ENTRADA NO LABIRINTO: O CAOS NÃO SE IMPROVISA Durante cerca de vinte anos escrevi sobre a Cidade do México, misturando a crónica com o ensaio e com as recordações pessoais. O sincretismo da paisagem – a vulcanizadora diante da igreja colonial, o arranha-céus corporativo junto do quiosque metálico de venda de tacos – levou-me a adoptar um género híbrido, resposta natural a um espaço onde o presente se deixa afectar por estímulos que vêm do mundo pré-hispânico, do Vice-Reinado, da cultura moderna e pós-moderna. Quantos tempos contém a Cidade do México? O território é tão extenso que cria a ilusão de ter diversos fusos horários. No início de 2001 isso esteve quase a acontecer. O recém-empossado presidente Vicente Fox propôs um horário de Verão e o chefe do Governo do então Distrito Federal, Andrés Manuel López Obrador, recusou-se a acatá-lo. Como há avenidas onde um dos passeios fica na Cidade do México e o outro, na área adjacente que pertence ao Estado do México, surgiu a possibilidade de ganhar ou perder uma hora ao atravessar a rua. Os políticos mantiveram teimosamente as suas respectivas posições cronológicas e, infelizmente, a Suprema Corte de Justiça da Nação considerou que era absurdo haver dois horários, fazendo-nos assim perder a oportunidade de passar da hora federal para a hora capitalina ao percorrermos alguns metros. 21
Neste vale de paixões, o espaço submete-se às mesmas indecisões do tempo, a começar pela nomenclatura. Durante décadas, referimo-nos à «cidade do México» para nomear as dezasseis divisões administrativas que integravam o Distrito Federal e os novos bairros (colonias) do Estado do México que se lhes uniram. A expressão era um epíteto, de modo que os académicos aconselhavam a escrever cidade com minúscula. A partir de 2016, o Distrito Federal (DF) transformou-se em Cidade do México, com os mesmos poderes dos restantes estados da República, mas o seu nome continuou a ser ambíguo, uma vez que não abarca toda a metrópole (como o fazia o epíteto cidade do México), mas apenas uma parte, aquela que era anteriormente o Distrito Federal. Bem-vindos ao Vale de Anáhuac, a zona onde o espaço e o tempo se confundem! O sincretismo foi a nossa fórmula mais recorrente para «fazer cidade». Isto aplica-se às construções, mas também às memórias. As diversas gerações de uma mesma família transformam a cidade num palimpsesto da memória, onde a avó encontra mistérios invisíveis para a neta. Tomemos como exemplo a esquina das Avenidas Eixo Central (antes San Juan de Letrán) e Madero, no coração da capital. A minha avó paterna vivia em frente da Alameda Central e achava «moderno» ir ao Palácio das Belas-Artes, essa curiosa ostentação de mármores que a sua geração associava a fantasias otomanas e a minha, a um casino de Las Vegas. Para a minha mãe, a modernidade dessa zona era representada pela cafetaria Lady Baltimore, de inspiração europeia. Para mim, o sinal incontestável dos tempos é a Torre Latino-Americana, que se ergue nessa esquina e foi erigida no ano do meu nascimento, 1956. Finalmente, para a minha filha, a marca da novidade fica diante da Torre, na Frikiplaza, um centro comercial de três pisos dedicado ao manga, ao anime e a outros produtos da cultura popular japonesa. Nesse recanto da cidade coexistem as «modernidades» de quatro gerações da minha 22
família. Mais do que num tempo e num lugar determinados, vivemos na soma e na intersecção de diversos tempos e lugares, um códice tanto físico como memorial dos destinos cruzados. Sem saber que começava um livro, concebi o primeiro destes textos em 1993, quando fui a Berlim apresentar a tradução alemã de El disparo de argón. Como o meu romance aspirava ser um mapa secreto do DF, a editora recomendou-me um número da revista Kursbuch que incluía um ensaio do filósofo russo-germânico Boris Groys sobre o urbanismo soviético: O Metro como Utopia. Foi uma descoberta decisiva. Surpreendentemente, o subsolo soviético tinha um espelho no nosso Sistema de Transporte Colectivo. No ano seguinte passei um semestre na Universidade de Yale. Guiado pelo texto de Groys e por