O DEUS DO FOGO Quer saber se é verdade que, durante uma das minhas explorações espaciais, tendo aterrado num planeta selvagem, me fiz passar pelo Deus do Fogo? Não, senhor jornalista, não é verdade. Não gosto de andar por aí a enganar as pessoas, mesmo que se trate de macacos enormes com seis patas, como foi o caso. Dizem coisas muito exageradas sobre as minhas aventuras. Nunca casei com a Mulher-Aranha, pela simples razão de que nunca a conheci, nem creio sequer que exista. E nunca fui rei do Povo dos Cangurus: para mais, nunca o teriam tolerado, visto que eram, ou são ainda, fervorosos republicanos. O senhor queria era saber daquele assunto do fogo. Pois vou já contar-lho, sem mais delongas: mas antes tem de prometer-me que não vai acrescentar nada ao meu relato, estamos entendidos? Ora então trabalhava eu, naquela altura, como guardião de radiofarol no asteroide X.99, uma bola rochosa na qual o sol se levantava e se punha vinte vezes durante as vinte e quatro horas. Sim, é por isso que sou conhecido como o agente X.99. Por causa do nome científico do asteroide. Não há qualquer mistério,
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como pode ver. E muito menos há algo de misterioso no facto de que tivesse uma cabra comigo: gosto de leite de cabra, apenas isso. Uma vez por mês, com os mantimentos, mandavam-me também um fardo de erva fresca. Ninguém antes de mim tinha aceitado viver como um eremita num asteroide, com o intuito de assegurar às Companhias Unidas da Navegação Espacial esse ponto de apoio. Podia ditar as minhas condições. Mas tinha apenas uma: a erva para a Renata. Sim, senhor, Renata é o nome da minha cabra. Aquela mesma que pode ver ali, embalsamada, no meio da sala. Mesmo neste estado, ainda me faz companhia, agora que estou velhinho e já não viajo mais por planetas e asteroides. Nessa altura, tinha recebido da Terra a missão de dar um salto ao planeta Miro para fazer umas verificações numa central automática de captação de ondas eletromagnéticas, que ali tinha sido instalada há uma dezena de anos e parecia não estar a cem por cento. Miro, tanto quanto se sabia, era habitado apenas por macacos pacíficos e consideravelmente afastados de qualquer forma de inteligência humana. Não constituíam perigo para um agente espacial bem treinado e – assim pensavam eles lá na Terra – bem armado. Mas eu não trazia armas comigo, caro senhor. Apenas trazia a Renata, para fazer o meu pequeno-almoço preferido, à base de leite de cabra.
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Preparo a minha astronave de reconhecimento, dou lá um salto e faço as verificações na tal central, que estava situada no meio das montanhas, à beira de um lago de verdes águas. Renata, entretanto, pasta e saltita feliz. Até parece outra, coitadinha, depois de tantos meses de exílio no meio das rochas do X.99. Afasta-se sem que eu me rale muito com isso. Quando estou para partir, já a perdi de vista. Deve ter-se metido naquele pequeno bosque, e vou lá ver. E macacos me mordam, encontro-a de imediato: e ela ali está, a deixar-se ordenhar por dois grandes macacos. Um ordenhava o leite diretamente para a boca do outro, e depois trocavam. Entretanto, uma dúzia de macacos estava ali só a ver. Ao darem pela minha presença, ficam um pouco agitados, mas não se assustam nem fogem. E aqueles dois continuam a beber o meu leite. Isto diverte-me tanto que não tenho sequer vontade de me chatear. Levo um cigarro aos lábios e, nisto, acendo o isqueiro. E foi isso, o isqueiro. Ao verem aquela chama, um a seguir ao outro, a tremer de medo, os macacos atiram-se ao chão, para me adorar. Está visto, penso eu, que me tomam pelo Deus do Fogo. Mas trato logo de corrigir-me. Quem é que já viu macacos a comportar-se daquela maneira? No seu gesto de adoração, pode já ver-se o salto de uma condição animal para uma condição pré-humana. A chama da inteligência acendeu-se naquelas cabeças que se mexem
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ritmicamente, emitindo longos gemidos que ao longe se poderiam confundir com um canto. Fico ali um bom bocado a refletir sobre o relatório que terei de enviar para a Terra. Finalmente, recordo-me de que tenho de partir, chamo a Renata, e ponho-me a andar em direção à nave espacial. Os macacos vêm logo atrás de mim, a rastejar, a alguma distância, mas sem me perder de vista. Estão todos ali, em cima dos seixos à beira do lago, como que enfeitiçados. É verdade, poderia ter-me divertido um pouco, se tivesse querido. Mas vem-me outra ideia à cabeça: pego em dois seixos e começo a bater um contra o outro, com força. Depois aproximo-me de um macaco, meto-lhe os seixos nas mãos e faço-o repetir o meu gesto. Procedo da mesma forma com todos os macacos. «Trabalhem, trabalhem!» ordeno em voz alta. «Vamos, força, bater, bater!» E eles batem, mas sem saber para que aquilo serve, embora o façam com todo o empenho. Dos seixos, aqui e além, vão saindo algumas faíscas. Os macacos, assustados, deixam cair os seixos. Mas eu volto a pôr-lhos nas mãos e recomeçam a bater. Até que, finalmente, ao fundo do grupo, vejo um macaco que apanhou a ideia. Bate as suas pedras (talvez tenha tido sorte, calharam-lhe as pedras certas), delas saca as faíscas e fica perplexo, mas sem estar assustado. Recomeça, volta a parar. Olha para mim. «Muito bem» encorajo-o. «Continua,
