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O espetáculo “A Praia do Mel” estreou no Espaço Armazém Fundição Progresso no dia 20 de novembro de 2017, sob direção de Jopa Moraes, com o seguinte elenco: Chris Igreja: Glauce; Vendedora de Canga Hikari Amada: Camila; Vendedora de Piercing; Repórter Márcia Rodrigo Salvadoretti: Carlos; Olavo Samuel Paes de Luna: mendigo Thiago Carvalho: Carmino; Otávio Vitor Sampaio: Barbudinho; Juninho
[camila está sentada na calçada com uma lata de cerveja. Tem o olhar vazio e distante. mendigo se aproxima. mendigo não aparenta ser um morador de rua. Ou melhor, não aparentaria. Não fosse o carrinho de supermercado que empurra repleto de cacarecos pensaríamos nele como só mais um artista largadão de meia idade. Entre os objetos dentro do carrinho empurrado por mendigo estão: uma cabeça de boneca sem o corpo, uma buzina de bicicleta, um grande peixe fresco e um microfone. O cabo do microfone está conectado à boca do peixe. O peixe é, aparentemente, a única coisa comestível dentro do carrinho.] mendigo [para o microfone] É a cidade, baby. É a cidade! Um antro fumegante de delírios. Desejos coloridos estampados nas gôndolas das farmácias. Táxis tresloucados. Muambeiros Angolanos. Sexo, sexo, sexo. As ruas aquecem os hormônios enquanto o lixo queima nas esquinas. Os bueiros perfurados no asfalto exalam o bafo quente da solidão. É a cidade, baby. É a cidade. De pernas abertas. De pernas beeeem abertas. Chevettes tunados passeiam vibrando a cartilagem dos nossos tímpanos com batuques libidinosos de música funk. Luzes neon faíscam os cabelos esvoaçantes das adolescentes que fugiram de casa depois da novela. É a cidade excitada, baby. Toda molhadinha. De pernas abertas. De pernas beeeem abertas. E eu sinto o cheiro da lua. O cheiro das estrelas. O cheiro da lataria dos automóveis. Escuto os motores fatiando o ar dentro da noite. Ah, a sarjeta! O abrigo que sempre vai estar. Desapiedado e receptivo. A fronha onde babam os cachorros, os bêbados, as crianças perdidas. A casa sem porta. O éden sem guarita. O transito será sempre livre nas virilhas umedecidas da cidade cinza. Ou será que algum dia a sarjeta se cansa, abaixa a saia, e vai 4
embora? Enquanto isso eu vou largado. No camarote dos desajustados. Tentando ver um pedacinho do futuro na espuma de cerveja que restou no fundo do copo. mendigo [para camila com voz fraca, botando uma cara sofrida] Um trocadinho....Um trocadinho....Um trocadinho, por favor.... camila Estou desempregada. mendigo Então está pior do que eu. camila Sua cerveja está cheia? mendigo Acabou. camila Então está pior do que eu. mendigo Ah, mas eu não posso beber muito de qualquer maneira. Estou aqui hoje a trabalho. camila E você faz o quê? mendigo Um trabalho muito sério. camila Eu imagino. mendigo Mas não posso contar. camila Tudo bem, sem problemas. mendigo Sou astronauta. camila Tenho um trocado pra você, astronauta. Aproveita que é a minha última esmola. Fui despedida hoje. mendigo Só isso? camila Disse que fui despedida. mendigo E o que tem? Eu estou aqui trabalhando. Tenho 5
gastos, sabia? Um astronauta tem muitas despesas. Os foguetes propulsores, a comida em pílulas, o traje espacial, a coisa toda. E o oxigênio? O oxigênio anda muito caro ultimamente, você nem imagina. camila Se não quiser, me dá de volta. mendigo Vou dar daqui a pouco, na próxima virada. camila Que virada? mendigo Do milênio. camila Então, na próxima vida, você quer dizer. mendigo Na próxima vida...não seja tão ignorante. Daqui a [faz as contas]...12 vidas. [tempo] Me dá um gole e eu te conto o seu futuro até a chegada milênio. Vejo o futuro na espuma da cerveja. camila Ah, então esse é o seu trabalho. mendigo Não, isso é só um hobby. Meu trabalho mesmo é observar e registrar. Observar e registrar. Observar e registrar. Uso esse gravador aqui, ó. camila Um microfone ligado num peixe? mendigo É um peixe elétrico. camila Explica muita coisa. mendigo Não deveria estar te contando isso. Mas você me parece uma mina inteligente. Pelo menos acima da média. O que não é um grande feito. Mas enfim... ninguém tem culpa de nascer no planeta que nasceu. É o seguinte. [em tom de confidência] Todo mundo aqui... está procurando alguma coisa. 6
camila Ah...jura? mendigo E eu fui designado pelo meu supervisor a trabalhar nessa cidade...De todas, essa cidade aqui é campo de pesquisa mais complexo. camila Parabéns. mendigo Obrigado. Não foi mole conseguir essa vaga. Porque todos aqui estão procurando algo. Mas como essa cidade dá muitas opções... É o melhor lugar pra quem não quer achar o que está procurando, entende? [Tempo.] mendigo O que você está procurando? camila Atualmente só um emprego mesmo. mendigo Só isso? Que sorte. camila Sorte? mendigo Isso é fácil! camila Ah é. mendigo Olha pra todas essas pessoas. Tá vendo. Todas elas trabalham, não é? camila Imagino que sim, a maioria. mendigo Então! Conseguir o que a maioria tem é fácil. camila Ai, que merda. O que eu to fazendo aqui? Não basta estar desempregada... tenho que ficar dando papo pra maluco também. mendigo Tem mais cerveja? 7
camila Não, acabou. mendigo Mas você ta bebendo. camila Eu trabalhei pra conseguir. Trabalhei! Trabalhei muito...trabalhei duro...e agora to desempregada. Por que você fica me lembrando isso? mendigo Lembrando o quê? camila Que eu to desempregada... [para si] E agora… E agora? mendigo Tá com a cabeça cheia de agora. camila Não sei o que vou fazer agora. mendigo Não sabe o que vai fazer agora. camila Vou procurar outro emprego né. mendigo Agora? camila Agora agora não. mendigo Todo agora é agora. camila To querendo dizer que não vai ser agorinha. mendigo O agorinha é o maior de todos. Por que, então, vocês chamam agorinha? O agora depois me deixa confuso. camila Tanto faz... mendigo Quer ouvir uma história? camila Agora? mendigo Todo agora é agora... camila Já entendi essa parte. mendigo O agora depois me deixa confuso.... 8
camila Disse que já entendi. mendigo Posso contar? camila O que, meu senhor... mendigo A história! camila Depende da história. Tem morte, tiro, bomba, violência, gente esquartejada, picadinha, pingando sangue, queimada dentro de pneu? mendigo É só o que tem nessa história. camila Sério? mendigo Então vou contar. camila Qual é a história? mendigo A história do mundo. camila Ah, obrigada. mendigo No começo não existia nada. Ou melhor, o nada era a única coisa que existia... camila Eu disse “obrigada”. De “Não, obrigada”. Estava recusando. mendigo Então eu vou contar a do universo, tá? Só é um pouquinho mais longa... camila Vai ficar pra próxima, fera. Valeu mesmo. [mendigo dá de ombros e começa a andar novamente falando com seu microfone.] mendigo Policiais fardados tomam Redbull de canudinho... Um gringo de chapéu panamá pergunta pro vendedor de paçoca onde fica a estátua do Drummond.... Um rastafári 9
