Dedico esse livro a todas as deusas, sonhadoras e guerreiras, às mulheres. Deposito nele as esperanças de que permitam-se viver poeticamente, em suas próprias naturezas. KAREN UEHARA, 2019
Trabalho de conclusão desenvolvido para o curso de Design Gráfico sob orientação da prfª drª Fernanda Henriques, na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação.
Tipografia: Frank Ruhl Libre Tipografia auxiliar: Montserrat Papel miolo: Color Plus 90g Marfim Pepl luva: Curious Collection Metallics - Electric Blue 120g Impressão: Dagra soluções gráficas
Vida CapĂtulo 1
Bicho TARINE GUIMA
Eu sou bicho. As veias pulam aos pés, Verdes e risonhas: Sou é bicho. Sento mesmo é na poeira, No barro e sem calcinha. Eu sou bicho. A pele pálida e moura Nos diferentes pontos da tez, Essa costura orgânica Que veste o meu revés. Bicho pulsante. Coração pula como bicho. Arrebenta a civilidade Das roupas e conceitos Que me enluvam no protótipo Do humano. Mas sou fêmea e bicho. Sou coisa. Sou ser. Feita de carne Feita de sangue. Tanto o meu quanto o deles. Sangue maldito, Mau-dito. Sangue. Fúria, água e suor, Nunca hei de fisgar o anzol. Existir é cru. É o agora, independente de tu. Vida que se resplandece No violento sol.
Amor que vem fácil AGNES ANALUA BARBOSA
Eu vim do caminho da sua casa até ao meu leito, cheirando minha roupa que ainda tinha seu perfume, seu cheiro cravava em minha pele como agulha que crava e pinta uma bela tatuagem. Você me pôs em outra direção, a qual eu sigo com as pernas bambas cambaleando até alcançar o meu merecido descanso; em casa só penso em deitar-me e ter delírios dos insights da nossa noite, suspiro profundo, e olho pro chuveiro; ainda há vestígios do nosso sexo grudado em minha pele, os quais eu não queria me livrar. Tiro a roupa delicadamente fio a fio, peça a peça, um momento, lembro de você: “Foi num fim de tarde de uma segunda-feira, a qual eu precisava estar produzindo, escrevendo, mas você me pinçou desse sonho entediante e pediu-me para te visitar, outro momento, me indago se vou e logo penso naquele vestido amarelo cor de melão, que me faz pensar em coisas alegres, apalpo meu cabelo e solto meus cachos – mais um suspiro – você pensa em mim como eu penso em você? Pois eu tive pensado muito em você ultimamente... Desço as escadas de casa, e num pulo estou sentada em seu colo: você desenha ondas do mar com as pontas dos
seus dedos grossos em minhas costas nuas, seu olho no meu e consigo vislumbrar sua alma que se encontra neutra e branda, como uma luz de manhã que adentra vossas casas sem assombrar, um fogo baixo porém se eu me esforçar e focar no que realmente pinta em sua alma, consigo enxergar que tudo que você pede é por mim, nua e crua, mordiscando os lábios dizendo que naquele momento eu sou sua. Sinto você por dentro, você por completo mas não inteiro, a sua outra metade deve estar concentrada em me beijar e me dá a luz de ser mulher – odeio quando representam em poesias e músicas que um homem faz uma mulher, mas não é como se você sozinho me desse essa luz, eu já era mulher, você só descobriu – sua mulher. ” Ainda estou deitada na minha cama, suja de nós, o sono adormece minha face, minhas pernas já não me respondem mais, parece que ainda estou vivendo o orgasmo que você me deu e novamente olho em direção ao banheiro – meu pensamento grita um banho – então me levanto mancando de sono, e me lavo minuciosamente todos os detalhes do meu corpo e alguns que você descobriu por si só, viajando em mim. Acabo com o rito e me deparo na frente do espelho – me pergunto: porque me sinto tão
feliz assim? Eu não pensei que você me daria o mundo em instantes, não pensei que foderíamos por toda a casa, não pensei que amaríamos por toda a casa, não pensei que me beijaria mais do que me penetrava, não pensei que você ia pedir mais e eu não pensei que aquilo se eternizaria em minha mente, brilhante. Eu quero um amor daqueles que possuem o seu sabor... E eu to quase dormindo, mas não consigo parar de pensar em você, vou até o seu facebook pra te ver e você postou “não consigo parar de pensar nela”, aliviada e satisfeita me entrego... A mais profunda soneca.
[Sem tĂtulo] GIOVANNA LIMA
Ao menos hoje deixa o agora se estender a vida surge quando a demora tem mais a dizer
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Eu sou apaixonante ROSA PIVA
gostaria de poder sentir meu cheiro com outras narinas que não estivessem tão adaptadas aos meus odores de mulher tenho tesão pelo rouco da minha voz quando acordo de manhã ainda onírica meio-hiena meiogata mansa o cabelo cortado com tesoura sem ponta as espinhas crescendo a lua estrias brancas nos meus seios gravitacionalmente amantes a vegetação rasteira das minhas coxas a vegetação selvagem da minha intimidade agridoce meu riso-menina, minha mãe cozinheira, minha deusa serpente, minha velha aconselha: SOU MINHA até que a morte nos separe
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Construção VIRGÍNIA DE OLIVEIRA
O cheiro do cravo no doce que a vó cozinhou ainda exala a casa dentro de mim. E todo o meu choro contido nas mágoas da infância inundou o meu quarto iludido transfigurado em piso cinza sem sorte, cor triste...
