“[...] A todas nós que nos construímos no movimento popular, que rompemos as correntes do patriarcado. Mulheres de vidas rasgadas, soterradas por lama, recortadas por barragens, corpos marcados pelo machismo, nos levantamos todos os dias. Tomamos esses retalhos e fragmentos e refazemos nossa história com fio, bordado, costura, na beleza da tela-denúncia de uma Arpillera, nossa poética manifesto, nossa dialética [...]. Atingidas, não vítimas, sujeitas de um projeto político emancipatório.” Texto-poema “Meu Coração Atingida” do Coletivo de Mulheres do MAB
Arpilleras, Feminismo e Agroecologia Olhares e lutas das mulheres atingidas por barragens
Ficha Técnica
Coordenação Geral do Projeto Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo Núcleo de Estudos, Experiências e Pesquisas em Agroecologia (NEEPA) Universidade Federal do Ceará (UFC) Coletivo Estadual de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) do Ceará Equipe Técnica Andrea Machado Camurça Ivana Leila Carvalho Fernandes Marina Calisto Alves Beatriz Rodrigues Fernandes Lígia Alves Viana Érika do Vale Gabriela Colares Teixeira Débora do Nascimento de Almeida Carla Kemille Moreira Moura Antônio Régis Lima Freire Fotografias Lucas Calisto Alves Elaboração e organização da Cartilha Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo Marina Calisto Alves Marina Freire Porto Ana Vitória de Araújo Pereira Beatriz Rodrigues Fernandes
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Autoria dos artigos Beatriz Rodrigues Fernandes Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo Projeto gráfico e Diagramação Levi Noli Érica Nógui Revisão Ortográfica Caio Morais Brasil Hitzschky Madeira Barros Impressão Expressão Gráfica. Projeto Mulheres atingidas por barragens construindo o conhecimento agroecológico em áreas rurais do semiárido nordestino (Termo de Execução Descentralizada nº 45/2015). Ministério do Desenvolvimento Agrário. Diretoria de Políticas para as Mulheres Rurais e Quilombolas (DPMRQ). Ficha Catalográfica Bibliotecária: Perpétua Socorro Tavares Guimarães CRB 3/801-98 F 363 a
Fernandes, Beatriz Rodrigues Arpilleras, feminismo e agroecologia: Olhares e lutas das mulheres atingidas por barragens / Beatriz Rodrigues Fernandes e Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo.- Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2021. 60. p. :il. ISBN: 978-65-5556-200-2 1.Direitos humanos 2. Arpilleras e Feminismo 3. Mulheres do campo e bordados 4. Agroecologia I. Título. CDU: 341
Apresentação
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Núcleo de Estudos, Experiências e Pesquisas em Agroecologia (NEEPA), vinculado ao Programa Residência Agrária (PRA) da Universidade Federal do Ceará (UFC) têm a alegria de apresentar a presente cartilha, que é fruto de um importante e intenso projeto/processo construído coletivamente entre 2015 e 2017. As experiências, olhares, desafios e sonhos aqui contados são a sistematização de um trabalho popular, pedagógico, de formação e organização com mulheres atingidas por barragens de várias regiões do nosso rico e diverso semiárido nordestino, mais especificamente, dos estados do Ceará, Bahia e Pernambuco. 6
As mulheres atingidas representam a parcela de um público que sofreu, historicamente, e ainda sofre, as consequências do modelo energético e do agrohidronegócio brasileiro, mas que também construíram, tendo como ferramenta de resistência a organização social, diversas experiências de lutas por água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular. Historicamente, a principal fonte de geração de energia elétrica no Brasil é a fonte hidráulica, com a construção de grandes barragens. Essa forma de produzir energia se tornou um grande negócio ao garantir altíssimas taxas de lucro a grandes empresas multinacionais. A construção desses açudes extensos acompanhou a história de desenvolvimento econômico industrial do nosso país, com destaque para a década de 1930, com os primeiros ciclos de industrialização efetiva no país e, posteriormente, com a construção de inúmeras obras de reservatório hídrico, no período da ditadura militar. No Nordeste, além da construção de obras com a finalidade de geração de energia, temos a grande incidência de açudes de múltiplos usos, construídos em grandes propriedades, na lógica patronal de solucionar os problemas da seca. Com
a privatização do setor elétrico, na década de 1990, o setor público de produção de energia, incluindo as barragens (geração), passou a ser controlado por grandes empresas multinacionais, intensificando um modelo de desenvolvimento excludente, ocasionando a expulsão dos moradores de suas localidades, bem como cobrança de altas taxas nas tarifas de energia elétrica e tendo suas remessas de lucro sendo levadas para fora do país. Entretanto, não foi passivamente que as populações aceitaram a construção de barragens. E é na luta pelos direitos de milhares de camponeses, ribeirinhos e até mesmo moradores de zonas urbanas, que estavam sendo expulsos dos seus locais de vida, que surge o Movimento dos Atingidos por Barragens. Na sua caminhada, o MAB vem defendendo e formulando que o grande problema da construção de barragens está ligado ao modelo de desenvolvimento, questionando: quem lucra com as barragens? Para que elas são construídas? Para benefício de quem? Nesse desafio, a compreensão é que: sejam obras para geração de energia elétrica, ou para acúmulo de água e seus múltiplos usos, as barragens fazem parte de um modelo conservador que nega e viola direitos, ao
mesmo tempo que visa o lucro para os capitalistas do setor elétrico, industrial ou do agronegócio. Mas esse lucro tem um preço, e quem vem pagando essa conta são os mais de 1,5 milhão de atingidos e atingidas por barragens no Brasil, dos quais considera-se que pelo menos 70% não obtiveram a garantia dos seus direitos. Esse padrão de violações de direitos humanos é, inclusive, reconhecido pelo Conselho de Direitos da Pessoa Humana, que elenca pelo menos 16 direitos humanos violados na construção, implantação e operação de barragens no Brasil. Além disso, toda a população brasileira também acaba sendo atingida por esse modelo, pois paga uma das tarifas mais caras de energia elétrica, onde muitas vezes não têm acesso à água e saneamento (atualmente são 100 milhões de brasileiros sem acesso a saneamento básico). Nessa luta, a constatação é que são as mulheres as mais afetadas. Mudamse os costumes e modos de vida, ocorre a quebra dos laços comunitários, a perda do trabalho gerador de renda, os altos níveis de exposição à violência - como os conhecidos casos de exploração sexual de mulheres e crianças. Também são recorrentes em áreas atingidas por barragens os casos de abandono de mulheres grávidas por parte 7
dos “barrageiros”, os casos de violência sexual, entre tantos outros problemas que se somam às já injustas relações patriarcais existentes na sociedade. Entendendo essa realidade e considerando que são as mulheres as que mais se articulam em grupos de base nas comunidades, o MAB vem intencionalizando, a partir de debates e da formação de uma direção coletiva, a participação das mulheres na luta e organização. Destacamse: o fortalecimento do Coletivo de Mulheres a nível nacional; o processo de diagnóstico e identificação das violações sofridas; e a experiência com as Arpilleras, que passou a ser uma metodologia de trabalho popular feminista onde as mulheres contam e bordam suas histórias de resistência. Através de uma demanda do Coletivo Nacional de Mulheres Atingidas por Barragens, nasce a parceria com o NEEPA, na UFC, dando forma ao projeto “Mulheres atingidas por barragens: construindo o conhecimento agroecológico em áreas rurais do semiárido nordestino”, financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por intermédio da Diretoria de Políticas para as Mulheres Rurais e Quilombolas (DPMRQ), em 2015/2016. O projeto previa a realização 8
de um curso de formação, um processo de diagnóstico das mulheres atingidas por barragens, oficinas sobre a técnica arpilleras e a elaboração desta cartilha. Como escopo, estava a promoção de um espaço de formação que possibilitasse o empoderamento dessas mulheres, promovendo uma construção do conhecimento feminista contextualizado, do conhecimento agroecológico, além do debate sobre temas essenciais como justiça/ racismo ambiental e direitos humanos. Buscou-se, assim, o fortalecimento das (re)existências e das lutas das mulheres atingidas em seus territórios, através de intercâmbios, de articulações e de convergências entre elas, diferentes movimentos sociais e o campo acadêmico. Para alcançar tais objetivos, foram realizados cursos de formação regional em Feminismo, Agroecologia e Convivência com o Semiárido para cerca de 70 mulheres agricultoras dos territórios atingidos e/ou ameaçados pela construção de barragens ou grandes empreendimentos nos estados do Ceará, Bahia e Pernambuco. A primeira e terceira etapas foram realizadas em Fortaleza/CE, no Centro de Formação, Capacitação e Pesquisa Frei Humberto. A segunda ocorreu em parte na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), em Petrolina/PE, e outra no
Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), em Juazeiro/BA. Essas etapas constituíram-se como importantes processos de construção de saberes, diálogos e trocas de experiências. Como parte do projeto, foram realizadas outras atividades como: o lançamento, em Fortaleza/CE, do Filme “Arpilleras: Atingidas por barragens bordando a resistência”, no Cine Teatro São Luiz; uma exposição de Arpilleras, na UNIVASF, em Petrolina/PE; e mesas abertas ao público, na sede da ADUFC, em Fortaleza/ CE. A vivência proporcionada pelo projeto foi sistematizada por Beatriz R. Fernandes (Neepa - UFC), inspirando sua dissertação de mestrado “Arpilleras e Feminismo: ressignificações das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino” (PRODEMA/UFC 2018). A presente Cartilha socializa textos dessa produção acadêmica, resgatando e recontando a construção coletiva experienciada, como uma devolução para as atingidas por barragens, protagonistas desse processo. Que os saberes e sentimentos aqui partilhados possam ser ferramentas agregadoras aos potentes encontros da luta popular. Eis aqui um registro concreto da força que as mulheres auto-organizadas possuem.
