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*22 outubro/novembro 2011

este valor, descontados os impostos, é 100% doado para os projetos do

Realização:


educar

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dentro e fora da escola

Carnaval

dos sentidos Ouvir, ver, comer e sentir é aprendizado constante. Por trás da educação das sensações, há um mundo repleto de cores, sons e novos significados pronto para ser descoberto texto K a r i n a S é r g i o G o m e s ilustração E s t ú d i o A l i c e


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OUVIR MÚSICA NÃO FAZIA sentido para Lorena Lustosa. Se a secretária de 31 anos ligava o rádio, em São Paulo, era só para ouvir alguma coisa e não se sentir sozinha. Mas, em março, ela pôs na cabeça que realizaria o sonho de sua sogra, que morria de vontade de ganhar uma serenata. Entrou em uma escola e, em seis meses, aprendeu a tocar no violão Como É Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos, e Parabéns pra Você. No entardecer do aniversário da mãe de seu marido, ela foi até a janela da família e mostrou o novo talento. A sogra se emocionou, mas foi Lorena quem mais ganhou com as canções. Enquanto ensaiava os acordes, ela aprendeu a reconhecer o som dos instrumentos, a diferenciar tons e a perceber melodias. As claves e pautas se espalharam pelos CDs que começou a colecionar e pela família, que tomou gosto pelas partituras. “Quando ouço uma canção, já sei se um arranjo é bom”, conta. É que Lorena e sua família não gostavam de música porque não sabiam como ouvi-la. Sem notar que a audição pode ser educada, é como se estivessem, até então, vivendo surdos para as melodias. É aos poucos que os seres humanos aprendem a ouvir, a ver e a sentir. Esse despertar dos sentidos se dá pela faísca que alguém nos lança ao nosso lado ou pela teimosia em compreender algo. “Os animais já nascem com os instintos apurados. Os seres humanos, no entanto, são mais complexos e demoram mais tempo para aprender”, diz Rogério de Almeida, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). “Passamos a vida inteira em formação”, diz.

De olhos bem abertos Com o tempo, Cahoni Chufalo, de 28 anos, percebeu cores que estavam invisíveis para ele. Formado em letras, só compreendia a palavra escrita, enquanto as imagens lhe diziam quase nada. Foi uma dica da irmã que abriu seus olhos. Por indicação dela foi, em 2007, à exposição do pintor espanhol Francisco Goya (que viveu entre 1746 e 1828), no Museu de Arte de São Paulo. “Para mim, era um monte de risquinhos. Não sabia nada sobre a vida e o trabalho do artista”, conta. Mas Cahoni ficou intrigado ao ver que o autor das pinturas era tão importante e resolveu pesquisar. Lendo sobre ele, as obras do museu ganharam significado e beleza. Encantou-se com as histórias dos quadros e quis ir mais longe. Procurou um curso de história da arte e, há três anos, entrou em uma pós-graduação em teoria e crítica de arte. Hoje, vai ao menos a cinco mostras por mês, que fazem com que veja o mundo com mais formas e cores. “Às vezes, passeando pela cidade, jogos de sombra e luz me chamam a atenção e lembram quadros”, diz. Agora, entende o que as ilustrações dizem, mesmo sem palavras. “A arte é uma forma privilegiada de aprimorar o senso estético”, comenta Guilherme Romanelli, professor do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “As referências ajudam a estabelecer relações, que dão sentido ao que apreciamos. Elas nos tornam mais criteriosos e nos dão autonomia”, afirma. Ou seja, quanto mais alguém aprende sobre arte, por exemplo, mais gosta do que vê – porque entende. E também sabe o que vale e o que não

vale a pena admirar. “O mundo é mais agradável quando você apura os sentidos”, diz o professor.

