Ano I – no. 1 outubro de 2016
Revista
Neste número trataremos do projeto de pesquisa Relações raciais nas escolas e formação de professores.
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Equipe da revista Editor: Valter Filé Designer: Luana Sandes Revisores: Roberta Sandim, Tarciso Manfrenatti e Adilson Santos Conselho Editorial Adilson Santos,Cíntia Silva, Fabio Antonio, Graziele Lira, Gustavo Pinto, Luana Sandes, Roberta Sandim,Taís Costa, Tarciso Manfrenatti e Valter Filé
A Revista CONEXÕES é uma publicação on line, de acesso livre, mantida pelo grpesq Educação Sociedade do Conhecimento e Conexões Culturais - certificado pelaUFRRJ realizada pela Linha de pesquisa Laboratório de estudos e aprontos multimídia: relações étnicoraciais na cultura digital - LEAM. A revista pretende ser um espaço de divulgação das ações do LEAM - estudos, pesquisas, produções acadêmicas (em diferentes linguagens) que alimentem a formação de professores, o combate ao racismo, o preconceito e a discriminação. Dentre os objetivos da Revista está o de divulgar, também, os trabalhos de militantes, pesquisadores e professores brasileiros e estrangeiros que atuem no campo das relações étnico-raciais, questões referentes às desigualdades e toda e qualquer campo do conhecimento, da cultura que propiciem um diálogo entre aquilo que nos mobiliza e os diferentes campos e espaços da educação. Tem periodicidade anual.
Contatos: LEAM aprontosmultimidia@gmail.com Av. Gov. Roberto da Silveira, s/n. Moquetá – Nova Iguaçu -RJ – Cep 26020-740 UFRRJ/IM/DES/PPGEDUC
Laboratório de estudos e aprontos multimídia: Relações étnico-raciais na cultura digital http://estudoseaprontosmultimidia.info
Estamos apresentando a revista digital CONEXÕES. Ela é uma iniciativa do LEAM Laboratório de estudos e aprontos multimídia: relações étnico-raciais na cultura digital e está direcionada à formação de professores com um recorte para a educação das relações étnico-raciais. A proposta da revista é disponibilizar aquilo que vem sendo trabalhado pelo LEAM para pensarmos a formação de professores, preferencialmente, naquilo que assumimos como questões que incidem sobre a nossa área de atuação: os impactos produzidos pelos usos das tecnologias da informação e da comunicação na vida cotidiana, nas práticas educativas, na produção de conhecimentos, nas formas de nos relacionarmos, enfim. Nos interessam ainda as questões produzidas pela chamada “cultura digital” e como estão sendo pensadas na articulação com as questões relacionadas à produção de desigualdades, principalmente aquelas desigualdades produzidas contra negros e pobres e as suas repercussões. Assim, a revista CONEXÕES, será composta por artigos produzidos pelos membros do LEAM, por trabalhos encomendados a autores, por relatos de experiências, entrevistas, resenhas, indicações de vídeos e filmes. A revista será publicada anualmente e este primeiro número está sendo dedicado ao projeto de pesquisa Relações raciais nas escolas e formação de professores. Um projeto que ouviu relatos autobiográficos dos/das estudantes do curso de Pedagogia do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, entre 2012-2 a 2016-1 em busca de pistas para compreendermos melhor os seus processos de formação. Portanto, neste número estão algumas das narrativas autobiográficas estudadas, os impactos da pesquisa nos projetos dos membros da equipe do LEAM - orientandos e parceiros, e textos (verbais e audiovisuais) sobre o projeto e sobre aportes importantes daquilo que gira ainda em torno das questões do projeto. Seja bem-vindo/a! Clique aqui para inscrever-se e receber por e-mail os próximos números.
Sumário
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APRESENTAÇÃO DO PROJETO
NARRATIVAS DOS ALUNOS
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ENTRAMAR DOS TEXTOS
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Foto: Anelice Ribetto1
Por Valter Filé Este projeto de pesquisa foi realizado entre os anos de 2012 e 2016. Ele tem como ponto de partida, aquilo preocupava a todos/as os envolvidos com as questões raciais no Brasil, mais especificamente naquilo que diz respeito à educação. A preocupação era, e é ainda, com o fato de que, apesar de termos uma lei - a 10639/2003 - que obriga os estabelecimentos de ensino fundamental e médio,
oficiais e particulares, o ensino sobre História e Cultura AfroBrasileira, ainda hoje existem resistências enormes ao cumprimento de tal lei. Nas escolas das redes públicas, nas escolas particulares, nos cursos de licenciatura das Instituições de Ensino Superior, enfim. Uma resistência, na maioria das vezes, silenciosa e perversa, outras mais abertas e com alegações que ratificam o problema que negam. Alegações que tentam negar a
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existência de racismo no Brasil, e algumas destas “argumentações” ainda insistem que colocar o acento na questão racial, aí sim seria racismo, aí sim estaríamos estimulando o racismo. É bem verdade que muitas das vezes o que está por traz de afirmações como esta, ou seja, de que especificar a questão das relações raciais estimularia o racismo, guarda um certo medo de termos que repassar a nossa história a limpo. De revermos o processo que levou o Brasil estabelecer-se como uma grande potência econômica mundial e, paradoxalmente, mantem níveis de desigualdades alarmantes. O processo que faz com que poucas famílias tenha quase toda a riqueza nacional e a grande maioria da população não tenha nada. Que mistérios o país guarda para manter a maioria esmagadora da população pobre e negra com baixa escolaridade, com os menores salários e sem o reconhecimento das suas histórias, das suas culturas, das suas humanidades? Portanto, se existe uma grande resistência na educação em considerar as questões das desigualdades produzidas contrassujeitos que não são aqueles esperados pelos projetos hegemônicos de escola (ou seja, brancos, heterossexuais, cristãos e “normais”), como enfrentar tais resistências? Temos visto o enfrentamento desta questão em várias dimensões: na ocupação de
espaços de decisão e influencia por membros dos movimentos sociais negros; na produção de reflexões que tem nos ajudado a pensar melhor o problema; na produção de material didáticopedagógico, enfim. O nosso projeto de pesquisa pretendeu entrar nesta rede de esforços coletivos para ampliar as possibilidades da formação de professores. Estamos partindo da ideia de que se grande parte das resistências se dá na intimidade da sala de aula, a partir daquilo que os/as professores têm para lidar com a situação ou para ignora-la, precisamos atuar na formação de professores para tentar trabalhar sobre aquilo que foi sendo incorporado como formação e que não se refere apenas aos conteúdos curriculares dos nossos cursos. Talvez tenhamos que lidar naquilo que diz respeito ao que as diferentes instituições sociais - família, escola, mídia - ajudam a formar cotidianamente: a ideia de uma país maravilhoso, tolerante e que tem espaço para os que se esforçam, para os que não vivem “reclamando” (ou seria reivindicando?). Como fazer para lidar com aquilo que parece estar arraigado? Onde buscar elementos para combatermos a desconsideração de uma desigualdade institucionalizada, de um racismo que os projetos hegemônicos de escola ajudam a perpetuar? Onde tocar?
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Obviamente que um projeto de pesquisa enfrenta as suas questões partindo daquilo que o grupo que sustenta a empreitada considera ser as suas fortalezas: algumas ideias, algumas companhias de autores militantes, pesquisadores, poetas, etc -, aportes teóricometodológicos.... Ou seja, com aquilo que se escolheu como ajuda para compreender melhor e enfrentar os desafios colocados. Começamos apostando naquilo que nos parece ser importante para pensarmos a formação: a experiência. Ou seja, os acontecimentos das nossas vidas, aquilo que nos passou e que nos marcaram, mesmo que muitas das vezes não nos damos conta, tanto dos acontecimentos, quanto das marcas deixadas por estes. A experiência aqui não é o mesmo que experimento: aquilo montamos artificialmente - tanto em pesquisas científicas quanto na vida cotidiana - para controlarmos as diferentes etapas do evento para testa-lo e produzir os resultados. Tampouco experiência diz respeito ao fato de estarmos envolvidos com uma determinada atividade ou situação. Dizemos: “tenho vinte anos de experiência de sala de aula”. A que experiência estes vinte anos se referem? Usamos a ideia de experiência com outro sentido. Experiência, para nós e para autores como Benjamin, Jorge Larrosa e tantos outros, seria aquilo que vivemos a
partir de algo que nos aconteceu. Algo que não estava previsto, que não pudemos controlar, portanto, não sabemos como reagir ou o que dizer. Acreditamos que estes acontecimentos investem contra o que já temos de organização, de prontidão, de preparação para enfrentarmos os desafios. Como diria Benjamin, somos a sociedade da informação, mas esta informação não se traduz em experiência. Pode, quando muito, oferecer-nos o que dizer, o que repetir em determinadas contextos, ante determinada exigência de termos que dizer algo que pensamos que nos vai qualificar. No entanto, a experiência e da ordem, não do parecer, mas do tornar-se. Ela pode nos alimentar de sabedoria, pois cada acontecimento nos exige respostas que ainda não estão formuladas. Precisamos pensar sobre o acontecido, precisamos criar e acionar determinados recursos para dar conta do que nos aconteceu. Podemos usar um terremoto como exemplo de um acontecimento que pode nos ajudar a pensar sobre o que estamos querendo dizer. Um terremoto, que aparece sem que se esteja esperando, abala aquilo que temos de mais seguro: a estabilidade do mundo. Daí que os primeiros sintomas dessa perda de estabilidade provoquem um sentimento de desorientação, pois não temos
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mais segurança sob os nossos pés. Aquilo que era seguro, agora se move. Claro que este pode ser um acontecimento radical, portanto, uma experiência radical. Mas o exemplo é para destacarmos as condições da experiência, do acontecimento: a imprevisibilidade, a desorientação: a falta do que dizer e do que pensar. E logo após o acontecimento quais seriam as providencias dos seres humanos (alem de cuidar do restabelecimento da “normalidade”, do cuidado com os estragos, etc)? Tentar compreender o acontecido. Tentar colocar em palavras para organizar o pensamento, para tentar avaliar os estragos: aquilo que o acontecido fez conosco verificar as marcas, os ferimentos - e, talvez, pensar o que podemos fazer com estas marcas, com estes ferimentos. O que podemos fazer? Colocar em palavras, narrar. Fazer com que a experiência narrada possa ser oferecida como possibilidade de tornar-se experiência para quem ouve, como diria Walter Benjamin (...). Então, a narrativa é a possibilidade de colocarmos em palavras, de narramos o que nos aconteceu. Talvez, ao narrarmos, podemos também nos ouvirmos narrando e ampliar as nossas condições de lidar com as coisas que ainda repercutem (como gosta de fazer a psicanálise)
Portando, a matéria prima do nosso projeto, o que fomos buscar nas histórias dos estudantes foram as suas experiências e a lida (ou o descaso) com as marcas, com os ferimentos. A narrativa como possibilidade de acedermos ao modo como cada qual tratou a sua experiência, os seus acontecimentos, as suas marcas, as suas feridas. Considerando que mais de cinquenta por cento das turmas trabalhas (oito turmas do curso de Pedagogia) declararamse como não brancos, possivelmente pudessem oferecer histórias importantes sobre o processo de formação. Histórias que talvez nos ajudassem a compreender os processos de escolarização e as formas como cada sujeito lidou com as suas marcas, com as suas feridas. A pesquisa de campo realizou-se nas turmas que passaram pelo segundo período, na disciplina Sociologia e Educação II. A pesquisa autobiográfica foi uma proposta de começarmos os estudos dos fundamentos sociológicos para a educação, para a formação de professores. A proposta era buscar nas próprias histórias elementos que nos ajudassem a compreender melhor aquilo que a disciplina colocava como questão central: a produção de desigualdades na sociedade brasileira e a reverberação destas desigualdades nas escolas, nas práticas pedagógicas. Assim, cada estudante deveria buscar na sua narrativa os acontecimentos que, muitas das
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vezes, passaram despercebidos. Destacar tais acontecimentos para, agora, estudá-los com o apoio dos diferentes aportes disponíveis: a discussão com outros colegas que sofreram ou que negaram tais acontecimentos; as ideias, noções, conceitos dos autores, etc. O projeto, então pretendeu trabalhar com o material resultante das narrativas, das discussões de sala de aula, das leituras, enfim, dos movimentos em torno da questão das resistências na consideração do racismo brasileiro, para tentar oferecer algumas reflexões sobre tais resistências e sobre outras possibilidades para pensarmos uma formação de professores para uma educação das relações étnico-raciais. Bem, como ainda estamos às voltas com os materiais resultantes do projeto, já que no momento desta escrita ele ainda está encerrando-se, não será possível a oferta de algo melhor pensado. O que vamos oferecer aqui são algumas ideias que podem soar como especulações, ou alguns apontamentos que podemos adiantar. Vamos ver o que podemos adiantar.
Adiantamentos Uma das discussões teóricas do projeto recai sobre a aparência, pois está nos pareceu uma questão importante nos estudos das relações raciais no Brasil. A questão da aparência sugere uma infinidade de implicações: as questões referentes à identidade e aos processos de identificações; as fabricações de invisibilização como negações da condição de humanidade a partir de características fenotípicas... Buscamos em Hanna Arendt, em seu livro A condição Humana (...) algumas inspirações para pensarmos nesta condição humana, que é justamente a aparência. Para nós negros este é um ponto nevrálgico. Primeiro porque o modelo de ser humano ideal, legal e desejado é o modelo baseado na cultura branca. O negro está impresso no imaginário da população como algo referente ao negativo, ao ilegal, ao indesejado. Então, surge o primeiro grande problema: quem quer ser negro no Brasil? A questão é complicada de ser respondida, mas, ao mesmo tempo, se refizermos a pergunta, em outras bases, continuamos com a complicação, quem é branco no Brasil? Estamos aprendendo com as histórias (e com as nossas experiências) que a questão ultrapassa a auto declaração. A questão é quem no Brasil assumese como branco, assume-se desde
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uma cultura branca como forma de negação de outros? Aí entram em cena várias outras questões ligadas à aparência e à condição humana. Poucos são negros (apenas os pretos). Mas a grande maioria fala como brancos, age como brancos ou sonha em ser branco. Portanto, retornar desse sonho (ou pesadelo) seria desagregar algo que já está bastante consolidado, bastante acomodado. Como somos um país pacífico, sempre preferimos um “ruim com ele” pois pensamos sempre que seria “pior sem ele”. Assim, temos achado nas narrativas pistas de projetos de formação daquilo que o Boaventura de Souza Santos chama de razão indolente, ou seja, uma razão que, em última análise, auto esteriliza o proprietário de tal razão de toda e qualquer ideia de movimento, de criação, de rebeldia. O mundo já está dado, as forças que se nos impõe são tão grandes que não nos resta alternativas. Mas a razão indolente não produz apenas passividade. Produz conformidade e escolha de lados, pelo reconhecimento da suposta debilidade, a saída é filiar-me ao mais forte, defende-lo ou resignar-se, omitir-se, fugir aos debates e seguir com a vida sem se meter em coisas que não vão levar a nada.
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Produz conformidade e escolha de lados, pelo reconhecimento da suposta debilidade, a saída é filiar-me ao mais forte, defendelo ou resignar-se, omitir-se, fugir aos debates e seguir com a vida sem se meter em coisas que não vão levar a nada. Claro que já podemos vislumbrar nos materiais da pesquisa também movimentos muito interessantes. Movimentos feitos a partir do questionamento das coisas que até então eram tidas como “naturais”. Por exemplo, questões que aparecerem nas aulas: o que é ser pardo? Como se inventou a ideia de pardo? Meu pai disse que a pessoa do cartório não perguntou a cor, colocou sem perguntar: pardo. Por quê? Por que é tão difícil falar da questão raciais, do racismo? Como chamar uma pessoa negra (um aluno respondeu: pelo nome)? Por que apareceram os termos mulata, moreninho, que eles abrigam? ... Por que tanta confusão em torno dos termos “negros” e “pretos”? Muitos não se declaram pretos, mas são questionados por se declararem negros - “não, você não é negro!” - Por quê? Estas e tantas outras questões que surgiram no estudo das narrativas, quando do cuidado das pessoas com seus acontecimentos, com suas marcas de guerra, com suas feridas. Mas a questão da aparência ainda nos parece ser um ponto importante. Aparência como diz Hanna Arendt, como a condição humana para a existência, ou seja, eu só existo a
partir do reconhecimento do outro. A minha existência depende de que eu tenha aparência no espaço público. Que possamos ver e sermos vistos como seres humano entre seres humanos. Que possamos ouvir e sermos ouvidos entre humanos. Não ter aparência no espaço público (nas mídias comerciais, nos livros didáticos, nos trabalhos de maior reconhecimento social) é como não existir. Se não temos a nossa existência como humanos considerada no espaço público, como considerar os problemas desta existência? Podemos antever nos relatos biográficos formas de como vamos sendo retirados daquilo que é a cena pública e como muitos de nós, negros, acabamos por acreditar que somos seres humanos de segunda categoria. Muitos de nós somos discriminados, ofendidos, mas não reclamamos. Se reclamamos, se vamos à justiça por racismo, os poderes públicos constituídos confirmam o racismo institucional e trocam um crime inafiançável de racismo por injuria racial. Isso quando a vítima não passa a réu. Estes seriam alguns elementos do crime perfeito de que trata Cabenguele Munanga?
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LUCILENE MONTEIRO Minha história começa a partir do nascimento do meu pai, José. Ele nasceu em 12 de agosto de 1929, na cidade de Orobó, interior de Pernambuco. Naquela época minha avó Euzébia não tinha condições financeiras para ir até outra cidade e registrar o nascimento do meu pai. Quando entrou na adolescência, ele saiu de sua cidade e foi trabalhar em Queimadas-PB e aos 17 anos veio para o Rio de Janeiro. Aos vinte anos, voltou à Paraíba e precisou de documentos para trabalhar. Como não tinha nenhum, resolveu fazer o registro de seu próprio nascimento. Ele não conheceu seu pai nem tinha informações sobre ele, e minha avó Euzébia já havia falecido.
“Então meu pai escolheu seu próprio nome e sobrenome: José Queiroz do Nascimento, diferente do sobrenome de minha avó, que se chamava Euzébia Maria da Conceição. No documento não consta os nomes de seus avós maternos e paternos e ele mesmo declarou as informações constadas no mesmo. Por isso, meu nome é Lucilene Monteiro do Nascimento (sobrenome escolhido pelo meu pai). ” Depois de fazer seu próprio registro de nascimento, meu pai voltou para o Rio de Janeiro para trabalhar na construção civil como pedreiro. Aqui, em 1975, conheceu minha mãe, que se chama Josete e é vinte anos mais nova que ele. Minha mãe nasceu no bairro da Penha- RJ e veio morar em Miguel Couto aos 10 anos de idade.
Depois de se conhecerem, meus pais namoraram pouco tempo e logo foram morar juntos. Em 1976 minha mãe engravidou e em 10 de março de 1977 nasceu meu irmão mais velho, Leandro. Um fato curioso aconteceu com ele devido à inexperiência da “mãe de primeira viagem”. Um dia meu irmão não parava de chorar e minha mãe já tinha feito tudo para descobrir o motivo (trocar fralda, amamentar, verificar se tinha cólicas, dores de ouvido, etc.) e nada dele parar de chorar. Desesperada, ela então resolveu levá-lo ao médico e foi trocar sua roupa. Foi então que como por um milagre ele parou de chorar e ela descobriu o motivo do choro: o sapatinho estava muito apertado! Foi um misto de alívio e sentimento de culpa... hoje todos nós rimos da situação. Em 1979, no dia 30 de maio nasceu minha irmã Leila. Ela e meu irmão Leandro nasceram em casa, no bairro Geneciano em Miguel Couto- NI. No dia de seu nascimento, a parteira, que era nossa tia e se chamava Genalva, teve que se dividir entre o parto de minha irmã e o de seu neto, que nasceu mais ou menos duas horas antes. Apesar da distância entre os bairros do Forte e Geneciano ela conseguiu ajudar os dois nascimentos: o de minha irmã Leila e de meu primo Antônio. Em 1983, minha mãe ficou novamente grávida e teve alguns sangramentos pelo nariz. Meu pai ficou preocupado e não deixou que meu parto fosse em casa. Nasci na maternidade do Hospital da Posse em Nova Iguaçu e meus pais contaram que meu pai ficou muito nervoso quando não autorizaram sua visita a mim e minha mãe. Então, ele “invadiu” o Hospital com medo de que algo pior tivesse
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acontecido. Mas correu tudo bem e tivemos alta logo. Eu nasci no dia 12 de novembro daquele ano. Em 1988, minha mãe engravidou novamente. Ela acreditava ser um menino, porque mexia muito desde o início da gravidez, e já tinha escolhido até o nome: Felipe. Porém, no dia 4 de março de 1989, nasceu minha irmã Lívia. Ela sempre foi muito levada e nos deu alguns sustos como, quando um vergalhão perfurou sua perna na obra do vizinho, enquanto ela brincava de andar sobre o alicerce. Com medo de minha mãe brigar com ela, ela mesma puxou o vergalhão e foi tranquilamente para casa contar a história. Minha irmã mais velha, Leila desmaiou ao ver como estava sua perna; mas, apesar do susto, não foi nada grave e ela se recuperou rapidamente do ferimento. Em 1983, minha mãe ficou novamente grávida e teve alguns sangramentos pelo nariz. Meu pai ficou preocupado e não deixou que meu parto fosse em casa. Nasci na maternidade do Hospital da Posse em Nova Iguaçu e meus pais contaram que meu pai ficou muito nervoso quando não autorizaram sua visita a mim e minha mãe. Então, ele “invadiu” o Hospital com medo de que algo pior tivesse acontecido. Mas correu tudo bem e tivemos alta logo. Eu nasci no dia 12 de novembro daquele ano.
“Em 1990 meus pais começaram a me ensinar o alfabeto. ” Ambos não tinham quase nenhum estudo, mas o que sabiam tentavam me ensinar. Em 1991, nos mudamos para a casa onde moramos até hoje, no bairro do Forte em Miguel Couto NI. Neste mesmo ano, comecei a estudar no Jardim de Infância
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Ursinhos Carinhosos. A escola era particular e funcionava na garagem da professora e dona da escola, Kátia. Foi com ela que, aos sete anos, aprendi a ler na “Cartilha Alegria de Saber” e, antes de terminar o terceiro bimestre, eu já havia terminado todas as lições. A professora Kátia conversou com minha mãe e disse que eu tinha condições de ser matriculada na segunda série e a convenceu a me matricular no Jardim de Infância Flora Jacobina, onde fui estudar direto na segunda série. Lá, minha professora se chamava Márcia e a escola também ficava no quintal da dona, que era a diretora e se chamava Vera. Lembro de ficar com muito medo da diretora porque eu e todos os alunos presenciamos várias vezes a Vera agredindo seu filho Rodrigo. Ela batia muito e jogava o que tivesse a sua frente nele. Ele não chorava e isso a irritava ainda mais. A professora dizia que quem fizesse bagunça iria ficar de castigo na sala da diretora e isso deixava a maioria dos alunos apavorados.
“Em 1994, aos dez anos fui matriculada pela primeira vez em uma escola pública: o CIEP 351, no bairro da Grama. Eu estudava em horário integral e no começo gostava. Com o decorrer do ano, fiquei um pouco entediada porque as atividades já não aconteciam com tanta frequência e o tempo ocioso era cada vez maior. ” Minha professora se chamava Nilciléia, mas estudei também com outros como Fernando e Washington ( professor de Atividades Culturais) e Aline (professora de Educação Física).