uma antologia elaborada por Klaus R. Scherpe, Die Unwirklichkeit der Städte (A Irrealidade das Cidades), que procurava entender a cidade como um discurso unitário, e que encontrei no labirinto que é a Biblioteca Sterling, escrevi um ensaio sobre o metro mexicano. Foi o início de um projecto que ao longo dos anos e das suas mudanças cresceria tanto como o tema escolhido, sem um plano que contivesse a sua expansão. Perante a proliferação de folhas, a dada altura pensei que não precisava de um revisor de estilo, mas de um urbanista. A Vertigem Horizontal inclui diversos recursos testemunhais. É o livro onde misturei mais géneros e é constituído, de certa forma, por vários livros. A sua estrutura obedece a um critério de zapping. Os episódios não avançam de forma linear, mas consoante o ziguezague da memória ou os rodeios do tráfego urbano. O leitor pode segui-lo do princípio ao fim ou escolher, como um deambulante ou um viajante do metro, as rotas que mais lhe interessam: as personagens, os lugares, os sobressaltos, as cerimónias, as travessias, as histórias pessoais (todas elas o são, mas as passagens organizadas sob a epígrafe «Viver na cidade» insistem mais neste aspecto). 23
Uma cidade de casas baixas Num ensaio, Michael Ondaatje refere-se a um dos muitos episódios de Os Miseráveis em que Jean Valjean é perseguido. Com o mais estrito realismo, Victor Hugo descreve as ruas de Paris por onde o fugitivo escapa da polícia até ser encurralado. Que fazer para o salvar? O escritor inventa uma rua, para que ele fuja por aí. Ignoro se Ondaatje acerta, num sentido topográfico, ao afirmar que a personagem foge por uma via inexistente; mas acerta em sentido literário, pois a ficção abre um espaço para o herói. Não acontece o mesmo neste livro. Embora em inúmeros engarrafamentos tenha querido acrescentar uma saída imaginária às abundantes ruas da capital, optei pelo testemunho e pelo que a minha memória apresenta como verdadeiro. Até que ponto é verdadeiro o que escrevo? Tão verdadeiro ou tão falso como a imagem que podemos ter de uma cidade que é vivida de milhões de maneiras distintas. Seria incongruente interpretar de forma rígida uma metrópole que desafia os sinais de orientação. Há algum conceito que a defina? Quando Pierre Eugène Drieu La Rochelle chegou à Argentina com os seus muitos nomes, quis conhecer a pampa. O viajante francês definiu essas pastagens sem fim com uma pontaria insólita. Disse estar diante de uma «vertigem horizontal». Juan José Saer observa a esse respeito: Há um travo pós-simbolista nessa expressão, que a meu ver ganha muito quando é proferida devagar e semicerrando ligeiramente os olhos, fazendo talvez um longo gesto mesurado, ligeiramente ondulatório, com a mão direita elevada diante de si próprio, como se o rebordo inferior da palma remasse no ar, com o braço levemente esticado. O efeito causado por essa expressão será sem dúvida intenso, mas a expressão é falsa. 24
Esta passagem irónica de El rio sin orillas é um ajuste de contas com o estrangeiro que nos deixou a mais célebre definição da pampa. Saer encontra relevos e obstáculos suficientes na planície para considerar que a frase de Drieu é «uma figura poética feliz, mas um erro de percepção». A Cidade do México estendeu-se de forma avassaladora. Em setenta anos o seu território aumentou setecentas vezes. Como agarrar este descomedimento? Sirvo-me da expressão de Drieu La Rochelle por um motivo semelhante ao que provocou a ironia de Saer: a frase define o que nos rodeia, mas está a deixar de ser verdadeira. As minhas primeiras recordações da capital são de 1960, quando tinha quatro anos. Durante o meio século seguinte, a urbe sofreu uma expansão claramente horizontal, uma maré de casas baixas. A Torre Latino-Americana permanecia como afirmação solitária de que a verticalidade era possível, embora pouco aconselhável num território sísmico, a dois mil e duzentos metros de altitude, onde a água chega através de bombas. «Crescer» significava «estender-se». O romancista Carlos Gamerro argumenta a propósito de Buenos Aires: «Para uma cidade que em mais