Fome de quê? As referências também faziam falta para a jornalista Juliana Cunha, de 23 anos, mas à mesa. “Comia de tudo sem diferenciar o bom do ruim”, diz. Mas seu paladar foi obrigado a ficar seletivo quando começou a trabalhar com gastronomia em um jornal paulistano, no início do ano. Uma de suas lições foi ir à feira. Passeando entre as barracas, descobriu que há dois tipos de brócolis: o japonês e o tradicional. “Comprei um de cada e senti que o tradicional tinha um sabor mais marcante”, conta. Foi aí que levou um susto e descobriu que existiam novos sabores para explorar. De bocado em bocado, conheceu muitos alimentos e ganhou uma vida mais saborosa. Até para degustar uma receita precisamos de educação. “Nascemos sabendo apreciar o doce e o salgado. Mas faz parte do instinto de defesa não gostar do amargo nem do azedo”, diz Giovanna Fiates, professora de nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nossos ancestrais sabiam que esses sabores podiam indicar alimentos venenosos ou estragados. Hoje, no entanto, ninguém precisa temer limonadas suíças ou saladas de rúcula. “Para gostar de um novo alimento devemos acostumar o paladar aos sabores”, comenta a professora. Foi dessa forma que Juliana aprendeu a usar o fogão e conheceu novas formas de sentir o mundo. “Comer, para mim, é uma nova fonte de prazer”, diz. É essa alegria descoberta a principal razão para educar seus sentidos.


comer

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sabores que confortam

Cuidado: recheio quente (e delicioso)

Um pastel quentinho guarda possibilidades infinitas de delícias. Com massa fininha, doce, salgada, com um ou vários ingredientes no recheio, ele faz a festa de todas as idades texto K a r i n a S é r g i o G o m e s foto S h e i l a O l i v e i r a /

E m p ó r i o Fo t o g r á f i c o


Produção culinária: Aurea Soares | Produção de objetos: Márcia Asnis

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AOS DOMINGOS, EU ACORDAVA cedo para ir com meu pai à feira. O que me tirava da cama não eram as frutas nem os legumes, mas a barraca de pastéis fresquinhos. Aprendi a dar uma pequena mordida no canto daquele travesseiro de massa crocante e deixar o ar quente sair. Assim, não queimava a boca e fazia o pastel durar mais. Saboreava bem devagar o recheio, guardando o melhor para o fim. Foi essa mesma sensação gostosa que levou Maria Kuniko, de 59 anos, a dedicar sua vida aos pastéis de feira. A paixão veio na primeira mordida, ao provar a receita feita pelo pai, um imigrante japonês que aprendeu aqui a fazer o quitute e vendê-lo em barracas. “O sabor era delicioso, diferente de tudo o que já havia comido”, diz Maria, dona da barraca que ganhou duas das três edições do concurso de melhor pastel de São Paulo, organizado pela prefeitura. Até hoje, ela come pelo menos um pastel de carne por dia. É assim que garante o sabor da receita paterna. “O segredo está na sova da massa. Tem de ser bem fina”, diz. Outra dica para uma massa impecável é prestar atenção à temperatura do óleo. Ele está ideal quando, ao jogar uma tira de massa na panela, ela demora um segundo exato para subir à superfície. Se fizer grandes bolhas, é mau sinal. O empresário Gabriel Junqueira, de 32 anos, aprendeu isso quando decidiu largar seu emprego no mercado financeiro para viver do pastel. Provando até cinco de uma única vez, o apaixonado pela receita descobriu que o pastel perfeito é aquele que tem bolhas pequenas e uniformes. “É isso que revela se ele está sequinho e benfeito.” Para fazer a massa assada, o cuidado está em dosar bem os ingredientes e acompanhar o forno de perto, para que a receita não fique pesada nem quebradiça. Tanto cuidado só mostra quanto o pastel é adorado pelo paladar brasileiro. Ninguém sabe ao certo sua origem, se foi adaptado de trouxinhas fritas e recheadas orientais ou trazido pelos jesuítas. A única certeza é de que ele faz sucesso por aqui com sua fonte inesgotável de recheios. Vai um pastel aí?