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Em nove de abril de 1994, nasceu meu irmão caçula, David. Minha mãe demorou a acreditar que estava grávida novamente, pois já tinha 44 anos e pensava estar entrando na menopausa. Ele é o “xodó” da família. Entrei em pânico quando ele caiu da cama depois de eu deixa-lo deitado e virar as costas para pegar uma peça de roupa na gaveta. Mas graças a Deus ele não se machucou. Em 1995, fui para a 5° série e como não havia aulas no CIEP para aquele segmento fui transferida para o Colégio Estadual Vicentina Goulart, no bairro Boa Esperança- NI. Achei que não conseguiria passar por causa do número de disciplinas a serem estudadas. Tirei uma nota vermelha no primeiro bimestre em Português. A professora se chamava Neiva, ela conversou comigo e consegui melhorar meu rendimento nos bimestres seguintes. Passei sem dificuldades. Na 7° série, em 1997, conheci a professora Magali, de Matemática, tive muitas dificuldades com a matéria durante o ano, mas com seu jeito preocupado em ensinar de acordo com a realidade em que vivíamos e de maneira bem dinâmica, consegui passar de série. Lembro-me de que o Colégio tinha uma estrutura muito precária: cadeiras quebradas, quadro negro com buracos, muro quebrado, iluminação precária, falta de ventiladores, etc... Apesar de tudo, consegui completar o ensino fundamental e médio sem repetir nenhuma série. Da 5º a 8° séries algumas professoras me marcaram positiva ou negativamente: Neiva, Magali, Rita de Cássia e Marilene. No ano de 1998, começaram as mudanças na minha vida e de minha família. Minha avó materna, Gessy, faleceu dois dias após completar 76 anos vítima de acidente vascular
cerebral. Alguns meses depois, meu pai adoeceu e descobriu que estava com câncer de pulmão. Ele iniciou o tratamento de radioterapia e começou a ficar debilitado fisicamente. Nesse interim, nasceu meu sobrinho Leanderson, filho de meu irmão Leandro, no dia 29 de novembro. Ele foi como um bálsamo para nossa família ao chegar num momento tão difícil. Ao terminar as sessões de radioterapia, foi feita uma revisão no quadro do meu pai e os médicos disseram que ele teve uma metástase. O câncer tinha chegado ao cérebro, rins e fígado além de continuar nos pulmões. A assistência social do INCA disse à minha mãe que nada mais poderia ser feito e que era uma questão de meses para ele falecer. Meu mundo desabou e só não foi pior porque eu já era cristã católica e me apeguei à minha fé para suportar a dor. Meus irmãos mais velhos trabalhavam e eu dividia as tarefas de casa e os cuidados com pai com minha mãe porque ele foi liberado para ficar em casa. Era o ano de 1999 e eu tinha iniciado o ensino médio e me preparava para a Crisma na Comunidade Nossa Senhora das Graças onde participo até hoje. Foi o ano mais difícil da minha vida. No dia sete de agosto, véspera do dia dos pais e aniversário da minha cunhada na época Cristiane, meu pai faleceu. Só Deus sabe o quanto foi difícil nos mantermos de pé, mas graças a Ele suportamos a dor e seguimos em frente. Em 2001, terminei o ensino médio sem dificuldades e a professora Magali (novamente) foi a que mais me marcou. Neste ano, nasceu minha sobrinha Jennifer, filha do segundo
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casamento de meu irmão Leandro com Linneth.
“No ano de 2002, comecei a procurar emprego com o intuito de pagar um curso prévestibular e tentar a faculdade de Jornalismo. O ano passou e não consegui nada além da frustração de permanecer desempregada. ” Em 2003, minha madrinha, Norma, com a intenção de me ajudar, me chamou para trabalhar em sua pequena loja de roupas como vendedora. Aceitei e logo me matriculei no pré-vestibular do Curso Alcance- NI. Prestei vestibular para UFRJ e UERJ. Na UERJ, não consegui pontuação suficiente para Jornalismo nem para minha segunda opção, que era Letras. Não olhei a reclassificação e acabei perdendo a vaga de Letras que consegui na 2° reclassificação. Na UFRJ, fiz a segunda prova doente e sem concentração, zerei Química; por isso mesmo com pontuação suficiente não consegui a vaga que tanto queria em Jornalismo. Fiquei muito triste, mas resolvi tentar de novo e me matriculei novamente no curso no ano de 2004. Neste ano, saí da loja e comecei a trabalhar em uma padaria perto de casa, onde trabalhava de 5 e meia da manhã até às 14h como operadora de caixa. Assim como no ano anterior, eu gastava todo o meu salário custeando o curso. Não tive um bom rendimento no curso e não consegui passar no vestibular novamente. Continuei trabalhando em padaria até 2006, quando comecei a trabalhar na loja de roupas Kananga, em Belford
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Roxo. Neste ano, nasceu meu sobrinho Natan, também do meu irmão Leandro. Em 2007, prestei concurso para a prefeitura de Nova Iguaçu e passei para o cargo de Agente Comunitária de Saúde. Continuei trabalhando na loja até maio de 2009, quando fui convocada. Pedi demissão, mas só tomei posse no cargo em março de 2010 por causa da demora na resolução do processo na prefeitura.
“Voltei a pensar em estudar, não mais Jornalismo porque acredito hoje não ter “vocação”, me inscrevi no Enem de 2011. Consegui uma boa média e comecei a pensar nos cursos que me interessavam; pois agora, tinha uma Universidade próxima à minha casa e ao meu trabalho. Depois de muito pensar e conversar com minha família e amigos, me inscrevi no SISU para o curso de Pedagogia na RURAL de Nova Iguaçu. ” Em março de 2012, comecei o curso pensando em trocar no período seguinte, mas acabei gostando da grade curricular e decidi ficar em Pedagogia mesmo. Desde então, venho aprendendo a ter uma nova e mais ampla visão do mundo, das pessoas e principalmente do sistema educacional brasileiro. Tem sido uma experiência fantástica e pretendo colocar em prática tudo o que tenho aprendido nas aulas e na convivência com todos os que estão no espaço da Universidade e em todo o meu redor.
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ISABELA DA CONCEIÇÃO
E minha história começa assim: Minha mãe nasceu em Minas Gerais. Quando ela tinha 4 anos, minha vó largou meu avô lá na terrinha e veio aqui para o Rio de Janeiro com ela, minha tia Lia e meu falecido tio Zeca. Minha mãe teve que largar os estudos e sair para trabalhar muito cedo, para ajudar em casa. Aos 15 anos ela saia de casa bem cedo para trabalhar na cantina do colégio onde ela trabalha até hoje. Meus pais cresceram praticamente juntos, aqui em Mesquita mesmo. A família do meu pai tinha um bar na esquina da casa onde nós moramos atualmente. Minha mãe sempre ia para lá para bater papo com ele. Em 1971, em uma festa, eles começaram a namorar ao som de "Ana", de Roberto Carlos. Oito anos depois, eles se casaram! Em 1981, eles tiveram o 1º filho: Meu irmão Daniel. AA minha gestação não foi planejada. Quando engravidou, minha mãe já estava com 34 anos e com um filho de oito anos. Meus pais estavam satisfeitos. Já estavam terminando de construir a casa nova com apenas dois quartos! Minha mãe descobriu que estava me esperando, quando entrava no 4° mês de gestação. Quando ficaram sabendo que iam ter uma menina, foi uma felicidade só! Eu era esperada para nascer em janeiro de 1990, mas resolvi adiantar as coisas! Na madrugada do dia 29 para o dia 30 de dezembro de 1989, exatamente às 3 da manhã, a bolsa da minha mãe estourou. Como minha mãe é funcionária do Estado, ela tinha o direito de ter o bebê lá no IASERJ (Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro). O IASERJ fica localizado no
Centro do Rio e meus pais sempre moraram em Mesquita, ou seja, bem longe! Chovia muito. Ao saírem de casa, um vizinho ofereceu uma carona até a pista, onde daria para eles pegarem o ônibus para o centro da cidade. Para sorte deles, assim que saíram do carro, estava vindo um ônibus. O motorista percebeu a situação e foi bem rápido para o seu destino. Minha mãe deu entrada no IASERJ e de lá foi transferida para a Casa de Saúde ProMatre, onde nasci às 07h50min da manhã pesando 3,7 Kg.
“Minha vida na escola começou muito cedo. Costumo brincar que eu já ia para a escola na barriga da minha mãe. ” Sim, eu estudava onde minha mãe trabalha até hoje. Estudei lá até os 14 anos de idade. Assim que eu entrei (novinha, com 9 meses ainda), a escola se chamava Instituto de Educação do Rio de Janeiro (IERJ). Fica localizada na rua Mariz e Barros lá na Praça da Bandeira. Por ser tão longe, eu era obrigada a acordar todos os dias bem cedo. Acordava as 5:00 h da manhã, pois entrava na escola às 7:00h e o colégio era bem rigoroso com a questão do horário. No comecinho, quando eu ainda era bem pequena, a gente pegava um ônibus pirata que saia às 5:30h na esquina da minha rua, lembrando que nós morávamos em Mesquita, cidade localizada na Baixada Fluminense da região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ía minha mãe, minha tia Lia, que também trabalhava na escola, minhas primas (que eram só duas no inicio) e eu. Mais tarde, quando acabou o piratão, a gente pegava o ônibus Central, da linha Transmil. Desciamos na rodoviária Novo Rio e a atravessávamos para pegar o 606 (era
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um ônibus todo verde que passava em frente a escola, mas eu não lembro qual era a linha). Tempos depois, começamos a ir de trem. Agora já éramos 4 crianças: minhas três primas e eu. A gente pegava o Melhoral, também da empresa Transmil e descíamos em Deodoro e de lá pegávamos o trem parador até a Central e soltávamos na estação da Praça da Bandeira (na minha época a estação se chamava Lauro Müller). A gente conseguia pegar o trem e ir sentadas até lá. Tinha um moço que vendia bala no trem. Naquela época era 5 balas por 10 centavos. Todo dia a gente comprava bala. Por fim, a gente mudou novamente o trajeto e começamos a pegar o trem na estação de Edson passos, que fica bem perto da minha casa. A gente pegava o Japeri, que sempre vinha lotado e desembarcávamos na estação de São Cristóvão e de lá caminhávamos para a escola. Teve um período que a gente ía em pé até a escola e na hora de voltar a gente novamente pegava o Japeri, que também era super lotado, mas na volta a gente geralmente ia sentada, pois o pegávamos na Central do Brasil.
“Lembro-me de sempre ficar encantada com a arquitetura neocolonial da escola. Tinha um bosque bem na frente do prédio onde funcionava o maternal, uma biblioteca linda, que ficava localizada em frente a duas piscinas enormes e que atrás desta biblioteca tinha uma enorme árvore de eucalipto! ” Sem falar da pista enorme, cercada de árvores e do chafariz que ficava localizado no pátio do prédio central. Foi lá que conheci minha melhor
amiga: Lívia Sant’Angelo. Ela é filha de uma professora de lá e temos a mesma idade. Sempre estudamos na mesma sala, exceto em um ano do jardim, onde minha turma teve aula com a mãe dela. A Lívia morava na rua de trás da escola. Minha mãe só me deixava dormir na casa dela, porque ela conhecia sua mãe, a tia Leila. Lembro com muito carinho da préescola da escola onde estudei. As cadeirinhas eram pequenas, tinha um parquinho enorme com chão de areia e brinquedos azuis. Tinha um sino, que quando acabava a hora do parquinho, a tia batia e todos corriam em direção a ela para retornamos as salas. Tinha sala de jogos, e uma mini piscina na parte de trás. Hoje em dia ele mudou um pouco. O parquinho está com mais brinquedos, o chão não é mais de areia e tem uma parte do parquinho que foi transformada em uma pequena quadra de esportes.
“Foi na pré-escola que eu aprendi a ler, com cinco anos. A primeira palavra que eu li foi café. Estava na cozinha com a minha mãe, quando comecei a ler o pote de café...” Eu lembro que todo dia na escola a gente cantava a música do alfabeto da Xuxa. Lembro também da dedicação e do esforço das tias para nos ensinar, sempre com muito amor. Foi também com cinco anos que eu viajei pela primeira vez para Rio Novo. Rio Novo é um município localizado em Minas Gerais, onde nasceu e cresceu o falecido marido da minha tia Lia (irmã da minha mãe). Desde pequena eu sempre gostei de ir para lá. Eu ia sempre com a minha tia, meu falecido tio e minhas primas. A avó e as tias da minha prima sempre me trataram muito bem, como se eu
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realmente fosse da família, por isso eu sempre me senti em casa. Pode ficar sempre em contato com a natureza também me atraia muito e até hoje me atrai. A matriarca da casa era a minha avó de conscideração Dona Conceição, vulgo vó Ceição. Todo ano a gente ia pelo menos duas vezes para lá. Essa rotina durou até uns 3 anos atrás. Em 2007 a vó Ceição faleceu. Fiquei arrasada. Não sabia como seria a sensação de voltar lá e não encontrála. Mas, uma hora eu tive que voltar. E foi bom para mim. Amo aquele lugar até hoje! Com seis anos, fui para o ensino fundamental. Cursei o ensino fundamental do ano de 1996 a 2004. Fiquei no primeiro segmento da escola (CA até a 4ª série) de 1996 até 2000. No primeiro segmento, tive experiências que ficaram marcadas, entre elas festas, entrevistas, feiras culturais, gincanas de Educação Física, fora o recreio que era tão aguardado todos os dias... Foi a partir do ensino fundamental, que Lívia e eu começamos a aumentar nosso circulo de amizades. Nos aproximamos mais da Sarah, do Julio (que também era filho de uma professora de lá) e do Marcelo.
“A escola onde eu estudava foi claramente projetada para os filhos e filhas das famílias elitistas do Rio de Janeiro. Era nítida a diferença entre eu, negra, moradora da baixada fluminense e de família pobre, e a maioria das pessoas que estudavam lá. Começava com os sobrenomes: Sant’Angelo, Sathler, Veríssimo,
Bragança, Kreder… E o meu? Ferreira. Em todas as minhas turmas, o número de jovens negros era baixíssimo. Éramos 5 ou 6 em um grupo de 30. Inacreditavelmente, essas diferenças nunca me afetaram significativamente. ” Ainda tenho gravado o nome de todas as professoras do primeiro segmento. Cada uma me marcou de alguma forma: Tia Márcia, do CA, uma vez brigou comigo porque as folhinhas não estavam coladas no meu caderno; Tia Penha, da 1ª série, me ensinou matemática, Tia Neide, da 2ª série, colocou na sala um elevador de mentirinha para nos ensinar os números ordinais, Tia Mônica, da 3ª série, colocava adesivo de sapinho nos cadernos mais ordenados e a Tia Rosana, da 4ª série, colocava medo nas crianças só com o olhar. Todas essas professoras foram importantes para o meu processo de formação. Cada uma, do seu jeito, me ensinou algum valor, alguma virtude, algum ensinamento, que carrego comigo até hoje. Ah! Ainda tinham as festinhas de fim de ano! Eram maravilhosas! A gente assinava a camisa um do outro, tinha aquelas lembrancinhas de fim de ano feitas com garrafas pet, fora a felicidade e a expectativa do pessoal de chegar logo as férias. Bons tempos. O ginásio na minha antiga escola ficava em outro prédio. A ida para o ginásio foi cheia de expectativas. Afinal, estaria indo para outro lugar, com novos desafios, novos professores, novas pessoas... Foi quando eu fui para o ginásio que passei a conhecer os pontos turísticos
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do centro do Rio de Janeiro. Praticamente toda semana, tínhamos que visitar algum museu ou centro histórico para fazer algum trabalho. Seja de geografia, de história, de artes, sempre íamos passear. Quando tivemos acesso ao Rio Card Estudante, aí mesmo que a gente saia! O céu era o limite para nós! Eu adorava estudar no ISERJ, mas a distância já estava começando a incomodar. Não é a toa que nos últimos anos do ensino fundamental, minhas notas tiveram uma pequena queda. Eu não queria mais estudar lá. Nunca podia sair de noite com minhas amigas. Como na minha turma a grande maioria havia nascido em 1989, em 2004 foi o ano das festas de 15 anos. Só pude ir em uma festa, a da Carol (filha da Tia Sandra, outra professora de lá) e só fui porque eu pude dormir, como sempre, na casa da Lívia. Eu nunca podia ir ao shopping no fim de semana porque eu morava longe... Teve uma vez, na 6ª série se eu não me engano, que uma professora de história chegou toda animada falando que tinha um projeto chamado carioquinha que era só levar o comprovante de residência provando que você morava no município do Rio que você ganhava desconto nos pontos turísticos do Rio. Ela resolveu marcar um passeio. Só que eu não poderia ir, já que eu morava em Mesquita. Fiquei frustrada! Foram essas e outras coisas que me fizeram querer mudar de escola. Queria ir para uma escola mais perto da minha casa, queria acordar tarde, queria falar sobre as coisas que estavam acontecendo no meu município.
Em 2004, fiz prova para o CEFET/NI e para CEFETEQ. Achei que tinha ido mal na prova do CEFETEQ e nem conferi o resultado. Passei para o CEFET de Nova Iguaçu, mas só para fazer o técnico. Escolhi Telecomunicação. Comecei a fazer o técnico de manhã uma vez por semana e o ensino médio eu fazia numa escola de curso normal todos os dias durante a tarde. Comecei a fazer o técnico de Telecomunicações e não gostei, mas estava gostando muito do curso normal. Abandonei o técnico. Foi em 2005 que tive meu primeiro namorado: o Alisson. Ela era baterista da Beija-Flor e eu estava toda apaixonada por ele. A gente namorava escondido, pois meus pais falavam que eu não tinha idade para namorar ainda. Mas, como ele queria namorar em casa, eu o levei até minha casa para ele me pedir em namoro para os meus pais. Eles não deixaram… A gente ainda ficou namorando por uns 2 anos, mas depois terminamos. No fim de 2005 fiz novamente prova para o CEFETQ e passei para o 2º semestre de 2006. Fiz minha matrícula lá e abandonei o curso normal. Entrei no 2º semestre de 2006 para fazer o Técnico em Química com ênfase em controle Ambiental junto com o ensino médio. Na minha turma de lá, eu era a única aluna que tinha feito o ensino fundamental em escola pública. A escola é enorme, tem uma grande piscina, quadra esportiva, além dos inúmeros laboratórios. Era muito tenso estudar lá. Éramos cobrados o tempo todo e o ano passava muito rápido, pelo fato de em 1 ano, você fazer 2 períodos. Eu amava os laboratórios, as visitas técnicas, as pessoas. Mas o que eu mais gostava era a liberdade que o aluno tem ali dentro. Só se forma
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quem realmente quer se formar. Muitas vezes fui obrigada a escolher entre jogar sinuca na esquina ou assistir a uma aula de matemática.
Em 2010, consegui um estágio no laboratório de microbiologia de uma pequena empresa de cosméticos que fica localizada na Curicica. Eu gostava
Foi importante para a minha formação. Era um exercício para minha maturidade decidir o que era importante para mim naquele momento e o que seria importante para mim no futuro... No tempo que eu passei no CEFETQ, o que mais me marcou foram as saídas técnicas. Conheci muitos lugares legais. Aprendi coisas muito interessantes. No dia 5 de julho de 2008, minha mãe me chamou para ir na festa julina do trabalho dela. Eu fui e lá conheci o Wellington, nós ficamos, trocamos telefones e no sábado seguintes nós saímos. Ficamos saindo por quase 2 meses. No dia 31 de agosto de 2008, ele foi na minha casa pedir para namorar comigo. Dessa vez meus pais aceitaram. Estamos juntos até hoje. Em 2010, ele me pediu em casamento e em novembro desse ano vamos nos casar.
muito de lá, mas eu tinha que acordar muito cedo e chegava muito tarde em casa, por causa da distância. Foi lá que eu descobri que eu era alérgica a alguns compostos químicos. Fiquei lá por 6 meses. Meu chefe, seu Antônio, queria renovar meu contrato de estágio, mas eu não quis.
“Em 2011, me formei na escola técnica e comecei a trabalhar na área de técnico em química. Não gostei muito. No mesmo ano, fiz prova para auxiliar de educação em infantil para o município de Nilópolis. Passei no concurso e em 2012 comecei a trabalhar em uma creche. Ainda em 2012, comecei a fazer a faculdade de Licenciatura em Química no IFRJ. Não gostei e cancelei minha matricula para fazer Pedagogia na UFRRJ, onde estou atualmente. ”
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MIRIAM DE OLIVEIRA
Início: Contando em síntese a história da família Oliveira, formada por Sr. João Henrique de Oliveira e Sra. Maria Rosa de Oliveira, que residiam na cidade de Barra Mansa, interior do Rio de Janeiro, foram muitas as tentativas de ter filhos; porém, nenhuma das gestações foi até o final. Uma, porém, “vingou” e, no dia 05 de maio de 1928, nasceu Antônio de Oliveira, em um parto difícil feito na residência do casal, o pai não estava presente na hora do nascimento da criança, por este motivo, os vizinhos foram ajudar à parteira; meia hora após o nascimento da criança, veio a notícia de que o Sr. João Henrique havia falecido em um acidente, esta notícia deixou a todos abalados. A Sra. Maria Rosa; então, teve uma forte hemorragia e, enquanto ela piorava, as pessoas da casa ficaram em polvorosas correndo e gritando de um lado para o outro, então alguém teve a ideia de levar o recém-nascido para o lugar mais silencioso da residência, indo ele parar em um galinheiro, duas horas de confusão e desespero se passaram quando então a Sra. Maria Rosa veio a falecer, quando a noite chegou, o Sr. João Henrique chegou em casa e todos se assustaram, foi quando informaram que o falecido era um vizinho homônimo que havia sofrido o tal acidente.
O menino, então, havia sido levado à residência de uma das vizinhas que perdera filhos gêmeos há pouco tempo e tinha leite de peito para amamentar o pequeno órfão. Ele cresceu sendo cuidado por esta família que o acolheu como filho, já que seu pai Sr. João Henrique tinha e necessitava de trabalhar.
Esta família era formada pelo Sr. Augustino da Costa, Sra. Rosalina Lemos da Costa e suas filhas Laurita e Carolina. Como era marceneiro e carpinteiro o Sr. Augustino viu a necessidade de vir para a Capital em busca de melhores condições de trabalho, pelo crescimento da cidade e das fábricas de móveis, comprou um terreno no bairro de Ricardo de Albuquerque, subúrbio do Rio de Janeiro; e, então, trouxe toda a família e em acordo com o Sr. João Henrique o menino Antonio veio junto com a família adotiva, que cresceu com a chegada de Luiza, Zenith, Zeny, Zica e Zenaide. Do Sr. João tiveram poucas notícias através de cartas que cessaram com o decorrer do tempo, ao filho adotivo foi ensinado o ofício do pai, assim Antonio se tornou marceneiro e
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carpinteiro, também mestre de obras. Toda a família frequentava a igreja batista e Antônio participava de conjuntos e corais; na escola, não passou da quarta série primária. Agora, passo a contar a história da família Souza Rodrigues, que residia no interior do Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, na cidade de São José de Ubá. A Sra. Maria Luiza casada com o Sr. Dionisio era cozinheira e fazia a comida dos peões que trabalhavam na lavoura. Sr. Dionísio era caixeiro viajante e ela teve um enlace extraconjugal com um dos trabalhadores da lavoura. Ele era negro; no mesmo dia, seu esposo chegou de viagem e tive também relações com a esposa, quando nasceram as gêmeas, Maria Luiza (branca) e Maria José (negra). Sra. Maria Luiza concebera, no mesmo dia, de duas relações diferentes, dando origem as gêmeas tão diferentes. Maria José cresceu sendo a vergonha da família, pois era filha ilegítima, não foi à escola, não frequentava a casa dos parentes, pois somente alguns a aceitavam. Cresceu sendo excluída podendo somente trabalhar. Havia, porém um primo que por ela se encantou, Antonio Rodrigues Sobrinho, primo em primeiro grau que se incomodava com a maneira que Maria José era tratada e com ela se casou. Desta união nasceram Doralina e, em 18 de abril de 1929, nasce Doralice depois Demétrio, Doracy e outros onze
irmãos. No meado de 1934-1935, Maria José fica doente e vem para se tratar na casa de um parente no Rio de Janeiro; a esta altura, o casal tinha cinco filhos, como o tratamento demorou, o agricultor, Sr. Antônio caminhou com as cinco crianças e um burrinho de São José de Ubá até Cavalcante no Rio de Janeiro, o animal morre no caminho e a viagem leva mais de um mês. Chegando ao Rio de Janeiro a família vai morar no bairro de Cavalcante. Antônio começa a trabalhar na Light e compra uma propriedade em Nilópolis; tempos depois, perde esta propriedade para um despachante, consegue adquirir outra em Engenheiro Pedreira, a qual perdeu também para alguém de má índole. Para ajudar os pais Doralice trabalhava desde muito cedo, estudou apenas até a terceira série primária, pois entrou na escola com doze anos onde foi sozinha se matricular, por que para os pais, mulher não precisava saber demais estas coisas. Então, faltava muito às aulas e saiu da escola com três anos de estudo. Frequentadores da igreja Batista, Doralice cantava em conjuntos e corais, foi assim que conheceu Antonio de Oliveira, os dois então começaram um relacionamento que pela família de Doralice não era muito aceitável, pois além de ser feio, Antonio era negro, e a família mesmo tendo sido formada por uma questão de cor e raça e preconceito, repetiu a história de maus tratos e preconceitos que outrora sofrera.
