16
2. A negação da morte
Há uns anos, uma paciente idosa foi hospitalizada quando, depois de vê-la colapsar, um funcionário do lar onde estava internada chamou a ambulância. Ela tinha oitenta e muitos anos e era uma frágil viúva. A obsessão da medicina com o envelhecimento atingira então o seu auge e, talvez por essa razão, ela foi admitida numa unidade de cuidados coronários, onde foi brindada com os mais sofisticados serviços de tratamento possíveis, incluindo uma terapia fibrinolítica, aplicada seguindo as mais inovadoras práticas clínicas. Ela recuperou e teve alta médica uma semana depois. Quando a visitei, encontrei-a grata pelos serviços que lhe haviam sido prestados, mas profundamente chocada com a quantidade de tratamentos que ela entendia serem completamente inapropriados. Ela explicou-me que não apenas o seu marido, mas quase todos os seus amigos e conhecidos tinham morrido, que a sua fragilidade física a impedia de fazer quase todas as coisas que ela anteriormente apreciara, e que por isso não tencionava viver por muito mais tempo. Ninguém no hospital lhe perguntara nada sobre qualquer um destes assuntos ou
17
tentara descobrir se os eficazes, e por isso recomendados, tratamentos para a sua condição clínica seriam os mais apropriados para o seu caso pessoal.5 Ela morreu três semanas depois, durante o sono. Os avultados custos dos seus tratamentos hospitalares revelaram-se fúteis, angustiantes e desnecessários. Como médica de família, tenho consciência de que falho a muitos dos meus pacientes – especialmente àqueles que estão às portas da morte. Por que motivo tão poucos dos nossos pacientes morrem daquilo que poderia ser chamado ou descrito como uma boa morte? O que é, aliás, uma boa morte? Que maneira de morrer queremos para nós próprios e para aqueles que amamos? Falando com amigos e colegas, descubro que muita gente é capaz de descrever o seu envolvimento numa morte em particular, na qual a pessoa agonizante aparenta controlar e gerir todo o processo, e assim morrer com uma dignidade e calma que levam a que toda a gente ao redor, incluindo o médico, se sinta privilegiada e, em certo sentido, enriquecida por ter participado na história. Mas o que fascina é a raridade destas mortes. Imensas pessoas morrem de maneira torpe e indigna, sumidas no pânico ou no sofrimento, ou em ambos, imprimindo nos que permanecem vivos, com o médico novamente aqui incluído, sentimentos de raiva, culpa e pena. Que corre mal? Em A Fortunate Man, John Berger enfatizou a centralidade do papel do médico de família na relação com a morte.
18
O médico é aquele que é íntimo da morte. Quando chamamos um médico, pedimos-lhe que nos alivie e livre do nosso sofrimento, mas, caso ele não nos consiga curar, pedimos-lhe que testemunhe a nossa morte. A vantagem de ser testemunha deve-se a ter visto tantos outros morrerem […] Ele é o intermediário vivo entre nós e a vasta morte. Ele pertence-nos e já pertenceu a outros. E o árduo, embora real, conforto que esses outros nos oferecem através do médico é ainda a fraternidade.6
Porém, ao longo dos últimos cem anos, os notáveis progressos da medicina baseada na evidência permitiram que os médicos se afastassem deste tradicional papel de «íntimo da morte». Aos poucos, o desafio tecnológico de prolongar a vida ganhou ascendência sobre a qualidade da vida vivida. Através de perigosos e insidiosos processos, esquecemo-nos de que a maneira como vivemos importa mais do que a maneira como morremos. Perversamente, em nenhuma outra parte é isto mais claro do que na assistência aos moribundos. A soberba da medicina baseada na evidência alimenta as sempre crescentes expectativas públicas de atingir uma perfeita saúde e consistente longevidade, e estes processos são vorazmente explorados tanto por jornalistas como por políticos, e ainda mais pela indústria farmacêutica. O objetivo da assistência médica, assim como o critério pelo qual avaliamos essa assistência, passou a ser o simples prolongar da vida humana. A toda a hora falamos de mortes evitáveis – como se a morte pudesse alguma vez ser prevenida, em vez de adiada. 7
19
Dedicamo-nos a atividades e restrições supondo que nos farão viver mais tempo,8 e nunca se debate sobre quão oportunas são certas mortes. As práticas dos serviços de saúde são cada vez mais ditadas por protocolos empíricos, cuja natureza contribui para que os pacientes sejam encarados como unidades padronizadas de doença. Tais protocolos não têm meio de acomodar a história singular de cada indivíduo – os seus valores e aspirações particulares, as prioridades de cada pessoa e o modo como essas prioridades vão mudando com a passagem do tempo. A consequência direta disto é que uma intervenção empírica racional com eficácia comprovada pode revelar-se desajustada, desnecessária e inútil. As sociedades ocidentais coincidem com aquilo que Philip Larkin descreveu como a «dispendiosa aversão dos olhos à morte»9. O custo é monetário, mas atinge também a nossa experiência de viver e de morrer. Não obstante as dispendiosas pretensões da medicina, a inevitável morte não deixa de marcar o fim da vida, sendo muitas vezes imprevisível, arbitrária e injusta. No entanto, é cada vez mais vista como um simples fracasso da medicina e dos médicos. A medicina não pode prometer o alívio de todos os desconfortos e padecimentos corporais, ainda que a nossa intolerância à dor e ao desconforto cresçam de dia para dia e nos convençamos de que temos direito a uma saúde perfeita. Cientistas e médicos, mas também jornalistas e políticos, têm uma enorme responsabilidade por perpetuarem