Veja m a receit is a s de reche ios no revist site: asorr ia.com .br

MASSA DE PASTEL FRITO

MASSA DE PASTEL DE FORNO

2 gemas • 60 g de banha suína (ou

250 g de gordura vegetal, margarina ou

INGREDIENTES 1,250 g de farinha de trigo • margarina) • 1 colher (sopa) de sal • 1/2

colher (sopa) de glutamato monossódico (Ajinomoto) • 400 ml de água

INGREDIENTES 500 g de farinha de trigo •

manteiga • 1/2 xícara (chá) de refrigerante de guaraná • 1 colher (sobremesa) de sal • 1 gema (para pincelar)

MODO DE PREPARO Derreta a banha e bata as

MODO DE PREPARO Junte todos os ingredientes

os ingredientes. Quando a massa estiver

com as mãos, até obter uma massa

gemas. Em uma vasilha, misture bem todos homogênea, envolva-a em filme plástico e

deixe descansar por meia hora. Abra a massa com um cilindro ou rolo. Corte, recheie, feche (as pontas da massa molhadas com água fecham melhor) e frite. No filme plástico, ela pode ser congelada por trinta dias.

RECHEIO DE PIZZA 3 fatias de queijo mussarela

em um recipiente grande e misture bem, homogênea. Deixe-a descansar por 30 minutos. Com um rolo, abra a massa e corte-a com um cortador ou a borda

de um copo. Recheie, feche com a ajuda de

um garfo e pincele os pastéis com a gema. Leve ao forno quente por cerca de 15

minutos. Retire quando estiver dourado.

• 1 fatia de tomate • 1 azeitona • orégano

RECHEIO DE GOIABADA COM QUEIJO 2 xícaras (chá)

MODO DE PREPARO Empilhe 2 fatias de

queijo de minas em cubos

mussarela, o tomate, a azeitona, salpique

orégano e cubra com 1 fatia de mussarela.

Feche a massa e frite em óleo bem quente.

de goiabada em cubos • 2 xícaras (chá) de

MODO DE PREPARO Misture os ingredientes em uma tigela. Recheie a massa, feche e asse.


ajudar

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a quem precisa

Lucas e Isaac descobriram na tecnologia uma janela para a diversão e o conhecimento. Ao comprar a Sorria, são encontros assim que você ajuda a construir

FOI O COMPUTADOR que fez Lucas Custódio gostar de ler. Curioso, o garoto de 16 anos adorava usar o equipamento na casa dos parentes ou em lan houses. Passava horas na internet traduzindo artigos em inglês para descobrir códigos de jogos e softwares. Virou um jogador de primeira – e ficou fera no inglês e na interpretação de textos em português. “A leitura me ajudou a organizar as palavras e a escrever bem”, diz Lucas, que é de Mogi Guaçu (SP). A introdução dos computadores na vida do garoto deu a ele o primeiro lugar no programa SuperAção Jovem, em 2007. Com as informações que pesquisou na internet, Lucas conseguiu desenvolver dois projetos. Um foi fazer uma horta em um espaço inutilizado da escola, e o outro, uma campanha de doação para a biblioteca, que estava sem uso. A facilidade com as teclas e o mouse faz, agora, com que ele passe a maior parte do dia em frente à tela, na sala de informática do colégio. De manhã, dá suporte aos professores durante as aulas e cuida da manutenção dos computadores. E à noite volta para a sala de aula, mas, dessa vez, como aluno.

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QUANDO CRESCER, Isaac Ribeiro vai ser atacante de um grande time. O Corinthians, de preferência. Mas, enquanto o garoto de 12 anos não chega lá, ele vai driblando os adversários com o futebol do videogame. Há um ano e meio em tratamento para vencer a leucemia no GRAACC, Isaac fez do computador seu melhor amigo. Além do futebol, bate papo em chats e busca as canções de suas bandas preferidas. Para ele, a tecnologia é uma porta para aprender e se distrair no hospital. Nos dias em que ficou internado na UTI, ele conheceu o iPad. Brincou e arrastou com os dedos as peças no jogo de dominó. O equipamento começou a ser usado no GRAACC em novembro do ano passado. São dois para os cerca de 300 pacientes. Como ainda não pode voltar à escola, o garoto também estuda com a ajuda do tablet. É que os professores do GRAACC usam a tecnologia para as aulas. Mas é só a obrigação acabar que ele volta para a parte divertida da informática. “Gosto de escutar os pagodes do Exaltasamba no computador”, diz Isaac. “Passo um tempão ouvindo som.” Parece que, além do futebol, ele treina para virar craque na música.

© 1 Felipe Corvello 2 Guilherme Gomes

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