Mas foi embora... Foi embora... Quando e se você vier eu construo de novo (Desta vez, sem medo) a casa que deixei desenhada em gosto de baunilha no papel de pão, lápis lilás, guache, giz de cera... Deitada, em traços de criança no tapete da sala ficou. Ah! Só pra constar... ainda sou a mesma mulher que um dia a menina ensinou.
Terapia “passada em branco” LAURA UENO
. . meu analista entendia que ser amarela era ter a delicadeza e a tecnologia dos objetos da japan house. e que ser negro era ter ódio mal curado da violência que simplesmente deveria ser esquecida. eu tive que explicar a ele o que era ser um casal blasian (black + asian): não ter nenhum branco na relação. mas ter que lidar com ela, a branquitude e seu discurso sempre presente, mesmo quando não a convidaram!
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Notas sobre ego PRYSCILA GALVÃO
de tanto levar rasteira, até de mim mesma aprendi a pular tão alto que criei asas as mesmas que me levaram pra longe de amores falsos e falsos profetas que diziam gritar ao vento suas promessas logo eu, filha do furacão recebi todas feito oração e me deixei de lado de caso em caso, acreditando no acaso de tanto ver comédia romântica, aprendi a rir da desgraça mas nunca parou de doer de tanto sentir medo, prometi que iria mesmo assim prometi ao céus, ao mundo, menos pra mim tô no meio do caminho e já quero voltar apreciar a única companhia que eu sei que não vai me desapontar alguma? nenhuma? se até eu me contradigo se em minhas palavras eu mesma me desentendo comigo que medo é esse de lidar com a dor? se minhas asas me levaram pra longe de desgraça, elas podem me trazer pra perto de algum amor que um dia minhas rimas se tornem tão ricas que rimar substantivo com adjetivo vai ser miséria e meu ego frágil feito meu pescoço quando recebe seus beijos se desmonta quando você chega eu tiro a capa do orgulho e me entrego despida de tudo aos seus braços da verdade só por vaidade, finjo que não penso nos nossos momentos quando versos assim eu escrevo é meu ego são minhas asas que me fizeram pular tão alto devido a tanta rasteira
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RITO ALINA DÖRZBACHER
Meu lugar favorito de se estar é perto da sua orelha nas dobras de seu ouvido onde minha língua passeia sem sair do lugar lá que enfio fundo o mais íntimo desejo que pareço encontrar tu traduz meus olhares e em silêncio reescreve com saliva tuas carências no reflexo das nossas pupilas ao som de sussuros e gemidos o enredo se faz leve como a brisa Meu lugar favorito de se estar é embaixo do teu corpo levando horas e mais horas de pimbada pra depois dormir de concha encaixada com a raba cheia e toda inchada enquanto espasmos se esvaem a paz em mim se eleva... vejo as nossas pernas formarem um nó de nós, teus pés roçando nos meus pés tua língua na busca meu ânus e os dedos a me penetrarem arrepiam até o último fio de cabelo da minha trança Meu lugar favorito de se estar é junto ao roxo que te deixo no pescoço me enlaçar no calor de seus pentelhos beijar-te as partes, lhe apalpar com toda extensão do corpo te abro minhas pernas e me encontro no atrito vou te curtindo aos poucos na lentidão de nosso rito
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Vermelho NATALIE MESS
eis então a de sergio dos homens invejei
pra nossa sorte estava uma pasta de merda
o direito ao escatológico
constrangido,
ao grotesco
diz que confundiram sua escova
alteração morfológica
com esta que, supostamente, era usada pra lavar a privada
sem que lhes custasse
duvido que ele teria a cretinice de
a sua imagem e substância
lavar privada com escova de dente
acho que quero ser levada a sério
duvido que ele lave a privada
provar o mito da inteireza da vida adulta
pouco compreendi
pra início de conversa
mas chego numa idade considerável
essa coisa de destituir um ser humano
[procurei o vídeo, sem sucesso,
e pronto: adolescencia vai até os 29!
de sua identidade
mas encontro o manual do mundo
num pode sê
se não for atrativo pro sexo
explicando cepo de madeira
eu tenho direito ao sonho cotidiano e tributável
[curiosamente asséptico]
_ pq eu ainda não sou youtuber??????/_]
fico indignada quando uma porta se fecha assim_
me interessa desvelar
mas num segundo todo sonho pequeno vira pó
o misticismo maculado de ser mulher
você vê poesia nas minhas formas
a coisa elemental e flutuante
não tem jeito, engrandeço feito céu
pra trazer o bicho a matéria
gosto da literatura atemporal da vida
o que morre e apodrece
caligrafia sem medida que se faz nas coxas
_ é simples
dos ladrilhos que nos compoem
nascemos,
nas coisas que são mundo
desenvolvemos
e que costurei em mim
morremos
_no que sou diante de você
e no meio tempo
SERUMANO
somos avenidas de secreções,
_ sem fetiche
excreções,
perversão do desejo
fluidos
objetificação redutora da essência
nossos e dos outros,
.