Esta Cartilha é composta por duas seções. Na primeira, apresenta resultados do projeto realizado, compreendendo os dados e análise do Diagnóstico da vida e experiência das mulheres e o passo a passo da oficina sobre o bordado arpilleras, trabalhado com as mulheres. Na segunda seção da Cartilha, dois textos dialogam com a história e origem do bordado arpilleras e a apropriação política dessa técnica pelo Coletivo de Mulheres do MAB. Você também é nossa/o convidada/o para conhecer mais da realidade das mulheres atingidas por barragens na região Nordeste do Brasil e da importante ferramenta de luta e denúncia, as Arpilleras. Boa leitura!
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Conhecendo vidas de mulheres atingidas por barragem
Diagnóstico Social da vida e das experiências das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino Beatriz Rodrigues Fernandes e Gema Galgani Esmeraldo
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A partir da necessidade das mulheres do MAB Nordeste em aprofundar o conhecimento sobre as suas realidades e, juntamente, com uma demanda da Diretoria de Políticas para Mulheres Rurais e Quilombolas (DPMRQ), visando à investigação concreta sobre as dificuldades sociais enfrentadas pelas mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino, surge o presente Diagnóstico Social. A Universidade Federal do Ceará (UFC) entra como mediadora nesse diálogo, objetivando promover conhecimentos que viabilizem as situações problema.
A estratégia para a elaboração do Diagnóstico Social foi a participação nos espaços das Formações em Feminismo e Agroecologia, processos participativos construídos coletivamente, que propiciaram uma experiência de imersão com as mulheres atingidas e as suas vivências em seus territórios. Além disso, para um estudo mais aprofundado, aplicou-se o questionário semiestruturado “Diagnóstico Social da Vida e Experiências das Mulheres Atingidas por Barragens no Semiárido Nordestino”, respondido espontaneamente por 47 mulheres.
Isso porque o diagnóstico social é um estudo que tem como objetivo conhecer determinado(s) problema(s) de uma realidade, para que, dessa forma, possa ter uma contextualização válida e, a partir dela, a elaboração de um programa de ação.
Como resultado do Diagnóstico, obteve-se o perfil autodeclarado das mulheres atingidas por barragens. É importante frisar que um processo de autodeclaração se dá pela tomada de consciência política e de autoidentificação que a princípio ocorre no âmbito individual, mas que é essencial para embasar e propiciar a luta político-coletiva por suas existências e direitos. Isto envolve a consciência de classe, fortalecendo um coletivo que reflete criticamente sobre as suas realidades individuais e percebem que
Este Diagnóstico Social tem como embasamento a sistematização das informações assimiladas a partir dos saberes e vivências partilhados ao longo do Projeto “Mulheres atingidas por barragens construindo o conhecimento agroecológico em áreas rurais do Semiárido Nordestino”. Assim, os sujeitos do Diagnóstico são mulheres atingidas por barragens e militantes do MAB Nordeste.
Texto extraído da dissertação de mestrado “Arpilleras e Feminismo” de Beatriz R. Fernandes (2018) com algumas alterações. 13 1
imposições e violações de direitos vividas são submetidas a um coletivo (classe).
1 – Identificação ç Racial
No que se refere à identificação racial, 74,5% das mulheres são negras (Gráfico 1) e essa mesma porcentagem se identificou como heterossexual (Gráfico 2). Apesar da maioria negra, 89,4% são de religião cristã, não sendo identificada nenhuma religião de matriz afroindígena, o que pode ser configurado como um retrato do processo sócio-histórico de discriminação e perseguição às religiões e povos afro-brasileiros. No entanto, os saberes tradicionais herdados da origem nordestina afroindígena resistem entre as mulheres atingidas. Saberes sobre as ervas medicinais, os tempos de plantio e de pesca e a própria relação social comunitária são exemplos dessa herança viva.
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Fonte: Adaptado de FERNANDES, B. R. (2018)
3 - Espiritualidade
2 - Sexualidade
Fonte: Adaptado de FERNANDES, B. R. (2018)
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4 - Estado Civil
na responsabilidade financeira quanto na afetiva de seus lares e filhos. Assim, mesmo sobrecarregadas, seguem diariamente na luta e no enfrentamento ao patriarcado racista que estrutura nossa sociedade.
5 - Filhos
No que tange ao estado civil e a presença de filhos, o perfil das mulheres atingidas é de 50% solteiras (Gráfico 4), enquanto 61,7% têm filhos (Gráfico 5). Sendo esse um retrato brasileiro: mulheres negras e mães solteiras, as quais são chefes de família que trabalham para sustentar, além de educar e cuidar de seus filhos. Ou seja, mulheres que estão sozinhas tanto 16
Fonte: Adaptado de FERNANDES, B. R. (2018)
6 - Acesso ao Ensino
O acesso a uma educação contextualizada é um aliado para a libertação das mulheres. No entanto, entre as participantes do Projeto, 46,8% possuem até o Ensino Médio completo (Gráfico 6) e entre as mulheres que conquistaram o Ensino Superior (12,8%), as que acessam pós-graduação (12,8%), optam por cursos que propiciam um retorno às suas comunidades. Fonte: Adaptado de FERNANDES, B. R. (2018)
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8 - Renda Individual Mensal 7 - Renda Familiar Mensal
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Fonte: Adaptado de FERNANDES, B. R. (2018)
Outros resultados relevantes são sobre a renda mensal das mulheres, tanto a familiar (Gráfico 7) como a individual (Gráfico 8). A maioria das mulheres (44,7%) têm uma renda familiar mensal de até 1 salário mínimo e, quando se fala em renda individual, a maioria (36,1%) não possui renda.
Há muitos relatos de que houve uma grande contribuição na renda pelo recebimento dos Benefícios Sociais, principalmente o Bolsa Família, onde 83,3% das mulheres e/ou suas famílias têm ou já tiveram acesso (Gráfico 9).
9 - Acesso às Políticas Públicas e Benefícios Sociais
Fonte: Elaborado pela autora com dados da pesquisa. (2018)
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As mulheres atingidas se declaram agricultoras e/ou pescadoras (76,6%), onde mesmo quando exercem duas ou mais profissões convencionais, buscam manter a prática da agricultura e/ou pesca como parte da sua rotina e do seu modo de vida. Contudo, elas expõem a dificuldade de acesso à Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP), onde apenas 40,4% das mulheres atingidas possuem. Ainda assim, apenas 5,9% indicam ter acesso ao PRONAF. Além disso, praticamente não há acesso às outras Políticas Públicas de apoio à agricultura familiar. Realidade agravada com o atual desmonte das Políticas Sociais que contribuem com o empoderamento dos agricultores familiares, especialmente das mulheres, suas produções agrícolas e seus beneficiamentos de alimentos. As mulheres atingidas não possuem acesso à Política Nacional de Assistência Técnica (PNATER), essencial para uma readaptação da produção agrícola em convivência com o semiárido. Isso porque as comunidades atingidas são expropriadas de seus territórios, antes ribeirinhos, para áreas rurais com difícil acesso à água e com o solo diferente do que elas estavam habituadas a plantar.
