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Smara Pt - Paula Carballeira / Carole Hénaff

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Ilustracões de


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Porque é que fui a Smara

izem que o meu pai era um bom repórter. Eu só sei que esperava que ele voltasse das suas viagens para me contar as histórias dos lugares que tinha conhecido. Mas o meu pai não gostava de contos, preferia falar-me das paisagens, das gentes, de como era grande o mundo. Ao fazer onze anos, pedi-lhe que me levasse com ele numa viagem. O meu pai sorriu, afagou-me a cabeça e ficou com o olhar fixo no horizonte, como que a escolher num mapa invisível o lugar aonde me levaria. Suponho que depois de baralhar as cartas do destino, decidiu que o acompanharia até ao grande deserto do Sara. Lembro-me do avião. Lembro-me da sensação de pesarmos demasiado para nos mantermos no ar. Lembro-me da comida fria. Lembrome de que não havia outra criança para quem olhar para ver se tinha tanto medo como eu. O meu pai tinha adormecido. Todos os viajantes pareciam ter adormecido e o silêncio ainda me assustava mais. Quando aterrámos, eu continuava a temer que algum motor se incendiasse ou que nos espetássemos contra alguma árvore gigantesca, dessas que só existem nos sonhos, mas não aconteceu nada disso. Descemos calados como mortos. Estava a anoitecer. Enquanto esperávamos por alguém que nos viesse buscar, o céu encheu-se de estrelas, foram aparecendo como se a Lua tivesse espirrado por todo o firmamento. –Olha, pai, a Lua! O meu pai sorriu e voltou a afagar-me a cabeça. À nossa volta, homens de uniforme miravam-nos de cima a baixo, cravavam-nos os

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seus olhos escuros. Eles não sorriam. Não simpatizavam connosco. Passado um bocado chegou um carro com duas pessoas, aproximaram-se do meu pai, deram-lhe a mão e olharam-me de esguelha. Entrámos no carro e andámos até chegar a Smara. Não me lembro que impressão me causou Smara de noite, eu só tinha olhos para aquela Lua gigantesca. Gostava do nome: Smara! Ao acordar, na manhã seguinte, tudo cheirava a cravinho e a fumo, a perfume de mulher.

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Porque é que fiquei sozinha com a Avó Ugago

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nquanto o meu pai fazia o seu trabalho, eu aguardava-o em

Smara, ao cuidado da velha Ugago. Todos os meninos e meninas de Smara lhe chamavam Avó Ugago, e eu também passei a chamá-la assim, apesar de nos parecermos tanto como um ovo e uma banana. A Avó Ugago dava-nos de comer e ralhava-nos se aborrecíamos os mais velhos, mas à noite era a única que cantava e nos contava histórias para adormecermos mais depressa. Agora já não me lembro de nenhuma dessas histórias porque eu era dos primeirinhos a adormecer, porém, gostava do som da sua voz quando o sono me fechava os olhos. A voz da Avó Ugago, as corridas pelas dunas de pedra e areia, os desenhos que se faziam na pele... Não entendia quase nada; só que me deixavam brincar com eles e comer da sua comida e rir com as mulheres que teciam e cantar e dançar e montar os camelos. Lembro-me de tudo, como se o tempo não tivesse passado. Apesar disso, do que mais me lembro é da minha derradeira noite com a Avó Ugago. Dois dias antes do nosso regresso, a Avó Ugago pediu-nos que a deixássemos sozinha, que procurássemos outro lugar para dormir. Olhámo-nos com estranheza. As meninas mais velhas foram empurrando os mais pequenos, até só ficar eu na tenda com a Avó. Era já muito tarde, noite de Lua Nova. Eu não sabia onde estava o meu pai. – Avó Ugago –disse-lhe– não tenho para onde ir.

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– Então fica, meu menino, lamento que hoje vás adormecer com os queixumes de uma velha. Mas eu não adormeci. Durante toda a noite escutei as histórias da Avó Ugago e guardei-as até hoje sem esquecer uma só palavra. O meu pai veio buscar-me de manhã e o nosso avião descolou dois dias mais tarde, depois do funeral da Avó Ugago.