de tudo isso que facilmente é encontrado
o encontro é como exu sábio acontecendo
na escova de dente do nosso banheiro
“atirando a pedra hoje, acertando o pássaro ontem”
nunca me esqueço
que na casa de oxalá aprendeu como faz gente
[talvez fosse criança]
sem perguntar como nem onde
sérgio reis no domingo legal
é a vida em movimento
gugu lança uma matéria cretina
o riso e a tragédia
“lugares inusitados onde encontramos
a concepção, o ventre, o corre
coliformes fecais”
a ruptura, o fluxo, a enchente
artistas e suas respectivas escovas
nossa terra, nossa casa, nossa gente
Morte CapĂtulo 2
3.4.18 TARINE GUIMA
A-va-lan-che Parece avalanche De dejetos torpes Que radiam lixo E me torpem Infusão de gelo ácido Que despenca em mim Do longe do Ártico Que dos trópicos nem vejo Nem distinção nem noção Do que outrora me quebra Os joelhos Me tira o sono Me faz ver o ônus Desta vida que nada Tem de mansa Só atiça a ânsia De cair a esmo ao abismo Em que a mesma me lança
O doído adeus do amor AGNES ANALUA BARBOSA
Estou parada no portão da sua casa, vim louca pra te falar de amor. Eu vim porque eu senti que não nos falamos bem pelo celular e que tudo que eu queria dizer, eu apaguei. Pensei que seria impossível não falar de afetividade na sua fronte, sendo que tudo que eu vejo em seus olhos quando estamos juntos é amor. Estou tecida a pele, aquele vestido que você gostou, tatuado no meu corpo as linhas de algodão que curvilínea o meu corpo, esse corpo, que você tanto amou. Chove. E eu ainda não tive a indômita coragem de bater no seu portão e gritar teu nome pelo simples medo, maior que a coragem, de quem abrir não ser amor e sim seu pai, aquele que ainda não sabe de nós. Medo o qual as outras meninas que carregaram seu amor não tiveram. As gotas geladas das lágrimas que o céu se permite chorar por mim, me afrontam me jogando uma brisa fria em direção ao sul desta cidade, quase me dizendo: “volta pra casa menina, isso não dará certo”. Balanço meu corpo molhado, de chuva e de minhas lágri-
mas, corpo aquele que poderia estar molhado por você de modo que eu não sentisse dor ao me mover e voltar pra casa, sem ter dito a você tudo aquilo que meu coração pediu. Quero que você fique. Sussurro pra mim mesma, e quase não ouço pois o barulho do meu coração partindo é maior, maior mesmo que os trovões e maior mesmo que eu. Eu sou pequena. Pequena demais para entender de amor. Mas minhas pernas se enfincaram aqui na frente do seu apê, feito árvore forte como figueira daqui ninguém me tira, daqui ninguém me puxa, nem mesmo o seu pai, nem mesmo a polícia, NINGUÉM ME TIRA DAQUI ATÉ EU TE FALAR DE AMOR. O céu parece ser sua resposta, pois quando tive essa insana vontade de bater no portão da sua casa, as 23hrs, o céu desabou em cima de mim e fez com que o domingo cinza aquele que você tanto odeia ficasse mais mórbido também. Hoje é segunda e eu odeio domingos agora. Dei dois passos a frente pra alcançar sua porta, a coragem me sumiu como se fosse soluço que acaba do nada quando eu já estava acostumada com aqueles pequenos sustos, me falta algo.
Abaixo a guarda e os braços aqueles que iam tocar sua campainha, minha boca seca e eu percebo que eu nunca iria conseguir te alcançar naquele dia. Me desafio. O que eu poderia perder se eu desse pequenos toques com o punho fechado em seu portão e pediria a deus baixinho pra que você assistindo seus filmes antigos de terror pausasse o jumped scared e viesse me atender, porque nunca seria capaz de reconhecer os sons vindo lá de fora, ao não ser o som do amor ou da minha voz te pedindo pra me amar. Eu bati. Bati. Bati. As minhas cordas vocais dão nó e laço, me racham ao meio. Eu bati na porta do amor e ele não me atendeu.
