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Por Essas Linhas de Cá

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POR ESSAS LINHAS DE CÁ coletânea de textos

SALVADOR • BAHIA 2021


Por Essas Linhas de Cá tem a realização do Coletivo Cultural Ibomin e conta com o apoio financeiro do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.


O livro Por Essas Linhas de Cá é resultado do projeto de mesmo nome, selecionado na Lei de Emergência Cultural (Lei Aldir Blanc -14.017/2020). Esse instrumento legal aprovado pelo Congresso Nacional e executado pelos órgãos do Sistema Nacional de Cultura nas três esferas da Federação foi de fundamental importância para a sobrevivência de organizações, grupos, coletivos, projetos e, sobretudo, trabalhadores e trabalhadoras do setor cultural. A Lei também foi responsável por disseminar produções culturais em todos os cantos do país, através de estratégias de atuação presenciais, à distância e híbridas, tornando-se um marco nos esforços de democratização dos recursos e do acesso às produções artísticas. Com o objetivo principal de democratizar ainda mais esse acesso, o projeto foi elaborado intencionando fazer a oportunidade chegar a pessoas historicamente excluídas dos percursos de acesso a editais. Neste caso específico, jovens negros e negras, de 18 a 29 anos, residentes em qualquer território periférico do Estado da Bahia. A partir de um concurso lançado em janeiro de 2021, essas pessoas puderam inscrever suas produções literárias em conto, crônica ou poesia. No total, foram 412 inscrições, das quais 398 foram habilitadas a participar do processo seletivo. Para tanto, foi formada uma banca, composta por três pessoas com habilidades, conhecimentos, trajetórias e referências identitárias diversas, aproximadas apenas pela realidade de serem escritores e escritoras negros e negras. A ideia era garantir o máximo de diversidade possível entre os textos selecionados, o que certamente ocorreu. As obras literárias selecionadas passaram por um cuidadoso trabalho de revisão textual dialogada com seus autores e autoras, buscando, sobretudo, preservar a originalidade e os elementos estéticos, políticos e artísticos presentes. Como resultado temos, em formato impresso e digital, essa coletânea de textos de jovens negros e negras que revelam uma diversidade de temas, olhares e formas de expressar o universo simbólico dessa juventude. Por cada texto selecionado, seus autores e autoras receberam um valor de duzentos reais, como forma de garantir, de partida, o acesso dessas pessoas à renda emergencial.


POR ESSAS LINHAS DE CÁ COLETIVO CULTURAL IBOMIN COORDENAÇÃO GERAL

LEO VILAS VERDE

DESIGN GRÁFICO

TAMARA NASCIMENTO DOS SANTOS MOBILIZAÇÃO DE REDES SOCIAIS

ODEMILSON DO CARMO

PRÊMIO POR ESSAS LINHAS DE CÁ (2021) COORDENAÇÃO

LEO VILAS VERDE COMISSÃO AVALIADORA

AMÓS HEBER JOSÉ EDUARDO FERREIRA SANTOS MAIARA SILVA

POR ESSAS LINHAS DE CÁ (COLETÂNEA DE TEXTOS) ORGANIZAÇÃO E EDIÇÃO

LEO VILAS VERDE

REVISÃO DE TEXTO

VANESSA SANTOS CAPA E PROJETO GRÁFICO

QUINTINO ANDRADE

P832 Por Essas Linhas de Cá: Coletânea de textos. 1 ed. / Leandro Vilas Verde Cunha(organizador) – Salvador: Coletivo Cultural Ibomin, 2021. 180p.; 20 cm. ISBN: 978-65-00-20281-6 1. Conto. 2. Poesia 3. Crônica 4. Afrocentrada. 5. Juventude I. Cunha, Leandro Vilas Verde CDD – B869.3 Bibliotecária: Alizete Neves Silva : CRB5/1658.


UM SALVE AO JORGE!

É extremamente simbólico e, certamente, obra da ancestralidade que o livro Por Essas Linhas de Cá seja resultado de um projeto selecionado no Edital que leva o nome de PRÊMIO DAS ARTES JORGE PORTUGAL. Alguns dos escritores e escritoras que assinam esses textos podem não conhecer, outros podem apenas ter ouvido falar dessa personagem icônica da história da cultura e da literatura da Bahia. Para quem viveu a Bahia e, sobretudo, as curvas da Baía de Todos os Santos das duas últimas décadas, Jorge passeou entre as figuras de escritor, poeta, compositor, apresentador de televisão e Secretário Estadual de Cultura, entre tantas outras coisas. Uma seleta parcela da população lembra que ele foi professor das principais escolas e pré-vestibulares da cidade. O que muito pouca gente sabe é que, entre tantas funções importantes, o Professor Jorge Portugal também reservava horas de sua existência a sensibilizar jovens negros e negras de comunidades periféricas para a importância e o prazer da leitura e da escrita. Quando cursava o pré-vestibular no Coequilombo (um quilombo educacional responsável pelo primeiro movimento de inserção de pessoas negras de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, nas universidades), Jorge era a referência local de professor de língua portuguesa e redação. Em certo momento, ele esteve


no Coequilombo fazendo uma aula de Cidadania e Consciência Negra e era possível perceber o quanto seus olhos brilhavam ao falar de coisas como ler e escrever. E de como reluzia ainda mais se ele descobrisse que aquele jovem negro ou negra escrevia por prazer. Foi numa aula-show do Programa Faz Universitário, realizada no início dos anos 2000, que a concha acústica do Teatro Castro Alves ficou lotada com alguns milhares de estudantes para assistir Jorge e o Professor Pasquale Cipro Neto falarem de língua portuguesa. Foram naqueles momentos que entendi que ler e escrever era legal, e eu, que pensava diferente da maioria dos jovens daquela época, não estava errado. Certamente, tem uma quantidade enorme de pessoas escritoras negras, hoje adultas, que foram conquistadas para a literatura e a escrita quando jovens em cada canto do Centro ou das Periferias, da Capital ou do Interior, através do olhar e do discurso de Jorge Portugal, chamado ao Orum em 2020. Por isso, nosso livro Por Essas Linhas de Cá é uma homenagem ao Professor Jorge. LEO VILAS VERDE


PRÓLOGO

Há alguns dias, durante a conferência de abertura da primeira Festa Literária do Subúrbio – FLISU, a escritora Conceição Evaristo chamava a atenção para a importância do domínio do idioma na balança das relações de poder. Isso porque dominar o idioma significa, em primeira ordem, dominar um instrumento fundamental de comunicação com determinado grupo populacional. Todas as sociedades chamadas conquistadoras (invasoras) ao longo da história entendiam essa sentença. Afinal, espada e pólvora servem para destruir. Mas conquista se faz através da comunicação. Importantes instituições, ao longo do tempo, tiveram papel fundamental no domínio de populações. A escola, em seus mais variados formatos, se perpetuou em lugar de destaque nesse âmbito. A igreja e suas ordens, a exemplo dos Jesuítas, foi a principal responsável pela interlocução entre os povos originários e seus invasores durante o processo de colonização do chamado “Novo Mundo”. Na era moderna, esse papel foi dividido com tecnologias de comunicação. Primeiro o jornal impresso, seguido pelo rádio, cinema, televisão e, hoje, a internet. Fato é que o domínio dessas estruturas significa a gestão de valores, comportamentos e formas de pensar das pessoas. Mas ne-


nhuma delas teria tamanho poder se seus operadores não possuíssem o devido traquejo com as palavras, ou melhor, com o texto. Quem tem a posse do texto, tem a posse das narrativas. Quem tem a posse das narrativas, tem a posse da “verdade”. Assim, nos convenceram que índios e negros eram geneticamente inferiores a brancos. Nos convenceram que Olodumare e Tupã são demônios e só “Jeová” é verdadeiramente Deus. Nos convenceram que índios são preguiçosos e negros propensos ao crime. Normalizaram em nossas mentes a mulher negra como empregada doméstica, o homem negro como animal violento e os povos indígenas como ingênuos e gentis. Você já sentiu medo ao passar por um homem negro em uma rua deserta? Você sente pena ao ver uma pessoa branca fazendo uso abusivo de drogas e não sente ao ver uma pessoa negra? Mas você é uma pessoa preta. Você se declara “antirracista”. Você até se reconhece Pan-Africanista. Leu Pele Negra, Máscaras Brancas de Fanon. Escreveu uma dissertação sobre racismo estrutural e hiperencarceramento. Compõe aquele coletivo de jovens negros e negras. Não se preocupe. Você não é mais ou menos racista porque sentiu medo ao passar por um homem negro numa rua deserta. Sua mente apenas reage às narrativas que, sequencialmente, você consumiu ao longo de sua vida, onde o lugar do homem negro é a violência e a criminalidade. Nessas narrativas também é comum que o usuário de drogas branco ocupe o lugar de doente, enquanto o negro ocupe o lugar de vagabundo. Narrativas também constroem personagens. E elas se eternizam em padrões, tipo Narizinho, tia Anastácia, Zé Pequeno, Laranjinha e Acerola. Por isso, é tão importante criar outras narrativas onde personagens não-brancos ocupem os mais diversos lugares. E para fazer isso, nada melhor que jovens escritores e escritoras negros e negras de diversos territórios. É urgente que tomemos o protagonismo de contar as nossas histórias. Assim surge o Projeto Por Essas Linhas de Cá. O desejo continua sendo fazer muito mais. Entretanto, nessa primeira experiência, o projeto selecionou e premiou 70 textos de 52 mulheres e homens, dos mais diversos reconhecimentos identitários e regiões


do estado da Bahia, que tem algumas poucas coisas em comum: são pessoas negras, jovens e que se propõem o desafio de escrever por suas próprias linhas. Foram 412 textos inscritos. Destes, 398 foram homologados e enviados para avaliação da banca, também formada por três pessoas negras de percursos diversos. Coube a essas pessoas a tarefa de ler cuidadosamente cada texto e dar nota, a partir dos critérios estabelecidos em edital, chegando aos 70 premiados. E sabe a principal realidade que esse processo revelou? Que temos uma quantidade incrível de pessoas jovens e negras com conteúdo, criatividade e domínio da língua querendo contar suas histórias. Irá se enganar quem folhear essas páginas na perspectiva de só encontrar textos que falem de racismo, de dor, de exclusão. Meninos e meninas negras também falam de amor, conquistas, felicidade, autocuidado, política, ancestralidade. Enfim, há um universo enorme de contextos, enredos e personagens. Esse livro é composto por poesias, contos e crônicas. A maioria é poesia, forma mais comum de produção literária da juventude. Mas todos reservam bastante qualidade. O projeto só tem sentido quando cada pessoa negra fizer a leitura dos textos que aqui disponibilizamos. Por isso, convidamos você a percorrer essas páginas com bastante liberdade. Não fizemos categorização dos textos, não os organizamos em blocos, justamente para dar a você a oportunidade de desenhar suas próprias linhas de leitura. Se gostar, dissemine em suas redes de diálogo, pois a leitura afrocentrada é o caminho necessário para reverter a estrutura simbólica da sociedade racista. Cada um dos cinquenta e dois escritores e escritoras jovens escrevem seguindo suas próprias linhas. Eu escrevo seguindo minha própria linha. Afinal, Por Essas Linhas de Cá tudo fica muito mais familiar. LEO VILAS VERDE SALVADOR, 07 DE MARÇO DE 2021


ÁGATHA KEILA DE JESUS DA SILVA

Desde que eu me lembre 17 Fogo 20 LUA GONÇALVES

Carta aberta à opressão 21 ALBERT ELIAS GERTRUDES

O Corpo de um Escravizado 23 ALEXANDRA SUZARTE

Odoya 25 Eu, Rio 27

ANA KÉZIA DOS SANTOS NASCIMENTO

Retalhos 29 No Tororó 31

ANA LÚCIA SANTOS

Meninas, mulheres e tranças 33 ANANDA SANDES

Não Sou Eu uma Mulher? 36 ANANIAS SERRANEGRA

O verso que não coube no poema 38 Soneto aos Urubus 42

ANNANDRA LÍS

A Passarela 46

ARYELLE ALMEIDA SILVA

Manchete 48 BRUNA LIMA

Natalidades - João Todos Nós 50


BRUNO MACHADO

Desenho do Tempo 53 CALÉO MENESES SANTOS

Verdadeiramente Livre 55 CAROLINE DA CONCEIÇÃO BARBOSA DA PURIFICAÇÃO

Pele Alvo 57

CHRISTIAN JESUS DA SILVA

Falamos de Esperança 59

DIANA BISPO RIBEIRO DA SILVA

Mocidade 61

ELIZA MARIA DA SILVA METZKER

Perdão, Senhor! 62

GEISLA SANARA SILVA DE ABREU

Transbordar 63

IASMIN SANTOS DE JESUS

Racismo e Opressão 64 Negritude 66 Caso arquivado 68

INÁIRA GOMES DE OLIVEIRA

Cura Cristalina 70 Fragmentos Lunares 72 ISAAC DUBAI

Adeus ao Racismo 74 Semente da resistência 77


ISAQUE SANTOS PINHEIRO

Olhos Azuis 78

ITAMILES SANTOS NASCIMENTO

Meu Turbante 79 Salve Mãe África 80 Beleza e Rebeldia 82 JAÍNE SANGON

Suspreta 83

JAISY CARDOSO

A urgência do convite 84 JAMES BARREIROS

De Salvador 86

JAMILE DOS REIS SANTOS

Sobre nutrir o amor 88 Remember 89 De primeira 91

JANIELE DAMASCENO BISPO

Poetizando minha pretitude 93 JHONATA NASCIMENTO AZEVEDO

Papo de nego pra preto 95 JOÃO LUAS

Despertar 97 Alquimia 99 JOSIANE ALVES DOS SANTOS

Dezessete 101 Sou mais desejo do que gente 103 Ladainha para Iroko 104


JULIANA SANTOS DE SANTANA

A semana é quase santa 106

KAILANE OLIVEIRA DO CARMO

Preta? Sim. 108

KARINE ALVES MATIAS

Compartilho da minha dor 109 Dor diária 111

LETÍCIA MENEZES

Em cada esquina 113

LIZANDRA FERNANDES

Desprivilégio 114

MARCOS DOS SANTOS SOUZA

Rotas da Resistência 116

MARCOS VINÍCIUS BATISTA BARBOSA

Carta a um irmão 117

MARCUS VINÍCIUS DE JESUS REIS

Amor e Autocuidado 119

MARIANA BRANDÃO GONÇALVES PEREIRA

Cotidiano 121

MARIANE OLIVEIRA

Neguinha 124

LIRA QUEIROZ

Dicotomia 125 MICHEL LUÍS TAVARES DE CARVALHO

África Continente 126


MYRIAM JESUS SANTANA COSTA SANTOS

Caminho de flores 127 NARA NEYLAINE

Eu resisto! 128

PAULO MENDES

Representatividade 130 RAYARA STEPHANY

Ancestralidade 132 RAÍSSA NIZAH

Luto pela Liberdade 133 REBECA OLIVEIRA

Lendo Carolina Maria de Jesus 135 Força e beleza da mulher preta 137 SAMARA ALMEIDA LIMA SANTOS

Meu corpo forjado 138 SUED NUNES

Preta demais 140 Chacina 142 THAÍS SOUZA RIBEIRO

E se… 144

AUTORAS E AUTORES PREMIADOS 146 COMISSÃO AVALIADORA 173 EQUIPE POR ESSAS LINHAS DE CÁ 176


DESDE QUE EU ME LEMBRE Ágatha Keila de Jesus da Silva

A verdade é que é assim desde que eu me lembre. Apesar do belo dia que fazia, e do cheiro delicioso do café, não importava realmente. Enquanto eu encarava o nada, o olhar fixo em lugar nenhum, minha garganta fechou. Apesar do meu desejo de abri-la e derramar-me até inundar todo o cômodo. Eu sempre ouvi que seres humanos não nascem moldados, tampouco destinados à coisa alguma. Diferente do que muitos pensam, porém, é assim desde que eu me lembre. O amor é a chama da vida, não é? Que se consolida regado de respeito, confiança e companheirismo. Sim, é verdade. Contudo, que eu lembre, sempre foi assim. A humanidade é a raça abençoada e escolhida pelo Deus que talvez esteja no céu (é o que dizem), para habitar o paraíso, devido à sua capacidade única de sentir, eu acho. Sentir o amor, a ternura, a compaixão, a solidariedade, e o medo é claro, esse é muito importante. Seres racionais, são chamados… isso porque usam a cabeça para propósitos muito maiores do que as primitivas necessidades da sobrevivência. É maior e mais esplendoroso do que qualquer outra espécie lutando para não ser uma refeição, ou para não perdê-la até o fim do dia… Ah, a humanidade. É realmente incrível! Com toda a sua inteligência somada ao emocional exclusivo. Afinal de contas, os bichos, eles não têm sentimentos, não é? Enfim, é impossível não se apaixonar por toda essa grandeza e qualidades que uma única raça detém. O engraçado é que sempre foi desse jeito, desde o que consigo lembrar. Questiono-me, às vezes, ou sempre, o motivo de precisar fazê-lo, quer dizer, não deveria mesmo ser assim, e o problema é que sempre foi, mesmo quando eu não era eu ainda, muito antes disso. Então, se esse Deus que dizem habitar os céus é como escreveram naquele livro com frases estranhas e de entendimento questionável, 17


por que ele manchou a minha pele mesmo sabendo que a humanidade tão incrível por ele criada, na verdade, não é tão incrível assim, pelo que eu lembro? Ele não sabia que tantos sofreriam? Difícil. Eu não tenho realmente um problema com isso. Acho bonita a forma como brilha sob o sol e se parece tanto com a cor do chocolate, que é a coisa mais gostosa já feita pela humanidade, convenhamos. Mas eles têm, desde que eu me lembre, os olhares, as palavras, os tratamentos, sempre tão diferentes, que dá para sentir no ar uma atmosfera que te sufoca, quase como se tivesse mãos peçonhentas e perversas. E então, eu me pergunto, por que o suposto Bom Deus, mancharia minha pele e a de diversas outras pessoas? Sabendo que os que são “limpos”, sem a “sujeira” do chocolate, estão destinados à grandeza, desde que apenas “se esforcem”. E o amor nada mais é do que o interesse fútil, guiado fielmente pelos padrões diversos, status, glamour, sexo… enfim. E por último, na expressão “isso é desumano”, a ação não devia ser considerada desprezível, uma vez que a humanidade é a coisa mais desprezível e podre que foi inventada por quem quer que seja, e essa palavra, sim, deveria ser uma ofensa. Mas tudo bem, Deus que talvez esteja no céu. Eu o perdoo por isso, mesmo sem entendê-lo. Tento todos os dias seguir os conceitos iniciais dessas coisas, sabe? Tento, porque acho muito bonito, mas sinceramente, é quase impossível ser uma rosa florescendo num jardim destruído por ervas daninhas. — Sonhando acordada? — João tocou meu ombro suavemente, com um pequeno sorriso — Eu já vou indo, foi bom te ver de novo. — Quando ele parou a um passo da porta, eu sabia que não estava hesitando, apesar de parecer. — Se cuida, tá? E pare de sonhar acordada! — Saiu meio aos risos, me dando pouco tempo para realmente assimilar tudo. Afinal de contas, era ele o motivo do meu devaneio inicial, que chegou até aqui, o fim. João… ah, João! Eu costumava vê-lo como meu Adão da Bíblia. Assim como Deus, supostamente, fez Eva para ser uma companheira fiel, eu se18


ria assim para ele. Afinal, compartilhamos a mesma pele manchada e todas as consequências de nascer assim, pintados de chocolate. Só que, diferente de Adão e Eva, eu estaria para os momentos ruins e não para os bons. O paraíso não era pra mim. Demorou um pouco até eu perceber que essa não era a única diferença entre os primórdios da criação e o presente. João se parecia mais com Eva, se bandeando pro lado inimigo na primeira oportunidade e esquecendo dos ensinamentos tão preciosos, compartilhados por Deus. Este último mais parecido conosco, amém. Infelizmente, a serpente havia conseguido convencê-la de que essa história de pecado era coisa da cabeça de Deus, deu-lhe o fruto proibido e levou minha Eva. Mas eu permaneci debaixo das asas de Deus, e, às vezes, penso que se eu fosse o Adão, tudo seria diferente. Eu fiquei sozinha, mais uma vez, com todos os meus pecados e impurezas que eu nunca havia cometido, de fato, eu fiquei sozinha, da mesma forma que era antes, ou sempre foi, porque a solidão… aí está um sentimento que sempre foi meu amigo. Sempre foi assim, desde que eu me lembre.