passa remando seu skate de chinelos havaianas.... [mendigo sai.] [camila continua sentada na calçada. Continua segurando a latinha de cerveja. E continua com o olhar vazio e distante.] camila Me aparece cada uma... Do mesmo jeito que apareceu se escafedeu. Ainda bem. To querendo ficar sozinha. Mas não precisava ser tão sozinha. Vou mandar uma mensagem pra alguém. Acho que a Paula tá acordada. Não, não....aí vou ter que ficar falando a noite inteira sobre isso. To desempregada mas não to morta, porra. Vou me divertir. Com trinta reais. Já é alguma coisa. Quem precisa de dinheiro pra se divertir? Eu preciso dar. É isso que eu preciso….Muchachos, vem ni mim que hoje eu to mais soltinha que arroz de vó! [Pausa.] Acho que eu vou ligar pra Paula. [Pausa.] Não, não. A Paula é campeã em dar conselho torto. Pra me entortar sou autossuficiente. Que isso cara, tá sentindo pena de você mesma? Foda-se. Tô mesmo. Quem diz que não sente pena de si mesma é porque é masoquista ou mentirosa. Se eu pudesse fazer qualquer coisa agora, hein… O que eu faria? Provavelmente algo que não dá pra fazer com trinta reais. Que idiotice ficar pensando em dinheiro. Dinheiro não é a coisa mais importante do mundo, cara. Que o dinheiro manda no mundo, isso eu concordo. Mas mandar numa coisa é uma coisa, ser o mais importante dessa mesma coisa, é outra coisa. Tenho nojo de dinheiro. Pego no dinheiro e já quero lavar a mão. Como pode ser boa uma coisa assim, tão nojenta? Aquele cheiro fedido de 10
dinheiro.... Eu queria agora… eu queria agora…. o que eu queria agora? Eu queria agora estar num… aeroporto! Isso. Sim. Aeroporto. Luzes brancas. Ar condicionado. Aquele cheiro gostoso de avião…. com uma roupa nova… aquele cheiro gostoso de roupa nova…. com um perfume novo… aquele cheiro gostoso de perfume novo.... Isso! Um perfume novo pra usar com a roupa nova, dentro de um avião novo, que está estacionado num aeroporto novinho em folha.... Está decidido. Vou viajar... E foda-se o dinheiro… Eu passo tudo no cartão! Luzes brancas. Ar condicionado. Caralho, eu já to no metrô. Que horas eu vim parar no metrô? Que noite de merda. Eu devia ter ligado pra Paula. Por que eu não liguei pra Paula? Às vezes eu não me entendo... Eu devia ter ligado pra Paula. Pelo menos ela me entende.
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[Vagão de metrô. Entra carlos.] carlos [Sentado em seu canto, descontraído. Conversando com a plateia.] Todo mundo quer ser Rimbaud, mas ninguém quer perder a perna. Nunca vi uma música boa saindo de dentro de um conversível. Os canivetes suíços duram mais do que a vida média de um brasileiro assalariado. Hoje desisti de trabalhar, vou ficar aqui, de boas, tomando meu picolé frito. Picolé frito. Picolé frito. Picolé frito. Isso tem sonoridade. Picolé. Frito. Tem ritmo. [Ri. Tempo. Bufa.] Macunaíma estava muito contrariado. Não conseguia reaver a muiraquitã e isso dava ódio. [Irritado.] Bom dia, bom dia, bom dia. Bom dia, linha 2. Bom dia, Rio de Janeiro. Bom dia, Brasil. Bom dia pra você que ainda não dormiu. Bom dia pra você está com a cabeça cheia, bom dia pra você que está com a corda no pescoço, bom dia pra você que perdeu a chance e está recomeçando. Meu nome é Carlos e hoje eu trago pra vocês um produto que vai revolucionar a sua manhã de domingo. Ficou curioso para a novidade, abençoado? O produto não é lançamento... mas muita gente ainda não conhece... Se chama poesia. É a distração da sua viagem. Ajuda a parar de pensar no imediato e amplifica as percepções sinestésicas. E a poesia tem em vários sabores, basta você adquirir, já vem pronto pra degustar. [Se acalmando, como que contando até dez.] Picolé frito. 13
Muiraquitã. Picolé Frito. Muiraquitã. A poesia vou explicar rapidamente como funciona. É muito simples. Ela alterna na temática e na linguagem. O que deixa o produto ainda mais interessante. Tem o poema de amor, tem o poema de dor de cotovelo, tem o poema existencial, tem o poema engajado politicamente… isso é a temática, já vem aqui descriminado na embalagem. “E como eu escolho a temática, Carlos?” [Se acalmando.] Picolé frito. Muiraquitã. Picolé frito. Muiraquitã. A temática o passageiro vai escolher de acordo com o momento que tá passando na vida, senhores. Se foi despejado, se brigou com a companheira ou o companheiro, se o síndico encanou com o Iron Maiden que ficou rodando insistentemente no seu aparelho de som ontem à noite... Daí depois de escolher a temática você vai pra linguagem. A linguagem já tem mais a ver com o gosto pessoal do passageiro. Também é muito simples. É só o passageiro escolher o que combina com o seu estilo próprio. Se o passageiro não tem estilo próprio, escolhe mais de um pra descobrir qual é o seu estilo próprio. A poesia ajuda nisso também. Tem o poema em prosa... tem o poema rimado… tem o poema metrificado.... e tem também o poema em versos brancos e livres, que é o mais recente no mercado.... Daí o passageiro me pergunta: “Carlos, mas pra que serve a poesia?” A poesia realmente, abençoado ela não serve pra nada. 14
Mas não é por que não serve pra coisa alguma que isso tira a qualidade do meu produto. Eu, Carlos aqui, só trabalho com lirismo fresquinho e original. Todos poemas sequinhos, sem gordura, trabalhados na síntese e na concisão pra facilitar o consumo nesses dias atuais de correria urbana. Daí você me pergunta. “Carlos, mas pra que eu vou querer consumir uma coisa que não serve pra nada?” Aí é que está a questão, abençoado. A vida também não tem propósito definido e a gente continua insistindo nela, não é mesmo? Compra a poesia, que a poesia também ajuda a refletir um pouco sobre isso.“Já pensou em escrever um livro, assim, de verdade mesmo, com capa dura e tudo pra vender tipo em uma livraria e parar de encher o nosso saco no metrô, Carlos?” Aí é que tá. Aí fora, um produto com a mesma qualidade do meu, você vai encontrar por 40, 50 reais. Aqui, na minha mão, você paga somente uma contribuição espontânea. Isso mesmo, somente uma contribuição espontânea. [Tempo.] Outro dia o cara mandou na minha lata: “Eu odeio poesia.” Eu estiquei a mão pra ele e cumprimentando disse: “Eu também!” É só me chamar que eu vou aí onde os senhores estão sentados.
