1 Está-se bem aqui. Finalmente. É isso que têm as alturas: cem metros de vidro vertical. O ar é ar num estado superior de pureza, e por isso, parece ainda mais duro, em alguns momentos quase compacto. Flutua no ar um certo cheiro a loja de ferragens. A camada de barulho pesa como fuligem e mantém-se latente, ali em baixo, como um olho de petróleo finíssimo e estaladiço, uma espécie de presente preto brilhante. Não passa um único pássaro. Na verdade, eles também têm o seu próprio estrato, entre nós e os nossos, chamemos-lhes assim, deuses. Um vazio habitável entre as linhas mais elevadas do pentagrama. Neste momento, sou e não sou. Talvez só me mostre, me manifeste como uma mácula discretamente incómoda nuns óculos, uma sombra inadequada nesta zona chill out. Inspiro, obrigo o ar a ser minha propriedade ao longo dos meus comportamentos animados. Viva, ainda desprendo um certo calor e devo ser muito mole por dentro. Por fora sou-o mais do que julgo, quase um produto de pastelaria, um objecto de cera morna envernizado, atraente como uma primeira linha. Cada célula reproduz-se, alheia a mim, e ao mesmo tempo reproduz-me, converte-me numa entidade oportuna. Se todas essas partes 11
microscópicas deixassem de trabalhar, nem que fosse por um segundo… As entidades indivisíveis também merecem um momento de descanso, como eu, como todos os génios do país. Trabalhar com eles obriga-me a comparar-me a eles, a ser como eles dentro desta bela cerca de vidro, um peixinho vermelho impessoal. Afavelmente decorativo. Alguns restaurantes põem em cada mesa um desses peixes num aquário minúsculo. São decorativos, sim. Relaxantes. Estão bem vivos, e, contudo, há quem os utilize nos seus habitáculos como cinzeiro. Os pobres animaizinhos morrem intoxicados pela química biocida das beatas. Mas não passam disso, não é? Objectos decorativos. Vidas vãs. Que ar tão puro! Há pouca humidade e isso é bom. A humidade tem a mania de penetrar nas partes mais vulneráveis do corpo. Não a tolero. Não consigo conviver com ela, não sei fazê-lo, mete-se em recantos imprevistos do meu interior, como uma lava pegajosa e gelada, e ocupa espaços ignotos que, ao tornarem-se-me presentes, me incomodam. Há partes do corpo, como móveis demasiado grandes, que uma pessoa não sabe encarar. Não parecem desmontáveis e extraí-las seria demasiado perigoso. De certeza que têm a sua função, alguém deve tê-las incrustado em mim, mas não posso com elas e a única maneira de escapar à sua influência é ignorá-las. Atravessar o corredor com os olhos fechados e não me deparar com a sua exuberância maciça. Avançar com os olhos fechados, que graça! Não tinha pensado nos olhos. Os pássaros voam com os olhos abertos e, se se deixam levar, é em sólidas correntes de ar. Suspensos e, ao mesmo tempo, articulados, como marionetas. Podem permitir-se olhar. Mas se um objecto cai… se, por exemplo, o passarinho cai do ninho, cai com os olhos abertos? Os pássaros têm pálpebras? Ou canais 12
lacrimais de idosa frágil que gotejam sem parar? Bem vistas as coisas, não são pálpebras humanas. Talvez se pareçam mais com os painéis japoneses ou com as persianas das janelas dos aviões e sejam capazes de articulá-las tão ou mais depressa do que nós, como relâmpagos. Agora pergunto-me se abrirei os olhos. Ou se eles se abrirão sozinhos. O meu caso não é o de uma queda qualquer. Quero dizer que não será acidental, haverá uma intenção, a minha vontade intencional, uma ordem já escrita. Quando o momento chegar será apenas questão de executá-la. Os olhos são antecipatórios, exploradores do mundo, e depois o corpo responde. Que sentido faz preparar o corpo para a morte segundos antes de que aconteça? A morte apanha o corpo como o amor. Então, que o apanhe desprevenido.