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Apesar de todos os olhares contrários, Doralice e Antonio se casaram em cerimônia pequena e sem a presença dos pais dela, com o tempo, depois de provar que era responsável e que poderia dar uma boa condição à família, ele foi aceito pela família dela. Desta união nasceram sete filhos: Antonio Roberto em 1954, Rosaura em 1955, Neila em 1957, José Augusto em 1958, Rosani em 1960, Wilma em 1961 e faleceu em 1963 e Míriam (eu) em 1967. Morávamos em uma casa construída nos fundos do quintal da família Costa (a família adotiva do meu pai) quando nasceram todos os filhos; após perder Wilma que morrera com um ano e oito meses de meningite, minha mãe engravidou de mim, como era a sétima gestação e ela já estava com 38 anos e alguns problemas de saúde o médico achou por bem fazer uma cesariana com laqueadura. Em meados de 1973, após vários episódios de traição de meu pai, mudamos para a Pavuna. Eu tinha seis anos e ainda não tinha ingressado na escola; no ano seguinte, minha mãe tentou uma vaga no sistema municipal de ensino, porém apesar de ter dormido na fila não conseguiu a vaga, foi então que ela tentou uma vaga em uma escola particular que abrigava excedentes do governo. Fui, então, matriculada no Ginásio do Instituto Santo Antonio, uma escola de freiras onde cursei da alfabetização até a quinta série, lembro-me de que passei por vários percalços nesta escola, pois tudo era pago e minha mãe nem sempre tinha dinheiro para arcar com as despesas extras, meu pai havia saído de casa e morava longe de nós, ele não ajudava em nada na questão financeira. Passando por algumas necessidades, principalmente, após a saída do meu pai, fui por alguns, humilhada por minha condição de
bolsista. Quando fui para a sexta série, minha mãe me levou para o Grajaú, casa onde ela trabalhava como doméstica. Lá tive a oportunidade de estudar inglês, fazer atividades que antes não tinha a oportunidade de fazer, a casa onde minha mãe trabalhava era de intelectuais, a Sra. Eunice era advogada e cantora lírica, ele Engenheiro da Rede Ferroviária, os filhos na faculdade, um de arquitetura e outra de medicina e pianista. Passei, então, ali um dos melhores anos de minha vida e adquiri
um gosto bem eclético, aprendendo a apreciar um bom livro, peças teatrais, ópera, música clássica, música popular, museus e tantas outras coisas que minha mãe não poderia me oferecer, mas tinha que me manter distante do filho mais novo da família e dormir no quarto de empregada apesar de fazer as refeições à mesa
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servidas pela empregada que era minha mãe. Voltei para casa e fui estudar na escola Municipal Professor Alberto José Sampaio, minha vontade era voltar ao Santo Antonio; porém, apesar de ser oferecida bolsa de cinquenta por cento, não poderíamos pagar, foi quando me revoltei e não me interessava pelos estudos, repeti a sétima série e, no ano seguinte, encontrei uma das melhores turmas com a qual já estudei, meus amigos eram incentivadores, agregadores e me tratavam muito bem. Fui aceita de braços abertos por todos, e terminamos juntos o primeiro grau. No segundo grau, estudei na Escola Estadual Professor José Aciolli, no bairro de Marechal Hermes, lá também fui muito bem recebida e acolhida, fiz amizades que carrego por toda vida, e minha entrada nesta escola também foi conturbada, pois na época fizemos prova para a admissão e minha primeira opção era o Colégio Professor Murilo Braga, porém não consegui a vaga, sendo classificada para outra escola que nem sabíamos onde ficava. Foi
quando, minha mãe conversando com sua patroa D. Leda, e ela disse que seu vizinho era diretor adjunto na Escola Professor José Aciolli e que pediria a ele para trazer minha matrícula para esta escola, foi então que conseguimos a vaga. Finalizei o segundo grau estudando à noite, pois tinha que trabalhar, não fiz o vestibular porque estava trabalhando e não sobrava tempo. Casei, em 1993, com Jaqson da Silva, que estudara comigo no segundo grau, e tivemos dois filhos: Joyce, hoje com 19 anos, que acaba de conseguir uma vaga pelo Prouni, e Jaqson Júnior, com 14 anos que cursa o nono ano do ensino fundamental. Apesar da vida difícil, mamãe conseguiu formar duas filhas como professoras; sendo que, uma delas cursou sete semestres no curso de Pedagogia e eu fiz formação geral e hoje, apesar de considerar tarde, estou na universidade. Minha família, apesar das adversidades, preconceitos, falta de oportunidade, conseguiu com suas lutas, derrotas e vitórias, está, como disse antes, crescendo e evoluindo.
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MARTA FELIPE Entrevistei as pessoas idosas da minha família considerada hoje como matriarca, pois infelizmente as outras já faleceram. Inclusive minha mãe Maria da Glória que era a mais nova dos irmãos. Minha tia Nadir Felippe a irmã do meio de minha mãe, hoje com setenta e cinco anos, me concedeu a entrevista em sua residência situada em Nova Iguaçu bairro Ipiranga. Estudou pouco até a segunda série, narrou não ter percebido discriminação na sua infância. Porém, recordou-se de ter ido trabalhar cedo, ainda na adolescência em casa de família e que naquela época a entrada nos prédios era por uma entrada diferente para os empregados e moradores. A comida era servida primeiro para os patrões, o empregado só podia comer após o término da refeição deles. Fato que me reportou ao estudo do vídeo “OLHOS AZUIS”, o qual a Professora faz a demonstração do preconceito racial existente nos EUA. Por causa da cor dos olhos das pessoas através de uma experiência com grupo determinado. E de como sempre se fez a mesma coisa no Brasil, com atitudes veladas como estas citadas por minha tia Nadir. “A vida na infância e adolescência encontrou dificuldades com a falta de água encanada. A água era de poço no quintal e precisava ser carregada inclusive para ajudar a mãe que precisou lavar roupa para fora, após ficar viúva e com a responsabilidade de criar os cinco filhos menores. ” Narrou que o pai trabalhava com carregamento no Cais do Porto e nesta época a mãe só cuidava da
família, onde não faltava nada em casa. “Dos irmãos que foram quatro narrou serem as três irmãs domésticas e o único irmão pedreiro. Nenhum deles com o primeiro grau completo”. Sobre o Rio antigo lembrou apenas que era tudo mais difícil para se obter as coisas em relação aos dias de hoje. Pois a casa de sua infância era de taipa e hoje ela tem uma casa confortável de tijolos. Da avó a recordação é de uma rezadeira conhecida e procurada por pessoas de vários lugares, para cura de várias doenças. Lembrou-me neste momento do vídeo de BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS sobre o tema EPÍSTEMOLOGIAS DO SUL, que fala dos variados tipos de conhecimentos, onde um não deve ser desprezado em prol de outro. De como a sabedoria popular, sem o conhecimento acadêmico, com o uso de ervas e rezas estiveram presente e enriqueceram a vida de minha família. E o detalhe é que não havia custo para aquele que buscava ajuda. Uma cultura perpetuada pelas gerações anteriores sofridas, porém, cônscias de sua importância naquela comunidade. Minha tia Edna Rodrigues Chagas, 83 anos me concedeu entrevista na avenida Luiz Palmier n° 280 – Torre 3 – Apto 507 –BarretoNiterói –RJ. É assim, considerada por todos nós da família por ser a mais idosa. Sendo está na realidade prima de minha mãe. Tia Edna é filha de uma tia de minha mãe que faleceu deixando dois filhos pequenos, foi criada por seus tios Abigail Moura e Oswaldo Moura, que ficaram no lugar de seus pais e que concretizaram a sua criação. Tia Edna também estudou apenas até a segunda série primária, residia com seus tios, ela do lar ele funcionário da rede ferroviária
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com a profissão a princípio de foguista e depois de maquinista. Recordou-se da avó Francisca que era muito carinhosa e rezadeira conhecida por muitos e também das tias das quais destacou tia Iolanda uma conhecida mãe de santo em Inhaúma, procurada para consultas aos orixás e para pôr as cartas. Segundo ela havia muita comida na mesa, pois existiam criações e plantações no quintal. Os irmãos também não terminaram o ensino fundamental, a irmã foi manicure, um irmão operário e outro carteiro. A respeito da discriminação racial, declarou não ter percebido se essa ocorria e hoje não a percebe, quando vai as lojas, faz viagens com a filha. Nascida nesta família em 1961, posso relatar uma infância agradável e feliz, em uma casa simples, porém
confortável onde a comida era farta. Já o vestuário, era uma vez no ano sempre no Natal. Quando meu pai comprava um par de sapatos para cada filha e minha mãe confeccionava as roupas que eu e minhas duas irmãs iríamos vestir. O detalhe é que o tecido era sempre o mesmo para todas o que ajudava a economizar. A vida de nossa família ficou difícil com o falecimento precoce de meu pai aos trinta e sete anos, deixando três filhas menores. Neste período eu frequentava a sétima série do antigo ginasial e foi lá que tive minha primeira experiência de discriminação racial.
“Levava como merenda frequentemente pão com manteiga e açúcar e uma banana. De repente passei a ser perseguida pelo apelido de “macaca” por um colega de classe. Passei a comer minha merenda escondida, porém a perseguição continuou. Com isso desenvolvi uma aversão a banana que nunca mais me permitiu comê-la. ” Avançando no tempo com o término do ginasial e por necessidade financeira de minha mãe fui trabalhar em casa de família. Permanecendo na informalidade sem carteira assinada na função de doméstica por muitos anos. Já que esta era a referência da família e todas as minhas tias e mãe fizeram este trabalho desde adolescência para sobreviverem. A escolha dessa função de trabalho para minha mãe era muito natural. Já casada e com dois filhos retomei os estudos onde conclui o curso normal. No ano de 1991 ingressei no magistério de Nova Iguaçu onde trabalho até hoje, a necessidade de cursar a faculdade sempre existiu, uma vez iniciei na Universidade Gama Filho, mas por falta de recursos não fui em frente. Hoje agarrei a oportunidade do PARFOR e encontrome feliz em poder concretizar de fato o curso de Pedagogia que vem a somar com minhas experiências vividas em sala. Que vejo hoje estarem em muitos momentos ligadas as minhas memórias de experiências anteriores ilustradas no vídeo ESTUDOS AUTOBIOGRÁFIICOS 1 e 2. Pelas professoras pesquisadoras que fazem demonstrações de que muitas atitudes tomadas em sala fazem parte de um repertório de experiências anteriores das quais eu não havia jamais associada a tal então longo período em sala de aula.
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GABRIELE GREGÓRIO
Talvez você não compreenda uma autobiografia iniciando-se assim, é, mas a verdade, é que mesmo nascendo em 1996, eu comecei a minha vida, uma “vida normal”, vida que toda criança deve ter aos 5 anos, aproximadamente. Meu nome é Gabriele Suelem Gregorio Mariano, tinha por mãe biológica, Andréia da Silva Regis. Com poucos meses de idade, vim de São Paulo para Shangri-lá, Belford Roxo, com minha mãe, morar na casa de meu avô, que tinha em seu terreno duas casas, na qual uma alugava e na outra morávamos, eu, minha mãe e meu avô. Ela não possuía trabalho, e provavelmente, era ajudada por seu pai, meu avô, que veio a falecer, e o seu sustento continuou ainda pelo dinheiro do aluguel da casa, e por seu marido Vandiomar, conhecido como “Batata”, através dessa união nasceu Yasmin, minha irmã. Andreia Régis, era muito desinteressada, no assunto maternidade; pois, após o nascimento de Yasmim, entregou a menina para sua sogra, mãe de Vandiomar. Constantemente saía, e eu, acabava ficando com Vandiomar, em casa sozinha, ou até mesmo na casa de vizinhos. Com tudo isso, tornando-se costumeiro, uma família vizinha da frente, mais precisamente Suely, que tinha um vínculo de amizade com minha mãe, propôs que todas as vezes em que minha mãe saísse deixasse-me com ela, para que eu não ficasse solitária, pulando janelas, chorando e correndo riscos na rua. Essa família era composta por Valmir, o pai; Suely, a mãe; e Denis e Deivisson, os filhos. Através do abraço
deles, começou a ser mais comum minha rotina com esta família, do que com minha mãe biológica. Certa vez, Andreia, minha mãe, saiu e definitivamente desapareceu, e eu acabei ficando com Vandiomar, meu padrasto, que mesmo tendo inúmeros defeitos cuidou de mim, e mesmo com o pedido de minha mãe adotiva hoje, Suely, de que deixasse ela cuidar de mim, ele se negava a me entregar, afirmando que eu estava muito bem com ele e, agora, com sua nova companheira, Tânia, que morava também na região. As notícias “rolavam”, e o desaparecimento de Andreia foi relatado como morte, porém sem a localização do corpo, o próprio Vandiomar, que depois de alguns meses também foi assassinado, matou Andréia.
“A única lembrança que tenho dela, é a que estou sentada em uma cadeirinha, bem baixa, e ela estando de pé, me dá um copo com leite em pó, algo que amo até hoje, porém não lembro do rosto, do cabelo, do cheiro, do jeito, mesmo com as pessoas dizendo que eu sou idêntica a ela, desde a fisionomia, até o jeito extrovertido. (Desejei questionar o porquê acontecer comigo, mas emocionada entendi que tudo tem um propósito) ” Eu estava morando com Vandiomar e sua companheira Tânia, mas com as notícias das mortes; Suely, logo correu até a casa de Tânia para me buscar e ela me entregou, fomos até
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minha casa antiga, pegamos minhas coisas, e o papel da maternidade para meu registrarem, pois com dois anos de idade ainda não havia Certidão.
“Andréia, sempre saindo, prometendo a volta e me deixando com Suely e Valmir. Porém, certo dia nem ela, Andréia, nem ele, Vandiomar, voltaram, e meu endereço passou de Rua Neide Afonso, lote 7, quadra 14, para Rua Neide Afonso, lote de número 43 e quadra 15. (Depois dessa escrita chorei bastante). ” Valmir, meu pai adotivo, hoje, acabou me registrando ilegalmente, pois não era meu pai biológico, com o nome de Gabriele Régis Mariano, tudo para me proporcionar uma vida “normal”, matricular na escola, participar das vacinações, pois não havia tomado nenhuma, o que deixou minha imunidade baixíssima, aliando-se a má alimentação que tinha antes. Nesse tempo lembro de algumas reuniões da família de meu pai, e das perguntas que faziam ao meu respeito, e o quanto me tratavam bem. Lembro-me de minha Tia Isabel, irmã de meu pai me perguntar minha idade e eu responder, três anos. Após alguns meses, a mãe de meu padrasto, Eliane dos Reis Magalhães, que morava em Ramos, alegando ser minha vó vai até Tânia, querendo me encontrar, nessa época eu ficava com meu irmão de onze anos em casa, enquanto minha mãe trabalhava em uma escola, atrás de nossa casa. A filha de Tânia traz Eliane até a minha “nova casa”, e me leva, convencendo meu irmão a me deixar levar e que eu
já voltaria. A partir daí, segue-se a busca implacável por mim. Antes somente Tânia sabia onde Eliane morava, porém, dizia não querer se “meter” na história, ficaram a minha procura cerca de um mês, meu pai que trabalhava embarcado, foi retirado da plataforma com a notícia de que sua filha havia sido sequestrada. Alguns vizinhos eram parentes de Eliane, outros a conheciam, porém com a ajuda de uma senhora chegaram até o Complexo do Alemão com a informação de que ela trabalhava em um “Brizolão”, como merendeira, porém com a imensidão do lugar passaram o dia dentro de um fusca, com muita chuva a espera de Eliane, e descobriram que não era essa a Escola. Após quase um mês, deixando trabalho, os dois outros filhos com os avós maternos, encontraram o Brizolão, e o endereço de onde morava Eliane. Com as emoções afloradas, pediram a ajuda de um guarda de trânsito que os aconselhou a irem até uma Delegacia, lá relatam o meu “rapto”, porém hoje sei que ela também queria me proteger como eles, ela desejava que eu crescesse ao lado de minha irmã, onde através desse projeto estrei conhecendo. A polícia saiu de encontro ao endereço, invadindo a casa, e eu estava debaixo da cama, escondida, fomos todos levados à delegacia, pois Eliana declarava que era minha vó paterna, enquanto Valmir, tinha em mãos uma Certidão de Nascimento. Valmir, ao prestar os depoimentos contou somente a verdade, inclusive do meu Registro ilegal, já Eliana continuou declarando ser minha vó, logo, tive que ser levada para um
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orfanato pois ninguém provava minha paternidade.
“Tenho poucas lembranças daquele lugar, talvez duas ou três, e não são positivas. Lembro-me de algo forrado no chão, talvez esteiras de palha com pano por cima, mas tudo individualizado, cada criança com a sua, e naquele momento todos deveriam dormir, era uma tarde, e eu não sentia sono, cansaço, ou algo parecido, mas eu deveria ficar lá e dormir. Em outro momento me lembro de estar em um lugar com crianças negras. Somente sensações ruins tenho daquele ambiente. ” Com o processo aberto, as visitas eram feitas e grande parte de minha família adotiva me visitava, já na parte de Eliana era diferente. Muitos depoimentos sendo prestados, várias alegações das duas partes, porém quando o advogado fez a proposta de um exame de DNA, para provar que Eliana era minha avó, ela começou a desinteressar-se compreendendo os riscos que correria quando descobrissem a verdade, logo, abriu mão de mim. Sendo assim aos 5 anos, após um longo processo burocrático para a minha adoção, com guardas provisórias, visitas de Assistente Social, Valmir Mariano, que não teve problemas com meu registro ilegal e Suely Gregório Mariano, tiveram êxito e até hoje estou com eles e meus irmãos, Denis Vitor Gregório Mariano e Deivisson Vitor Gregório Mariano. Creio que mesmo passando por todas as dificuldades em meu processo de
adoção, algo pesou menos, pois uma criança branca e com requerentes é muito mais fácil de ser adotada, pois de acordo com a juíza Andréa Pachá, titular da 1ª Vara de Família de Petrópolis (RJ) “é um dado estarrecedor”, saber que de a cor da pele ainda é fator decisivo na adoção: dos 30.378 inscritos na fila da adoção, 11.316 só adotariam uma criança se ela for branca. Já em Brasília – Três anos após a criação do Cadastro Nacional de Adoção, as crianças negras ainda são rejeitadas por famílias que desejam adotar um filho. A adoção inter-racial continua sendo um preconceito: das 26 mil famílias que aguardam na fila da adoção, mais de um terço aceita apenas crianças brancas. Enquanto isso, as crianças negras (pretas e pardas) são mais da metade das que estão aptas para serem adotadas e aguardam por uma família. Tive o desejo de relatar todo esse período da minha infância, pois isto tudo me trouxe a uma família negra, o que para mim não é problema, mas para muitos tornava-se algo inusitado. E sempre me deparava com as mesmas perguntas, “ela é sua mãe? ”, “mas você é tão branquinha”, “seu pai é branquinho, não é? ”. Durante muito tempo, com toda paciência sempre explicava, eu sou filha de criação, pois meus pais nunca me esconderam, mas em um determinado momento comecei a ficar intolerante com a inconveniência das pessoas, e eu tendo minha vó adotiva, branca de olhos azuis via um escape, quando me perguntavam com delicadeza, respondia a verdade, já quando me perguntavam com impudência respondia “minha avó materna e branca de olhos claros, tem um cabelão, puxei a ela”.
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Após a adoção tive a oportunidade de ter uma vida tranquila de acordo a minha necessidade, fui à escola, tive amigos, brinquei na rua, e eu andava sempre com minha mãe, ela tinha uma bicicleta, era seu meio de transporte, e durante um período ela sofreu ofensas por conta de sua cor. Uma vizinha que tinha 3 filhos, a obseração é que eles eram brancos, todos eles, olhos claros, e a mãe sempre ficava no portão com eles, brincavam na calçada, como crianças, porém a inocência ía embora quando minha mãe passava, porque a filha mais velha exclamava com propriedade a palavra macaca, por conta da cor do animal, e isso acabou se tornando rotina, todas as vezes, e a menina fazia na frente de sua mãe, e aquilo começou a ficar intolerante quando, pois era perceptível que a vizinha/mãe nada falava, pois aquilo se repetia dos as vezes. Foi então que minha mãe decidiu falar com a menina, com os pais, e tudo se resolveu. Tive o desejo de relatar todo esse período da minha infância, pois isto tudo me trouxe a uma família negra, o que para mim não é problema, mas para muitos tornava-se algo inusitado. E sempre me deparava com as mesmas perguntas, “ela é sua mãe? ”, “mas você é tão branquinha”, “seu pai é branquinho, não é? ”. Durante muito tempo, com toda paciência sempre explicava, eu sou filha de criação, pois meus pais nunca me esconderam, mas em um determinado momento comecei a ficar intolerante com a inconveniência das pessoas, e eu tendo minha vó adotiva, branca de olhos
azuis via um escape, quando me perguntavam com delicadeza, respondia a verdade, já quando me perguntavam com impudência respondia “minha avó materna e branca de olhos claros, tem um cabelão, puxei a ela”. Com um sútil teor de intolerância. Lembro-me que em meu aniversário de quinze anos fiz com minha mãe Suely, uma viagem para o Parque Mundo Mágico do Beto Carreiro, em Santa Catarina e uma senhora que estava lá, ao ter conhecimento de que Suely era minha mãe, rapidamente indagou, dizendo que ela era minha mãe adotiva, pois eu era branca e minha mãe negra. Todos que estavam perto a repreenderam, dizendo ser uma atitude muito desnecessária. Durante esses dezoito anos, pude observar em minha vida os olhares assustados das pessoas quando eu chamava minha mãe, mas também, as palavras engraçadas, pois alguns diziam que ela mesmo sendo negra, é muito parecida comigo.