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FOGO

Ágatha Keila de Jesus da Silva

Eu sempre gostei do fogo, era quase aconchegante Eu sempre gostei do fogo, ele era incompreendido Não era culpa do fogo que ele fosse tão vibrante E de certo, ao provocá-lo, mereceu sair ferido Às vezes, me sentia próximo demais, como se pudesse o abraçar Disseram-me que ele machuca, mas quem o iria consolar? Pelo ódio recebido, calma, fogo, disso eu sei… Sempre nos atiçam e nos culpam, a culpa mesmo é de vocês Eu também nasci assim, por muitos odiado Minha pele preta e marcada é o que causa o desagrado Eles dizem por aí que eu represento o pecado Por isso, te entendo, fogo, também foi injustiçado Eles nos apagam diariamente, sem a menor compaixão Agora só restou nós dois, no meio desse salão Assim como eu, só nasceu, assim como eu, só existiu Agora você é o fogo, e o fogo me consumiu

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CARTA ABERTA À OPRESSÃO Lua Gonçalves

Os negros não regressarão para a senzala Depois de mais de 300 anos de escravidão Trocaram navio por camburão Mas lhe comunico que haverá resistência! E não adianta manter as aparências Quando passo com minhas características de nascença O ódio ainda está velado no seu olhar. Assusta tamanha isenção Em um país onde mais da metade da população É constituída por nós. Gradativamente calaremos sua voz opressora Ao passar dirigindo o carro do ano em frente ao seu consignado. Os LGBTs não retornarão para o armário Presos e sufocados dentro do próprio quarto Sentindo o grito engasgado enquanto engolem o choro Em mais um jantar em família. Já basta de ser alívio cômico na TV Em troca da preservação das suas vidas Que estão nas mãos de falsos moralistas. Mão sujas pelo deleite dos vídeos protagonizados por travestis Pelo mar vermelho sangrado dos trans São as mesmas mãos que tateiam, cuidadosamente As linhas escritas no livro da moral e dos bons costumes. É a mão que cala a boca da garota Que por dentro padece em um grito eterno e mudo. Avise aos machistas! As mulheres não voltarão mais para a cozinha Após tantos séculos sendo oprimidas, submissas 21


Gritando sem serem ouvidas Rindo torto para esconder o medo de um toque Acelerando o passo para esconder o incômodo de um olhar Clamando pelos dias de liberdade Dentro do constante processo de se tornar mulher, Enquanto eles serão eternamente garotos para a sociedade, Clamando pelo vento nas asas, Num mundo em que definem liberdade como não ter medo, Sendo que o sentimos o tempo inteiro. Em meio a barbaridade que te descrevo, Avise a todos que haverá resistência! Uma vez que, liberdade é poder ser quem legitimamente somos.

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O CORPO DE UM ESCRAVIZADO Albert Elias Gertrudes

Meu corpo atravessou o mar Nos porões de um navio Meu corpo sobreviveu às noites duras de frio Alguns dos meus corpos não puderam aguentar Eu vejo esses corpos cansados Lançados no fundo do mar. Em meu corpo não tinha mais água E eu nem conseguia chorar Me acolhi no colo de minha mãe E eu já nem sei onde ela está. Meu corpo foi arrancado De onde ele aprendeu amar Da terra sadia, para um futuro sem vingar Queimaram minhas memórias E eu tive que assistir Me prenderam em correntes Que ainda sinto em mim Ninguém sarou minhas feridas E elas insistem em reabrir Meu corpo atravessou o mar Nos porões de um navio, Meu corpo sobreviveu às noites duras de frio Alguns dos meus corpos não puderam aguentar Eu vejo esses corpos cansados, Lançados no fundo do mar. 23


Meu corpo produziu suor, Que produziu riqueza Como pagamento, me produziram Infindáveis tristezas. Um dia, meu corpo se negou a resistir E de novo se contrariando, Meu corpo se negou a sucumbir Não havia fontes de força Para meu corpo conseguir se erguer Melhor tentar liberdade do que Engolir o que reservaram pra você. Meu corpo até hoje resiste Às armadilhas da casa grande. E meus outros corpos desatinam a fugir Mas os donos da fazenda Mal esperam o que vem por aí!

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ODOYA

Alexandra Suzarte

Os olhos d’água de mãe preta Brilharam, cintilaram calmamente Ela suspirou sorrateiramente Até poder transbordar Sim, mãe preta chora! Suas águas agora correm Correm por toda a terra Mansas ou revoltas São águas salgadas São sempre sagradas Os olhos d’água de mãe preta Encheram o mar Só pra poder acalmar O tormento do navio negreiro Seus filhos gritaram Imploraram, sangraram E mãe preta sentia A dor de seus filhos Pequenos peixes enlatados Aprisionados naquele porão E com suave acalanto Ela suspirava, soprava Movia a maré, balançando o barco Como uma canção de ninar 25


Os olhos d’água de mãe preta Ainda transbordam Ainda imploram Ainda nos tocam Você pode sentir? Você pode ouvir o choro de mãe preta? Quando eu andar Na beira do mar As águas tocar Irei contar aos meus irmãos: Nossa mãe chora! E na lua cheia Suas lágrimas de dor Se tornarão um belo canto Ecoará pelos quatro cantos Suas águas Lavarão todo sangue que escorre Levarão todo açoite embora Mãe preta chora! Seus olhos Brilham, cintilam calmamente Ela suspira sorrateiramente Até transbordar! Mãe preta chora por você!

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EU, RIO

Alexandra Suzarte

Aquela mulher, tão mansa De beleza tamanha Que a todos alcança Nao cansa! Derrama-se através do espelho Um pequeno espelho Na direção do sol E eu? Eu rio Gargalho lembranças Prossigo em mudanças Andanças Até encontrar com ela Eu rio, me deságuo Me permito banhar a pele preta Por teus cabelos Por entre os seios Ventre! Naquela mulher, tão mansa Há um pouco de tudo Tem o segredo do mundo E um canto bonito Mas não se atreva! Pois essa ternura Frente a tua audácia Derrubará postura 27


Virá como torrente Uma forte corrente Longe da beira, cachoeira Pois aquela mulher, tão mansa Não cansa A todos empolga E quem lhe atravessa o caminho Afoga! E eu? Eu rio

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RETALHOS

Ana Kézia dos Santos Nascimento

A primeira vez em que ele veio, era verão de 1757. Trouxe consigo uma brisa leve da sua casa: o mar. A Baía de Todos os Santos foi sua morada, a baía que o trouxe. Era também na beira das águas da baía que as moças e eu lavávamos os panos. Foi na beira da baía que nossos olhos negros se encontraram. Sutil, rápido e eletrizante o suficiente para marcar a minha alma. Os canaviais não ofereciam barreiras aos nossos olhares durante o entardecer no engenho. O labor se tornou amor, o calor, frescor. Mas, assim como rápido foi nosso encontro, rápida também foi sua partida. Quatro dias depois, o navio rasgou a baía e o levou embora. Vi sua pele negra se distanciando de mim, suas mãos, marcadas pelo trabalho, em formato de adeus. Não houve palavras entre nós, apenas os nossos olhares negros a se despedirem. Sua feição ficou desenhada em minha conturbada memória. Tempos depois, vi-o voltar. Suas mãos marcadas já não tinham formato de adeus. Entre os seus dedos haviam dois pequenos pedaços de tecido. Ao recebê-los, as palmas das nossas mãos se tocaram e foi como se nunca tivessem conhecido a distância entre elas. Era assim todas as vezes que ele ia e voltava para mim: o toque das suas mãos era imutável. Durante o dia, minhas mãos mergulhadas na água do rio Paramirim, almejavam o cair da noite para unir em costura os retalhos. Dos tecidos, fiz uma colcha que nos aqueceu nas noites frias de outono. Alguns meses depois, assim como a colcha, meu coração era feito de retalhos de saudade. Pelas águas da baía ele veio e pelas águas, também se foi. Mas deixou comigo a brisa leve do mar em formato de amor. Ela cabia perfeitamente na curva dos meus braços e se aconchegava no calor do meu seio. Vi em seus olhos, os olhos do meu 29


amado. O mar estava desenhado neles. Quem dera se ele tivesse a chance de se enxergar... Quem dera se ele pudesse ver o resultado da nossa paixão, embrulhada na colcha de retalhos que muito nos aqueceu. Quem dera se ele pudesse saber que as narinas tão pequenas dela sentiam o cheiro do seu progenitor que esteve ali envolto naquela mesma colcha. A existência dela fez com que o meu coração retalhado fosse costurado com a linha do sentimento mais poderoso. Minhas mãos, hoje trêmulas, contornam as trilhas das costuras da colcha. Meus olhos enevoados fitam a baía, e sentem saudades do tempo em que ela me trazia o amor.

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NO TORORÓ

Ana Kézia dos Santos Nascimento

– “Fui no Tororó beber água e não achei, achei bela morena que no Tororó deixei” – cantou Beto, pegando Ainá pelo braço e a girando como se estivessem em um baile na sede da irmandade. – Você é essa morena, Ainá! Gargalhou como se a letra nunca tivesse feito tanto sentido. – Epa! Morena, não! Ainá parou no topo da ladeira da Brasília, interrompendo a cantoria. Com a mão na cintura, como era de costume, guardou um sorriso que estava prestes a surgir. – E você é o quê, então, Ainá? – Preta! Sou preta. O sorriso que surgiria no rosto de Ainá surgiu no rosto de Beto, mas não era o mesmo sorriso. Havia ali um certo desdém. – Ah, Ainá, já não basta as minhas redes sociais cheias desse discurso, ainda tenho que escutar você? É só uma música infantil! Não complica as coisas. Não seja mais uma chata. A ladeira nunca pareceu tão alta para Ainá. Uma vertigem tomava sua cabeça. Um frio atravessou a sua espinha por alguns segundos. Suas mãos suaram e não foi por causa dos 32º que faziam naquele dia. Era nervoso, Ainá sabia. Mas por que sua mão suava? Por que seu coração acelerou? Não fazia sentido. Ela estava exagerando? Era só uma música? Por que interromper a cantoria do amigo por causa do que ela acreditava? Não havia necessidade. Ele não entenderia mesmo. Não entenderia que a identidade do povo preto foi negada e silenciada. Não entenderia que, por muito tempo, o termo preto foi usado para ofender, mas que agora era motivo de orgulho. Ele não entenderia o processo doloroso até ela aceitar a sua cor. Não entenderia que ela precisou usar aqueles produtos que vendiam na revista da tia para clarear a pele. Alguns ardiam e criavam manchas, ele 31


não entenderia. Mas deveria entender, afinal compartilhavam do mesmo lugar na palheta do colorismo. Mas, melhor não. Melhor não explicar agora... ele não entenderia, mas entenderá. Enxugou o suor das mãos, pegou de volta os baldes que colocou no chão, apoiou a mão enxuta na cintura e continuou o caminho até a bica do tororó. Sem explicar nada, sem cantar, sem magoar seu amigo. Algum dia ele entenderia, ela sabia. Beto agora era Alberto, subindo contente no elevador, para o andar em que faria a sua primeira entrevista de emprego. Trazia nas mãos o tão sonhado diploma. – Desculpa, você não se encaixa nos padrões da nossa empresa. Aquela frase não fez sentido para Alberto. Ele tinha todas as qualificações necessárias: conseguiu concluir o curso de Administração com méritos em uma Universidade Federal. Era, pois, o candidato perfeito para o cargo. Desceu do prédio e parou por alguns longos minutos. Então, encontrou o rapaz que estava na sala de espera com ele. Ele tinha um largo e incontrolável sorriso no rosto. Gentilmente, Alberto comentou: – Entrevista difícil, não foi? É quase impossível se encaixar nos padrões que a empresa quer, o nível é altíssimo. Entre sorrisos, o rapaz respondeu: – Não achei! Meu currículo nem estava bom e, mesmo assim, eles me deram a vaga. Acho que a minha aparência colaborou muito, senão, nem teria chance. Alberto analisou a figura daquele homem ao seu lado. Alto, cabelo preto e liso caindo sobre os olhos, uma mecha discreta atrás da orelha esquerda e a pele branca quase como a camisa que usava. Alberto, que não era mais Beto, finalmente entendeu. Mas já não estava na ladeira da Brasília a caminho da bica do Tororó. Estava na avenida, com as mãos suadas, um frio na espinha e o coração acelerado. Ele entendeu. Ainá sabia.

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MENINAS, MULHERES E TRANÇAS Ana Lúcia Santos

Os sábados eram sempre os melhores dias para Ana Clara. Parecia que a casa estava em constante festa, devido à enorme quantidade de mulheres que preenchiam o espaço. O salão de Rita, sua mãe, ficava pequeno e logo se viam aglomerar pessoas em cada canto da casa. Cabelos sendo lavados, cortados, pintados ou trançados. O espelho grande na parede refletindo novos rostos a cada hora. Vozes femininas se misturando entre gritos, conversas, gargalhadas e muita alegria. — Ô Rita, tu não esqueceu de mim não, né? — Mulher, tu não sabe o que aconteceu... — Ana Clara, traz água pras clientes! Conversa vai, conversa vem, cabelo vai, cabelo vem e a pequena Ana Clara transitando entre as mulheres com sua maletinha lilás. — O que é isso? Um brinquedinho? – Perguntava alguém, puxando assunto com a menina, enquanto esperava sua vez de ser atendida. — São meus materiais de manicure. Posso fazer sua unha? Riam-se, e por achar fofo, deixavam que ela tentasse fazer, mas logo viam que a garotinha levava jeito e a brincadeira se tornava séria. Rita é que sempre colocava freios quando via que estava ficando demais. Sabia que a filha tinha habilidade para o ofício e que para ela pintar unhas era quase que uma brincadeira, mas a garotinha só tinha onze anos e não precisava viver agora o cansaço do trabalho, por enquanto já bastava ela, a mãe. — Está bom, filha. Já fez duas... vá comer um lanchinho ou chamar Dudu para brincar. Era a deixa perfeita, descia a ladeira correndo e ia logo para a vendinha da esquina gastar os trocados que havia ganhado. — Tem geladinho, dona Joana? — Tem, minha filha. Diga a sua mãe que mais tarde vou lá pra ela dar um jeito nesses meus fiapos de cabelo. 33


As duas se acabavam na risada e Ana ia encontrar Dudu, com dois geladinhos de coco na mão. Ficavam juntos um pouco, mas logo ela voltava para casa, pois embora a companhia do amigo fosse divertida, adorava participar daquela bagunça bonita que era o salão de sua mãe. Da porta já dava para ouvir a incomparável e inconfundível risada de Rita, alta e escandalosa, que tomava todo o ambiente e fazia todas as clientes sorrirem também. — Ô Ana, pega as toalhas que estão lá no fundo, por favor!– Dizia a mãe ao ver a filha por perto. E assim mais um sábado chegava ao fim. A mãe exausta de tanto arrumar cabelos e a filha ao seu lado, ansiosa com o momento em que suas tranças seriam refeitas e seu cabelo ganharia uma nova cor. Ana Clara achava mágico o que Rita fazia com os dedos em seu cabelo, entrelaçando seus fios à linha, dividindo as mechas em seu couro cabeludo como se fossem caminhos, como se fossem longas estradas coloridas que desciam pelos seus ombros e costas, fazendo com que ela se sentisse ainda mais bonita. A cor escolhida esse mês havia sido azul e ela não poderia estar mais feliz com o resultado. — Olha só, vó, como minhas tranças ficaram lindas! – Falava, rodopiando a linda senhora de pele escura e cabelos brancos, sentada no sofá da sala. — Ficou mesmo, minha netinha. Rita é ótima! Sentavam as três gerações de mulheres juntinhas e assistiam a novela até os olhos começarem a fechar sozinhos. Coisa que não demorava muito, devido ao cansaço do dia tão trabalhoso e logo iam dormir. Ao acordar, Ana já ia direto para o espelho, e ali gastava sempre alguns minutos admirando a beleza das tranças feitas por sua mãe. Um dia, Rita foi ao mercado fazer as compras do mês e quando chegou encontrou a garotinha em um canto do salão, com o rosto em cima dos joelhos, chorando e soluçando. Ao seu lado estava uma das tesouras de cortar cabelo, vários pedaços de linha azul espalhados pelo chão e a avó tentando, sem êxito, consolar a garotinha, que no lugar das tranças, tinha apenas o que restou dos cortes. Rita deixou as sacolas no chão e sentou ao lado da filha. — O que houve, minha menina? – Perguntou com a voz serena transmitindo todo amor do mundo. 34


Entre soluços e lágrimas, as palavras começaram a sair, evidenciando a dor das primeiras percepções da crueldade do mundo em que vivia. — As meninas da escola estavam todas juntas cochichando, quando cheguei perto começaram a zombar de mim. Disseram que eu usava as tranças pra disfarçar meu cabelo duro, e que por mais que eu usasse um cabelo falso, o meu nunca seria grande e liso como o delas. Rita abraçou a filha como se pedisse desculpas por não estar presente em todos os momentos para defendê-la. Onze anos… Apenas onze anos tinha sua garotinha e já teria que aprender a lidar com as injustiças e as mazelas do racismo. Assim como ela teve anteriormente. — Meu amor, você é linda! – Conseguiu dizer abraçada com a menina que ainda chorava. Seu cabelo é lindo. Você fica linda com tranças e sem tranças. Olha para mim, não deixa ninguém te convencer do contrário. Amanhã mamãe vai no colégio conversar com a direção, tá bom? A avó que observava tudo no cantinho, aproximou-se e abraçou as duas. Ficaram ali, compondo aquele elo de três cordas, entrelaçadas quase como uma trança, até que as lágrimas de Ana Clara cessaram. — Mãe, podemos refazer meu cabelo? – Perguntou a garota, mas já sabia qual seria a resposta. Dentro de algumas horas, novas tranças azuis adornavam a cabeça da criança, que mais uma vez satisfeita, observava e se admirava no espelho. Adormeceu nos braços da avó e, quando acordou para ir à escola no dia seguinte, surpreendeu-se com a mãe usando as mesmas tranças que ela. Os caminhos desenhados em suas cabeças indicavam que a trajetória de Ana Clara teria eventualmente dor e tristeza, mas enquanto pudesse, Rita faria de tudo para minimizar tais sentimentos e guiar sua pequena princesa por um caminho de amor-próprio e empoderamento. Sorriram ao se olhar e desceram a ladeira de mãos dadas, a mulher, a menina e as tranças azuis.

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NÃO SOU EU UMA MULHER? Ananda Sandes

Ora erva, hera, brota frutos como a primavera Arou, plantou, cozinhou, plantou, limpou pocilgas com porcos fora Forma física atravessada pela dor e a fraqueza da mente do homem, [enfim Ninguém se iguala a força, fora da forca, da mulher preta que tem a si E o que falar do açoite? De dia, de tarde, de noite Das crianças que pariu, da pátria que os vendeu Inaudível choro não permitido do útero Pólvora da cristandade que a feriu na contramão: Fé que ampara ao mesmo tempo que desacata! Não sou eu uma mulher? De onde, então, veio o menino Jesus interino Se não pelo útero da transa de Maria consigo Já que Deus não pôde ouvi-la, apesar de onipresente? Ainda assim, não sou eu uma mulher? Até Eva, nada de tola, preferiu a encruzilhada que Deus não criou E criada por Deus, decidiu não ser sua criada Pôs sozinha o mundo de cabeça pra baixo Podendo ela mesma colocá-lo no lugar Mas… não sou eu uma mulher? Obra irmã-prima da natureza Em descuido “humanístico” das verdades incertas É rio, é mar, é terra, que mesmo poluída Se regenera ao ponto de nunca ser só pedra 36


O adjetivo dejeto masculino não autônomo Depende do “eu/meu falo” enquanto ela fala, age, brada Palavra que fica, silêncio transforma em revolta da sina Não sou eu uma mulher? Se há murmúrios, cochichos, vaias com tons de cor É porque está na crença, no rebaixo da carência De quem não tem resistência para sangrar todo mês Sangrar junto ao filho, sem apoio ao lado, hiato comum Sangrar no silêncio que refoga, ferve, grita Pois é uma cobra de avental e agita qualquer circunstância atípica E aí… não sou eu uma mulher? Seja vaca, galinha, objeto indireto do avesso de quem não consegue ser Do óvulo, ovo, leite, diz Lucinda, o homem precisou para crescer É um desacato, ato falho, não nomear sua autoridade Os autoritários até dizem que é Amélia, a mulher de verdade Por isso reitero por inteira e retifico: Não tem teoria que ponha em prática O princípio, meio e fim do mundo Só(mente) a mulher negra é baluarte do que nos serve Tem o poder de realocar o que lhe concerne E para terminar versando o que nunca foi breve Mulher negra resiste, reinventa seu cerne

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O VERSO QUE NÃO COUBE NO POEMA Ananias Serranegra

Pari pelo cu coisas que desenharam fonemas Saiu a rasgar as pregas, inflamar a dor. Não foi correndo implorar gramas de amor Reteve-se, no tempo imediato dos poemas. Remoeu do cólon a caminho do reto Para dali expelir seus espólios fedidos De devaneios que acumulam perdidos A fugir do canal poluído do inseto. Nasciam de mim, palavras em relevo É a costura da pele que agora habito No hálito sinto o gosto amargo, um grito Da garganta que inflama enquanto escrevo. É que o verso saiu daqui, do erro do português Das palavras que atravessam a avenida. Nasce no furo do peito com a bala perdida Gírias que rasgam teus sonetos, freguês. Não cabem nas bermas de asfalto e mapa Nas gramas regradas das sílabas poéticas. É dado às rimas pobres, às falhas métricas. Não vale o sereno louvor do papa Que também Francisco borda toalha Nas sombras frescas dos quintais. 38


E nossos corpos jogados nas catedrais A verter o sangue na cruz da navalha E nos beirais não morre Chico, morre Dandara. Morrem velhos, nas ruas outras tão novas O meu poema são essas dores, essas covas De estrofes livres que não se escreve para Yara E nos palcos águas fenecem ao fino fio Da Canastra. Irati seca as vistas e morre É que poema não tem espermatozoide Pra dele fecundar seus olhos de rio Mas do que vale meu urro, o grito soluço Se no cais declamam poetas de bem? A caneta é navalha a singrar a carne refém. O corpo arrisca, entra na estatística dos cis-temas *** Do que vale os pedidos de socorro, os poemas? *** O que me escapa os lábios são rimas em asmas Enquanto oram pela nossa morte de mãos dadas Despejam escárnio em boca nua nas calçadas E quem velará meu corpo, meus fantasmas? É que vejo a mim mesmo nas macas dos hospitais No vidro 3x4 das caixas de engavetamento Na sepultura, nas flores, no fim do tempo Nas câmaras frias de tortura e gás. Ai! Tem hora que o músculo enrijece E os olhos não choram os calos do dia

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Os sorrisos são rastros de apenas fantasia De alguém que aos poucos fenece. Ai! Os sentimentos ficam como quem adormece É que a luta corta a gente do punho pra cima De peito aberto a rasgar o mundo e sugar como ímã Pai! Não feche os olhos, escuta essa minha prece: Construa-me inteiro de flor, poesia e cal. Que eu prefira os pés descalços nas estradas As crianças que choram herméticas nas calçadas Que eu seja etérea, rascunho e gotas de sal. Que os gritos que me comem na rua Sejam alimentos da minha primavera Que a cada soco seja plantado uma quimera E eu me construa de retalhos em ode a cura. Nossa Senhora das Dandaras, olhai por nós! Que do meu peito floresça apenas alegrias E que estanque as feridas, as sangrias Para que nas noites de lua não estejamos sós. *** E quero ver quando essa voz enfraquecer Quem se lembrará? E quero ver quando o sol amanhecer Quem me responderá? E quero ver quando mais um perecer Quem chorará? As minhas mãos, frias e tolas a escrever As cruzes cerradas sem frases, nomes ou história As velas que se apagam com os ventos da memória. *** 40


A poeira do tempo, as cinzas a acolher Pois há estrofes que cabem nos poemas E há poemas que cabem em nossas almas E há almas que vivem, outras são só excremento Mas mesmo que sangre, farei do meu corpo Meu próprio rebento.

