínica, designadamente terapia conjugal e familiar, bem como supervisão de estágios clínicos académicos e profissionais. Foi representante de Portugal no Comité de Peritos da Infância e da Família (CS-EF) do Conselho da Europa. Autora de vários livros nacionais e internacionais e de vários artigos em revistas internacionais. Doutorada em Psicologia.

Mário R. Simões Professor Catedrático na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), instituição onde é também Diretor do Laboratório de Avaliação Psicológica e Psicometria e Responsável pela consulta de avaliação neuropsicológica, que responde a pedidos de avaliação solicitados por tribunais. Doutorado em Avaliação Psicológica. Autor e coordenador de vários livros.

Marta Silva Exerce funções de apoio à gestão e coordenação no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental. Elemento pertencente ao Grupo de Enfermeiros Especialistas em Saúde Mental e Psiquiatria do Centro Hospitalar de Setúbal (CHS). Colaborou na revisão de Normas e Procedimentos para o Programa de Acreditação do CHS. Licenciada em Enfermagem. Pós-graduada em Enfermagem de Saúde Mental. Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica. Especializada em Administração Hospitalar.

Mauro Vicente Enfermeiro no Agrupamento de Centros de Saúde Arrábida em Setúbal – Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados São Sebastião. Licenciado em Enfermagem pela Escola Superior do Instituto Politécnico de Setúbal. Licenciado em Direito pela Universidade Moderna – Pólo de Setúbal.

Miguel Telo de Arriaga Chefe da Divisão de Literacia, Saúde e Bem-Estar na Direção-Geral da Saúde. Coordenação de projetos nas áreas da Promoção da Saúde. Docente e Investigador na Universidade da Beira Interior. Colabora em diferentes grupos de peritos internacionais. Doutorado em Psicologia. Especialista em Intervenção Psicossocial em

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O s A utores


Situações de Crise e Emergência e em Comunicação de Crise e Comunicação de Risco. Vencedor do prémio Nacional de Saúde Pública 2018.

Pedro Correia Perito Médico do Centro Distrital de Setúbal da Segurança Social e no Gabinete Médico-Legal e Forense da Península de Setúbal. Foi Assistente de Medicina Geral e Familiar no Agrupamento de Centros de Saúde Arrábida. Licenciado em Medicina, com especialidade em Medicina Geral e Familiar. Pós-graduado em Medicina Desportiva, em Medicina Legal Social e do Trabalho, em Medicina Legal e Ciências Forenses e em Avaliação do Dano Corporal Pós-Traumático.

Pedro Emanuel Paiva Militar de carreira na Guarda Nacional Republicana. Especialista em comportamento canino há 19 anos. Fundador da Associação Pet B Havior. Produtor e apresentador de conteúdos na rádio e na televisão. Consultor e formador no Pavilhão do Conhecimento. Consultor Externo da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Mafra e do Tribunal de Família e Menores de Mafra. Docente no Instituto Superior de Educação e Ciências de Lisboa e no Instituto Gustave Eiffel.

Raquel Martinho Ciancio Psicóloga. Terapeuta de Casais e Famílias e Terapeuta Comunitária. Conduz, atualmente, o projeto terapêutico integrativo “rodas online” na Associação Movimento Integrado de Saúde Ambiental e Comunitária (AMISAC). Ao longo da sua atividade profissional, conciliou a experiência clínica com a Saúde Pública e o terceiro setor, atuando em situações de violência doméstica. Mestre em Saúde Coletiva.

Raquel Roseiro Integra o Gabinete de Apoio Psicológico e Psicopedagógico da Santa Casa da Misericórdia de Cantanhede, transversal a todas as respostas sociais desta Instituição: Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, Centro de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário, Creche, Pré-Escolar, Centro de Atividades de Tempos Livres e Unidade de Cuidados Continuados Integrados. Licenciada em Psicologia, com pré-especialização em Psicologia do Desenvolvimento.

Rute Brites

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Psicoterapeuta e Professora Associada na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), onde desempenha funções de assessora da Direção. Psicóloga clínica, membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Vice-presidente da APPCPC e cocoordenadora da formação em Counselling e Psicoterapia. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicoterapia. Doutorada em Psicologia da Saúde. Autora de capítulos de livros e artigos científicos nacionais e internacionais.

Sandra Freitas Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCE-UC) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

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da Universidade da Beira Interior. Investigadora auxiliar e membro doutorado efetivo da FPCE-UC. Doutorada em Psicologia, com especialidade de Neuropsicologia. Com projetos de investigação nas áreas da Neuropsicologia, com particular interesse pelo envelhecimento cerebral normal e patológico, avaliação e reabilitação neuropsicológica, declínio cognitivo e demências, processos cognitivos e reserva cognitiva.

Sofia Brissos Médica Psiquiatra no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL). Consultora de Psiquiatria para a ADSE (Segurança Social, Caixa Geral de Aposentações e Instituto Nacional de Medicina Legal). Exerce consultoria técnica para várias farmacêuticas. Autora de artigos científicos e de vários capítulos de livros, sendo revisora de prestigiadas revistas científicas internacionais. Licenciada em Medicina. Especialista em Psiquiatria e Subespecialista em Psiquiatria Forense.

Sofia Gabriel Psicóloga clínica. Pós-graduada em Luto. Mestre em Psicologia Clínica CognitivaComportamental e Integrativa. Possui curso de Técnico de Apoio à Vítima (TAV), Traumatic Incident Reduction Nível 1 e Intervenção Cognitiva-Narrativa no Luto Nível 1.

