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Tenho un pes perfeitos Pt - María Solar | Gusti

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Simão Sabichão podia ser o menino mais esperto do planeta ou, pelo menos, o mais esperto do seu país ou da sua localidade. Era muito esperto, sabia tudo, sabia de tudo. Cada coisa que via chamava a sua atenção e decidia estudá-la. Sabia tudo acerca de dinossauros, mamíferos, serpentes, rios e montes, batalhas, reis, estrelas e planetas, astronautas, e sobre quase qualquer coisa que possamos imaginar. Por isso, ficou muito contente quando o chamaram para o concurso À procura do menino mais esperto do mundo. Que fixe!! Por fim, podia confirmar se ele era mesmo o menino mais esperto do planeta. Não havia tempo a perder e Simão preparou-se a rigor. Estudou matemática, história, português, biologia; estudou de tudo, estudou tudo, até já não se lembrar de mais nada que tivesse ficado por aprender. E assim, bem preparado, acorreu ao desafio. 9


Havia muitos meninos da sua escola que o esperavam, à porta, com cartazes: «Simão, estamos contigo» ou «Simão, és o mais esperto de todos», e havia também muitas outras pessoas que o aplaudiam ao entrar, gente que ele nem sequer conhecia. Também lá estava um monte de jornalistas e as câmaras de televisão. Tamanha quantidade de gente impressionava, mas Simão Sabichão não ficava nervoso com nada porque sabia tudo. Uma senhora da organização, muito simpática, acompanhou-o até ao interior do recinto e, ali, Simão conheceu, por fim, os seus dois adversários, os outros dois meninos que sabiam tudo. Fialho Espertocomoalho vinha de outra localidade. Com um ano e meio de idade já falava, com dois e meio escrevia, conversava fluentemente em seis idiomas, pintava e tocava piano, e sabia tudo acerca de dinossauros, mamíferos, serpentes, rios e montes, batalhas, reis, estrelas e planetas, astronautas, e sobre quase qualquer coisa que possamos imaginar. A outra adversária era Iasmin Teligente e vinha de outra escola. Aos dois anos já sabia somar e subtrair, aos três fazia multiplicações, e aos três e meio calculava raízes quadradas. Falava várias línguas, construía programas informáticos impressionantes e sabia tudo acerca de dinossauros, mamíferos, serpentes, rios e montes, batalhas, 11


reis, estrelas e planetas, astronautas, e sobre quase qualquer coisa que possamos imaginar. O concurso estava muito renhido. O público animava uns e outros, entusiasmado. O apresentador começou a falar e pediu-lhes que, um a um, metessem a mão numa urna cujo interior continha muitos envelopes, e que escolhessem um à sorte. Neles estavam escritos os temas sobre os quais incidiam as perguntas do concurso que se ia realizar no dia seguinte, de forma que cada concorrente teria vinte e quatro horas para preparar muito bem o tema que lhe calhasse. Tranquila e confiante, Iasmin Teligente introduziu a mão na urna, retirou um sobrescrito e deu-o ao apresentador. – Cálculo!! – anunciou ele. Iasmin saltou de alegria, era infalível a matemática. Então Simão pensou que ele era capaz de fazer qualquer operação quase instantaneamente e sem errar, e que ele seria o melhor, caso lhe calhasse cálculo. A seguir foi a vez de Fialho Espertocomoalho tirar um envelope, e ele fê-lo sem pestanejar. – História do Antigo Egito!! – gritou o apresentador. Fialho pulou várias vezes de felicidade, pois sabia tudo sobre a civilização do Antigo Egito e das pirâmides. E Simão pensou que também seria o melhor nesse tema porque ninguém sabia mais do que ele sobre o Egito. 12


Foi então a vez de Simão tirar um sobrescrito. Meteu lá a mão sem que lhe tremesse um só dedo, e escolheu um deles com determinação. – Pés!! – anunciou o apresentador. Os olhos de Simão até lhe saíram das órbitas, de tão abertos que ficaram. – Pééés?!! – perguntou surpreendido. – Sim, pés!! – respondeu o apresentador enquanto lhe mostrava o papel que continha o interior do envelope onde estava escrito:

«TEMA: PÉS». Estava bem grande e bem claro. E então Simão não saltou nem pulou, e o público também não aplaudiu. Pés. Olhou para os seus sapatos. Que haveria para saber sobre os pés? Fez um gesto ao apresentador para confirmar ter entendido o que ele lhe dissera, e foi para casa abatido, triste e desanimado. Estavam tão lá em baixo, tão no fundo, no final, no extremo e quase sempre enfiados nos sapatos que agora reconhecia que nunca tinha olhado para eles. Pouco ou quase nada sabia sobre os pés. Tinha como prazo para se preparar até às nove da manhã do dia seguinte, mas não lhe ocorria qual o interesse 13


que os pés podiam ter. Nem sequer sabia por onde começar a estudar. Quando chegou a casa deixou-se cair, triste, em cima da cama, até que a mãe lá entrou com algo nas mãos e se sentou junto dele. – Às vezes, meu querido – disse acariciando-lhe o cabelo –, as coisas que estão mais perto são aquelas em que menos reparamos. Mas não te preocupes, trago-te aqui um livro sobre pés. Ena, Simão nunca tinha visto um livro sobre pés, não conhecia nenhuma obra sobre esse tema. Esta intitulava-se:

Tenho uns pés perfeitos. Assim, sem perder um só minuto, descalçou-se e começou a ler e a aprender o mais possível sobre os pés, aqueles perfeitos desconhecidos.

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