Era uma vez um menino que se tornou homem, ou talvez um homem que nunca deixou de ser menino. Ah... Não importa! O que importa é que todo menino gosta de ouvir e contar histórias e eu sou Tom Nascimento, um menino homem contador de histórias. E hoje, junto com meus amigos e minhas amigas, vou contar pra vocês uma história. A história de como Zambi1 resolveu, através do Griot,2 dar um presente para a humanidade:
*
A história do tambor. É assim...
1 Zambi é a principal divindade do culto banto. Equivale literalmente a Deus. 2 O Griot é o indivíduo que na África Ocidental tem por vocação preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo. Existem griôs músicos e griôs contadores de histórias. *Saravá é uma interjeição africana banta utilizada como forma de saudação no Brasil, equivalente a “salve”.
Há muito, muito tempo... num lugar chamado África...
Á FRI CA...
Os seres humanos eram todos pretos, como eu, e viviam em perfeita harmonia com tudo o que existia:
Os bichos, as plantas, a chuva, o calor, o frio, enfim... Tudo que no planeta havia e com o grande Criador
ZAMBI.
É verdade. Zambi com eles conversava, brincava e estava presente a todo momento.
A harmonia era tanta que eles entendiam as várias línguas dos animais, das plantas e de tudo que era da natureza.
Mas o tempo foi passando e algo estranho aconteceu. Não me contaram direito o que foi, só sei que, de repente, aquela vida maravilhosa começou a dar lugar a
confusões, intrigas, brigas, xingamentos, falta de respeito e todo tipo de violência.
Nossa! Parecia até com um povo que viveu no planeta Terra, nos anos de 2021!
Exatamente! E ao invés de quererem o bem para todos e todas, começaram a ficar egoístas, disputavam tudo!
“Veja o dinossauro que comprei”
“O meu dinossauro é do ano” “O meu é maior que o seu”
“Minha Caverna tem dois andares”
E a coisa foi ficando cada vez pior. Um verdadeiro mundo
do umbigo.
Naquele tempo, nos fins de tarde, todos se reuniam aos pés da montanha, no pôr do sol, para ouvir o sábio da aldeia que contava variadas histórias.
Ele era muito respeitado, pois, sua sabedoria vinha dos seus muitos anos de vida. Seu nome era
Griot!
?
GRIÔ!
Ele tinha 777 anos de idade e 3 metros de altura. Era como uma biblioteca viva, pelo tanto que sabia.
Griot era um dos poucos que não tinham perdido totalmente a fé em Zambi... E sempre antes de contar as histórias, o bom e velho Griot elevava seu pensamento, e pedia conselhos para repassar para quem estivesse ali querendo ouvir. Mas o esforço parecia ser em vão...
Sim!
E contam que um dia, Griot, já muito triste com toda aquela situação na aldeia, chorando de joelhos, pediu para que Zambi dissesse algo que resolvesse aquela situação, pois ele já não aguentava mais, e estava com saudades dos velhos tempos de harmonia, brincadeiras, risos e alegrias.
E foi então que
Zambi
apareceu pra ele: - Griot, psiu! Ô, Griot! Tá surdo, sô!
- É ieu? Tá Falando comigo?
- Sim, você não me chamou?
- Sim, sim , senhorz inho! Sim, sim, senhorzi nho Chamei s im, senho ! r! O sinhô p irou o ca beção, é? Num tá “carc ulando” bem as c oisa não , sô?
- Por que ocê sumiu? Abandonou nóis? Ajuda nóis, Zambi, os Povo tá briguento, marmotento, marrento, catimbento, fedorento e mais um tanto de “ento” que eu já não aguento!
- Eu não sumi. Estou sempre aqui e acolá e em todo lugar como sempre. Vocês é que deixaram de me convidar para as festas, me cancelaram, bloquearam no Zap, desfizeram amizade no Face, e eu respeitei, pois lhes dei o livre arbítrio. Mas você sabe por que tanta coisa ruím está acontecendo, não sabe? - Sim, eu sei Zambi. O egoísmo chegou, tomou
empurrou o amor prum cantinho esquecido. conta e
- Isso mesmo, Griot. E agora vocês vão precisar de algo para se reconectar com o amor... Vou lhes dar um presente! Você avisará a toda aldeia que conversou comigo e que eu mandarei um presente. - Oba, Saravá Zambi!
Saravá!!!
- Preste atenção, Griot! Depois que você avisar a todos, caminhará por 7 dias e 7 noites até aquela montanha. Isso mesmo, a mais alta! Chegando lá, encontrará o meu presente e a cura para este mal que se instalou no coração de vocês...