Victor Castro Rosa Advogado. Vice-Presidente da Associação Círculo d’Autor. Foi Diretor Jurídico da TVI. Responsável pelo Departamento de Estudos e Relações Externas da Associação para a Gestão Coletiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais (GEDIPE). Autor de conferências e artigos científicos. Tem um LLM (Master of Laws) em Direito da Tecnologia, da Comunicação Social e Telecomunicações, pela Queen Mary University of London.

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O s A utores


PREFÁCIO

O medo veio de madrugada. Faltam umas três horas para a luz de março entrar pelas duas frestas da persiana e os olhos não mais descansam até de manhã: – E se eles apanham isto, se me morrem? O mesmo nas madrugadas seguintes. O medo vem em jorro, repentino, como se o pensamento fosse acordado por uma dor crescente, uma angústia a precisar de ser vomitada. – E se eles apanham isto, se me morrem? A minha ansiedade era a ansiedade de milhões por todo o mundo. O sono tornou-se leve, a mão invisível a pressionar o peito, a não deixar sorver a regular quantidade de ar, o coração a ecoar no corpo, transformado em caixa de tambor. Em breve, instala-se o receio de dormir, de deixar o cérebro à rédea solta, desamarrado do consciente que nas horas de vigília, nos regula e impede de ceder. Comecei a acalmar apenas no dia em que os pais concordaram que, daí em diante e até mais ver, não sairiam de casa. Foi difícil. Como pedir-lhes que se fechassem? Que abandonassem os gestos habituais, as caminhadas, a roda dos amigos, as gargalhadas em grupo? Como explicar que a porta não devia abrir-se a ninguém, que a varanda passaria a ser a única rua, que não sabíamos quando voltariam a abraçar os filhos? Foi mais difícil porque, nesses dias, a televisão mostrava sinais contrários. A autoridade de saúde a garantir que isto não chega cá e o chefe de Estado a multiplicar-se em beijos e apertos de mão, até ser obrigado a quarentena.

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Nunca como neste tempo foi tão urgente a verdade. O que tivemos no início da pandemia foi o paradoxo da informação a duas velocidades, em dois tons: o da comunicação jornalística, num crescendo de gravidade para a qual o país só desperta verdadeiramente quando se

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declara a primeira infeção, e o da comunicação institucional, a desvalorizar o problema. Esta desvalorização acabou por refletir-se na falta de ações concretas e preventivas. Quando a pandemia se instalou, serviços essenciais como as linhas telefónicas de apoio ao médico e ao utente, por exemplo, ainda estavam planeadas para tempos de quase normalidade. Só então se despertava para a urgência dos ventiladores. Pontos sensíveis como aeroportos e fronteiras ainda viviam em aflitiva liberdade de movimentos. A máscara ainda era menorizada pelas autoridades, não por desconhecimento, mas porque era sabido que não chegavam nem para os profissionais de saúde. A falta de uma comunicação de riscos rigorosa e atempada só não teve efeitos mais severos no início da pandemia porque o jornalismo, como lhe compete, preencheu esse papel orientador. Foi um movimento sem precedentes e arriscado, como acontece sempre que o jornalismo toma posição, mas que acabou por revelar-se crucial na defesa do interesse geral, da saúde pública, da verdade. Nunca como neste tempo experimentámos a desinformação. Em plena era das redes sociais, com o poder que cada indivíduo ganhou de influenciar a comunidade no melhor ou no pior sentido, vivemos a angústia da má informação, da mentira deliberada ou ignorante. No início da crise sanitária, na fase de maior descontrolo e desinformação, a Comissão Europeia detetou mais de 2700 casos de informação falsa publicada num só dia nas redes sociais. Garantia-se, por exemplo, que era inútil lavar as mãos ou que a COVID-19 era um perigo apenas para os idosos. O estudo garantia mesmo que “a desinformação e informação de má qualidade associada ao novo coronavírus, que vai desde a propagação de mentiras, informação enganosa e fraudes, é um perigo para a saúde pública e para os consumidores”. O jornalismo de verificação de factos permitiu anular milhares de erros e mentiras, lixo informativo que, se tivesse subsistido, teria tido consequências ainda mais complexas. Mas a luta pela verdade não compete apenas ao jornalismo. A pandemia veio sublinhar também a responsabilidade

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das próprias comunidades na escolha das melhores fontes de informação, decidindo, assim, melhor em momentos críticos. A exposição a este lixo informativo é mais difícil de anular quando a informação falsa provém de fontes oficiais ou máquinas de propaganda com mais poder e alcance e que usam a desinformação para camuflar um falhanço clamoroso ou alterar uma realidade politicamente desfavorável. Tomemos como exemplo a célebre e perigosa sugestão do líder político mais poderoso do mundo de que beber desinfetante aniquilaria o vírus. Exemplos como este tornam claro que o escrutínio dos poderes é ainda mais decisivo nos momentos de crise extrema. É especialmente importante quando estão em causa questões de saúde pública e decisões que limitam a liberdade individual, um rastilho para eventuais derivas musculadas quando aplicadas sem vigilância. Nunca, como neste tempo, vivemos o medo. O medo que agora experimentamos não é o impulso natural e desejável a que estamos habituados. Não é o mecanismo de proteção que nos leva a fugir a um perigo, que nos salva diante de uma ameaça. O medo de agora vai mais fundo porque a ameaça é invisível e universal, não há um lugar verdadeiramente seguro, chega-nos de todos os lados, sob todas as formas. O medo do país do lado ou do vizinho da frente, o medo de abraçar a mãe ou de entregar um neto nos braços dos avós, o medo de um colega de trabalho nos infetar ou de sermos nós a contagiar alguém próximo, o medo da morte. De um dia para o outro, a possibilidade do fim está ali, nítida. O pânico de perder os nossos sem sequer podermos ver-lhes o rosto uma última vez, sem uma despedida digna, num luto incompleto, talvez adiado para sempre. Eis o medo que se enraíza, que se manifesta em ansiedade e angústia, em perturbação do sono e depressão, uma pandemia paralela.