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Porque é que a Avó Ugago me contou velhas histórias

isse a Avó Ugago: «Amanhã morro, pequeno. Ouvi o meu nome nos ganidos dos cães que rondam Smara. Ficaria sozinha esta noite, a pensar nos caminhos que a morte escolhe para chegar até nós, mas aqui estás tu, um estrangeiro no deserto, um miúdo. Se calhar é coisa do destino que sejas precisamente tu quem escuta as minhas histórias. Deves saber que prometi à morte esperá-la a contar as histórias verdadeiras que só a ela podem interessar. Serão contos de magia, antigas lendas, estrelas que fogem na noite dos tempos. Contá-las-ia ao chá ou à Lua se não estivesses tu ao meu lado. E, claro, guardarei a melhor história para o fim, quando sentir os passos da morte a aproximarem-se da minha porta. Tu não sabes nada acerca do nosso povo. Chamavam-nos Filhos das Nuvens por andarmos sempre a perseguir qualquer nuvem que aparecesse no céu azul. Onde havia nuvens, havia água para os nossos camelos. Agora vivemos aqui, mas antes tínhamos o deserto inteiro para percorrer, e a água é o melhor tesouro do deserto. Água salgada para os camelos, para as cabras e para os burros; água doce para nós. Água. Eu guardo os segredo do Sara e vou contar-tos a ti, que tens os olhos claros, que tens a pele branca, que és novo ao passo que eu já sou velha. Sei coisas que te farão rir, coisas que te farão chorar, coisas que não te deixarão dormir. Se queres ser meu neto, ouve e cala-te. Numa noite como esta, a calma e o silêncio farão sentido. Vou dizer-te porque é que morro

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amanhã. Soube-o quando nos obrigaram a viver nesta terra de moscas e de corvos. Serei comida pelos cães selvagens, mas antes quero que tu deixes de ser um estrangeiro para mim e para este território que estás a pisar. Para mim e para Smara.»

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4 Porque é que a Avó Ugago teve que deixar a antiga Smara

isse a Avó Ugago: «A antiga Smara era uma cidade fantasma no meio do deserto. Os habitantes do Sara eram os únicos que a conseguiam encontrar. Ordenávamos ao vento que provocasse uma tempestade de areia cada vez que alguém passava junto dela para lhe tornar impossível divisá-la. Assim pensávamos estar protegidos. Naquele tempo, eu era uma feiticeira poderosa. O meu bisavô, o pastor Ibrahim, que ainda está vivo apesar de eu já ser velha, conhecia todos os segredos da Terra e do céu. Eu também aprendi os da água e os do fogo. Não tinha rival em África. Vivíamos bem em Smara... Até que, uma noite, choveu. As pessoas saíram das suas casas para sentirem as pingas na cara, como um milagre. As crianças, que nunca tinham visto chover, cantavam: “Aió-aioó, cai água do céu, cai água do céu. Aió-aioó”. Mas eu sabia que essa chuva não era boa. A água cheirava a enxofre e as pingas eram leves e pegajosas como moscas. Duas semanas mais tarde, as nuvens cinzentas voltaram a Smara. Avisei para ninguém sair à rua e todos confiaram em mim. Fora das casas só ficaram os cães, que uivaram maldições assim que a chuva os tocou e se tornaram selvagens.

