Camadas narratividades visuais da violência
Camadas: narratividades visuais da violência
Coletivo Lâmina
Gabriela De Laurentiis
João Mascaro
Curadoria de Ana Avelar
Catálogo da exposição realizada na Casa de Cultura da América Latina (CAL), UNBBrasília.
Fevereiro e março de 2018.
Ana AvelarCamadas: narratividades visuais da violência
Esta primeira mostra do Coletivo Lâmina – formado por Gabriela de Laurentiis e João Mascaro – reúne objetos associados à tecnologia da imagem que se conjugam com fotos, produzindo uma instalação fotográfica imersiva. As imagens foram produzidas em várias manifestações que ocorreram no país desde 2013, focando não apenas a atuação impetuosa da polícia, mas mesmo o uso da fotografia, por parte dela, para repressão dos manifestantes.
Diante dos inúmeros registros desses episódios difundidos à exaustão, o Lâmina propõe este ambiente soturno e cinematográfico, espécie de estranho laboratório experimental subversivo no qual se investiga a fotografia como instrumento de controle. O espectador adentra esse ambiente incômodo onde encontrará um lugar de ressignificação dessas imagens, à parte da saturação experimentada via mídia e imprensa –colabora para tanto o contraste p&b e das cores e a sobreposição de camadas, o que gera um turvamento, uma imprecisão dos detalhes.
Ao mesmo tempo, esse espaço criado possui uma atmosfera de gabinete de estudo, no caso, do estudo de uma situação de conflito urbano que se assemelhou a uma guerra. Em outras palavras, a instalação “Camadas” apresenta um recorte desses episódios da historia recente como se já fossem – e são mesmo – um assunto para análise e pesquisa.
Susan Sontag, uma ensaísta atenta para tantas camadas das histórias e dos simbolismos da fotografia, escreveu que: “Em lugar de simples-mente registrar a realidade, as fotos tornaram-se a norma para a maneira como as coisas se mostram a nós, alterando por conseguinte a própria ideia de realidade e de realismo”. Nesse sentido, foto-grafias das manifestações já constituem um topos contemporâneo, por isso Lâmina propõe estruturas para tridimensionalizar as imagens, transformando-as em objetos específicos. É necessário olhá-las de novo.
instalação da obra Controles na Galeria Acervo, CAL, 2018.
fotografia digital em tela de LED 7”, enviada por um sistema raspberry pi.
fotografia digital usada na obra Controles, São Paulo, 2014-2016.
instalação da obra Mímese, Galeria Acervo, CAL, 2018. negativo exibido por ampliador fotográfico.
Mímese (detalhe), São Paulo, 2014-2016
da esquerda para a direita: Tomos, Suporte, Mímese e Controles
Suporte (à esquerda) São Paulo, 2014-2016 12x18cm (com moldura) da esquerda para a direita: Luzes, Tomos e Suporte.
Tomos
São Paulo, 2015-2016 20x20x25cm impressão em acrílico e madeira
Luzes São Paulo, 2014-2016
à esquerda: Luzes, Contenções e Tomos.
à esquerda, fotografia digital usada em Luzes.
Contenções São Paulo, 2015-2016 raspberry pi e TV 16”
Acusma São Paulo, 2015-2016 impressão digital 90x60cm
Sufocamentos São Paulo, 2015-2017 vídeo
Contenções (à direita)
São Paulo, 2015-2016 impressão digital 80x60cm
Choque São Paulo, 2016 projeção 3x1,5m
Coletivo Lâmina
Considerações sobre a criação
As manifestações de rua ocuparam considerável espaço, em diversas cidades brasileiras, desde junho de 2013. Nas redes sociais, nos noticiários televisivos, na mídia impressa – tanto em seus veículos tradicionais, quanto nos independentes – surgiram uma série de registros imagéticos desses eventos políticos. A violência policial foi um dos fatores que, sem dúvida, mais nos impressionaram. No entanto, não apenas a conhecida violência física inferida diretamente ao corpo dos manifestantes, mas a violência das tropas de contenção, que impediam as pessoas de circularem pelas ruas; das armas que mesmo quando não disparadas, provocavam terror; dos tanques, carros, motocicletas que transformavam o espaço urbano e criavam uma atmosfera de guerra.
Realizamos uma série de registros sob esse foco, utilizando equipamentos fotográficos analógicos, digitais e mesmo celulares. Foi necessário tempo, para que esse material começasse a tomar alguma forma, que expressasse as sensações produzidas diante dessa experiência. E foi, em conversações com a história da fotografia, que encontramos espaço para concepção deste projeto.
matriz da obra Choque, São Paulo, 2016.
No século XIX, a antropologia criminal utilizava-se do aparato fotográfico para identificar os desviantes, assassinos, criminosos em geral. Corrido o tempo, nas manifestações de rua em São Paulo, dispositivos audiovisuais foram amplamente utilizados pelos manifestantes para denunciar os abusos policiais, mas também, pela própria polícia para identificar aqueles que tomavam as ruas.
Nesse movimento que intersecciona a história da fotografia, a polícia e o espaço urbano, interessa-nos produzir questionamentos sobre as relações de poder que permeiam, historicamente, a elaboração de imagens fotográficas e, simultaneamente, as possibilidades que as técnicas fotográficas abrem para a criação de imagens críticas, no espaço da arte contemporânea. Privilegiamos, para isso, a criação de imagens com texturas variadas, a partir da sobreposição de camadas. Combinamos diferentes mídias, utilizando impressões caseiras e fine art, projetores, ampliadores, lanternas mágicas, que resultaram no projeto expositivo Camadas: narratividades visuais da violência.
Casa da Cultura da América Latina
Diretor | Alex Calheiros
Produção
Estefânia Dália e Gisele Brito
Assistente de produção
Carmen Mee
Montagem
José Carlos
Apoio à produção
Euler Soares
Sangelo Vasconcelos
Registro fotográfico da exposição
João Mascaro