O bom samaritano ou A vassalagem
O menino encontrou o corpo atirado a um espinheiro. Vinha da aldeia e andava por aquelas lombas agrestes à procura de espargos. Ficou surpreendido mas não se alarmou. O corpo transmitia uma pacífica resignação. Estava de face virada para o matagal e era evidente que não se podia mexer. O menino inclinou-se, agarrou numa pedra e lançou-a ao vulto. Foi embater na carne mole e ouviu-se apenas um lamento, uma espécie de brisa fugaz e dolorosa. Ainda não está morto, pensou ele. Aproximou-se cinco passos. Do emaranhado negro do cabelo saíam riachos de sangue seco. Falou-lhe: – Ei, tu, estás-me a ouvir? O corpo permaneceu imóvel e silencioso. O miúdo dobrou os joelhos, pôs-se à sua altura, e foi aí que descobriu a ferida mortal. Tinha a barriga aberta. Nalgum momento as mãos do homem tentaram vedar aquele horrendo buraco, mas ali tinham ficado, fracassadas, inúteis, e pareciam entrelaçar-se agora num abraço de despedida. De repente sentiu vontade de lhe tocar, de pousar a sua mão pequena sobre aquele corpo em transição. Pelas alpercatas rotas assomavam uns pés sujos e curtidos. Eram pés de camponês, disso não havia dúvida. Pegou neles e movimentou-os da esquerda para a direita mas o corpo não reagiu. 9
Talvez já tenha atravessado o limiar, pensou, talvez já tenha passado para o lado de lá, para junto da avó. A mera possibilidade de ele já ter morrido fez diminuir definitivamente a sua excitação. Sem vida, aquele corpo podia ser agora qualquer coisa, um javali abatido, um gato estripado, uma pomba... Decidiu então olhar para o seu rosto. O menino já estivera em bastantes velórios e em todos eles o morto tinha os olhos fechados. Animou-se com a possibilidade de este, face à imediatez, ainda os ter abertos. Esticou o braço até ao queixo dele. Girou-lhe a cabeça de chofre e, nesse mesmo instante, a mão do moribundo abandonou a ferida para agarrar o miúdo por um braço. O grito de terror soou como um disparo. Seco, breve. O garoto lutou para se libertar mas o moribundo, num arranque de inesperado vigor, puxou-o para si e colou a sua cara ensanguentada à dele. – Vai até à aldeia... – sussurrou-lhe. As palavras saíam entrelaçadas num fio finíssimo que ameaçava partir-se –, vai até à aldeia e diz à Guarda Civil que foi dom Anselmo... os homens de dom Anselmo. Confiado o segredo, libertou o braço do rapaz e deixou-se cair de novo contra o espinheiro. O menino pegou no cantil que trazia cheio de água e pô-lo nos lábios do moribundo. Advertiu nos seus olhos um delicado agradecimento. – Dói? – quis ele saber. – Corre, porra – retorquiu o homem –, faz cá chegar um médico. E o menino desatou a correr ladeira abaixo como quem foge de uma aparição. A aldeia não ficava longe e as suas pernas eram velozes. Não dissera ao moribundo mas sabia bem quem ele era. Precisamente Pedro, o forasteiro. Assim era 10
chamado, o forasteiro, como se tivesse chegado do outro lado do mundo, se bem que, na realidade, tinha vindo de uma aldeia mais além da planície. Apesar do sangue e do inchaço, o rapaz percebeu que era ele mal lhe viu a cara. Pedro, o forasteiro, que segundo todos diziam (também o pai do menino), chegara à aldeia para confrontar uns e outros. Para meter veneno. Falava com os homens que vinham do campo. Insultava dom Anselmo. Dizia que não era amo nenhum. Que não havia amos. O garoto tinha-o visto nalgum daqueles pregões. Parecia louco. Os olhos brilhantes e a espuma no canto dos lábios. As primeiras alvuras da aldeia já se faziam anunciar. O rapaz estava tentado a ir primeiro a casa para perguntar ao pai, mas a coisa urgia, e seguramente ele andaria nos olivais e não havia tempo a perder. Ao chegar à praça arqueou o corpo e esperou uns segundos para o ar lhe entrar sem atropelos. Queria transmitir a mensagem a frio, como homem que já começava a ser. Olhou de relance para o quartel da Guarda Civil, a bandeira antiga na varanda. Rodou sobre os seus próprios calcanhares e encaminhou-se para a casa situada do outro lado da praça. Uma vez lá dentro explicou a dom Anselmo. – Têm que ir acabar o serviço. O forasteiro ainda fala.