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Sobre conflitos e resistências O Diagnóstico Social também traz o reconhecimento que as mulheres fazem sobre as formas que são atingidas além das barragens: agronegócio, complexos industriais, grilagem de terras, usinas de energia eólica. Dimensões de um mesmo sistema socioeconômico que viola direitos, explora as pessoas e a natureza. No entanto, se há conflito é porque há resistência e, apesar dos desafios, as mulheres atingidas lutam pela (re)existência dos seus modos de vida através da agricultura familiar e dos seus sistemas agroalimentares, onde o milho e o feijão são culturas que prevalecem nos roçados das atingidas nordestinas, além da mandioca, maracujá, batata, cana, cebola, goiaba, beterraba, melão, abobrinha, quiabo,
melancia, coentro; a criação de galinhas e também a pesca artesanal em algumas comunidades. A resistência e importância dessas mulheres como guardiãs da agrobiodiversidade, no semiárido nordestino, contribui ainda com o desafio de garantir a autonomia e segurança alimentar de seus familiares. O Diagnóstico Social sobre a vida e experiências das mulheres atingidas por barragens traz elementos importantes para novas atividades formativas, além de reivindicações de políticas sociais específicas para as mulheres. Chama a atenção o autorreconhecimento de mulheres negras (74,50%), que denota a necessidade de um trabalho formativo a partir da interseccionalidade entre classe, gênero e raça para desocultar as opressões vivenciadas nessas relações. Os estudos sobre raça apontam que as mulheres negras são as mais discriminadas na pirâmide social. Não é possível desconsiderar essa opressão num processo de empoderamento de mulheres negras na sociedade brasileira e, em específico, na região semiárida do Nordeste. Outro elemento apontado pelo Diagnóstico se refere ao número de
mulheres jovens, com filhos e solteiras que requer um trabalho educativo no âmbito da sexualidade e dos direitos reprodutivos. Ainda, a renda é um fator de forte exclusão aos direitos elementares como alimentação, saúde, educação e habitação. Os reflexos dessa ausência de renda e baixa renda auferida na família repercute no alcance de melhores condições de vida com dignidade. Por fim, destaca-se firmemente a urgência de Políticas Públicas, desde o acesso à educação do/no campo e PP voltadas à agricultura familiar e de convivência com o semiárido, como, por exemplo, assessorias técnicas contextualizadas. Temas e problemáticas estruturais que precisam ser debatidos no Coletivo de Mulheres do MAB para a criação de estratégias visando o seu enfrentamento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FERNANDES, Beatriz Rodrigues. Arpilleras e Feminismo: Ressignificações das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino. Dissertação (Mestrado). Programa de pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA. Universidade Federal do Ceará, 2018.
As ARPILLERAS pelas mãos e voz delas
Beatriz Rodrigues Fernandes
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Como metodologia feminista adotada pelas mulheres do MAB, as arpilleras cumprem seu papel político ao se tornarem um instrumento de denúncia sobre as violações de direitos humanos sofridas pelas mulheres e comunidades atingidas por barragens. Aqui serão compartilhadas as artes-políticas bordadas pelas mulheres atingidas por barragens participantes do Projeto “Mulheres atingidas por barragens construindo o conhecimento agroecológico em áreas rurais do Semiárido Nordestino”.
para o planejamento da tela, escolha dos ícones importantes para as representações necessárias; 3. Realização do bordado coletivo; 4. Escrita coletiva de uma carta sobre a tela bordada; 5. Apresentação/ exposição da arpillera.
Foram cinco temas geradores expostos e sugeridos: Perda dos laços familiares, comunitários e da relação com a terra (Arpillera 1); A negação ao acesso à água e à energia: água e energia não são mercadoria (Arpillera 2); Produtividade na agricultura e na pesca: antes e depois das barragens (Arpillera 3); Mulheres e o mundo do trabalho (Arpillera 4); e Reforma da Previdência (Arpillera 5). As mulheres se dividiram em cinco grupos, onde cada um levava o nome de uma mulher de luta: Berta Cáceres, Olga Benário, Margarida Alves, Dandara e Nicinha Magalhães. Em seguida, orientou-se sobre as etapas que compreendem o bordado da arpillera, a saber: 1. Diálogo coletivo sobre o tema gerador; 2. Diálogo coletivo
Texto extraído da dissertação de mestrado “Arpilleras e Feminismo” de Beatriz R. Fernandes (2018) com algumas alterações. 23 2
Arpillera 1 Perda dos Laços familiares, comunitários e da relação com a terra Foto: FERNANDES, B. R. (2017) Figura 1 Arpillera “Perda dos laços familiares, comunitários e da relação com a terra” 24
seus ancestrais. Por isso, são populações que possuem uma dinâmica de vida intrinsecamente atrelada ao ambiente em que vivem, com fortes laços construídos tanto com a terra, quanto com a comunidade. Desse modo, esses povos possuem uma relação entre si e com a natureza que não prioriza as relações de mercado, de venda e lucratividade, mas, sim, de solidariedade, coletividade e busca por um manejo respeitoso ao ambiente natural. Com a chegada das barragens e outros grandes empreendimentos nos territórios, essas relações tradicionais foram fortemente impactadas. O modo de viver do homem branco ocidental é imposto como prioridade, juntamente ao lucro a todo custo como única possibilidade. Assim, ocorre um brusco processo de desestruturação de comunidades inteiras, nos âmbitos sociais e ambientais, ou seja, uma verdadeira expropriação dos modos de viver e produzir das famílias atingidas.
A grande maioria dos atingidos por barragens são populações residentes de áreas rurais e/ou tradicionais. Ribeirinhos, quilombolas, indígenas, camponeses... os quais vivem nessas e destas terras, como
Considerando esses aspectos, a Arpillera 1, produzida pelo grupo Berta Cáceres, documentou o processo histórico de vida das comunidades e famílias atingidas por barragens, afetadas em seus modos de vida e nos laços constituídos. As Arpilleiristas bordaram o momento que antecede a chegada da barragem, para 25
destacar como se dava a vida comumente. São destacadas: a riqueza da vida anterior, com a diversidade de plantas, animais e a presente socialização dos recursos naturais e sociais na comunidade. As relações familiares e comunitárias estão presentes no cotidiano, onde um vínculo de pertencimento e de identidade é construído por gerações. Esse alicerce comunitário costuma fortalecer especialmente as mulheres em relações de rede de apoio. O lado direito do bordado da Arpillera destaca a chegada da barragem e a vida posterior, com o processo de impacto vivenciado. Nessa abordagem, as mulheres destacam que “com o empreendimento a gente se torna totalmente pobre, né?”. Para retratar a pobreza existente após a construção da obra, as mulheres destacam a ausência do rio, de fontes de renda e a desestruturação do modo de vida anterior: “a gente é expulsa pra umas terras que não têm água, né, sendo que onde a gente tava a nossa riqueza era a água, e a gente fica dependente de carro pipas”. A pobreza gerada com a privação da vivência a beira-rio é bordada junto à denúncia de violências imateriais - como a solidão e a depressão - ao bordarem uma mulher sozinha no lado direito da Arpillera. Isto por conta da desestruturação das 26
comunidades, que envolve a separação de núcleos familiares – pessoas da mesma família são, muitas vezes, reassentadas em diferentes comunidades. Há ainda a perda da relação de pertencimento ao local que se vive, pois terra e território também são lugares de memória e afetividades. Essas tantas dimensões de violências materiais e imateriais impostas contribuem com um adoecimento mental e emocional das pessoas atingidas - em especial, as mulheres.