de quatrocentos anos não conseguiu ultrapassar a horizontalidade opressiva da pampa e do rio, qualquer elevação considerável adquire um carácter um pouco sagrado, um ponto de apoio contra a gravidade esmagadora das duas planuras intermináveis e do céu enorme que pesa sobre elas.» Na Cidade do México a dimensão simbólica da natureza é a oposta. Não estamos diante de um rio tão largo que parece um mar, nem diante de uma planície infinita. Os seus fundadores provinham de uma gruta e instalaram-se no meio de montanhas. De acordo com a lenda, a tribo de Aztlán partiu de Nayarit, na costa do Pacífico, e dirigiu-se para a zona central, subindo serranias abruptas. O Vale de Anáhuac abriu-se diante deles como uma 25
estranha meseta rodeada de vulcões, onde a água era fornecida por uma lagoa. O termo altiplano, que usamos para a nossa geografia peculiar, refere-se justamente à horizontalidade de altura. Se os prédios altos, como afirma Gamerro, representam em Buenos Aires um desafio à pampa e ao Rio da Prata, no México a horizontalidade foi uma maneira de demonstrar que os edifícios não devem competir com as montanhas. Durante o século XX, os surtos de verticalidade foram pouco felizes. Na década de 1960, Mario Pani, um dos principais arquitectos do país, desenhou a Unidade Habitacional Tlatelolco. Ao contrário do que tinha feito para outros conjuntos residenciais, construiu verdadeiros arranha-céus. O projecto tinha uma força simbólica extraordinária porque se incorporava à Praça das Três Culturas, onde coabitam as fundações de uma cidadela pré-hispânica, uma igreja colonial e a torre que durante anos albergou a Secretaria de Relações Exteriores, obra do arquitecto Pedro Ramírez Vázquez, especialista em edifícios consagrados a diversas variantes do poder: o Estádio Asteca, o Museu Nacional de Antropologia e a nova Basílica de Guadalupe. Tlatelolco, zona pioneira em edifícios altos, conquistou uma reputação trágica em 1968, quando a Praça das Três Culturas se transformou na pedra dos sacrifícios onde foi reprimido o movimento estudantil. Dezassete anos depois, foi um dos espaços mais castigados pelo terramoto. Local marcado pelo drama, Tlatelolco sugeria que a verticalidade acaba mal. Outras tentativas de elevação tiveram um destino semelhante. Em 1966, o empresário Manuel Suárez y Suárez comprou o tranquilo Parque da Lama, no Bairro Nápoles e planeou o que parecia ser (e era) delirante: o edifício mais alto da América Latina. Em 1979, esse mamarracho atingiu os duzentos e sete metros, mas não passava de uma carcaça. Prometia um hotel que não chegou a existir, o Hotel do México. Durante anos, este edifício interrompeu 26
a paisagem como uma demonstração de que, entre nós, a imensidão tende ao fracasso. Na revista Viceversa, um grupo de jovens escritores propôs-se plantar trepadeiras para o transformar num jardim vertical e compensar assim o parque destruído por aquele espantalho. Finalmente, em 1992, de acordo com as exigências da altura, transformou-se no World Trade Center. A história deste imóvel revela a dificuldade existente em construir com sucesso para cima. Durante duas décadas, o sismo de 1985 dominou as reflexões urbanas e provocou uma interrupção de edifícios altos. Mas o esquecimento é aliado da especulação e a cidade começou a ganhar altura. A própria viabilidade define-se por obras elevadas, como as supervias e o viaduto sobre o Periférico. O predomínio solitário da Torre Latino-Americana e o «renascimento» do Hotel do México como World Trade Center foram eclipsados, em 1996, pela Torre Arcos Bosques, conhecida como El Pantalón (As Calças). Ao crepúsculo, a sombra deste edifício, desenhado em Santa Fé pelo arquitecto Teodoro González de León, estende-se de forma espectacular sobre uma cidade ainda baixa. Outro alarde de verticalidade surgiu no Passeio da Reforma com a Torre Maior, que entre 2003 e 2010 foi o edifício mais alto da América Latina. Ao seu lado multiplicaram-se outros edifícios que alteraram a paisagem urbana sem atingirem o gigantismo da cidade do Panamá onde, em 2016, se erguiam dezanove dos vinte e cinco edifícios mais altos da América Latina, quinze deles construídos depois da Torre Maior. No entanto, a dilatada expansão horizontal tem os dias contados. No Bairro Xoco, perto da casa onde escrevo estas linhas, abre-se um buraco imenso que pretende servir de base à construção mais alta da cidade: a Torre Mítikah, cujos sessenta e dois andares aspiram chegar aos duzentos e setenta e sete metros de altura. A terra que foi retirada daí conseguiria encher o Estádio 27