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FERNANDA APARECIDA O meu nome é Fernanda Aparecida de Oliveira, sou negra, tenho 25 anos, tenho um irmão Adriano Gomes de oliveira (27) somos nascidos e criados no município de nova Iguaçu RJ. “A minha história é narrada pela minha mãe com ajuda do meu pai, e de várias recordações que nos fez lembrar de coisas que estavam guardadas no passado (como fotos). ” Sou filha de negros, Francisco Gomes de Oliveira (67) e Lizete de Fatima Oliveira (56), nascido em Dores do turvo Minas Gerais. Quando eu comecei a preparar a minha narrativa, busquei várias coisas que pudesse me ajudar a lembrar de algumas coisas que aconteceram no passado, achei um pouco difícil, mas não impossível, ao buscar coisas que pudessem me fazer lembrar, eu li uma frase que achei muito interessante e que faz total sentido na minha vida ela diz assim: “Quero trazer na memória aquilo que me dá esperança”. Acredito que essa frase não faça só sentido para mim, mas para muitas pessoas. A minha história começa assim Lizete de Fátima de Oliveira, sendo a 9º filha entre 14 irmãos, filhos de Leopoldina Domingues, 89 e Antônio Gomes de Oliveira 89. A minha mãe diz que na infância dela tudo era mais
aproveitado do que nos dias de hoje, ela conta que a pesar de ter as tarefas de casa, ela teve uma infância onde ela se divertia com que tinha. Antigamente as brincadeiras eram mais saudáveis, eram realmente brincadeiras de criança, brincávamos muito: de passar anel, de pique esconde, perna de pau, subindo em árvores, montava cavalo no bambu, essa era umas das melhores brincadeiras, pendurávamos no cipó; e claro tudo era escondido do papai, todos nós tínhamos um respeito muito grande por ele, podíamos brincar, desde que os afazeres estivessem prontos. Eu lembro que uma vez, estávamos brincando, quando percebíamos que ele estava vindo, rapidamente parávamos de brincar e procurávamos o que fazer ou ficávamos quietinho sentado. Entre as brincadeiras também estudávamos e trabalhávamos muito. A escola era muito distante, (5km) andando eu e os meus irmãos, chegávamos sempre as 10:00 da manhã e saiamos 15:00 da tarde, o ensino era muito diferente, a professora era muito rígida. Era uma professora para 40 alunos, vinha muitos alunos de outras cidades, todos nós ficávamos na mesma sala, ela dava aula para várias turmas ao mesmo tempo, era 1º, 2º e 3º. A pesar da turma ser cheia, todos da turma respeitavam a professora. Um dois meus irmãos chegou leva palmatória, por que brincava muito na sala de aula, até de joelho no
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milho ele ficou uma vez. Como na escola não tinha merendeira, nós alunos que fazíamos a nossa própria merenda. Quando chegávamos em casa, ainda tinha os a fazeres de casa, tudo era dividido, um arrumava casa, outro colocava lenha para dentro de casa, debulhava milho, outro leva milho para moedor no moinho de ferro para transforma em fubá, milho picado para trata dos bichos e os outra ficava na cozinha. Na época de plantação, nós não fazíamos os afazeres de casa, íamos para roça colher café, feijão, milho, quando chegávamos em casa a comida sempre estava pronta, a comida não faltava porém tudo era controlado, principalmente as misturas (Carne) e sempre tinha uma ordem na hora de se servir, que era: o mais velho na hora da comida sempre tinha o melhor pedaço, assim seguia na sequência até chega ao mais novo. Muitas das vezes íamos brincar na casa de amigos, para poder comer nas casas deles, por que sabíamos que lá sempre tinha bolo, biscoitos. Sabíamos que na casa de nossos amigos tinha coisas que eram diferentes do que tínhamos em casa. A nossa alimentação, por maior dificuldade que passávamos era bem forte, a maioria das coisas era colida da própria terra, a única coisa que era comprado, sal e querosene, porque não tinha luz, a querosene era para acender lamparina. No fim de semana sempre íamos para igreja, nessa hora era uma festa, por que era o dia de colocarmos a melhor roupa, muitas das vezes comprávamos saco de linhagem, chita ou um tecido chamado carne seca, como não tinha dinheiro era com isso que nos vestíamos, ou ganhávamos roupas de outras pessoas.
“Em 1973, eu saio para passear na casa do meu padrinho, um grande fazendeiro, passei 10 meses, o que era passeio virou trabalho. Trabalhei na cozinha, lavando roupas, e cuidava da casa, após esses 10 meses, o meu padrinho me levou de volta para casa, e levou para, minha mãe o dinheiro dos meses que eu trabalhei. Durante o tempo em que eu fiquei lá não recebi nem um dinheiro, só me davam comida e um lugar para dormi (me sentia explorada). ” Quando eu voltei para casa os meus irmãos, não estavam mais, tinham ido para belo horizonte tentar emprego, melhorar de vida. Já em 1977 eu fui viajar para belo horizonte para visitar os meus irmãos e resolvi ficar para tentar trabalhar e ajuda meus pais. Comecei a na casa do delegado, uma pessoa muito boa que me ajudou muito. Todo fim de mês eu mandava uma quantia em dinheiro para os meus pais, ou o meu pai vinha buscar em belo horizonte. Com o passar do tempo, eu tirei férias do trabalho e fui visita os meus pais, nesse período de férias conheci o meu primo Francisco, que também estava de férias visitando os meus tios, foi ali que começamos a namorar, quando as férias acabaram eu voltei para belo horizonte e ele para Rio de Janeiro onde ele trabalhava e morava com a tia, mas mesmo com a distância continuamos a namorar, sempre que podíamos nos encontrávamos na cidade onde os nossos pais moravam. No dia 16/07/1986 nos casamos, eu vim morar novamente no rio de janeiro, como eu era nova na cidade e não tinha emprego, comecei a vender produtos da revista Avon, tapware, só para ter o meu dinheiro, mesmo sabendo que não faltava nada para mim, mas era costume, não sabia ficar parada. Um ano de pois tive a
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minha primeira gestação, estava grávida de uma menina que se chamava Roberta Gomes de Oliveira, ela nasceu com um problema respiratório, mesmo com recurso médico que tínhamos naquela época, ela não resistiu e veio a falecer após 3 dias de vida. Depois de um ano tive a minha segunda gestação, estava grávida de um menino Adriano Gomes de Oliveira, nascido em 14/10/1987, depois de quase dois anos tive a minha terceira gestação, novamente uma menina, Fernanda Aparecida de Oliveira nascida 01/08/1989. Os anos foram passando, como eu só cuidava das crianças, resolvi montar uma espécie de creche, filhos de conhecidas minhas que trabalhavam e sempre deixava o filho comigo, daí os anos foram passando, as crianças crescendo, e eu fui vendo a necessidade de voltar a estuda para poder ajudar os meus filhos a estudar. No ano de1998, eu voltei a estuda, no colégio professor Santana, estudava a noite, eu aproveitava que na escola tinha explicadora, levava os meus filhos juntos assim eu estudava mais despreocupada e assim foi indo. Quando começou as aulas eu fui percebendo, que o ensino que eu tive até a 4º seria, era mesmo ensino que eu estava tendo no 5º, 6º, 7º e 8º, antigamente por mais dura que fosse o método de ensino era mais reforçado, mesmo com isso conclui a 8º serie, e me senti muito realizada, por saber que eu poderia contribuir, pelo menos um pouco na educação escola dos meus filhos. Em 2003 comecei a trabalhar em casa de família, meus filhos já estavam grandes, já poderiam se virar em casa sozinhos, trabalho nessa mesma casa até hoje. Meu pai não gosta de fala da história dele, ele só diz que não teve infância porque teve que trabalhar muito
cedo. Mas mexendo em algumas fotos eu comecei a perguntar, o por que dele não gostar de lembrar, ele me respondeu que depois da morte do pai dele, meu avô, a vida dele mudou muito, além dele perde o pai, a pessoa que ele mais admirava teve que trabalhar para ajuda em casa. Na cabeça do meu pai, foi difícil aceitar a perda do meu avô, justamente por ele ser um homem bom, ela achava que ele tinha que viver mais. No mesmo ano em que o meu avô morreu ele sofreu um acidente, onde tem a marca até hoje, devido a isso ele não gosta de lembra da história dele. “A parti daqui as histórias continuam, com uma nova geração: os nossos filhos. Onde a Fernanda vai conta um pouco da sua infância e a vida na escola até os dias de hoje. ” Tentei buscar na memória coisas que marcaram muito, uma das coisas que mais lembro é da minha infância, quando eu tinha 3 anos. Eu lembro que na época de férias sempre íamos para casa dos meus avós, lá era um ambiente calmo, chamávamos e ainda chamamos de roça, não tinha muitas casas, as casas que tinham eram distantes umas das outras, mais é um lugar muito bom. O melhor de tudo era rever os meus avós e primos que só encontrávamos na época de férias, no mês de julho era época de colher feijão, isso era uma felicidade para nós, ajuda o meu avô a colher feijão, não havia coisa melhor, brincávamos, colhíamos e brincávamos. Não consigo me lembra se nos anos anteriores eram assim também, minha mãe conta que era do mesmo jeito, quando não estávamos nas terras do meu avô brincando estávamos na rua fazendo guerra de lama, brincando no pasto. Para nós tudo era diferente, por que onde nós morávamos não tinha isso, era cidade grande, por isso
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que aproveitávamos ao máximo quando chegava as férias. Ao voltar das férias no mesmo ano, comecei a estudar, foi aí que eu encarei uma grande dificuldade. Com 3 anos comecei a estudar no Colégio privado, chamado Esperança, o meu irmão nessa época já estava com 4 anos. Eu lembro que eu sempre chorava na estrada do colégio, o único que me acalmava depois da minha mãe era meu irmão. Quando o meu irmão fez 5 anos ele saiu da escola privada, e foi estudar na escola Municipal M. Pera Flor, nessa época eu me sentia sozinha por eu permanecer no outro colégio. “Eu lembro que uns anos depois da saída do meu irmão, a minha mãe me tirou do colégio Esperança e me colocou no mesmo colégio que o meu irmão, uns dos motivos dela ter me tirado, foi o racismo. As outras crianças não conversavam muito comigo, por eu ser negra, e na escola tinha pouquíssimas crianças negras, com isso ela percebeu que eu regredi um pouco no estudo. ” Quando eu entrei na Escola M. Pera Flor, ela viu em mim, uma grande mudança, comecei a desenvolver mais, não sei se era por esta perto do meu irmão, ou se era por esta perto de mais pessoas da mesma cor do que eu, apesar de ainda passar por algumas situações preconceituosas. Permanecemos na mesma escola, até completamos o ensino fundamental. Dentro desse período escolar, eu fui vítima de racismo indiretamente. Indiretamente porque as pessoas faziam piadas pelo simples motivo de ser negra, isso me magoava muito. “Não apaga a luz, se não, não vamos ver a Fernanda. Lá vem a negona. Tinha que ser preta.”
Entre essas, várias outras. Sempre me sentia com medo de me expor, medo de falar e ser mais ridicularizada, porque era assim que eu me sentia: “ridicularizada”. Assim fui crescendo, em 2004 terminei o ensino fundamental, e fui fazer o ensino médio em campo grande, um lugar um pouco mais longe, estudei na Escola Estadual Professor Antônio Raja Gabaglia, lá fiz amizades com alunos que ajudaram muito, na nova fase da minha vida, até hoje temos contato. Já no ensino médio, continuei passando por algumas situações parecidas com as que eu passava no fundamental, algumas piadinhas continuavam. Quando eu cheguei no 2º ano do ensino médio, uma grande amiga chamada Majorei veio conversar comigo, ela foi a pessoa que me abriu os olhos, ela sempre dizia: “não deixa as pessoas pisarem em você, pelo simples fato de você ser negra, eles não são melhores que você e nem você é melhor do que eles, a nossa cor não interfere em nada, se você continua deixando e não falar nada, eles vão se acha sempre no direito de mexer com você sempre, se pronuncia, defende a sua raça, Amo você amiga.” Depois de tantas conversas, eu fui abrindo os olhos, e comecei a tomar mais coragem, e responder a altura essas piadinhas de mal gosto, e realmente, essas piadas foram diminuindo, eu fui ganhado mais respeito, a partir daí, comecei a pensar: quero fazer uma faculdade que eu possa lidar diretamente com as pessoas, e trabalhar em grandes empresas. Queria um emprego, que tivesse as duas coisas (empresa grande e lida com pessoas). Decidi então fazer RH, no ano de 2007 terminei o ensino médio, prestei o
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Enem, mas não obtive sucesso. Em 2008, comecei a procura emprego, já estava com 18 anos, queria trabalhar, não queria perder tempo para ingressar na faculdade, no dia 01/04/2008 comecei a trabalha no quiosque de bijuteria em nova Iguaçu, no segundo semestre de 2008, comecei a estudar na Unig, fazendo Gestão de Recursos Humanos, como eu aprendi com esse curso, vi ali que lida com pessoas em ambiente empresarial, não era tão fácil assim, mas acabei me apaixonado mais ainda pela área de RH, me formei em 2010. Ainda em 2010, apareceu uma oportunidade de trabalhar no escritório de uma construtora, sai do meu outro trabalho de vendedora, e passei para o administrativo da empresa chamada Test Tec com o passar do tempo, sem perceber, eu já estava contratando, demitindo e selecionando pessoas para trabalhar, ali começou a minha experiência profissional. Em abril de 2011 a empresa abril falência, fui demitida, fiquei 4 meses em casa. No dia 01/09/2011 fui chamada para trabalha em uma fábrica de Alumínio, (Alusal Alumínio), onde eu permaneci coma mesmo função de administração, foi ocorrendo mesma coisa, da outra empresa, hoje eu faço contratação de funcionário, entrevistas e as vezes treinamento. “Nessa empresa eu tive a primeira desavença com funcionário. Por motivos de trabalho tive que o demitir, e ali eu fui vítima de racismo diretamente, ele disse na
minha face: “já não gostava de preto, agora muito menos, você é uma preta abusada, não sei o que você está fazendo aqui” Acredito eu que essas palavras firam porque ocupava um cargo onde o branco tinha que se submeter a um negro. Eu por minha vez mantive a calma, e respondi: O senhor tem todo o direito de não gostar de mim, mais eu não tenho nada contra ao senhor, muito pelo ao contrário eu gosto do senhor, a sua demissão é relacionada ao trabalho, não a sua pessoa. Outra coisa, não sou preconceituosa eu gosto de negro, pardos e brancos, eu gosto é de pessoas, agora por favor pode se retirar. Quando passei por isso, eu vi mais uma vez, como é difícil lida com pessoas que não respeitam a outra, não demostrei, mais me senti muito ofendida, como pode a cor atrapalha o relacionamento entre as pessoas? Me senti mal. Hoje eu não tolero mais isso, defendo a minha cor, sou negra sim e sou muito feliz por isso e não trocaria a minha cor por outra. Continuei trabalhando nessa mesma empresa, em 2014 fiz o Enem novamente, e passei na 5º lista de espera e sou cotista (negros em ensino público). Hoje estou aqui aprofundando mais e buscando conhecimento, pretendo me forma em pedagogia empresarial, e aprender a cada dia lida com o ser humana.
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FLAVIA SOUSA Meus avôs maternos fugiram para se casar, porque eram primos e as famílias não concordavam com o namoro, vieram para o Rio de Janeiro, moraram em Realengo. Minha avó perdeu 4 filhos, só conseguiu engravidar quando meu avô se alistou no exército, no hospital do exército fez tratamento e engravidou de minha mãe que nasceu em 17/05/1945. Tiveram mais de 8 filhos. Minha mãe estudou até o primário, porque ela começou a trabalhar e passou a estudar à noite, foi quando cochilou na máquina de costura prendendo o dedo na agulha e não conseguindo conciliar o trabalho e estudo, parou de estudar para se dedicar ao trabalho e ajudar em casa.
A minha tataravó era índia e foi pego no laço pelo meu tataravô que era português tiveram uma filha minha bisavó Maria Filomena. Ela se casou com o Fausto, marinheiro, e tiveram 2 filhos minha avó Isaura e meu tio Manoel (Briu). Moravam em Mesquita, na vila de trabalhadores da fábrica de telha, onde trabalhavam, ficava localizada dês da
praça da Telemar até o que é hoje o jardim da saudade. Minha avó só aprendeu a ler e escrever. Meus bisavôs paterno era Maria Almeida e Joaquim Gustavo de Lima, eram de Penha Longa, depois foram para Caetés, Juiz de Fora até virem para Mesquita, tiveram 8 filhos , meu avô João e meus tios( lembrados por minhas tias pelo apelido): Lango , Belo, Nana, Seis, Ná , Pedro e Zeca( hoje está com 89 anos). Minha bisa cozinhava no fogão a lenha. Minha vó Isaura conheceu meu avô João na vila da fábrica, mas a mãe dela não concordava com o namoro, porque ela não gostava de negro. Meu bisavô autorizou o casamento de minha avó que tinha na época 16 anos, escondido de minha bisavó. Meu avô era pedreiro, trabalhou na represa de Mesquita e também construiu o cemitério de Mesquita, onde os pedreiros encarnavam uns aos outros de quem iria para lá primeiro. Ajudava sempre os pais, se fazia feira levava uma bolsa para minha a vó e outra para os seus pais. Ele era semianalfabeto, mas era bom de cálculos fazia todos os cálculos da obra: do orçamento de material, construção do imóvel e planejamento. Tiveram 7 filhos: Antônio (piu), Eunice (Nicinha), Gustavo, Vicente (meu pai que nasceu 5/4/1940) Lineia (Neia), Lúcia e Sônia (minha avó estava grávida dela quando meu avô faleceu). Meu avô morreu em 27/12/1950 de tuberculose, o velório foi realizado em casa saiu o cortejo até o cemitério de Mesquita, ele praticamente inaugurou o cemitério. Meu pai tinha 10 anos, minhas tias - Neia 4 anos, Lúcia 2 anos, e minha avó estava grávida de 2 meses de minha tia Sônia. Naquela época as viúvas que não tinha condição de criar seus filhos colocavam no pensionato, porém minha não os colocou. Criou os
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filhos costurando, passando e lavando roupa para fora. As roupas eram lavadas no rio da cachoeira, onde hoje é a Coreia. Meu pai estudou até o primário, porque tinha que trabalhar para ajudar a minha avó, ele trabalhou na fábrica de vassoura, como ajudante de marceneiro. Minha tia me contou que meu pai as levava quando criança, para ver a árvore de natal no Meier e também comprava os presentes de natal dela e das suas irmãs. Quando trabalhou na fábrica de roupa no Jacarezinho, que conheceu minha mãe eles só se paqueravam, até que um dia ele esperou ela sair do trabalho e seguiu ela até o ponto e falou que queria namorar com ela. Mas ela falou que para namorar tinha que falar com o pai dela, marcou o dia e ele foi pedi permissão para namora-la. Começaram a namorar e demoraram 10 anos para se casar, pois ele tinha que ajudar minha avó, construiu a casa no quintal da minha avó, com 3 cômodos, pois também ficava perto dela. Se casaram em 4 de dezembro de 1971. No ano seguinte minha mãe engravidou de mim, o meu nome foi ela quem escolheu, Flavia era a personagem de Sônia Braga na novela Selva de pedra, nasci em 12 de outubro de 1972. Fui muito paparicada pela minha avó e tias, pois morávamos no mesmo terreno. Minha irmã Giovana nasceu em 1974. Meu pai foi alcoólatra, as discussões com minha mãe eram porque ele não se alimentava e só bebia, ficou doente e indo ao médico, clínico geral, que conhecia toda a família e o médico perguntou se ele gostava da família dele e de suas filhas? E se gostaria de vê-las crescer? E falou que sim, então tinha que parar de beber. E assim ele fez, começou a frequentar
o grupo de alcoólatra anônimo - AA em 2/7/1978 ano início as reuniões eram semanais e depois de um ano passou a ser anual, meu pai ganhava uma ficha de sobriedade nas reuniões, íamos todos assistir e ele dava o seu testemunho de mãos dadas comigo e minha irmã e desde então não colocou mais nenhuma gota de álcool na boca. Comecei a estudar com 4 anos na Escola Abraão Lincoln Soares, onde quebrei o nariz ao ser empurrada por um menino (Márcio, não falo com ele até hoje) ao entrar na sala de aula, terminei o ano e sai. Depois passei a estudar com uma senhora que morava em frente à minha casa, foi a D. Noêmia que me alfabetizou. Fiz um teste de admissão para Escola Estadual Professor Márcio Caulino Soares, fui aprovada para a 2° série onde estudei até a 4° série. Era a escola próxima a minha casa minha me levava e buscava. Meu pai carinhoso sempre, minha mãe nos batia às vezes quando aprontava mais eu sempre levava a pior, por ser gordinha e às vezes derrubava minha irmã que era magrinha apanhava mais que ela. Sofri bullying por ser gordinha, era chamada de “ baleia mobidique”, sargento Garcia do zorro, o gordo e magro nos episódios de humor era eu e minha irmã. Em 1981 minha engravidou de irmã Danielle, meu começou a guardar dinheiro para pagar o parto e a ligadura (o anestesista) de minha mãe. Quando de 7 para 8 meses em de suas consultas de pré-natal a doutora falou que ela não precisava mais pagar porque ela iria completar 35 anos, que a partir daquela idade o governo custeava todo o procedimento. Com este dinheiro meu pai construiu a sala, o nosso quarto, a varanda e a área.
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Tínhamos um passeio uma vez por mês aos domingos, fomos para a Quinta da Boa a Vista e também a ilha de Paquetá. Acampávamos na praia do saco em Itaguaí neste ia toda a família. As datas comemorativas sempre estava a família toda reunida, no dia das mães tinha a tradicional feijoada na lenha de minha avó. No Natal acordava com cheirinho do assado de mãe e vó. Meu ensino fundamental foi na Escola Estadual Presidente Castelo Branco em JuscelinoMesquita, foi nesta escola que a professora de matemática Jucelenia na reunião de pais, conversou coma minha mãe e lhe falou que dificuldade de concentrar me distraia com facilidade, depois dessa conversa melhorei. Foram os melhores anos, adorava a escola, os professores e a principalmente a minha turma que ficamos juntos por 4 anos, saudade de mus amigos. Na juventude participei na igreja de várias pastorais, como: pastoral da juventude, pastoral do negro, romaria terra, aonde íamos até os assentamentos de sem-terra levar a solidariedade. Aprendi a jogar capoeira, participei do grupo dança “Expresso Crítica“, apresentação de dança e encenação de peças. Foi participando do grupo jovem passei a frequentar as reuniões e eventos do PT, na 1° campanha do candidato Lula à presidência – meu 1°
voto e do Arthur Messias para vereador. Cursei o 2° grau na escola particular Filgueiras Centro Técnico Educacional em Nilópolis, fiz técnico de secretariado em 3 anos, tive algumas dificuldades de adaptação, as pessoas eram muito diferentes, tinham um olhar superioridade e também em relação as provas –as avaliações eram mensais com media 6, abaixo desta nota tinha que fazer recuperação, e detalhe a folha de prova era comprada e as folha de recuperação e 2° chamada eram de cor diferente e mais cara. Teve um período que o diretor e dono da escola estava aumentando todo o mês as mensalidades, todo o 2° grau se reuniu e fizemos manifestação na porta da escola contra o aumento das mensalidades, bem funcionou porque ele manteve a mensalidade estável. Em 1989 me formei. Em 1992, grávida, me casei, mas foi preciso que meus pais fossem no cartório para autorizar o meu casamento, que foi no dia 11 de abril na igreja de Nossa Senhora da Conceição em Nilópolis e no mesmo ano tive minha primeira filha, Ana Carine. Em 7 de maio de 1994 tive minha segunda filha, Flávia Carolina e em 24 de dezembro de 1998 tive meu terceiro filho, Vander Wilson Filho. Minhas filhas estudaram na mesma escola que eu e meu esposo E.E. Presidente Castelo Branco e o meu filho está terminando o ensino médio.
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Em 2004 voltei para escola e fiz outro curso técnico de contabilidade, consegui média alta que me qualificou para estágio no Tribunal Regional do Trabalho com a exigência de nota 8.0, e tinha média de 8.8, mas não consegui a vaga mesmo sobrando por
ter a faixa etária de 17 a 23 anos,
não tive nem a oportunidade de passar pela entrevista. Fiquei decepcionada. Em 2007 faleceu meu querido, foi uma perda irreparável, uma saudade imensa perdi meu grande amigo, quem eu dividia meus planos, conquistas, enfim tudo. Um avô presente e carinhoso. Trabalhei como atendente de locadora e também fui voluntária em uma ONG por 8 anos. Trabalhei como recepcionista, tesoureira, assistente administrativo. Em 2014, tive depressão, sem vontade de sair de casa, tinha que dar um rumo em minha vida, fiz inscrição no Enem sem muita esperança de passar, mas era um passo para sair da condição que me encontrava. Nem acreditei quando tirei uma boa nota na redação pensei em está entre os que tinham zerado, consegui a 18° vaga das 18° vagas disponíveis para ampla concorrência. Pensei, agora preciso trabalhar para me manter na Universidade, custear as minhas despesas de passagem e material. Assinei a carteira pela primeira vez em fevereiro de 2015 em auxiliar de escritório numa empresa no CEASA. Na entrevista com minha tia Sônia, ela me falou que precisou parar de estudar para ajudar em casa teve a necessidade de trabalhar. Queria fazer a unha, mas não podia, pois não possuía ferramenta necessárias, então ganhou o alicate e aprendeu a fazer unha, queria roupa e fazer o cabelo, aprendeu a costurar e
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fazer cabelo com a necessidade. A necessidade faz a desigualdade, a necessidade cria as oportunidades. Fazemos artesanatos (minhas tias, primas, irmã e eu) como: costura, crochê, tricô e fuxicos, que é vendido na lojinha de minha prima na feira de São Cristóvão. Detalhe tanto o meu vestido de 15 anos quanto o de casamento foi minha tia e minha prima que fizeram. E já começou os preparativos para a confecção do vestido de casamento da minha primeira filha que será de crochê.