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estás a ir bem…» Agora as faíscas não aparecem por mero acaso do choque entre as pedras: é ele que as provoca. E já entendeu. As suas mãos perceberam-no e transmitiram a mensagem ao cérebro. O cérebro captou a ideia. O macaco põe-se de pé, numa espécie de êxtase. Coloca-se diante dos seus companheiros e faz sair faíscas dos seixos, soltando gritos festivos de alegria. Já não quer mais saber do meu isqueiro, do Deus do Fogo, da adoração de há uns momentos… Ele próprio é inventor do fogo, percebe? «Mãos à obra», grito, «mãos à obra!» Que fiz eu depois? Nada. Não fiz nada. Vim-me embora. Para certas coisas, basta a primeira lição. Quanto ao resto, sabia que podia confiar na corrente de comunicação que se tinha estabelecido entre as suas mãos e o seu cérebro. Era tudo. Nada de milagroso, como pode ver. Mas porque não prova este ótimo assado de caça? Não confia? Olhe que acabo de tirá-lo da lata. A famosa comida enlatada do planeta Miro, apreciada em todos os mundos habitados. Quem a produz? Ora essa, os meus amigos miranos. É a sua especialidade. Em cinquenta anos, passaram da descoberta do fogo à indústria alimentar. Sabe que, com seis mãos, sabendo usá-las, anda-se muito mais rápido do que com apenas duas. O que disse? Que não se anda com as mãos? Vai desculpar-me, mas creio que pouco percebeu da história que acabo de contar-lhe.
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AS ÁRVORES NÃO SÃO ASSASSINAS Tinha sido enviado para Parco – o pequeno e misterioso planeta vegetal descoberto por uma expedição indiana em meados do século XXI –, apenas para recuperar o cadáver de um explorador brasileiro, abandonado pelos seus companheiros em fuga. Foram estes últimos que espalharam a ideia de que Parco era habitado por árvores assassinas. Talvez o senhor se lembre disso, porque o seu jornal publicou a história toda. Para lá chegar, eram duas semanas de voo a partir do asteroide X.99, onde, como já disse, vivia sozinho com a minha cabra Renata, sendo guardião do radiofarol. Para mim, esta missão – tirando a parte do defunto – mais não era do que uma simples diversão. Quanto às árvores assassinas, não acreditava nisso. Admito que nem tudo naquelas árvores contribuísse para tranquilizar um visitante. Por exemplo, os seus movimentos. Não havia vento, nesse dia. Nem a mais pequena brisa. A atmosfera estava fresca, mas absolutamente calma. E, no entanto, os ramos mexiam-se. Um ramo aqui, outro ali, um terceiro nas minhas costas, com estalidos que me obrigavam a virar-me. Está a perceber-me? Não era a ramagem inteira da árvore que se mexia, mas
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apenas um ramo ou dois de cada vez, como se alguém estivesse a manobrá-los. E os movimentos multiplicavam-se à medida que me ia embrenhando naquela floresta, em direção ao lugar onde deveria encontrar o corpo do explorador que, de acordo com os seus colegas de expedição, tinha sido morto… por uma árvore. Com golpes de ramo na cabeça. Com bastonadas, na prática. Como se um ser enfurecido, dentro da árvore, manobrasse os ramos à semelhança de clavas. A Renata seguia-me, em silêncio e um pouco inquieta. Já era estranho o suficiente que não parasse sequer para pastar a erva, verdíssima e ainda húmida do orvalho, ou para arrancar folhas de algum arbusto. E foi ainda mais estranho o que aconteceu a seguir. O senhor, por acaso, alguma vez resistiu à tentação de entrar numa floresta e fazer uma vara do primeiro ramo que encontrasse à mão de semear? Eu não. E muito menos no planeta Parco. No entanto, mal estendi a mão para um ramo que tinha cobiçado, eis que a Renata me afastou para longe com um brusco encontrão, fazendo-me sentir a dureza dos seus cornos. – O que se passa contigo? – queixei-me. A Renata, naturalmente, não respondeu. Olhava fixamente para um ponto. Nesse ponto estava o morto. Só me restava tapar o nariz e pôr os pobres restos mortais num saco higiénico. A operação durou poucos minutos,