Asteca. O projecto, desenhado pelo arquitecto argentino César Pelli, autor das torres rutilantes de Kuala Lumpur, foi contestado pelos ecologistas, foi interrompido devido aos problemas para cobrir o orçamento de cem milhões de dólares e encontra-se agora em pré-venda. Previsivelmente, este portento trará não só engarrafamentos de carros, mas também de helicópteros. A cidade que se estendia à maneira de um oceano assume agora outra metáfora orientadora: a selva. Enquanto crescem as espécies invasoras, o território é uma espécie de pântano, uma massa de água estagnada entre palafitas que ganham altura. A voracidade vertical anuncia outra cidade, marcada pela avidez imobiliária e pelos infernos corporativos. A água potável que se vai buscar a trezentos quilómetros de distância e que sobe até ao vale por intermédio de grandes obras hidráulicas ainda terá de percorrer os sessenta e dois andares da Torre Mítikah. No bairro abastado de Santa Fé ruíram alguns edifícios, construídos sobre um terreno arenoso onde costumava haver minas. A Cidade do México morre de «sucesso» imobiliário. «Com usura não há casa de boa pedra», escreveu Ezra Pound. Os muitos modos de uma cidade Quando o escritor venezuelano Adriano González León visitou a Cidade do México admirou-se ao encontrar esta placa: «Materialistas: Proibido estacionar no absoluto». O autor de País Portátil demorou algum tempo a perceber que tinha chegado a um sítio onde o materialismo não é uma corrente filosófica, mas um trabalho de carga e descarga. A menção ao absoluto indicava que os camiões não deviam estacionar nem por um bocadinho. Aquela tabuleta era na realidade uma profecia da estagnação urbana: hoje em dia os materialistas estacionaram no absoluto. 28
Depois de vinte anos a escrever sobre a cidade, procurei uma noção de limite e encontrei-a na paisagem. Retrato o último meio século de uma imensa cidade baixa. Cada tijolo que ganha altura exige o fim deste trabalho. De resto, ter deixado de ser Distrito Federal em 2016 para se transformar em Cidade do México também representa o fim de uma era. Kierkegaard afirmou que a vida acontece para a frente, mas que se compreende para trás. As explicações são sempre retrospectivas. De acordo com a mitologia pré-hispânica, os primeiros povoadores do Vale de Anáhuac perseguiam uma imagem profética: a águia a devorar uma serpente. Esta conjunção simbólica do ar e da terra foi avistada nas margens do lago de Texcoco. O sentido visionário de chegar aí fora cumprido. No entanto, como afirma o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, o mais interessante é a história ser posterior à chegada dos peregrinos. Os fundadores de Tenochtitlan estabeleceram-se nas margens do lago, mas faltava-lhes a explicação que o justificasse. Povo forasteiro, o Mexica ou Asteca carecia de uma tradição que o distinguisse. Para se dotar de uma epopeia fundadora, atribuiu a si próprio passados míticos alheios, o dos Toltecas e o dos Teotihuacanos. No século XV, os Mexicas inventaram a posteriori a lenda da sua grandeza. Desde então, o México-Tenochtitlan só adquire lógica para trás. Os planos não são para nós; a nossa tarefa consiste em decifrar um mistério que já ocorreu. A Vertigem Horizontal inscreve-se nessa longa tradição, mas depende de uma abordagem rigorosamente pessoal. Martin Scorsese elogiou a visão que Woody Allen tem de Nova Iorque, entre outras razões porque é muito diferente da sua. Proponho uma leitura entre milhões de leituras possíveis. Para Carlos Fuentes, «a Cidade do México é um fenómeno onde cabe a imaginação de todos. Tenho a certeza de que a cidade de Moctezuma vive latente, em conflito e confusão perpétuos 29