... O nome do presente é TAMBU. O Griot calculou a distância até a montanha, o caminho que teria que percorrer, a altura da montanha e, já não tão eufórico, disse:
- Ô Zambi, ocê ficou doido, é? Como é que eu vou lá? Sozinho é perigoso! Os bichos vão me comer...
- Oh, Griot... Fique tranquilo que eu estou no comando e nada, nada vai acontecer, pois eu ordenarei aos animais que não lhe façam mal. Eles ainda me ouvem e falam comigo, pois não se esqueceram que eu estou neles e em tudo o que há. E mais uma coisa, Griot...
Quando você ouvir o tambu, lembre-se do seu coração e da função do coração, que é
conectar você com você mesmo, com os outros e comigo.
Eu me lembro desta parte da história, E assim foi feito. Naquele fim de tarde, na hora das histórias, o Griot deu a boa nova de que Zambi havia aparecido e deixado um recado, um presente que resolveria tantos males.
Mas apenas
três tipos de pessoas prestaram atenção:
E os avós (Nem todos e nem todas)
As crianças (Nem todas)
Os professores (Nem todos e nem todas)
Depois, ele caminhou 7 dias e 7 noites sem nem mesmo parar para fazer pipi!
Chegando lá, na montanha mais alta, ele avistou algo que, ao mesmo tempo que lhe encantava, trazia-lhe medo.
E como é comum sentirmos medo do que desconhecemos. Porém, não se deve julgar sem conhecer, não é mesmo?
Sim é verdade; e agora, peço-lhes licença para contar uma história...
A SALA DO MEDO A história de uma sala. A sala do medo! Bom, foi assim que me contaram. Esta história aconteceu em uma escola, em algum lugar da Europa, no ano 1927. Diziam que nesta escola havia uma sala amaldiçoada, que lá morava o Demônio, morava o mal, enfim, era algo terrível. Diziam isso porque todo mundo que tentava adentrar naquela sala se cortava na altura da cabeça, da cintura e da canela.
Era realmente algo terrível, pois as pessoas se machucavam mesmo. Alguns se cortavam em lugares diferentes, não sei o porquê. Não sei se tinha a ver com a estatura, mas era uma coisa estranha, medonha.
Logo começou a rodar a má fama da escola com uma sala amaldiçoada. Na verdade, não havia porta, somente um vão que era muito, mas muito escuro, um breu total. De fora, não se via nada! Os dias se passavam e as pessoas organizavam momentos de rezas e orações...
Certa vez, um jovem ateu, isto é, não cria nem em Deus, nem em diabo, apareceu dizendo que tudo aquilo era bobagem, que ele não tinha medo e que entraria naquele instante e nada de mal lhe aconteceria.
E ele entrou! Entrou correndo, com tanta certeza, tanto vigor e tanta fé de que nada lhe aconteceria, mas o pior aconteceu. Infelizmente, teve seu pescoço decepado e este veio a morrer.
Aquilo causou ainda mais pavor nas pessoas e a certeza de que não deveriam entrar naquela Sala Amaldiçoada por nada. Isolaram a sala e seus arredores com aquela fita preta e amarela, não me lembro o nome, e ninguém mais se aproximava nem para rezar e nem nada. A escola perdeu muitos alunos, credibilidade, quase fechou.
Certo dia, uma menina, no alto da inocência de seus três aninhos, chegou perto da sala, parou de frente para o vão da porta, viu aquele breu... Bem, eu pergunto a você: Se você chegasse diante de uma porta, ou, melhor dizendo, do vão de uma porta e está escuro demais para ver o que há dentro e você quer entrar, o que você
faria?
Se você disse “acendo a luz”, posso lhe afirmar que é a coisa certa a se fazer, pois foi o que a pequenina fez. Colocou a mão esquerda para dentro, tateou a parede até achar o interruptor e lumiou toda a sala.
Assim que ela acendeu a luz, ficou encantada com tantos livros e brinquedos que havia lá. Pulou os pés de ferro da mesa que travava a entrada da porta e se pôs a brincar...
Perceba que o tal Mal, demônio, Coisa Ruim, lazarento, inominável que cortava as pessoas na verdade eram
os pés de ferro de uma mesa, três pés pontiagudos de cada lado. Sabe-se lá por que a mesa se encontrava daquele jeito.
A criança viu a mesa, passou por dentro dos obstáculos, entrou e se pôs a brincar, pois além de uma sala de brinquedos, havia também alguns livros. As pessoas logo perceberam que a menina estava lá dentro e houve um alvoroço, gritaria, a mãe da pequena a chorar desesperadamente.