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[Copacabana. Manhã de domingo ensolarada. Dois velhos realizam sua rotina diária de frescobol.] olavo Eu não concordo. carmino Ninguém perguntou se você concorda. olavo Mas eu não concordo. carmino A questão aqui não é concordar. olavo Tudo bem. Mas, se fosse, eu não concordava. carmino -–Por quê? Só deixe estar, meu caro. olavo Não deixo, não concordo. carmino Assim, sem motivo? olavo Motivo eu tenho, só não digo. carmino Por quê? olavo Porque não preciso. Por que eu precisaria dizer o motivo? carmino Ué, se não concorda, é porque um motivo tem. olavo Tenho. Mas o motivo é meu. Só meu. Ninguém tem nada a ver com o meu motivo. carmino Tem sim. olavo Desde quando? carmino Desde quando você não concorda. olavo Querido...só “deixe estar, meu caro”. carmino Não deixo. Quero saber. olavo Olha aqui. Tá vendo? É muito simples. O mundo se divide em duas partes. Entre essas partes existe uma li16
nha. Bem aqui, ó. No meio, percebe? De um lado ficam os que concordam. E, do outro, os que não concordam. Eu não concordo. carmino Mas isso é completamente despropositado! Não vê? A partir do momento que você não concorda, me desloca do ordeiro celeiro emocional no qual me encontrava para o pasto incerto da dúvida martelante. E isso atiça a minha curiosidade, o que é extremamente cruel e até… E até… Rude, pra dizer o mínimo. Como eu posso estar em paz sabendo que você, pessoa tão elevada e tão repleta de pensamentos arejados, pode assim sem mais não concordar…? Não ouse me esconder o motivo. olavo Não escondo, de forma alguma. Só não digo. carmino Deixe estar. Só quero saber o motivo. olavo Não dou o motivo. É perfeitamente possível alguém não concordar e não dar o motivo. Deixe estar. carmino Não é questão de concordar, já disse. Deixe estar. olavo Então, está feito. Se a questão aqui não é essa, então, concordamos que aqui não existe mais questão. Deixe estar. carmino Só deixo estar se deixar estar primeiro. Deixe estar. olavo Deixo estar primeiro se deixar estar em segundo. Deixe estar. carmino Deixaremos estar, então, na seguinte ordem: eu deixo estar primeiro; você deixa estar em segundo. E quem deixará estar em terceiro? olavo Uma questão, realmente. Mas que pode ficar para outro dia. 17
[Tempo.] carmino Eu não concordo! [Um sujeito aparece de bicicleta. Traz nas costas uma mochila de trilha. Faz a linha “alternativo” e tem a aparência impecável.] barbudinho Olá, boa tarde. Desculpa… Estou interrompendo? carmino Está. barbudinho Posso pedir uma informação? carmino Esta é a segunda. barbudinho O quê? carmino Informação. barbudinho Hã? olavo Ao interpelar o meu colega aqui com um pedido, que antecede outro pedido na tentativa de parecer educado –, o jovem está agindo sem nenhum senso prático. Pois o resultado imediato é interromper o frescobol alheio por ainda mais tempo do que deveria, compreende? barbudinho Po, desculpa aí, vovô. carmino Então, vamos direto ao recheio. barbudinho Que recheio? olavo A pergunta que o senhor queria fazer ao meu amigo, depois de perguntar se podia perguntar. [Tempo.]
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barbudinho Eu posso? olavo [muito irritado] O senhor já deveria ter perguntado e não perguntar se pode perguntar! Fico pasmo com a capacidade de comunicação dessa juventude. carmino Deixa estar, Olavo. A Juventude é assim mesmo. Pouco presente. olavo Mas se não estão aqui, onde é que estão? carmino Dentro da cabeça deles. olavo Ah é? E o que tem lá? carmino Um hamster correndo numa gaiola. olavo Isso deve ser triste… barbudinho Que isso é triste, eu concordo. Muito triste mesmo, até. Mas é preciso aceitar. E estar atento à realidade de que a realidade, na realidade, não presta. Nunca prestou. Temos que criar algo novo a partir daqui, sacou? Esse é o momento. Eu ando coletando dados, reunindo material. Pesquisa de campo. Quero descobrir, pra começar, onde é que fica localizada a Praia do Mel. Vocês podem me ajudar? [Barbudinho espera ansiosamente a resposta, tempo.] olavo Essa praia não existe. barbudinho Não? olavo Não nessa cidade. barbudinho Como não? Só pode ser aqui. Existem relatos. Todos extraoficiais, é claro. Mas vira-e-mexe, todo mundo se depara com algum deles… Os relatos! 19
olavo Olha só, Carmino, ainda tem gente que acredita! carmino Já reparou na embalagem do pó royal? barbudinho [ignorando os dois] A Praia do Mel... carmino Na embalagem do pó royal tem retratado outro pó royal. barbudinho Uma praia mágica localizada em cima de pirâmides fenícias subterrâneas… carmino [começa a falar por cima de Barbudinho] Que tem dentro outro pó royal, que tem dentro outro pó royal, que tem dentro pó royal, que tem dentro pó royal, que tem dentro outro pó royal… barbudinho A Praia do Mel… Onde as pessoas só se banham com água de coco. Onde ninguém precisa de roupa… De remédio… De dinheiro… Nem de nada. [explode com Carmino] Eu pesquisei muito! carmino Não tem fim. barbudinho Mas não cheguei em nenhum resultado conclusivo. olavo Me espantaria se tivesse chegado. barbudinho Ainda! carmino Vamos fazer uma expedição rumo ao fim das embalagens de pó royal pra ver o que tem lá! barbudinho Não é possível que seja só uma lenda urbana, um mero factoide da internet. [desesperançoso] Na praia do Mel os nativos vivem exclusivamente da pesca… E, mesmo assim, nem precisam pescar, porque os peixes já pulam do mar direto pra areia. 20
carmino Ah! Disso eu consigo lembrar! Disso eu consigo lembrar! Foi nos anos 60. barbudinho Anos 60?! olavo Que saudade dos anos 60! carmino Aquilo sim era uma geração! Anos 60. Éramos nós e aqueles que eram contra nós. Tinha a cultura. E tinha a contracultura. barbudinho Do que você está falando? carmino Sabe, garoto, a nossa geração não deu muita bola para a geração que veio depois dela. E a que veio depois também não deu muita bola para a geração que veio depois dela. Porque acabou a chance de existirem gerações. Agora as linhas andam, tremem, se apagam… Opinião dentro de opinião. Pó royal dentro do pó royal. Todo mundo tem opinião. Opinião em vídeo, opinião em foto, opinião com fundo colorido, que vibra, faz barulho. Nem mesmo os seus amigos têm mais vergonha de discordar de você em público. É muita opinião. Antes você acreditava sem fazer escala. Entrava no túnel… E pronto! E o pior, eu tenho a sensação estranha de que tá todo mundo errado… [Tempo] Ou que tá todo mundo certo… Eu não sei mais como perceber a diferença. Não dá, não dá, não dá… Podem me chamar de antiquado. Mas a verdade é essa, eu sou um romântico mesmo… Não vejo necessidade de tanta informação. [Tempo.] Do que eu estava falando? olavo Dos anos 60. carmino Dos anos 60. E por que eu tava falando dos anos 60?