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Foto: FERNANDES, B. R. (2017) Figura 2 - Arpillera “Água e energia não são mercadorias”
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Arpillera 2 A negação ao acesso à água e à energia: água e energia não são mercadoria! A lógica de construção de barragens usa justificativas históricas como a resolução dos problemas ocasionados pelas secas no semiárido nordestino, característica climática na região. Usa-
se alegações de que os empreendimentos proporcionam segurança hídrica e desenvolvimento rural. No entanto, o que ocorre é o fortalecimento da apropriação da água por grupos dominantes e grandes empresas, ligadas à industrialização intensiva e ao agronegócio. Em contrapartida, as comunidades atingidas passam a vivenciar uma negação do direito à água e, muitas vezes, também à energia, no caso das barragens hidrelétricas. Mesmo residindo próximos às obras, as famílias perdem o direito à segurança hídrica, já que o acesso à água para grandes empresas passa a ser prioridade. A Política Nacional de Recursos Hídricos, Lei nº 9.433/1997, institui a água como bem de uso comum, declarando que, em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos deve ser destinado ao consumo humano e a dessedentação de animais. No entanto, o que se observa no Semiárido Nordestino é a crescente privatização da água (LINS, 2011). Um dos principais exemplos dessa realidade no semiárido nordestino se refere à Construção da Barragem Castanhão e à construção associada do Canal de Integração/Eixão das Águas. Construída no 29
Vale do Jaguaribe, no Ceará, tal obra leva água através do Canal da Integração (canal de 250 km de comprimento) para grandes empreendimentos industriais na região metropolitana de Fortaleza, enquanto as famílias atingidas e vizinhas à obra têm acesso à água negado para consumo e produção, como citou uma das participantes do grupo: “lá tem água, mas é água só pra ver”. De forma semelhante, também é possível destacar a realidade das comunidades atingidas pela Barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, no vale do rio São Francisco, entre os estados da Bahia e Pernambuco, que vivenciam a negação sistemática do direito de acesso à energia. A Arpillera 2 foi bordada pelo grupo intitulado Olga Benário e destaca que o preço exorbitante da energia elétrica contradiz com a renda dessas populações, onde muitas vezes teriam que deixar de adquirir alimentos para poder pagar a tarifa. A Arpillera denuncia mais violações de direitos humanos, como a negação ao acesso à água. Há a imposição de uma dependência de carros pipas e/ou de longas caminhadas – realizadas pelas mulheres, para garantirem o abastecimento mínimo de água para suas famílias. Na Arpillera, observa-se a mulher de vermelho bordada com uma lata de água na cabeça. 30
Arpillera 3 Produção na agricultura e na pesca: antes e depois das barragens
Foto: FERNANDES, B. R. (2017) Figura 3 – “Produção na agricultura e na pesca: antes e depois da barragem”
A partir das críticas e denúncias bordadas pelas mulheres nas arpilleras apresentadas anteriormente, podemos imaginar o detrimento no âmbito da produção agrícola e pesqueira das mulheres e de suas comunidades atingidas por barragens. Sobre esse tema, a Arpillera 3, “Produção na agricultura e na pesca: antes e depois da barragem”, foi confeccionada 31
pelas mulheres do grupo Margarida Alves. As cores bordadas no espaço esquerdo da Arpillera 3 contrastam a tristeza presente no rosto da mulher atingida pela barragem, costurada ao lado direito da tela. No centro, a grande obra repartindo as duas realidades, o passado e o presente, depois da barragem. Uma grande engenharia que transforma um modo de vida em memórias. O sertão virou mar e o rio, que era vida, está distante. Agora as memórias são o único local onde aquela vida existe. No entanto, são lembranças difíceis de acessar, ainda dói. “Bordar é difícil, ainda dói, mas ao mesmo tempo está ajudando”. Essas são algumas reflexões compartilhadas durante o bordado coletivo da Arpillera 3 “Produtividade: antes e depois”. Não há como falar da mudança no âmbito da produção agrícola e/ou pesqueira sem reviver todo o doloroso processo que as mulheres são submetidas ao serem atingidas pelas barragens. “A barragem veio... passou como um rolo compressor por cima de tudo...”, diz uma delas. Expropriadas dos seus meios de produção, as mulheres atingidas e suas famílias são realocadas para áreas que não possuem a disponibilidade de recursos naturais como havia nos seus territórios. Antes o solo na beira do rio era fértil, havia os peixes 32
e a abundância de água, como bordado na Arpillera. A tristeza representada no rosto da mulher – que está sozinha – após a construção da barragem, retrata as violações de direitos que as mulheres atingidas são submetidas. O peixe morto expressa o deserto que ficou após o volume de água do Castanhão baixar e contrapõe a fartura da produção bordada no momento anterior à barragem. A carnaúba, as galinhas, os peixes, a vaca etc., a agrobiodiversidade produzida e protagonizada pelas mulheres é substituída pelo monocultivo do agronegócio, que transforma as águasvida das atingidas e suas famílias em águas para os perímetros irrigados. Cercando e envenenando as comunidades atingidas, como bordado pelas arpilleristas, o veneno está representado pelo ícone de uma garrafinha branca, com o X preto, ao lado do monocultivo. Não sendo suficiente, o sistema produtivo do agronegócio, que se apropria da água e terra das comunidades tradicionais, conjuntamente se apropria das sementes que a natureza fornece às mulheres e ao homem para sua reprodução: “depois da construção da barragem, a gente perdeu a posse das sementes crioulas, pra fazer a produção, a gente tem que buscar no mercado”.
A partir dessa realidade de enfrentamentos e desafios, as mulheres se perguntam: quais os caminhos para reconstrução dos seus modos de vida e para reestruturação de suas produções agrícolas? Entende-se como necessário o acesso à Políticas Públicas de Convivência com o Semiárido, como, por exemplo, a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) – Agroecologia e a Assistência Técnica Específica para Mulheres. Políticas Públicas que propiciem o fomento da produção agroecológica das comunidades rurais, a partir da assistência técnica contextualizada. O acesso a uma ATER específica tem trazido impactos significativos para a vida das mulheres rurais, onde a produção agroecológica transcende, alcançando dimensões como o empoderamento, a autonomia e a autoestima das mulheres (ANDRADE; ESMERALDO; FERNANDES, 2017). No entanto, apenas 1 (uma) mulher entre as 70 atingidas participantes da Formação em Feminismo e Agroecologia relatou ter acesso à ATER. Contudo, compartilham o interesse sobre a produção agroecológica, “é muito bacana a gente discutir a produção, discutir o campo, discutir agroecologia” visto o momento de transição e readaptação no âmbito da produtividade que vivem.
Foto: FERNANDES, B. R. (2017) Figura 4 Arpillera “Mulheres e mundo do trabalho”
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mundo do trabalho baseando-se nas suas perspectivas e no cotidiano. Uma arpillerista relata que: “todo mundo contou um pouquinho da sua realidade, principalmente no mundo do trabalho, de acordo com o nosso tema. Foi perfeito!”.
Arpillera 4 Mulheres e o mundo do trabalho As mulheres atingidas por barragens, do grupo Dandara, bordaram a Arpillera 4 a partir da temática “Mulheres e o mundo do trabalho”. As arpilleristas dialogam sobre o tema mulheres e o
Através de quatro quadrantes bordados, as arpilleristas retratam a pluralidade das tarefas que realizam em seus cotidianos. Os recortes são de um tempo que elas dispõem em um único dia, onde as mulheres encaixam suas triplas jornadas, como colocado por uma das artistas: “O relógio aqui demarcando, bem tipo os tempos modernos, o que é essa jornada que pra atingida não é mais nem tripla, é quíntupla”. Isso porque a ascensão das mulheres ao mercado de trabalho não as liberta do trabalho doméstico, submetendoas ao acúmulo de jornadas, o que para as mulheres rurais é notadamente ainda mais fatigante. Podemos observar a rotina exaustiva através do testemunho de uma senhora atingida: “eu sou agente de saúde e eu trabalho praticamente o dia todo, né? Se eu não for à tarde (no quintal), é porque eu já não aguento porque é muita coisa na vida das mulheres, é muita coisa, é muita responsabilidade.” Na sua fala, a mulher, que é servidora pública e agricultora – além de 35
acumular as funções de mãe, esposa e dona de casa – utiliza o termo “responsabilidade” para expressar a sobrecarga a qual a mulher do campo é submetida. Cedinho, a mulher já está de pé. Levanta antes do marido e é ela quem vai acordar os filhos para eles irem à escola. Mas, antes disso, é necessário preparar o café da manhã, tudo tem que estar pronto e na mesa para quando a família acordar. O dia começa com o sol forte e uma ida ao seu quintal produtivo, pois, mesmo se trabalha fora de casa, ela busca manter seu modo de vida como agricultora. “Já amanhecendo o dia aqui a mulher já amanhece trabalhando, colhendo os frutos”, diz ela. As mulheres narram uma variedade de hortaliças, frutíferas, leguminosas e ovos que têm nas suas próprias produções. Apesar de muitas vezes não reconhecerem a diversidade e a riqueza que produzem em seus quintais, é a partir desses produtos que podem alimentar suas famílias com segurança. Isso porque relatam que os seus maridos, muitas vezes, insistem na utilização de veneno nos roçados, mas nos seus quintais produtivos elas não permitem. Podemos observar a representação da diversidade de alimentos que está presente na cestinha que a mulher traz do seu quintal no primeiro quadrante. No segundo quadrante, é possível notar a variedade de ícones relacionados 36
aos trabalhos desenvolvidos, retratando que a busca pelo acesso à renda não é fácil para as mulheres atingidas - “a gente fez a representatividade do transporte ali porque ela acaba tendo que se deslocar pra outros lugares”. A mulher exerce as atividades domésticas no seu lar e muitas vezes presta o mesmo serviço na casa de outras famílias, que podem ser de localidades distantes das suas. Algumas mulheres também cozinham ou costuram para fora, tarefas que, conjuntamente, exercem dentro de casa para os seus familiares. Há as que buscam vender os artesanatos que confeccionam ou o excedente da sua produção agrícola; se existem feirinhas na comunidade ou cidades vizinhas, elas estarão lá. No entanto, as mulheres relatam que a realidade é que, por necessidade, acumulam várias dessas atividades bordadas para garantirem um pouco de renda para a família. O acesso das mulheres ao espaço público também é bordado no terceiro quadrante, “ela participa, vai à igreja, na missa, depois tem que pegar os filhos na escola, aí participa da organização do MAB, da associação”. Apesar de subjugadas a uma jornada exaustiva, as mulheres atingidas buscam ocupar espaços de organização coletiva e de luta. Assim, a percepção das mulheres sobre a importância de estarem organizadas
para o enfrentamento das opressões a que são submetidas é observada tanto no âmbito público e coletivo - no sentido das comunidades atingidas - quanto no âmbito doméstico e individual: “(...) porque marido só diz que a mulher é pra varrer casa, é pra lavar pano e pra cuidar dele, não! Mulher também é na luta, mulher também – é onde ela quiser – é onde ela quiser! Eu sou mulher e eu vou vencer e eu sou guerreira!” O dia da mulher se encerra com a mesma solidão e trabalho que começou, todos dormem, mas ela permanece acordada. Já colocou o filho para dormir, mas ainda precisa lavar a louça do jantar que ela preparou sozinha enquanto o marido assistia televisão. Visto que, recorrentemente, o trabalho feminino é invisibilizado por não ser considerado trabalho, há ainda o trabalho que é considerado “ajuda”, as mulheres compartilham um momento de reflexão crítica, engatilhado pelo uso dessa palavra no discurso de uma atingida – pois as opressões patriarcais, por serem estruturais, também são reproduzidas por quem é oprimida – “(...) esse negócio da ajuda me incomoda também. Você vê na fala da companheira, “eu ajudo a plantar, a colher, eu faço tudo”, mas a primeira coisa que ela falou foi: eu ajudo. No final, ela disse, mas eu faço tudo.” As mulheres externalizam suas insatisfações,
refletindo, criticamente, sobre as suas intensas jornadas de trabalho e sobre a sua desvalorização, ao passo que são chamadas de ajuda. As atingidas demonstram a forte incorporação do patriarcado na vida e discurso das mulheres: “essa coisa “ajudo” ainda tá muito impregnado na gente, um meio de diminuir tudo aquilo que a gente é, seja na produção, seja com nossos filhos, seja na casa, porque nós somos tudo...”. Outra mulher complementa: “sempre quem trabalha mais é a mulher, o homem fica mais do lado né?”. Percebe-se que o diálogo em coletivo propicia a conscientização e o autorreconhecimento das mulheres sobre o trabalho que realizam, passos para a construção de suas identidades como sujeitos políticos.