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SONETO AOS URUBUS Ananias Serranegra

Logo quando a noite amanhecia De mim toda aflita em sussurros Segredos escondidos pelos muros Perdi, quem da vida me valia. Roguei prece em coro, Ave-Maria! Dedos que no terço rezam urros Pra ver se lá dentro desses mundos A mãe da vida escute a romaria. Dos corpos que seguem essa via Pretas almas caminham no silêncio No vão dos passos da saudade. Meu grito é choro que geme no cio Sem força para seguir a abasia De quem no peito sente a crueldade Eu-mãe quantas vezes pedi à Trindade -Abençoe, Santo meu, a casa nossa Ali sentada na cadeira no meio da prosa -Proteja meu menino de toda maldade. Mas é curral de preto na porta do céu É curral de gente gemendo no asfalto É pedido de justiça rangendo bem alto É procissão de cor seguindo ao léu. É despedida sentida com gosto de fel É missa rezada sem corpo presente É coroa de flores na cor da lembrança 42


E o mal da partida que bateu na gente Parece carpir sem pressa nos véus Que guarda o retrato da minha criança. E que a paz não bata em minha porta Que não ladre meu nome nas esquinas Que dobre ao me ver suas retinas Pois para ela minh’alma anda morta. Não sou de declamar verdade torta Meu grito é de acender as lamparinas Pra ver se alumia de perto as chacinas Que tem cor nas cores de suas frotas Os camburões sobem em linhas tortas Nesse morro de papel que me alucina Escrevo pelos becos em minhas favelas. Em cada canto fiz prece, ascendi velas Mas a casa grande declarou a minha sina: Verter em lágrimas a dor que me abarrota. Vivo agora sozinha, na aridez da carne fria O sangue tem por costume entupir a veia Minha fé é o mastruz que ainda bombeia Nas raízes do meu corpo o suor que guia. É ventre de preta meu verso quilombo É senda tecida nas mamas das yayás Sou viço fecundo, gene das yabás Virgens feridas marcadas nos ombros. Do tempo, tenho chagas nos lombos Cicatrizes no corpo de quem tanto luta Nos joelhos, remendos costurados à mão

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Enruguecidas que se juntam em oração De dia estalo nas costas, escrava da labuta De noite os tiros nas portas, almas putas. Eu canto o verso que invento E decidi não mais temer loucuras Se a rima é ponto de canduras Versejo só, meu próprio sofrimento. Escrevo meus próprios mandamentos Nos versículos das minhas tessituras Despejo em folhas brancas as agruras Pra ver se do amor me reinvento. Mas não há de ter qualquer lamento Meu poço secou antes da primavera Acostumara-se ser só, só de saudade. Meus olhos não brilham na quimera Esse terreiro de chão é desterro de preto Que nesse quintal de cruz fez seu leito. É carne para urubu esse meu peito É carniça que bate aqui dentro Está nas vitrines o meu sofrimento Mastigam nos botecos com trejeitos Dou a esses meus últimos sonetos Erguido em solos de amarguras O grito é parte do que sei, urdiduras Outra parte recebi vindo dos ventos. É carne para urubu esse meu peito É carniça que bate aqui dentro Não adianta flores ou embalsamento

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Meu odor se espalha na cidade Entupindo as vísceras da hipocrisia Esse canto é meu, é de alforria.

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A PASSARELA Annandra Lís

“Faz o corre, corre!” Sobe e desce ladeira e fortalece as pernas do homem. Correndo da chuva, Mariana pega a passarela, enquanto o homem já não corre mais, permitindo que as gotas grossas de chuva pesem em suas costas. Não se importa. Ele também precisa pegar a passarela e você sabe como ela é perigosa. Até porque Mariana poderia continuar correndo, atravessando o olhar, gritando que atrás dela um homem como ele corria. O homem já não corre mais. O tempo de dois corres pode ser consumido, não se importa. A passarela é perigosa para homens como ele. A passarela também é perigosa para mulheres como Mariana que exibem suas grandes bolsas com livros, cartões de meia passagem e de crédito, dinheiro da mãe e, muito provavelmente, um celular de última geração. A passarela, para ela, apresenta o risco de ficar sem comunicação e sem dinheiro após às dez da noite, a certeza do choro, o transtorno de fazer um Boletim de Ocorrência e esperar na fila do SAC para tirar segunda via dos documentos. A passarela, para ela, não é sinônimo de desfile. É o passo apressado, olhar para os lados e desconfiar de homens como ele. Ele segue taciturno, o peso do mundo nos ombros. Sente alívio por já ter conseguido a grana paro o almoço do dia seguinte, com direito a um refrigerante (latinha de alumínio, claro, para ajudar no corre). A essa hora, a passarela parece um deserto. Mariana segue e, olhando assim de longe, ela parece ter os cabelos tão macios... Ele pensa como gostaria de ter alguém para abraçar quando chegar em casa. Mas a noite para ele, apesar de já alta, ainda está longe de terminar. Mariana sente o peso dos olhos, sente que precisa apressar o passo. A passarela apresenta perigo e um homem como ele pode46


ria imobilizá-la facilmente. Ela pensa em como gostaria de chegar em casa logo, deitar um pouco, encontrar seu namorado e... Pensar nisso talvez não seja o caso! Não agora, a essa hora, e com um homem como ele a fitando numa passarela tão perigosa. O homem pensa em quantas voltas ainda precisará dar para terminar o dia, calcula que por volta de uma e meia da manhã consiga subir a passarela com o último lote. Ele olha para Mariana e imagina a vida que ela leva, o quão macios devem ser sua cama e seus sapatos, imagina a faculdade que frequenta... Realidades tão distintas. O homem sorri, pensa que se continuar trabalhando duro e fazendo um pé-de-meia pode conseguir manter seu filho longe do trabalho pesado. Filho esse que ainda nem tem. Nem filho, nem esposa, nem família. Ele imagina o lar para onde provavelmente Mariana está voltando. Comida, café, abraços. Laços que ele não tem, mas segue com um sorriso esperançoso. Mariana pela centésima quarta vez olha para trás, nota seu sorriso e o homem se culpa por invadir a vida dela, mesmo que por imaginação. Mariana esboça uma careta, procura ao redor qualquer situação que lhe passe segurança, avista dois policiais parados numa viatura na esquina em que a passarela termina. Balbucia qualquer coisa. Ele pressente. Sente medo. Eles sentem medo. A passarela pode ser muito perigosa para ambos.

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MANCHETE

Aryelle Almeida Silva

E lá está mais um na manchete Na sexta página do jornal Sem nome, sem muito detalhes Mas com a ênfase de ser um a menos. Esconde-esconde Pega-pega Vivemos brincando Afinal, mal passamos da fase adulta. Nos escondemos em casa Isso quando temos casa Isso quando esta não é invadida. Mas, às 6 da matina, temos que sair O jogo não permite vacilo, Se faltar, game over! E vai pra fila do desemprego. 7 da noite, fica esperto, Porque quando já tá escuro Ser escuro é suspeito. Sobe a ladeira com pressa Correr não pode Parar na esquina? Nem pensar! Cuidado quando a viatura chegar. 80% de chance dela te revistar, A madame vai segurar a bolsa 48


Quando eu passar. É engraçado, eu dou medo Mas sou eu quem vivo com medo De ser a próxima De ser mais uma na manchete do jornal Sem nome. Com cor. Vão dizer que foi acidente Que minha caneta podia ser uma escopeta (pra rimar) Porque eles já confundiram Um saco de pipoca com uma pistola (e rimou). E mirou. Quem vai ser o próximo? O nome, não sei. Mas a cor, tenho certeza.

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NATALIDADES - JOÃO TODOS NÓS Bruna Lima

Hoje é 24 de dezembro. Amanhã é o dia que o filho de Deus nasceu. Hoje é o dia que antecede o meu. Para que minha vida fosse gerada, minha mãe teve a carne violada por três vezes: a primeira, foi na noite que um vulto cruzou seu caminho, a jogou num matagal e a violentou até seu corpo sangrar; a segunda, quando tentou encerrar o meu ciclo, e a grande piada da vadia de rua estuprada foi, novamente, arremessada no ventilador; a terceira, foi quando nasci numa dessas maternidades públicas onde quem tem algo na vida já é visto como ninguém, minha mãe que nem sobrenome tinha, nem existia. Foram três dias, nove refeições e estávamos na rua outra vez. Ela carregava o fruto de uma violência e eu, que mal sabia do mundo, já chorava de frio. Cresci. De viaduto em viaduto, senti na pele o que era ser preto e ter cheiro de crack nas roupas. “Era a vizinhança!” Gritava enquanto apanhava de cassetete novamente . Dizia isso, pois parecia a versão correta de uma vida digna. Uma vida que eu não tinha. Meus vizinhos eram homens que, vez ou outra, mexiam e olhavam a minha mãe como se fosse mercadoria. Uns traziam dinheiro, outros trocavam prazer por comida e eu, com 10 anos, tinha uma arma e coragem para usá-la. Mas a lâmina que me cortava dia após dia era o olhar de minha mãe. Ela dizia, com fúria, que protegê-la nunca seria o suficiente, pois ela morreu no dia que me viu nascer. Dizia ser o dia em que ela entendeu que tudo o que aconteceu foi real e ela era só um pedaço de carne vagando pela imundície das ruas. Anos depois, vi que minha proteção não foi capaz de livrá-la do abraço reconfortante do fim. Estava roubando algo para que pudéssemos comer, quando ela se envolveu numa briga com a mulher 50


de um cliente. Ironicamente, foi ele mesmo que dividiu as balas de uma arma entre o corpo podre de cada uma delas. Logo após o ato, ele sentou, respirou aliviado e disse estar cansado daqueles gritos. Quando voltei, ainda estava lá: sentado e drogado com a arma na mão, admirando a sua obra sangrenta. Eu tinha 13 anos quando fiz meu revólver cantar primeira vez. De forma certeira, o homem foi ao chão e sorriu sereno antes do seu coração parar de bater. Depois daquela noite, não tive tempo para chorar. O tempo que tive foi para fugir quando o giroflex virava a esquina, para ser temido e procurado em todo lugar. O tempo que tive foi para me transformar no que a sociedade queria: estatística. Um dia, passei em frente a uma escola, e me perguntei se a vida poderia ser diferente para alguém como eu. Eu tinha visão e vontade de ganhar o mundo, mas tudo o que tinha era uma arma com duas balas e uma faca tão amolada quanto meu pensamento. O tempo passou por mim outra vez. Com 16, já tinha duas passagens no juizado e depois de tantas surras, tinha ainda mais sangue nos olhos. Vivi em ruas desconhecidas para o azar não me encontrar outra vez. Sem êxito. Passei correndo numa rua de bacanas, fugindo dos policiais, e vi um movimento estranho nas janelas dos prédios. Havia pessoas batendo em panelas e eu não entendia a razão, mas enquanto batiam nas suas panelas novas e brilhantes, lembrei que eu nunca vi comida num fogão. Pensei em minha mãe. As pernas fraquejaram. Passei mais seis meses em uma jaula que cheirava mal. Cheirava a sangue, estupro e dor. Era quase natal. As ruas brilhavam, o comércio fervia, famílias se abraçavam. Do outro lado, as ruas estavam mais frias, pessoas se amontoavam buscando afeição e as crianças que seguem minha trilha ainda esperam pela resposta do papai Noel. O mundo é grande, mas não foi feito para todos. Somos a margem, fomos feito para o corte. Nem deveríamos estar aqui pois, amontoados feito lixo nas ruas, roubamos o sorriso de quem paga para viver. E a maldade corrói as veias. Não é uma data feliz para quem 51


não tem o que comemorar. Não é uma data feliz para quem nem sabe o que é comemorar. Eu só tinha uma faca afiada e um olhar distante e atento. Uma carteira nunca pareceu importar tanto. Ele era alto, grisalho e saiu de um carro que parecia do futuro. Ele tentou me dar um trocado e eu só tinha uma chance e a abracei. A abracei e corri com o único fio de vida que me restava. Senti alguém vindo logo atrás, mas era só o medo fazendo guarda na esquina. Parei num beco, e com um sorriso viscoso no canto da boca, fiz o meu natal. O problema é que outros visaram meu êxito. Cinco moleques mais novos que eu me cercaram. As luzes do céu desceram sobre mim e eu que nunca tive fé, me fiz cego diante de tanta clareza. Não entendi o que queriam. O sucesso era meu, a vitória era minha e ninguém ia me tirar. Tentei alcançar minha faca, mas um deles foi mais rápido. Num impulso me virei e, olhando em seus olhos, vi o reflexo do menino que precisou ter a mãe violada três vezes para nascer, ter as roupas com cheiro de crack, ter os dedos sujos de pólvora e vingança; precisou sentir o gosto amargo da fome rasgando a garganta, ter sua mente e corpo violentados para que, no fim, fosse morto aos 17 com 7 facadas, vítima do que a sociedade criou: fui morto pelas estatísticas.

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DESENHO DO TEMPO Bruno Machado

Durante a travessia, dormi e tive um sonho. Estava perdido em um deserto, olhando em volta com a esperança de pedir ajuda, caminhei um pouco e encontrei o Deus Tempo. Gentil e receptivo, parecia estar me esperando há muito. Logo após o cumprimento, caminhou com seu bastão e se sentou numa rocha em meio às dunas de areia. Ali, ele iniciou um desenho. Linha após linha, o meu destino foi traçado no solo sagrado do deserto. Enquanto realizava a vagarosa tarefa, aconselhava-me sobre o que viria a seguir. Disse que teríamos que ser fortes, o futuro imediato não nos era promissor, mas que, assim como ele, saberíamos como lidar com tudo e todos. Por meio de suas palhas, não era possível ver seu rosto, apenas sua voz calma e seu gesto amigável. Parecia que a eternidade estava ali, disposta a ele, dada a vagareza do seu trabalho. O pior é que estava mesmo. Sentei-me ao seu lado e tentei observar o desenho. Sem tirar os olhos do chão, ele disse: —Não olhe. Não estrague a surpresa, já estou terminando. Então, levantei e senti uma brisa marinha em meu nariz. Sentei dessa vez em sua frente, com o desenho entre nós. Tentei mirar seu rosto e ele me disse: —Se olhar nos meus olhos verá o eterno do tempo, desde o princípio de tudo. A sua incompreensível grandeza pode lhe fazer mal, por isso não olhe. E pude ouvir um canto de pássaros. Aborrecido e inquieto, lhe perguntei: —Para onde devo olhar, então? Desenha o meu destino de forma tão vagarosa, me diga para onde olhar, o quanto antes eu quero ver o meu desenho! —Não há o que olhar hoje, o agora não será nada bom, mas o amanhã lhe trará a glória perdida. Despertei. Acorrentados, chegamos do outro lado do Atlântico. 53


VERDADEIRAMENTE LIVRE Caléo Meneses Santos

Era uma noite quente, como o habitual em Salvador, apesar de uma fraca chuva cair do lado de fora. Já no final do expediente, o guarda trouxe um jovem negro detido ao recinto da segurança do shopping. Este, apesar de não gostar da situação, não ia de encontro aos os puxões que o guarda fazia. — É sério, Eduardo? Assim você me quebra… logo agora que eu estava de saída – Reclama o chefe da segurança sentado atrás de sua mesa. — Esse rapazinho aqui é diferente, chefia. Ninguém lá no serviço está entendendo a situação do ocorrido. — Não está entendendo? Como assim? Ele foi pego ou não fazendo alguma baderna? — Mais ou menos, chefia. Ele foi encontrado durante a ronda, em uma loja já trancada, lá em baixo. — Então, temos um arrombador! Qual é a dúvida aqui? – Bradou o chefe. — Mas, então… não tinha nenhum sinal de arrombamento na loja, chefia. Muito menos qualquer gravação nas câmeras! – Afirmou o guarda a seu chefe. — O que?! A chuva que podia ser vista da lateral esquerda da mesa começou a engrossar mais ainda, ao mesmo tempo que o vento foi fez esvoaçar algumas folhas de papel pela sala. — Bom, parece que não vou conseguir sair por agora, principalmente com esse toró. Vamos iniciar fazendo esse rapazinho confessar o que roubou – Falou o chefe de segurança fechando totalmente a janela da sua sala e depois apontando para o jovem. — Vamo, pivete, desembucha! O jovem levantou a cabeça, tinha um olhar de peixe morto, e encarando o chefe, disse: 54


— Pra que? Você quer realmente saber se eu fiz algo de errado ou só está curioso em saber como isso tudo aconteceu e vocês não me notaram? Enfurecido, o chefe cerra seu punho partindo em direção ao jovem – Ah, seu desgraçad…“vooshh!”. Soaram os papéis, empurrados pelo forte vento que entrara pela janela aberta da sala. — Mas que porra, Eduardo! Quem mandou você abrir essa janela? — Mas senhor, eu estava aqui do seu lado o tempo todo! E, então, sentado na cadeira do chefe de segurança do Shopping, com um copo de refrigerante na mão aparece, repentinamente, o jovem falando: — Bom, acho que aqui era o último local que da minha lista.– E desapareceu. Foi na manhã de um domingo, em que Diego estava correndo atrasado para sua prova de vestibular. O jovem negro, morador do bairro de Canabrava, estava lutando contra o tempo, pois havia pegado o ônibus errado para chegar na prova que decidiria seu ingresso na faculdade. Mas como ele tinha se esforçado para esse momento! Tudo o que passava pela cabeça daquele rapaz era que o tempo fosse seu amigo e que desacelerasse! E foi o que aconteceu. Momentos antes das entradas serem fechadas, o aluno, antes desesperado, viu o movimento das portas paralisando em sua frente, permitindo sua entrada nos últimos instantes no local da prova. Após sair da prova, o vestibulando menos ansioso não podia deixar de pensar se aquilo foi real ou apenas uma ilusão. Teria o tempo ao seu redor parado de alguma forma? “Não. Com certeza foi só a generosidade do porteiro” ele pensou. Mas e se? O jovem então, em vez de tomar o ônibus direto para casa, preferiu escolher o da rota pela Orla da cidade. Chegando na Barra, Diego observou um restaurante próximo a praia. Um restaurante de frutos do mar chique e que sempre observara. — Será que consigo mais uma vez? – Pensou fechando os olhos. E então, mais uma vez, o ônibus em movimento parou subitamente e o tempo se tornou seu servo. Diego pulou a janela do 55


ônibus, que agora estava congelado. Assim como todas as pessoas e o próprio trânsito. Diego adentrou o restaurante e observou o mar de uma vista que nunca sonhara ver. Provou de alguns pratos dispostos sobre a mesa da cozinha, o gosto de camarões que nunca imaginaria saborear. Diego sabia que, ao contrário do vestibular, independentemente do horário, nunca iriam o deixar entrar naquele restaurante. A regra, apesar de não ser explícita, era de conhecimento geral da sociedade. Seu cabelo crespo, sua roupa amarrotada, o lugar de onde vinha, a falta de poder aquisitivo e a cor negra de sua pele sempre seriam empecilhos para ele. Nunca nem tentou, pois não queria saber qual desculpa esfarrapada dariam para impedir sua entrada. Mas, agora, Diego era verdadeiramente livre! Em nenhum espaço ele teria mais a sensação de estranho no ninho. Foi assim que Diego listou todos os lugares que sabia que sentiria medo de ser discriminado. Em sua lista, uma infinidade de locais nunca antes visitados como lojas de jóias, hotéis de luxo, camarotes de estádios de futebol e até hospitais particulares. Mas, ainda restava um local que o deixava com a pele arrepiada. Durante a adolescência, Diego sempre imaginara o que aconteceria se fosse acusado injustamente de um crime. Já tinha visto diversas cenas de jovens negros sendo arrastados pelo shopping pelos seguranças. O que faziam com eles depois que sumiam aos olhos da população? Independente de confirmar a brutalidade que já suspeitava, Diego continuou, pois com seus poderes sabia que não estaria impotente nessa situação.