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Nunca, como neste tempo, precisámos de humanidade. Sentimos a urgência de humanidade sempre que a fome se instala e não é sequer reconhecida pelos poderes. Sempre que idosos nos morrem devido ao vírus, à sede ou à privação terapêutica, abandonados num lar onde a infeção anulou todos os funcionários. A humanidade fica mais

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ferida sempre que um líder falha na empatia, sempre que tenta diluir na estatística a perda de uma vida. O que ficará depois de tudo passar é o que fomos enquanto tudo durou. O que estamos a ser como dirigentes, como indivíduos ou como nação é o que nos define verdadeiramente. Dou por mim a pensar que ninguém conseguirá fingir num momento tão grave, que a bondade ou a crueldade acabarão por ser mais fortes do que qualquer máscara, que sairemos disto a saber ao certo o que cada um é, cientes de que é na mais dura dificuldade que um ser humano se revela verdadeiramente. Não sabemos ao certo como sairemos disto, que marcas nos vão ficar. É seguro prever que os idosos ficarão ainda mais sós e mais frágeis e que a saúde mental será uma das maiores emergências de saúde pública durante muitos anos. Sabemos que precisamos de sair mais humildes e solidários. A verdade é que vai ficando mais fraco o eco das palavras do Papa Francisco, na deserta Praça de São Pedro, mais cheia do que nunca, a proclamar que estamos todos no mesmo barco, vazios e desorientados, precisados do conforto do outro. Fixemos, com mais força ainda, os momentos breves mas poderosos que nos reerguem e reconciliam. Às seis da tarde em ponto, o muçulmano Zoher entrega os joelhos ao chão de Israel. O judeu Avraham permanece em pé, próximo da ambulância, uma mão por cima da outra, unidas junto ao umbigo. Entre duas emergências, os dois paramédicos param por instantes e rezam. Duas religiões, a mesma oração, o mesmo barco, como nos dissera Francisco. Nunca, como neste tempo, precisámos da ciência. Um vírus veio lembrar-nos da nossa fragilidade, revolucionar cada recanto da nossa existência. Mas veio também dizer-nos da força de que somos capazes e revelar aqueles que verdadeiramente nos salvam. São os heróis anónimos que, nos serviços de saúde, nos prendem à vida. São os que pertencem à academia, aos laboratórios, aos centros de investigação de vacinas. São os que olham para o lado mais profundo e oculto de nós, que procuram descodificar a mente no momento mais adverso das nossas vidas e sobre a qual falta saber tanto.

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No início da pandemia, convidei um reputado especialista em saúde mental para vir ao estúdio explicar como devíamos preparar-nos para o que começava a atingir-nos e tentar amortecer o impacto. O meu convidado forneceu várias pistas e generalidades muito úteis para o confinamento, mas a verdade é que foram muitas as vezes em que se desviou e respondeu “não sei”. Confesso que aqueles dez minutos me deixaram frustrado. A incerteza das respostas tinha produzido o efeito contrário ao apaziguamento que eu procurara transmitir com aquela entrevista. Ao longo dos meses seguintes, fui compreendendo que as respostas não podiam ter sido outras. Nunca algo desta magnitude fora experienciado, a ciência não tivera oportunidade de estudar e produzir conhecimento. O que o meu convidado fez, afinal, foi um exercício de seriedade, de coragem e de humildade, ao deixar transparecer a impotência da ciência naquele instante. Não sabia porque ninguém podia saber. Com este livro, sabemos. Bento Rodrigues,

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Jornalista da SIC

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NOTA DOS COORDENADORES

Em tempos de inevitáveis dúvidas e incertezas na sociedade, é de agradecer, desde já, à PACTOR, Editora de Ciências Sociais, Forenses e da Educação, por nos ter confiado a tarefa de coordenar o presente projeto editorial, mas também de felicitar pela audácia de continuar a promover as investigações e publicações nacionais. Em particular, o nosso obrigado à Dra. Sandra Correia que, inclusivamente, durante o seu período de férias, esteve sintonizada neste livro para que tudo corresse conforme o cronograma editorial definido; também expressamos o nosso obrigado à assistente editorial Andrea Madruga, pelo zelo e cuidado que prestou em todas as etapas. Esta publicação é fruto de um processo desafiante e de muita entrega, de muita pesquisa de todos os profissionais que nos deram a honra e o privilégio de participar, pois, mesmo num tempo relativamente curto e em que as dinâmicas de vida diária sofreram, para todos, alterações, aderiram prontamente ao convite e veicularam os seus preciosos conhecimentos para enriquecedores capítulos e reflexões. Sucede que, perante uma proliferação de conteúdos, acontecimentos, fake news, publicações em revistas da especialidade, algumas delas sem revisão de pares e, por conseguinte, fragilizadas cientificamente, este grupo de autores arriscou-se a pensar, a aprofundar e a escrever, de forma séria e criteriosa, com base no conhecimento científico atual sobre um tema indubitavelmente novo e, portanto, sujeito a mudanças, confirmações e infirmações. Por tudo isto, assinalamos aqui também o nosso sincero agradecimento. Nesta sequência, seria impossível não tecer também palavras de gratidão a quem nos concedeu o privilégio de inaugurar e encerrar com chave de ouro esta obra. No prefácio, Bento Rodrigues, conceituado jornalista da SIC, que transmitiu inúmeras vezes ao país a evolução da COVID-19, em Portugal e no mundo, passando, simultaneamente, importantes mensagens de consciencialização social e comunitária. Por essa preocupação humanitária, mas igualmente pela prontidão demonstrada a abraçar o convite realizado, um enorme bem-haja! Numa reação informada,