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Arpillera 5 Reforma da Previdência
Foto: FERNANDES, B. R. (2017) Figura 5 Arpillera “Contra a Reforma da Previdência”
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de um tratamento de equidade à população rural. Há garantia à aposentadoria por idade, onde as trabalhadoras rurais podem acessar o benefício previdenciário a partir dos 55 anos e há também o salário-maternidade, onde as mulheres têm acesso a 4 meses de benefício. Concessões possibilitadas mediante a comprovação da categoria de trabalhadora rural, através da contribuição esporádica sobre a comercialização da produção (COSTA e RIBEIRO, 2018). É através da categoria idade que se dá a grande maioria de acessos à aposentadoria rural no Nordeste brasileiro (DO BU et al., 2018). Direito conquistado que, como colocado por Costa e Ribeiro (2018), proporciona impactos significativos na vida das mulheres rurais. Especificamente para as mulheres, a previdência social rural exerce um importante papel material e simbólico ao promover o acesso à renda diretamente em seus nomes, contribuindo com a autonomia das mulheres (BRUMER, 2002, p. 74). Como uma das conquistas da intensa articulação e luta das/dos trabalhadoras/es rurais, nas décadas de 1970-80, pela consolidação de direitos sociais e políticas públicas específicas, a Constituição Federal, de 1988, prevê a cobertura previdenciária no campo a partir
No entanto, em uma conjuntura de retrocessos na qual se defende a tomada dos direitos por intermédio de reformas nas políticas sociais, esteve em trâmite, em 2017, no Congresso Nacional, a proposta da Reforma da Previdência, Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016. 39
A proposta universaliza a idade mínima de 65 anos para aposentadoria rural, além de “instituir uma cobrança mínima e periódica para o segurado especial” (PEC 287/2016, p. 24) para substituir o modelo de recolhimento/contribuição citado no primeiro parágrafo. Tal proposta invisibiliza as especificidades da rotina dos trabalhadores rurais, sobretudo, das mulheres rurais com suas triplas jornadas de trabalho, como está bordado pelas mulheres atingidas na arpillera 4 “Mulheres e o mundo do trabalho”. Nesse contexto, a Formação em Feminismo e Agroecologia proporciona o debate com as mulheres atingidas sobre a PEC 287/2016, inspirando as reflexões sobre as consequências da Reforma da Previdência nas suas vidas. Assim, as mulheres do grupo Nicinha Magalhães confeccionaram a Arpillera 5, “Contra a reforma da previdência”, na qual bordaram o seu posicionamento político contrário à proposta de emenda constitucional. O repúdio das mulheres à PEC 287/2016 é demonstrado de início, “a nossa peça, ela representa a nossa indignação com o projeto de Reforma da Previdência”. Ao bordarem a escada em direção ao INSS interditada, as atingidas refletem sobre a violação de direitos que está sendo proposta. Ou seja, a negação do acesso ao benefício 40
previdenciário a qual está representada, na Arpillera 5, pela bandeira do Brasil. As arpilleristas bordaram uma senhora agricultora de frente para o acesso ao INSS negado, caminhando, então, rumo ao cemitério. Quer dizer, as atingidas enfatizam a violência da PEC 287/2016 em direção às mulheres rurais idosas, as quais podem falecer antes de acessar a aposentadoria rural; bem como questionam o lucro das grandes empresas e bancos e as suas respectivas dívidas previdenciárias, que são transformadas em opressões à população rural, em especial, às mulheres, por suas exaustivas jornadas de trabalho. Opressões representadas na arpillera através de setas vermelhas bordadas que partem em direção à comunidade camponesa, registrando qual é a parcela da população brasileira mais violentada. As arpilleristas também destacam que a imposição das opressões às agricultoras é diferenciada, ao bordarem apenas mulheres na área rural produtiva que está sob as setas vermelhas. No entanto, o quadrante que denuncia as violações é o mesmo que anuncia que as mulheres estão se organizando em luta, às quais muitas vezes são as lideranças dos movimentos sociais em seus territórios. Nas palavras das arpilleristas: “aqui representa também o
feminismo e o protagonismo das mulheres, por isso que a gente só desenhou mulheres aqui no território camponês”. Além de bordarem o símbolo das mulheres, também símbolo do feminismo, representando e reafirmando a importância e necessidade da luta que inclui as pautas específicas das mulheres. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Saskia Melo; ESMERALDO, Gema Galgani S. L.; FERNANDES, Beatriz Rodrigues. Contribuições da Assistência Técnica e Extensão Rural - Ater específica para mulheres na vida das agricultoras localizadas no território de Sertões de Canindé, Estado do Ceará. In: 13º Mundo de Mulheres e Fazendo Gênero 11, 2017, Florianópolis. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), 2017.
DO BU, Thayse Andrezza; DA SILVA, Thais Marculino; SCHMIDT FILHO, Ricardo. A importância socioeconômica da previdência rural para o Nordeste no debate amplo da seguridade social. Estudo & Debate, Lajeado, v. 25, n. 1, p. 108-133, 2018. FERNANDES, Beatriz Rodrigues. Arpilleras e Feminismo: Ressignificações das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino. Dissertação (Mestrado) – Programa de pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA. Universidade Federal do Ceará, 2018. LINS, Cíntia dos Santos. Das águas transportadas às águas dispostas: uma análise da implantação do canal da integração (CE). Revista da Casa da Geografia de Sobral, v. 13, n. 1, p. 23-37, Sobral, 2011.
BRUMER, Anita. Previdência social rural e gênero. Sociologias, ano 4, n. 7, p. 50-81. 2002. COSTA, Adália Raissa e RIBEIRO, Matheus Almeida. Previdência Social e a Luta dos Trabalhadores Rurais: um destaque para a participação e as conquistas das mulheres. In: Entropia. v. 2, n. 3, p.136-149, 2018. 41
Alinhavando trilhas políticas e feministas com o bordado Arpilleras
História das Arpilleras: telas que expressam resistência política “Las arpilleras son como canciones que se pintan” (Violeta Parra)
Beatriz Rodrigues Fernandes
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Arpillera é uma antiga técnica têxtil e folclórica chilena nascida em Isla Negra, na qual as mulheres utilizavam como tela pedaços de saco de juta – arpillera em espanhol – e davam forma e relevo à arte. Essa técnica foi resgatada por mulheres de Santiago, capital do Chile, durante a ditadura militar. A ditadura vivida no Chile (1973-1990), assim como outras na América Latina, atingiu as mulheres de forma singular. Além de cidadãs que tiveram sua liberdade cerceada, eram as mães, as esposas, as filhas e as irmãs que se tornaram órfãs dos presos políticos desaparecidos. Como consequência de uma realidade de autoritarismo, onde a violência excessiva instituía o silêncio, as mulheres buscaram outras formas de denúncia e, acima de tudo, de sobrevivência. Os homens prisioneiros políticos eram os provedores dos seus lares, logo, o seu desaparecimento deixou famílias em situação de extrema pobreza. Muitas mulheres não haviam trabalhado fora de casa antes de se enxergarem nessa situação, com filhos para alimentar, casa para sustentar, além da dor pela falta de informação sobre seus entes queridos.