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PELE ALVO

Caroline da Conceição Barbosa da Purificação

Um corpo tombou sete da manhã do domingo que você dormiu aqui após tanto medo do que habitava teu peito Depois dos estalos meus olhos que ontem pousaram no nosso amor despontaram aquosos porque o lado em que eu esperava teus braços estava vazio então Meu corpo parou por alguns segundos antes de eu lembrar da tua mão acariciando de leve a aridez dos meus dias e eu corri Lembrei do teu sonho de emoldurar o mundo dos nossos em imagens de resistência para as meninas do futuro se olharem com todo o amor que minhas antecessoras não receberam e eu quis abrir a terra pois 57


Fomos pratas reluzentes caminhamos com nossas raízes honramos todas as cicatrizes para recriar o mundo tão duro com nossa existência e mesmo assim Eu não pude acreditar quando vi teu corpo-casa atirado no solo que nos olhamos pela primeira vez olhamos pela primeira vez tombado como um alvo da guerra infinita que não conseguimos vencer

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FALAMOS DE ESPERANÇA Christian Jesus da Silva

No submundo das palavras que transcendem o crânio A língua lambe as feridas que exalam ódio Destilam o doce veneno em forma de poesia Autodefesa marginal pra destruir a covardia Eu sou leão onde se mata um felino todo dia E os inflamados dardos chovem nesse céu vermelho Pele marcada das batalhas que já batalhei Sabendo que da morte os inimigos não poupei Olho no espelho e vejo a alma refletir cansaço Olho nos olhos e esbravejam pela resistência Olho ao redor e os oprimidos clamam por clemência Olho pro céu esperando sinal de divindade Olha a verdade, é nebulosa como um dia frio Que nem um barco num deserto, não serve pra mim A lama beira o pescoço de quem sobrevive E eis que do fundo do poço brota uma semente É a esperança de um começo, de um novo futuro Ou só pretexto do poeta pra seguir em frente Mudando os rumos da história, espanta o pessimismo E nesses tempos de fascismo, falamos de amor A juventude acredita como uma noiva Aguarda o noivo atrasado que ainda não chegou Subjetivo nos meus versos, sou mal compreendido Quando falo literalmente, mal interpretado Se acaso grito aos quatro ventos, sou repreendido 59


Se me calo subitamente, sou questionado Longe de ser o mais politicamente correto Que o poeta não se renda a herege blasfêmia E no momento oportuno prefira o silêncio Do que interromper o raciocínio de uma fêmea Palavras são sinais Ouvidos são antenas Os pés pisam as flores As flores são poemas Poemas de amores Daqueles de criança Pra superar as dores Falamos de esperança

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MOCIDADE

Diana Bispo Ribeiro da Silva

A mocidade me foi arrancada. Para alguns, esse inevitável rito chega cedo demais. Enquanto para outros, chega um pouco mais tarde. De qualquer jeito, a minha mocidade me foi arrancada. Onde a crença e a esperança são semeadas, quando o peito é solo infértil e de terra dura? Para onde o sol vai quando se põe e o que antes era luz se converte em escuridão? A minha mocidade me foi arrancada, não por falta de avisos, nem muito menos por descuido, mas por ter um coração intenso e crente na veracidade do sentir. A desilusão vem lancinante quando o encontro é fundido. Realmente, não é tão difícil chegar a idade adulta sem amigos e com o coração amargurado. A mocidade me foi arrancada e com esse arrebate, começo a internalizar que independente de qualquer coisa, eu tenho a mim mesma e tenho a eles, e isso de alguma forma me conforta, porque eu tenho tudo o que eu preciso. Ao som de melodias fúnebres, caminho na marcha que vai em direção ao meu próprio velório. E por último, olho o meu reflexo nu e cru, através do espelho de minha mãe, e choro em luto: as lágrimas saem secas e inexistentes. Relutei em aceitar o que a vida tem por lei básica. É que ninguém nunca estará preparado para o assalto do seu ouro, mesmo a coleção de joias lhe sendo vasta. Por fim, levanto, olho-me novamente no espelho da minha mãe e reconheço: a minha mocidade me foi arrancada.

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PERDÃO, SENHOR!

Eliza Maria da Silva Metzker

Perdão, Senhor! É que eles não sabem o que fazem São instintos, são impulsos Circunstâncias adversas, sabe? É que a culpa é sempre da vítima Eles não sabem o que dizem Ela quis, ela procurou Perdão, Senhor! Eu me desculpo por andar na rua à noite Porque sei como isso termina Eu me desculpo pelas roupas que vesti Sem me olhar, apenas saí para cumprir a rotina Por cada passo dado, acompanhado pelo medo Por cada esquina percorrida com receio Perdão, Senhor! Não pude evitar. Não pude, não… podia! E se não for pedir demais eu gostaria de ser capaz de me salvar Ficar frente ao espelho e olhar E repetir, e refletir e assumir que a culpa que eu carrego não é minha Perdão, Senhor! Eu mesma me tirei esse fardo Eles sabem muito bem o que fazem e o que dizem por aí E, pela última vez, eu vou me desculpar Mas é que esse discurso fajuto não vai mais me atingir.

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TRANSBORDAR

Geisla Sanara Silva de Abreu

cê para de entupir a passagem deixa jorrar! teus olhos nem maream o coração em apuros grita há tanto, tanto, tanto… e aguentas aguentas mas transborda vez em quando, que tu é água mas também é fogo escuta: não vira barragem! quem não sabe saudar suas águas não merece entrar nelas. quem não te vê como mundo que incendeia, inunda como vento que leva tudo, como terra fresca que esfria os pés não merece fazer parte dele. quem quer andar por teus labirintos com pés calçados não merece conhecer suas encruzilhadas. quem não tem cuidado com teus remendos, com tua carne marcada, tua memória de naufrágios, teu peito alagado de perdas, teus ouvidos com rastros de ilusões quem não tem paciência com seu tempo quem não respeita sua história e não escuta teus sentires meu bem, não te merece.

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RACISMO E OPRESSÃO Iasmin Santos de Jesus

Senti na pele Pela primeira vez A dor trazida por meus antepassados Todos negros, feridos, machucados Estou assim, só senti Doeu, queimou, ardeu como a pior dor Já sentida por mim Impor-se diante de brancos, ainda em um Brasil escravo Segue sendo difícil, mas de fato, não é impossível! O racismo existe e destrói Mata vidas e mais vidas todos os dias Quantos Josés e quantas Marias? Quantos negros precisam morrer para isso acabar? De quanto sangue derramado precisam para, enfim, acreditar? Somos iguais e queremos respeito Somos negros, não mulambos! Chega! Cansei, quero poder correr na rua e não ser parado Confundido com um bandido apenas por ser preto, magro e alto? O Brasil está perdido Crianças mortas, apenas por carregar uma mochila nas costas Fardas marcadas com uma bala “Bala perdida”, eles falaram

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Como posso acreditar num futuro? Enquanto meu presente está manchado Manchado por pessoas que querem me destruir Apenas por causa da minha cor Pois grito com orgulho: Sou negra! Negra como todos aqueles que vieram antes de mim Vou honrar minha cor Quero ver algum branco me chamando de doutor E com toda certeza Isso é só o começo da minha revolução A minha luta não vai ser em vão Sou preta! Mulher de muito pé no chão Nordestina arretada, negra e não mulata Nenhum branco vai me dizer não!

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NEGRITUDE

Iasmin Santos de Jesus

Sinto até hoje as dores e marcas que minha alma carrega, Feridas que não serão apagadas com palavras, Cicatrizes de luta e sofrimento. Sofrimento do qual hoje reflete na sociedade atual, Preconceitos arcaicos que ganham força com o passar do tempo, Feridas expostas a cada vez que um preto é morto, por apenas ser [PRETO! Chega, queremos ser ouvidos! A senzala agora está se reunindo, Crescendo, Lutando, Estudando, E quebrando a cada dia barreiras impostas pelo governo favorecido [pelos brancos! Infelizmente, no passado, não tínhamos como nos defender, Mulheres foram amordaçadas, Sem nem mesmo saber o que fazer, Tiveram suas roupas arrancadas e almas marcadas, Para saciar a fome do homem branco. Tudo isso mudou! Nos reinventamos, Surgimos e crescemos todos os anos, Não esquecemos do passado, Aprendemos com ele. Nos tornando cada vez mais resistentes E a nossa luta agora ficou iminente. 66


Não temos medo E agora queremos respeito, Pois antes o preto amarrado/chicoteado Agora virou o doutor, Médico, Empresário… Vai ter que nos engolir, Pois a revolução começou E não irá parar por aqui.

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CASO ARQUIVADO Iasmin Santos de Jesus

A manhã no colégio foi cheia. Eu e meu melhor amigo estávamos chegando na nossa quebrada e, como ainda era cedo, decidimos sentar na calçada para bater um papo. Estávamos conversando sobre o jogo do Bahia, torcemos para o mesmo time, até nisso ele é meu parceiro. Do nada, ouvimos um barulho de tiro e não entendemos o que estava acontecendo. Quando olhei para o lado, o Júnior estava caído com a bala na cabeça. — Socorro, alguém me ajuda! O desespero em minha voz fez com que as pessoas que estavam em suas casas saíssem. Ali, naquele momento em que vi meu melhor amigo caído no chão, foi como se algo em mim tivesse morrido. O pai do Júnior estava chegando do trabalho e a primeira coisa que viu foi o corpo do filho estirado no chão. Sem saber o que fazer, tentou acordar o filho de todo jeito, mas já era tarde… não tinha mais vida. Apenas um segundo para mudar tudo, uma bala para acabar com a vida de uma pessoa do bem. O pior de tudo isso é saber que a bala que acertou Júnior podia ser pra mim, poderia ter sido eu no lugar dele e quem deveria nos proteger está nos matando. A bala saiu da arma de um policial, fardado como pessoa de bem, sem saber o mal que causou para uma família inteira. Minha mãe me mandou entrar e eu fiz o que ela pediu. Ainda estava desnorteado com tudo que aconteceu. Parece uma brincadeira do destino, meu amigo morto como se fosse um bandido, é impossível acreditar no que acabei de ver. Só conseguia chorar, tentando colocar pra fora tudo aquilo que estava em meus pensamentos. Chorei como se a bala estivesse presa em mim, gritei tentando por para fora o que estava sentindo, raiva, tanta raiva presa em apenas um grito. 68


A noite passou e eu não consegui dormir. No dia seguinte foi o enterro, fiz questão de ir ao lado do caixão. A mãe e o pai de Júnior estavam desolados, e eu não estava diferente. Enterrei meu amigo e, olha que não somos bandidos… Ele sonhava em ser jogador pra dar uma vida melhor aos pais, queria jogar no Bahia. Eu torceria por ele na primeira fila, pena que tudo isso foi interrompido. O sonho do meu amigo se apagou e na delegacia eles falaram: “mais um caso arquivado”.

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CURA CRISTALINA Ináira Gomes de Oliveira

Tem água que se mistura com um montão de terra, Se espalha e se expande, forma lama, corre pra baixo e vira mangue, Tem caranguejo, aratu, guaiamum e muita vida pulsante, O que sai do mangue é terra, que se molda com água e se torna [cicatrizante. Pode passar no rosto, no corpo e até no cabelo, Pode fazer vaso de flor, filtro e miçanga brilhante. Do barro eu vim e a ele retornarei. Salubá, Nanã! Modupé pelo conhecimento guardado na cabaça, no [fundo desse mangue. Tem água com gosto de sal que lá na pedra bate, Enche a terra com areia e búzios por toda parte. Serve pra limpar, nutrir e amamentar, Nos revigora de energia boa, e os seios ficam a transbordar. Se teu choro é doído, chama pela rainha do mar, Iyá Iemanjá! É ela quem pode te acalmar. Tem água que é suave, doce feito o mel, Dourada e brilhante, espelho da imagem do céu, Até o sol parece criança, ansioso pra brincar na cachoeira, Forma um majestoso arco-íris, com Iyá Ósun colhendo Lírios na beira. Quando o mundo era quentinho e fomos peixes por este momento, O corpo vivia úmido, comendo e dançando junto. Sentindo o mundo de dentro, esperando o dia da luz que abençoa [o nascimento. Tem água que escorre do céu e tem água que escorre da gente, Nada melhor do que a chuva pra aliviar um dia quente, Passarinho toma banho no galho e a horta fica verdinha, 70


Aquela mágoa guardada, é chorar que alivia. Até no vento tem água, boa pra respirar, Enche a folha de orvalho e carrega nota de flor pelo ar. Tem água que sai da terra e também que passa por rocha fria, Água boa é do poço, sai filtrada e pura. Ouço estórias ancestrais, que quem beber dessa água diariamente, Se torna um cristal de cura. Tem água dentro da gente e se balançar cai, se rebolar, mistura. É água que sai limpando e deságua em suor quente, Tem água que saliva o doce e tem água até na mente, É tanta água que vaza, que se espremer, só ficam os ossos aparentes. É tao bom lembrar da água, mas preciso comentar, A de beber não chega para todos E apesar de tanto imposto, baldes carregados com esforço, Carro pipa não desce a ladeira e só chama se pagar. Isso é tão desigual e eles acham que a gente não pensa, Que a água só chega quando chama a imprensa. Não se pode beber do poço ou nascente, A poluição deixa rastros pesados nas águas e no corpo da gente. O fedor do esgoto contamina e a gente nem se lembra, Que ali ainda mora um rio, esperando pelo tratamento adequado, Ser morada da vida e o que lhe é de direito: Limpo, desobstruído e espiritual, voltando a ser um espelho dourado. É de uma maldade tremenda barrar o acesso à praia, Botar construção no meio e catraca na entrada. Riqueza natural, que até para lazer é negada, Tirem nossas praias do contrato, da sua especulação imobiliária.

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FRAGMENTOS LUNARES Ináira Gomes de Oliveira

Hoje, senti que era pintura de uma só cor, da natureza Revirados, todos os sentimentos e as entranhas em turbulência Senti um poder imenso e, também, fraqueza. A lua no céu magnetiza O que dentro de mim goteja E puxa pra fora o que não pode mais ser colheita. Os ventos vieram avisar: você, mulher, é feita de fogo a trepidar E agora vai entender Porque esse sangue que jorra quente, Limpa tudo de dentro e seu corpo vai transformar. A primeira vez não se esquece Toda a família é informada Bota um pano entre as pernas E esconde essa calcinha manchada. Tratam o assunto com muito nojo Dizem que fede e a mulher fica sem amor Deixam a menina isolada, sem entender Porque menstruar causa tanto pavor. A ida ao ginecologista é outro sufoco A menina chega a ficar envergonhada Para falar que do seu corpo Sai algo que te deixa assustada. É verdade que os hormônios deixam tudo bagunçado Mas somos feitas de ciclos e reviravoltas Ter um acolhimento se faz necessário Somos como maré, é a lua quem nos toca. 72


Acolha seu ciclo e aproveite Para nutrir a terra com a sua água morna Fazer crescer medicina Plantando sua natureza feminina. Adulta se torna. A criatividade aflora e a intuição é intensa Libido se apresentando, onde outrora era inocência. Não há pecado em ser mulher Ser portal e nutrir a vida neste planeta Flores que se abrem ao tempo Permitindo que a estrutura genealógica seja refeita. Temos que seguir por onde caminharam nossas ancestrais, Colhendo pelo caminho as folhas sagradas Que vão desintoxicar nossos corpos e curar nossos ventres Vão ser nossas aliadas Companheiras de jornada Nos potenciando mais. A chama foi acesa e estou me derretendo em lava Peço às deusas feiticeiras Para não queimar tudo pela estrada. Mulheres que por aqui lutaram E muito sangraram Permitam que hoje possamos plantar Nosso sangue para regar as sementes Que na terra deixaram. O amor tudo conforta E o cuidado sempre nos foi negado A conversa virou tabu e nosso corpo objetificado. Se está brava é porque sangra, come açúcar que passa Dizem os tolos que não sabem O poder que tem uma mulher-lava. 73


ADEUS AO RACISMO Isaac Dubai

Adeus ao racismo Racismo estrutural Vejo isso quando me chamam de animal. Racismo recreativo Via isso das pessoas que eu chamava de amigo. Mas, hoje em dia, não mostro que sofro Só demonstro o meu descontentamento É tão constante que virou normal Ser humilhado e ofendido virou forma de entretenimento. Mas me diga, se eu tivesse no topo Achariam legal? Ficariam puxando meu saco pra ganhar uma moral? As respostas que recebia eram: Eu só estava brincando, Chamar de macaco louco é normal, É só zoação, mano! Não leva para o pessoal. Mas um dia não aguentei Desabafei e perguntei: Por que isso? Por que comigo? Com um corpo tão escultural, Minha pele sem igual, Uma barba com um brilho fora do normal, E meu cabelo que dá orgulho, Sempre todo natural. O que eu não entendia É que a inveja ali já residia O mal estava nas entrelinhas A perversidade camuflada de brincadeirinha. 74


Eu não entendia Mas comecei a entender! O estudo mostrou que ali tinha um véu, Que pra atravessar só rasgando. Eu passei a ver E logo fui me postulando. Pois ali, naquele momento, já não exista um menino imaturo. Sem esquecer do passado E olhando para o futuro. Agora pra andar ao meu lado e ser chamado de irmão, Tem que ser na disciplina. Não é só cumprimentar quando, por acaso, me ver na rua ou na esquina. É tipo, derramar o sangue igual, se cortar numa louça fina. É provar que entre os dois lados do muro Você nunca estará em cima. Estamos conquistando espaço, E ninguém vai controlar a revolta Desses pretos. A “conexão raiz” que estamos criando É algo que vai além dos ancestrais. Seguindo, alinhando nossas lutas, Formando os quilombos dos dias atuais. Aqui não tem essa de fechar com inimigo Só pra provar que temos valor. Estamos nos reunindo Nós queimamos a casa grande e Açoitamos o feitor. Isso mesmo! Castigamos um irmão de sangue Porque naquele momento ele representava o torturador. Chegando de voadora nos racistas E transformando o império do senhorzinho Em poeira. É a revolta organizada, nego, Deu pra entender a parada? 75


Pode parecer nostalgia, Mas aqui ninguém está pra brincadeira. Conquistaremos batendo e fazendo festa Igual aos tempos dos mestres de capoeira. Os tempos não param! Os pretos não param! É revolta organizada, nego!

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SEMENTE DA RESISTÊNCIA Isaac Dubai

Já me senti fraco só pensando em avareza! Já me senti um diabo entrando na igreja Hoje em dia, trilho meu próprio caminho E se engana quem acha que eu ando sozinho. Eu dou é risada! Porque além da proteção de Deus, Sou protegido pelo rei da encruzilhada. Tô falando dos meus guias, sim Mas não se assuste. Eu sou tão inteligente quanto Cipriano e o Papatunth. Eles sim foram revolucionários e criaram o seu próprio Aurélio. Fizeram protesto contra a igreja bem antes de Martin Lutero. Mas, hoje em dia, não nos querem no livro de história, Tentam ofuscar toda a nossa glória. Se for preciso, serei a resistência contra esses canalhas, Fico de tocaia, camuflado na samambaia. Dou um tiro de flecha bem certeira na cabeça E logo mais estarei servindo porcos na bandeja. Sou do tipo que aposta tudo na minha quebrada, Eles olham o meu visual e acham que não entendo nada. Porém, eu já plantei a semente da resistência. E na verdade, Mesmo que eles consigam me calar, Eu já terei passado minha mensagem.

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OLHOS AZUIS

Isaque Santos Pinheiro

Eu tinha treze anos e eu queria ter olhos azuis Olhos azuis que fizessem alguém enxergar Enxergar em mim os três degraus que eu pudesse subir Olhos azuis que me dessem respeito Olhos azuis que fizessem os meninos, ao menos, me tolerar Olhos azuis que pudessem me fazer ser notado Azuis mares que me fizessem ser amado Olhos azuis que me dessem alegria Azuis esses que apagassem o que sou Olhos azuis que ao menos distraíssem o que era de ruim Mas eu não tenho olhos azuis Eles nunca chegaram Os meus olhos não mudaram Mas eu me fiz enxergar Os meus olhos não mudaram Mas eu sei o que é amar e espero ser amado Os meus olhos não mudaram E não importa mais os que não me toleram Tais olhos de julgamento Os meus olhos não mudaram São negros e eles reforçam o que eu sou Os meus olhos não mudaram

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MEU TURBANTE

Itamiles Santos Nascimento

Arreda-te, que lá vou eu! Uma moça, menina, mulher, divinamente preta. Rainha, princesa, deusa Com meu turbante na cabeça. Cobrindo meu ori, rogando proteção, Fortalecendo a cultura e a tradição, Do meu povo de África. E mesmo estando em diáspora, Sinto minha verdadeira nação. Respeita meu turbante! Ele é belo e exuberante. Mas, não toque sem minha permissão. Meu amor pelo turbante É carregado de muita história. É identidade, resistência e memória. Vem do processo de descolonização, De descoberta e construção de novas concepções. Sobre corpos pretos, traços e belezas nossas. Nada contra quem usa por estar na “moda”, Desde que não seja a moda da apropriação, Que invisibiliza a história e sonega os processos de luta do meu povo. Contudo, é no amor que me renovo, me movo E ganho forças dos ancestrais. Amarro meu turbante e exijo respeito. O turbante é uma riqueza, exalta a beleza e a dádiva da realeza Que tem o povo preto.