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consistente, articulada com outros setores e focada não apenas na sua classe profissional, mas em toda a sociedade portuguesa, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) registou uma produção de conteúdos ímpar e de elevado impacto (por exemplo, perguntas e respostas sobre o burnout, linhas de orientação de como lidar com a tristeza, a incerteza e a ansiedade, e ainda checklists para adultos, colaboradores, cuidadores informais), pelo que se impunha fechar com a importante análise e reflexão de Tiago Pereira, Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da OPP. Aqui chegados, expressamos o nosso agradecimento não apenas pelas páginas aqui escritas, mas também pelo feito mencionado. É inegável que as pandemias representam uma ameaça à saúde pública. Todavia, nas últimas décadas, os organismos de saúde pública canalizaram escassos meios para intervir, especificamente, nos traços de personalidade e fatores psicológicos suscetíveis de influenciar as reações emocionais (por exemplo, medo, ansiedade, depressão) e as alterações comportamentais decorrentes da pandemia. Acresce que tais fatores desempenham um papel importante na forma como as pessoas respondem à ameaça e às respetivas sequelas, como a perda de entes queridos. Adicionalmente, não pode ser esquecido que a comunicação transmitida aos cidadãos pelas entidades oficiais, a somar às características da personalidade dos recetores, são aspetos cruciais para a gestão das pandemias. Neste contexto, os contributos da ciência psicológica afiguram-se merecedores de particular atenção, pois, na verdade, ainda que existam pessoas a reagir favoravelmente sob cenários de ameaça, outras experienciam níveis elevados de ansiedade ou um agravamento de problemas psicológicos pré-existentes, como perturbações de ansiedade e outras condições clínicas.

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A finalidade deste livro é colmatar uma lacuna importante na literatura nacional, em matéria de pandemias, sobretudo a propósito da COVID-19 e num enfoque psicológico da mesma. São vários os objetivos que motivaram um grupo de mais de 30 autores de diferentes áreas a meter mãos à obra, nomeadamente: 1. C ompreender as questões prementes, no que toca a doenças infeciosas globais e às mudanças que acarretam.

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2. Descrever as reações psicológicas suscitadas por uma pandemia, incluindo reações emocionais e alterações comportamentais. 3. Analisar fatores psicológicos de vulnerabilidade que contribuam para a disseminação de doenças e sofrimento emocional. 4. Debater metodologias empiricamente sustentadas para lidar com tais problemas psicológicos. 5. Delinear implicações para as políticas nacionais de saúde pública, inclusive implicações na comunicação de riscos. Aqui destacam-se as questões incontornáveis de uma temática que deve inquietar cada cidadão, dadas as suas consequências globais, tais como a gestão clínica da pandemia, as reações psicológicas, as complicações (neuro)psiquiátricas, as intervenções psicológicas e psicossociais, as pluralidades familiares (por exemplo, crianças com pais separados ou divorciados, agregados marcados por violência doméstica, lares com animais de companhia), bem como os impactos na esfera pedagógica, pediátrica, económica, laboral, legal e religiosa. Por fim, mas não menos importantes, aos nossos familiares e amigos, pela compreensão e paciência pelas horas de ausência que aceitaram, para que terminássemos uma obra que se impunha. Os Coordenadores,

Mauro Paulino e Rodrigo Dumas-Diniz

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CAPÍTULO 8

INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA COM PROFISSIONAIS DE SAÚDE: PROMOVER A SEGURANÇA E EVITAR O BURNOUT Mauro Paulino e Rodrigo Dumas-Diniz

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À medida que o mundo encarava um abrandamento das suas atividades diárias, consequente de um novo vírus que forçava a adoção de medidas de distanciamento social, a fim de reduzir a possibilidade de contágio, profissionais de saúde, provenientes de todo o mundo, avançaram no sentido oposto, enfrentando múltiplos desafios, sem precedentes. A rápida propagação da doença e a gravidade dos sintomas empurraram muitos países para o limiar dos seus sistemas de saúde. Em virtude do aumento exponencial da procura de cuidados de saúde, os profissionais de saúde defrontaram-se, muitas vezes, com poucos recursos ou infraestruturas inadequadas, horários de trabalho longos e fisicamente exigentes, capacidade limitada de realização de testes e utilização de equipamento de proteção durante longos períodos, suscetível de causar dificuldades respiratórias. Confrontados com o desafio de tomar decisões difíceis e rápidas, incluindo a que doentes atribuir os escassos recursos, a pressão para agir atempadamente e para diagnosticar, isolar e tratar, com êxito, manteve-se alta durante a pandemia de COVID-19, especialmente no meio de um intenso escrutínio público. Além disso, devido ao risco acrescido de exposição ao vírus, os nossos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde da linha da frente receavam que eles próprios pudessem contrair o novo coronavírus e transmiti-lo aos seus entes queridos, incluindo a pais idosos, filhos recém-nascidos ou familiares com doença crónica.

