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Contos ao telefone Pt - Gianni Rodari - Pablo Otero

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O caçador azarado – Pega na espingarda, José, pega na espingarda e vai à caça – disse certo dia pela manhã aquela mulher ao filho. – Amanhã é o casamento da tua irmã e ela quer comer polenta e lebre. José agarrou na espingarda e foi à caça. Passado pouco tempo viu uma lebre a saltar de um arbusto e a correr pelo prado fora. Apontou a espingarda, fixou o ponto de mira e carregou no gatilho. Mas a espingarda disse: Pum!, assim, com voz humana, deixando cair a bala em vez de a disparar. José apanhou-a e contemplou-a, surpreendido. Depois observou atentamente a espingarda, que parecia a mesma de sempre, só que em vez de disparar dissera Pum!, com uma vozinha alegre e fresca. José ainda espreitou para dentro do cano: seria possível que lá estivesse alguém escondido? Mas, como é óbvio, dentro do cano da espingarda não havia nada nem ninguém. – E logo hoje que a mamã quer lebre. E logo hoje que a minha irmã a quer comer com a polenta... Nesse momento, a tal lebre voltou a passar à sua frente, só que desta vez trazia um véu branco na cabeça adornado com flores de laranjeira. Vinha com os olhos baixos e caminhava com passinhos minúsculos. – E logo hoje que a lebre também se vai casar! – disse José. – Paciência, vou atirar a um faisão. Um pouco mais à frente, na floresta, viu precisamente um faisão a passear por um carreiro, sem medo nenhum, como no dia da abertura da época da caça, em que os faisões ainda não sabem o que é uma espingarda. José fez pontaria, premiu o gatilho e a espingarda fez Pam!, disse Pam! Pam!, duas vezes, como faria uma criança com a sua espingarda de 8


brincar. O cartucho caiu ao chão e espantou umas formigas-vermelhas, que correram a refugiar-se debaixo de um pinheiro. – Bonito – disse José, que já começava a ficar irritado. – A mãe vai ficar muito contente se eu voltar de bolsos vazios, ai vai, vai. O faisão, que ao ouvir aquele pam, pam se enfiara num arbusto, voltou a aparecer no mesmo carreiro e, desta vez, seguido dos seus filhotes, em fila, com muita vontade de rir. E em último lugar vinha a mãe, toda contente, como se lhe tivesse acabado de sair a taluda. – Vais toda contente, tu – resmungou José. – Já estás casada há algum tempo. E agora, o que é que eu hei de caçar? Voltou a carregar a espingarda com muito cuidado e olhou em seu redor. Havia apenas um melro pousado num galho que assobiava como quem diz: Dispara, dispara. E José disparou. Mas a espingarda disse: Bang!, como os meninos quando leem os livros de banda desenhada. E logo a seguir fez um som que mais parecia um risinho. O melro assobiou, ainda mais alegre do que antes, como quem diz: Disparaste, ouve este aviso: já tinhas idade para ter juízo! – Só me faltava agora esta – disse José. – Logo hoje que as espingardas estão de greve. – José, fizeste uma boa caçada? – perguntou-lhe a mãe ao voltar. – Fiz, sim, mamã. Cacei três cacholas das grandes. Talvez fiquem bem com a polenta.

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O prédio de gelado Uma vez, em Bolonha, fizeram um prédio de gelado em plena Praça Maior, e a criançada até vinha de longe para lhe dar uma lambedela. O telhado era de chantili, o fumo das chaminés de algodão-doce, as chaminés feitas de fruta cristalizada. Tudo o resto era de gelado: portas de gelado, paredes de gelado, móveis de gelado. Um miúdo pequenino agarrou-se a uma mesa e lambeu-lhe as pernas uma a uma, até a mesa lhe cair em cima, com todos os pratos, que eram de gelado de chocolate, o mais delicioso de todos. A certa altura, um agente municipal apercebeu-se de que havia uma janela que estava a derreter. Os vidros eram de gelado de morango, que escorriam em pequenos rios cor de rosa. – Depressa – gritou o polícia –, ainda mais depressa! E toca a lamberem todos mais rapidamente para não se perder uma só pinga daquela obra de arte. – Uma cadeira! – implorava uma velhinha que não conseguia furar por entre a multidão. – Uma cadeira para uma pobre velha. Quem ma traz? Com braços, se puder ser. Um bombeiro bondoso foi a correr levar-lhe uma cadeira de gelado de nata e pistacho, e a pobre da velhinha, toda contente, começou a lambê-la precisamente pelos braços. Que grande dia aquele! Tanto que, por ordem médica, ninguém teve dor de barriga. Ainda hoje, quando as crianças pedem mais gelado, os pais suspiram: – Pois claro, tu querias era um prédio todo, como o de Bolonha.

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O passeio de um distraído – Mamã, vou dar um passeio. – Vai, vai, João, mas presta atenção ao atravessar a rua. – Está bem, mamã. Adeus, mamã. – Vê lá, que tu andas sempre muito distraído. – Sim, mamã. Adeus, mamã. João sai alegremente e durante a primeira parte do caminho vai com atenção. De vez em quando para e apalpa-se. – Estou inteiro? Estou – e ri-se para si próprio. Vai tão contente por estar atento que começa a saltitar que nem um passarinho. Mas eis que fica deslumbrado a olhar para as montras, para os carros, para as nuvens, e é então que, forçosamente, começam os problemas. Um senhor adverte-o delicadamente: – Tu és distraído, não és? Estás a ver? Já perdeste uma mão. – Ai, é verdade. Sou mesmo distraído. Começa à procura da mão, contudo encontra uma lata vazia. Estará mesmo vazia? Vamos lá ver. E o que é que teria lá dentro antes de estar vazia? Com certeza que não deve ter estado sempre vazia... João esquece-se de procurar a mão, depois esquece-se também da lata porque acabou de ver um cão coxo e, para conseguir chegar junto do cão coxo antes de ele dobrar a esquina, perde o braço por completo. Só que não dá por nada e continua a correr. Uma senhora atenciosa chama por ele: – João, João: o braço! Mas nada, ele não ouve. – Enfim – diz a senhora. – Vou levá-lo à mãe dele. E lá vai ela até casa da mãe do João. – Minha senhora, trago-lhe aqui o braço do seu filho. 13


– Ai, mas que distraído que ele é. Eu já não sei que mais lhe hei de fazer ou dizer. – Deixe lá, já se sabe como é, as crianças são todas assim. Dali a pouco chega outra senhora muito gentil. – Minha senhora, encontrei um pé. Não será do seu João? – Pois é, é, reconheço-o pelo buraco do sapato. Ai que filho mais distraído que eu tenho. Já não sei que mais lhe hei de fazer ou dizer. – Deixe lá, já se sabe como é, as crianças são todas assim. Pouco depois chega uma velhinha, a seguir, o rapaz da padaria, após este um guarda-freio e, por fim, uma professora reformada, e todos eles trazem um pedaço do João: uma perna, uma orelha, o nariz. – Mas haverá algum rapaz mais distraído do que o meu filho? – Deixe lá, minha senhora, as crianças são todas assim. Por fim lá chega o João, a saltar ao pé-coxinho, já sem orelhas nem braços, mas sempre alegre, feliz como um passarinho, e a mãe, abanando a cabeça, põe-lhe tudo no sítio e dá-lhe um beijo. – Mamã, não me falta nada? Portei-me bem? – Sim, João, portaste-te muito bem.


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