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SALVE MÃE ÁFRICA

Itamiles Santos Nascimento

A África está na cor da pele, Na textura dos cabelos, Na espessura dos lábios e formato do nariz, Está na dança, na ginga e no vestir. A África está no toque do atabaque, do berimbau, Do pandeiro, da zabumba, do Olodum Está na capoeira, samba de roda, maculelê, Coco, jongo, frevo, maracatu. A África está em nossos saberes e fazeres, No dendê, no abará, no acaçá, no acarajé, Está no modo de falar, nas crenças e dizeres, Do povo que dança ao som do afoxé. A África está nas águas do mar, dos rios, Dos lagos, da chuva e das cachoeiras, Está na criança, no sorriso, na doçura, Na pureza e nas brincadeiras. Está no senhor e na senhora, Arrancados de Guiné, Senegal, Angola. A África está nos elementos da vida, No segredo das matas, na força do vento, Dos raios e trovões, no pulsar dos nossos corações Na força da natureza. Nos campos de batalhas e combate das injustiças. África é resistência, disso tenha certeza. A África está na cultura e na religião, Está na fé de quem é do axé, Está nos terreiros, espaços sagrados, De Umbanda, Quimbanda, Candomblé. A África está no cultivar da terra e das plantas, Está no Mutumbá, Okolofé, Saravá. 80


Nos festejos, nas vestimentas e no culto ao Orixá. A África está nos saberes dos meus Mais velhos e dos meus mais novos Está no respeito aos valores, crenças, E cultura dos povos.

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BELEZA E REBELDIA

Itamiles Santos Nascimento

Com um sorriso largo, fascinante Um turbante exuberante A preta, menina, mulher, bruxa e de axé Sabe de tudo que é e pode ser. Ela até tem o que temer Mas, tem muita coragem e força Para enfrentar o mundo e seus medos Expondo seu jeito de ser. Mulher preta ousada Inspirada pela luta das irmãs e irmãos Que estão em diversas trincheiras Com a missão de retomar dignidade e direitos Que nos foram arrancados e hoje são negados Pelos “bons e justos cidadãos de respeito”. Mas, a ousadia é um instrumento de resistência Que nos garante a permanência nesse chão E que quebrem as vassouras! As bruxas descobriram suas asas Elas farão a revolução! Que o racismo morra dia após dia Enquanto espalhamos beleza e rebeldia Gritando “fogo nos racistas”! Para todos os lados Que em todos os cantos haja rebelião E tenham pretas, mulheres, meninas, bruxas Reafirmando que “racistas não passarão!”

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SUSPRETA Jaíne Sangon

Eu sou preta! Não me chame de morena! Sou suspeita? Sou suspreta de que mesmo? Em qual crime me envolvi? O de existir e resistir? Da cor do pecado? Que pecado cometi pra ser chamada assim? Sou suspreta de que mesmo? Em qual crime me envolvi? Eu, mulher preta, sou suspeita por ser feita da cor da tinta da caneta Com a qual escrevi Mais que resisti, eu vivi E pro racista engomado (Lê-se: Estado) Viver é um grande pecado Crime inafiançável Declarada: culpada

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A URGÊNCIA DO CONVITE Jaisy Cardoso

Quando a poesia teceu as linhas Entre eu e minhas ancestrais E eu reconheci a minha ingenuidade Em acreditar nas histórias de submissão Tomei nas mãos O controle da minha própria narrativa Feito mãe feroz Que alimenta o filho com o seio sob os seus olhos Para que ele não esqueça que o primeiro alimento Seu [e do mundo] Escorreu de uma mulher de cor. Quando Beyoncé me diz black is king E me convida para amar a minha beleza Eu me recordo da minha avó, penteando meus cabelos em frente [ao espelho Entoando cantigas para Yemanjá. E se posso me ver corpo que enuncia A potência de tantas existências Sob as íris encharcadas de quem plantou para eu colher E se posso ser árvore fecunda e bonita Que só existe neste tempo com a permissão sagrada das outras É porque entendo a urgência do convite Daquela voz que sussurra no meu ouvido Me ordenando: coragem! Me dizendo para não temer ser imensa 84


Que não encaixo numa essência Que me estigmatiza, me reduz Que me tira toda multiplicidade. Eu aceito seu convite, senhora De ser mais do que os olhos enxergam De ser além das dores que carrego De ser maior do que os medos que me impuseram E agora eu sei, minha senhora Que o seu convite é para que eu reine Para que eu brilhe Para que eu viva Cada dia mais certa do que sou Porque sou Ninguém menos Que uma das suas herdeiras E te honro!

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DE SALVADOR James Barreiros

O dia escorre pelas mãos e o crespo Não empoderou a minha coragem Às voltas na cidade, tarde da noite, Não existe representatividade que lhe retire o medo E a pele enruga nas pontas dos dedos, os dentes batem As mães morrem em choro por outro filho morto Filhos desapontam-nos, despertam-nos e no frio não dormimos Estamos sempre alerta com a chuva, a bala perdida Salvador, cidade lograda na boca dos santos, Teu sol, Salvador, me faz falta Teu sol é só teu. Íntimo e peculiar. Tonifica Ajuda os teus, Salvador! Há jovens e velhos em suas ruas com fome e frio Sem casa. Os guie. Faz jus ao teu nome! Salvador não escuta E se escuta não se importa E passam-nos outro dia, outra semana Vemos findar outro mês, ano sem a devida resposta As políticas matam-nos, os políticos torturam-nos E humilhados em subempregos, desesperados Nos atacamos ou esperamos por outro final de semana (o fim da esperança) Ou um novo começo de mês que de nada adianta Por que nos submete a esses caminhos solitários? Esqueceu-se da alegria ou essa só lhe serve nos cartazes e projeções? O mar está zangado dessa natureza e de tanto amargor 86


Já não se ouve mais os pássaros, as árvores se esquecem do verde [e a sede Só se sacia em lágrimas Do barco ao pescador, do sol à aurora Reconecte em si, senhora ganhadeira de dor Porque Salvador só parece gostar dos que vem de fora.

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SOBRE NUTRIR O AMOR Jamile dos Reis Santos

Fique com quem te nutre, Com quem te alimente Com quem faça resgates: De memórias, abraços e beijos. Fique com quem você possa ser frágil, Com quem te demonstre doçura, afeto E uma sinceridade honesta de profundo respeito. Fique com quem tem sorriso-melancia, Olhar-de-manga e traz café na cama Fique com quem carrega em si O perfume das folhas de guiné Ou o aroma dos campos de alfazema. Fique com quem se permite ser diferente, Um tipo diferente de misturas. Fique com quem é tão singelo Que quando se manifesta, ninguém questiona. Fique com seu bem-querer, Com quem te transmite a sensação de proteção Que se faz entender sem nenhuma palavra dizer. Nutrir o amor é um gesto lindo Demonstra ternura É um “eu te cuido” que cura.

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REMEMBER

Jamile dos Reis Santos

A gente não esquece Quando alguém nos marca além da alma Lembro-me de tudo. Lembro-me de quando nos conhecemos, De quando seu sorriso se esbarrou no meu, Quando nossos olhos se cruzaram. Lembro-me das conversas na madrugada, Dos abraços demorados, dos encontros escondidos E dos beijos roubados. Lembro-me do seu adeus Porque você achou que seríamos melhor como amigos. Lembro-me da primeira flor, do primeiro eu te adoro Por medo de dizer eu te amo. Lembro-me do riso, da dor, do amor, da desconfiança. Lembro-me de como incendeia minha alma e aquece o meu coração Como um café recém-passado na chaleira Acariciando a língua numa manhã de domingo. Lembro-me de como tive medo de queimar Lembro-me de como apertava a cabeça na direção do meu peito E declamava poemas e canções No ritmo das batidas do meu coração. Lembro-me de como dançávamos ao som das canções Lembro-me do sol se pondo no seu rosto, De cada respiração desenhada, 89


De cada expressão corporal. Lembro-me de como crescemos iguais a plantas selvagens Subindo em direção ao sol. Lembro-me de como suas mãos percorrem dedilhando o meu corpo E da sua voz falhando nas entrelinhas ao dizer eu te amo No meu ouvido em meio a gemidos. Lembro-me de nós de mãos dadas, Olhos fixos um no outro E a promessa de nunca mais me soltar. Agora juntos envelhecemos Como vinhos na vinícola, como um Bourbon Ou um Pinot Grigio curando para paladares finos Em um mundo acostumado a sabores artificiais. Lembro-me do perfume das folhas de cacau, Do aroma das lavandas formando o nosso lindo jardim de amor. Lembro-me de como somos histórias antigas Agora sendo recontadas Nossas almas estão atadas, emaranhadas.

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DE PRIMEIRA

Jamile Reis dos Santos

Sim. Na minha primeira vez, fui na cara e na coragem. Nos encontramos na esquina e caminhamos em direção ao AP. Queria te conhecer, mas eu mal sabia das tuas reais intenções. Quando chegamos, a casa estava vazia. Nós dois no quarto, um calor de 32°, mas a sensação era de 40°. Toda tímida, com uma louca vontade de te beijar e nenhuma coragem, mas na minha mente, eu já tinha te beijado umas mil vezes. Eis que em alguns minutos de brincadeira, em que você me abanava na tentativa de acalmar o meu calor, você toma a iniciativa. Propositalmente, bate com o abano na minha boca e, como pedido de desculpas, me beija. Eu já estava preparada para qualquer proposta indecente, durante aquele beijo. Nossas bocas fizeram as honras e se apresentaram uma a outra. Sabe aquele beijo que se encaixa perfeitamente? Mas, tão perfeitamente, que as mãos ficam ousadas e começam a percorrer o corpo, delineando a silhueta, acariciando o cabelo, arranhando as costas. Sua mão adentrando minha calça, as roupas sendo arremessadas, você foi entrando sem pedir licença e não tinha como voltar atrás. Necessitava mais do que o teu cheiro e o seu beijo, a minha necessidade se resumia em sentar-me no teu colo e te sentir penetrando em mim. Tinha que acontecer. Precisava te desvendar, te conhecer mais de perto, descobrir o que você escondia. Esse mistério me instigava a ir fundo, talvez isso esteja ligado ao signo touro, sempre curiosa demais. O sexo foi incrível, com muitas carícias, beijos, puxões de cabelo, tapas e muito carinho. Você percorreu todas as minhas intimidades, visitou e espiou todos os cantos. Até os meus cantos mais bagunçados. E a parafernália foi tão boa que a bagunça só aumentou, assim como os sons, e tudo ficou bem mais melado. E a gente transou em todos os móveis, 91


em várias posições, em todos os cantos e quartos, principalmente na varanda e na escada. A tarde chegou lentamente e, junto com ela, o crepúsculo do sol adentrou o quarto, anunciando o fim de uma tarde de sexo e o início de uma noite cheia de compromissos.

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POETIZANDO MINHA PRETITUDE Janiele Damasceno Bispo

Sou mulher, sou negra Tenho orgulho da minha cor Amo meus traços físicos Admiro-os com muito amor. Esses olhos negros brilhantes Parecem um céu estrelado Ainda casam certinho Com esse cabelo cacheado. Minha descendência é bela Minha mãe é uma princesa Minha avó é uma rainha Faço parte da realeza. Porém, nessa sociedade Sofremos anulação social Quando um negro ascende Não é noticiado no jornal. Preta, muitos elogiam teus traços Só pra tentar te agradar Mas é só tu virar as costas E começam a criticar Teus lábios grossos Teu cabelo “duro” Tudo é mais difícil Quando se é “escuro”.

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Mas te lembra, preta Da tua ancestralidade De todas as lutas do teu povo Contra toda iniquidade. Sendo sincera, às vezes cansa Presenciar algumas situações Me faz perder a esperança De que exista mais respeito E ocorra uma mudança. Eu poderia desistir Mas prefiro resistir! Nenhuma luta é em vão Teu preconceito não vai vencer, não! Sigo na luta e enfrento a dor De ser quem sou e da minha cor Tenho muito orgulho de ser assim Pois sou continuidade Daqueles que vieram e lutaram antes de mim.

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PAPO DE NEGO PRA PRETO Jhonata Nascimento Azevedo

O capitalismo é cruel A sobrevivência é importante Ninguém aqui vai pro céu E eu nem sei se isso é mais ou menos importante Que fazer a missão nessa terra Anjos caídos são réus A justiça não perdoa a favela Eu sei que tudo isso é ilusão Real é o amor que próspera O medo tá implantado em nós mesmos Domá-lo é essencial nessa guerra O acaso é o precursor de tudo O tempo é o que determina tudo O problema é que eles monitoram tudo Controlam o tempo, fazem campos minados, disseminam o ódio, [alastram a peste O que é meu tá guardado Escrito tá uns versos aí, convicto deixando um legado E isso é um pouco do mínimo que se pode fazer, penso Logo o máximo é o domínio do cérebro, dispenso, Mas o mato não me faz um bandido Use o cérebro A PM rege o genocídio por aqui O sistema é só o mínimo Um uniforme, um falso poder Ternos e gravatas, coletes, distintivos Nova desordem Nem sempre uma luz nas escuras vai acender E aí, ficar ou correr? Se submeter 95


Até quando Ser escravo de um patrão ou números em presídios? Subsídio… Investir em mais viaturas O governo é suicídio Escarram na nossa cara com pratos na mão Degustando petiscos só nos dão migalhas, levam pro corte e custura Esses insetos não são fictícios E ouvirão não muito tarde A palavra tem sinal de poder Verão crianças nos sinal e vão entender Que nós estamos por elas e não pela Unicef Isso é explorar as sequelas Somos tipo Nelsons, Mariguelas, Malcoms… Mariele Que um porco fere, destrói sonhos, manda a alma pra o além Esquece que ainda há milhares de nós, pretos tem voz Estamos vivos e suas SMGs não atinge meu Bond, James O recado tá sendo dado e a diferença a se fazer é importante Por isso usar a inteligência que né artificial É real umas teoria da conspiração Quem acredita alcança, quem desacredita se passa às vezes Quem trapaça se arrasa Na maioria das vezes Quem paga de doido passa mal Mas muitas vezes até se salva Tem que fazer acontecer Tentar ser melhor a cada dia é o exercício de melhora diária Também me alimento de quilos de poesia Só que num vomito uma palavra Sentimento é abstrato e o que eu to fazendo aqui é mais que concreto. Chega a ser mais real que a vontade de mudar o mundo Com versos líricos de mais um vagabundo Só que correria também Tô bem e quem diria que um dia eu ia ser isso aqui: Poesia, mensageiro, guerreiro, free.

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DESPERTAR João Luas

Não somos resistência Porque não precisamos resistir Saio de casa sem minha mãe se preocupar Ela tem certeza de que eu irei voltar Nessas ruas, guarda-chuvas não se tornam fuzis Não tenho medo do enquadro desses imbecis Não configuro ameaça pra nenhum segurança Carrego apenas beleza na minha pele E em cada uma das minhas tranças Não sinto medo de assistir ao noticiário Meus irmãos não vão mais morrer nas mãos de outro otário Não me acham maluco por falar de equidade Hoje tem vários pretin no caminho da faculdade Tamo fazendo arte, tamo sendo apenas quem a gente é Não precisamos mais ser melhores duas vezes E, ainda assim, receber um ponta pé Quebramos a porta fechada, não aceitamos o seu não O povo preto abdica dessa nova colonização O padrão não é mais branco, nem loiro, nem europeu Cabelo crespo, beleza cacheada Viva a pele retinta, viva o negro de pele clara Restituímos o amor que nos foi negado Nos enxergamos no espelho e vemos que nada nos foi dado Não queremos nossa imagem a semelhança da tua Vivemos sempre na sua sombra e hoje isso não continua Não aceito o seu deus, não vou para o seu céu Nem Jorge Ben Jor quer mais a Ive Brussel Não somos mais apenas potência, somos realização Se aqui existe justiça, Rafael Braga não foi para a prisão Sem essa história de meritocracia 97


Senão, já tínhamos dominado o mundo e, de quebra, feito poesia Mas aqui não é desrespeitada a música que vem da nossa quebrada Elza Soares é rainha e o samba é rei Ouvir aquele álbum do Simonal já é de lei Algum instinto me guia até a praia Mergulho contundente nas águas da baía Naquele instante entendi o que é que acontecia A minha mente viaja e me leva a criar Mundos imaginários, pois aqui já não dá mais pra aguentar Levanto da cama e espreguiço o corpo de mais uma fantasia Saio de casa em luta pra que meu sonho não seja só mais uma utopia

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ALQUIMIA João Luas

Sinto minha pele queimar sob o sol, a água fria do mar está apenas a alguns passos do meu alcance, mas não movimento nenhum músculo do meu corpo. Quente e frio, extremos opostos que insistem em existir, conflituosamente, diante um do outro, como eu e você. Sinto-me como um náufrago, nadando contra as marés que não perdoam navegantes distraídos. A sua imagem não me sai da mente, os traços grossos do seu rosto me atormentam e afogam a paz que dominava o meu corpo inexperiente de suas mãos. Estou à deriva das promessas do seu amor, agarrei-me ao que pude e mais ainda ao que inventei de nós, criei cenários que não existem em nenhum outro lugar que não dentro do meu coração apertado. Quando dei por mim, encontrei-me em um universo inteiramente alternativo, meticulosamente pensado para servir como refúgio de um amor que mais tinha cara e gosto de fruta apodrecida. Houve um momento em que, farto do nosso embate coronário, decidi que me mudaria para esse universo inventado. Inverti noite e dia, apenas me sentia vivo quando, ao dormir, viajava para o nosso universo, ao qual dei o nome de Alquimia. As visitas se tornaram cada vez mais frequentes. Vrá! Lá estava eu mais uma vez. Olho para o céu pintado com o mais bonito dos azuis, como uma delicada tela que levara décadas para ficar pronta. O chão que me deito é um jardim infindável. Possuidor de um vibrante verde, que me afaga os olhos, em contraste com a beleza de todas as flores nascidas nessa terra, regadas pelo genuíno amor que jorra de cada molécula presente nesse universo que criei, para que fôssemos felizes, eu e minha versão de você. O céu mudava gradativamente de cor, do azul para o tom de rosa mais lindo que eu já havia visto, o vento passeia calmo, como um acalanto pelo meu corpo, e o cheiro das rosas se misturando, como se assim fizessem tocar uma sinfonia. Era você quem chega99


va. Estava a te esperar, dizia, puxando-me pela mão e levando-me ao céu como dois deuses a voar, alheios de tudo que não fosse nós dois, tentando provar um ao outro que só amor transbordava de nossos corpos reluzentes. O tempo em Alquimia sempre esteve ao meu favor, se contado de acordo com a convenção social da Terra, posso dizer que anos se passavam em algumas horas. Vivemos todas as vidas que conjecturei viver com você aqui, no mundo de cá. Quando eu acordava aqui, era quando lá eu dormia, e a última lembrança sempre era o seu rosto apaixonado, fitando o meu ao me colocar para dormir. Assim foram todas as minhas idas ao seu encontro em Alquimia, não havia como acordar na melhor parte, pois cada segundo era absolutamente especial e único. Tudo era perfeito. Gotas d’água estão eternamente fadadas a ir em um brusco encontro com a superfície rígida do solo nos dias em que chovem, assim eu caí por terra quando me percebi refém das idealizações da minha mente fértil e desesperada por afeto. Percebi, enfim, que o que me fazia manter você aqui na Terra era aquilo que existia nos meus transes fictícios em Alquimia. Essa versão fantasiosa só existia porque você existe aqui, e mágica nenhuma me permite trocar vocês dois de lugar. O nosso adiado fim já me doeria o suficiente se só houvesse um de você, mas como eu tratei de duplicar sua existência, precisei lidar com outro término no meu universo, o qual foi bem mais fácil, como em um golpe ao trono. Agora quem rege todos os cantos de Alquimia sou eu e apenas eu. Apesar de que eu já não viajo até lá como antes, ainda me dói o corpo, e o seu rosto ainda me atormenta. As cicatrizes no meu coração se fecham com lentidão, o processo de cura de amar alguém nunca termina, ainda que digam que sim, mas agora sei como me curar, isso basta. Amei você como um sol severo beija uma pele desprotegida, ainda arde até os dias de hoje. Sempre que me invade esse ardor involuntário, cambaleio meu corpo frágil em direção ao mar, o frio não me assusta mais, pois agora sou eu que detenho o calor do sol em meu corpo. Entre o céu e o mar eu me encontro, eu me reescrevo, mergulho em mim mesmo e assim eu me salvo. 100


DEZESSETE

Josiane Alves dos Santos

Sobreviver ao caos E enxergar a luz no fim do túnel Todos os dias Às dezessete horas Luz de palavras Emplastadas de sentimento Sobre o pior e o melhor de mim Palavras que me levem de volta ao útero Esconder essas palavras em uma nota Em um pensamento rápido Que ao sinal verde, tenha se perdido Procurar nas esquinas O equilíbrio de ter tantos anos em tão pouca idade Escrever sobre o vão que existe bem no meio de sua barriga Que é minha barriga Correr o risco de ser mal interpretada Por não ser um eu lírico fálico Correr o risco de ser mal interpretada Sobreviver ao caos E utilizar versos rebuscados Construir véus Para me esconder Entre suas pernas 101


Cair na contradição de ter visto o mundo E dissimular primeiras vezes Repousar as palavras Estendê-las para quarar sob o sol E esperar ressabiada As palavras voltarem Os meus filhos voltarem O meu amor voltar Às dezessete horas

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SOU MAIS DESEJO DO QUE GENTE Josiane Alves dos Santos

Procuro você em todos os meus traços Te encontro nas pontas Te puxo pro centro Na necessidade de te ter bem no meio do meu corte Sinto seu cheiro ardente me levantando Vejo que sorrimos pelos mesmos motivos E seguimos em frente com a mesma teimosia Procuro você em minhas pintas Em minha cor desbotada Te caço em meus cabelos crespos E nos meus traços marcados Por vezes, quando sinto que te alcanço Tropeço e te perco de mim E tudo parece uma grande ilusão Mesmo que eu sinta o meu corpo cansado Mesmo que eu sinta que os meus pés já andaram o mundo Mesmo que eu sinta que o meu corpo foi transportado, violentado Mesmo que Mesmo apesar de tudo isso eu te sinto longe E sinto o punho cerrado ora ou outra E me curvo para corpos outros Tenho medo Raiva Fico de pé Grito Me ergo E enfrento - olho no olho Sou mais desejo do que gente 103


LADAINHA PARA IROKO Josiane Alves dos Santos

Tempo, tende piedade de nós Rá, tende piedade de nós Nossos mais velhos, tende piedade de nós Tempo, ouvi-nos Ventos que se arrastam pelo mundo, atendei-nos Tempo, tende piedade de nós Matas escuras que guardam segredos, tende piedade de nós Águas escuras da profundeza dos oceanos, tende piedade de nós Manguezais, que com lama nos cria, tende piedade de nós Tempo, rogai por nós. Tecido que nos costura na extensão da vida, Senhor da razão, Dono de destinos, Dança comigo, Tempo, rogai por nós. Princípio, Infinito, Morada de esperança, Terra vermelha revolucionária, Tempo pindorama, Manto de revolução, Navalha da verdade, Espelho de Oxum, Saco da existência, Tempo, Ligeiro, Árvore gameleira, Conhecedor de tudo que já foi dito, Dono do seu próprio passo, Maroto e sagaz, tende piedade de nós 104


Tempo, que nos tem no mundo, perdoai-nos, senhor. Raiz da humanidade, que fez nascer e florescer todos os povos, [ouvi-nos, senhor. Conhecedor do antes e do depois, que enlaçou-nos na gira do [mundo, tende piedade de nós. Rogai por nós, Tempo.