20
estas perigosas ilusões, as quais só desmoralizam, estigmatizam e desiludem tanto os pacientes em agonia como aqueles que sofrem de doenças crónicas que são tratáveis, mas não curáveis. Gerando um clima de culpabilização das vítimas, a incessante ênfase nos fatores de risco para doenças decorrentes do estilo de vida agrega sentimentos de culpa à angústia e ao terror sofridos por aqueles que padecem de doenças graves. Susan Sontag nota que, nos filmes de Ingmar Bergman, a justiça – essa noção de que as personagens têm o que «merecem» – está rigorosamente excluída.10 Isto pode explicar o carácter sombrio de alguns dos seus filmes, mas também reforça o seu poder e autenticidade. Todos tentamos atribuir sentido às nossas vidas, construindo uma narrativa coerente fundada em noções de causa e efeito. Contamos aos outros e a nós mesmos que determinada coisa nos aconteceu porque fizemos isto ou porque nos fizeram aquilo, mas a ligação entre causa e efeito é muitas vezes muito mais ténue do que gostamos de imaginar.11 A vigente onda de desproporcionadas alegações acerca do poder da medicina preventiva integra-se no mesmo fenómeno.12 Queremos acreditar que se nos portarmos bem, comermos a comida certa em moderação, nos exercitarmos regularmente e por aí em diante, seremos premiados com uma longa e saudável existência. Mas como Ingmar Bergman nos tenta mostrar, tal não corresponde necessariamente à verdade. Recorda Arthur Kleinman:
21
O cancro é um perturbador aviso do inexorável núcleo de imprevisibilidade e de incerteza e de injustiça – tudo questões de valor – da condição humana.13
A contemporânea negação da morte impõe fardos adicionais aos médicos e aos pacientes. Sentindo-se culpados por cada morte, os médicos são instigados por sentimentos de culpa e de mal-estar para lutarem cada vez mais pelo prolongar da vida de seus pacientes, tantas vezes sacrificando a sua qualidade. Um estudo sobre a assistência prestada em unidades de cuidados intensivos, a pacientes americanos com cancro e com demência em estado avançado, revelou que em 24% dos pacientes se tentou uma reanimação cardiopulmonar, e que 55% dos pacientes com demência morreram enquanto usavam tubos alimentares.14 O resultado disto é que «agora é quase impossível morrer com dignidade nos Estados Unidos a não ser que a pessoa seja extremamente pobre»15. Um dos mais desafortunados encontros da medicina moderna é entre o frágil e indefeso homem idoso, que se acerca do final da vida, e o ágil jovem estagiário no início da carreira.16
Murray e alguns colegas aplicaram técnicas de investigação qualitativa para comparar as experiências de morrer nos países mais ricos e nos mais pobres, e descobriram que, enquanto os pacientes no Quénia manifestavam o desejo de morrer com o intuito de se
22
libertarem da dor, os pacientes na Escócia expressavam uma vontade de morrer motivada pelo sofrimento trazido pelos efeitos colaterais dos tratamentos médicos.17 Aqui parece residir uma terrível acusação contra o atendimento médico moderno. Christopher Ricks descreveu Samuel Beckett como: […] o grande escritor de uma era que criou novas possibilidades e impossibilidades mesmo em questões como a morte. De uma era que dilatou a longevidade, até a ter transformado tanto numa bênção como num pesadelo.18
Dá a sensação de que a população em geral tem cada vez mais consciência deste pesadelo, particularmente à medida que envelhece. Essa consciência tem-se vindo a manifestar através da entusiástica adoção de diretivas antecipadas e do testamento vital. Argumentei que a arrogância e a ambição das ciências biomédicas são largamente responsáveis pela perigosa e danosa negação da morte que se instalou no seio das sociedades contemporâneas. Contudo, depois de visitar o novo edifício projetado por Daniel Libeskind para o Museu Judaico, em Berlim, e de estar na fria e vazia obscuridade da Torre do Holocausto, comecei a ponderar se a atrocidade genocida, responsável por tantas mortes neste século que acaba de findar, não terá contribuído para esta nossa aversão à morte, se as causas desta rejeição não seriam tanto culturais como científicas.