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2 «Quando fores mais velha vais perceber», não se cansava de repetir a minha mãe. Não devo ter crescido o suficiente. E até tendo em conta o esforço que fazia para beber os copos de leite, uns copos altos e largos que pareciam bocas de animais, grandes como a minha cara, e que me deixavam a testa marcada com uma bandolete vermelha no lugar onde encostava o bordo de vidro. Cabia neles tanto leite que a minha mãe tinha sempre de abrir outra garrafa para acabar de enchê-los até cima, até ao bordo. «Bebe, bebe como um gatinho», dizia. «Faz como um gatinho, deita a linguinha de fora e lambe o leitinho.» Tantos e tantos litros de leite e eu toda branca por dentro, cheia de natas do leite por dentro, coladas a mim como lençóis gordurosos e molhados, agarradas às minhas paredes, ao reverso da minha pele. Os tanques de leite da minha mãe anulavam-me, tornavam-me menos pessoa, ainda menos menina. Era como ser metade menina metade tanque de leite, uma espécie de depósito saturado. Quando acabava de beber nem sequer me atrevia a mexer-me, sentia o leite a dançar no meu estômago. Não, a dançar não, a dar sacudidelas perigosamente como a água num balde submetido a um breve e precipitado trajecto. Depois descia como a água pelos canos da sanita do vizinho. Tal e qual, mas dentro de mim. Sentia como 14
o leite arrastava os restos do jantar e deixava tudo novamente pintado, limpo mas pegajoso. Essa visão era tão potente que me obrigava a ficar quieta, imóvel, com uma respiração cada vez mais superficial. Então, só podia fazer uma coisa para suportar aquele momento: ler. Sentava-me na única cadeira do meu quarto. A escrivaninha era de pinho e tinha um tampo branco à prova de meninas. «É para fazeres os trabalhos de casa», sublinhou a minha mãe assim que o carpinteiro a montou. «Nem pintar, nem recortar, nem sequer usar o x-acto. Já agora, onde é que está o x-acto? Não devia estar aqui? No porta-lápis? Com as tesouras? Procura o x-acto e deixa-o no seu lugar.» Com as tesouras. E não percebo, continuo sem perceber. Não há motivo. Situei-me num limite, vivo nesse limite, espero o momento de abandonar o limite, a minha casa provisória. Na verdade, provisória como todas as casas ou como um corpo. Não tomo os medicamentos. A química é uma rédea que nos retém, que nos deixa avançar a um passo inofensivo. Implica uma redenção antecipada, afasta do pecado ou talvez só ensine a chamar pecado ao exercício da nossa liberdade conseguida num estado de paz – prévia à morte, claro. A minha mãe toma medicamentos, o meu pai toma medicamentos, a minha irmã, no início não, mas depois sim, cresceu e entendeu-o. Tomar medicamentos é uma solução provisória constante, tal como a lâmpada de poucos watts pendurada no tecto do hall de entrada. Vinte anos de hall de entrada escuro, e que pouco custa habituar-se a ver tão pouco! «Mandámos pôr lâmpadas de halogéneo em toda a casa e esquecemo-nos do hall de entrada!» Risos. «Mas o melhor de tudo é que só ontem é que nos apercebemos disso!» Tinham passado vinte anos, vinte anos a pintar os lábios três vezes por dia a meio centímetro 15
do espelho, vinte anos a procurar as chaves com os dedos entorpecidos. Eu achava que aquilo era normal, quando somos pequenos a normalidade circunscreve-se à nossa casa. Essa é a normalidade que nos molda. Crescemos ao abrigo dos seus padrões, adquirimos o seu corpo, e o mesmo acontece com o cérebro, ávido e plástico como a argila. Depois os anos passam, a cegueira greta-se após muitas marteladas, quando já estamos presos nesse núcleo compacto que nos custou noventa por cento de tudo de bom que tínhamos para perfurar. Saiam daqui de dentro agora se podem! E, de passagem, sejam felizes como toda a gente. Medicação: que remédio. Mas não o meu, é melhor avançar, selvagem, até ao limite e decidir. Passado um tempo acabamos por descobrir que o limite se deixa viver, vertical como nunca, tocando ao de leve no nada, e que não só é possível viver nele, como também se pode crescer nele de diversas maneiras. Se aquilo de que se trata é de sobreviver, talvez a resistência seja a única forma de viver com intensidade. É agora, nesse limite, que me sinto viva, viva como nunca.