“Há várias maneiras implícitas em que o racismo acontece. Seleção de vagas com requisito ‘boa aparência’, olhares dissimulados, profissões pré-determinada. É como se tivesse que provar sempre sua capacidade. Dentro da pesquisa tive o relato de minha tia Sônia que é artesã e vende seus artesanatos nas feiras na Cidade de Mesquita e adjacências , e em umas destas feiras havia várias artesãs mas só tinha duas negras e uma delas era a minha tia , que por coincidência a barracas delas ficaram próximas .Uma senhora se aproximou da barraca delas e admirando as peças e perguntou quem as fez, quando falaram que as peças eram delas a Senhora não acreditou , falou que eram perfeitas e que não poderia ter sido feitas por elas, como se fossem capaz . Minha tia disse que ficou indignada que discutiu com a senhora que era ‘branca’, a outra artesã ficou muito triste por seu trabalho não ser reconhecido. Outro fato relevante aconteceu comigo, meu esposo é
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negro e sua família também, nossa 1° filha nasceu com a pele clara, ele mesmo se admirou quando viu a filha me perguntou da janela da maternidade ela é branca, mas a conhecendo de perto se identificou nela. E assim também aconteceu quando a família dele foi conhecêla, chegaram até a insinuar que a filha não poderia ser dele, por ter a pele clara, isso de tom irônico que fere e machuca, tive que me posicionar de maneira rude e falei quem mais interessava não tinha dúvida da paternidade. Entretanto as piadinhas continuaram e o apelido de minha filha é branca. Ela não gosta de ser chamada de branca, como ela diz ‘o meu sangue é de negro, portanto eu sou negra’. Os meus outros filhos por serem negros não tiveram problema na família. E aconteceram outros fatos desagradáveis, como no jardim de infância eu não pude buscar a minha filha, meu marido foi buscala, foram os alunos saindo e ele esperando, quando a minha filha o avistou chamou por pai e a professora não à liberou somente quando a diretora veio que o conhecia que liberou a menina, a professora se desculpou falando que não liberou porque não o conhecia, mas ficou evidente que era porque ele é negro e a menina clara. Para determinadas profissões e empregos a competência somente não conta, os olhares são diferentes a atenção também se não possui a pele clara e cabelo liso. É como se a todo instante tivéssemos que provar sou capaz, possuo qualidade sou competente. Senti isso quando estava procurando emprego, em
muitas das entrevistas que fiz foi para a vaga de recepcionista para uma clínica de estética, a atendente pediu que eu aguardasse me olhando dos pés à cabeça e foi bem mais gentil com a outra candidata que havia chegado era loira e mais nova, a minha entrevista nem demorou ela foi colocando vários empecilhos até que falou que entraria em contato. O preconceito e o racismo percebemos a todo instante de várias formas, meu filho indo para a vila olímpica jogar futebol com mais dois amigos, quando passou um carro de polícia por eles, voltou na contramão e mandou que eles parassem, o policial desceu do carro perguntando para onde eles iriam e revistou os três depois os liberou. Se fossem três rapazes brancos eles teriam a mesma atitude? O meu medo que meu filho nervoso começa a ri, e que para os policiais parecesse que era deboche, que para meu filho é invernoso ser parado ser revistado com todo mundo olhando sem ter feito nada de errado. E isso aconteceu outras vezes. A boa índole não se determina pela cor da pele e sim pelo caráter da pessoa. ” Diante do preconceito, discriminação e o racismo se faz necessário nos posicionarmos contra esta essa atitude e prática, pois o não fazer nada é estar agindo da mesma forma. Portanto devemos denunciar esta ação, não ser conivente, pois injúria racial é crime e quem as pratica deve ser punido.
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VANESSA PAULO DE BARROS A história de educação de minha família aqui começa muito antes de existir essa que escreve. Optei por começar com minha avó paterna, única avó viva, Maria Thereza de Barros. Dona Thereza, como é conhecida pela maioria das pessoas, é de origem do interior de Minas Gerais, de Carangola de Santa Luzia, e só estudou uma única série afim de que soubesse ler e escrever. Para a época, analfabetos funcionais eram suficientes, pois o que importava era o trabalho e não a educação. Ela e seus irmãos foram os primeiros a ter acesso à educação escolar em minha família paterna, ou seja, todos antes deles não sabiam sequer escrever o próprio nome. E apesar desse passado de puro trabalho, minha avó que se lembra dos avós dela, não recorda de nenhuma história de algum parente que teve contato direto com a escravidão. Não tenho história sobre meu avô paterno pois o mesmo foi ausente, abandonou a
família quando meu pai e seus irmãos eram crianças. Passo então para meus avós maternos que hoje já não estão mais em nosso meio: José Paulo e Aide Ribeiro Paulo. Para obter informações a respeito de meus avós maternos, recorri a minha mãe, que me passou uma história de educação escolar muito semelhante à de minha avó Thereza, foram apenas alfabetizados, pois o que importava era o trabalho e não a educação escolar. Meus avós são oriundos do Rio de Janeiro mesmo, mais especificamente de Macaé, aonde a família de minha avó possuía uma grande fazenda, mas que por falta de sabedoria e má administração dos herdeiros, foi furtada ao longo de anos até que não existisse mais nada. Sigo então para meus pais: Ricardo de Barros e Deusiléia Paulo Barros. Meus pais não terminaram o antigo ensino fundamental, não foi possível. Em ambas as famílias, haviam muitos filhos e as condições financeiras eram ínfimas, tão precárias que minha mãe e meu pai em alguns relatos dizem
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que enquanto alguns irmãos iam para a escola, os outros esperavam em casa que eles voltassem da escola para que pudessem usar os mesmos sapatos e material, quando tinha material. Por vezes era usado papel de pão para escrever. Apesar de ter sido muito sofrida a questão da educação escolar, a educação de dentro de casa sempre foi forte e presente. Minhas avós tiveram muito mais peso na educação familiar, foram elas que seguraram praticamente toda a responsabilidade da educação dos filhos.
mãe ao longo de sua vida, viu muitas mães que morreram por vários motivos e seus filhos ficarem à deriva, totalmente perdidos e sem saber o mínimo de sobrevivência. Então o objetivo dela era deixar os filhos mais aptos possíveis para se “virar”, de forma a depender o mínimo possível dos outros, logo assim que foi possível aprendemos a cozinhar, lavar, passar. Meu pai também tinha a mesma visão, então desde muito cedo aprendemos a cuidar de coisas básicas como limpeza do uniforme e engraxar nossos sapatos da escola.
E enfim chegamos a mim, Vanessa Paulo de Barros. Tenho dois irmãos: Amanda Paulo Barros Jordão, três anos mais velha que eu e Rodrigo Paulo Barros, cinco mais novo. Minha irmã é professora de pessoas especiais no Colégio Albert Saibin e de Educação Física no Colégio Curso Prognóstico, ambos em Belford Roxo. Já meu irmão não terminou o ensino médio, mas não por falta de incentivo nem de recurso, mas por conta da rotina das escolas públicas que não incentivam a continuar. É monótona e repetitiva, um tipo de educação que parece que não sofre atualizações, o sistema parece o mesmo que era há décadas atrás, só está ali para reproduzir os mesmos seres humanos que se formava há anos atrás, em suma, e escola não te ensina nada, apenas a passar.
Minha primeira escola foi Instituto de Educação Santo Antônio, que fica na Prata, Nova Iguaçu. Para meus pais era importante que os filhos tivessem uma educação melhor para aprender a ler e escrever, assim se apertaram tal como dava para que pudessem pagar uma escola particular para cada filho nessa primeira etapa de educação escolar. Foi nessa escola que pude sentir pela primeira vez o racismo. Sempre fui uma pessoa de temperamento forte e não conseguia, quando criança, ficar calada frente às afrontas.
E educação familiar na minha casa nunca foi sexista, todos estavam aptos a fazer tudo dentro de casa. Meninas e menino faziam tudo e sempre foram direcionados e incentivados a trabalhar e prover seus próprios recursos. Meu pai não queria criar filhas para casar e ter que depender de maridos financeiramente e nem queria que o filho fizesse de sua esposa uma empregada. E minha
“Assim sendo, praticamente todos os dias brigava com o mesmo menino e já não lembro o motivo de tais brigas, mas a questão é que sempre eu e apenas eu ficava de castigo, e ele, até onde me lembro, só ficou uma única vez. O menino que eu discutia era branco de olhos claros e eu, uma das poucas crianças negras da escola. Não lembro de muitas coisas, mas sei que não gostava de lá. ” A escola seguinte foi o Ciep Casemiro Meirelles, até então pertencia ao
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estado do Rio e tinha horário integral, de oito da manhã às quatro da tarde. Passávamos o dia na escola e não fazíamos nada além de brincar. Lembro que a professora escrevia um pífio cabeçalho no quadro e nos deixava livre para fazermos o que queríamos. Por fim, um dia na hora de formar para irmos para o recreio, se não me engano, acabei me envolvendo em uma briga e fui literalmente arrastada pela diretora e outra aluna até a diretoria uma vez que me neguei a ir com minhas próprias pernas. Fui suspensa e minha mãe decidiu que naquela escola eu não estudaria mais, já que ali nada tinha aprendido e nada aprenderia. No ano seguinte fui apresentada a minha nova escola: Escola Municipal Professor Paris, aonde cursaria da primeira série até a quinta série do antigo ensino fundamental. Entrei para refazer o CA que não tinha concluído na escola anterior, porém no segundo dia de aula me passaram para a primeira série, em vista da minha idade e dos conhecimentos que eu já tinha. O esforço de meus pais em pagar uma escola melhor valeu a pena. E foi aqui, com até então sete anos de idade que comecei a pegar ônibus sozinha, pois não havia quem pudesse me levar e buscar. Nessa escola foi aonde tive real noção de racismo e aonde tive minhas primeiras crises de identidade como pessoa negra.
“Apelidos como macaca por conta de minha cor e bruxa por causa de meu cabelo crespo eram no mínimo comuns. Foi uma época difícil em que eu não queria que ninguém me chamasse de negra porque ao ver o quanto as pessoas desprezavam e tinham por horríveis pessoas negras, eu
não queria ser mais uma, e em minha cabeça eu me formatei como mulata o que para mim era algo melhor que ser negra. ” Na terceira série me vi apaixonada por um menino que eu nunca teria coragem de chegar perto justo porque sabia que ele jamais gostaria de alguém feia como eu.
“Sim, feia, eu me achava horrível principalmente por conta de meu cabelo crespo. Desde muito cedo aprendemos que cabelo bonito são os lisos e que as meninas bonitas são as brancas. ” Nessa mesma terceira série havia uma menina que vivia atrás de mim dizendo o quanto ela não gostava de pretos e que não ficava perto de mim porque não queria ficar preta e eu sempre rebati na mesma moeda dizendo o quanto não queria ser branca, até o dia que brigamos pois ela estava me ofendendo e empurrando enquanto subíamos as escadas para o pátio de recreio, eu a empurrei de volta e só quando começamos a nos bater que a professora resolveu intervir e nos levou a inspetora porém a mesma sequer olhou pra nós duas e só disse, enquanto lia uma revista, que se aquilo voltasse a acontecer seríamos suspensas. Os anos seguintes não foram muito diferentes disso no quesito racismo. Então quando passo para a sexta série do antigo ensino fundamental, me vejo novamente no Ciep Casemiro Meirelles, porém agora ele era municipalizado e estava melhor, já não era mais de horário integral e a direção parecia mais apta para estar de frente a uma escola. Aqui fiz da sexta série até a oitava série do
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antigo ensino fundamental. O racismo continuou, mas nesse ponto já estou mais firme, porém agora começa outro tipo de agressão e me vejo perante a mais uma crise de identidade, só que agora sobre minha sexualidade. Tal como há um padrão de beleza que não inclui negras, há um padrão de sexualidade feminina que diz que você tem que ser baixinha, voz fina e calma e delicada, e eu sou o inverso disso, e por isso passei a ouvir os diversos insultos por conta disso. Cheguei a relatar isso para a diretoria o que não surtou efeito algum e ainda tive que ver nitidamente uma das inspetoras segurando riso para não rir de mim. E assim como antes, como aconteceu com a questão de ser negra, comecei a me questionar quanto a meu gênero, pois era a todo tempo tida por lésbica porque não me vestia igual as outras meninas, era mais alta e tinha a voz mais grossa. Mas não mudaria nada do que me ocorreu pois foi através dessas crises e questionamentos que cheguei aonde estou e sou muito firme quanto quem eu sou.
“Foi por volta dos quatorze anos de idade que revisei minha vida e me estabeleci quanto a minha cor, minha sexualidade e meu gênero, e quem eu era e quem eu passaria a ser.” Chego então ao ensino médio e ao Colégio Estadual Presidente Kennedy. Lá fiz todo meu ensino médio e vi coisas das quais deveriam parar na delegacia, coisas tal como pedofilia, professores e professoras se envolvendo com alunos menores de idade e a vista de todos. Alunos que filmavam escondido outros alunos
tomando banho após a aula de educação física ou enquanto iam ao banheiro e divulgavam para a escola em peso, além do corriqueiro e frequente ataques racistas, que aqui era direcionado a outras pessoas, eu nem fui alvo nessa escola. Apesar da seriedade de alguns fatos nada acontecia, suspensão e expulsões nunca foram cogitados.
No final do terceiro ano, prestei Enem e me inscrevi para uma das bolsas do Prouni, dentro das cotas para negros e pardos, para o curso de Turismo e consegui uma bolsa de cem porcento. E lá fui eu cursar minha primeira faculdade na Universidade Estácio de Sá, no campus de Nova Iguaçu. Em vista de tudo que vivi e vi nos longos dos anos estudantis, aqui precisei enfrentar algo muito escabroso, uma clara tentativa de estupro. E essa é a primeira vez que uso tal palavra pois a mesma faz meu ser se desfalecer quase que por completo. Eu voltava pra casa da faculdade e já era tarde,
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nessa época morava com uma tia pois ela morava bem próximo a faculdade então eu ia e voltava a pé para economizar na passagem que em alguns dias eu não tinha. Eu já estava na rua da casa dessa minha tia quando um carro que tinha virado na rua antes de mim, manobrou e começou a descer, por um instante pensei que fosse o vizinho visto que o carro era semelhante, mas assim que ele virou e começou a descer eu percebi que era um carro qualquer. Quando ele chegou em determinado ponto começou a diminuir e chegar cada vez mais perto de mim, eu achei que teria de ouvir mais uma dessas cantadas sem graça que eu já estava tão acostumada, mas na realidade o que se sucedeu foi bem pior. Ao chegar ao meu lado eu ouvi um “psiu” e acabei olhando no automático e vi que havia uma arma apontada para mim e alguém que dizia pra eu não correr. Entrei em pânico e comecei a me afastar devagar apesar da pessoa de dentro do carro mandar eu não correr. Só pensei em Deus e pedia pra Ele me tirar daquela situação, quando cheguei a uma certa altura, corri e assim que cheguei no portão da minha tia comecei a gritar e a bater no portão, tinha a chave mas não lembrava, eu só queria sair daquela rua. Fui a dormir a base de remédios naquela noite. Sei bem o que teria me acontecido se eu não tivesse corrido, se tivesse entrado naquele carro e isso me causa asco, ódio e gratidão a Deus por ter me dado forças para sair dali. Fora isso, só lembro de um caso de preconceito mais voltado para a escola pública como um todo, e que só agora entendo como uma forma de racismo encoberto. O caso foi que uma colega de classe se referiu a todos os oriundos das escolas públicas como verdadeiros marginais e
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causadores de todos os males da sociedade, e quando disse que eu era de escola pública e não era assim, ela retrucou alegando que eu era exceção, fugi a regra.
“Essa alegação só serviu para me irritar intensamente e discutir com ela, pois sei que ali, na escola pública, os errantes é que são exceção e não a regra. ” Mas esse fato também foi exceção e essa foi uma fase muito boa em minha vida. Cheguei a atuar na área na parte de hotelaria e eventos, mas após formada desisti do Turismo em parte por não ter me preparado de maneira adequada para atuar na área, principalmente no quesito línguas, não havia condições financeiras suficientes para embasar tal objetivo. Fiz o Enem outra vez e me inscrevi novamente no Prouni mas dessa vez para educação física e passei mas não pude fazer a faculdade pois já havia sido contemplada com bolsa do Prouni e tinha me formado então não poderia cursar por esse meio. Comecei a trabalhar e não tinha foco de voltar a estudar. Conheci meu noivo com vinte e um anos, mas só começamos a namorar quando eu tinha vinte e três, pois foi quando disse sim as muitas investidas dele. No ano de 2014 estava entediada e sem um norte na minha vida profissional e decidi voltar a estudar e fazer uma nova graduação, ia fazer administração por ser mais abrangente mas em uma conversa com minha irmã, ela me mostrou o quanto o campo da pedagogia é amplo e rico, e eu então fiz o Enem pela terceira e cheguei a optar por administração como primeira escolha
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e pedagogia como segunda, mas como não entrei no primeiro semestre de 2015 quando foi no segundo semestre fiz o inverso e consegui entrar. Hoje curso pedagogia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, estou no segundo semestre e sou cotista novamente. Aliás por conta de ser cotista me deparei novamente com o fantasma do racismo que não via a tanto tempo de maneira tão nítida e visceral. Após uma aula de sociologia e educação II, me encontrava com um grupo de amigos e colegas debatendo a questão da meritocracia, e usando os reais palavras que ela quis usar mas tentou disfarçar, ouvi de uma colega de classe que eu como cotista estava optando pelo meio mais fácil de entrar e o fazia por preguiça de estudar.
“O fato de estar ali como cotista era um insulto para ela e para todos aqueles cujo os pais puderam pagar boas escolas e eles sim deveriam estar ali, e eu estava tirando a
vaga de alguém que realmente merecia” Na visão dela eu, oriunda de uma educação pobre em todos os sentidos e alguém que sempre contou com os melhores professores e métodos de ensino, tínhamos que concorrer em nível de igualdade, esquecendo tudo que aprendeu sobre equidade.
“Tenho plena noção que todos os casos que passei serviram para fortalecer a mim como negra, como mulher, heterossexual e como ser humano” E apesar de ter sido muito pesado alguns casos, não os mudaria em nada, pois me fizeram ser quem sou, alguém que vai além de um rosto, de um corpo, de uma cor, de uma opção sexual, alguém que não é mais pedaços, mas alguém que se estabeleceu como um todo.
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Este texto foi elaborado a partir de um diรกlogo coletivo dos integrantes do LEAM de dar a ver aquilo que nos toca nas narrativas dos estudantes do curso de pedagogia que participaram do projeto. A partir das nossas narrativas fomos tecendo outras narrativas, entramados com a literatura dos autores que nos ajudam a pensar sobre contar/narrar histรณriasvidas.
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TEXTO PRODUZIDO NO LEAM
Do que é feito um professor? Didáticas? Gramáticas? De matéria... Orgânica, Etérea e humana? Acontecimentos que o bordam e o transbordam? São divagações que nos ocorrem após a leitura das narrativas de estudantes do 2º período do curso de Pedagogia que fazem parte do projeto de pesquisa Relações raciais nas escolas e formação de professores, desenvolvida no período de 2013 a 2016 com alunos (as) do curso de Pedagogia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Convidados a escreverem sobre suas histórias de vida e formação. Desde a família, passando pelas trajetórias escolares, profissionais e acadêmicas, essa atividade possibilita a esses sujeitos elementos para que refletissem sobre sua formação a partir da própria experiência. Para auxiliar na tarefa “artesanal” de contar suas histórias, os estudantes recorreram a diferentes “aparatos de lembrar”. Fotografias, documentos, matérias de jornais e revistas, conversas. A cronologia adotada, em sua maioria, inicia-se pela história dos ancestrais – pais, avós, bisavós- e encerrando-se no ingresso do curso de pedagogia do IM/UFRRJ. Ao iniciar as leituras foi/é possível perceber as construções das experiências vividas, criando laços com a própria memória, por vezes aparecemos no texto do outro, e ainda assim não sabíamos como entrar, em qual momento? Como deveria fazer parte do texto? E como isso poderia ser feito? Como começar este texto era uma questão que
decidimos responder escrevendo, percebemos agora uma necessidade de algumas releituras, mastigar as histórias narradas a fim de apontar o olhar para o que não apareceu ou para o que tenha ficado nas entrelinhas, na busca pelo começo retomamos as leituras dos textos referenciais. “Com o andar das letras escritas, das reflexões que se abriam em possibilidades compartilhadas, porque passíveis de serem lidas, por outro, por tantos outros, fomos percebendo que escrever, e ser, na primeira pessoa, não era imperativo, criava espaços contundentes de projeções, de entrelaçamento que abarcam as intensas e recorrentes leituras dos aportes teóricos, impressões pessoais, devaneios intelectuais, modos diversos nos mergulhos no material empírico, ressonância de experiências pessoais, que se agregavam em ensaios de expressão” (CAMARGO, 2010 P.8) O trabalho de discussão das narrativas nos trouxeram grandes desafios, pois tivemos de fazer um árduo exercício de escuta com os sujeitos da pesquisa a fim de construirmos conjuntamente, através de memórias e narrativas, elementos para uma melhor compreensão acerca das relações étnico-raciais brasileiras e da produção de desigualdades ocasionadas pela desconsideração das diferenças no campo da Educação. Uma escuta difícil de se praticar uma vez que exige nossa implicação, não só por guardarmos pontos de contato, como pelo fato de sermos professores (as), afrodescendentes como também
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por nossas diferenças que, certamente, não são poucas. Então, como fazer para não empobrecer nosso olhar sobre as narrativas alheias, e aproveitar ao máximo as experiências que elas (narrativas) têm a nos oferecer para pensarmos nossas questões? Talvez seja importante considerar que o processo de nós pensarmos narrativamente, de trabalharmos as tramas dos entrecruzamentos das diferentes narrativas a que estamos expostos - ou, ainda, das que supomos não termos nada com ela de configurar essas tramas com aquilo que nos passa e não só nos conformarmos com estar atentos aquilo que passa, sem que nos passe nada, ou seja, de tecer possibilidades de linkar os acontecimentos da vida dos sujeitos da educação com outros acontecimentos que cruzam-se e confrontam-se com aquilo que se pretende importante para uma suposta formação. E construir os sentidos da nossa experiência (narrativa) formativa. (Orientação coletiva - anotações). Ainda na reflexão das narrativas e seguindo os passos propostos por Jorge Larrosa (2015), pretendemos não continuar falando sobre a educação utilizando uma “língua de ninguém”, em que no final acabamos sempre falando o “já sabido”, o “já dito” e o “já pensado”. Por outro lado, pretendemos pensar a educação e o poder da palavra, mas das palavras enquanto experiência, para isso pretendemos utilizar uma “língua materna”, uma língua nascimento, uma língua criação, uma língua poiésis, uma língua narrativa, uma “língua em primeira pessoa”, uma “língua experiência”; sendo assim, estamos em busca desse falar, desse escutar, desse ler, desse escrever que tem a ver com a nossa subjetividade, com aquilo que somos. Portanto,
pretendemos falar/escrever – e a partir de agora, introduzimos o verbo pesquisar. Ou seja, falar/escrever/pesquisar a partir de si mesmo, colocar a si mesmo em jogo no que se diz ou pensa, expor-se no que diz e no que pensa. Falar/escrever/pesquisar em nome próprio significa abandonar a segurança de qualquer posição enunciativa para se expor na insegurança das próprias palavras, na incerteza dos próprios pensamentos. (Larrosa, 2015, p.58) Nesse processo, emergiram episódios muitas vezes ignorados, seja porque antes não os consideravam “relevantes” de serem lembrados/contados, seja porque, consciente ou inconscientemente, esforçaram-se para esquecê-los. Se é um defeito ou uma virtude da memória, quem sabe? Mas, “ao narrar-se, no entanto - a pessoa diz o que conserva do que viu de si mesma” (LARROSA) e entre o que há muito se perdeu e/ou se quis perder, também silenciamos. Produzimos hiatos, ausências... O que sobra? “Sempre achei que a história da minha vida começava com o meu nascimento, de uns dias para cá um professor me abriu os olhos quando disse que a nossa história começa muito antes disso, começa com acontecimentos importantes que aconteceram em nossa família antes de existirmos. Então vamos lá…”. (P. Aluna do curso de Pedagogia) “Meu pai não gosta de falar da história dele, ele só diz que não teve infância porque teve que trabalhar muito cedo. ” (F. aluna do curso de pedagogia)
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‘Houve uma certa dificuldade na coleta dessas informações, porque tem assuntos que minha mãe não gosta de falar. Se sente mal (...)”. (E. aluna do curso de pedagogia) Gagnebin (p. 101) vai dizer que existem “formas de esquecimento, duvidosas: não saber, saber, mas não querer saber, fazer de conta que não se sabe, denegar, recalcar”. E por que os alemães dos anos 50 e 60 desejavam tanto esquecer, segundo Adorno? Porque o peso do passado era tão forte que não se podia mais viver no presente; esse peso era insuportável porque era feito não apenas (!) do sofrimento indizível das vítimas, mas também, e antes de tudo, da culpa dos algozes, da Schuld alemã (p.101). Ao retornar a Adorno, a autora diz que a luta pelo não-esquecimento é necessária, já que não se trata apenas da nossa tendência natural de esquecer, existe também a nossa vontade e o desejo de fazê-lo. No entanto, é preciso ter cautela. Não se trata de um culto ao passado, mas um esclarecimento racional que nos permita analisar melhor o que acontece no presente. Sendo assim, ocupadas especialmente de fatos pretéritos, as narrativas dos estudantes funcionam como dispositivos, máquinas óticas que nos fazem ver e orientam o nosso olhar (Foucault apud Larrosa) sobre os processos formativos desses sujeitos e, que, portanto, podem nos ajudar a problematizar suas histórias, desnaturalizando, junto a eles, certos acontecimentos encobertos pelas idéias de mérito, fracasso, incapacidade, falta de base e etc. (Filé, 2013, p.7).