23
3. A dádiva da morte
A sociedade contemporânea parece ter-se esquecido do valor da morte, da indissolúvel ligação da morte à vida, da morte como parte da vida. O físico do século XVII, Sir Thomas Browne, deixou muito claro que: […] somos mais felizes com a morte do que seríamos sem ela.19
Paradoxalmente, é a morte que nos confere a passagem do tempo. Sem a morte, seríamos engolidos por uma eterna desordem, não teríamos razões para agir ou até mesmo para viver. A 1 de agosto de 1400, Margherita, mulher do humanista boémio Johannes von Saaz, morreu durante o parto. No dia seguinte, von Saaz começou a escrever a sua obra-prima, a peça O lavrador e a boémia, descrita pelo próprio como um ataque à inevitabilidade da morte.20 A peça apresenta um diálogo entre a morte e um lavrador cuja amada mulher acaba de morrer. Entre repetitivas lamúrias, o lavrador dispara contra a Morte:
25
Tu, a mais carniceira das criaturas, a mais terrível assassina, vingativa destruidora da carne, morte, maldita sejas.
Em resposta, a Morte calma e sistematicamente rebate a posição de Sir Thomas Browne: Reflete por um momento sobre a tua vaidade e insensatez; remexe no empobrecido solo da tua razão e descobrirás a verdade: se, desde que o primeiro homem foi moldado em argila, não tivéssemos colhido os homens da terra, e os animais dos desertos e das selvas, e os peixes das águas profundas, os céus encher-se-iam de moscas e ninguém as aguentaria. […] Nada sabes sobre o funcionamento da natureza; nada entendeste sobre a maneira como as coisas se processam; nada sabes de como o mundo opera através da transformação e da decomposição […]
Sem a morte, não existe tempo, nem crescimento, nem mudança. No poema «O senhor Cogito e a longevidade», Zbigniew Herbert escreve sobre o medo da imortalidade. O Senhor Cogito é o alter ego de Herbert: até ao fim queria o Senhor Cogito cantar a beleza do efémero por isso não toma Gelée Royale não traga elixires não faz pacto com Mefisto
26
com o cuidado de bom jardineiro cultiva as rugas no rosto humildemente aceita o cálcio que se lhe deposita nas veias deleita-se com seus lapsos de memória atormentava-o a memória a imortalidade desde a infância o deixava num estado de trémulo medo porquê deveriam os deuses ser invejados? – pelas correntes celestiais – por uma ruinosa administração – por uma insaciada luxúria – por um tremendo bocejo.21
A morte é rejeitada e temida porque põe fim à felicidade humana, mas também acaba com o medo, com a dor e com o sofrimento: O Tempo é a misericórdia da Eternidade; sem a celeridade do Tempo Que é a mais veloz de todas as coisas: tudo seria eterno tormento.22
E, como acrescenta Christopher Ricks: A morte é, entre todas as coisas, a misericórdia do tempo […].23
Não é por acaso que a contemporânea negação da morte se faz acompanhar por uma valorização da extensão
27