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[Sem título] GIOVANNA LIMA
O tempo corrói o ímpeto
22
Víbora ROSA PIVA
Eu sou a primeira e a última encantadora de serpentes em corpo de barro Em pele de víbora E quando eu digo sim o portal será aberto E quando dito não nenhum homem subirá sobre mim se asssim eu não o quiser nenhum homem subirá sobre mim se assim eu não o quiser nenhum homem subirá sobre mim se assim eu não o quiser em devoção ao próprio Nascimento quem desafiar o risco setenta vezes sete será mastigado pelos demônios que fecundou o veneno da mordida o pomo de Éris lhe tornará ruína e nunca mais fará a subida nunca mais fará a subida nunca mais fará a subida pois perdeu as tuas asas e agora se arrasta no chão
(em Como Cultuar uma Deusa, edição guerreira)
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PONTO VIRGÍNIA DE OLIVEIRA
.Tenho a presença de sabiá triste, na prisão em que contempla, à distância, seu flamboyant. Mantenho a história de um violeiro que se esqueceu do canto da chuva. .Parto da única certeza: o choro das águas. .Destruí, hoje de manhã, uma casa cor-de-rosa. Minhas lágrimas são o pó do sertão. Toda a fome que há no mundo está em mim. E nada disso importa. Nada disso importa. .As coisas são. As coisas não sentem. Os sentimentos, agora, são coisas. .Meus fragmentos andam por aí. Pedaços de mim passeiam no campo. Outras partes, longe daqui. Algumas, no deserto. Outras, eu nunca vi. .Só minhas palavras sangram. E em cada gota de sangue, um ponto.
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Caminhando pela cidade LAURA UENO
antes de você passar por mim era solidão de estar inteira em meio à multidão impessoal hoje é sobre estar pela metade e manca em meio à comunhão com os outros .
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[Sem Título] PRYSCILA GALVÃO
será que ele realmente só vai visualizar? Lancei o passinho
㌀㨀
nem um emoji, seja o que for
ele veio juntinho
não precisa mandar nada, eu nem gosto
depois dançamos agarradinho
de flor
aquela do The Fugees
ele só podia aparecer aqui dizer que sentiu saudade, que tava
“Oh la la la” ele cantou no meu ouvido
tarde, que era melhor ele dormir aqui
as pernas bambearam um pouquinho
e de novo nossos corpos se tornariam um
mas olhei na cara dele e falei “du-
tão escuro quanto a noite
vido que você volta amanhã”
nossos corpos melaninados em atrito ignorando os medos e conflitos que
já tão acostumada
mandei mensagem mais tarde
eles nos trazem
com os romances de madrugada
“chegou bem?”
nosso beijo vira bandeira branca a
que nunca duram uma semana
ele visualizou e nem respondeu
violência que fazem
até parece poesia recitada
deve ta recebendo outros carinhos que
nossas mãos se entrelaçam como as
chega, me tira suspiros, dou nota 10
não sejam os meus
amarrações de um turbante e na minha memória fica marcado
aplaudo o poeta mas nunca chega minha vez
não tentei de novo não, deixei o baile seguir
cada instante
ou tu se perde, ou tu dança vocês acreditam que ele voltou na
não vou deixar me iludir
calma, calma
noite seguinte?
tudo bem que eu lembro da sua mão em
não tô criando expectativa
foi pra pegar sua camisa que dei-
meu corpo
eu sou bem resolvida, não se esqueça
xou pendurada no meu cabide
sua respiração ofegante
daquelas preta que não abaixa a cabeça
confesso, roubei um beijo
o olho no olho a todo instante
pra ele eu só abaixei a calça
satisfiz meu desejo
calma, calma, não tô criando expectativa
a alça do sutiã
deitei em seus braços
é que a noite foi boa, não vou negar, sou
a cortina de manhã pro sol não
e percebi que as batidas do nosso
uma mulher bem resolvida
atrapalhar nosso sono
coração seguem o mesmo compasso
não me apaixono fácil
a marra
não faço laços
o orgulho
acendi um cigarro
sou eu e meu peito de aço mas acostumada com amores de
guardei na memória as cenas antes dele partir
será que ele lembra da música que eu
madrugada
calcei os sapatos
coloquei pra tocar?
sofri calada
levei-o até a porta e dei um beijo
nem muito calma e nem muito lenta, no
pra me despedir
ritmo perfeito pra gente entrar
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logo aparece outro pra suprir sua falta
Morrer de amor ALINA DÖRZBACHER
ainda quero morrer de amor ao pé da cama na tua boca meu olhar fará morada implorando pra que seja arrebentada não minto e meu olhar entrega meu fatídico desejo de me recostar em teu corpo desfalecer em tua pele sufocar-me de prazer com o teu peito ainda quero findar comigo ao pé da cama meus olhos irão te dizer do amor que me consome serão espelhos refletindo a urgência perene dum gozo meus olhos não mentem e não dissimulam essa vontade de me despir por inteira e em ti me afogar.