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barbudinho A Praia do Mel. carmino Sim, a Praia do Mel... Foi nos anos 60 que inventaram… uma sacada engenhosa dos americanos... Pra vender... Naquela época, o Brasil estava na moda, dois títulos mundiais, a Bossa Nova no Carnegie Hall… Pra aproveitar a onda boa, a secretaria de turismo contratou uma agência de publicidade em Nova York. Então eles começaram a anunciar lá fora, junto com o Cristo Redentor, a imagem de uma praia proibida… De natureza selvagem… Pura jogada de marketing. barbudinho Então, não existe mesmo? carmino Obra de ficção. Pra vender... Ou dar alívio aos coraçõezinhos sonhadores… Ou as duas possibilidades juntas. Elas costumam casar bem. barbudinho To decepcionado. Decepcionado, não. Decepcionado pra caralho. Porque eu vi tudo, na verdade. Vi com meus próprios olhos na tela do computador. Vi o doutor Timothy Leary receitar cubos de açúcar batizados. Vi o Caetano espetar o dedo no ar pra dar esporro numa multidão ensandecida. Vi tanques de guerra marcharem sobre os limites geográficos da baía dos porcos. Eu vi tudo. [Tempo.] Vi, revi e vivi. Pela tela do computador. E ninguém pode tirar isso de mim. Porque foi uma experiência ver aquilo... Uma puta experiência… Acreditar no furioso poder energético da natureza… Ser enfeitiçado pelos cavalos dançantes do filme Hair… Mas até isso, pelo jeito, os dentes da engrenagem conseguiram devorar. [Se referindo aos dois] Comeram e deixaram os restos no prato. [Irônico] Uma praia que nem existe? Carrinhos de foodtruck de comida 22
artesanal? Poluição sustentável? Uau! [Tempo.] Obrigado, senhores, pela maior e última traição do maior e último dos sonhos humanos. carmino Pensa assim: o que Deus não criou o homem tratou de arranjar. Vocês vão ter que sentir isso na carne muito tempo ainda, de qualquer modo. barbudinho Foda-se! Adeus, vovô. [Barbudinho sai.] olavo Você não devia ter falado a verdade. carmino E por que não? olavo Você não viu como o garoto ficou? carmino Ele é jovem… Tem a vida toda pra superar. olavo Exatamente. Tem a vida toda. Não precisa envelhecer agora.
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[Ainda na areia da praia Copacabana. Duas vendedoras ambulantes fazem um intervalo no trabalho.] vendedora de canga Eu, por exemplo, gosto de banana prata. Mas não é porque eu gosto de banana prata que eu não vou comer banana ouro. Quando não tem banana prata eu como o que tiver.... outro tipo de banana, entende? Banana nanica, banana maçã, banana da terra... vendedora de piercing Você tá se vendendo, isso sim. vendedora de canga Eu to vendendo canga, é isso que eu to vendendo. As pessoas usam canga. As pessoas gostam de canga. Canga serve pra sentar em cima, você protege a bunda da areia, canga serve como saída de banho, você protege a bunda dos tarados, canga serve pra meditar no parque, você protege a bunda das formigas. E todo mundo tem bunda, bunda é universal… E tem canga pra todo gosto, tá vendo? Canga floral, canga do Bob Marley, canga do vasco, canga do caralho a quatro... vendedora de piercing Entendi o seu ponto! vendedora de canga Não entendeu. Você acha que entendeu. Mas não entendeu. Isso que é pior. A pessoa achar que entendeu... vendedora de piercing Você tá querendo dizer que o que eu vendo é muito específico. vendedora de canga Por aí... vendedora de piercing Mas as pessoas usam piercings. vendedora de canga No septo? 25
vendedora de piercing No septo, sim senhora. Está na moda. Onde você olha, você vê uma pessoa com um piercing no septo… olha aquela menina ali… não, aquilo é um catarro. Mas sim, está na moda e não vou discutir com você. vendedora de canga É que os piercings que você faz... vendedora de piercing O que tem eles? Hã? Anda. Pode falar. vendedora de canga São muito… muito… muito... artísticos… entende? vendedora de piercing [orgulhosa] Ai, obrigada! vendedora de canga To dizendo que não é todo mundo que gosta. Na verdade, pouca gente gosta. Na verdade, nunca vi ninguém gostar. Na verdade, todo mundo odeia. vendedora de piercing A minha pegada é alterna. Não nasci pro mainstream. vendedora de canga A gente precisa comer. vendedora de piercing Eu to comendo. vendedora de canga Jujubas? vendedora de piercing Guardei as verdes pra hoje. As verdes enchem mais. vendedora de canga E aquele cara que veio falar com você agora há pouco? vendedora de piercing Queria saber onde é a Praia do Mel. vendedora de canga Sabia que era pra pedir informação! vendedora de piercing Mas depois perguntou o preço de um piercing pra comprar! 26
vendedora de canga Mentira. vendedora de piercing Sim. Ele veio comprar! vendedora de canga Você vendeu um, então? vendedora de piercing Quase. O piercing que ele queria não estava à venda. vendedora de canga Não estava à venda? vendedora de piercing Não. Fiz pra uso pessoal. Tentei mostrar outro mas ele não se interessou. vendedora de canga Você o quê? vendedora de piercing É que eu me apego, você sabe. É a minha arte, entende? Não sou obrigada a ceder. É isso que me mantém viva. vendedora de canga O que te mantém viva sou eu que te dou o que comer, sua besta.