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A SEMANA É QUASE SANTA Juliana Santos de Santana

Anotações mentais sobre a importância de contar a história do jeito certo. Em qualquer igreja se diz: que diferença faz se Jesus era negro ou branco? Para eles, afinal, o que vale são os seus ensinamentos. Esquecendo de contar com o fato de que a cor do Cristo tem importância fundamental para quem sempre foi massacrado. Para quem sempre foi subestimado e violentado, colocado em papéis infames. Porque é mais fácil fingir que as Pirâmides do Egito estão na Europa, ou foram construídas por alienígenas. Afinal de contas, os negros não devem ser capazes de realizar grandes feitos. E quem diria que a cor de um homem seria determinante? Que não obstante, acredito que diante de tanta inverdade, o cara que é a própria luz e o caminho, seria o responsável por uma mulher preta não ser considerada digna de carinho? Alguém explica para Jesus porque as histórias que aconteceram dentro do solo negro estão sempre pintadas de branco. A Cleópatra da novela brasileira é branca, mesmo tendo nascido e vivido em um lugar que era mais sol que qualquer outra coisa. E o menino Jesus também. O homem passou mais de um mês no deserto e voltou com os cabelos lisos e a pele mais clara que papel. Convenhamos, alguém depois de caminhar no deserto, por mais branco que seja, estaria num tom de vermelho alaranjado que toda mana do biquíni de fita conhece. Não precisa ser um cientista para saber. Aí a gente olha para a história que nos contam. A gente olha para o filme que passa na TV, todo ano, na semana santa. A gente vê aquela peça teatral da paixão de Cristo onde Jesus é branco, de cabelo liso e olhos azuis, e não tem como se perguntar: o que realmente vale? Supondo que Jesus foi um homem negro – sendo ele a repre106


sentação máxima do amor fraternal na sociedade ocidental, quem seria capaz de justificar o racismo? Os nossos morreriam tanto? Homem negro teria todos aqueles adjetivos que você pensou depois de ler a expressão “homem negro”? Se Jesus sempre fosse um cara negro, quem seria capaz de dizer que “homens negros não são capazes de amar?” Afinal, dona sociedade, como você justificaria o estereótipo que beira animalesco? Pois, engole teu racismo. Certos são os rastafáris, que reconheceram na Etiópia um Jesus que tem a nossa cara.

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PRETA? SIM.

Kailane Oliveira do Carmo

Não me sinto representada, Me sinto calada. Calada pelo meu próprio ser Como isso pôde acontecer? Minha cor? Não sei te dizer. Quem eu sou? Não sei te dizer. Preta? Com certeza, não. Ninguém quis me acolher. Muito clara, muito escura, Todos sabem dizer E eu? Como irei saber? Mas… está na hora de decidir. Preta? Sim. Não adianta vir me dizer que é mi mi mi. Preta? Sim. Não é você que escolhe por mim. Preta? Com certeza. Me cansei de toda essa incerteza. Me livrarei dessa maleza De não saber quem sou. Sou preta. Sou guerreira. Sou brasileira.

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COMPARTILHO DA MINHA DOR Karine Alves Matias

Não compartilho da sua dor Assim disse a preta, pobre e perturbada Compartilho da sua dor Dizem aqueles que não sentem, que não passam, que querem ter [voz pra pagar de midiático e bom moço Eu compartilho da minha dor com meus iguais capazes de sentir. E [aos que se foram, escute: Eu sinto a dor. Já que pela falta de amor ou atenção, professores se concentram no [grupo da frente, na linha da frente, branca. Mas de ousada me meto, reivindico meus direitos, e olho pro fundão… Mais uma irmã preta sentada no fundo, enquanto cegos professores [fingem não notar. Depois não venha me dizer que: ah, é falta de interesse, já que o [silenciamento está sempre presente, é sutil e tem cor. Hei, teacher, não se mantenha ausente, fazendo o mais convincente, [fingindo agradar a massa, caiu a coroa A massa é sólida e quanto mais você bate, mais cresce A massa é diversa, e a única coisa que você vê é a superfície da [mistura, não a concentração Esperando o PAAE, não espero o meu pai chegar na reunião, ambos [não vem Por falta de bolsa, penso em rodar a bolsa, mas não. Paro e penso: Preta acadêmica incomoda, né? 109


E Marielle se faz presente dentro de mim Não basta só oferecer espaço, se não há manutenção Ou seria Reparação? Mais um dia vindo, mais um dia vivo, mais um dia resistindo aos [espaços de opressão E essa gente fede, a burguesia fede ao sangue dos meus ancestrais E até hoje não entendem que camburões são resquícios do Navio [Negreiro.

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DOR DIÁRIA

Karine Alves Matias

Uns com muito Outros com nada Vejo a miséria no caminho do trabalho Desde que boto os pés pra fora de casa O corredor de gente só cresce Sem emprego, sem comida, sem casa A taxa de moradores em situação de rua só aumenta E o governo não tá nem aí pra nada Nem a gente, se naturalizar essa questão recorrente Não ver humano no irmão que está bem em frente à gente Às vezes, pedindo esmola, comida ou até um lençol quente E parte o coração não saber o que fazer Não podemos salvar o mundo Mas não devemos pensar que essa desgraça é natural e é assim que tem que ser Frutos do sistema fodido Matam nossos entes E os que vivem são escravos do capitalismo Batalhando de segunda a sábado Às vezes, de domingo a domingo E o que nós temos com isso? O diálogo paz e amor não funciona mais comigo Se saio do trabalho e vejo uma senhora comendo lixo E ela tem cor A mesma dos nossos ancestrais arrancados de casa e pra cá trazidos E vocês querem justificar que são as drogas que causam isso Só se for a droga do povo branco Que talvez com esse trecho se sinta ofendido E o que vamos fazer pra mudar isso? Passar mais uma vez na calçada, no comércio, no Pelourinho, com 111


os olhos vendados, ou pior, não vendo humanos, mas sim, bichos? Muitos com muito Poucos com nada Sigo assistindo crianças pedindo apenas paz, comida e água pra dentro de casa.

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EM CADA ESQUINA Letícia Menezes

Vou te contar um segredo Mas não é mais novidade Tem mulher, preta, LGBT Morrendo em cada canto das cidades Vou te falar, é muito difícil Difícil ser forte Quando lembro que não tenho expectativa de vida Só tenho expectativa de morte Pode parecer exagero Ou coisa parecida Mas, me diga, quando você sentir medo De ir em qualquer esquina Todo dia é uma violência diferente Às vezes parece até Que eu nem sou gente Já tá na hora de parar com essas atrocidades Cotidianamente, Vocês atingem minhas subjetividades Mas se quiserem me calar Começou pelo lado errado Minha voz se somam a milhões de ancestrais De punhos cerrados

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DESPRIVILÉGIO Lizandra Fernandes

Eu vou fazer de um jeito diferente Eu tô cansada de abaixar dedo pra essa gente Eu vou le-van-tar Cada dedo de pé vai te denunciar Levanto um dedo pra você Que se levanta quando eu chego Levanto dois pra você Que muda de calçada ao me avistar Levanto três para cada nome Que meu cabelo foi apelidado O mesmo dedo fica de pé Para cada traço do meu rosto desdenhado. O quarto e o quinto, Vão pro lojista que não me atendeu E pro segurança que me seguiu a loja inteira Sem perguntar O sexto, vai pro homem Que não revelava seu amor por mim. O sétimo, vai pra porta do banco Que faz questão de travar Até as coisas sabem de que cor eu sou O oitavo, vai pra quem não me deixa completar a frase E me ignora 114


O nono, vai para o meu salário Que nunca é igual ao teu no mesmo cargo O décimo vai pra você Que vê besteira no que listei Tem dedo que vai para quem acha Que só sirvo pra limpar chão Que dedo? Acabaram-se E eu não vou abaixar Eu não vou, não vou As mãos completaram O racismo continua A desigualdade permanece E as minhas queixas? Crescem! Dedos para cima É mãos para o alto E eu lembrei E abaixei Abaixei as mãos, silenciei meus dedos Porque preto de mão pra cima É rendido É bandido E armado em mim Só meu cabelo, em resistência. Preto luta até sem guarda Estou aqui para existir Estamos aqui para resistir De dedos em pé Resistiremos Existiremos EXISTIMOS Estamos vivos. 115


ROTAS DA RESISTÊNCIA Marcos dos Santos Souza

Seguindo os passos de Mandela Traçamos as rotas da resistência Sonhando com as luzes da favela Conectadas para manter nossa existência A luta pela abolição continua Ninguém poderá nos paralisar O grito de liberdade se ouve na rua Todo o preconceito vamos derrubar A consciência é nossa fortaleza Nossas mãos unidas revelam o amanhã As vozes que ecoam reescrevem o futuro Em que o caráter irá sobrepor a cor da pele

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CARTA A UM IRMÃO

Marcos Vinícius Batista Barbosa

Me desperto A luz já invade o quarto e meus olhos Mas o que primeiro sinto é teu abraço em sono Estás aqui! Ou será que sempre esteves? Talvez, mesmo, estivesses destinado a estar Já não sei ao certo, só me importa que estás. Apertam-se Teus braços ou nossos laços? Não. Ambos Se estreitam, me puxam para perto de ti Não que eu já tenha resistido De alguma forma, me passas segurança de lago Águas claras e tranquilas Já mornas, ao caminhar do Sol Gentilmente tocando minha pele Adentrando meus poros Lavando minha alma Talvez já tenhas entendido Talvez, como disseste, sejamos mesmo irmãos Já que vejo em ti casa De certo, a que senti se delineando a primeira vez que te vi E que hoje posso ver claramente Em verdade, me é palpável Talvez sejam meus olhos Mas, no brilho dos teus, eu vejo fogo 117


Ouço seu crepitar Ora consumindo tuas entranhas Ora iluminando teus arredores E, acho, que me deixei incendiar Não tive medo de sentir Sentir contigo, por ti, ou mesmo, só sentir Que a chuva que te cai agora não apague esse fogo Mas regule a temperatura do teu queimar Que as cinzas do encontro de tuas brasas Com as gotas que te escorrem Fertilizem teu solo E preencham onde o fogo deixou marcas Que tua semente germine e frutifique Pois nela vejo o potencial de mil baobás E, que possas se ver como te vejo Ou, melhor que isso, como tu és

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AMOR E AUTOCUIDADO Marcus Vinícius de Jesus Reis

Vim decidido a não me utilizar de regras normativas para escrever este texto. Me sinto livre para falar, e como falo de mim mesmo, acho justo que o texto se adapte à minha maneira confortável de fazê-lo. Penso sobre mim a partir de um novo eu, que se valoriza, se admira, se ama. Partindo de uma ideia de si que foi criada pelos seus semelhantes e ancestrais. Me liberto também da obrigatoriedade de utilizar de conhecimentos teóricos (mas talvez use) para contar este pedaço de reconstrução. ADORAR-SE É COMPLEXO. Olhar a imagem mais pura de si no reflexo do espelho, o seu eu mais verdadeiro, e ainda mais, o eu que não lhe é apresentado através da imagem, aquele que te faz orgulhar-se, admirar-se, sentir alívio e felicidade. Agradecer por pertencer àquele corpo, naquele momento, naquele lugar, não é tarefa fácil. Somos atravessados de violências, desde o século XVII (quando se tem registro dos primeiros conflitos de caráter racial). E entendendo o significado da ancestralidade e da espiritualidade, sabemos que tais violências flutuam gerações e se acumulam a partir do primeiro contato do indivíduo com o meio societário. Imaginemos quebrar completamente uma cultura odiosa, amar-se novamente, reaprender a existir. Se tornar sujeito é transcendental, não é possível descrever. Posso dizer que há um perigo narcísico. Para quem nunca experimentou o amor, todo amor não basta. O autoamor não enche, é tudo por si e para si. Porque nunca fomos, nunca tivemos, agora queremos e sabemos o que seremos. Não me curvo à figura do Narciso, me compreendo, me amo e me respeito, e por isso respeito o outro, um respeito que considera a minha existência tão importante quanto a de todo ser vivo, porém, talvez mais útil. 119


O ódio a nossa imagem nunca foi nosso, não considero que talvez um dia odiei a mim mesmo, mas digo isso porquê nunca me enxerguei. Essa repulsa não me apareceu proveniente de uma reflexão, ou como parte de um uma ação racional, pelo contrário, ela só se fez possível por conta da minha falta de discernimento para entender aquilo que me envolvia. ODIAR A IMAGEM QUE CRIARAM DE SI É COMPLEXO. A aversão ao reflexo repulsivo do espelho, odiosas são as características que possuo, o eu que vejo além de mim é tímido e inseguro, não questiona, pois sabe que não faz parte da sua condição de pessoa preta. Possuo uma consciência coletiva que me determina esse lugar, antes mesmo que eu possa saber que o ocupo. Como dialogar com um igual, semelhantemente odioso como eu? É necessário mostrar para o meu igual que não sou igual, ocupo uma posição superior dentro dessa pirâmide hierárquica racista. Não consigo dizer ao branco que posso ser bom, mas entendo suficientemente o preto para dizê-lo o quanto ele é ruim. Como superar isso? Em qual momento é possível dizer que estás livre do ódio a uma imagem que não é sua? Não se pode afirmar, mas ao enxergar-se partindo de si, para ver a si, entendo que limite algum haverá para que se tornes sujeito, pois quando notar que estas se tornando, é porque já és.

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COTIDIANO

Mariana Brandão Gonçalves Pereira

Eu tô cheia de ódio! E como não? Meu cabelo é ignição Minha pele é ignição Meu corpo é ignição Eu vou topando com pessoas, Mundos, gestos E todos me dizem NÃO! Eu tô cheia de ódio! Tentam nos boicotar Tiram meu caderno Minha história Minha fé Querem me silenciar Mas como calar voz trêmula Cansada! Matam meu corpo Esfolam minha alma Como se existir fosse nada Tô é cansada Parece que não tenho direito algum Vivo na casa sem telha Entre gente sem teto Sem dinheiro nenhum Que mal dá pra comer Que mal dá pra alimentar meus filhos 121


Que mal dá pra pagar os remédios Mas dá lá no posto! Aquele num vou! Atendente me olha torto! Então arranja um trabalho Onde? Pra me transformar Novamente em escravizada Tô é cansada! Tô cheia de ódio De fome (de justiça) De sede (de justiça) De qualquer coisa que seja mais que migalha Pior! O resto de nada E ainda vem vocês Contar a nossa história E expor em quadros nossa dor Como se fosse sua vitória! Como se fosse compadecido do nosso sangue chicoteado Contar nossa história com olhar esganiçado Nos tiram os livros Pra roubar novamente nosso bem-dizer Às vezes penso seria melhor não viver Que lidar com tanta angústia e afins Onde eu, que vivo Sou calada, forçada E os claros Que nos chicoteavam Representam nossa trajetória

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Com cordas e troncos Sem cores, sem novos pontos Só eu posso dizer sobre o que sinto Sobreviver ou sofrer! Eu não sou só dor Mas só querem me desenhar assim! Eu sou música, fé, cores, proteção, ancestralidade, conhecimento, origem! Me deram o papel de margem Eu sou mais que isso Eu tenho direito de ser.

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NEGUINHA

Mariane Oliveira

Ginga esse sorriso, neguinha E veste tua roupa de flor Ajeita esse teu black E sai pelo mundo a cantar Pois o mundo amanheceu todinho seu Já não precisa temer, se esconder Esses padrões não mais te limitam Rompe, neguinha Todo racismo, machismo e homofobia Vai ser sua! Como quiser e de quem quiser Solta do peito teu canto E faz as pazes com o espelho Enfrenta todos que quiserem te parar Teu quadril não é brinquedo Só ginga se quiser gingar Dança tua dança com furor E a tua luta, luta com amor Pois o mundo é seu Já não precisa temer, se esconder Os padrões você já rompeu Cerra teu punho, neguinha E te reveste de flor Que os orixás te protejam Pois nada vai te parar Pois o mundo amanheceu todinho seu Já não precisa temer, se esconder Esses padrões nunca mais vão te limitar

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DICOTOMIA Lira Queiroz

Poesia de 2017, autoral, sobre juventude preta, sobre vida, sobre arte, sobre poesia, sobre vivência. O que me salva da violência do cotidiano Da agressão que se alastra por debaixo do pano Da pressão que sufoca ano a ano É o apoio de um povo que não silencia seu canto É a coragem de um povo que não se entrega ao pranto Porque a cada truculência numa ação policial Há uma jovem negra se formando no colegial Porque enquanto o cabelo liso é normativo Existe luta para deixar o black livre e vivo Enquanto o padrão é enquadrar-se em traços finos É resistência amar negras e negros retintos Enquanto nos empurram embranquecimento e higienização Há mulheres negras que se amam exatamente por quebrar o padrão Enquanto nos resumem apenas a sexualização Homens negros gradualmente rompem com a estigmatização Eles são muito mais do que os seus corpos são Enquanto defendem um político meritocrático e armamentista Jovens negros e negras se orgulham por ser cotistas Se instrumentalizam, combatem discursos racistas Trazem cor a universidade, contrárias a lógica higienista Mesmo com as tentativas de retrocesso golpista Lutamos por reparação do genocídio escravista Enquanto subestimam o poder do empoderamento Jovens negros se fortalecem a partir do tombamento Enquanto fascistas saem na impunidade Saraus de poesia negra se espalham por toda a cidade Assim eu vivo e sobrevivo, nessa dicotomia Porque onde há repressão, há resistência e há poesia 125


ÁFRICA CONTINENTE

Michel Luís Tavares de Carvalho

Em si habitam vários países, digo histórias Dilaceradas pelo Ocidente Plantaram o mal, infelizmente Atualmente, a atualidade mente Viajar no passado para entender o presente Povo combatente, lutador e sobrevivente Para muitos só existe pobreza, infelizmente Digo falta de conhecimento Digo consequências dos aproveitadores que te exploraram Saquearam, traficaram e mataram Não se comparam com animais E nem são gente Diversidades étnicas, culturais, religiosas e sociais Tão rica em sua riqueza, o berço da humanidade Predomina a relação com os ancestrais Mantendo a sua cumplicidade Falo do meu povo Da minha origem Da minha africanidade Falo da Mãe África, meu berço, minha humanidade.