Mas nós temos que admitir: Contar a nossa própria história não é uma tarefa fácil.
“Vou tentar contar minha história sem inventar muita coisa. Pelo menos irei tentar. Como diz o professor, sempre aumentamos algo. Acho que nossa maior dificuldade é contar algo de si mesmo”. (D. Aluna do curso de Pedagogia) Compartilhamos da mesma limitação, pois a “experiência se vive, mas nem sempre se pode expressá-la” (Orientação coletiva - anotações). Nesse sentido, como narrar-se? Dar-se através das palavras? Walter Benjamin, em O Narrador, já alertava para a iminente extinção da arte de narrar, desencadeada pela evolução das forças produtivas. As mudanças nos meios de produção, segundo ele, também afetaram as nossas formas de percepção, fazendo com que o homem não cultive aquilo que não pode ser abreviado. Narrar, no entanto, exige demora. Cuidado nos detalhes. Infelizmente, essas não são coisas pelas quais se preze nos dias atuais. Na escola, comprime-se os tempos de aula, as informações nos livros. Aperta-se o ritmo para dar conta de todo conteúdo, antes de acabar o bimestre, o semestre e o ano. Aprende-se a reproduzir alguns modelos discursivos que, na prova, são cobrados em sua literalidade. Pouco tempo (ou nenhum) resta para pensarmos sobre o nosso lugar no meio de todo esse turbilhão. Inventando ou não, a narrativa também aponta uma qualidade própria da tradição narrativa: ela não se preocupa com a literalidade dos fatos. Não comporta o compromisso “de transmitir o puro em si”, diz
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Benjamin. Pois é carregada das marcas de quem viveu a coisa narrada e/ou daquele que a relata. Ao narrarmos uma história, nesse caso, a nossa, contamos como aconteceu e, por vezes, o que queríamos que acontecesse. (Orientação coletiva anotações) Escrever sobre/com as narrativas é escrever com as memórias, as histórias e as experiências. Durante a leitura dos relatos podemos perceber como essa proposta de escrita foi importante para alguns alunos trabalharem seu autoconhecimento, sua própria história. Ao mesmo tempo, que demonstram como é difícil para alguns entender o que realmente faz parte da formação dos mesmos. Isso porque desde o nosso primeiro contato com a escola somos ensinados a matar o “eu”. Reproduzimos uma repetição de palavras que muitas vezes não nos dizem nada, nem nos toca, nem nos transforma de alguma forma. As escolas insistem em deixar de lado o que acreditamos ser indispensável na formação de cada um de nós: o convívio e as experiências que nos acontecem. Escrever com fragmentos de narrativas exige um texto que se modifica a cada nova experiência lançada deixando clara a descoberta dos elementos que nos formam durante a própria escrita. “Em janeiro de 2013 recebi a proposta de montar uma linha do tempo contando a minha história e de minha família, voltaram em minha mente todas as dúvidas que tive no início de minha adolescência e percebi que somente as informações que recebi de meus pais não eram suficientes. Resolvi entrevistar (pessoalmente, por telefone, email e via facebook) minhas tias e meus primos mais velhos na esperança de
conseguir mais informações e fotos, pude ampliar meus conhecimentos sobre a nossa história”. (EII. Aluna do curso de Pedagogia) Começar um texto... narrar. Começar um texto que entrelace a educação, experiência e narrativa... narrar. Narrar a educação. Narrar na educação. Talvez, pensar a educação como uma arte de ouvir e contar histórias, ou ainda, uma arte de entramar histórias, de acolhimento das nossas experiências - daquilo que nos aconteceu ou daquilo que pudemos viver pelo relato de outros. (Orientação coletiva - anotações) A migração: em busca da terra prometida “Aos 17 anos, em 1973, minha mãe resolveu vir para o Rio de Janeiro. Todos diziam que o Rio era um paraíso. Não tinha fome, as pessoas jogavam no lixo coisas novas. Todos eram ricos. Deslumbrada com todas essas informações, minha mãe conseguiu convencer minha avó que a deixou vir para o Rio na companhia de uma vizinha”. (E. Aluna do curso de pedagogia)
As histórias começam em cenários diversos que, de forma mais ou menos detalhada, relatam os movimentos migratórios de vários estados brasileiros, em especial das regiões norte e nordeste. Muitos - pais, avós, bisavós ou os próprios alunos carregando apenas os sonhos na bagagem, chegaram ao Rio de Janeiro à procura de emprego e melhores oportunidades de vida. As longas viagens em condições precárias não os desanimaram. Eram dias, às vezes semanas de estrada até
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que conseguissem chegar ao seu destino. “Em busca de novas oportunidades, minha bisavó deixou seus filhos aos cuidados da família e partiu para o Rio de Janeiro, a bordo de um “paude-arara”. (N. aluna do curso de pedagogia) (vinda da Paraíba) As asperezas de uma vida de pobreza e a fome contrastavam com as histórias partilhadas em torno dos estados de RJ e SP. Por isso, por vezes, investia-se solitariamente no sonho. Arriscava-se o “tudo”! O “nada” ou o muito pouco que se tinha na crença de construir um futuro mais próspero. “Quando já estava adulta, minha avó Edith, decidiu vir para o Rio de Janeiro para ter uma vida melhor. Chegando aqui, começou a trabalhar como empregada doméstica em Copacabana, em uma casa de família bem rica, e me disse que a maioria das empregadas eram negras e de classe baixa”. (D. Aluna do curso de pedagogia) (vinda de Sergipe)
O desenvolvimento econômico da região, porém, não era tão democrático quanto se pintava. Chegando às terras fluminense, a maioria das mulheres se ocupavam das atividades de empregada doméstica em “ casa de família” e os homens, nas indústrias e na construção civil. Para alguns, em pouco tempo, o sonho da terra prometida, onde plantando tudo dá e trabalhando tudo se consegue, mostrava a sua verdadeira face exploratória e abusiva.
“Toda a família tinha que trabalhar. Os meninos logo cedo iam para as indústrias. As meninas, alguém logo arranjava uma casa de família para que pudessem trabalhar a troco de comida ou quase nada, como foi o caso da minha mãe”. (A.P. aluna do curso de pedagogia) “Meu avô era um nordestino que veio para a cidade com pouquíssimos recursos, mas ainda assim, conseguiu ingressar na marinha, onde sofreu preconceito por parte de outros marinheiros e de seus superiores. Muitas vezes ele teve que ceder lugar no alojamento para outros servidores cariocas e ainda suportar as piadas de que ele deveria servir como taifeiro e não como praça, já que a única coisa que o “paraíba” sabia fazer direito era comida”. (N.aluna do curso de pedagogia) “Minha avó materna começou a trabalhar muito cedo como empregada. Certa vez, um dos patrões que ela teve, que era bem mais velho, tentou agarrá-la a força. “- Eu estava com a criança no colo, tentando fazer ela dormir, e ele chegou por trás de mim com a “coisa” dura e disse: - Você é minha escrava, preta tem que dar pra branco. ” Conta ela com os olhos cheios de lágrima. E esse não foi o único, contou que em uma outra casa também sofreu tentativa de estupro quando trabalhava como empregada”. (J.aluna do curso de pedagogia) Há muitos anos o sudeste brasileiro é visto como local de oportunidades de emprego e moradia atraindo, principalmente, as famílias do norte e nordeste do Brasil. Muitas dessas famílias ao chegarem ao RJ decidem
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morar na Baixada Fluminense. Acreditamos que por essa razão os relatos de famílias vindas de outros locais sejam tão expressivos nos alunos da UFRRJ-IM, que se localiza em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense. Como destaca os fragmentos abaixo: “Em 1970 meu pai e minha mãe se casaram na cidade de Nova Russa Ceará, onde eles nasceram, e cresceram lugar de difícil situação financeira, e de difícil acesso à escola, o destino mais certo dos moradores mais humildes desta cidade era trabalhar na lavoura. Mas em busca de outra opção de vida e de trabalho, eles como tantos outros nordestinos abandonam sua cidade natal, suas famílias e vão para o sudeste tentar uma vida mais digna. Ou pelo menos se acredita nisso, levam muitos sonhos, que na maioria das vezes não são realizados”. (Z. Aluna do curso de Pedagogia) “Minha história tem início no ano de 1938, com o nascimento de meu pai José Alves Farias, em Alagoas e em 1950 com o nascimento de minha mãe Lindalva João dos Santos, na Paraíba. Ambos tinham o interesse em comum de conseguir uma vida melhor, com maiores oportunidades, o que não era encontrado em seus respectivos estados naquela época (questões econômicas e dificuldade em conseguir emprego com salário adequado). Então os dois decidiram vir para o Rio de Janeiro. ”(A. Aluna do curso de Pedagogia) O Brasil é conhecido mundialmente por sua miscigenação que permite ao nosso povo uma enorme diversidade religiosa, étnica e cultural. Permite encontrarmos o mundo em nosso país. Infelizmente, os registros dos alunos
também nos mostram como o racismo e suas consequências estão mascarados em nossa sociedade, pois é feito de muitas dissimulações, violências simbólicas e físicas (SODRÉ, 2000). O preconceito e a discriminação racial aparecem em nosso país de forma perversa, pois invisibilizam os sujeitos de se apropriarem de sua cultura restando para eles o “embranquecimento” ou o isolamento. Convocamos aqui o conceito de epistemicídio de Boaventura Souza Santos (2004), ou seja, a inferiorização de culturas outras que se distanciam da concebida pelo colonialismo de tal forma que destruímos a diversidade dos saberes locais e faz com que só tenhamos orgulho em reconhecer a descendência que nos embranquece. Diante dessa realidade de descendências variadas encontramos nas narrativas relatos de familiares que escondem suas origens como se sentissem vergonha da descendência negra, outros além de esconderem discriminam. “Notei certo desconforto de algumas de minhas primas da família do meu pai, quando souberam que se tratava de uma pesquisa para a Universidade, em relatar situações desagradáveis do passado como o fato de minha bisavó paterna ter sido escravizada, minha avó e todas as filhas serem analfabetas e os filhos terem estudado pouco. Senti um incômodo com o fato de tentarem “fugir” das minhas perguntas me mostrando que temos descendência europeia”. (EI. Aluna do curso de Pedagogia) “Meu avô era descendente de escravos, mas apesar disso tinha um grande preconceito com sua cor ou raça. Não aceitava que seus filhos se casassem com negros, lembro-me dele
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dizendo: “Preto quando não “caga” na entrada “caga na saída””. Minha avó era descendente de índio (...)”. (M. Aluna do curso de Pedagogia) Muitos alunos relatam a vinda de pais e avós de diversas parte dos estados brasileiros para Rio de Janeiro, sobretudo uma grande quantidade vinda do Nordeste e Minas Gerais. Muitos destacam sua cor, afirmando seu pertencimento étnico.
“Meu nome é (J.), brasileiro, 21 anos, sou um típico brasileiro, miscigenado ou na expressão popular “bem misturado”, me considero negro, porém pela opinião da grande maioria sou moreno. Pelas combinações genéticas parecidas meus pais têm quase a mesma tonalidade de pele, e cor dos olhos semelhantes, ambos verdes. Minha irmã e eu, ambos nascemos morenos de olhos claros, digo moreno por força de expressão, pois ambos nos consideramos negros. Pelo fato de minha família possuir um tom de pele que não é necessariamente tão escuro, e também pelo fato de termos olhos claros, nunca passamos até hoje, ou pelo menos não diretamente, por situações de injúria racial, afinal a maioria das pessoas não nos considera propriamente negros”. (J. Aluno do curso de pedagogia da UFRRJ). As violências narradas - físicas e psicológicas- são muitas. As resistências também. O próprio ato de migrar. Lançar-se no desconhecido. Jogar com as suas cartas. Mesmo que o narrador não se dê conta. Acreditamos que através de uma pedagogia narrativa seremos vistos e ouvidos e para, além disso, estamos
construindo através das histórias e da reflexão delas o reconhecimento e a criticidade do sujeito que pretende se formar educador. Como discorre FILÉ (2013): Uma pedagogia que se ofereça como oportunidade de tirarmos nossas histórias da invisibilidade e do isolamento. Trazer tais histórias para o espaço público para confrontá-las com aquilo que as hierarquiza, que as ignora, que as coloca em segundo plano. Isso significa produzir um conhecimento a partir das experiências dos próprios sujeitos e dos sentidos que se vai atribuindo aos modos de se estar no mundo, de se estar numa sociedade estruturalmente racista. (p.6) Educação, relações raciais e formação de professores Abrimos aqui uma reflexão: Quantas cores tem o Brasil? A cor nordestina do forrozão. A cor carioca do samba dos balangandãs. A cor mineira do congado. Brasil é mais que um lugar de cor. É um ponto no mundo, no qual as pessoas se misturam, feito água doce e água salgada. Um lugar chamado Brasis. Acompanhamos os noticiários, jornais, redes sociais e infelizmente, das três raças (branca,índia,negra) que se misturam dando origem a “maravilhosa variedade de tipos que somos”, com nossas crenças, culturas, valores e tradições, a dos brancos e o que eles pensam, ainda é a que se sobressai sobre todo o resto, legitimando assim a sua superioridade”.(pág.10 Grifo nosso). Mais do que cor ou etnia, é que debaixo de qualquer carne todo sangue é um vermelho só. Quem envereda pelos caminhos de pensar uma identidade étnica deste
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Brasil imenso que temos, deve ter cuidado com o olhar, afinal a diversidade étnica cultural é imensa, devemos olhar para “os vários Brasis” que possui uma riqueza, uma diversidade de identidades culturais de regionalismo quase infinito, este Brasil é dinâmico e muda muito, embora muitas vezes nós não vejamos ou não queiramos perceber como se dá conta da importância de investigar esta diversidade como deveríamos. Ainda considerando as palavras de Jorge Amado, podemos dizer que se no Brasil concorreu com alguma coisa válida para o enriquecimento da cultura universal foi com a miscigenação, ela marca nossa presença no acervo do humanismo, é a nossa contribuição para humanidade. Sobre a importância de desenvolver este trabalho, a mesma aluna conclui: “E esse agravante deve ser enfrentado pelas pessoas e especialmente na escola, o professor que contribui para formação de cidadãos e essa conscientização gerada nas crianças, será transformadora. Aprendo que mediante os relatos e as bases teóricas desenvolvidas em sala contribuem para esse feito e nos promovem uma preparação para futuras situações que enfrentaremos em sala de aula ou não como pedagogos. O estudo da pesquisa e seus resultados possibilitam o conhecimento de como essas desigualdades foram presentes em nossa formação, com isso contribui para o estudo e formação profissional dos mesmos. A partir da pesquisa realizada observamos que as histórias se entrelaçam e transparecem toda a dificuldade que ambas as famílias superaram e mesmo diante das
dificuldades não desistiram em melhorar de vida, com isso a questão da desigualdade social no país vem desde seu descobrimento, e até hoje permeia em nossa sociedade gerando a relação de inferioridade entre as pessoas da atual sociedade. Realizar essa pesquisa contribuiu para que meu crescimento fosse alcançado, em relação às concepções de desigualdades e a questão principal abordada é o racismo que desde o contexto histórico do país permanece na atualidade. Buscar o desconhecido é produção de conhecimento, nesse caso o desconhecido foi só em alguns relatos de meus familiares, pois a minha história foi só rememorada. O que também me produziu um aprendizado importante para a minha formação acadêmica”. (G. Aluna do curso de pedagogia da UFRRJ). “ Não possuía referência familiar, já que ficava com várias pessoas e por vários dias. Agora seu entendimento de família começa a se estabelecer, por isso teme tanto a ausência ou afastamento daqueles que ela reconhece e chama de pai e mãe. (...) Creio que mesmo passando por todas as dificuldades em meu processo de adoção, algo pesou menos, pois uma criança branca e com requerentes é muito mais fácil de ser adotada, pois de acordo com a juíza Andréa Pachá, titular da 1ª Vara de Família de Petrópolis (RJ) “é um dado estarrecedor”, saber que de a cor da pele ainda é fator decisivo na adoção: dos 30.378 inscritos na fila da adoção, 11.316 só adotariam uma criança se ela fosse branca”. (GII. Aluna do curso de pedagogia da UFRRJ). “Também pude identificar casos de preconceitos, desigualdade social, econômica e diversidade cultural na
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minha família. Somos uma família de diferentes origens, crenças e religião. Portanto, é possível afirmar que através dessa pesquisa adquiri um grande capital cultural”. (J.. Aluna do curso de pedagogia da UFRRJ). “Nunca pensei no fato de que o alisamento do cabelo, seria um disfarce, uma maneira de se enquadrar nos padrões préestabelecidos. Assim como a moda dita as regras, e às vezes sem condições, nos prejudicamos para se manter no grupo dos “normais. Sofri preconceito na escola ainda pequena, sofri preconceito de babás e até mesmo na minha própria família, porém nunca enfrentei isso como um problema, havia em mim uma naturalização dessa questão, que está instalada na sociedade de maneira expressiva, mas oculta ao mesmo tempo. Parto dessa problemática, um contexto histórico repleto de relações desiguais, de privação de oportunidades, de humilhação e cárcere, uma sujeira guardada “embaixo do tapete “que se declara findada, acabada, abolida. É por isso que entraremos nessa pesquisa, onde minha formação social, pessoal e escolar será questionada e narrada, de maneira que não colabore somente para os outros, mas também para minha própria formação”. “Posso agora entender a luta daqueles que buscaram direitos iguais, e daqueles que buscam até hoje um espaço no meio social. Senti na pele a tristeza daqueles que são presos ou agredidos pelo simples fato de não ser branco, sinto agora a rejeição nos olhares daqueles que discriminam e separam por cor de pele seu meio de convívio. Posso dizer que perdeu a graça, cada piadinha de duplo sentido que já me fez rir da
minha própria raça. Estou vivendo esse processo, estou entendo a gravidade dessa situação, que acusa o negro lutador de direitos de ser o próprio preconceituoso”. (L. Aluna do curso de pedagogia da UFRRJ) Esta narrativa é muito ilustrativa no que diz respeito às características do racismo à brasileira, pois como nos indica Guimarães (2009) que a sutileza de nosso racismo estaria na ideia de “Embranquecimento” que segundo o autor “significa a capacidade da nação brasileira (definida como uma extensão da civilização europeia, em que uma nova raça emergia) de absorver e integrar negros e mestiços” (GUIMARÃES, 2009, p.55). Também podemos perceber aqui o difícil processo de subjetivação do sujeito negro em assumir-se como negro (a), pois isto vai de encontro ao ideal de Brasil como “democracia racial”. Talvez, por isso inúmeras tentativas de “amenizar” os traços negros. Depois que se “entendeu” e passou a dizer que era negro, as frases mudaram. Começaram a querer lhe dizer que ela era índia, moreno, marrom bombom, que seu cabelo não era “ruim”, ou seja, para essas pessoas, quem não tem cabelo crespo, não pode ser negro. Sempre respondia que desconhecia qualquer lista de critérios que se pudesse seguir para ser mais ou menos negro. E assim, perguntava-se frequentemente o porquê de ser tão difícil para as pessoas dizerem que são negras. Buscamos em Munanga uma possível explicação para estas indagações que são nossa também nossas também:
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Apesar de ter fracassado o processo de branqueamento físico da sociedade, seu ideal inculcado através de mecanismos psicológicos ficou intacto no inconsciente coletivo brasileiro, rodando sempre nas cabeças dos negros e mestiços. Esse ideal prejudica qualquer busca de identidade baseada na "negritude” e na "mestiçagem", já que todos sonham ingressar um dia na identidade branca, por julgarem superior. (MUNANGA, p.16, 1999) Como educadores em exercício, devemos pensar que a escola é um dos ambientes (depois da família) como responsável pela socialização dos alunos, nela são ensinados conhecimentos científicos e valores sociais onde se estabelece contato com alunos de diferentes origens, costumes e dogmas diferentes, com diversas visões de mundo diferente daquela que compartilham em família. Cabe destacar que esta socialização no ambiente escolar nem sempre se dê de forma harmônica, sem gerar conflitos. No cotidiano escolar ocorre o encontro das diferentes culturas. Defrontam-se múltiplas histórias de vida; confortam-se preconceitos e criam-se resistências, a sala de aula é um espaço onde se explicitam tensões. Este contato diversificado poderá fazer da escola o primeiro espaço de vivência das tensões raciais. A discriminação racial tem seus reflexos no sistema educacional e impacta o acesso e desempenho da população negra dentro da sala de aula. A trajetória escolar e vida da população negra são marcadas por uma série de dificuldades materiais, que aliadas a um cenário sociocultural onde negros são representados como fracassados no sistema de ensino, a
expectativa de sucesso escolar do negro torna-se uma realidade improvável. As diferenças sociais têm contribuído para que esta população seja excluída da escola, e as mantenham em desvantagens nos demais setores da vida (trabalho, condições de moradia, saneamento etc). Fazer da discriminação um ponto de partida para refletir junto aos alunos sobre o problema, isso proporciona uma ação educativa, que trabalha dentro dos princípios aos quais defendemos e acreditamos que podem ajudar na construção de uma educação comprometida com a sociedade. Uma “escola para todos” e em que “todos são diferentes” exige de cada professor e professora, de cada direção, de todo corpo administrativo, a capacidade e a flexibilidade para inovar na linha de um paradigma que proporcione o eixo e a mudança, sem “despersonalizar” e aculturar. Acreditamos que a escola deve valorizar as características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais, as desigualdades socioeconômicas e a crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes, proporcionando assim aos alunos a possibilidade de conhecer o Brasil como um país multicultural. O currículo escolar deve valorizar a diversidade, o que implica em não aderir aos valores do outro, mas respeitá-los como expressão à diversidade. O grande desafio da escola será de constituir um espaço de relação social e interpessoal, através do trabalho pedagógico e as questões sociais, minimizando a proliferação da discriminação étnica e cultural. Embora o progresso da inclusão da História da África e da Cultura Afro-
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brasileira no currículo escolar seja uma vitória, cabe destacar que não basta para garantir melhoria no tratamento e respeito da população negra na sociedade e na escola, esta iniciativa aponta para caminhos a serem conquistados, e novas políticas a serem criadas, para minimizar as desigualdades e prevalecer o respeito aos negros. As mudanças que as escritas dessas narrativas provocam a pensar acerca da própria formação são de grande importância, pois propicia reconstruir novas maneiras de agir e fazer na prática docente, apresentando então, o desafio maior que é o respeito e a valorização da sociedade em relação às diversidades culturais. Pode ser considerado um caminho para quebras de barreira e paradigmas das desigualdades postulados na sociedade brasileira. O racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos. Muitas vezes toma a forma de ações sociais, práticas ou crenças, ou sistemas políticos que consideram que diferentes raças devem ser classificadas como superiores e inferiores com base em características, habilidades ou qualidades comuns herdadas. Logo os membros de diferentes raças devem ser tratados de forma distinta. É importante para refletirmos sobre o binômio relações étnico-raciais X produção de desigualdades, notarmos um discurso muito forte da democracia racial e da ideia de meritocracia, que, frequentemente permeiam esse debate, sem dúvida, fruto da “boa educação”, boa doutrinação. Talvez isto explique, em parte, o fato de alguns sujeitos da pesquisa não relacionarem seu insucesso ou de seus familiares no