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Paralelamente, muitos profissionais sentiram-se mal preparados para intervir clinicamente em doentes infetados com o novo vírus, sobre o qual pouco se sabia e para o qual não existiam protocolos ou tratamentos clínicos bem estabelecidos. Para além da prestação de cuidados médicos, os profissionais de saúde apresentam um papel importante a desempenhar no acompanhamento das necessidades psicossociais e na prestação de apoio psicossocial. A combinação destes desafios, em conjunto, poderá criar condições de trabalho que tornem os profissionais de saúde particularmente vulneráveis ao sofrimento psicológico, aumentando as possibilidades de desenvolvimento de perturbações psiquiátricas. Estes diferentes níveis de tensão psicológica podem gerar sentimentos de solidão e impotência, ou uma série de estados emocionais disfóricos, como o stresse, a irritabilidade, a fadiga física e mental e o desespero. Em contrapartida, as consequências a curto e longo prazo, decorrentes desta situação, para a saúde mental, podem ser significativas e comprometer a capacidade do sistema de saúde na resolução da atual pandemia e na sobrevivência a longo prazo. Ainda que as equipas de saúde, especialmente nos serviços de emergência, estejam familiarizadas com o cansaço físico e mental, a pandemia desencadeou medo, insegurança e incerteza, que poderão ter repercussões nas relações humanas e no trabalho. Estas consequências estão em consonância com experiências anteriores da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome, ou SRAG, em português) e da Síndrome Respiratória do Médio Oriente (SRMO ou MERS), mostrando que os profissionais de saúde da linha da frente constituem um grupo de risco único, especialmente após o fim da contenção da pandemia. Note-se que este grupo inclui muitos outros trabalhadores que estão expostos ao mesmo risco e medo de contágio (por exemplo, agentes de segurança pública, carteiros, ou recolhedores de lixo). Estudos subsequentes a surtos anteriores tornaram evidentes que os profissionais da linha da frente sentiram níveis elevados de medo, preocupação e ansiedade durante os surtos, bem como uma maior depressão, ansiedade e stresse, ao longo do tempo. Este impacto pode ser mais severo para alguns, como os que têm crianças em casa ou familiares em maior risco de exposição (por exemplo, idosos ou doentes crónicos). Na fase inicial da rápida propagação do surto SARS,

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I N T E RV E N Ç ÃO P S I CO LÓ G I C A CO M P R O F I S S I O N A I S D E S A Ú D E


CAPÍTULO 11

PROCESSO DE LUTO: VIVER A PERDA EM TEMPOS DE PANDEMIA Mauro Paulino e Sofia Gabriel

A perda constitui uma das maiores experiências de dor e fragilidade humana, pelo que, num contexto de pandemia, gerir uma perda torna-se um ato de coragem. As circunstâncias de impotência, ausência de controlo e medo do desconhecido facilitam que as perdas sejam vividas com uma intensa raiva e revolta. Contudo, uma pandemia não pode ser meramente definida como um contexto de incertezas, inseguranças e medo. É importante que esta seja conceptualizada como um contexto de perdas, em que a própria comunidade se encontra em luto. A perda da liberdade, da segurança e da estabilidade é acompanhada por um clima de ansiedade perante o medo da morte. As pessoas encontram-se em luto pela própria vida.

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No ano de 2020, até ao dia 16 de agosto, foram registadas 1775 mortes em Portugal devido à infeção pela doença Covid-19. Se considerarmos que, como menciona Alba Payás Pulgarnau no seu livro Las tareas del duelo: Psicoterapia de duelo desde un modelo integrativo-relacional, por cada falecimento existem cerca de seis pessoas em luto, significa que cerca de 10 650 portugueses se encontram em processo de luto. O processo de elaboração das emoções e da exploração da perda, para a sua consequente integração na narrativa de vida e da identidade, tende a ser mais doloroso e prolongado, devido a fatores como o medo da contaminação, o terror de poder sofrer uma nova perda e o contacto constante com a morte (por exemplo, através das estatísticas providenciadas pelos meios digitais e de comunicação social). Além disso, a pessoa perdida poderia ser a principal fonte de segurança e serenidade, colocando

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a pessoa, em luto, numa situação de total desamparo. Como salvaguardam os autores Cara Wallace, Stephanie Wladkowski, Allison Gibson e Patrick White, do Reino Unido, o contexto pandémico, que marca o ano de 2020, facilitou um contexto de perdas múltiplas, associadas a diferentes circunstâncias e, por isso, a diferentes tipos de luto. No artigo “Loss and grief amidst COVID-19: A path to adaptation and resilience”, publicado em abril de 2020, Yusen Zhai e Xue Du sugerem que todos A PERDA DA LIBERDADE, DA estes lutos se encontram associados a um risco SEGURANÇA E DA ESTABILIDADE elevado de patologia, desde um luto inesperado É ACOMPANHADA POR UM CLIMA DE ANSIEDADE PERANTE ou, por oposição, antecipado, a um luto ambíguo O MEDO DA MORTE. ou desautorizado. Por um lado, à luz do que é referido por Natalie Pattison, docente de enfermagem na Faculdade de Hertfordshire (Reino Unido), no artigo “End-of-life decisions and care in the midst of a global coronavirus”, quando uma pessoa é surpreendida por uma perda inesperada, como, por exemplo, devido à infeção por COVID-19, dada a evolução rápida da doença, a pessoa encontra-se totalmente sem recursos emocionais para gerir a dor. Neste sentido, gera-se um luto inesperado, em que o choque inicial é, progressivamente, substituído pela zanga, revolta e dor, à medida que a pessoa vai reconhecendo a irreversibilidade da perda. No contexto da COVID-19, o sofrimento, associado à doença (por exemplo, dificuldades respiratórias), facilita o desenvolvimento de imagens potencialmente traumáticas pela pessoa em luto, tais como sufoco, choro ou gritos, as quais podem surgir sob a forma de pensamentos ruminantes (ou seja, pensamentos automáticos, repetitivos e consecutivos, associados a mal-estar psicológico) e dificultar o processo de luto. O contacto ininterrupto com as notícias acerca dos números de mortes pode, também, facilitar inseguranças, quanto aos cuidados de saúde prestados (por exemplo, “Será que desistiram da minha mãe?”), tornando o processo de luto mais difícil. A perda pode também acontecer durante o período de recuperação da infeção da COVID-19, em que os sintomas se encontravam em remissão e as pessoas são surpreendidas pela perda. Nestas circunstâncias, é sugerido por Natalie Pattison, na revista Intensive & Critical Care Nursing, que o risco de não existir um momento de despedida é elevado, assim como a tendência para recorrer a mecanismos de coping disfuncionais, para gerir as dificuldades de adaptação à perda. Para

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CAPÍTULO 12

ESTABELECIMENTOS DE EDUCAÇÃO E ENSINO: DO REGRESSO ÀS (IN)SEGURANÇAS João Núncio Crispim

São conhecidas centenas de doenças infeciosas virais que afetam as crianças. Estas têm sido estudadas ao longo de várias dezenas de anos, acumulando extenso conhecimento científico, que continua a crescer de dia para dia. Conhecemos, por isso, as suas manifestações, das mais frequentes às mais raras, das mais ligeiras às mais graves, das mais imediatas às mais tardias.