Buscando alternativas para a crise econômica e, principalmente, para apaziguar a dor, as mulheres encontraram apoio nas oficinas de artesanato promovidas pelo Vicariato de Solidaridad. O Vicariato de Solidaridad era uma instituição da Igreja Católica desenvolvida pelo Cardeal Raúl Silva Henriquez, arcebispo de Santiago, no período da ditadura (AGOSÍN, 2008). O sofrimento e a luta foram os instrumentos utilizados e traduzidos à junta, aos retalhos e às agulhas. Portando tais ferramentas materiais e imateriais, as mulheres realizaram o registro histórico e artístico da violação de direitos imposta a toda população chilena durante o regime ditatorial e, dessa forma, surgiram espontaneamente as primeiras arpilleras políticas. Agosín (2008), poeta e acadêmica chilena, acompanhou o processo das arpilleras desde a década de 1970 e lembra que, nesse momento, nasceu uma estratégia alternativa que além de impulsionar o enfrentamento à ditadura militar com suas denúncias e histórias bordadas, promoveu o repensar acerca dos direitos humanos 3
Texto extraído da dissertação de mestrado de Beatriz R. Fernandes (2018) com algumas alterações. 45
e da posição das mulheres como agentes políticas. As arpilleras surgem como a voz de uma sociedade calada de forma autoritária. As oficinas técnicas para a produção de arpilleras, inicialmente realizadas para garantir algum sustento para essas mulheres alimentarem a si e suas famílias, se transformaram em verdadeiras terapias diárias e coletivas. As mulheres passaram a se encontrar para bordar e conversar sobre seus familiares desaparecidos. Quando a dor era intensa ao ponto de não permitir que a mulher concluísse a arpillera, suas colegas as terminavam. Elas haviam encontrado um local de apoio, de confiança, onde se sentiam compreendidas e semeavam a esperança de ainda existir vida – para elas. Uma vida fora do ambiente doméstico. A vida era dada à arpillera através da sua criadora, as figuras bordadas levavam retalhos de suas próprias roupas. Muitas vezes os retalhos eram de roupas dos familiares desaparecidos e, às vezes, cabelos de sua própria cabeça. Ao passar do tempo, essa técnica têxtil-sentimental foi passada de geração com maior experiência para as recém ingressas às oficinas. As novatas não aprendiam apenas o ato de costurar, mas, também, o olhar sobre suas 46
realidades e a transformação desta em bordado. Além do fortalecimento que o convívio em grupo de mulheres promovia, eram debatidos temas relevantes e as soluções eram buscadas para seus desafios. Agosín (2008) afirma que as arpilleras foram a tradução da visão de mundo das mulheres chilenas e um dos testemunhos mais importantes sobre esse período sombrio que o país atravessou. A contradição dessa arte se expressava pelos horrores bordados em tons coloridos que transmitiam esperança. O processo terapêutico e de alternativa de renda transformou-se em encontros de debates sobre a realidade imposta pela política repressiva. As mulheres arpilleristas foram o primeiro foco de resistência contra a ditadura militar chilena, incitando o renascimento das organizações populares do Chile (AGOSÍN, 2008). Elas passaram, então, a ser consideradas subversivas pela ditadura chilena. Nesse sentido, os encontros das arpilleristas aconteciam de forma secreta. A clandestinidade existia desde o momento de bordar ao de exportar as arpilleras. Isso porque as costuras realizadas no Vicariato eram nutridas por debates políticoeconômicos, sobre os direitos humanos e os direitos das mulheres.
Adams (2002) relata que muitas vezes as mulheres escondiam as arpilleras em suas saias, para levar ao Vicariato, o qual ficaria responsável pelo contato com os interessados que se solidarizavam com a causa. Dentre esses, muitos compunham Organizações Não-Governamentais (ONGs), organizações pelos Direitos Humanos e grupos de exilados chilenos, na Europa e na América do Norte. Ademais, as arpilleras se tornaram públicas, expostas e compartilhadas em Universidades e campanhas pelos Direitos Humanos, transformando-se em instrumentos de denúncia da realidade enfrentada no Chile (ADAMS, 2002).
As arpilleras brasileiras
Hoje o trabalho das arpilleristas é reconhecido e reproduzido por todo o globo. De tapeçarias da difamação, como o governo militar as nomeava, as arpilleras foram transformadas em patrimônio cultural do Chile, além de representarem uma identidade original da América Latina. Essa arte permanece como o registro vivo de uma história intencionalmente ocultada.
O MAB realizou, então, um projeto para a União Europeia, que consistia na produção de arpilleras com o propósito de bordar e expor, em forma de denúncia, as violações vivenciadas nas lutas e enfrentamentos aos empreendimentos hídricos. O projeto aprovado é realizado entre os anos de 2013 e 2015, e se inicia com a realização de uma oficina nacional, com 50 mulheres atingidas por barragens representantes de todas as regiões do país, para tomarem conhecimento e se apropriarem da técnica e do processo pedagógico que a envolve. Replicada em todas as regiões do Brasil de forma a multiplicar o alcance, a participação e formação de novas mulheres, as oficinas
Na atualidade, a técnica da arpillera se transforma em instrumento de diálogo das mulheres com a sociedade em relação às suas condições de opressão vividas - seja no âmbito familiar ou nos espaços públicos. De forma deliberada, passa a formar e empoderar essas mulheres para a resistência e atuação política.
No ano de 2011, Ester Vital, espanhola, educadora, psicóloga, estudiosa das arpilleras chilenas, e já militando no Movimento dos Atingidos por Barragens, traz para o Brasil a exposição “Arpilleras da resistência política chilena” e motiva as mulheres do MAB a participarem de uma oficina durante a exposição sobre a técnica têxtil chilena.
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também traziam o debate sobre as opressões vivenciadas nas relações de gênero, bem como o propósito, também, de estimular o protagonismo das mulheres e sua organização. Definiu-se por organizar o trabalho de produção de arpilleras em temas de diálogos assim propostos: mundo do trabalho e divisão sexual do trabalho; participação política; relação com as construtoras das barragens; convivência familiar e comunitária; violência contra as mulheres e acesso à energia. Além disso, as oficinas organizavam-se para produzir um processo pedagógico a ser apropriado pelas mulheres para torná-las multiplicadoras em seus territórios. Essa organização definiase por garantir alguns procedimentos necessários, como: 1. Apresentação do contexto histórico das arpilleras chilenas; 2. Garantia de um tempo para o diálogo entre as mulheres sobre as violações sofridas em seus territórios; 3. Definição do desenho e da arte a ser bordada pelas mulheres, de forma coletiva e em grupos; 4. Realização do bordado com debate político de seus sentidos; 5. Construção de um bolso secreto e de uma carta como documentação para apresentar o significado da arpillera, seus sujeitos, local e data de realização do bordado. 48
As mulheres eram orientadas a registrar em fotografias e realizar exposições das telas, em suas regiões, dando sentido político e de luta a esse trabalho. Dar uma conotação pública e política é importante para ampliar a denúncia sobre a violação dos direitos das mulheres atingidas. Foram realizadas oficinas nas cinco regiões do país, alcançando cerca de 900 mulheres atingidas por barragens, de quatorze estados do Brasil. Essa técnica pedagógica, além de dar novo significado ao sentido do bordado atribuído tradicionalmente às mulheres como fonte de renda e de reprodução familiar, ganha um sentido de resistência, de luta e de formação política e de caráter feminista. No ano de 2015, as mulheres atingidas por barragens realizaram uma exposição com a apresentação de 25 arpilleras brasileiras, no Memorial da América Latina, que também contava com 12 arpilleras chilenas. Também é produzido um documentário “Arpilleras – bordando a resistência”, que traz as histórias de vida de mulheres atingidas de cada região brasileira, as quais bordam coletivamente suas denúncias e resistências.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, Jacqueline. Art in Social Movements: Shantytown Women’s Protest in Pinochet’s Chile. Sociological Forum, vol. 17, n. 1, p. 2156, 2002. AGOSÍN, Marjorie. Tapestries of Hope, Threads of Love – the Arpillera Movement in Chile 1974-1994. Rowman & Littlefield Publishers. Ed. 2. EUA. 2008. FERNANDES, Beatriz Rodrigues. Arpilleras e Feminismo: Ressignificações das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA. Universidade Federal do Ceará, 2018.