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3 Medidas de segurança em todo o lado. Mais do que pessoas. Mais do que ratos. Medidas reproduzidas sem nenhuma lógica nem sentido. Medidas de segurança concretizadas em corrimões, vidros duplos à prova de bala, sinais de passagem proibida, cintos, barreiras, capacetes, botões. Medidas activas ou passivas, vai dar ao mesmo. Podem ser joelheiras, tapetes de espuma, fechos, preservativos, polícia de choque, futebol. Também medicamentos, subsídios de desemprego. Medidas evidentes ou subtis. Travões electromagnéticos, prisões, bandeirolas, programas de integração social, andaimes, válvulas, revestimentos ignífugos, arneses e mosquetões. E outra vez medicamentos, gorres de cop1, acompanhantes, produtos magros. Medicamentos, medicamentos e medicamentos. Um suicida com sucesso é hoje um herói. O mundo está cheio de pessoas sem escrúpulos formadas em primeiros socorros, estão em todo o lado, discretas e cinzentas como pombas, agressivas como mães. Desafiam a morte alheia com massa gens cardíacas e manobras precisas de Heimlich. São um bando Chapéu de palha utilizado como um capacete para proteger as crianças quando começam a andar. Foi inventado por um cesteiro catalão no século xix. (N.T.) 1
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de ladrões, uma pessoa já nem pode enfiar um caroço de azeitona pelo tubo errado, obrigam-na logo a cuspi-lo à força, nem que tenham de lhe partir as costelas e perfurar um pulmão, a pessoa transformada em vómito de dry martini e o caroço de azeitona projectado para um canto como um troféu. Morrer num canto seria bom, deviam poder arrendar-se cantos onde morrer bem, sem interferências, sem garrafas de oxigénio autopropulsadas a caírem inesperadamente em cima de nós, mesmo no último momento, onde as medidas de segurança nos garantissem, nos assegurassem uma morte como deve ser. Na verdade, as medidas de segurança são medidas de defesa do exterior, este Torturador Supremo. O mundo descarrega a sua toxicidade dentro da minha medula todos os dias, assimila-me com as suas infiltrações e não posso permiti-lo, não me posso permitir partilhar. Malogrados medicamentos. E isso tendo em conta que as cápsulas, vermelhas e amarelas, me atraem como flores. São um néctar de má vida, uma beberagem nutritiva. Quem sou eu para recusá-la? A minha irmã diz que é feliz. Feliz! Essa palavra já tinha limo quando eu nasci. Quando diz «feliz» – «Sou muito feliz», diz – mostra-me os dentes. Estes observam-me como olhos, amarelados como o branco dos olhos dos velhos, mesmo tendo em conta que deixou o café e o tabaco antes de fazer vinte anos. Mas o rooibos e o ioga também são viciantes, acidificantes e envelhecedores e viciantes. As coisas saudáveis matam muito mais lentamente, primeiro deixam-nos acreditar no seu amor, obrigam-nos à sua intensidade esmorecida. Somos forçados à palidez durante décadas, numa das quais nos costumamos reproduzir. Que jogada de mestre! Impor infância de uma forma tão irresponsável só pode ser um efeito secundário dos 18
medicamentos. É preciso ser mole como enchimento para aceder à vida e enfaixar cada novo filho de ponta a ponta, com a seda do próprio medo, mãe castradora por natureza, cheerleader incondicional. A força do medo é a soma de cada pequeno sonho reduzido a pó. Vamos snifá-lo, pois parece que é a única maneira que nos resta de vivê-lo. Dissimular a nudez pondo-a num chuveiro e fica tudo em paz. Bendita sedação.
