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Fotolivro Picadeiro sem lona: o trabalho dos/as artistas circenses de rua

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Picadeiro sem lona o trabalho dos/as artistas circenses de rua


“Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que só conheciam a própria língua, exemplares formosos de pele oleosa e mãos inteligentes, cujas danças e músicas semearam nas ruas um pânico de alvoroçada alegria, com seus papagaios pintados e todas as cores que recitavam romanças [...] tropeçando com saltimbancos de dentes encouraçados de ouro e malabaristas de seis braços, sufocado pelo confuso baço de esterco e sândalo que a multidão exalava, José Arcádio Buendía andava feito louco buscando Melquíades em todas as partes, para que lhe revelasse os infinitos segredos daquele pesadelo fabuloso.” Gabriel García Márquez - 100 anos de Solidão


Esta pesquisa de conclusão do curso de jornalismo descreve, a partir de um ensaio fotográfico, o modo de vida das pessoas que ­trabalham com a arte do circo nas ruas de Fortaleza. Mostra a escolha dos(as) artistas de utilizarem as habilidades circenses para sobreviverem nos sinais e nas praças da cidade, como o malabarismo e a palhaçaria. Ressalta o ato de “passar o chapéu” como o meio de receber dinheiro e a falta de reconhecimento e dificuldades de quem vive na informalidade da rua com a prática de arte enfrenta. Destaca, também, a natureza errante que muitos dos(as) artistas apresentam e a beleza das técnicas milenares do circo, usando a fotojornalismo como ­ferramenta de comunicação documental e artística-visual para expor esta realidade urbana. Fortaleza, Ceará. 2017


A rua é, antes até de ser rua, lugar de errância. Passagem e caminho. Ela, carregada de marcas e cicatrizes, é o instante agora. O trajeto que conecta. É como uma margem da vida que acontece sendo um espaço vazio que se preenche apenas em tempos específicos, naquele milésimo que se transita para estar, de fato, em um lugar. O vazio da rua, se pensado, tem a potência de ser, e é, um lugar de resistência. O corpo-cidade que é passagem, velocidade e tempo faz uma pausa, entra em eixo e quebra ampulhetas. Isso possibilita as mais diversas experiências estéticas e de rupturas. É um vazio tão completo que transborda. A rua, além da rua, é o que passa, inunda e remexe nos afetos. Onde acontece. É o todo a mais do outro lugar, do que não é nem rua.

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Esse espaço-tempo também é palco. Um palco-picadeiro sem lona, plateias montadas ou luzes ensaiadas. Quem faz da rua um lugar de espetáculo faz do jeito que já está disposta e apresenta para quem for que passe. Não cria um picadeiro organizado e intuitivo de como se deve seguir ou para onde se deve olhar. Na verdade, meio que como um camaleão, quem faz da rua palco adapta-se ao sinal ou a praça que resolveu fazer o seu número. A desordem, a fuligem e a incerteza se incrementam ao espetáculo e ao improviso como se já ensaiado. Tudo o que acontece é no instante do agora; é uma arte efêmera prolongada. A pessoa artista, corpo, manuseios, técnicas, domínios, objetos, expressões é o próprio circo ambulante.

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trabalho “Já tinha contato com o circo, mas não a arte de rua. E, aí, eu comecei com uma amiga a fazer sinal e ­escolhi isso como um ­trabalho, como fonte de renda, função social, essas coisas. As pessoas perguntam ‘e aí, você faz o que?’ e eu falo ‘sou artista de rua circense’. Da pra viver disso. Assim, a galera consegue sustentar família [...] Lógico que é c ­ orrendo atrás, todo dia, toda hora, igual a todo mundo.” Mariana, a palhaça Giramunda

Seja por escolha ou por necessidade, a arte circense feita nos sinais e nas praças é um trabalho informal que não tem a garantia de direitos. Sem patrões, é um meio de vida que depende da contribuição espontânea de desconhecidos.

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errância “Callereiros a gente chama, nós, assim, aquela galera viajante, mochileiro, ­callereiro. E, aí, por exemplo, mochileiro. Quando a galera fala mochileiro, tem a galera que é só na trip, só de natureza, outra vibe. Por isso, pra mim, pra galera, é mais fácil definir como callereiro que a gente já sabe que são da rua, assim, são viajantes, viageiros de rua. Artista de rua mesmo. E é muito bonito encontrar uma turmona. Quando você encontra uma turma que já tem bebê, sabe? As criancinha crescendo no mambembe, cheias de arte. Nossa! Aprendendo. As crianças são muito esperta, quando cresce dentro do circo, da arte, assim, sabe? São agilizada, né.” Giramunda

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A artista mineira Arara Flor viaja pelo Brasil em direção ao Norte. A callereira trabalha com o malabarismo nos sinais e costuma encontrar suas companhias de viagem na estrada, como a turma itinerante com quem vive em Fortaleza.

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chapéu “[...] as vezes é foda que a galera não reconhece. Ela acha que você tá pedindo moeda. Tipo, eu não tô pedindo moeda, entendeu? Eu tô fazendo e passando o chapéu, cada um dá o que quer dá. Cai moedas. Ok! Mas tem gente que não reconhece e fica achando que você vai usar drogas, sabe essas coisas? Rola muito isso. E, aí, é um pouco frustrante, assim, porque cê fala ‘meu...’ tem um certo estudo, né? A gente treina, a gente estuda, a gente tá interagindo, a gente tem que ter uma coragem massa pra tá lá na frente, são várias coisas que a gente vai jogando pra poder chegar lá.” Giramunda “Passar o chapéu” é uma tradição da arte circense. É nele onde são colocadas as contribuições monetárias após a apresentação.