campo educacional, sua posição de subalternidade à histórica produção de desigualdades que atingem em cheio a população afrodescendente. Além disso, contribui para esta confusão. (...) o esforço que a sociedade brasileira fez/faz para negar, não ver ou dissimular o racismo estrutural (Gilroy, 2001). Um processo que combina a naturalização do lugar subalternizado do negro na sociedade com a caridosa compreensão cristã/humanista de que todos somos iguais, que somos uma democracia racial. (FILÉ, 2013, p.8) Outra questão relevante que nos chamou atenção, talvez, também fruto do forte imaginário brasileiro acerca de vivermos numa democracia racial, é que não parece ser fácil, para alguns sujeitos, implicar-se com as narrativas de seus antepassados, a maioria aqui negros e afrodescendentes, mesmo que em alguns casos, indiretamente, se assumam como afrodescendentes uma vez que concorreram no vestibular como cotistas. Seria esta falta de implicação, este distanciamento, resultado do ideal de “branqueamento” amplamente difundido na sociedade brasileira? Ou o racismo estrutural brasileiro já atingiu tão alto de grau de naturalidade que nos dificulta enxergar algumas questões, como podemos ver nas respostas de uma das entrevistas para a composição das narrativas: Como a senhora se percebeu como negra na sua infância? “Naquele tempo não se falava muito sobre essas coisas. E nós trocávamos a vida em frente. Mas na adolescência no trabalho em casa de família, “havia nos prédios a entrada dos empregados e o elevador exclusivo para eles, nós não podíamos passar
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na portaria principal, destinada somente para os moradores e visitantes. A empregada só poderia comer após o término da refeição dos patrões”. Como a senhora se percebe como negra hoje? “Hoje não percebo discriminação, entro nas lojas e prédios e nunca senti tratamento diferenciado”. (M. aluna do curso de pedagogia) Em entrevista com as tias, as duas negras e de uma família cujos empregos para as mulheres eram sempre de domésticas, como uma espécie de tradição. Após falecimento de seu pai, sua família passou por necessidades financeiras, o que a levou a ter que parar de estudar e também a trabalhar como doméstica (sem carteira assinada). Sua primeira experiência com o racismo foi quando ainda frequentava a sétima série do antigo ginasial. “Levava como merenda frequentemente pão com manteiga e açúcar e uma banana. De repente passou a ser perseguida pelo apelido de “macaca” por um colega de classe. Passou a comer sua merenda escondida, porém a perseguição continuou. Com isso, desenvolveu uma aversão à banana que nunca mais lhe permitiu comêla”. (Essa é uma das dificuldades de não saber lidar com as diferenças, resultando nas desigualdades e discriminações, que podem deixar sequelas para uma vida inteira). A aluno descobriu na entrevista que fez para o projeto que sua bisavó era uma rezadeira muito conhecida no bairro e que uma tia-avó era mãe-de-santo. (R. aluna do curso de pedagogia) Seu pai veio para o Rio para servir no exército, e sua mãe para trabalhar em casa de família, conheceram-se e foram morar juntos, “meu pai um homem ignorante e extremamente
racista “casa-se” com uma mulher negra, racismo esse comungado por outras pessoas da família, especialmente pela vovó, que justificava seu racismo por ter sido traída pelo vovô, com mulher negra”, eu não compreendia o racismo, que partia dele, já que seu avô era “caboclo”e sua bisavó era índia pega a “laço no mato”. (F. aluna do curso de pedagogia) O que podemos notar claramente é o silenciamento e a naturalização do racismo estrutural, neste sentido, a boa educação e as tecnologias fizeram um ótimo trabalho. Outro fator que achamos importante destacar é que, apesar de os sujeitos da pesquisa abordarem a questão das desigualdades, isto aparece muito indiretamente, ou seja, ao falarem da formulação do projeto, nas citações de alguns autores, entretanto, raramente, associam isto às suas vidas, ao fato de o Brasil está entre as nações desiguais do mundo. Acrescente-se a isso o baixo índice de leitura seja ficção ou livros acadêmicos, provavelmente, pela falta de tempo, uma vez que o curso é noturno e registra um grande número de trabalhadores. A busca pela igualdade não é um assunto novo, a luta por essa conquista atravessa séculos e gerações, porém a resolução desse problema parece nunca chegar. Podemos observar em meio ao turbilhão de novidades tecnológicas ao qual a sociedade moderna tem se adaptado, que essa “questão “continua a ter um parâmetro arcaico e ultrapassado. Pessoas capazes de operar as mais modernas máquinas, capazes de desenvolver as mais diversas pesquisas científicas, dotadas de altos graus de intelectualidade continuam a excluir, menosprezar, separar e inferiorizar semelhantes por conta de cor da pele, classe social,
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religião, deficiência física, nível de escolaridade, etc. Nas últimas décadas no Brasil, temos visto a ampliação do direito à educação, a universalização da educação básica e a democratização do acesso ao ensino superior. Desse modo, entram cada vez mais para o espaço escolar sujeitos antes invisibilizados ou desconsiderados como sujeitos de conhecimento. Seus conhecimentos, demandas políticas, valores, corporeidade, condições de vida, sofrimentos e vitórias questionam nossos currículos, exigem da escola propostas emancipatórias. (GOMES, 2003, p. 77) Antes de prosseguir, podemos nos questionar: “Quem vem a ser o 'outro' na educação? Quem serão esses 'sujeitos invisibilizados' pela educação”? Para tentar chegar a uma possível resposta para essa inquietação, uma saída é pensarmos as “relações raciais” no Brasil. Inicialmente, precisamos saber que estamos falando de algo extremamente complexo, porque em nossa sociedade tanto o racismo quanto o preconceito e a discriminação estão envolvidos em uma rede de muitos fios e engodos, que se utilizam da dissimulação, para que tais assuntos sejam ora negados/silenciados, ora vistos como um “tabu”, ora “tolerados” com a justificativa cristã/humanista de que “todos somos iguais”, porque pertencemos a uma “democracia racial”. No entanto, há uma ardilosa e sutil armadilha ao dizer que “todos somos iguais”, pois tal expressão sintetiza aquilo que foi universalmente convencionado como ideal de ser humano; ou seja, ser, fundamentalmente, branco, europeu, proprietário, cristão e heterossexual. Sendo assim, todos os
sujeitos considerados “outros” aqueles e aquelas que escapam da referência hegemônica de ser humano - são emparedados pela educação formal ou por outros espaços educativos (família, igreja, mídia, trabalho,rua, etc.) a se conformarem, a se comportarem como “todo mundo”. Da mesma forma, quando falamos em “formação docente”, não podemos nos esquecer que os cursos de formação: cursos normais/cursos de formação de professores (nível médio) ou os cursos de licenciatura (nível superior); infelizmente, também tem acompanhado esse processo de naturalização da subalternização e silenciamento/negação dos negros. Por mais que tenhamos uma escola “monocromática, monocultural e monofônica” (Filé, 2013, p. 3), esses sujeitos “outros” da educação, ao longo dos anos, fizeram valer seus “questionamentos” e “exigências” de “propostas emancipatórias” dos currículos escolares, um exemplo, foi a implementação da lei 10.639/03. Que hoje em dia circula pelas escolas e universidades, no qual diversos cursos são oferecidos (cursos livres, cursos de extensão universitária, cursos de pós-graduação – lato sensu e strito sensu); em contrapartida, na maioria das vezes, as relações étnicoraciais nesses espaços-tempos ainda são desconsideradas ou tratadas apenas como temática, ou seja, vista como mais um componente curricular distanciado dos sujeitos e de seus problemas. Portanto, devemos nos questionar sobre esse paradoxo, por que a educação (mais especificamente a educação formal) tem tantas dificuldades para assumir e lidar com as questões geradas pelas relações étnico-raciais? A fim de tentar rascunhar uma resposta, poderíamos dizer que a lei
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10.639/03 caiu em um “jogo palavratório”, oco e vazio, ou seja, virou apenas mais um conteúdo a ser “aprendido” pela sociedade do conhecimento, ou mais um item do consumismo linguístico que deve ser lido e relido, lembrando que estamos atribuindo a leitura aqui o sentido mecânico e linguístico da decodificação de signos linguísticos. Desse modo, Jorge Larrosa (1994), irá dizer que podemos ter o conhecimento; no entanto, ele é algo exterior a nós, ou seja, podemos estar bem informados sobre algo; porém, nada nos comove em nosso íntimo. Assim, continuamos os mesmos; nossas aulas, ainda continuam as mesmas, presas ao conteúdo programático previamente estabelecido. Esboçando mais uma tentativa de resposta, sobre a dificuldade de lidar com as demandas das relações étnicoraciais, é pensar que entramos ainda em sala de aula esperando uma turma homogênea, isto é, sem singularidades; ainda esperamos ter alunos “bem” assíduos, que cheguem no horário, “bem” asseados, com famílias “bem” estruturadas. Isso é, antes de mais nada, o reflexo dessa “formação prescritiva, tecnocrática, asséptica e, que, fundamentalmente, se sabe antes de que aconteça” (Ribetto, 2011, p. 114). A fim de quebrar com essa visão hegemônica de formação ou com essa formação “maior”, Larrosa (2002) vai pensar na formação: Sem ter uma idéia prescritiva de seu desenvolvimento nem um modelo normativo de sua realização. Algo assim como um devir plural e criativo sem padrão e sem projeto, sem uma ideia prescritiva do seu itinerário e sem uma idéia normativa, autoritária e excludente de seu resultado, disso que os clássicos chamavam
humanidade ou chegar a ser plenamente humano. (p. 135) Então, uma maneira de se pensar a formação docente mais sintonizada com as complexas demandas das relações étnico-raciais. Seria pensar em uma formação que não queira “transformar o outro em alguma coisa que possamos controlar, nomear, explicar...logo” (Ribetto, 2011, p. 114); sendo assim, acreditamos em um fazer pedagógico em que o educando (re) elabore uma relação reflexiva consigo mesmo, muito mais importante do que aprender algo “exterior”, ou seja, um corpo de conhecimento. Desse modo, talvez a “Pedagogia Narrativa” (Filé, 2000) cumpra com as complexas demandas entre as “relações étnico-raciais” e a “formação docente”, como alertamos anteriormente. Segundo a Pedagogia Narrativa, a formação é um processo de “en-tramar” histórias, que pressupõe que os acontecimentos vividos - ouvidos (vistos, lidos) possam ser in-corporados para a reelaboração das nossas tramas, dos sentidos que podemos criar para a compreensão de nós mesmos e do mundo (Filé, 2000, p.16). Histórias de vida de professores em (trans) formação “Não se pode iniciar uma narrativa sem introduzir ou dizer o quão difícil torna-se para nós, voltarmos ao nosso passado…” (L, aluno do curso de Pedagogia – UFRRJ, 2013.1) As narrativas contam histórias de famílias com um grande número de integrantes, ou seja, com mais bocas para alimentar e corpos para vestir
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muitos deixam os estudos para os irmãos mais novos, às vezes nem isso, e começam a trabalhar muito cedo para ajudar na renda de casa. Isso faz com que grande parte dos pais desses alunos que agora narram suas experiências valorizem os estudos de seus filhos e incentivam ao curso superior agora conquistado, mas alguns deles também tiveram que trabalhar quando crianças para ajudar em casa e agora narram os caminhos, os percalços e a alegria de cursarem o ensino superior. “Não importa se nossas famílias tenham saído de Várzea Grande (Bahia), ou de Queimada da Paraíba (interior do Nordeste), ou da periferia de Salvador, ou do interior do Ceará, ou de Manhuaçu (interior de Minas Gerais) ou de Campos de Goytacazes (região nortefluminense); independente do nosso ponto geográfico de origem, em nossas cidades as oportunidades eram poucas, e o Rio de Janeiro era o nosso “El-dorado”; então resolvemos migrar para as terras fluminenses. Com a vinda para a cidade grande, nossas mães e tias se encheram de alegria e esperança, pois poderiam finalmente realizar o sonho de estudar; no entanto, os desafios persistem, pois o machismo de nossos avós teimavam em dizer que “mulher não devia estudar”, nossos pais aprenderam a seguir a cartilha de nossos avôs e, muitas das vezes, o machismo deles vinham acompanhados de agressões físicas e verbais contra as nossas mães. O que posso lhes garantir é que nossa história, e que nós somos um “amorfo em metamorfose”. Portanto, independente de nossa origem geográfica e de nossos “dramas familiares”, somos mistura de índios
e italianos ou de índios e portugueses; provavelmente, nossos sobrenomes Bigler, Manfrenatti, Mesculin, Quinelato nos faça perceber isso. Por mais que nosso avô negro sempre nos lembrasse da importância de se comemorar o dia 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura. Não conseguimos também ver a nossa cor. Pois, quando somos Sousa, Alves, Santos e Oliveira, ser brasileiro, já é o bastante. Nossa infância, foi com os pés no chão de barro pelos bairros da Baixada Fluminense (Belford Roxo, São João de Meriti, Paracambi, Duque de Caxias, Xerém, Anchieta, Nilópolis, Queimados, Cabuçu, Chatuba, Moquetá, Nova Iguaçu); nossas ruas não tinham asfalto; nem saneamento básico; nem iluminação pública. Realidade muito diferente das outras crianças que moravam em condomínios com parquinhos. Nossa nova casa era pequena, mas com um quintal enorme, com muitas árvores frutíferas, que serviram de brinquedo (o nosso parquinho, assim como os dos condomínios) ”. Em nossa casa, por mais que fosse simples, tínhamos o cuidado de guardar as nossas fotos, infelizmente, um dia a casa pegou fogo e as fotos se perderam, juntamente com todos os nossos pertences que também foram destruídos. No entanto, mesmo sem as fotos, as lembranças de nossas vidas ainda estão vivas em nossa memória, e se esbarram por essa narrativa. ”(J. aluno do curso de pedagogia) Desse modo, o ato de rememorar será fundamental; pois, segundo a obra de Jeanne Marie Gagnebin, “Lembrar, escrever e esquecer”: A rememoração também significa uma atenção precisa ao presente, em
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particular a estas estranhas ressurgências do passado no presente, pois não se trata somente de não se esquecer do passado, mas também de agir sobre o presente. A fidelidade ao passado, não sendo um fim em si, visa à transformação do presente. (GAGNEBIN, 2006, p.55) “As primeiras lembranças são as da minha vida escolar, aprendi a ler e a escrever, num fundo de quintal com uma professora que tinha por volta de seus 16 anos, nem curso normal tinha. Quando fui para a escola, minha vida era chorar. Chorava tanto que ficava com febre e vomitava. Mas com o tempo isso passou. E eu comecei a perceber que na escola, as cadeirinhas eram pequenas, tinha um parquinho enorme com chão de areia e brinquedos azuis. Tinha um sino, que quando acabava a hora do parquinho, a tia batia e todos corriam em direção a ela para retornamos as salas. Tinha sala de jogos, e uma mini piscina na parte de trás. Não sei se vocês repararam na descrição de minha sala de aula, que fiz anteriormente, como pode se perceber, a escola onde eu estudava foi claramente projetada para os filhos e filhas das famílias elitistas do Rio de Janeiro. Era nítida a diferença entre eu: negra, moradora da baixada fluminense e de família pobre; e a maioria das pessoas que estudavam lá. Começava com os sobrenomes: Sant’Angelo, Sathler, Veríssimo, Bragança, Kreder… E o meu? Ferreira. Em todas as minhas turmas, o número de jovens negros era baixíssimo. Éramos 5 ou 6 em um grupo de 30. Inacreditavelmente, essas diferenças nunca me afetaram significativamente. Só fui me dar conta dessa diferença, quando estava na antiga 8ª série do ensino
fundamental, hoje o 9º ano do ensino fundamental. Na época, foi criado um projeto da prefeitura do Rio de Janeiro, chamado “Carioquinha”. Basicamente, o projeto tem por objetivo fazer com que os cariocas tenham mais acesso aos principais pontos turísticos da cidade, para participar basta apresentar um comprovante de residência, assim o morador do município do Rio, ganha desconto nos pontos turísticos que deseja conhecer. Como disse, nessa época, foi a primeira edição desse projeto na cidade. Em minha escola foi uma sensação, pois a direção agendou diversos passeios, assim começaram as inscrições e a serem distribuída as autorizações para que os responsáveis assinassem. Só que eu não poderia ir, já que eu morava em Mesquita. Fiquei muito frustrada! Acho que foi a primeira vez que senti na pele o peso de ser negra, pobre e moradora da baixada fluminense”. (G. aluna do curso de pedagogia) A questão do gênero sendo levantada como aspecto de fragilidade em busca de uma posição melhor, negando ou contrariando as dificuldades a serem enfrentadas. “Em 1996, fui para uma nova escola, próximo à minha casa, foi a pior fase da minha vida escolar, a professora não gostava de mim, me ameaçava e mandava bilhetes de indisciplina todos os dias. Por ser um aluno inteligente, gordinho, branco e tímido, muitas vezes era deixado de lado pelos colegas. Tenho poucas lembranças e as que tenho não gosto de lembrar. Nunca me bateram ou me chutaram, mas era comum me chamarem de “nerd”, de “gay”, de “filhinho da mamãe” e outros. Dentre as humilhações, neste ano, na oitava série, uma professora, de Língua
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Portuguesa, me chamou de IDIOTA na sala. ” (P. aluno do curso de pedagogia) [...] Na ocasião na qual suas vizinhas sempre olhavam com desprezo, e sempre existiu uma fofoca de como uma mulher tão nova pode cuidar de um filho sozinha, e ainda trabalhar. [...]O que prova que mulher não depende de uma figura masculina. Mesmo sozinha, mostrava-se ainda mais independente, e capaz de enfrentar qualquer impasse econômico ou social. [...](G.R. aluna de curso de pedagogia)
A discriminação em nenhum momento é retratada como tal, até então há certa timidez em colocar esta questão, passando assim desprovida, ainda que seja pinçada em algumas falas, até mesmo nas relações étnicoraciais diante das suas omissões se colocam presentes, ou seja, mesmo através dos hiatos há possibilidade de enxergar os conflitos das experiências vividas e as possíveis implicações que proporcionaram a reflexão para pensar as relações étnico-raciais e a formação de desigualdade social. “Minha tia foi morar ao lado da minha casa no ano de 1972, nessa época alguns dos meus irmãos e eu sofremos discriminação racial, pois minha tia tinha os filhos de pele mais clara e cabelos loiros, então ela dizia que éramos negros e não gostava de nós. Alguns anos se passaram e sua filha casou-se com um rapaz negro, entretanto minha tia não concordava com o casamento, ao ponto de o genro não ir visitá-la por este motivo. Essa minha prima teve três filhas lindas desse casamento, uma loira e duas morenas”. (F.A. aluna do curso de pedagogia)
“Hoje, em minha família existem poucos negros para que eu observe racismo, somos todos misturados, não há muitas pessoas com a pele clara, a maior parte tem a pele moreninha, inclusive meu irmão que nasceu igual um índio, moreninho do cabelo lisinho, enquanto que eu nasci branquinha e fiquei pequenina loira com o cabelo enrolado. Meus pais disseram que já observaram preconceito, minha mãe citou o caso de seu sobrinho que é negro fruto do casamento de sua irmã, que é muito branca, com um homem negro, onde as pessoas faziam expressões de estranhamento quando esta respondia “Sim, ele é meu filho”, já meu pai disse que ocorreu preconceito em sua família, mas ele não queria revelar do que se tratava”. [...] (T.F. Aluna do curso de pedagogia) [...] Hoje, aos 17 anos continua achando que as pessoas não gostam dela por ela ser preta, em nosso último encontro, estávamos no casamento de seu irmão, e as mesas da festa estavam separadas por nomes, ela estava acompanhada de seu namorado, por conta disso, não ficou na mesa com a família do noivo, ela sentiu que isso foi um preconceito, e começou a desabafar, porém todos da mesa estavam encarando o fato como uma brincadeira, eu particularmente, achei tão cômico que começar a gravar o desabafo. Durante a gravação, ela relata que no decorrer da vida as pessoas perguntavam para ela se o Júnior era meu irmão ou da nossa prima, ela sentia-se mal por isso, apesar de Júnior ser branco e ela “preta”, ele era seu irmão. [...] (P.S. Aluna do curso de pedagogia) [..]O negro é sempre é inferiorizado pelos brancos, são colocados no lugar de incapazes. Quando algum negro
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cresce socialmente, adquire uma boa formação e um bom salário, sempre aparece alguém e diz a famosa frase: FOI SORTE! Devido essa massificação cresci achando que não iria chegar em lugar algum, não sou pessoa de sorte (pensava eu). Mas uma pessoa mudou meus conceitos. Hoje vejo que um dos meus conceitos permaneceu e eu mal me dei conta que ele ainda permanecia dentro de mim. Na hora da inscrição para a universidade eu tinha a possibilidade entrar por cotas, mas pensei da seguinte maneira: Se eu entrar por cotas não serei merecedora de estar ali. Então não coloquei. Esse é um exemplo mais que claro de como a sociedade é severa não só com negros, mas índios e pobres. E o quando essa agressão os faz mal. (S.A. aluna do curso de pedagogia) “Nesta parte, será abordada a história do meu irmão, onde poderemos notar casos de discriminação racial, racismo. Meu irmão e eu somos de pais diferentes. Seu pai era negro, portanto sua pele também é negra, fomos criados somente por nossa mãe, e as pessoas que não conheceram seu pai, sempre olhavam e notavam uma forte diferença entre os irmãos. ” (G.R. Aluna do curso de pedagogia) “O fato das minhas avós serem brancas e os meus avós negros é um fato interessante. Pois não houve preconceito por parte das famílias, em uma época, talvez, bem mais preconceituosa do que a de hoje”. (T. aluna do curso de pedagogia)
Ela não problematizou as questões raciais na sociedade e nem nas escolas onde estudou. Será que não passou ou não percebeu nenhuma
situação de desigualdade em toda a sua trajetória? Não houve implicação com o tema, ela se identifica como negra, o que pode ser constatado pelas fotos, além de se orgulhar de uma suposta democracia racial presente em sua família. Por que ela disse que não tem direito às cotas mesmo sendo negra? (Há por parte dela e talvez também de seus familiares uma espécie de idealização no que diz respeito ao relacionamento entre pessoas brancas e negras, como se estas relações não fossem geradoras de conflitos em nossa sociedade). A princípio, algumas histórias elaboraram em seu projeto uma entrevista com perguntas sobre o racismo, discriminação e dificuldades, que fez aos seus pais e irmãos e após ouvidas, se sentiu emocionada. “Com base nas respostas dos entrevistados, observação participante, análise de documentos e fotografias, chegamos a conclusão de que: “não houve em nenhum momento em minha família preconceito ou discriminação relacionado aos negros e sim um apoio mútuo, talvez pela dificuldade e sofrimento pela qual ambos passavam, mas houve sim as relacionadas a sua moradia (Baixada Fluminense) e sua naturalidade (Paraíba) ”. A escola e a escolarização As narrativas descrevem suas histórias de formação centralizada na escolarização, pois a formação escolar é citada em inúmeras narrativas, reconhecida como primeiro espaço de formação de desigualdade, contrariando a proposta inicial do que seja a escola, a própria escrita funciona como um delator dos processos de formação e conhecimento até aqui alcançados,