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Mamã Celestina ou A pobreza
Falo-vos daqui, do interior da terra, não sei se vocês me conseguem ouvir. Estou morta há mais de dez dias, desde que o monocelha Sempronio nos atirou à vala com um saco de cal em cima. Temia que alguém pudesse reconhecer-nos se o acaso ou uma alimária nos tirasse para fora da terra. Não era preciso ter-se dado a esse trabalho, pois a Hondurenha e eu já vínhamos desfiguradas de tanta pancada e de tanta brutalidade que nos infligiram. Quer-me parecer que ela está mais morta do que eu porque durante este tempo todo não disse uma só palavra; o que é estranho, pois chegam até mim outras vozes de mulheres que estão mais longe do que ela, vozes que não conheço e que falam de solidão, de martírio, de homens... Daqui debaixo vejo os urubus que pairam em busca de carniça, as serpentes que se arrastam de moita em moita e até sinto a convulsão da terra quando os carros passam velozes visando a fronteira. A fronteira... Nem a Hondurenha nem eu nunca chegaremos à fronteira, ficámos aqui, sob o deserto mexicano, a pouco menos de cinquenta quilómetros. Conhecemo-nos na Guatemala e atravessámos juntas o México todinho. Dizem que é um país lindo, lindo, e até pode ser verdade. Nós só tivemos tempo de conhecer a extorsão, a pancada, os abusos... curiosamente as mesmas barbaridades 13
que deixei lá em El Salvador, e é por isso que digo que se poderiam evitar as fronteiras e os vistos pois, ao fim e ao cabo, a polícia maltrata em todo o lado por igual. Apesar de tudo, enquanto se tiver algum dinheiro no bolso há sempre opções de sobrevivência, os problemas começam quando se fica pobre de solenidade, que foi o que nos aconteceu a nós na parte alta de Chiguagua. Passámos três noites a dormir na rua. Enquanto uma dormia a outra vigiava. Ao quarto dia alguém nos falou do albergue da Mamã Celestina, uma espécie de pensão para migrantes e desgraçados, onde os deixam viver da caridade durante um tempinho enquanto arranjam o dinheiro necessário para contratar um bom «passador» para os levar para o outro lado da fronteira. A Mamã Celestina é uma velha gordalhona e cambaia que anda sempre acompanhada por Pármeno e Sempronio, dois sobrinhos monocelhas, que a ajudam nas lides do lugar. O albergue estava cheio, só restava uma cama num quarto apinhado de gente. Para nós já era bom e demos graças ao Senhor por, finalmente, termos encontrado um coração cristão na nossa mal-aventurada viagem. O afecto pela Mamã Celestina foi crescendo com os dias pois, apesar da precariedade, encontrava sempre algum detalhe para nos alegrar a jornada: uma amostra de sabonete, um pouco de perfume... Certa manhã sugeriu-nos que ficássemos ali com ela; dar-nos-ia um quarto com duas camas em troca de tratarmos da limpeza e da cozinha do albergue. O acordo pareceu-nos justo; afinal a fronteira ficava já ali, inclusivamente vinha-nos mesmo a calhar termos algum tempo antes de empreendermos o salto definitivo para os «Estados». Maldita hora em que lhe dissemos que sim. 14
Nessa mesma noite Pármeno e Sempronio, que já nos andavam a deitar o olho, enfrascaram-se bem com tequila e infiltraram-se no nosso quarto para se meterem na cama connosco. Conseguimos expulsá-los aos empurrões e, na manhã seguinte, recorremos à Celestina em busca de protecção. Mas a velha veio-nos com desculpas tímidas e estranhas dissimulações: «Ai, já sabem como são os homens... não há hipótese quando são casmurros... vocês são duas cachopas jeitosas e a fronteira, sem um homem ao lado, é um sítio perigoso... Aqui não vos vai faltar nada...» Aquelas palavras assustaram-nos mais do que a atitude dos sobrinhos e, nessa mesma tarde, às escondidas, abandonámos o albergue. Má decisão porque os monocelhas sentiram-se ofendidos e, no dia seguinte, lançaram-se à nossa procura por toda aquela zona. Queriam deixar-nos bem claro que dois machos mexicanos podem fazer o que lhes der na real gana com duas índias pobres da pior espécie. E juro-lhe, Hondurenha, que nunca pensei que nos fossem matar. Nem no fragor da pancadaria, nem nos insultos constantes, nem sequer quando se cravaram nos nossos corpos com costumes mais propriamente de animais. Nunca. Porque, diga-me você, Hondurenha, o que ganhavam eles disparando-nos um tiro? O que ganhavam eles? Não me responde, amiga. Acaso os vermes da terra já lhe comeram os ouvidos? Melhor assim. Eu, no meu caso, vejo o mundo daqui debaixo e escuto as vozes de outras mulheres que não devem estar muito longe de nós. Falam todinhas em castelhano. É por isso que sei que elas também não conseguiram alcançar a fronteira.
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