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4 Linha de comboio num ponto não controlado. Os comboios ainda testemunham uma certa metafísica dos costumes – esta observação não tem nada a ver com os horários. É preciso explicar tudo. Não entendi isso até ao dia daquele encontro num ponto não controlado. Era uma recta totalmente previsível. Qualquer outro teria referido uma curva, mas a proximidade de uma curva chama demasiado a atenção, há uma subtil diminuição da velocidade, um instante para bascular o peso do corpo de um pé para o outro, ou talvez para engolir em seco num inusual acto não reflexo. A recta é perfeita e eu estou camuflada com o meio. Aridez mediterrânica salpicada de pequenas moitas, doentes mas resistentes. Ouve-se uma aproximação que move toneladas cúbicas de partículas em suspensão. Dou um passo em frente. Apercebo-me do longínquo e desmesurado vulto sonoro, das suas vibrações, que poderiam ser insectos, mas não o são porque os insectos são metálicos de uma forma mais elegante. As linhas requebram-se como cascavéis e dou outro passo em frente. O meu corpo é uma parabólica esfomeada de perigo. O coração, grande, apodera-se do pensamento. O comboio, agora sim, é puro mercúrio que ladra, uma entidade que cresce, um nome. Já está aqui, chegou até mim, à sua fita vermelha, à sua linha 20
de meta. Mas não, hoje não é o dia. É um comboio comprido, demasiado comprido, e propulsa o meu corpo para trás com violência. Decido que devo resistir. Como uma moita, penso. As raízes profundas garantem instantes de valentia como este. Contudo, o comboio é compridíssimo, há demasiada sucata durante demasiado tempo e, depois de tudo, o corpo talvez mereça uma oportunidade para falar, aquela história das últimas palavras. Talvez devesse preservar o meu nome, desfrutar de uma morte conservadora com despojos facilmente identificáveis, restos cordiais. A verdade é que ignorava que detalhes dominantes como este acabariam por me importar. Dou por mim envolvida numa metafísica surpreendente, se fosse crente acreditaria que alguém pretende que reconsidere algumas decisões. Como é que era a frase? «Sou ateu, graças a Deus.»
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5 São três e um quarto da manhã e alguém marca o meu número de telefone. Não estou a dormir, mas tenho o fixo desligado e o telemóvel apagado. O que é que se passa? É a minha maneira de ser humana. Volta a tocar às sete e meia, às vinte para as oito, às oito para as oito e às oito em ponto da manhã. Mais tentativas, frustradas, até às dez – tenho tudo gravado, mensagens de voz que apago sem ouvir. Sem dúvida, deve-se tudo ao facto de eu ignorar os medicamentos. Mas, bom, não tenho qualquer motivo real para provocar o alarme de ninguém, por isso às dez, com todos os telefones ligados, atendo a chamada. Activo o meu formato de voz agradável e a minha irmã interrompe-me. «Estou outra vez grávida!» Dedico o meu primeiro pensamento a uma montanha de pneus sobresse lentes abandonados. Esse podia ser o estímulo necessário para me incentivar a bater a asa de uma vez por todas! O segundo pensamento prepara-se para analisar em círculos o tom da minha irmã, pobre inocente sem asas obrigada a correr com as suas palavras descalças às costas. Chama-se Cristina, e ainda não percebi se parece feliz ou angustiada. «Não te ouço bem. O quê?» Minto e pergunto, minto e pergunto, é o meu estilo. Ela responde sem hesitar: «Estou outra vez grávida! De dois 22
meses!» Está feliz, claro, e eu sou parva. «Estou tão feliz! Estávamos a tentar há tanto tempo!» Sinto uma vontade dificilmente, muito dificilmente reprimível de bater no crânio com o telefone, mas é uma má ideia, os telefones preferem matar com tumores, à distância. «Parabéns», digo. «Estás contente?», pergunta. Minto afirmando animadamente que sim, claro. «Vais voltar a ser tia!», exclama ela. Por mais que me concentre não consigo detectar em mim nenhuma emoção susceptível de sacudir a espécie de substrato interior relativo à família. «Que bom!», digo. E depois falo, falo sem parar durante um minuto para evitar qualquer possível tentativa de aprofundamento no meu montinho sentimental compostável. «Que bom é realmente fantástico ser tia a dobrar é como ser uma tia completa é como passar de usar um monóculo a usar óculos ou de andar de triciclo a andar de bicicleta agora tenho a sensação de controlar a minha vida plenamente na sua faceta de tia bolas deixas-me parada tanto tempo enquanto tentas e agora acontece que há aqui uma pequena pessoa que decidiu lançar-se à maravilhosa aventura de viver e não podia ter encontrado melhores pais com um trabalho estável e uma casa maravilhosa com um quarto só para ele ou para ela porque com dois meses de gravidez ainda não podes saber se vai ser menino ou menina embora na realidade não saiba porque é que estou a falar no futuro porque já é um menino ou uma menina já existe dentro de ti oh deve ser maravilhoso estar grávida e sentir como a vida cresce dentro de ti tenho a certeza de que vais ter uma gravidez fantástica como a primeira e de que vai correr tudo lindamente ainda bem que me ligaste para mo contares alegraste-me a manhã são notícias como esta que fazem com que pensemos que 23
tudo vale a pena para além disso agora quando a família toda se reunir para o almoço de Natal já não seremos treze pois dizem que dá azar seremos mais um ou uma é fantástico.» Fiz um esforço supremo que me deixou esgotada. De facto, ser assim faz com que precisemos de medicamentos.