com as cidades do vice-rei Mendoza, da imperatriz Carlota, de Porfirio Díaz, de Uruchurtu e do terramoto de 1985. A quem se pode pedir uma versão única, ortodoxa, deste espectro urbano?» A cidade varia com a percepção que dela tem cada um dos seus habitantes. Ao longo de sessenta anos vivi nuns doze sítios diferentes, todas eles situados a sul do Viaduto, e isto define o meu olhar. Percorri parcialmente o labirinto. Como representar uma cidade que cresceu em volta do templo dual dos Astecas, mas há uns anos serviu de cenário natural ao apocalipse futurista do filme Elysium? Em O Imortal, Borges descreve uma urbe desorientadora, que confunde sem um fim preciso: «Abundavam o corredor sem saída, a janela alta inalcançável, a porta aparatosa que dava para um cubículo ou para um poço, as inacreditáveis escadas invertidas, com os degraus e a balaustrada para baixo.» Essa edificação demencial deve-se ao ócio dos imortais, que desperdiçam o tempo e desconhecem os objectivos finitos. Por instantes, a Cidade do México suscita um pasmo semelhante. Escrever acerca dela significa inventar-lhe explicações. Três décadas depois do terramoto A 19 de Setembro de 1985 os habitantes da capital pensaram que a expansão da cidade seria travada da pior maneira possível. O terramoto destruiu inúmeros edifícios, a maior parte deles públicos. Por momentos, pareceu impossível continuar a viver aqui. Mas o Distrito Federal foi salvo pelos seus habitantes. Durante dias sem trégua fomos socorristas improvisados e a cidade arrasada encontrou um novo rosto, fodido e coberto de pó, mas nosso. Mais de trinta anos depois, a cidade ainda existe. Este livro presta-lhe homenagem e testemunho. 30
Quis responder por escrito aos medos, aos sonhos, ao cansaço e à extravagância de viver neste sítio. Tentei também que o meu livro se aproximasse da forma como decidi habitar esta cidade, convencido de que é bom estar informado, mas de que os dados, muitas vezes amargos, não devem restringir as principais formas de resistência: o prazer e o sentido de humor. O meu relato ocorre em densidade, pois escrevo rodeado por milhões de pessoas que têm outra opinião sobre o mesmo assunto. O desconcerto vive-se de maneiras diversas e não admite uma versão definitiva. Escrever sobre a Cidade do México é, no fim de contas, um desafio tão esquivo como descrever a vertigem. Cidade do México, 24 de Junho de 2018
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VIVER NA CIDADE: «SE VIREM O JUAN…» Conheci o mundo no Bairro Insurgentes Mixcoac, zona de casas pequenas, construídas maioritariamente na década de 1930, onde o meu avô, pastor de ovelhas espanhol que chegou ao país para tentar fortuna, «fazer a América», ergueu um duplex com paredes de uma solidez extrema, inspiradas nalgum baluarte visto na infância. Em frente viviam outros espanhóis, donos da padaria La Veiga, a loja mais popular do bairro a par da Lavandaria Francesa, um estabelecimento enorme na Avenida Insurgentes, revelador da importância que nessa altura se atribuía à limpeza das nódoas da roupa. A casa dos Fernández, proprietários de La Veiga, tinha a mesma consistência quadrada da nossa. Pelos vistos, era a marca dos imigrantes que prosperavam, mas que continuavam a recear que o tecto lhes caísse em cima. As ruas do bairro tinham nomes de cidades espanholas. Vivíamos na esquina das Ruas Santander e Valencia. Eu passava imenso tempo sentado ao lado da passadeira à espera do espectáculo insólito de um carro a aproximar-se. Quando jogávamos futebol na rua, com as sarjetas como balizas, recorríamos a um grito atávico para anunciar o aparecimento ocasional de um veículo: «Água vai!» 32