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CAMINHO DE FLORES

Myriam Jesus Santana Costa Santos

Traço o caminho, a cada passo vejo flores brotando, e algo me dizendo que estou no [caminho certo. Tudo se encaixa, sorrio, fecho os olhos e sigo. De olhos fechados sigo. No caminho várias distrações, e aos poucos vão caindo as minhas [convicções. Já não caminho com um passo após o outro, não sei se inspiro, [respiro, eu respiro e inspiro. Tropecei mas não caí, esqueci como respirar, mas ainda sim eu [segui e consegui chegar até aqui. O caminho vai ficando confuso, algo vem pedindo para meus olhos [abrir, e mesmo seguindo em frente, eu já não consigo mais sorrir. Abro os olhos, observo e paro para refletir, como foi que eu cheguei [até aqui? Olho para trás e vejo no caminho pedacinhos de tudo que aprendi, caminhar pelas flores é tão bom, que apenas fechei os olhos e [esqueci, segui!, Ergo tudo que tenho até aqui, peço licença para seguir o caminho e sabedoria ao meu Orí. Eu sei o caminho que devo seguir, daqui eu consigo ver, é por ali que eu tenho que ir, demora um pouquinho mas eu volto a sorrir, até fechar os olhos. Primavera de 2020

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EU RESISTO! Nara Neylaine

Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que no navio negreiro dormiu amontoado Por cada preto que chorou quando seu irmão morreu do seu lado Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que morreu no açoite Ou fugiu da senzala no meio da noite Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que não se calou Que não negou suas origens só porque o branco mandou Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto banhado em lágrimas enquanto apanhava Que chorou nostálgico de sua vida na África Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que viu sua família ser destroçada na sua frente Que cometeu suicídio só pra não voltar a não ser gente Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que pediu pro seu orixá Enquanto o branco pensava que era pro santo Que não se converteu à religião imposta pelo branco Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que lutou capoeira Enquanto o branco pensava que era só brincadeira Eu resisto! Eu resistirei Por cada preto que no quilombo viva Mantendo a esperança de que a liberdade fosse chegar um dia Eu resisto! Eu resistirei! Por cada preto que morreu Por cada preto que chorou Por cada preto que fugiu Por cada preto que lutou 128


Resisto por Aqualtune Por Carolina de Jesus Por Zumbi dos Palmares Por Dandara Eu resisto pela Mãe África Eu resisto Por meus ancestrais que também resistiram Por meus filhos, que ainda nem nasceram Eu resisto E seguirei resistindo Pela nossa história E para que ela continue existindo “A casa grande não me ilude: Conheço bem o meu lugar de quilombola”1.

1 SILVA, Cidinha da. Canções de amor e dengo. São Paulo: Me Parió Revolução, 2016. 129


REPRESENTATIVIDADE Paulo Mendes

Eu Quero Negros Na Política Eu Quero Negros Na Medicina Eu Quero Negros Na Literatura Eu Quero Negros Buscando Seus Direitos Eu Quero Negros Lutando Por Igualdade Eu Quero Negros Em Todos Os Espaços Em Todos Os Espaços! Eu Quero Me Sentir Representado Eu Quero Conhecer Quero Aprender Quero Ver Um Negro No Poder. Quero Que Todos Nós Possamos Estudar Quero Ver o Meu Próximo Conseguindo Ter Um Lar. Não Quero Ver Mais Meu Povo Sofrer Não Quero Ver Mais Um Dos Meus Morrer Não Quero Ter Que Perguntar Se Amanhã ou Depois Serei Eu No Lugar. Me Chamo Aqualtune, Zumbi e Dandara Líderes e Guerreiros Que Lutaram Por Seus Direitos. Maria Firmina, Mulher Preta Que Me Inspira. Luiz Gama, Escritor e Ativista Buscou Nossos Direitos e Nus Mostrou Respeito. Carolina de Jesus, Presente! Mostrou Força Nas Palavras e Como é Duro Ser Preta e Favelada. Jéssica Paranaguá, Mulher Preta Independente, Historiadora Que Pensa Muito a Frente. Citei Poucos Dos Muitos Negros Que Buscaram Seus Direitos. 130


Estamos Em Todo Lugar Basta Olhar. Busque a Cultura Negra Viva a Todo Dia e Saberá o Que é Empatia. Estamos Na História Estamos Nos Livros Estamos Na Música Estamos Vivos! Se Você Não Reconheceu Esses Nomes Tenho Que Dizer Falta Algo Em Você Algo Que Jamais Irá Esquecer.

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ANCESTRALIDADE Rayara Stephany

Eu vim de lá pequenininha, mas nunca me senti sozinha Por mais que o mundo quisesse me fazer pensar ao contrário Eu sabia que cada passo meu, pelos meus ancestrais eram guiados Depois do entendimento de todo sagrado existente Comecei a insistir, resistir e lutar pela memória do meu povo Que mesmo a quinhentos anos na base do sufoco, soco, chibata Nunca fugiu da raia, e me ensinou a matar um leão por dia Para que quando não houver justiça (quase sempre) Que eu levante a cabeça e continue a lutar, perseverar Para honrar o meu patuá, tenho Ciata e Nastácia para me inspirar Kimani, Tawane, Rafa Nunes, Rafa Braga Carrego comigo a sabedoria dos mais velhos E vou lutar lado a lado com meus irmãos de agora Vocês estão cansados de poesia preta? Se preparem, agora que acordei minha arma está carregada de [PALAVRAS Para descarregar em qualquer racista, que ousar cometer injustiças [contra os nossos. Wakanda está aqui, wakanda está presente Para que Jeniffers, Cauãs e Ágatas nunca mais estejam ausentes Marielle, presente!

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LUTO PELA LIBERDADE Raíssa Nizah

Desculpa, mas tá doendo É que tem muita gente como eu, morrendo É que tem muita gente como eu, sofrendo, com medo, temendo! Aliás, desculpa não! Aqui, é lei do cão! Cês não pediram desculpas por passar com tanto ódio Nem pediram licença pra dizimar os meus, bem debaixo dos meus [olhos Cês não pediram permissão pra destratar a minha crença Mas toda vez que chego em casa, olho pra Mãe, toco no chão, peço [Agô e bença Isso é RESPEITO, a tido que me rege. Respeito é palavra que vocês [nem conhecem! E vai achando que esse discurso de fé me desce Quem tem fé de verdade, não odeia quem com você não se parece. Esse discurso de ódio me deixa com medo Todo dia o mesmo enredo Desejando o meu fim, aproveitando do meu desespero Com os privilégios que você tem Quem de nós cê acha que morre primeiro? É certo que os meus já morrem Rondesp, peto, gêmeos, boleto, fundamentalista, homofóbico. Eu chamo de GE-NO-CÍ-DIO E ainda querem armar “o povo” Para “se defender” permitem homicídio 133


É que a lei só funciona pra quem tem pele clara Armani, Channel, Vuitton, coisa cara Pra gente de pele escura, cabelo crespo, só resta bala É que às vezes saco de pipoca parece com arma E o tiro se endereça pra preto que é sempre suspeito Imagina se o filhinho de papai tem uma arma? Atira no preto, legítima defesa, sai ileso Imagina essa arma na mão de um homofóbico? Mata travesti e justifica seu crime com ódio A morte dos meus é reflexo da falta de amor dos seus Mas com a força de Xangô, há de haver justiça: KAÔ! E eu não vou parar Porque a minha raça não tem dom pra se conformar A gente passou 400 anos lutando contra vocês Não vão ser 4 de um sonho burguês que vão nos deixar no chão Experimenta tentar nos falar Pra quem de pé, sua cultura deixou, mesmo depois da escravidão, é [pouco o que vem de lá! Experimenta tirar de nós os direitos que suamos pra conquistar! A luta não acabou E nós não vamos parar!

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LENDO CAROLINA MARIA DE JESUS Rebeca Oliveira

Ao iluminar da Lua Que transpassava a janela do meu quarto Mergulhei nas escritas de uma mulher preta O grito, o choro, a coragem, a revolta e a esperança Ecoavam em suas palavras No íntimo de sua escrita Senti as dores que transpassavam cada linha E os conhecimentos que abrilhantava Enxerguei as tristes marcas que as mulheres que me cercam tentam [esconder Senti que meu existir é resistir Que desde o nascer cada dia teria que lutar para não morrer Que a infância nem sempre é carregada de sorrisos ou brincadeiras Mas de mãos inchadas e pés descalços que labutam todos os dias [para ter o que comer Às vezes nem conseguem estudar porque precisam trabalhar A felicidade acaba se resumindo em ter apenas um teto para morar Comida para se alimentar e um vestir Aprendi que ser mulher preta é mais que resistência É sobreviver Sobreviver à fome Na margem de uma sociedade racista e machista Na miséria, na doença e até na morte É encarar muitos medos e dificuldades É lidar com a solidão e invisibilidade E mesmo cansadas nos deparamos com pessoas que só jogam mais [pesos sobre nossas costas Ainda assim conseguimos transformar nossas memórias em [energia para se erguer Renascer e ser 135


Nunca deixando de sonhar e desejar o bem viver E realizar o nosso querer Carregando a fé naquelas que vieram antes de nós Que até aqui nos ensinaram A não calar nossa voz e se armar de conhecimentos para nos fortalecer Quebrando as correntes dos opressores que tentam nos prender

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FORÇA E BELEZA DA MULHER PRETA Rebeca Oliveira

Sou arte da cabeça aos pés A beleza me pertence Não tem quem possa dizer o contrário Padrão nenhum me preenche Sou minha e igual a mim ninguém Com meu cabelo crespo Que muitos olhares revelam um preconceito Mas é a minha raiz! E não tô nem aí para o que diz É herança dos meus ancestrais Assim como cada traço que levo Os meus olhos cor de jabuticaba como o luar Os lábios grossos e o nariz largo São meus e consegui me aceitar É parte da minha beleza, mas também da minha história e força Que carrego em cada detalhe do meu corpo E não aceito que tentem me inferiorizar Existe uma beleza particular em cada mulher preta Ela vive e luta para ser feliz como deseja Quer ver sua voz ecoando em todo canto do planeta Para afirmar que preta é foda onde quer que esteja Que apesar das guerras travadas nesta sociedade hostil Vencemos muitas delas E mostramos que seu conceito e padrão não nos consumiu

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MEU CORPO FORJADO Samara Almeida Lima Santos

Eu sou forjada dos fragmentos chicoteados na história; Eu sou forjada da planta sangrada plantada e das mãos ancestrais de quem lhe plantou; Eu sou a terra que o ocidente sugou. Sou o resultado dos progressos em nome do sangue e da exploração; Eu sou o produto que o produtivismo descartou, e que Descartes [referenciou. “O fruto podre”. Humana digna de humanidade. Meu banho é de erva e minha carne é selada pelo corpo vivo de Xangô. Mas aos seus olhos de senhor ocidental, eu sou o gene primitivo e a barbárie, a degenerada; A estirpe ainda suja que a ciência moderna nomeou. Você não consegue me enxergar como quem tem vida Porque sua visão é insuficiente e não contempla a imensidão de [vivências Que se (re)territorializaram em diáspora. Eu sou o espírito incorporado do meu povo; Eu sou terra em transe; O saber errante, complexo e desviante Ilegítima até no nome. Eu sou o retrato falado, mal visto e encarcerado; Eu sou vida morta, o corpo no chão. A matéria violentada. Eu sou os textos que ainda não sangram; Eu sou a hashtag #vidasnegrasimportam. Mas também sou o espírito e intelecto se aquilombando; Retomando o que sou e me ressignificando. Tentando. Fazendo dos corres sinônimo de potencialidade para nos manter [vivas. 138


Na disposição em transformar o que leio em linguagem e a [linguagem em ação Nutrida de reflexão. Eu sou a raiz criando asas. Eu vim plantar sementes. E meus frutos também irão frutificar. A nossa cor veio para nos curar.

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PRETA DEMAIS Sued Nunes

ninguém vai entender quando pedirem silêncio e eu continuar falando é que hoje eu sei quem comeu minha língua e antes fosse o gato! a geografia do silêncio a matemática de se dividir aos pedaços a previsão que sempre apontou pro meu olho chover conheço! ciências que me viram animal e eu me vi canibal ao engolir o que mais tinha vida minha voz contas que nem foram pagas já que nem foram calculadas não acredito num total mais certeiro que seus cortes não vou me convencer de que não fere mais mas que posso ferir mais olhar de cima machuca. fiz minhas economias e gastei o tempo de limpar o chão limpando o tempo pra estar limpo pra mim não vai chover! e eu não vou desabar 140


mesmo tendo construído minha (c)asa em um lugar não apropriado: solo genocida tudo que se colhe tem os juros parcelas não quitam o custo minhas dores estão parceladas de tudo que perdi não me devolvo o silêncio mas quando eu falar quero todo mundo de boca calada o tom de voz mais alto as mãos que mais fazem me viro em cem e os outros quinhentos (anos) a memória não esquece vocês tatuaram! mas também não vão me esquecer porque minha boca é ameaça já que sou tudo que vocês nunca disseram: a fonte.

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CHACINA Sued Nunes

todo dia eu ouço fogos já que o artifício é matar preto pra fazer a limpa mas a rua continua suja e dessa vez a caçamba não vai limpar o lixo porque alguém chorou e limpou o sangue mas ninguém varreu a dor da gente porque o pó é branco mas quem volta ao pó tem a mesma cor da criança que quer encher a mão de doce e cata as bala no chão os quemado não ta na boca subiram queimando primeiro espremeram a favela a rua encheu mais rápido que o balde de água mesmo assim ta todo mundo desidratado porque ninguém engole essa até hoje mas se sentem tanque porque é tudo na caixa dos peito não tem beck que salve não tem mão que tape a visão que tamo pegando mas tem tiro que apague 142


eu ouvi o boa noite lá no alto quando eu acordei já tava tudo escuro alguém trocou o calçamento acho que o açougueiro fez pacto com prefeitura não tem mais cimento nem festa na rua mas tamo pulando nela que é pra ver se a gente passa sem pisar no corpo de ninguém

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E SE…

Thaís Souza Ribeiro

E se... Vivêssemos o agora Despreocupados com o depois. E se... A ansiedade, as paranoias Não fossem vistas como “besteiras” ? E se... Enxergássemos o outro com mais clareza E não julgássemos o livro pela capa? E se... Você descobrir Que pensar Ou não pensar Antes de falar Antes de fazer Não garante Que você vai perder Que você vai ganhar Que o segredo tá na qualidade Do seu caráter, do seu modo de pensar? E se... Os corpos não fossem vistos como objetivos Mas, como obras de arte, dimensões do indivíduo. Eu seria seu Van Gogh, sua Tarsila, seu Picasso, seu Caribé? E se... Você se liberasse Se você permitisse 144


Que o mel transbordasse Que o amor acontecesse Que sua vida se adoçasse Se desestagnasse? E se... De repente, a gente visse De forma diferente Tudo o que a gente Até agora viu?

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AUTORAS E AUTORES PREMIADOS

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ÁGATHA KEILA é a mais velha de

três irmãos. Ler e escrever nem sempre foram suas paixões, mas ela está aprendendo o poder da escrita. Depois de escrever uma peça escolar no Ensino médio, a mais aplaudida pelos alunos e elogiada pela professora de Língua Portuguesa, percebeu que narrar histórias ou criá-las era algo que podia e queria fazer, descobrindo assim, na escrita, um amor eterno.

LUA GONÇALVES é uma baiana

obstinada. Encontrou tanto no teatro, quanto na poesia, a sua válvula de escape. A experiência com o teatro vem das escolas em que estudou, o que lhe permitiu se apresentar no Teatro ISBA e na Biblioteca Central dos Barris. Ao entrar no IFBA, aperfeiçoou sua prática poética, levando em conta a compreensão das suas lutas, a necessidade de expressar suas apofenias e as suas vivências. Lua Gonçalves tem como objetivo levar a arte para as regiões periféricas do país. 147


ALBERT ELIAS é escritor, poeta, ator e estudante de Serviço Social pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB.

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ALEXANDRA SUZARTE é técnica em teatro e estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA. Já foi integrante do Coletivo MultiArtístico Froceta Artvista, do município de Lauro de Freitas, e tem como objetivo se tornar arteeducadora. Sua poesia é movida pelas suas descobertas, que lhe servem de matéria-prima, seja em verso, melodia ou interpretação.


ANA KÉZIA NASCIMENTO é uma jovem negra, natural e residente do município de São Francisco do Conde, que começou a escrever com apenas oito anos de idade. Atualmente, é estudante do curso de Letras – Língua Portuguesa da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Ana Kézia defende a inserção da cultura Afro-Brasileira no processo de Ensino/aprendizagem e, sua escrita, pretende que vozes negras como a sua, ecoem cada vez mais alto.

ANA LÚCIA é poeta sul-baiana da cidade de Ubaitaba, historiadora e já participou de algumas antologias. É administradora do perfil @feitade_poesia no Instagram, onde divulga suas produções poéticas, que tratam de vivências, de memórias, e principalmente, das experiências do povo preto e periférico.

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ANANDA SANDES é uma artista

dissidente soteropolitana, poeta, multi-instrumentista e compositora. Formou-se em História pela UFBA e atua também como Arte-Educadora. Em 2017, fez parte do Coletivo Sara Mandaia, como produtora e percussionista. Em 2019, atuou no espetáculo Não me fale de Fraquezas, como atriz e compositora de trilha sonora. Foi curadora da Residência Artística Conexões Paralelas, em 2020. Seu trabalho se entende também a eventos independentes, como saraus culturais universitários e vinculados a arte de rua.

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ANANIAS SERRANEGRA é técnico em teatro, ator, poeta e produtor cultural. Vencedor do prêmio de melhor poesia e melhor intérprete do Festival Nacional de poesia de Ibotirama em 2017, sendo o segundo colocado em 2018 e 2020. Foi também finalista e vencedor da edição local do mesmo festival nos três anos. Lecionou, como professor auxiliar, Artes cênicas na Escola M. de Teatro de Barreiras e, atualmente, desenvolve residência artística de Criação literária pelo prêmio Jorge Portugal.


ANNANDRA LÍS é natural da cidade de Utinga, que foi seu berço cultural. Lá, teve contato com artes e artistas de todos os tipos. Começou a escrever poesias, pelo exemplo de sua mãe, e aprendeu a declamar, descalça, em apresentações na Semana de Arte e Cultura de Utinga e no Tempos de Arte Literária dos colégios estaduais da Bahia, onde ganhou e representou sua cidade por 2 anos. Annandra utiliza da escrita para dar voz aos seus e acaba de lançar o livro Bairrismo e Outros Amores, 2021, pela editora Voz de Mulher.

ARYELLE ALMEIDA é mulher, preta, sapatão, natural de Itabuna-Ba e Bacharel em Direito. Apesar de nascer em Itabuna, é valenciana de coração, e poeta nas vagas horas.

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BRUNA LIMA, negra, lésbica e

periférica. Escritora do mundo e de si. Entusiasta da vida pela arte, escreve para existir entre tantos sinônimos e viver em verso e prosa. Atualmente é estudante de Serviço Social na UFBA e podcaster no canal de literatura e arte “Assim Nasceu Saturno”.

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BRUNO MACHADO é estudante de Letras pela UFBA. Escreve contos publicados no Medium, além de compor e produzir músicas. Seu álbum, Pollux, está disponível em plataformas de stream, assim como suas diversas composições. Além disso, produz fotografias e ilustrações no Instagram. Todas essas artes falam um pouco sobre sua percepção e sua vivência, enquanto jovem negro, soteropolitano e candomblecista, em busca de um enraizamento em sua própria cultura.


CALÉO MENESES SANTOS nasceu

com nome de super-herói (o Superman), o que o fez se interessar por ficção científica e fantasia. Estudante de Engenharia Elétrica na UFBA, acredita que a tecnologia é o que mais se aproxima da verdadeira magia no nosso mundo. Atualmente, dedicase a aprender, desenhar e criar histórias, pois pretende criar um universo de fantasia afrocentrada e com desenhos para a população negra do Brasil.

CAROLINE BARBOSA é

apaixonada por literatura desde a infância. No Ensino Médio, participou de três edições do Projeto Tempos de Arte Literária (TAL), do governo estadual. Atualmente é graduanda em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e expõe seus poemas no perfil @doquemeafeta.

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CHRISTIAN JESUS DA SILVA, mais conhecido como Cijay, é natural de Ilhéus-Ba. É MC, poeta urbano, oficineiro e coordenador da produtora cultural Coletivo Rap de Rua, que atua desde 2013. Foi finalista de diversos festivais, como o Festival Anual da Canção Estudantil (2013), o Festival estadual Tempos de Arte Literária e o Festival Sesi Música (2015). Em 2017, lançou seu primeiro álbum “Estamos Aqui” e venceu o Festival Universitário de Música da Rádio UESC.

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DIANA RIBEIRO é uma mulher

negra, do Axé, leonina, artista e estudante do curso de Pedagogia da UFBA. Eterna apaixonada pela sensibilidade poética passível de ser encontrada na vida, nos detalhes reais, no cotidiano e nas pessoas de seu entorno. Considera a vida como uma longa caminhada de resistência, em que os Orixás e os guias espirituais, são a sua principal base.


ELIZA METZKER é poeta e

slammer, graduanda do curso de Letras/Português da UNEB e autora de dois livros não publicados: A vida por trás do caos (2018) e Sobre(vivências) (2021). Participou da edição de 2020 do Selo Off Flip Paraty (RJ). Algumas de suas produções são divulgadas em sua página @elizametzker. Seus textos consistem em mensagens de protesto, relacionadas a tudo aquilo que fere a sua existência e a dos seus.