Mas, quando chegaram diante da porta, com a luz acesa, todos pararam abismados com o que viam: uma mesa, brinquedos, livros e uma criança feliz. O que chamaram de mal, demônio, coisa ruim, costa oca, lazarento, inominável para além da mesa, era a ignorância de não acender a luz.
Quantas vezes nós em nosso dia a dia preferimos demonizar algo ao invés de acender a luz? Depois de negritado o assunto resolveu-se o problema, a escola voltou a funcionar a todo vapor, ascendendo muitas luzes em assuntos vários durante o ano letivo; porém, alguns alunos mudaram de escola, outros de cidade e sem saber da verdade, ainda propagavam ainda aquela velha e falsa história de maldição.
Será que podemos pensar que havia sim uma maldição em forma de ignorância, que nada mais é do que a
falta de conhecimento?
Sim!
E voltamos para a nossa história... Onde paramos mesmo?
E o Griot da nossa história teve medo, muito
medo... e então Zambi apareceu novamente para ele: - Griot, vá em frente, toque no tambu, pegue e toque. - Tocar? Tambu?
- Sim!
O Griot se aproximou bem devagar daquele objeto colorido e lindo fazendo gestos de luta (capoeira) e não tocava de jeito nenhum. Então, mais uma vez, Zambi falou com ele.
- Veja só, Griot, a que ponto chegamos, hein?! Eu lhes dou um presente e você tem medo do meu presente? Vamos, toque! Não vai te fazer mal! - Você vai pirar no som... Vamos, coragem! Toque! - Tocar? Tambu?
- Sim!
E Zambi, percebendo que o Griot não venceria o medo, resolveu pedir ajuda às nuvens. Elas, prontamente, atenderam, juntaram-se e
disseram na língua delas para ele tocar. O Griot ficou tão assustado com o comando do Trovão, que entendeu que poderia ser pior se ele não tocasse.
E assim, ele pegou com muito cuidado aquele imenso tambor, acariciou, passou as mãos por cima, num processo de vencer o medo, até que deu o primeiro toque.
Seu medo era tanto que ele se assustou com o som, saiu correndo...
E Zambi, observando o Griot, pensou: - Bem, ele já é um homo sapience sapience, ou seja: pensa e sabe que pensa. Logo vai perceber que nada de mal lhe aconteceu e virá novamente com a
curiosidade, que é o caminho para o aprendizado.
chorando... e se escondeu no meio da mata.
Passaram-se os dias e Griot chamou por Zambi, que não respondia.
Até que resolveu, como previsto, voltar ao tambu. Quando chegou perto, lembrou-se de Zambi dizendo do som do coração.
Tum ... Tum ... Tum Tum..
m. Tum, Tu ... M TUM TU
Com dificuldade, ele foi vencendo o medo e percebendo os sons do tambu, mas, agora, já conectado com seu coração, tocou uma vez no presente de Zambi
e seu coração acelerou.
E tocou mais uma vez e seu coração parecia querer conversar. Ele fez toques diferentes, começou a ficar contente e leve como se pudesse voar.
Tum Tum pá Tum Tum pá!
Naquele momento, o Griot percebeu que Zambi estava ali Tum Tum pá Tum Tum pá!
Tum Tum pá Tum Tum pá!
como sempre, dentro dele, por fora dele, no tambu, na natureza e ficou tão feliz que
não queria parar de tocar. Ficou por ali dias, encantado com a vibração, com a energia, com o coração revigorado e sem medo.
Mas ainda faltava uma coisa! - Hei Griot, não está se esquecendo de nada? Você deve voltar paara a aldeia e contar a todos e todas o que aconteceu e apresentar-lhes o Tambu. - Tá bom, eu já vou, eu tô super feliz, lindo, leve e solto, acho que vou até voando pra lá! - Você é quem sabe. Vá como quiser, mas vá. Eu lhe disse que você iria pirar com o Tambu! Agora, lembre-se:
O tambu serve para que vocês se conectem consigo mesmos, com os próximos e comigo, assim como o primeiro tambu que coloquei dentro de vocês: o coração.
Assim que o Griot chegou na aldeia super feliz, chamou todas as pessoas, mas somente algumas poucas vieram, pois estavam muito ocupadas com seu egoísmo e indiferença. Três tipos de pessoas estavam ali, três tipos muito importantes para o equilíbrio de um povo:
Professores, nem todos, nem todas.
E os avós,
nem todos e nem todas.
As crianças,
ah nem todas, né?