vendedora de piercing Com o dinheiro dessas cangas horrorosas! vendedora de canga Não é porque a gente é contra o sistema que a gente não faz parte do sistema. Se não tem como fazer o que gosta hoje, você dá um jeito. Não tem banana prata, você come banana ouro. Não ouve o que eu falo? vendedora de piercing Eu já disse que não to com fome. E quando eu tiver, tenho minhas jujubas. vendedora de canga É uma metáfora, sua maluca. vendedora de piercing Desdenha das minhas jóias e ainda me chama de burra. 27
vendedora de canga Eu chamei de maluca. vendedora de piercing Quem você acha que é pra falar que eu não entendo metáforas? Você vende canga! vendedora de canga [respira] Só quero o seu bem. Me preocupo com você. Me preocupo com a gente. [Tempo.] [Tempo.] vendedora de canga O cara do Hareburger ta rico! vendedora de piercing Eu não quero ficar rica! vendedora de canga To só dizendo que... até o doidinho da poesia vende mais que você! [Tempo.] Quero dizer, quem precisa de poesia? [Tempo.] Ninguém precisa dos seus piercings autorais também mas a gente pode estudar esse cara aí, ver como ele faz. Quem sabe a gente não arruma um jeito de vender… como será que ele faz? Deve usar alguma estratégia… Aposto que faz os outros sentirem pena. [Tempo.] vendedora de canga Olha ali, que tumulto todo é aquele? vendedora de piercing Deve ser o Hareburger. vendedora de canga Não... Tem um tumulto ali além do comum, bem na beira da água, tá vendo? Com repórter de televisão e tudo. Vamos lá ver. Quem sabe a gente não vende umas cangas. 28
vendedora de piercing Sabe o que eu tava pensando? A gente tá aqui há dois anos já e nunca foi na Praia do Mel. vendedora de canga A Praia do Mel não existe. vendedora de piercing Não existe pra você. [Sala de estar de um apartamento de classe média. Na parede, uma estante cheia de livros. glauce fica um tempo olhando pela janela. Há algo interessante ali. Depois, como ao se recordar de uma antiga preocupação, se desinteressa pelo o que vê e começa a andar pelo apartamento, inquieta.] glauce Não é por nada. É por tudo mesmo. Imagina o que pode acontecer se a Clarinha começa a namorar um…. um… não gosto nem de pensar, imagina falar…. é porque, veja bem....as crianças não perdoam nada. Tudo é motivo, entende? Qualquer detalhe fora do padrão é ataque. Ele é chinês, chinês mesmo. Mas tem o olhinho redondo. O pai é brasileiro. Esperma forte, ardido. Deixou gordo o olho do menino. Carimbou com força e pronto. Nasceu redondo, redondo. Chinês de pastelaria mesmo. De falar flango, flaglante, fligolífico. Mas tem o olho redondo. Menos mal.... Menos mal, mas não resolve! As crianças são cruéis. A forma humana está ali em estado bruto, a natureza sem a lapidação das convenções sociais... Crianças são cruéis.... Crianças, não... A Clarinha já é adolescente. Pré-adolescente! Tem que me ouvir, me respeitar. Pré-adolescente.... Bilhões e bilhões de hormônios ali fervilhando naquele corpinho mal acabado. Hormônios numa interação muito louca. Uma festa rave de hormônios. Que eu soube, só tinha beijado. Porque, beijar, se beija muito nessa idade. Beija a 29
amiga, beija o professor de natação, beija a laranja, beija o espelho, beija o poste, beija o diabo. Beijo é beijo. Namoro é namoro. Se um primo morre num acidente de moto, vai no enterro do primo que morreu de moto, entende? Isso é namoro. Não é qualquer coisinha, não. Tem que ter senso. Imagina eu indo numa pastelaria na Tijuca conhecer a chinesada... Você consegue imaginar? Porque eu não consigo! Aqueles santos estranhos de quimono, aquelas velas que ligam na tomada, aquele gatinho dourado que fica fazendo com a mão assim [faz o gesto.] [Para a coxia.] Um celular eu compro outro. Mas e se eu tomar uma facada no pâncreas? Você vai me dar um pâncreas novo, Marcos Vinícius? [Para a outra coxia.] Vai morar com seu chinesinho do olho gordo no Tijuquistão, Clara! Vai! Estraga sua vida antes mesmo dela começar. Só to aqui, ó… dando corda, dando corda... quer se enforcar? Depois não me culpa por ser liberal demais. Sempre te apoiei. O que sua mãe sempre disse, filhinha? A vida é sua, estrague-a como quiser. [Novamente para a plateia.] Outro dia eu cheguei em casa. Eu não consigo entender. Cheguei em casa e eu tava tonta. Mas aí eu lembro que mãe não foi feita pra entender. Mãe foi feita pra mugir. Mugir 30
e dar leite. Eu cheguei em casa e comecei a ver tudo rodar. Todos aqueles livros da estante tremendo. Porque minha estante é estufada, poderosa, eu tenho um orgulho danado da minha estante. Uma estante gorda como era gorda a minha barriga grávida da Clara. Uma estante gorda como é gordo o olho do Chinês. Eu estudei, cacete. Eu estudei, caralho… Eu tenho a cabeça boa. Mas nesse dia ela tava rodando. Eu não sou uma maluca. Eu sou um animal. Um animal instintivo. Um animal instintivo que estudou… não sou uma curiosa, eu tenho formação, pombas… assisto o Karnal no YouTube... Na minha televisão não entra novela, fica ali direto no Arte 1. Todos aqueles livros tremendo. Vibrando. E eu não tinha tomado nada. Nenhuma gotinha de álcool, nem de nada, meu Rivotril tinha acabado. A estante me encarando muda, cheia de ressentimento. Não. Ela não falava nada, mas dava pra sacar. Ela tava se contorcendo toda por dentro. [Para a estante.] O que você quer, estante? Não faz sentido pra você? Foda-se o sentido. Eu sou mãe. Você é mãe por um acaso? Mãe de quem? Desses livros. Ah, que piada. Uma estante grávida de livros. [Para a plateia.] Foi então que aconteceu. Os livros começaram… começaram estranhamente a... a flutuar.... Todos eles.... Um a um…. Como se… como se… a estante estivesse vomitando, entende? Vomitando em cima de mim! Alguns flutuavam em blo31