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O SARS-CoV-2 é um vírus novo, sobre o qual não existia nenhuma informação prévia. A produção de conhecimento científico a seu propósito tem sido maciça, a um ritmo inédito na história da Humanidade, mas nem sempre com a devida qualidade, consequência da urgência imposta sobre os médicos e cientistas de todo o mundo. Assim, o que parece hoje ser verdadeiro pode amanhã ser falso, levando a constantes adaptações das recomendações e normas das entidades consultoras e decisoras, nacionais e internacionais. Além disso, por muito volumoso que seja já o conhecimento adquirido sobre a COVID-19, e em contraste com as restantes doenças que são estudadas há décadas, a nossa relação com esta doença é extremamente recente. Todas as recomendações e opiniões sobre a evolução, a médio e longo prazo, da pandemia e as consequências futuras da doença baseiam-se em previsões e extrapolações do que conhecemos hoje e são, portanto, potencialmente erradas. Isto aplica-se, naturalmente, ao presente texto. Sabemos que muitas doenças que afetam as crianças não se manifestam no adulto, tal como muitas doenças do adulto não se manifestam nas crianças. Outras apresentam-se de forma distinta, com manifestações,

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gravidade e mesmo respostas à terapêutica diferentes. Tendemos a encarar as crianças como elementos mais frágeis, razão pela qual o SARS-CoV-2 tem surpreendido, pela positiva, no caso das crianças. O quadro de apresentação clínica da COVID-19 nas crianças não é, completamente, sobreponível ao descrito nos adultos. Por um lado, os estudos serológicos mostram que a proporção de casos assintomáticos é superior nas crianças. Ou seja, mais crianças do que adultos são infetadas sem mostrarem sintomas de doença. De entre as crianças com infeção aguda documentada, a febre é o sintoma mais frequente, surgindo em cerca de 47% das crianças, logo seguida da tosse, em 37%. Estes sintomas são, portanto, menos frequentes do que na idade adulta. Mais expressiva ainda é a diferença relativa à dificuldade respiratória, que surge em apenas 1% dos casos. Algumas crianças apresentam quadros gastrintestinais com diarreia (4%). A grande maioria das crianças que apresenta sintomas tem uma doença ligeira. Existe, no entanto, doença grave em crianças causada pelo SARS­ ‑CoV-2. Um importante estudo conduzido em conjunto por vários hospitais pediátricos europeus, concluiu que das 582 crianças que recorreram a estas unidades hospitalares, 8% necessitaram de admissão em Cuidados Intensivos Pediátricos. A mortalidade foi de 0,69%, ou seja, faleceram quatro crianças, das quais duas eram portadoras de doenças crónicas relevantes, sendo que nenhuma dessas crianças tinha menos de 10 anos. É importante compreender que estes números não são extrapoláveis para a população em geral, como sublinham os autores, sendo que apenas os casos mais graves são encaminhados para os hospitais, ficando a grande maioria das crianças com doença ligeira excluídas deste estudo. Assim, estes resultados claramente sobrestimam a gravidade e a mortalidade, em relação à generalidade das crianças infetadas pelo SARS-CoV-2. Uma das formas graves de manifestação da COVID-19, nas crianças mais velhas e adolescentes, obteve uma desproporcionadamente elevada atenção mediática. Trata-se de uma complexa síndrome inflamatória multissistémica – significa isto que se desencadeia um estado generalizado de inflamação que atinge vários órgãos como o coração, os pulmões, os rins, etc. – que partilha características clínicas semelhantes à Doença de Kawasaki. É uma manifestação grave da COVID-19, mas bastante rara e,

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ainda assim, com uma mortalidade associada baixa, estimada em cerca de 2%.

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Globalmente, importa reter que a COVID-19 é uma doença ligeira na grande maioria das crianças. Existem casos graves, de facto, mas a incidência destes casos não é mais elevada do que noutras tantas doenças pediátricas. Quando comparada com infeções pelos vírus causadores das mais banais constipações e gastrenterites, a infeção pelo SARS-CoV-2 não se apresenta mais frequentemente com maior gravidade. Os muito frequentes enterovírus, adenovírus, vírus Herpes e vírus Influenza (vírus da gripe sazonal) – para TENDEMOS A ENCARAR AS CRIANÇAS COMO ELEMENTOS citar apenas alguns – causam, também eles, MAIS FRÁGEIS, RAZÃO PELA situações pouco frequentes de doença muito QUAL O SARS-COV-2 TEM grave, que não impõem medidas que interfiram SURPREENDIDO PELA POSITIVA. com o dia a dia das nossas crianças e famílias. Com a expansão da epidemia de COVID-19 para fora da China, seguida, depois, pela declaração do estado de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS), os decisores políticos de todo o mundo procuraram implementar as medidas consideradas, pelos epidemiologistas, como sendo as mais eficazes para conter a propagação da doença. Uma das primeiras medidas tomadas, em muitos países do mundo, foi o encerramento de creches e escolas. Nessa fase embrionária do conhecimento sobre esta doença, a maioria das decisões foi tomada com base na extrapolação dos conhecimentos que temos sobre outras doenças com potencial pandémico. Aqui, a principal inspiração para estas medidas foram os conhecimentos que temos sobre o vírus da gripe. No caso da gripe, as crianças são, reconhecidamente, elementos epidemiologicamente relevantes. Transmitem a infeção entre si com muita facilidade e transmitem, de forma muito eficaz, a infeção aos elementos dos seus agregados familiares, representando pontos-chave no crescimento exponencial das epidemias/pandemias de gripe. Nas pandemias de gripe, o encerramento de creches e escolas será, por essa razão, uma medida com grande potencial de eficácia na diminuição da transmissão da doença. Caso a transmissibilidade entre crianças e o potencial de contágio aos seus agregados familiares da COVID-19 fosse semelhante ao da gripe, esta medida faria pleno sentido. No entanto, tem-se acumulado cada vez mais evidência científica que parece apontar noutra direção, tanto pela análise dos dados