O Griot se lembrou de todo o processo que passou para vencer o medo do tambu e começou a mostrar o presente de Zambi! Assim que ele deu o primeiro toque, algumas pessoas sintonizaram-se rapidamente, outras tiveram muito medo, como ele também teve; outras ficaram indiferentes, outras até disseram que era coisa do mal. Mas quando ele tocou o Tum Tum Tá, minha gente...
Foi puro Axé!
Foi isso mesmo que aconteceu! Algumas pessoas começaram a rezar, outras a pintar, outras a dançar, outras a cantar... E naquele dia nasceu o que nós chamamos hoje de Artes. E todas as Artes viraram formas de se conectar com Zambi, com o tambor interior e com os próximos. A Paz e a Harmonia tomaram conta do lugar novamente, e para tudo se tocava tambu.
Nascia alguém,
tocava-se tambu! Chovia,
tocava tambu! Morria alguém,
tocava-se tambu! Acontecia casamento,
tocava-se tambu! O sol nasceu,
toca tambu!
E assim foi durante muito tempo, até que passaram-se milhares de anos. Várias daquelas pessoas pretas saíram da África e foram povoando o mundo todo, e mudando de cores por causa de sua alimentação, que mudava de acordo com os lugares e de acordo com o clima. Desenvolveram outras línguas, outras culturas, outros nomes pra Zambi, outros tambores e outros instrumentos, até que chegamos no ano atual. E hoje, eu lhes pergunto:
E você? Já tocou Tambor?
Está conectado com seu tambor interior? Está em harmonia com os outros e com a natureza? Quem é Zambi para você?
Ó
Da minha parte eu lhes digo que este não é o fim da história. É apenas a história do meu tambor.
Qual é a história do seu tambor?
Marcelo La Carretta
Foto: Gerson Rubim
PRAZER! Sou Tom Nascimento, cantor, compositor, arteeducador e um brincante de música! Dos 25 anos dedicados à Música, 17 foram também de vivências em Escolas como palestrante, usando a Música como ferramenta de transformação na direção do
Bem Comum à partir da luta Antirracista.
A HISTÓRIA DO TAMBOR nasce da minha necessidade de provocar reflexões sobre temas como Respeito, Diversidades, Ancestralidade, Negritude, Africanidades e Humanidades através de uma linguagem acessível, simples, poética e cheia de filosofias e subjetividades, que valorizam a Singularidade de cada um de nós, sem perder de vista a Pluralidade.
foi quem ilustrou a História do Tambor. É uruguaio, mas cria do Rio de Janeiro. Professor Doutor em Técnicas Audiovisuais, ministra aulas de design e jogos pela PUC Minas. Ilustrador desde que se entende por gente, ama procurar fazer parte de tudo o que significa aprendizado.
Juliana Ribeiro
foi a nossa ilustradora da Sala do Medo. É Terapeuta Ocupacional, Designer de Moda, adora bichos, filmes de terror, meditação, conhecer coisas novas e tudo que a tire da rotina.
A KIWI produziu este livro, na sua versão física e na digital. É uma produtora especializada em jogos de tabuleiro, livros interativos físicos e digitais.
Copyright do Texto: Tom Nascimento, 2021 Copyright das Ilustrações: Kiwi Jogos, 2021 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra, protegida por Copyright, pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida de alguma forma ou por algum meio sem a permissão expressa dos editores. Produção executiva: Daiane Fiuza Revisão: Tânia da Silva Mayer Ilustração “Tomzinho”: Danilo Bassouto Editora: Alicerce Grafica Veredas Eireli Av. Fernando Honório dos Santos, 1202 33822-505 - B. Vereda - Ribeirão das Neves/MG (31) 3879-2100 - vendas@graficavereda.com.br www.graficavereda.com.br Essa obra possui linguagem coloquial, neologismos e diversos termos tomados de outras línguas.
Nascimento, Tom, 1976 A história do tambor / Tom Nascimento. - 1.ed. Belo Horizonte: Alicerce, 2021. ISBN: 978-65-0035567-3 1. Literatura infanto-juvenil brasileira. I La Carretta, Marcelo. Ribeiro, Juliana. II Título.
Fornecendo consultoria e planejamento em todas as etapas do seu projeto, nossa proposta de produção é focada em tornar realidade produtos com uma tiragem sob medida, e a um preço possível e sustentável. Belo Horizonte - MG Outono de 2021
Sabia que A
História do Tambor
existe também em uma versão digital, narrada pelo próprio Tom Nascimento e equipe?
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FEITO ORGULHOSAMENTE EM
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