ARPILLERAS E FEMINISMO: A autoorganização e as ressignificações das mulheres atingidas por barragens
Beatriz Rodrigues Fernandes
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Compreender a ressignificação que as mulheres atingidas concedem ao bordado, significa pensar o bordado como arte e, principalmente, como arte política. Do bordado, atribuído como prática feminina (SIMIONI, 2010) pertencente ao cotidiano doméstico, ao papel reprodutivo e de cuidados designado às mulheres, a arpillera transmuta-se para atuar no campo subversivo, como instrumento feminista a proporcionar a comunicação popular, horizontal e plural entre mulheres. Como instrumento político a favor das mulheres, as arpilleras documentam, resgatam histórias de vida em opressão, produzem novas identidades, articulam discursos e novas narrativas em conflito e tensão entre classes sociais, entre gêneros e etnias. Ao produzirem os bordados em coletivo, as mulheres criam espaços de ação e reflexão, descobrem-se com conhecimento de suas realidades e com o reconhecimento sobre a violação de seus direitos. Observam que a luta das mulheres possui especificidades em relação à luta dos homens. Enxergam-se como sujeitos autônomos, aportando nas lutas gerais suas reivindicações próprias e o poder de organização e participação das mulheres.
Por meio da arte têxtil, as mulheres externalizam sua condição de opressão e afirmam novas linguagens de luta política. O caráter democrático do bordado traz a produção de outras expressões de diálogo, alcançando as mulheres de diferentes territórios e possibilitando protagonismos políticos em esfera local, nacional e internacional. Nesse sentido, como pensar a arpillera para além da técnica e do bordado e refletí-la como uma pedagogia e metodologia feminista? Como se constrói a experiência de empoderamento das mulheres atingidas por barragens a partir da técnica do bordado? A observação da unidade entre a produção em coletivo de uma obra de arte e os processos de libertação do pensar-agir das mulheres parece anunciar exercícios de ação feminista, vê só: as mulheres atingidas por barragens iniciam o processo de produção das arpilleras em coletivo, dialogam sobre o que bordar e como expressar em linhas e cores suas histórias de vida e a violação de seus direitos. Fazem Texto extraído da dissertação de mestrado “Arpilleras e Feminismo” de Beatriz R. Fernandes (2018) com algumas alterações. 51 4
um importante resgate de seu cotidiano, das relações familiares que viviam antes e após a entrada dos empreendimentos hídricos em seus territórios. Essas narrativas são acompanhadas de reflexões críticas e de descobertas de tensões, de conflitos que, segundo Paulo Freire, fazem “da opressão e de suas causas, objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação” (1987, p. 17). No momento em que a prática pedagógica do bordado é compartilhada “com” as mulheres, e entre mulheres atingidas numa realidade interseccional do ser mulher e ser mulher atingida, a qual as novas arpilleristas partilham, observase que o processo protagonizado por elas começa a florescer de forma consciente, em relação à especificidade de sua condição de mulher e mulher-atingida. O debate que entrelaça o cotidiano de violência e as violações dos direitos sofridos pelas mulheres atingidas une e gera os temas a serem discutidos e bordados para a denúncia política. A metodologia se faz contextualizada e dialógica, produzindo a possibilidade de se fazer libertadora de mentes subordinadas ao pensamento do opressor. 52
O processo de formação contribui com a ampliação da percepção das mulheres sobre as suas próprias experiências (SILVA, 2010), envolvendo-as na condição da ação e pensamento crítico com potencial transformador (HOOKS, 1994). A cada oficina realizada os temas são escolhidos para dar concretude à realidade vivenciada, e o diálogo entre as mulheres é pulsante. A conversa envolve criatividade e sensibilidade das mulheres. As cores das linhas são escolhidas a dedo, juntamente com os pequenos pedaços de tecido - retalhos que muitas vezes carregam em suas estampas grandes histórias. O tema da arpillera pode estar relacionado ao passado, ao presente ou ao futuro, mas a contemplação proporcionada pelo bordado as transporta para locais que são atemporais, para o interior de cada uma. Nessa perspectiva, observa-se que o bordado é uma ferramenta que contribui para o autoconhecimento. Acessar suas dores, suas lutas, suas memórias, seus anseios e seus desejos, para depois compartilhá-los com as outras companheiras, são fases que constituem o grande conjunto de processos pedagógicos em que consiste bordar uma arpillera.
Para possibilitar esse fluxo de trocas tão profundas, as oficinas de arpilleras se constroem como um ambiente de confiança e de intimidade. Por estarem somente entre elas, as mulheres se sentem mais seguras e à vontade para compartilhar pensamentos e sentimentos que possam aflorar enquanto bordam os fios que também - e principalmente - vêm de dentro. Encontro após encontro, com a manutenção da paciência e do respeito mútuo, as sementes da afetividade e da liberdade seguem aflorando. Na costura desse círculo de confiabilidade, borda-se conjuntamente “uma relação dialógica permanente”, vínculo destacado por Paulo Freire (1987, p. 31) como caminho para uma prática pedagógica humanizadora, mas que, indo além, transparece o feminino numa ação de tomada de consciência feminista alimentada por meio da metodologia arpillera. Quer dizer, o protagonismo feminino, o ambiente de confiança, o elo construído, são bases que propiciam o diálogo entre as mulheres e a perspectiva de um protagonismo novo de base feminista. Nesse sentido, estende-se o pensamento da arpillera como metodologia, prosseguindo de tal relação dialógica constituída. O diálogo é o rio pelo qual flui a
(auto)reflexão das mulheres sobre as suas realidades. Mediante a troca de vivências, o olhar sobre si estreia uma mudança, processo este que se desenvolve de forma solidária à mudança do olhar sobre o que as circunda. Assim, ponto após ponto, o bordado encaminha-se para uma transfiguração. Um instrumento comum do cotidiano se transformando em um verdadeiro instrumento revolucionário, na medida em que a metodologia dialógica da arpillera inspira, de forma simples, os “perigosos” questionamentos. Perigosos para uma estrutura sistêmica que as oprime, mas libertária para as oprimidas que passam a buscar as respostas dos “por quês?” que emergem gradativamente enquanto a linha e a agulha permeiam a juta. Ao compartilharem suas vivências e refletirem sobre suas realidades, expressando insatisfações que se apoiam no reconhecimento de opressões sofridas de forma individual e também coletiva, as mulheres começam a desconstruir crenças, as quais muitas vezes passam despercebidas por serem naturalizadas. Como, por exemplo, o papel social incumbido às mulheres. A tomada de consciência, começando pela desnaturalização das opressões, acompanha o autorreconhecimento como donas de si e que, unidas, se fortalecem. 53
Inicia-se, então, um processo de reflexão crítica transformativa, onde as mulheres protagonizam e reconstroem suas identidades e suas resistências (HOOKS, 1994). Observa-se que o ato de bordar as arpilleras contribui com a conscientização das mulheres sobre si e sobre o que as envolve, o que, para Paulo Freire (1987, p. 58), significa “o aprofundamento da tomada de consciência”. Conscientizar-se abrange um importante ponto, o qual se faz e refaz durante os processos bordados. Porém, não deve ser o ponto de arremate. Em outras palavras, não se deve parar ao “alcançar” a conscientização (FREIRE, 1987, p. 65). Paulo Freire (1987, p. 42) orienta que a percepção promove o movimento quando esta reflete que a situação a qual as mulheres se encontram não é inevitável, mas, sim, desafiadora. Quer dizer, as circunstâncias das relações sociais vividas podem, sim, limitá-las, no entanto, tal limitação é exatamente o combustível que pode inspirá-las na busca por transformações. Ao bordar uma arpillera, as mulheres atingidas vivem processos coletivos que proporcionam o aprofundamento do conhecimento sobre 54
as suas realidades. Além disso, incitam a busca pela compreensão do que causa tais realidades. Nesse sentido, a cada processo vivido, novas perguntas surgem, com respostas que alimentam um novo processo e um novo ciclo de questões. Paulo Freire (1987, p. 29) afirma que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: as mulheres se libertam em comunhão”. Nessa perspectiva, a arpillera contribui de forma relevante para a autoorganização das mulheres atingidas. Assim, pergunta-se: como a arpillera favorece a transformação do refletir em agir, através da prática da auto-organização e/ou “na luta organizada pela libertação”?
