Skip to main content

Diógenes Pt - Pablo Albo / Pablo Auladell

Page 1

EUCALIPTOS

Acontece que não apanho só búzios e areia. Também apanho muitas outras coisas. Não consigo evitá-lo, é de família. Quando vejo alguma coisa esquecida por aí, abandonada, levo-a comigo. Estou-me a lembrar do caso dos eucaliptos. Eu andava pela Galiza. Quando os vi, disse cá para mim: mas o que é que estas árvores estão aqui a fazer? Elas, claro, não disseram nada, mas notava-se que não eram dali. Levei-os comigo com a intenção de os devolver ao seu lugar. Quando chegámos a casa, deixei-os no meu quarto por um momento. Foi só um momento. O tempo de ir à biblioteca para saber o que comiam. A enciclopédia não explicava de que se alimenta um eucalipto, mas achei a frase estranha: V «Espécie de crescimento rápido». Voltei a correr para casa não fosse tornar-se perigoso. Quando cheguei, já era tarde. Já tinham dado em crescer. E cresceram, cresceram, Meu Deus! até ao tecto. E não pararam. Levantaram o tecto, que é o chão do quarto da minha irmã mais velha. Ela está lá sempre, a pensar nas coisas trágicas da vida. Agora não tenho um monte de árvores, tenho um bosque. E a minha irmã... pronto, ela gosta. Está mais perto das nuvens. Há que tempos que já não andava com os pés na terra. Ela gosta. Do meu bosque de «crescimento rápido», às vezes, ouço o meu pai: 13


– Quem deixou uma montanha na sala? – É uma duna, pai. – Pronto, ou isso. Aqui não é o lugar dela. – Ela sai sozinha. – Ah, ok.

14


A MINHA IRMÃ

A minha irmã também colecciona coisas. Ela gosta muito de objectos inúteis. Como é adolescente, diz que despertam nela não-sei-quê, que os compreende. Passa tardes inteiras entre peúgas viúvas, canetas gastas e dentaduras sem parte de baixo. Uma vez passou-se porque a minha mãe quis deitar uma lâmpada fundida ao lixo. – Vocês não a compreendem! – gritou entre prantos, e levou-a para o quarto dela que fica por cima do meu bosque. Passou tardes inteiras a contemplá-la, sem fazer mais nada, apenas compreendendo a pobre lâmpada inútil. Triste. Apesar de, claro, mais triste ainda ter sido o que aconteceu ao meu tio.

15


O MEU AVÔ E AS POÇAS

O meu avô Pablo contou-me que, na minha família, o vício de amealhar coisas já vem de longe. Disse-mo quando lhe perguntei de onde tinha saído o lago que fica em frente à nossa casa. – Esse lago nem sempre aí esteve. Fui eu e a tua avó Patrícia que o fizemos. «Uma poça é apenas uma poça», dizia ela, «muitas fazem uma lagoa.» As lagoas não me interessavam nada, mas recolher poças com a Patrícia era uma ideia mais do que sedutora. Guardei um impermeável por trás da porta e umas galochas, e comecei a passar os dias à espera das nuvens. Assim que caía a primeira pinga, ia a correr a atirar pedrinhas à janela dela. Ela estava lá sempre, à minha espera, com a janela já aberta (Ai, dizia enquanto sorria). Descia logo e começávamos a procurar poças. Amontoávamo-las no jardim desta casa que, naquele tempo, era do teu bisavô. Quando já tínhamos uma lagoa, dissemos: «Pronto, já temos uma lagoa». Mas não ficámos por aí. Quando a lagoa se tornou um lago, olhou-me nos olhos e disse-me: – Olha, eu acho que já chega. O que podíamos fazer agora era vir à tarde e tomávamos aqui banho com os nossos filhos. – Mas nós não temos filhos. – Ainda não – disse ela, fazendo olhinhos, e acrescentou: 17


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Diógenes Pt - Pablo Albo / Pablo Auladell by kalandraka.com - Issuu