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durante os quais houve um movimento febril por cima da minha cabeça, uma agitação rumorosa e inexplicável. Não havia vento, como já lhe disse. No caminho de volta à nave espacial, parei muitas vezes para filmar a floresta, que era de uma beleza comovente. Não vou pôr-me aqui a descrevê-la. Vou mas é mostrar-lha. Eis aqui o rolo do filme. Sente-se nesse sofá, daí vai ver melhor… … Viu? Apercebeu-se de alguma coisa fora do comum, tirando o espetáculo? Há algo de estranho naqueles movimentos, mas não se consegue perceber o que é, certo? Aconteceu o mesmo comigo, dezenas de vezes. Punha o filme com frequência, completamente fascinado. Mas continuava sem perceber. E, de cada vez que o via, ficava mais curioso, excitado, inquieto. Mas sempre sem perceber. Um dia, veio parar ao meu asteroide o professor De Mauro. Sim, o famoso linguista. Vinha não sei de onde, e ia não sei também para onde: tinha uma avaria num transmissor e sabia que ali eu tinha peças sobresselentes. Enquanto os técnicos metiam mãos à obra, mostrei ao professor alguns dos filmes feitos aquando das minhas vagabundagens pelo espaço sideral. Entre estes, estava o de Parco. Digo-lhe que ele até saltava da cadeira, de tanto entusiasmo, acredite! Dava pulos como a Renata. Quis voltar a vê-lo dez vezes seguidas. Entretanto, ia tirando apontamentos de forma
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febril, fazia rascunhos, estranhos gestos com os braços, desenhava, rasgava, voltava a desenhar. – Mas você faz ideia – gritou ele, finalmente – daquilo que descobriu? – Descobri árvores nervosas – disse eu, meio a brincar. – Falantes! – corrigiu-me o professor. – Árvores falantes! Falam por gestos, com os ramos. Um fenómeno de comunicação não verbal absolutamente extraordinário… Observe, esteja atento. Ponha outra vez do princípio. Obedeci. E ele – que me caia o céu em cima! –, de cada vez que um ramo se mexia… fazia-me a tradução. – Estão a dizer que o senhor é amigo, porque leva embora o inimigo…, que a Renata é simpática, porque não mata a erva…, que o inimigo tinha matado um ramo para fazer dele uma bengala…, que o senhor irá embora com a árvore que voa… – Tem a certeza – perguntei eu, algo perplexo – de que não está a fantasiar? O que eu lhe fui dizer! Três dias que ficou ainda no meu asteroide, três dias que me obrigou a aprender os gestos das árvores do planeta Parco, mexendo os braços como se fossem ramos. Enfim, ensinou-me o que, na opinião dele, era o alfabeto parquiano. Eu já não aguentava mais aquilo. Os técnicos da nave espacial, que nos viam girar os braços de manhã à noite, como velas de um moinho de vento, mal
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podiam conter o riso. Que alívio quando se foram embora. Por último, através de uma escotilha, o professor De Mauro despediu-se de mim, mexendo os braços vigorosamente. Limitei-me a dizer-lhe adeus com a mão, à moda antiga. Como deverá saber, mais tarde o professor liderou uma expedição ao planeta Parco, voltando com o vocabulário completo da língua vegetal. O senhor jornalista poderá não saber, já que ninguém o sabe, mas fui eu o primeiro homem a falar com as árvores de Parco. Até hoje, nunca o tinha dito a ninguém. Aquela história não me saía da cabeça. Tirava-me o sono. Uma vez, ao passar nas redondezas de Parco, um impulso irresistível fez-me descer a este planeta. Dei por mim no limiar da floresta. As árvores estavam absolutamente imóveis. Revi rapidamente os apontamentos das aulas do professor De Mauro e, de seguida, decidido a tirar-me aquele peso de cima, com os braços articulei uma mensagem: «Os homens e as árvores são amigos.» Instantes depois, os ramos começaram a mexer-se e eu pude ler, nos seus movimentos, a sua resposta: «A Renata também é nossa amiga.»
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O PLANETA DOS BRINQUEDOS A missão era a mais simples possível: entregar um pacote de materiais que tinha sido deixado no meu asteroide por uma nave espacial de passagem e vir embora no mesmo dia. Eis a única recomendação: não me maravilhar com nada. Mas está visto que quem ma tinha feito não me conhecia lá muito bem. Já deparara com gatos tão grandes como baleias terrestres e, depois disso, já nada existia que pudesse maravilhar-me. E assim, um belo dia, aterrei no planeta dos brinquedos. Será este o nome que lhe darei, para efeitos do meu relato: o seu nome oficial é composto de tantos xis e zês que até um polaco se veria às aranhas para pronunciá-lo. O porquê de tal nome? Passo a explicá-lo. Em primeiro lugar, sou recebido com um sistema perfeito de sinalizações, através de comandos automáticos dispostos no chão. No entanto, antes que possa aterrar, mandam-me fazer um par de acrobacias sobre o aeroporto, só para gozarem com o pagode. Aterro e, de todos os lados, aparecem meninos – o mais velho teria não mais de dez anos – que vão gritando belíssimos «Uhuuu!»
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