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ter como expectativa a chegada em uma Universidade Federal como um divisor de águas, demonstra uma ingenuidade, isto é, um olhar ainda aprisionado nos processos de escolarização Há um pesar nas escritas em relação à mudança da escola particular para a esfera da escola pública, também é citado as questões de exclusão pela aparência e agora também dentro da universidade tão sonhada, isso pode nos esclarecer que essas camadas que proporcionam desconforto aos desfavorecidos está presente não somente na sociedade, mas também nos cursos de formação de professores, o que de fato estabelece um paradoxo. “Enfim, ter entrado na universidade tem me permitido, ampliar horizontes, desconstruir preconceitos e "acordar” para a triste situação de preconceito que o nosso país enfrenta, o negro ainda é discriminado, ainda é segregado, ainda é humilhado, pela simples ignorância de outros "cidadãos”. (C. aluno do curso de pedagogia) A visão da escola pública com um ensino inferior e que as dificuldades financeiras seriam a razão pela transição da escola particular para pública, tendo inicialmente um certo desconforto. “Nesta escola algumas professoras influenciaram muito a questão da minha formação como professora, as mesmas me influenciaram pelo modo de ensinar e pelo amor que tinham a profissão. E então continuei nesse sonho, logo depois de terminar a 5ª Série, houve um “choque”, mudança de escola para seguir em frente nos estudos e dessa vez para a escola pública, da qual as pessoas não
elogiavam, mas há uma frase que meus pais sempre falam: “Quem faz a escola é o aluno”. Ocorreu esta necessidade de trocar por conta das condições financeiras dos meus pais, também porque na qual eu estudava havia falido. Da escola pública, eu não tive do que reclamar” [...]. (J. aluna do curso de pedagogia) Tal afirmação nos deu a pensar, como esta maneira de ver, permeia de forma tão hegemônica nossa sociedade? Mesmo quando ainda há muitas dificuldades em manter as condições básicas, o investimento numa suposta educação de “melhor qualidade” através do modelo privado, pode se sobrepor aos outros, como seu pai mesmo disse “como pagar escola particular se moramos numa casa de estuque? ” “As experiências e as discriminações vividas por minha família, não impactaram negativamente em suas vidas, talvez porque o foco era o trabalho e isso acabou passando despercebido, entretanto, meus irmãos e eu sabemos que suas condições os impediram de ter oportunidade equivalente aos demais, principalmente pela sociedade que rotula as diferentes culturas, julgando umas inferiores e outras superiores”. (K. aluna do curso de pedagogia) Chegamos a outra narrativa com: “Venho por meio desta pensar como a sociedade impõe que uma pessoa tenha que trabalhar para custear uma formação acadêmica, e o mesmo trabalho nos impede de manter essa formação”. Existe uma ideologia de maior valorização do trabalho em detrimento aos estudos, que o torna o principal meio de aceitação para uma
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parte de nossa sociedade. Quantas crianças e adolescentes tiveram que interromper os estudos para ter de trabalhar e ajudar a reforçar a renda familiar? Quantos adultos adiam ou anulam o sonho de ingressar na universidade por terem de se manter e sustentar suas famílias? “O trabalho é pesado, mas pelo menos se estar trabalhando, melhor pensar assim, meu pai resolveu voltar a estudar e terminar seu segundo segmento (antiga 8° série) na Escola Estadual Conde de Anglolano. Pois ele acredita que ainda é com a escolarização, que é possível um desenvolvimento individual, econômico e social do indivíduo. E no meio de tantas dificuldades consegue construir sua casa própria, afinal, a família aumentou agora são três filhos, e como ele não quer, que eles tenham as mesmas dificuldades que eles tiveram, faz o possível para que seus filhos tenham mais estudo que eles, e conseqüentemente uma vida melhor. ” (Z. Aluna do curso de Pedagogia)
“Por alguns anos, devido a problemas de saúde, seu pai ficou desempregado. Foi um tempo de vacas magras e ele não pôde continuar na escola particular. Assim, aos 12 anos de idade foi matriculado no CIEP 127 Nélson Rodrigues para cursar a 6° série. No começo, em uma realidade que ele desconhecia, não conseguiu se adaptar; e na 7° série saiu para cursar a 8° no C.E. Engenheiro Área Leão. Contudo, devido à falta de estrutura financeira, pois precisava pegar ônibus para chegar à escola, e por muitas vezes, teve que ir a pé porque o passe escolar atrasava. Como não conseguiu passar para uma escola técnica para cursar o ensino médio e
o técnico juntos, voltou para a escola Nelson Rodrigues em 2007 para cursar o Ensino Médio no horário da manhã (antes ele estudava no horário da tarde). “Nesse horário, a estrutura era a mesma, no recreio ficávamos largados, havia apenas um inspetor para o colégio todo, e as brincadeiras de mau gosto continuavam. (Que brincadeiras?) Mais uma vez, outra afirmação de que a escola pública é muito inferior a particular. (O. aluno do curso de pedagogia)
Uma outra narrativa, trouxe sua história marcada por dificuldades. Um de seus irmãos nasceu doente e morreu, sua mãe estava com tuberculose e ficou 4 meses internada. Depois, uma irmã também contraiu o vírus e a família sofreu preconceito dos parentes por causa da doença, que fez com que se afastassem. Nesta passagem, foi possível fazermos conexão com a narrativa do Poeta Cruz e Sousa e sua família que foi tragicamente marcada pela tuberculose, isto nos deu indícios da perpetuação da desigualdade social com o grupo de afrodescendentes, que mesmo um século depois continuará a ser atingidos por males do final do século XIX, pois a tuberculose se prolifera com mais facilidade em ambientes de extrema pobreza. Aqui podemos perceber os efeitos de os negros e afrodescendentes terem sido deixados à própria sorte após a Abolição e continuamos até os dias atuais ainda na parte baixa da pirâmide social, uma vez que não houve naquela época, políticas públicas que realmente se preocupassem em diminuir as desigualdades históricas das quais os afrodescendentes são as maiores vítimas, mantendo os negros com os menores salários, com as
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piores condições de vida e a menor escolaridade. Mesmo diante de todas as constatações do racismo a partir das desigualdades materializadas na existência dos negros (constatações feitas por estudiosos, governo, agências e organismos nacionais e internacionais), é necessário perguntar: por que a educação – mais especificamente a educação formal tem tantas dificuldades para assumir e lidar com as relações étnico-raciais? (Filé, 2013, p.3) Foi trabalhado com bastante ênfase no discurso da “Meritocracia” quando se comparou a estrutura da escola pública à da escola particular. Porém, mesmo estando no ensino superior ainda não consegue perceber que isto está relacionado com a produção de desigualdade que é gritante no Brasil. É um pobre que odeia pobre!! Com certeza se for atuar no magistério isto pode ser muito negativo para sua prática, pois parece culpar o pobre pela própria pobreza!!Além disso, as pessoas para ele não têm cor, raça, etc… Será influência do discurso da “democracia racial”? “Aos onze anos na 5ª série e seus colegas de classe, entre quatorze e quinze anos. Ficar naquela turma era uma tortura para ela, então passou a faltar às aulas e acabou reprovando de série. Mas como o desejo de ter uma vida melhor era grande, não desistiu e prometeu à si mesma que nunca mais repetiria o ano. ” Considerando que negros e pobres são vistos como diferentes e desiguais, em relação aos sujeitos esperados pela escolarização, é preciso ainda enfrentar as seguintes questões e as suas repercussões: como fizeram/fazem entrar e como dão continuidade? Como persistem ou
sucumbem aí? O que aconteceu/acontece com tais diferenças e tais desigualdades nos cotidianos das escolas? Como elas – as diferenças e as desigualdades – foram/são acolhidas, rechaçadas e/ou escamoteadas/desconsideradas, subsumidas? (FILÉ, 2013, p.5). Muitas situações como estas vividas no cotidiano de qualquer escola pública, por mim e tantos outros, resultam no processo de evasão escolar, infelizmente ainda pouco investigado pelas instituições e caracterizado como exclusiva responsabilidade do aluno, pois nem todos conseguem desenvolver as táticas (CERTEAU, 1998) PARA CONSEGUIR “burlar” este sistema que ainda é tão cruel e excludente e avançar na vida acadêmica minimamente. Ao narrar a história de sua família, contou que nunca passaram por dificuldades para arrumar emprego por serem nordestinas, as tias não lembram de terem sofrido nenhum tipo de preconceito por esse motivo, porém observa-se que o fato de serem exploradas no serviço era um tipo de discriminação por terem pouco conhecimento. Baseada na leitura de |Milton Santos, ela identificou um processo de naturalização da discriminação também sofrido pelos nordestinos ao chegarem às regiões sul e sudeste. Percebeu muito preconceito com o estudante de escola pública, foi barrada algumas vezes no ônibus, também ignorada quando fazia sinal, tudo por estar usando o uniforme de escola pública. Em 2012, estudou em uma escola particular de alto padrão na Baixada Fluminense, com a contribuição de uma bolsa, sem ela isso seria impossível. Lá, percebeu o quanto professores valorizados faziam
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diferença, as aulas eram incríveis, existia prazer em dar aula. Porém notou que os que tinham maior condição não “ligavam” para aquilo, mas tinham um conhecimento muito maior. Certo que também exigiam muito mais dos alunos, mas para ela foi importante sentir essa pressão, percebendo o quanto ser aluna de uma escola com “nome” fazia diferença. Comparava com o tempo que estudava em uma escola pública de formação de professores e sentia que as pessoas olhavam de uma forma completamente diferente. “Eu poderia começar a minha história a partir de inúmeros momentos e coisas, as quais marcaram a minha vida e acredito que tenha mudado muito o rumo dela, como por exemplo, a minha miscigenação com índios e negros e o lugar que me colocam, como a todos que não pertencem a uma dada elite. Poderia também traçar outros caminhos, mas garanto que nenhum outro espaço me transformou tanto quanto a escola, pois sempre tive com ela uma relação muito íntima, porque sempre partiram de lá as minhas maiores certezas e incertezas. ” (K. Aluna do curso de Pedagogia) “Na família da minha mãe descobri que todas as minhas tias não frequentaram escola porque o pai não permitia, elas aprenderam escrever o próprio nome e algumas letras utilizando alguns livros que tiveram acesso, posteriormente duas estudaram quando já eram adultas. Minha mãe foi quem mais estudou devido o fato de ter ido para um colégio interno quando ainda era criança. ” (EII. Aluna do curso de Pedagogia)
“Sempre trabalhei na área de educação, até que em 2010 minha vida deu uma reviravolta. Fiz a prova do Enem, por muita insistência do meu pai, e para minha surpresa fui aprovada no curso de Pedagogia. Fiquei muito orgulhosa e ingressei na Universidade. Entretanto tive que trancar a faculdade pois passei no concurso da PMERJ. Eu sou, portanto, a 3ª geração de Policiais Militares da minha família. ” (M. Aluna do curso de Pedagogia) “No ensino médio, fui para outro CIEP em São João de Meriti, desta vez era uma escola de Formação de Professores, não sei porque, mas resolvi ser professora, lembro-me da primeira vez que minha mãe me viu com o uniforme de normalista, ela chorou emocionadíssima, pois a filha estava tendo a oportunidade que nunca tivera. Foram anos maravilhosos, ainda sinto muitas saudades, tenho que confessar que gostava mais do normal do que gosto da Graduação. ” (M. Aluna do curso de Pedagogia) “Lembro-me que a situação de minha família era precária e muitas das vezes não tínhamos nem merenda para levarmos para a escola, tendo em vista que éramos dez ao todo e ficava difícil ter merenda para todos. Quando completei treze anos tive minha primeira decepção, meu pai me comunicou que teria que parar de estudar para ir trabalhar, pois minha irmã tinha arrumado um emprego de babá na Barra para mim. Tentei questionar, mas foi em vão, ele me disse que já sabia o suficiente e da mesma forma que meus irmãos saíram da escola para trabalhar, comigo não seria diferente. Me lembro de ter chorado muito, não consegui dormir naquela noite. Para
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mim era muito difícil abandonar meus sonhos pela metade, principalmente o de ser professora, pois sabia que sem estudo seria impossível realizar esse sonho, e quando pensava em abandonar tudo aquilo que conquistei, como grandes amizades, planos para o futuro e conhecimentos, foi terrível, saber que minhas amigas teriam a oportunidade de dar continuidade em seus sonhos e o meu acabava de terminar. Não tive nem a coragem de ir me despedir delas, muito menos dos professores, tive vergonha de pertencer a uma família tão pobre ao ponto de não termos a chance de estudar”. (E. Aluna do curso de Pedagogia) Como foi lembrado pelos alunos em algumas narrativas a conquista da continuação dos estudos deve-se ao empenho e esforço deles e de seus pais, mas também às políticas públicas de incentivo à educação continuada e expansão das universidades públicas do governo federal. “No ano de 2011 tive a oportunidade de entrar para um pré-vestibular social, que aos trancos e barrancos não chegou até o fim devido a uma paralisação. Mas para minha alegria prestei o vestibular da UERJ e o Enem. Me inscrevi no Sisu e passei para UFRRJ e também na UERJ ambos para o curso de pedagogia. Escolhi ficar na UFRRJ-IM por ser uma Universidade que oferece um bom curso, não é integral e fica próximo a minha residência”. (I. Aluna do curso de Pedagogia) “Voltei a pensar em ingressar no Ensino Superior quando soube que a UFRRJ inaugurou um Campus em Nova Iguaçu, me inscrevi no ENEM 2010,
mas cheguei atrasada no local de prova. No ENEM 2011 fui bemsucedida e pelo SISU escolhi cursar Licenciatura em Pedagogia. ” (EII. Aluna do curso de Pedagogia) Em resposta a esta reflexão destaco um trecho de uma narrativa em que uma aluna se dirige ao professor Valter Filé e conclui: “(...) prefiro a educação, pois assim como meu pai, também acredito que para nós de classe menos favorecida, a educação ainda continua sendo o único meio de conseguirmos atingir uma vida melhor, e eu quero ter a participação nisto, quero passar pela vida dos meus alunos deixando valores de vida, assim como você está nos ensinando, que a escola tem que nos enxergar e nos receber como somos com nossas bagagens de dificuldades e não como os alunos que ela idealiza receber”. (Z. Aluna do curso de Pedagogia) “Então, em 2011, resolvi participar do Pré-Vestibular Social (PVS) do Cederj. Escolhi ir à UFRJ no turno vespertino em 2012, no Campus da Praia Vermelha. Cursei o primeiro semestre de 2012, mas a distância era grande e os gastos com transporte e alimentação também. Em maio houve a greve e só consegui concluir o primeiro período em outubro. Na seleção do SiSU para o segundo semestre de 2012, optei por tentar vir para a UFRRJ - Instituto Multidisciplinar, em Nova Iguaçu, que por eu morar na cidade, o gasto seria reduzido e o cansaço devido ao trajeto também. Em 2011, enfim, passei para o curso de Pedagogia na Unigranrio, pelo PROUNI. Comecei a estudar, mas descobri que havia passado para a UFRRJ. Abandonei tudo lá e esperei a
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greve acabar para começar a minha realização acadêmica, planos e sonhos. Passei também para Medicina Veterinária, que era algo que eu nunca imaginei que conseguiria, mas minha mãe não permitiu que eu fosse. Fiquei triste, mas logo passou. ” A escolha do curso de pedagogia visto como última opção, a importância do status de uma Universidade Federal se sobrepõe a escolha do curso, seria uma questão a ser levantada para explicar a má formação e desempenho da profissão? Será uma questão que só ocorre com cursos de licenciatura? Durante suas narrativas muitos alunos afirmaram que o curso de Pedagogia não é/foi sua primeira opção. Muitos estavam formados como técnicos em diversas áreas e queriam apenas uma graduação, outros porque foi o curso que conseguiram classificação. Essa profissão tem sido desvalorizada há muitos anos e aqui não enfatizamos apenas os baixos salários, mas principalmente as condições de trabalho que estão cada vez mais desafiadoras devido às modificações que ocorrem em nossa sociedade e a falta de amparo dentro do sistema. “E ainda dentro do Curso Normal, lembrei-me da minha posição inicial. Onde entrei, somente como uma segunda opção. E lembro que na minha sala essa história se repetia várias vezes. Muitos estavam ali, por não ter passado num curso técnico renomado. E me questionei de como um curso tão importante, se tratando da educação, poderia ser encarado assim, com tanta insignificância? Acredito que as instituições favorecem para a desvalorização da
educação”. (F. Aluna do curso de Pedagogia) “(...) nesse mesmo ano, tentei outra área de formação e me matriculei na UniverCidade, no curso de Direito, onde fiz até o 3º período. Não me identifiquei com a área e após passar por esse curso e por outras áreas do mercado de trabalho (telemarketing e administrativo), depois de muitas reflexões percebi o quanto sentia falta de lecionar e o quanto eu gostava das crianças. Resolvi por vez retornar à área de educação, só que dessa vez já ciente de todas as dificuldades que enfrentaria em sala de aula. Procurei em 2011 faculdades para cursar pedagogia, possivelmente em 2012 ou 2013, então fiz o ENEM em 2011 e estava sem esperanças de realmente passar, tanto é que já havia decidido pagar uma faculdade particular. Nas opções de faculdade escolhi a UFRRJ e a UFRJ (as duas para pedagogia), e foi um extremo choque ver que estava entre as primeiras colocadas para o curso de pedagogia da UFRRJ (eram apenas 36 vagas e não tinha esperança de passar em tal colocação) ”. (A. Aluna do curso de Pedagogia)
“[..]Até aos 14 anos, não tinha a ideia real sobre esta sociedade complexa em que vivemos, foi aos 14 anos quando fui cursar o Ensino Médio, no ABEU Colégios, comecei a expandir um pouco meus pensamentos, comecei a perceber que nada era tão simples quanto parecia, ou tão complexo como pensava, tive alguns professores que me ajudaram bastante a amadurecer meus pensamentos, e incentivaram interesse por política, que por mais “chato” que pareça, precisamos criar uma consciência política, pois
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possuímos atravessamentos políticos e culturais; quando enfim fui para o terceiro ano do ensino médio, tinha pensamentos um pouco mais maduros em relação a política, a sociedade ao meu redor a qual também faço parte, fazia alguns cursinhos para poder fazer a prova do ENEM, estudava mas não sabia ao certo o que queria, pensava em cursar, direito,medicina e outros muitos cursos, todavia, vim parar em pedagogia e eu entendo que Deus tem um plano em minha vida, nunca havia pensado em tal curso, mas passei e escolhi cursar, tenho gostado muito, apesar de ainda não saber se realmente quero continuar, entrar para uma universidade federal foi uma experiência maravilhosa, a cada dia amplio meus pensamentos em relação a algo, tenho quebrado preconceitos, e paradigmas e pareciam "concretos", estou hoje no 2º período e a disciplina de sociologia e educação II, foi de extrema importância para mim, estou conseguindo desnaturalizar muitas coisas que passam despercebido, perguntas como : " Você entrou na faculdade federal por cotas ?" O que para mim era uma simples pergunta, passei a ver como essa pergunta é carregada de preconceitos, só pelo fato de ser negra tenho que entrar na faculdade pública por cotas? Mudei também meu pensamento em relação a cotas, vejo que é algo importante, nessa busca de "reparação" histórica de uma injustiça”.
[..] alguns critérios na decisão entre cursar Turismo em Petrópolis e cursar Pedagogia na Rural, me fizeram escolher a Rural, critérios esses: financeiros, psicológicos, sentimentais e principalmente a comparação conceitual entre as
instituições. [...] (V.K.aluna do curso de pedagogia) [...] estou nesta mão da história, sendo mulher, negra, pobre e tendo acima de quarenta e cinco anos, passei e passo pela dificuldade de me enquadrar no espaço acadêmico, tendo que a cada dia me superar para continuar estudando e me colocando na sociedade atual para que seja respeitada pelo que sou e não pela aparência e idade que tenho. Uma vez me perguntaram por que eu uma mulher de mais de quarenta anos, negra e pobre estava fazendo na universidade, ao que respondi: Algo que você com toda a sua ignorância será incapaz de entender”. [...](M.S. aluno do curso de pedagogia) A identidade narrativa é abertura para a alteridade radical. É ficar ferido pelo desconhecido, pelo desconhecido, pelo inesperado, é deixar livre a dimensão da extrangeiridade, é afirmar que outro jamais fica preso pelo mesmo. E é através do narrável do relato que a identidade se forma (se educa) na recordação na memória, na experiência[...] (Orientação coletiva anotações) As provocações aqui levantadas contribuem para compreender algumas implicações, não que o término das leituras nos traga respostas, não é essa a intenção, e sim, como podemos nos fortalecer a partir da vivência do outro, e que outras indagações eles nos levaram e nos levarão a pensar. Essas narrativas rememoram um passado que foi/é silenciado, apagado, expurgado por uma “história oficial” (branca e eurocêntrica), ou seja, pelas “grandes narrativas”.
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Sendo assim, ao rememorar histórias de vida (de professores), pretendemos aqui “en-tramar histórias” (Filé, 2010), ou seja, alinhavar as histórias de colegas professores, e de várias “outras” pessoas - aparentemente, sem nome; com histórias, aparentemente, sem sentido - com as nossas história de vida. Assim, Ferraço (2003) nos ajuda a entender a pesquisa enquanto uma constante busca a nós mesmos, em sermos pesquisadores de nós mesmos. De tal modo, ao passo que vamos contando as histórias de tantos “outros” sujeitos/personagens; vamos, assim, contando/narrando a nossa própria história e, ao fazer isso, começamos a nos compreendermos. E, assim, pretendemos “escrever vivendo” (MACHADO; ALMEIDA, 2015), uma escrita que pressupõe a fabulação, a fragmentação, fatos descontínuos, e que segue “uma lógica da experimentação que deixa que as ideias surjam da vida sem um
acabamento absoluto – um improviso”. (FILÉ, 2006, p. 51). Acreditamos que o Projeto Relações Raciais nas escolas e formação de professores pode contribuir significativamente para pensar Políticas Públicas que possam colaborar com o combate à produção de desigualdades na Educação Brasileira, pois, certamente, traz narrativas de sujeitos que, até há pouco tempo, eram produzidos como inexistentes na Educação Superior, um lugar reservado aos brancos, o projeto faz algo muito relevante para a Universidade Pública se repensar como instituição, que é apresentar estes novos sujeitos que chegam ao Ensino Superior, a fim de que a Universidade considere que “(...) as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito de ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.”(Santos, 1997, p.122)
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