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sinal verde “O dia que eu tiro pra ir no sinal mesmo, ‘não hoje é dia pra trabalhar no sinal’, eu passo o dia todo. Só que aí eu faço, tipo, uma hora, descanso dez minutos, quinze minutos, faço mais uma hora, descanso mais um pouco, vou almoçar, vai, descanso, volto. Aí eu acabo trabalhando umas cinco horas [...] E, aí, o tempo do sinal. Quanto tempo ele abre, quanto tempo ele fecha, o tempo de vermelho, o tempo de verde, se o verde é longo não compensa porque quebra muito a energia. Você fez, passou, aí cê tem que ficar um minuto esperando. Quebrou sua energia. Então o tempo do sinal é interessante de ver. Aí outra coisa é o fluxo. Da onde ele tá vindo, pra onde ele tá indo. Os diferentes horários, né.” Giramunda

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Ao contrĂĄrio do fluxo dos carros, o sinal verde representa para os(as) artistas a espera e o sinal vermelho a hora de movimento do trabalho. Ericson, enquanto faz sua arte, escuta mĂşsica de uma pequena caixa de som que leva com ele, criando todo um ambiente sonoro para trabalhar.

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As callereiras Zaretah e Ju Wey, franco-chilena e barcelonese, respectivamente, se conheceram na estrada hĂĄ alguns meses e estĂŁo de viagem pela AmĂŠrica Latina, parando um tempo em Fortaleza.

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rua-picadeiro “No sinal a gente nem faz ensaio. Tipo, monta uma sequência. Aquilo que eu faço toda hora é uma sequência. Eu tenho, tipo, sei lá, oito truques que eu domino muito e aí eu boto todos eles ali, rapidinho. Sem ficar muito floreando, muito enrolando, sabe? Faz enxame. Nem fiz tanto enxame hoje, mas as vezes entrar fazendo graça, se liga? Chama atenção da galera. Mas hoje tava de boa porque meu cabelo tava muito em cima então aparecia a galera já olhava ‘nossa!’. Nem precisei fazer.” Giramunda

Há uma beleza e destreza na união das habilidades, instrumentos, linguagem corporal, facial, trânsito e cidade. Sem lona, é o artista quem delimita seu espaço de palco.

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Fábio é um exemplo de trabalhador brasileiro que sofreu as explorações das empresas privadas no setor da construção civil. Foi aí que ele resolveu aprender as técnicas da arte circense com o seu primo, também artista, e trabalhar na rua. Hoje, Fábio sustenta a si e a família com o que ganha no sinal, além de produzir o próprio equipamento com materiais recicláveis.

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roda na praça “É um processo porque a gente tá com a nossa vida inteira tendo um entendimento de vida, né, man? De grana mensal. Aí, tipo, até você lidar com isso você passa muita crise, pivete, porque você desde pivete é ensinado ali na escola a terminar, a trabalhar. Você abdica de tudo isso, aí passa um baque. Tem mês que você passa um perrengue danado. Assim, a arte né, man? Não só o circo, mas todas as linguagens. Aí você aprende a organizar essa grana, que mês você ganha mais pra poder organizar melhor qual você vai passar as vacas magras. Então você tem que segurar uma grana maior e tal. Mas eu acho que você começa a entender, a se achar mais independente, se liga, vei? Entender como você consegue levar sua vida. Aí tem gente que julga a gente como doido por causa disso, por ter coragem de viver disso. Ei, man, a gente é doido por ser corajoso.” Igor, o palhaço Abu

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Igor, integrante do grupo As 10 Graças de Palhaçaria, mora em Maracanaú. Ele e Felipe, o palhaço Jeremias, se apresentam nas praças da cidade, divertindo a população com performances e críticas sociais. “A gente tá ali na rua pra fazer arte. Porque o palhaço tem esse papel político, né man? É um bobo da corte”.

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sem cortinas “E cê vê que, por exemplo, se eu for fazer a mesma coisa que eu faço no sinal no teatro, todo mundo vai levantar e vai bater palma, entendeu? ‘Aí que legal, que bonito, olha que bacana.’ Porque tá num teatro. Na rua, tipo, eu faço isso milhares de vezes. Por dia, eu faço isso mais de 180 vezes e, aí, eu recebo dois, três aplausos. Não que a gente, ‘ó o ego da gente quer ser aplaudido’, não é isso. Mas é o olhar do reconhecimento. A pessoa entender que é um artista ali que tá fazendo o trabalho dele também. Não que tá pedindo moedas. Isso frustra um pouco. Mas, tem o outro lado. Igual hoje. Teve uma menininha que foi dar moeda. Eu acho isso muito massa quando os pais dão a moeda pra criança entregar, sabe? É uma forma de já educar aquela criança que é um artista. Aí é legal o chapéu por isso também.” Giramunda

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Fotografia e produção Levi Nogueira Orientação Prof. José Wilton Martins

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