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DEZESSETE NATALIE MESS
e fodem
Aos dezessete pensei:
nauseante
pudera as pessoas
beleza
usarem suas placas
diariamente,
da
e serem pessoas.
tal qual
miséria.
todas as coisas, existia. o caminho era o mesmo.
na minha frente,
mas não somos. pagamos com vida,
um vestido rosa
com o couro e com lágrima,
delimita
expiando pecados,
caminhos,
a mulher
religiosamente,
cuja as tetas sobre-
que se quebra,
os mesmos.
põe o estômago.
ri e cospe em nossa cara,
todos os dias os mesmos tijolos. [e um tijolo a mais que não fora visto antes] todos os dias as mesmas pessoas, usualmente com os mesmos estado de espírito
ela me encara.
edificando uma moralidade
em nome de Deus
eu me incomodo.
em nome do estado,
temo.
revistam a buceta das mulheres
tenho medo de sê-la
que choram sobre corpos confinados
[uma pessoa amais,um humor a mais]
e de certa forma desejo.
marcados pela escara de percevejo
aos dezessete
essa sensação de inteireza que me passa
aquele cheiro de mofo
olho a face do velho
minis certezas que norteiam e confortam.
eu nunca me esqueço.
todo esse misticismo
ela me olha penalizada,
de passar pela vida
pela minha aparente pouca idade
nunca sou boa
abandonar ou viver sonhos
e dimensão do meucorpo.
desenho,invento,
decisões
usualmente as pessoas se/mequestionam
chego nesse espaço escola
números,línguas,universos,
subsequentes
se sonho outro corpo
teorias pitorescas
consequências
se sonho outra vida,
frases de efeito
subsequente
algum outro ônibus,
roupas indicam quem não sou
consciência
enquanto eu só sonho.
meus pensamentos
produto de tudo
[...]
a forma como expresso
produto do tempo
a cidade se compõe de espaços
a forma como toco o mundo
as histórias contidas na calosidade das mãos tudo isso me consome. não visualizava minha vida adiante. não sabiao que era morte.
que se descrevem em diferentes cores
evidencia alguém,
fontes
que precisou sonhar.
formatos. espaços são reconhecidos
a prova de física é hoje, meu avô desfalece em meus braços
tal qual suas respectivas placas:
falecen’outro espaço minutos depois
bares são bares e vendem alívio;
meus amigos sentem pena e dizem
escravista
hospitais são hospitais vendendo vida
sobre seu novo amor.
beleza
vendendo morte;
eu não consigo me identificar
do labor.
escolas são escolas
com o amor que eles sentem
até então. as pessoas trabalham
pessoas comem
vendendo anseios; lojas são lojas e vendem promessas.
DEZESSETE.
Retornar
CapĂtulo 3
Pra toda vez que lhe faltar a calma TARINE GUIMA
Pra toda vez em que lhe faltar calma. Saiba que ela vem é da alma. O externo é passageiro, fugaz, por mais que agudo e tenaz. O tempo é dono da cantiga que rege a tua vida – por isso, confia, mantém o respeito a ele. Não fuja em tempo e nem espaço distantes. Sê aqui, sê agora. Sê contigo e chora. Chora a ferida exposta, cutuca a carne e bota pra fora. Purifica, recebe ar e joga ar. Olha o céu, a lua e o sol. Até a chuva te traz o anzol. Pra pescar vida, arrebatar consciência. Sente a ti com as próprias mãos. Ouve o próprio som. Escuta a própria voz, mesmo que muda e sem palavras. A mudez dá o silêncio para que a visão funcione. Vê. Antes de ser, vê. E, só aí, sê. Sê o que tu é. Mas sê no tato. Toca-te as próprias mãos, delimita a silhueta da alma e do corpo. Sente. Fica a querência do fugir porque é difícil. Difícil deparar-se consigo e enfrentar. Mais que isso, entender, compensar, abraçar. Dói mas é assim. Só quando aprenderes que a dor de
estar de frente consigo mesma é necessária, é que não vai doer. Por isso, senta. Vê, chora, exprime e explora. Sê silêncio, sê tumulto. Mas cresce. Cresce como vens crescendo. Não linear: isso não existe. Cresce em picos altos e picos baixos. Vive em simultâneo: nada é definitivo. O ser não é fixo, tampouco o externo é prolixo. Tu define o que é. O que atinge ou fere. O que faz florescer e resplandecer. Resplandece no ser. No que é agora. No que nunca foi e que não será nunca mais. Sê inteira, mas sê dividida em milhares de si. Milhares conscientes, atentas. Inteira, respira. Respira e olha: olha fixo, olha dentro. No núcleo cristalizado do tempo. No desaparecer tênue do vento. A vida é muito mais do que o relento.