co… outros flutuavam sozinhos mesmo... Derrida, grosso, no meio, vinha deitado... Com um Foucault em cada ponta embaixo dando sustentação... Deleuze e Guattari já estavam aqui, bailando na minha fuça… Judith Butler ia toda aberta, com as páginas arreganhadas.... Os livros voavam e tremiam num ritmo que não combinava comigo, um merengue, o que era aquilo? Um bolero, só que mais rapidinho. Acho que era um merengue mesmo. Um ritmo fudido de feio, que parecia tema de abertura de novela do SBT. [Vinheta de plantão de notícias. Praia de Copacabana. Uma multidão está aglomerada em torno de uma cadeira de praia. Sobre ela, está repousando um nabo vestindo um óculos Ray-Ban.] repórter márcia Interrompemos nossa programação para noticiar um fato que está causando frisson na praia de Copacabana neste momento. Na manhã deste domingo, os banhistas que passaram por aqui, entre o posto 4 e 5, foram presenteados com uma aparição pra dizer o mínimo inusitada. O compositor e cantor e prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan, foi avistado mergulhando nas ondas da praia de Copacabana. Repito: O compositor e cantor e prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan, foi avistado mergulhando nas ondas da praia de Copacabana. O autor de clássicos como “Blowin’ in the Wind” e “Jokerman” nadava no estilo cachorrinho, para comoção geral do público presente. Quem identificou o artista foi o crítico musical do Jornal Folha de S. Paulo, Juninho Verídico, que está aqui ao meu lado, e vai contar um pouquinho pra gente como foi o ocorrido. Obrigado, Juninho. Estamos ao vivo. 32
juninho Bom dia, Márcia. Bom dia, telespectadores. Realmente é um momento histórico pro Brasil, pro Rio de janeiro, e também pra praia de Copacabana... Desde a chegada da corte Portuguesa que essa praia não recebe tantas pessoas, como eu posso dizer, saltitantes e otimistas na sua faixa de areia. repórter márcia A praia estava preparada? Qual o peso social para um evento dessa magnitude? juninho Olha, muita coisa vai mudar ... Uma cidade não passa incólume a um acontecimento desse porte, dessa grandeza. Pode anotar aí. Muita coisa vai melhorar... Com certeza uma nova onda de cantores folk no baixo Botafogo, eu garanto. repórter márcia Como foi o momento do reconhecimento? O senhor se emocionou? juninho Eu estava nadando e vi uma sombra ao meu lado... a sombra foi chegando perto, chegando perto… no começo eu pensei que fosse um cocozão boiando... Então nadei contra… depois vi que o cocozão, na verdade, mais parecia um nabo… e, por fim, examinando com calma, usando da minha perícia de expert, afinal já são anos e anos convivendo no metiê da música popular... percebi que aquele cocozão que, na verdade, era um nabo no fundo, no fundo, se tratava do cantor e compositor Robert Zimmerman, conhecido mundialmente pelo nome artístico: ele mesmo, Bob Dylan. repórter márcia Obrigado pelo esclarecimento, Juninho. [Pausa.] Vou entrevistar agora o banhista que acompanhou o cantor quando ele saiu da água. Como é seu nome? 33
otávio Meu nome é Otávio. repórter márcia O que você faz, Otávio? otávio Eu ajudo minha mãe no serviço dela. repórter márcia E sua mãe faz o quê? otávio Ela me ajuda no meu serviço. repórter márcia Muito justo… Como foi que você se sentiu ao dividir a praia com Bob Dylan nessa manhã? otávio Eu vi um pedaço de nabo boiando e fui tirar da água… sabe como é, pra não machucar nenhuma criança... e também pra ninguém se assustar pensando que era um cocozão... Daí foi que o sujeito da Folha de S. Paulo se aproximou de mim… e me disse que se tratava do Bob Dylan. repórter márcia Qual foi a sua sensação? otávio Ah, eu não esperava, né? No começo eu não acreditei. Porra, o Bob Dylan por aqui! Mas se um repórter de jornal falou que era ele, quem sou eu pra discordar? repórter márcia Conta pra gente como ele é pessoalmente. otávio Ele realmente tem uma cara de nabo. Mas aí eu peguei meu Ray-Ban debaixo do guarda-sol e coloquei nele, isso ajudou um pouco.... Afinal, eu só tenho esses óculos escuros porque um dia eu vi o Bob Dylan usando um igualzinho na Folha de S. Paulo... repórter márcia Em qualquer instante voltamos com mais informações sobre esse acontecimento histórico que está colocando nossa cidade no mapa dos grandes eventos… Agora voltamos à nossa programação regular... vocês 34
ficam com a continuação de “A abusadora” e, logo em seguida, os últimos capítulos de “Fogos de Artifício da Paixão”... [glauce sai do meio da multidão que ocupa a faixa de areia. Ela está acompanhada de barbudinho.] glauce Pra que você quer ir lá? barbudinho- Porque é bonito. E porque lá é um lugar que tem… dizem… paz. glauce A paz foi extinta no momento que deixamos de defendê-la. Não lutamos o suficiente pela paz, entendem? Era preciso armas. Era preciso uma guarita, uns guardas. Era preciso um muro... e, em cima do muro, cacos de vidro... ou melhor, arame farpado, ou melhor, eletrochoque, ou melhor, tudo isso junto. E cachorros, naturalmente. barbudinho A praia não existe mais, é isso que você quer dizer? glauce Acabou antes de existir. A gente achou que dava pra todo mundo. Mas não tinha o bastante. Não pra todo mundo. Você faz uma festa. Convida pessoas demais e pronto. Muita gente ficou sabendo. Eles já chegaram em todos os lugares. barbudinho Eles quem? glauce Ora, como assim quem…? Eles! Os chineses! barbudinho Tem certeza? glauce Tenho! Estão em toda parte...até nessa praia aí que você falou. barbudinho Mas você disse que a Praia do Mel não existe. 35
glauce Eles estão, inclusive, nos lugares que não existem. barbudinho Não entendo. glauce Você tem filhos? Quando tiver, vai entender. Os filhos dão um sentido revelador pra isso, sabe…? Começa com uma nova tentativa, uma chance de fazer diferente. Você se preocupa. Qual o mundo que você vai deixar pra eles? Você estuda, estuda, estuda… Empurra e estica ideias… Faz o que acha que deve ser o certo entrar no buraco pra... No final… Tudo rodar… Tudo, tudo, tudo… Ro-dar… Você se torna apenas uma mãe… Você se torna apenas a sua mãe... barbudinho Do que você está falando? glauce Não se faça de bobo. barbudinho Você está bem? glauce Não. E nem preciso. Quem precisa disso? barbudinho Você não acredita, então? glauce [em prantos, desesperada] Não… eu tentei… eu tentei… eu juro pra você que tentei… Não me julguem. Eu sou mãe. Eu posso provar! [carlos passa andando pela areia, após um dia de trabalho. barbudinho vai até ele, já exausto de procurar a Praia do Mel.] barbudinho Fala, meu bróder. Beleza? Tá indo pra onde? carlos Agora, pra casa. barbudinho Então, é que eu tô indo pra uma praia aí… Mas eu não sei muito bem onde é que fica… Na verdade eu não sei nem se ela existe… A Praia do Mel... 36