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epidemiológicos da fase inicial da pandemia – também dos países que optaram por não encerrar creches e escolas –, como ainda da fase seguinte, em que vários países do mundo conseguiram “achatar a curva” e iniciaram a retoma das atividades escolares. Os trabalhos científicos publicados a este propósito são, necessariamente, estudos observacionais, ou seja, baseiam-se na observação e análise das circunstâncias em que se dá a propagação da doença, no mundo real. De entre as muitas perguntas que ainda não têm respostas definitivas, destaca-se uma questão: até que ponto são, então, as crianças capazes de transmitir a doença entre si e aos adultos com os quais têm contacto? Estudos realizados em contexto comunitário alargado apontam para uma baixa transmissibilidade a partir das crianças. Trabalhos realizados pelas autoridades de saúde australianas, holandesas e islandesas, em contexto escolar e comunitário, documentam que a transmissão da doença se dá, maioritariamente, entre adultos e que as crianças são infetadas, na maior parte dos casos, a partir dos adultos e não das outras crianças. Os níveis de contágio criança-criança e IMPORTA RETER QUE A COVID-19 É UMA DOENÇA criança-adulto parecem ser extremamente baixos, LIGEIRA NA GRANDE sendo a maioria dos contágios entre adultos e, em MAIORIA DAS CRIANÇAS. menor escala, de adultos para crianças. Também é evidente, dos estudos publicados, que a infeção em crianças é menos frequente do que em adultos. Ou seja, as crianças adquirem a doença com menor facilidade. Os países que testaram de forma mais abrangente a população, como a Coreia do Sul ou a Islândia, constataram que a incidência da doença é francamente menor nas crianças do que nos adultos. O maior estudo serológico publicado, realizado em Espanha, documentou imunidade para o SARS-CoV-2 em 1 a 3% das crianças, contrastando com mais de 5% em adultos. Estudos de análise dos contágios intrafamiliares, conduzidos em múltiplos países (China, Estados Unidos da América [EUA], Israel, Holanda e Suíça, entre outros), apontam todos na mesma direção, isto é, a transmissão da doença a crianças dentro do agregado familiar acontece muito menos frequentemente do que a transmissão aos restantes adultos do mesmo agregado. É também muito pouco frequente a criança ser o caso índice (o responsável pela transmissão aos restantes elementos da família).

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POSFÁCIO

Quem me é mais próximo sabe que guardo momentos da minha vida e das minhas experiências de vida, sob a forma de pequenos papéis (faturas, bilhetes, cartões) no interior dos livros que estou a ler. Marcam, pelo posicionamento, páginas com passagens significativas dos livros. Marcam, no tempo, momentos significativos da minha vida. São fragmentos que me constroem e que fazem de mim o que sou.

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Nas últimas décadas, a ciência psicológica e a investigação em Psicologia consolidaram-se um pouco por todo o mundo, pelo seu crescimento significativo e por uma mais evidente aplicação a diferentes fenómenos e contextos de vida. Creio que, em Portugal, embora mais tardio, este desenvolvimento se intensificou recentemente. A partilha da ciência psicológica e a sua aplicação por mais de duas dezenas de milhares de psicólogos, por todo o país, constroem uma Psicologia, hoje, mais acessível aos cidadãos (embora ainda de forma insuficiente), nas suas diferentes etapas desenvolvimentais, nos seus diversos contextos e aquando dos seus mais significativos acontecimentos de vida. Constroem uma Psicologia que pode e urge informar mais as políticas e os decisores e mobilizadores sociais, visando o bem-estar de pessoas e comunidades e a promoção da equidade e coesão social. Dezenas de milhares de psicólogos que na investigação, na docência e formação, na promoção da literacia e na sua prática profissional quotidiana multiplicam e disseminam fragmentos que compõem uma Psicologia ao serviço das pessoas e colocam a ciência psicológica como ciência essencial, na resposta aos complexos desafios societais contemporâneos. Desde o passado dia 11 de março – data da então aguardada declaração, pela Organização Mundial de Saúde, da passagem da epidemia de COVID-19 a pandemia resultado dos “níveis alarmantes de propagação e inação” – vivemos um momento histórico que será amplamente estudado e recordado. Momento marcado pela exigência associada à adversidade, à incerteza e às crises de saúde pública e socioeconómica global e pelo grande desafio com que as pessoas, em especial as mais vulneráveis, se