Amor sou eu, prazer AGNES ANALUA BARBOSA
Estou pintada e tingida a cores azul e roxo, violenta, triste e vulgar. Profanando tudo que me deram, negando todo o amor que vocês me disseram ser amor, mas aquilo estava fardado a parecer ódio, você me ama ou me odeia? Me explique porque dói? As suas manchas fincaram em mim, mesmo feito árvore forte, talvez um ipê, eu resolvi arrancar, as flores, as folhas, os galhos e raízes inteiras que você bordou em mim. É difícil, quando estamos a sós, só a mim e você, refletindo no espelho tudo que posso ver é uma carcaça do que eu costumava ser. Nua e desprovida de qualquer arma, a minha boca larga e obscena te xinga e te excomunga do meu corpo, te exorcizo e batizo uma nova eu; tatuado no meu coração que desta vez não me permitirei amar, afogo os meus anseios, apago minhas expectativas, digo até nunca mais a esse sentimento que me toma. Mas nunca antes fora amor, nunca antes fora bom, se então você me ama porque me machuca com tanto sabor? Se delicia ao me ver contorcer de inseguranças e de porquês, se delicia a ter eu em suas mãos me perguntando sempre que horas você vem
e se é que você vem. Pra muitos, o despego, o amor livre e o adeus se dão com muita facilidade, mas como poderia eu, um ser tão simples de amar mas tão complexo de ser amada conseguir ao menos abrir a boca pra te proferir quaisquer palavra que não fosse amor? Como eu um ser que nunca antes notado, ser dotado de novos costumes e dessa vida líquida te dizer adeus? Como eu... Então, só, no banheiro, na frente do espelho, com tintas que cobriam o meu corpo, resolvo que preciso de um banho, de ervas, lágrimas, e de seu choro. Pois sabia-se que depois daquele chuveiro aberto, que fariam as cores se misturarem com a água e formar tons diferentes indo para o ralo, você também
iria – pra onde? – pro ralo. Resolvo então aceitar meu triste e findo meu destino, meu bigode grosso eu não tiro, meu gingado eu não perco, a minha poesia fluirá em mim como aura, meu EN é poderoso, não pedirei desculpas mas direi não me interrompas, não serei prosa serei a ti ensinamento, cimento tijolo e cimento, faço a minha casa, o meu corpo, grudo em mim só os sentimentos que me fazem sorrir ou outrora sentir...tudo. tudo. O que brotou em mim? O que vocês fizeram com aquela moça de sorriso bambo e de andar delicado? Me machucaram... Me negaram o amor, me negaram casa, me negaram comida, me deram dinheiro pro meu sexo, adivinharam o meu preço, excluíram o meu valor, alisaram meu cabelo, puxaram-me pelo peito, disseram coisas tão cruéis e tudo que eu pedi foi amor... Bom, que enfiem esse amor nos seus próprios cus blindados pelo ego de vocês, inflados.
“O palco que vocês quiserem eu num dô Me deram ódio querendo revanche Mas minha vingança É amor...”
[Sem título] GIOVANNA LIMA
Coração nocauteado não para de bater
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Lua negra ROSA PIVA
me liberto da obrigação de ser bela para explorar o que reprimo na imagem que me veste me liberto da obrigação de ser bela para revelar as faces que estão escondidas nos cantos nas quinas na profundidade da íris vazada do meu olho esquerdo me liberto da obrigação de ser bela para assumir minha totalidade, minhas excreções e minhas faltas, a avaria de meus apegos assim caminho na noite sem lua: mapeando labirintos
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Sol espichado em fresta de janela azul. Porque meu querer é urgente como o riso de um louco, nunca quero pouco...
Tanto querer VIRGÍNIA DE OLIVEIRA
Quero o sorriso dessa vida pés descalços carimbando os caminhos... Desejo do amor latente criança esperando o presente de natal. Quero a festa dentro do vidro com sementes e raio de sal...
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Vontade de ser teu colo moreno espreguiçando o ar, comer de tua mão duas fontes nascentes onde descansa uma onda de mar. Anseio de morder o mundo feito maçã, tirar do meu bolso o fio de tua manhã e tecer tua pele, pleiteando o teu maior beijo... aquele que tua boca não me quis roubar.
Viagem pelo continente LAURA UENO
(I) buscava de um continente a outro um lugar para morar. mas era só de um continente acolhedor para seu conteúdo que ela precisava. - quando era refugiada
(II) chorava litros de água salgada mas desatei meus pés da mágoa e caminhei era hora de achar conexão reexistir em outra terra o olhar do outro me lançou na hospedaria do ser. - foi daí que fiz check-in na vida .
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[SEM TÍTULO] PRYSCILA GALVÃO
Não era Deus que não dava asa a cobra? Pois eu sou a prova de que ele mudou de opinião Cheguei em João Pessoa e, pasme, não foi com os pés no chao Sou o plano em silêncio o melhor que foi deixado pro final o motivo pra pedirem calma o refrão do Djonga “Sensação, Sensacional” Uns me chamam de Pryscila, eu me entendo por Ambição levo comigo minha família e o black bonde no coração Porque eu quero o mundo, enegrecer tudo Tirar uma foto tipo aquela do Jay-Z Sorrindo, com whisky na mão Falaram que eu ia ser puta, jogar meu futuro fora que eu faria de tudo, menos ficar na memória pularia de emprego, pediria arrego o que você não esperava é que ao invés da minha roupa, eu tiraria seu sossego Mas e ai, me conta qual a sensação de ver filha de bohemio passando em 5° na classificação? Não era você que dizia quê eu não teria condição? Agora essa rua é minha, não é mais imaginação Vou encher de preto, samba e alegria só entra quem merece, pra você é contra mão E de onde eu vim, pode ter certeza que tem mais Niara já ta ai, meu bonde ta ganhando cada vez mais Sendo reconhecido, UBUNTU fazendo sentido Somos pique família, rola até umas treta mas não importa, “tava escrito” essa é nossa certeza Pra quem já levou tapa na cara e tentou ser estuprada até que eu tô chegando longe, já que você nem dava nada Mas meu foco é no meu corre, não provar que tu ta errado isso eu sempre soube, sempre pensei o contrário Quem me protege, não dorme sua energia negativa não pega em mim Não esperava me ver no topo, né? Eis-me aqui
EUDAIMONIA ALINA DÖRZBACHER
de passadas tristezas, desenganos, amarguras colhidas em vinte e quatro anos, de velhas ilusões, de pequenas traições, de cada injusto mal, de cada espinho, de cada crueldade, de cada pesar, minha alma permanece forte e tranquila de cada morte que anda a viver comigo de cada cicatriz eu fiz nem tristeza, nem dor mas heróica eudaimonia eudaimonia sem causa, alegria animal que nenhum mal pode vencer doido prazer de respirar alegria voluptuosa em encontrar um mar de chamas acesso em teu olhar prazer em regressar a ti honestamente e sem caprichos, feito planta, feito bicho volúpia em renegar e destruir o tédio, de me entregar à vida como a um vício eudaimonia brutal e primitiva eudaimonia por estar viva, feliz ou infeliz mas bem presa à raíz. eudaimonia de me sentir em cada dia mais cansada, triste, dolorida, amada, agradecida cada vez mais agarrada à minha vida.