carlos [incrédulo] Você tá indo para a Praia do Mel?! barbudinho Não é pra rir. carlos Não estou rindo. Estou sorrindo. Eu posso explicar uma parte do caminho pra você… Mas o resto é impossível de explicar, você vai ter que descobrir sozinho… barbudinho Você já ouviu falar dessa praia? carlos Não ouvi falar, não, meu camarada… Eu estive lá! barbudinho Você o quê? carlos Eu estive lá. Olha, vou dizer pra você… Não foi nada fácil! Tem que querer muito... Foram dias e mais dias, exaustivos… Com muito sol no lombo… O cansaço comendo meus pés… Uma caminhada e tanto, mas… No final eu encontrei! barbudinho No momento em que eu já estava quase desistindo… Encontrei a pessoa! Você, cara, é quem eu tava procurando o tempo todo! [Pausa.] barbudinho Olha, você não faz ideia da satisfação que está sendo te encontrar... [barbudinho abraça carlos.] carlos Que isso. A satisfação é minha. barbudinho Isso eu já não posso garantir. carlos To falando sério. Ainda bem que você não desistiu. Viva a Praia do Mel! 37
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[barbudinho derruba carlos no chão.] barbudinho Cala a boca, idiota! Tem pessoas em volta… Elas vão pensar que esse lugar existe! carlos Como assim?! [barbudinho começa a espancar carlos.] barbudinho Eu mandei você calar a boca! Eu me preocupo com as pessoas, seu babaca! Essa cidade aqui é um ninho repleto de ovos abandonados, não percebe? Presas disponíveis em tempo integral... Se você continuar e continuar e continuar a mentir pras pessoas, uma hora elas vão acreditar em você. [A agressão se torna ainda mais violenta.] Você não esteve lá, estúpido. Você acha que esteve, entendeu? Ah… você quer uma explicação!? Pra acreditar na Praia do Mel você não precisa de explicação. Você acredita e pronto, não é? [carlos está caído na areia da praia, desfigurado. Tempo.] barbudinho Boa tarde, querido. Eu estou procurando A Praia do Mel. Por gentileza… Você, por um acaso, sabe me dizer onde ela fica?
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[Blecaute.] [Um inferninho numa galáxia distante. mendigo está no palco, usando um microfone acomodado num pedestal. Fala direto para a plateia. É um show de stand-up comedy. Com direito a intervenções em off de reações gravadas.] mendigo Numa dessas minhas andanças pelo cosmos, eu conheci um planetinha muito interessante. Um desses planetinhas de interior, com poucos recursos... Muito pouco desenvolvido... Com seres com a cabeça ainda muito fechada… Nesse tipo de planeta, as “pessoas” têm hábitos muito interessantes… sério. Se você nunca esteve num lugar desses, saia daqui e vá direto falar com seu agente de viagens intergaláctico… [Risos.] É uma experiência extraordinária observar esses seres que decidem, por conta própria, viver amontoadas em espaços chamados cidades, enquanto há terra vazia em abundância por todos os lados. Imagina. Todos dividindo o mesmo espaço. Vivendo amontoados. Uns sobre os outros, literalmente. Anos e anos rodando pelo cosmos e nunca consegui achar nada parecido. E adorei, claro… Só que não! [Risos.] Trabalho é a atividade diária da maioria das “pessoas”. Em troca do trabalho recebem dinheiro. Um pedaço de papel de aproximadamente dez centímetros de largura e cinco 40
de altura. Esse pedaço de papel é capaz de ser trocado por tudo. Por esse dinheiro, as pessoas matam e morrem. Um pedaço de papel que pode ser trocado por tudo! Ou quase tudo. Há algumas restrições que são previstas pela lei. Determinações estabelecidas que devem zelar pelo bem-estar coletivo e que devem ser cumpridas. Mas, na prática, nem sempre zelam pelo bem-estar coletivo e nem sempre são cumpridas. [Risos.] Outra coisa interessante nesse planeta. Uma instituição muito bizarra… Uma coisa chamada Banco... Não sei se vocês vão ter capacidade de entender o que é um Banco, porque realmente… Tem paradas lá que eu demorei muito pra processar, devido a um alto de teor de complexidade… Ao contrário! [Risos.] O Banco funciona assim: O sujeito trabalha o mês inteiro e depois, na hora de receber, ele pega o dinheiro… Dá uma boa olhada naquilo… E fala assim: “eu não confio disso ficar comigo, não. Ei, patrão. Quer cuidar pra mim?” [Risos.] Sim! Eles confiam todo o dinheiro deles aos próprios patrões, aos donos de tudo! As mesmas pessoas que fizeram eles trabalharem o mês inteiro… Em troca de um pedaço de papel! Simples assim. Conseguem imaginar? Você executa 41
um serviço pra alguém e na hora de receber sua remuneração, você para e reflete, coça um pouco a cabeça: “olha toma aqui o que você me pagou de volta… Não tô a fim de ficar... É melhor você cuidar disso.” [Risos.] E o patrão: “Ah, mas é muita responsabilidade.” “Cuida por favor do meu dinheirinho, eu imploro...” “Eu não sei...” “EU TE PAGO!” [Risos seguido de palmas.] Lá, os seres se submetem a uma organização que gerencia a coisa toda concreta, da vida prática. Esse é o Governo. Só que eles também se submetem a certas crenças que gerenciam a coisa toda do ponto de vista abstrato, da vida pós-vida. Essa é a Religião. Governo e Religião não se misturam. Ou não deveriam se misturar, segundo a lei. Mas, como eu expliquei, essa “lei” funciona de um modo muito… Peculiar. Portanto, nesse planeta, Governo e Religião se relacionam, sim, em muitas ocasiões. São íntimos, inclusive, em muitos lugares. Numa cidade que eu conheci, Governo e Religião até casaram e vivem juntinhos. Tipo uns casais de jovens que existem por lá, que usam o MESMO corte de cabelo, o MESMO tipo de roupa. Que vivem tão juntinhos que as vezes fica até difícil saber quem é quem. Olá, Religião! Tudo bem? Como é que você vai? Ai, não! Me desculpe. Você é o Governo. 42
[Risos.] Vocês estão rindo? E olha que nem falei ainda de uma coisa que eles chamam “Democracia”.