“Mulheres lutando e aprendendo, umas com as outras, a construir um futuro a partir da transformação da realidade”
A auto-organização das mulheres atingidas é anterior às oficinas de arpilleras desenvolvidas pelo Coletivo Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens. Inicialmente, a tomada de consciência das mulheres como sujeitos políticos e a construção de uma identidade coletiva que possui pautas de luta específicas dentro de um movimento social misto, promove a criação desse Coletivo. A partir do relatório da Comissão Especial “Atingidos por Barragens”, do CDDPH, o qual atesta que as mulheres são a parcela da população atingida mais violentada, o entendimento passa a ser que não há luta por uma sociedade mais justa sem o(s) feminismo(s). As mulheres organizadas, através do Coletivo Nacional de Mulheres do MAB, proporcionam o resgate da técnica de bordado chilena e a sua divulgação, por meio de oficinas para as mulheres atingidas das cinco regiões do Brasil. Os bordados coletivos das arpilleras se transformam em um instrumento para a auto-organização das atingidas. Proporcionar oficinas de bordado se transformou na promoção de encontros políticos para as mulheres, “um momento de despertar” (FREIRE, 1987, p. 29). Paulo Freire (1987, p. 21) elucida que não há
reconhecimento verdadeiro sobre uma realidade, se esse não é acompanhado de uma ação que busque a transformação daquela. Para o autor, a inserção crítica na realidade e a ação de transformação são equivalentes e estão integradas. Isso porque é da “vocação ontológica” do ser humano a sua humanização. A inserção das mulheres na estrutura social capitalista, de caráter patriarcal e racista, ressoa críticas e reflexões pautadas pelos feminismos, contribuindo com a busca pela sua humanização. Ou seja, a busca pela libertação das opressões. É nessa perspectiva feminista que observa-se a dialogicidade arpillerista desenvolvendose a partir do acúmulo de saberes que cada uma traz consigo. As mulheres aprendem umas com as outras e, dessa forma, as mulheres libertam umas às outras. A solidariedade entre as mulheres é observada durante os processos vividos através da arpillera. Os saberes compartilhados vão desde os materiais, onde a que tem mais domínio sobre as linhas e a agulha reparte o que sabe com a que não tem conhecimento sobre os pontos. Entretanto, é a partilha das próprias vivências, como ser mulher, que as mulheres despertam para uma transformação das suas realidades. 55
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Silva (2010, p. 24) reflete sobre a dialética entre o indivíduo e o coletivo. É a partir da auto-identificação com a experiência de outras mulheres que se reconhece “a experiência comum” das mulheres. É em coletivo que se pode (re)conhecer o padrão de opressões compartilhadas por ser(mos) mulheres. Então, a noção de injustiça (SILVA, 2010) pode surgir acompanhada do reconhecimento sobre a força que possuem, a qual se amplifica por estarem em coletivo. O pensamento crítico sobre si, a identidade coletiva e a circunstância política na qual estão inseridas (HOOKS, 1994, p.47), contribui com a compreensão de que juntas são mais fortes - não estão sozinhas. As singelas idas aos encontros de bordado dão princípio a uma verdadeira revolução para a vida dessas mulheres. Revolução que nasce nos pequenos atos, mas de grandes transformações. Primeiramente, o próprio sair do espaço privado e doméstico, muitas vezes de exploração-dominação das mulheres, para um espaço público e coletivo. Nesse contexto, bell hooks (1994, p. 47) reconhece que a pequena mudança de atitude é muito significativa para quem está submetido às opressões. Em seguida, por comumente compreender que é o único momento das suas rotinas onde as mulheres dedicam um tempo para si. 58
Historicamente, as mulheres são ensinadas que é de sua natureza o cuidar prioritariamente do(s) outro(s). Tal designação - que exige tanto das mulheres - não abre espaço para o autocuidado. As mulheres ocupam seus horários disponíveis com o trabalho doméstico e de cuidado do outro, o qual não é reconhecido ou valorizado. Por essa lógica, destinar um instante do seu tempo para o seu próprio lazer é superar uma arbitrariedade naturalizada e iniciar uma transformação na sua realidade. São mudanças individuais, amplificadas em escala coletiva. A auto-organização, como Movimento, que promove a formação das atingidas através da arpillera, proporciona o (auto)encontro das mulheres, entre si e entre elas. A identificação como sujeitos e a aprendizagem coletiva propiciam a autoorganização das mulheres, consolidando a auto-organização previamente existente. Nesse sentido, os processos que envolvem o bordado da arpillera potencializam a auto-organização das mulheres em duas perspectivas: no âmbito do ser mulher, auxiliando o empoderamento das mulheres; e na circunstância do ser mulher atingida, na esfera da denúncia/documentação sobre as violações de direitos sofridas e dos anúncios das suas lutas e resistência.
Tais perspectivas estão interseccionalizadas, ou seja, as opressões às quais as mulheres atingidas são submetidas por serem mulheres e por serem atingidas são interseccionais. São a parcela social mais atingida ao serem mulheres e por serem mulheres, rurais, negras e pobres, constituem a população atingida. Há a intersecção de opressões que se interrelacionam, influenciam e fomentam uma profunda e complexa estrutura opressora. As mulheres atingidas não são consideradas de forma justa pelo modelo desenvolvimentista, submetidas à margem desse, autodenominado, desenvolvimento. Há uma conjuntura sobre a qual elas refletem coletiva e criticamente, transformando a palavra em tela bordada. As teóricas feministas Carmen Silva (2010) e bell hooks (1994) e, o diálogo com a Pedagogia da Libertação, orientada por Paulo Freire, ressaltam a presença da dialogicidade ao longo das etapas que constituem a arpillera. Além de processo contemplativo, os bordados contribuem no processo construtivo do autoconhecimento, podendo converter-se em costuras revolucionárias, na medida que promovem questionamentos e reflexões que convergem com o debate feminista.
Na práxis da reflexão e da ação que compreende esse bordar, as arpilleras nutrem o anseio de mudanças que emerge do interior das arpilleristas e, ainda, entusiasmam o empoderamento e a autoorganização das mulheres atingidas, para que juntas possam lutar e transformar as suas realidades. Ademais, as arpilleras são instrumentos de comunicação popular para as atingidas por barragens, com linguagem democrática e simbólica. Por essas razões, costuradas em métodos coloridos e subversivos, é que é possível pensar a arpillera como uma metodologia feminista, através da qual as mulheres atingidas ressignificam o bordado. Ainda assim, não se pretende afirmar que o ato de bordar arpilleras seja o suficiente para libertar as mulheres atingidas das opressões que são submetidas. O que é afirmado é a arpillera como metodologia de linguagem política que contribui com o processo de transformação individual e coletiva, onde essas possibilitam uma transformação social. A arpillera é a ressignificação do bordado, é a subversão da costura em instrumento para o processo de libertação das mulheres enquanto elas tecem a compreensão crítica sobre suas realidades (FREIRE, 1981; HOOKS, 1994) e produzem telas políticas. É propriamente pela contribuição à liberdade (FREIRE, 1981) 59
e como metodologia feminista, sustentada teoricamente também por Narvaz e Koller (2006), que bordar arpilleras é ato político. Igualmente, é por ser ato político e contribuir com a libertação das mulheres atingidas que a arpillera é considerada uma metodologia feminista.
Gênero: articulando pesquisa, clínica e política. Psicologia em Estudo, v. 11, n. 3, p. 647-654, 2006.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SIMIONI, Ana Paula. Bordado e transgressão: questões de gênero na arte de Rosana Paulino e Rosana Palazyan. Proa – Revista de Antropologia e Arte (on-line), n. 02, vol. 01, Campinas, 2010.
FERNANDES, Beatriz Rodrigues. Arpilleras e Feminismo: Ressignificações das mulheres atingidas por barragens no Semiárido Nordestino. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA. Universidade Federal do Ceará, 2018. FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade, ed. 5. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, ed. 17. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987. HOOKS, bell. Teaching to Trangress – Education as the Practice of Freedom. Routledge, Nova Iorque; Londres, 1994. NARVAZ, Martha e KOLLER, Silvia. Metodologias Feministas e Estudos de 60
SILVA, Carmen. Os sentidos da ação educativa no feminismo. Experiências em Pedagogia Feminista. SOS Corpo, Recife, p. 8-27, 2010.
Saiba mais sobre a luta das mulheres atingidas por barragens no Brasil: Filme: “Arpilleras: Atingidas Por Barragens Bordando a Resistência” (2017) Documentário. 1h 37m. O documentário “Arpilleras: Atingidas por Barragens Bordando a Resistência” conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil, que, por meio de uma técnica de bordado surgida no Chile durante a ditadura militar, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. Direção: Coletivo de Mulheres do MAB Narração: Dira Paes
Site: mab.org.br O Movimento dos Atingidos por Barragens tem uma longa história de resistência, lutas e conquistas. Nasceu na década de 1980, por meio de experiências de organização local e regional, enfrentando ameaças e agressões sofridas na implantação de projetos de hidrelétricas. Mais tarde, se transformou em organização nacional e, hoje, além de fazer a luta pelos direitos dos atingidos, reivindica um Projeto Energético Popular para mudar pela raiz todas as estruturas injustas desta sociedade. O site do MAB apresenta informações, documentos, matérias, poesias, fotografias e dados gerais sobre a organização dos atingidos por barragens no Brasil. Faça parte da luta dos atingidos e atingidas por barragens! Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular!
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