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Desde então, nenhum sariano quer ter um cão ao seu lado. Também, desde aquela altura, os cães me odeiam por não os ter avisado e esperam poder saltar sobre mim a qualquer momento. Duas semanas depois voltou a chover e as pessoas começaram a ter medo. Choveu durante dias inteiros sem que ninguém se atrevesse a pôr sequer uma mão de fora. Quando as nuvens desapareciam, o céu tingia-se do mesmo azul de sempre, como se fosse um pesadelo. Eu não encontrava resposta para algo assim. Então chegou a Smara um estrangeiro. Não era muito diferente dos outros estrangeiros: a pele mais escura do que a tua, mais branca do que a minha, a roupa cheia de pó, os olhos semicerrados, a boca seca. Era um homem branco todo vestido de negro. Tinha um modo de caminhar desafiador, como se marcasse o terreno a cada pegada. Quis falar com os nossos chefes, mas não havia chefes em Smara. Reuniu-nos a todos e disse: – Sou um mago, um feiticeiro do Norte. Farei com que chova até enlouquecerem. A única coisa que vos pode salvar é saírem desta terra. Smara vai ser para mim e para a minha gente. Gostamos de Smara. Gostamos do seu nome. As pessoas olhavam para mim emudecidas. Por isso vi-me obrigada a replicar. – Pois eu sou Ugago. Fomos nós que demos o nome a Smara. No dia em que eu sair daqui, ficará marcada a data da minha morte. Se tu trouxeres a chuva, eu trarei o sol. Ficou combinado travarmos, eu e ele, uma luta entre feiticeiros que decidisse quem ficava em Smara. As regras eram ditadas pela tradição: cada feiticeiro tinha direito a três transformações, duas perguntas e uma invocação a qualquer espírito da natureza.

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No dia escolhido, brilhava o sol em Smara. O feiticeiro do Norte chegou antes do meio-dia, todo vestido de negro. Pôs-se de costas para o sol, olhou para mim, e logo, sem cerimónias nem sinais, se transformou numa enorme serpente que avançou em direcção a mim desenhando «esses» na areia. Claro que não passou muito tempo até eu me transformar em mangusto para apertar a serpente entre as minhas unhas e tentar asfixiá-la. A serpente converteu-se em burro e senti os seus coices na cara, mas eu transformei-me em rede e apanhei o burro. Desta vez, o burro tornou-se lume para queimar a rede e eu só tive que me transformar em fonte para apagar o lume com a água que saía da minha boca.

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O povo de Smara gritava o meu nome quando o feiticeiro do Norte se inclinou e reconheceu que tinha perdido a primeira batalha. Eu não fiz gesto nenhum. Sentámo-nos no chão, um em frente ao outro, e passámos à fase das perguntas. – Qual é a maior tristeza? –perguntei ao feiticeiro. – Tristezas há muitas, mas a maior de todas é a que está para chegar. E era muito pertinente a sua resposta. – Diz-me tu agora, Ugago. Qual é a pior morte? – Sem dúvida, a morte mais lenta –respondi com calma. Até aqui, fácil. – Quem é o assassino mais cruel? –perguntei. – A criança que mata pela primeira vez um animal, um escorpião, e a ouve como se esborrachar-se sob o seu pé sem soltar uma lágrima. O silêncio tornou-se denso em Smara. O feiticeiro do Norte reservava-me a sua melhor pergunta. – Diz-me, Ugago, como se chamava a mulher que lavou os pés a Jesus Cristo? Eu, que sei todos os segredos da natureza; eu, que estudei desde pequena os livros da biblioteca perdida de Alexandria; eu, que achava quase completa a minha sabedoria, ainda hoje não sei a resposta. – Não sei. Lamento por mim, estrangeiro. Do vosso Jesus Cristo só sei o seu nome. Um murmúrio de desconcerto fez coro com a minha derrota. O feiticeiro do Norte vinha de longe, de outras terras com gentes e tradições que nós não podíamos imaginar, e nesse momento soube que o estrangeiro guardaria, com toda a certeza, segredos de magia negra que ocultariam a poderosa luz do Sara. – Muito bem –disse o feiticeiro com um sorriso–. Passemos ao seguinte: chamemos os nossos aliados. Reclamo a presença de Morozko, o

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C O L E C Ç Ã O

Se algum dia fores ao deserto, procura a cidade que cheira a cravinho e a fumo, a perfume de mulher. As suas noites estão forradas de estrelas e guardadas por dunas de areia fina. Se algum dia fores ao deserto pergunta pela Avó Ugago, a dos cabelos brancos. Se tiveres a sorte de a encontrar, pede-lhe para te contar as histórias que guarda na memória. Ela sabe os contos mais belos mas também os mais arrepiantes. Ela guarda os segredos do Sara e vais querer ouvir a sua voz durante toda a noite: ali, na cidade de Smara.


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