[Luz sobe. camila está correndo.] camila É o terceiro dia que eu venho correr essa semana. Se eu conseguir continuar assim... Provavelmente não vou conseguir... Mas se eu conseguir. [pausa.] Não tenho que ficar pensando nisso. Correr me faz bem. Tenho que me limitar a sentir. E só. O ar frio entrando dentro de mim, meu sangue esquentando, o suor rolando pela minha testa e despencando da minha sobrancelha. Três anos que comprei esse tênis… Três dias vindo correr… E três meses sem emprego… Ação de despejo. Alguns trabalhos eu recusei, lógico. Não tenho que aceitar tudo. Nem tenho que aceitar não te ver, sua vaca… trata de dar um jeito de aparecer aqui em casa… Antes de eu ser despejada. Tô te escrevendo esse e-mail, Paula, porque você é minha amiga. Tem coisas que eu quero falar pra você mas não consigo. Quando a gente se vê, a gente bebe cerveja e fala de tudo. Menos do que a gente tá sentindo. Eu acho isso um erro. Um erro meu. Não seu. Sei lá, acho que devo estar me sentindo sozinha, deve ser isso… Mas a gente sempre se viu menos do que eu gostaria… Mesmo sem trabalhar, tá foda. Meus dias são uma progressão atravessada de acontecimentos que eu não controlo. A lista de coisas pra comprar no mercado, meus óculos que eu tenho que man43
dar pro conserto, esse plano de saúde sanguessuga que eu to tentando cancelar e não consigo. Essas besteiras que consomem a nossa energia. Quando você vê, sua vida é só isso. Falar com atendentes de telemarketing e dar bom dia pra vizinhos que mal te conhecem. Você me disse outro dia que quando eu voltar a trabalhar as coisas vão se encaixar outra vez. Mas e se elas já estiverem encaixadas e eu que não percebi? Trabalhar anestesia, claro. Olha esse mundo escroto. Que mundo maluco é esse… Se tem um lugar mais bagunçado que o seu quarto, Paula, esse lugar é o mundo. Pode apostar. Não sei no que acreditar, em quem acreditar. Na verdade, eu acho que as opções que dão pra gente são muito pequenas. Poucas e pequenas… Piquititicas assim, ó…. Não existe um trabalho que eu queira fazer, pra falar a verdade. Pelo menos não nesse planeta. Talvez, se eu pudesse inventar... Inventar um trabalho novo, uma atividade nova, tirasse alguma coisa da minha cabeça que me provocasse algum tipo de sensação. Tudo que eu já senti é ok. Não to reclamando… mas... é só ok, entende?… Ou, pelo menos, se eu pudesse acreditar que existe algo que merecesse ser inventado... já era um começo. Um vagalume durante o dia é o que, hein? É só uma mosca. Eu me sinto assim. Um vagalume num dia quente. Talvez isso passe. Ou talvez não. Não to achando que vai ser diferente. Pelo menos não nesse planeta... Te amo muito, sua piranha. Aparece aqui. Um beijo.
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[camila está com roupa esportiva, suada, sentada na porta fechada de um comércio com uma latinha de cerveja. mendigo entra usando um fone de ouvidos. Passa direto por camila.] camila Ei, Astronauta.... [Tempo.] Olá... [Tempo.] Oi! mendigo Tá falando comigo? camila Você é o único Astronauta que eu conheço. mendigo Por quê? camila Sei lá, acho que meu círculo de amizades deve ser limitado. mendigo Não… por que eu sou um Astronauta? Não entendi... camila Ah, isso?...Deixa pra lá... Todos nós mudamos de profissão um dia, não é mesmo…? Mas de cerveja você ainda gosta? [oferecendo.] [mendigo pega uma caneca dentro da mochila.] mendigo Obrigado! camila O que você tá escutando? mendigo Adivinha. camila Pera, adoro adivinhar as coisas…. O que eu sei sobre você… você é maluco, né… então deve ser ou uma canção de protesto ou uma música de igreja. mendigo Acho que é um pouco das duas coisas. camila Não pode ser, isso não parece certo… o dia que começarem a tocar as canções de protesto dentro das igrejas estamos ferrados… o que vai sobrar pra tocar nos protestos? 45
mendigo Já tocam as canções de protesto até nas aberturas de novela... camila Tem razão. Isso é muito pior... [Tempo.] Por que você carrega essa mochila? mendigo Preciso de um motivo? camila Eu digo, todas essas coisas dentro… você precisa delas? mendigo Eu só preciso da mochila, pra falar a verdade. Vou carregar a mochila de todo jeito. Então eu escolho alguma coisa e ponho dentro. camila Tudo bem, eu sei como é... também vivo carregando na minha bolsa várias coisas sem sentido... só que eu não escolho....vou enfiando…. com o que tem dentro da minha carteira, por exemplo, daria pra fazer um estudo científico da minha vida nos últimos 3 anos... cheia de ingressos rasgados de cinema, tickets de estacionamento, papeis de bala… acho que a única coisa legal que tem lá é uma 3x4 da minha avó. [Pausa.] Por que toda carteira precisa, obrigatoriamente, de uma 3x4? Engraçado isso... mendigo Na verdade é a 3x4 que precisa da carteira. Uma foto 3X4 tem uma conotação sagrada dentro de uma carteira. Fora dela, vira só um pedaço de lixo de papel sobrando no mundo, insignificante. [Tempo.] [Tempo.]
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[Tempo.] camila E quando não há nada que você goste pra botar dentro do mochila? Como faz? mendigo Você acha que eu gosto dessas coisas? Olha só pra elas…. foi só o que eu encontrei por aí. Eu não estou morrendo de amor por nada disso. Mas eu escolho o que menos me chateia, é o máximo que eu posso fazer... E... vou te confessar uma coisa... quando as coisas entram na mochila eu percebo que elas não são tão ruins assim. [Tempo.] camila Você não me disse o que está escutando. mendigo Quer ouvir? [Oferece o fone e camila aceita.] camila Não tem nada tocando aqui. mendigo Talvez você só não esteja prestando atenção. [Blecaute.] [Um foco de luz sobre um nabo no meio do palco. Ele veste óculos Ray-Ban e carrega uma gaita apoiada num suporte de metal. Está tocando “The Times Are A-Changin”. Foco vai crescendo até se transformar numa geral. Luz da plateia acende.]
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Capa: Jopa Moraes Fotografia: Nityam fotografia Revisão: Rebecca Leão Diagramação: Laís Hasek Tipografia: More Pro Papel: Chamex Marfim 75g/m Impressão: Colaboratório
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