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confrontaram e confrontam. Coletivamente, partilhamos imagens, sensações, emoções, comportamentos, frases do período que vivemos. São fragmentos que definem o que vem sendo apelidado de “novo normal”. Nas páginas que antecedem estas palavras há uma síntese do que atrás refiro. De como vivemos um momento excecionalmente desafiante. De como a ciência, não apenas a ciência psicológica, mas com fortes contributos seus, e os profissionais, não apenas os psicólogos, mas com fortes contributos seus, se organizaram para, rapidamente, apoiarem as pessoas pelo estudo e pela intervenção, particularmente as mais vulneráveis, nesta grave crise que vivemos e neste desafio societal global que de rompante nos interpelou. Duas dezenas de textos em torno de diferentes fenómenos e contextos associados à COVID-19, reunindo um conjunto de pessoas que, a partir de diferentes papéis, emprestaram o seu conhecimento, a sua determinação e o seu empenho aos cidadãos, às comunidades e ao país. Fazem-no agora, uma vez mais, disponibilizando estes fragmentos que constroem um importante contributo para a reflexão, para a literacia e para o desenvolvimento de narrativas (individuais e coletivas), essenciais à mudança e à adaptação ao momento que vivemos. Fulcrais à viagem. Quem me é mais próximo sabe que gosto de viajar e de, em viagem, ler sobre viagens. Há exatamente um ano – agosto de 2019 – lia no Viagens1 uma interessante passagem que sugeria as três perguntas do viajante (quando um encontra outro): “De onde és?”; “De onde vens?”; “Para onde vais?”. O momento viagem é assim descrito como uma etapa, uma transição, onde a história (és), o momento que a antecede (vens) e sucede (vais) são caracterizadores e identitários. Nos últimos meses, tenho (creio que, de uma ou de outra forma, todos temos) refletido bastante sobre esta etapa que vivo, suportado na minha história, no ponto em que me encontrava pré-pandemia e em como me vejo nas próximas semanas e meses. Nessa reflexão, uma constante. O propósito, elemento fulcral da viagem e da adaptação, não apenas, mas também a partir do meu papel, enquanto coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e do meu pequeno (mas comprometido) contributo para o já menos pequeno (e igualmente comprometido) contributo da OPP no momento que vivemos. Contributo expresso em múltiplas iniciativas, dirigidas a cidadãos (com a publicação de mais de duas Tokarczuk, O. (2019). Viagens. Lisboa: Cavalo de Ferro.

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centenas de produtos no âmbito da promoção da literacia, ou o apoio à criação da linha de aconselhamento psicológico do Serviço Nacional de Saúde – SNS24), decisores e mobilizadores sociais (com contributos na área da comunicação de risco e crise, desinformação e bem-estar ou com a criação de uma rede de agentes para a promoção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais), psicólogos (com reforço de medidas de autocuidado e com a disponibilização de diversos produtos de apoio à prática, reflexão e formação) e a outras entidades nacionais (com apoio à linha de aconselhamento psicológico da Câmara Municipal de Lisboa, ou da Ordem dos Farmacêuticos) e internacionais (com apoio a iniciativas em Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe).

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Cerca de 50 dias depois de ler as perguntas do viajante, a “psicóloga viajante” Olga Tokarczuk era galardoada com o prémio Nobel da Literatura de 2019. Depois da Economia (Daniel Kahneman, em 2002) e da Medicina (Edvard e May-Britt Moser, em 2014), um terceiro Nobel para psicólogos/ /as nas últimas duas décadas. Como que uma simbólica confirmação da saliência do conhecimento da Psicologia e da sua aplicação a diferentes contextos, suportada pela sua história e pela evolução que já a definia pré-pandemia. História e evolução assentes, creio, num propósito: a procura e o reforço da identidade dos psicólogos que, como Miguel Ricou, Presidente da Comissão de Ética da OPP, recentemente assinalava numa edição da OPP2, “facilite a comunicação com todos, (...) evite expectativas irrealistas, desmistifique a intervenção psicológica e facilite o cumprimento do papel dos psicólogos”. Cerca de dois meses após o anúncio do Nobel da Literatura de 2019 eram conhecidos e depois comunicados os primeiros casos de COVID-19. A história, as experiências anteriores e todo o conhecimento científico e tecnológico já disponível foram insuficientes para travar uma evolução que nos trouxe à pandemia, à grave crise, ao confinamento, ao sofrimento, à incerteza dos próximos meses e a um antes e depois do novo coronavírus. Contudo, trouxe também, uma oportunidade para outro reconhecimento da ciência e dos profissionais de saúde, para a promoção da literacia em saúde (e em saúde psicológica), para o reconhecimento da importância do comportamento e dos processos de tomada de decisão, Matos, M. (2020). O futuro de quase tudo. Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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e para a necessidade de promover a coesão social e o apoio aos mais vulneráveis. “A Psicologia da Pandemia” permite-nos igualmente pensar a nossa história e refletir sobre o ponto em que estamos e para o qual podemos e devemos caminhar. Pleno de oportunidade e propósito, pensa a pandemia nas suas consequências múltiplas, com enfoque na ciência e na ciência psicológica, em particular, e nos contributos dos psicólogos na advocacia e informação junto de decisores e na elaboração de políticas, na prevenção e no papel que podem assumir na resposta a este e a outros desafios a partir dos seus diversos contextos de intervenção (quer seja na saúde, na educação, nas empresas, nas estruturas residenciais para pessoas idosas, ou outras instituições sociais, nos estabelecimentos prisionais, nas associações ou clubes ou em instituições comunitárias). Pleno de oportunidade e propósito porque surge num momento de maior reconhecimento da Psicologia e da importância da promoção da saúde psicológica e mental para o bem-estar. Um momento de afirmação da Psicologia como principal ciência do comportamento e das ciências do comportamento como área principal na resposta aos desafios societais. Um momento de afirmação da Psicologia na saúde pública. Um momento de afirmação da Psicologia na equidade, coesão social e bem-estar, os seus propósitos últimos. Tiago Pereira, Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses

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A Psicologia da Pandemia - Compreender e Enfrentar a COVID-19 by Grupo Lidel - Issuu