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Wabi Sabi NATALIE MESS
beleza rachando o tempo risca finas linhas finas linhas delicadas -não frágeis no rosto da vida dedilha o rosto da morte melancolia agridoce da impermanência constância nos seus ciclos naturais orvalham meus olhos refletindo a luz do mundo penetra por dentre a carne estriada (e se cada planeta fosse uma gota de orvalho) copo d’água cai no quintal borrei o batom uma perna dormiu meus cabelos no ralo
unha pelo caminho tudo continua flor e eu indo lugar nenhum “ there is NO utopy like a home there is no home like a utopy ” (tilintando nos ouvidos nos caminhos pra casa) rasguei o céu é tudo sombra somos átomos na corrente sanguínea do universo que honra.
As autoras
Quem são elas? As poetas Tarine, Agnes, Giovanna, Rosa, Virginia, Laura, Pryscila Alina e Natalie foram as mulheres que ajudaram a tornar esse projeto real. É imensurável a alegria que senti ao manter contato com elas. Os caminhos para interpretar poesia foram os mais diversos possíveis, pois cada uma enviou sua visão singular de como era viver, morrer e renascer (retornar) de acordo com a interpretação de suas vivências. O que mais me trouxe ânimo para criar as ilustrações foi a infinidade de interpretações possíveis nessas 27 poesias enviadas por elas, e nessas 27 ideias permeadas de elementos poéticos, desenhei o que nunca pensava desenhar. Por fim, foi uma experiência enriquecedora em muitos sentidos. A cada arte concluída, pude me perceber com empatia para cada mulher, pois sabia um pouco de suas vidas e suas maneiras de enxergá-las. a 28ª ilustração fecha o ciclo do livro, o ciclo lunar, de nossas fases humanas, de nossas faces de mulher.
As autoras
Tarine Guima Idade: 23 Mora em São Paulo Estudante de Ciências Sociais - UNIFESP
Os
poemas que escreve são como lembretes e são sempre por ela (re)visitados. Para ela é incrível notar o amadurecimento de seu ser e das palavras que utiliza, de como superou alguns obstáculos e compreendeu suas angústias quando parecia não haver saída. Olhar atentamente para si é um hábito que Tarine traz consigo quando está em sua própria companhia e melancolia. Viver poeticamente é o que a acalma e a conforta, é a maneira que encontrou de se conhecer e de se encontrar, é algo além da expressão, é a subjetividade de estar em paz.
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As autoras
Agnes Analua Barbosa Idade: 20 Mora em Bauru É roteirista, astróloga, atriz, rapper, e artista de mão cheia
D ivertida e brincalhona, não se deixa abalar. Sua força reflete seu espírito e usa sua dor e amor como arma para enfrentar preconceitos, tristes amores e olhares errôneos da sociedade. Bate sempre na tecla do amor e diz que esse é o sentimento que atiça sua criatividade. Um de seus sonhos de vida é que a próxima geração de mulheres trans sejam amadas, ouvidas e valorizadas já que nessa, não está nada fácil. Mesmo assim, ela segue lutando, resistindo, gritando aos berros com a arte que corre em seu corpo.
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As autoras
Giovanna Lima Idade: 31 Mora em Curitiba Jornalista, escritora, estudante de letras e pichadora
A palavra sempre foi sua matéria-prima e em 2014 passou a utilizar o que seria o principal suporte para divulgação e publicação de seu trabalho como escritora: a rua. Assinando como GL, a autora já realizou intervenções poéticas em Curitiba, São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Montevidéu e Buenos Aires. Através da ocupação do espaço urbano, procura democratizar as expressões artísticas e tornar a poesia acessível para diferentes públicos. Distante do circuito tradicional, busca também promover experiências literárias com os elementos urbanos, tensionando as noções de cidade, humanidade, amor e arte.