GEISLA SANARA mergulha na

poesia através da palavra escrita, recitada e do corpo em movimento no fluxo e refluxo dessa existência enquanto mulher, negra, lésbica e periférica. Bacharel em Humanidades (Unilab), licencianda em Pedagogia (Unilab), poetisa e atriz, trabalha com teatro negro e participa de projetos que levam teatro e poesia para espaços públicos.

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IASMIN SANTOS de Jesus é negra, filha de pais negros e avós negros. Começou a escrever no segundo ano do Ensino médio, onde participou de um projeto através do qual teve sua primeira publicação: um poema seu foi selecionado para o livro Mãos que inspiram poesia, que já está na segunda edição. Iasmin mantém uma página no Instagram para divulgação de seus textos @ pontodevista_1 e acabou de ser aprovado para o curso de Letras da UNEB.

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INÁIRA GOMES DE OLIVEIRA

artesã, poeta, estudante de dança da UFBA e realiza experimentações nessa área. Mãe solo de Sauani Nzinga, além de amante da natureza e da cultura popular. Sonha com a democratização da arte e enaltecimento afro-diaspórico e indígena.


ISAAC DUBAI é rapper, poeta e produtor cultural.

ISAQUE SANTOS PINHEIRO

(Zac Pinheiro) é bacharel interdisciplinar em Artes e atualmente cursa Arquitetura e Urbanismo na UFBA. É pesquisador da “Presença de Arquitetos e Arquitetas Negras Pelo Mundo” com apresentações em Salvador, Belo Horizonte e Nova York, além de criador de conteúdo digital no Instagram (@zac. pinheiro) e YouTube. É uma das vozes do grupo @corpo. discurso.territorio e também arte-edcador.

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ITAMILES SANTOS NASCIMENTO é

Mulher preta, Quilombola e Sem Terra, estudante da Licenciatura em Educação pela UFRB. A escrita surge como parte essencial para seus processos de cura e libertação de tudo e todos que a tocam, seja de forma positiva ou negativa. Escreve por ousadia, rebeldia e resistência, pois considera o ato de escrever libertador e extremamente importante para a sua sobrevivência.

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JAÍNE DOS SANTOS GONÇALVES,

de nome artístico Jaíne Sangon, é uma jovem mulher preta que tem a escrita como hobby e como técnica de existência introspectiva, mas também coletiva. Hoje coleciona quase metade da sua vida com escritas poéticas que foram trabalhadas e amadurecidas com o tempo. Sangon tem dois livros finalizados, mas não publicados, e neles compartilha poemas com tintas de sonhos, liberdade, tentativas de equilíbrio, amor e revolução.


JAISY CARDOSO, no instagram @ajaisycardoso, é poeta e contista. Nascida em Salvador, estuda Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia, e está nas antologias “Corpo que queima” e “Eu, mulher, existo e resisto”, ambas publicadas virtualmente em 2019. Já em 2020, durante a pandemia, assinou o texto do vídeo-poema “Assentamento”, dirigido e estrelado por Gi Uzêda, e publicou nas antologia de contos “Soteropolitanos”, e de poemas “Do que ainda nos sobra da guerra e outros versos pretos”, da editora Ipê Amarelo.

JAMES BARREIROS adquiriu muito cedo o interesse pela leitura o que, mais tarde, o levou a experimentar a arte da escrita. Gosta de escrever poemas de forma livre e, às vezes, seguindo alguns padrões preestabelecidos. Por ter participado de um prévestibular comunitário, teve a oportunidade de conhecer melhor a língua portuguesa e leva consigo um pouco de cada coisa que vivenciou. Produz textos que o satisfaçam emocionalmente.

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JAMILE DOS REIS SANTOS é escritora, poetisa e contista. Graduada em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades (UNILAB-2018), com monografia intitulada: “A luta diária pela aceitação: e o longo (des)preparos das Instituições Escolares”. Atualmente, cursa Licenciatura em Pedagogia pela UNILAB/BA. Participou do desenvolvimento do Projeto Literário Poesias e Prosas, com a publicação do Por uma memória das brincadeiras: Encontros Geracionais de Brincadeiras Africanas e Afrobrasileiras.

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JANIELE DAMASCENO BISPO é mulher, preta, baiana, escritora nas horas vagas e graduanda em Pedagogia. Como poetisa, utiliza os poemas para representar através de palavras as suas vivências, seus sentimentos e expressar suas dores. Escrever é sinônimo de luta, resgate, conservação da memória, resistência e liberdade.


JHONATA NASCIMENTO AZEVEDO

Poeta suburbano, baiano, rapper, estudante de Letras com inglês, apreciador de poesias marginais e artes em geral.

JOÃO LUAS nasceu em Pojuca,

interior da Bahia, mas pertence e vive em Salvador, onde se reconheceu na arte e mergulhou em diferentes vertentes artísticas. Tem a escrita como nascente e aquilo que o permite respirar no oceano-arte em que está imerso. Atravessado pela dança, canto, artes plásticas e visuais, foi escolhido, em julho de 2020 pelo Mídia Ninja, para ser projetado em várias cidades do Brasil com a colagem digital Implosão e contemplado pelo edital “Arte & Cultura Pojucana”.

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JOSIANE ALVES DOS SANTOS foi

criada no interior da Bahia e busca, a partir da sua vivência, rememorar os passos de seus ancestrais. Cursando a Licenciatura em Letras de Língua Portuguesa pela UNEB, dedica-se às práticas pedagógicas que reverenciam o estar no mundo revolucionário da população negra. Estuda a literatura de mulheres que amam mulheres. É poeta da vida, tem passos antigos e muito sangue no olho. É curadora do Sarau Não Cale a Arte, desde 2017 e, atualmente, organiza a V edição.

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JULIANA SANTOS DE SANTANA

é mulher preta feminista, periférica, estudante de pedagogia, pesquisadora da educação antirracista, poetisa, ilustradora, apaixonada por girassóis e todas as metáforas possíveis, educadora dredada tentando construir novas perspectivas de mundo nessa Babilônia.


KAILANE OLIVEIRA é musicista há quase 4 anos, toca violino e viola e é amante da arte em diversos aspectos. Escreve desde os 11 anos, principalmente poemas, e tem grande paixão por livros. Atualmente, é integrante da Banda Amarela e da Orquestra Castro Alves, além de pintora, produtora cultural e microempreendedora. A escrita foi o grande pilar para ingressar e construir sua vida artística, mantém sempre vivo o sonho de ser escritora.

KARINE ALVES MATIAS é Mulher negra, mãe, cria de Santo Amaro. Karine, por vezes Névora, como ela se intitula, possui alma de artista, é poeta e também pinta. E foi pintando o sete que, através da sua página 7nevoras, decidiu perder o medo e compartilhar um pouco de si para o mundo.

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LETÍCIA MENEZES é mulher preta cis e bissexual. Filha de Márcia e Wilson; Bacharela Interdisciplinar em Humanidades (UFBA); estudante de Pedagogia (UFBA). Aquilombada na ACANNE e discípula do Mestre Renê. Rima nas encruzilhadas e devaneia no meio das correrias. Poeta mandingueira como uma pétala de criança que anda gingando e ginga com as palavras para sobre(viver). Refém da complexidade, amante das artes e entregue às reticências…

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LIZANDRA FERNANDES é mãe, professora e estudante de matemática. Sempre gostou de ler e escrever. No começo, usava a escrita apenas como forma de desabafo, mas agora usa para falar sobre sua raça, seus enfrentamentos e como forma de alerta para as outras pessoas. Seu grito pode ser ouvido através do que escreve.


MARCOS DOS SANTOS SOUZA

tem na escrita uma forma de abrir seu coração para o mundo, ser a voz de quem não tem, compartilhar suas ideias e trazer um novo ar para o cotidiano das pessoas. Escrever é aquilo que o compõe e também sua ferramenta para transformar o mundo em um lugar dos sonhos: sem desigualdade, preconceito, discriminação e egoísmo, mas com mais amor e unidade.

MARCOS VINÍCIUS BATISTA

BARBOSA é da cidade de Cruz

das Almas – Bahia. Atualmente, cursa Direito na UNEB. A escrita sempre foi um meio de expressão, pois em razão da timidez, viu nela um conforto que não encontrava na fala. Com o passar do tempo, acabou encontrando sua voz dentro da linguagem poética.

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MARCUS VINÍCIUS DE JESUS

REIS é natural da cidade de

Salvador-Ba e bacharelando em Humanidades na UFBA. Desde muito tempo é um amante da escrita e da leitura, que não são apenas passatempos, mas formas de materializar sua subjetividade. Apaixonado pela beleza que envolve a literatura, enquanto preto e favelado, demarca sua territorialidade geográfica e simbólica para indicar de quais literaturas fala. Fala de africanidade.

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MARIANA BRANDÃO é artista cruzalmense. Começa sua trajetória artística cantando em barzinhos com seu pai, aos 15 anos. Aos 16, inicia seus passos como atriz na Cia Desabafo Teatro, na cidade onde vive. Aos 20, integra sua primeira banda chamada Esquizo’Frenética, onde canta suas composições que tem como tema racismo, gordofobia e questões existenciais que perpassam seu cotidiano. Sempre acompanhada com seu violão, suas músicas falam também sobre luta, amor, força, afeto e ancestralidade.


MARIANE OLIVEIRA é jovem negra, favelada, bissexual, candomblecista, advogada, pesquisadora, baixista e aspirante a poeta. Foi uma dessas crianças traquinas e arteiras. Cresceu fazendo arte, teatro, música, poesia, dança, mas com o passar do tempo esse contato com o fazer arte foi ficando de lado. Escreve poesias há alguns anos para externar o caos e os afetos que carrega no peito. Arma-se com as palavras como forma de suportar os dias difíceis e celebrar os dias felizes.

LIRA, pessoa não binárie e

artiste. Prete e nordestine, de Salvador - BA. Pintore desde os quinze, hoje também ilustradore, desenhista, escritore e pesquisadore. Graduande no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, na UFBA (IHAC/UFBA). Realiza pesquisa e estudos na Linha de Lesbianidades, Interseccionalidadesdes e feminismos (LIF) e na linha de Estudos Trans, Travestis e Intersexo (TTI), ambas pertencente ao NUCUS.

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MICHEL CARVALHO é natural de Cabo Verde, reside no Brasil e cursa licenciatura em Ciências Sociais pela UNILAB. Em 2019, participou do concurso de poemas do Observatório da Vida Estudantil do Campus dos Malês. Em 2020, participou como convidado da Rádio Praia Grande para falar sobre seus escritos e recitá-los. Através da escrita, tenta dar vez e voz a grupos invisibilizados e silenciados pelo sistema, pelas violências e opressões. Tenta empoderar os grupos esquecidos à margem da sociedade.

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MYRIAM SANTANA é uma mulher preta, mãe e periférica, graduanda no BI em Artes na UFBA, integrante do Coletivo Sarau do Cabrito e do Coletivo Mojubá Mídias e Conexões, também é Trancista, Poeta e Artesã.


NARA NEYLAINE se reconhece

artista desde a mais antiga das suas lembranças. Sempre esteve em contato direto com a música e a literatura. Desde que aprendeu a ler e escrever, aos 5 anos, flerta com versos e se encanta com rimas. É poetisa, atriz, performer, artesã, multi-instrumentista e brinca de fotografar. Mulher, preta, moradora do Recôncavo da Bahia, traz na arte a força e a ancestralidade que carrega dentro de si.

PAULO MENDES é estudante de História e Administração no Centro Educacional Edgard Santos. Nascido e criado em região periférica, escreve sobre as lutas travadas por ser negro e sobre ter orgulho da cor de sua pele. Seus textos falam também de emoções intensas e da sua forma de ver o mundo.

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RAYARA STEPHANY é natural

da cidade de Rio de Contas, Chapada Diamantina. Além de poeta, é acadêmica em Direito. Escreve versos autorais desde os 14 anos. É a favor da luta antirracista e feminista. Em suas redes sociais, está sempre se manifestando contra as injustiças cometidas contra o seu povo, e espalhando a cultura, conhecimento e ancestralidade dos mesmos.

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RAÍSSA NIZAH, preta, bissexual, multiartista e candomblecista. É cantora, atriz e poeta. Desde criança tem o amor à música cultivado pela família. Compõe músicas e escreve desde os 14 anos. A partir dos 19 anos, começa a fazer apresentações em eventos e praças, ainda apresentando-se como Raíssa Calmon. Entre 2017 e 2020, fez parte do Coletivo Froceta, grupo de mulheres multiartistas, que produz performances com poesia, música, dança e técnicas de Teatro do Oprimido, e oferece oficinas.


REBECA OLIVEIRA é mulher

preta, bissexual e regida pelas forças de seus ancestrais. Soteropolitana, mas RuiBarbosense de vivência e coração, atualmente reside em Simões Filho. Estuda Licenciatura em Educação pela UFRB. No ano de 2020, participou com um poema para Antologia Poética Bardos Baianos- Piemonte do Paraguaçu. Rebeca faz da escrita um ato de liberdade, luta e cura. É através da poesia que expressa quem é e se encontra.

SAMARA ALMEIDA é uma mulher negra lésbica de interior, no agreste baiano. Filha de mãe e pai negros. É licencianda no curso de Ciências Sociais pela UFRB. Escreve poemas, poesias e afins -como potencialidade de sua existência - desde os 13 anos. Eles têm um caráter introspectivo, mas também coletivizados, pois falam dos atravessamentos no seu corpo sociopolítico e das relações socioespaciais que a conectam, assim algumas pessoas semelhantes se refletem neles.

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SUED NUNES é filha do Recôncavo Baiano, da cidade de Sapeaçu, graduanda em História na UFRB. É artista antes mesmo de saber que existia. Cantora, compositora, poeta e atriz, busca trazer em todas as suas performances seu maior traço: a cor junto a seus brilhos e seus cortes. A escrita foi um passaporte para se entender sujeito, pois sendo poeta e compositora, desafia a História escrevendo sobre si, mulher negra.

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THAÍS SOUZA RIBEIRO é natural

de Salvador-BA, mas vive atualmente em Conceição do Almeida- BA. Filha de Silvânia e Washington, sua ligação com a poesia vem de longe. Lembrase de declamar poemas entre os 14 e16 anos, e de escrever seus primeiros textos, aos 19. Com a passagem dos anos, essa paixão só aumentou. Hoje, através das redes sociais, leva sua arte a públicos interessados.


COMISSÃO AVALIADORA

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AMÓS HEBER é ator (Bacharel em

Artes Cênicas/UFBA), roteirista, escritor e cantor. Lançou em 2015 o livro “Furúnculos” e foi contemplado com a Bolsa de Criação Literária da FBN/ DLLLB, com o projeto “Sinal Fechado”. Participa da coletânea “Soteropolitanos” (2020). Está na plataforma digital “Mapa da Palavra” e na revista “Cartografias” da FUNCEB/BA. Integrou o “Grafias Eletrônicas” em 2017 e participou das edições da FLICA 2016 e FLIGÊ 2017.

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JOSÉ EDUARDO FERREIRA SANTOS

é Pedagogo (UCSal), mestre em Psicologia (UFBA), doutor em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia e fez estágio pós – doutoral pelo Programa Nacional de Pós – Doutorado (CAPES) na UFRJ, UFBA e UCSAL, onde atualmente é professor e pesquisador. Curador e responsável junto com Vilma Santos pelo Acervo da Laje, que reúne obras artísticas e históricas do Subúrbio Ferroviário de Salvador e de toda a cidade. Autor dos livros Novos Alagados: histórias do povo e do lugar (EDUSC, 2005), Travessias: a adolescência em Novos Alagados (EDUSC, 2005), Cuidado com o vão: repercussões do homicídio entre jovens da periferia (EDUFBA, 2010), Faixas assombrosas: a nascente da beleza nas canções populares (Scortecci, 2013), Nascente da beleza (Scortecci, 2013) e Acervo da Laje: memória estética e artística do Subúrbio Ferroviário de Salvador (Scortecci, 2014).


MAIARA SILVA é Poeta,

escritora, jovem dinamizadora, mobilizadora e produtora cultural Mulher preta de axé, moradora do bairro de Sussuarana, atriz, capoerista, percussionista, slamer. Co-fundadora do Grupo Recital Ágape e do Coletivo Arte no Buzu Atualmente, mais especificamente no dia 05/12/2020, lancou seu primeiro livro de poesia: Escrevivências de uma Preta para o Mundo, que perpassa por diversos temas como: Feminicídio das mulheres negras, intolerância religiosa, racismo, preconceito, autoestima, amor, a poesia como forma de protesto, inspiração, resistência, transformação, educação, denúncia e principalmente como válvula de escape e mais uma forma de dar voz às irmxs que foram e são silenciadxs (lançado pela Editora Caburé).

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EQUIPE

POR ESSAS LINHAS DE CÁ

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LEO VILAS VERDE é especialista

em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, Bacharel em Comunicacão e em Ciência Política. Ao longo dos últimos 22 anos, compôs vários movimentos, coordenando projetos de formação de jovens em arte, cultura e comunicação. Foi um dos fundadores da Biblioteca Comunitária Girassol - espaço de leitura afrocentrada que funciona no Ilê Axé Odé Yeyê Ibomin, no bairro de Portão, Lauro de Freitas. Atualmente, coordena projetos de formação de jovens negros em comunicação e cultura na CIPÓ – Comunicação Interativa. Em 2020, foi selecionado no edital Arte como Respiro - Literatura do Itaú Cultural. Escreve desde a adolescência como forma de entregar ao papel aquilo que não consegue jogar ao vento. Seus textos estão espalhados em cadernos, agendas e pedaços de papel diversos, nas residências de pessoas importantes que passaram em sua vida.

ODEMILSON DO CARMO

Graduação incompleta em Sistemas de Informação pela UNIME – União Metropolitana de Educação e Cultura. Atuou como educador social na Escola Municipal Pedro Paranhos através do Programa Escola Aberta, nos anos de 2012 e 2013. Membro Fundador do Coletivo Cultural Ibomin onde atua como mobilizador cultural, desenvolvendo atividades de contação de histórias em escolas públicas, comunidades populares e terreiros.

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TAMARA NASCIMENTO DOS

SANTOS Técnica em Design

Gráfico pela SAGA – School Of Art, Game and Animation. Bacharela em Design Gráfico pelo Centro Universitário Jorge Amado. Estágio em Design Gráfico na MegaPixel. Atualmente, dedica-se ao design de moda com foco em roupas ritualísticas das religiões afro-brasileiras. É idealizadora da empresa Ofá Bemin – especializada na confecção de indumentárias do Candomblé e roupas inspiradas nesse universo. Participou da Aceleração de Negócios da Economia Criativa da Vale do Dendê. Participou do Reality Salvador Fashion Race. Atua como designer do Coletivo Cultural Ibomin: Cultura, Ancestralidade e Cooperativismo Negro. Atuou como Educadora em oficinas de graffiti no Colégio Estadual Zumbi dos Palmares e no Bairro da Paz, esse através do projeto Boca de Brasa e da Santa Casa de Misericórdia. 178

VANESSA SANTOS Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA, Bacharela em Sociologia (UFBA) e Licenciada em Letras Vernáculas pela UNEB. Foi membro do Projeto Observabaía – atuando com redes de cuidado para populações vulneráveis e comunidades tradicionais da Baía de Todos os Santos - e mediadora do Clube do Livro da Editora Autêntica. Atualmente, dedica-se a estudos de caráter teórico-crítico no campo das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, especificamente a Literatura Angolana, é revisora da Revista Digital Pico Preto e pesquisadora nas empresas Pollis Estratégia: Pesquisa e Consultoria e Gasparetto Pesquisa & Estatística.


QUINTINO ANDRADE é designer gráfico e bacharel em Produção em Comunicação e Cultura (UFBA).

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Foi uma mistura de vivências em cada poesia, prosa, conto que li. Um misto de incômodos, denúncias e reflexões, e com certeza, fará outras cabeças pensantes, em ver a arte como forma de transformação. MAIARA SILVA

Tive a alegria de participar da seleção dos textos que compõem este livro e constatei que as juventudes periféricas estão se expressando com suas poéticas, vidas, dores, sempre com uma atitude de enfrentamento às mazelas sociais, como a violência e o racismo e, ao mesmo tempo, mostrando seu amor pela vida, afetos, resistindo como sementes de esperança. Vejo esse livro como um manifesto poético das juventudes negras e periféricas que jamais se calarão. E a escrita é uma forma de viver. Que essas vidas frutifiquem cada vez mais, em mais produções coletivas e autorais, mostrando que essa é uma das formas criativas de se fazer ler e ouvir em tempos tão sombrios, pois a escrita, acredito, é uma forma de libertação dos cativeiros que querem nos impor. E essa escrita revela dores cotidianas, mas também revela o lirismo que as juventudes não perderam. JOSÉ EDUARDO FERREIRA SANTOS

É permitida a reprodução parcial desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para qualquer fim comercial. Coletivo Cultural Ibomin


CALOFÃO Este livro foi composto em papel Off White 90g com as tipografias Crimson Pro e Sora. Tiragem de 1000 exemplares Impresso na EGBA em Salvador - Bahia


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Por Essas Linhas de Cá by Leandro Cunha - Issuu