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6 «Achas que faço bem casando com ele?» A minha tia, há mais de quinze anos. «É que não sei, às vezes, quando vou no metro, não consigo evitar olhar para o peito das mulheres. É como se mo pusessem à frente para que olhe para ele. Eu não sei se, antes de casar, não devia experimentar…» Eu já dizia que isso de fazer de tia não combinava lá muito com ela. Desculpo-a alegando que mo perguntava porque sabia que eu era lésbica. A minha mãe ainda não o sabia, mas ela sim, há seis anos que me tinha acolhido na sua casa, no seu pequeno apartamento de solteira perto da faculdade onde eu estudava. Poupava-me três horas diárias de deslocações, que dedicava a ler e a conhecer lésbicas. «Não sei, tia», comecei. Claro que não fazes bem casando com um gajo se pensavas em enfiar a cabeça no decote das gajas que vês no metro! «Talvez devas experimentar. Para tirar a teima. Não achas?» «Sim, talvez sim. Mas é que as lésbicas são todas tão feias!» Obrigada, tia. Nem reparou nisso, não há nada mais ofuscante do que uma relação de parentesco. Evidentemente, decidiu que o mais prudente era não tirar a teima, não queria enganar o seu «futuro marido», dizia. Por isso casou com ele sem se aperceber de que tinha feito algo muito pior, essa situação tão literária de converter a própria vida numa grande mentira. É curioso 25
como às vezes os crimes mais abomináveis são os mais fáceis de cometer. Depois do casamento foi viver para uma zona residencial, um rés-do-chão com jardim comunitário e vizinhos estáveis e contidos como actores secundários. Tudo aquilo apresentava uma aparência impecável de credibilidade. Ah! E também comprou um carro familiar. «Para aquilo que possa vir», disse, como se o futuro tivesse acabado por se especializar, exclusivamente, em engravidar mulheres. Fiquei sozinha no seu pequeno apartamento de solteira. Era um penúltimo andar central, ideal. Lia cada vez mais. Deu-se o boom da Internet, que me permitiu, até um grau inesperado, conhecer mais lésbicas. A maior parte delas não eram feias e isso fez com que houvesse muito sexo, geralmente bom sexo, embora também sexo mais para o normal e sexo deplorável. Apesar de tudo, era incapaz de me apaixonar, basicamente fazia amigas e a maior parte delas acabavam por se converter em minhas amantes. Às vezes alguma amante apaixonava-se por mim e, quando isso acontecia, tinha a sensação de que a vida me fitava com a sua peruca mais horrível. Não há nada pior do que sentirmo-nos exclusividade de outra pessoa, termos de ouvir, reduzidos a uma peça de Lego, que somos decisivos na felicidade ou na infelicidade de outra pessoa. Enlouquecemos? Também tive de suportar algumas experiências grotescas, sobretudo coincidindo com os dias posteriores ao final de alguma dessas relações. O mais curioso é que nunca recebi ameaças directas, antes tive de assistir a automutilações e isso era muito pior. «Se queres mesmo cortar os pulsos, faz os cortes na vertical de uma vez por todas e deixa-me em paz, porra!» Para poder sobreviver sem ter de trabalhar arren dava quartos a estudantes. Só mulheres: inglesas, americanas, brasileiras, alemãs, sérvias, gregas. Era caótico e às vezes 26
divertido, mas também tive alguns desgostos. Nunca vou entender a maldita mania que algumas mulheres têm de furar as paredes para pendurar coisas. Uma rapariga basca com cara de baleia queimou o exaustor da cozinha, e uma brasileira muito bonita e com as pernas curtas foi-se embora certa noite com o telefone fixo. Mas as conversas à mesa compensavam tudo e havia coisas que me faziam sentir muito presente, como por exemplo fazer sexo em todas as divisões e que a casa de banho estivesse sempre ocupada. Até que um dia, como se tivesse sido apanhada por uma cheia, licenciei-me.
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