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As autoras
Rosa Piva Idade: 25 Mora em Sorocaba artista multimídia e musicista
S ua fala flui externalizando energia, sua escrita a acompanha em todos os caminhos de sua natureza. A mística de seus trabalhos é, além de tudo, uma maneira de se empoderar e empoderar outras mulheres que possam ouvir e participar de suas canções, sendo tocadas por suas escritas e serem transformadas pela bela teia arquetípica que é a sintonia humana. A militância é também uma questão de importância para Rosa, pois ela busca combater injustiças, da maneira que conhece, ao interseccionar suas paixões e restabelecer conexões humanas, retornando assim às suas ancestralidades.
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As autoras
Virgínia de Oliveira Idade: 54 Mora em Indaiatuba É professora de literatura, contadora de histórias, escritora, cantora e atriz.
C onsidera que a poesia também é uma linguagem imagética, e as metáforas presentes em todos os seus trabalhos caminham para diferentes figuras. Se sente privilegiada de ter a poesia como amiga e companheira. Seus textos hoje abordam diversas temáticas femininas associadas a seu crescimento pessoal. Fica contente se puder transferir, para outra pessoa que se sinta tocada, seus elementos poéticos como um presente. Ela continua brincando de encontrar mulheres em pedrinhas de rio, em folhas secas na calçada, cheiro de bolo, caroços de manga, retornando sempre às lições da vovó Virgínia.
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As autoras
Laura Ueno Idade: 44 Mora em São Paulo Atua como psicóloga e pesquisadora
Q uando
entra em contato com a poesia e arte, é quando foge um pouco das obrigações e lembra das coisas que a tocam, que alimentam a alma. Acredita que a poesia tem muito a ver com a militância e que a literatura pode salvar a vida de uma pessoa. Ela escreve sobre sua condição de mulher, de sua ascendência, sobre seus sentimentos mais íntimos. Suas poesias são pra ela e para o(a) leitor(a), chamando as pessoas para se identificarem com seus sentimentos, para causar uma empatia. Quando fala da condição de ser amarela, essa também é uma mensagem pra quem não é amarelo. Escrever é uma forma de mostrar seu amor à verdade.
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As autoras
Pryscila Galvão Idade: 19 Mora em Bauru É estudante de relações públicas, co-fundadora do coletivo RPretas
Apesar de sentir demais, ela conta que não costuma demonstrar tanto, portanto escrever é uma maneira de demonstrar seu carinho. A afetividade em si, para ela, é uma maneira de resistência, e sente que o ativismo já não pode ser desvencilhado do que escreve. Principalmente quando fala de amor, fala dos afetos ou desafetos que teve pelo fato de ser uma mulher preta, que os são negados por um fator político. Fala não somente das dores, mas da exaltação quando esse afeto chega, da possibilidade desse sentimento vir e serem recíprocos para além dos relacionamentos amorosos, mas também para suas amigas.
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As autoras
Alina Dörzbacher Idade: 26 Mora em São Paulo É modelo, atriz e transativista com orgulho
O momento de fazer poesia depende totalmente de seu emocional. Deixa para escrever quando está se sentindo bem, sentindo-se ela mesma, pois acredita ser uma pessoa de alto astral. Quer levar cada vez mais mensagens de amor e apoio para quem lê seus textos. Admira os prazeres do presente e gosta de viver um dia de cada vez, sem querer se adiantar em nada, nem medindo tanto seu futuro. Não tem nenhum objetivo concreto com sua poesia, só quer que suas palavras toquem verdadeiramente alguém, e tem um profundo desejo de que tenha mais momentos bons em sua vida, para continuar inspirada a seguir escrevendo e existindo.
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As autoras
Natalie Mesquistas (Mess) Idade: 24 Mora em Sorocaba Musicista, compositora e artista visual
Ao seu ver, compor e escrever são espaços muito íntimos e pessoais, diz que já sentiu medo de se expor seus textos, por sentir que poderiam invadir seu espaço, mas hoje tem a coragem de mostrá-los. Mostra sua visão de que a palavra é muito poderosa, quando bem colocada, pode expandir, mas do contrário, pode limitar. É preciso saber construir e formar uma estrutura sólida através delas. Ela não acredita na poesia como forma de resistência, apesar de poder ser usada como meio de combate, ela é uma ferramenta para a existência. A arte em si é uma palavra bem colocada e a licença para poder sentir demais.
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Theia KAREN UEHARA
Sempre tive a face oculta O lado sombrio do ser Nomearam-me louca Por criar tempestade em maré Pós colisão Ficaram cicatrizes crateras Não reconhecia em mim tamanha grandeza Da potência orbital que tenho a oferecer Sou filha dos corpos celestes mãe luna despedaçada Irmã do céu e das estrelas Uma verdadeira Deusa Meus hemisférios na realidade são infinitos Se assim eu acredito Sou grata à luz cinérea por me dar permissão De medir em compassos A rotação A translação A revolução No relógio da inconstância Da vida
KAREN UEHARA, 2019