Nos tempos do Vice-Reinado, as famílias desfaziam-se da urina atirando-a pela janela ao grito de «água vai!» Dois séculos depois, esse grito alertava-nos para a presença de um carro. A interrupção permitia-nos recuperar o fôlego e observar o modelo em questão. Se ia alguma mulher no interior, aproximávamo-nos da janela para lhe ver as pernas (começavam os tempos da minissaia). É difícil falar desses anos sem recorrer a um tom nostálgico. A cidade modificou-se de tal modo que o simples facto de a descrever parece uma crítica ao presente. Esclareço, para mitigar o conflito de gerações, que não desejo reencarnar no menino que cresceu em Mixcoac, «lugar de serpentes». Essa foi a pior época da minha vida. Não idealizo o que desapareceu, mas tenho de registar um facto inquestionável: a cidade de então era tão diferente que é quase escandaloso usar o mesmo nome. No bairro onde cresci bastava abrir a porta para socializar. De modo genérico, falávamos de «amigos do quarteirão», mesmo que se tratasse de simples conhecidos. Toda a gente se dirigia a palavra na rua, nem sempre com bons resultados. O isolamento era uma característica dos misantropos. Ao pé da minha casa havia uma casinha minúscula, sufocada por um jardim furioso, onde as plantas cresciam com a mesma desordem que afligia o cabelo do seu proprietário. Raras vezes o víamos sair. Além disso tinha um telescópio, indício de que as suas turbulências podiam ser astrais. A mulher dele dispunha dos atributos capilares, de vestuário e de unhas compridas para ser considerada bruxa, e até de um gato que a seguia com um estranho magnetismo. Esse casal sem filhos, isolado no seu minúsculo bastião, confirmava que só os muito extravagantes resistiam a falar com os outros. No entanto, a tarefa de socializar não era simples para alguém com seis anos, sem antecedentes na zona e com pais que viviam ali, mas raramente estavam em casa. O menino que saía para conhecer 33
os seus congéneres enfrentava uma complexa cultura da ofensa, que considerava desafiador «ficar a olhar» para uma pessoa (quantos segundos de insistência óptica conduziam a essa ofensa?), onde os diminutivos denotavam falta de virilidade e onde a cordialidade dependia menos do afecto do que do receio de ser agredido. A vida na rua regia-se por um darwinismo primário e por uma impositiva apropriação do espaço, onde uma palavra descabida podia trazer-nos problemas. O prestígio territorial impunha-se com os punhos, com o carisma ou com o dinheiro. Eu carecia dessas virtudes e precisava de protecção para não me transformar em escravo daqueles que ditavam a lei. A grande utopia da minha infância era ter um irmão mais velho. Ansiava que, por obra e graça de um acaso inexplicável, alguém com mais dois ou três anos do que eu aparecesse à porta de casa a exigir os direitos de primogénito que me apoquentavam. Ser o primeiro da minha estirpe obrigava-me a ir para a rua sem manual de instruções. Aos seis anos não era corajoso, carecia de uma personalidade arrebatadora e de dinheiro para cair nas boas graças dos outros, ao convidá-los para uns refrescos na venda La Colonial. Aceitaram-me no grupo sem me transformarem em súbdito do escalão mais baixo porque acharam piada à minha maneira de falar. Não tinha jeito nem queda para as anedotas, mas dizia coisas estranhas. Isso vinha das minhas revoltas influências culturais. O meu pai tinha nascido em Barcelona e crescido na Bélgica. Dizia peonza em vez de trompo (pião) e báculo em vez de bastón (bengala). O meu avô materno também era espanhol. Vivia no rés-do-chão do nosso duplex e quase nunca falava, mas quando o fazia parecia um sacerdote iracundo saído de um filme (naquele tempo, todos os sacerdotes do cinema mexicano falavam como espanhóis e o meu pai tinha feito o papel de padre em La sunamita, um filme de Héctor Mendoza baseado no conto de Inés Arredondo). 34
A minha avó era do Iucatão e contava histórias com um colorido pot-pourri linguístico. Quando se regozijava com alguma coisa dizia ¡chiquitipollo! em vez de ¡lero, lero!, «é bem feito!». Nem sempre a percebíamos. Desesperada com a nossa incompreensão, dizia: «¡Mato mi pavo!», que significava «Desisto». A minha mãe estudava Psicologia e passados alguns anos começaria a trabalhar no Hospital Psiquiátrico Infantil. Regressava a casa cansada de ver crianças profundamente afectadas, sem disposição para me suportar a mim e à minha irmã Carmen, crianças superficialmente afectadas. Eu estudava no Colégio Alemão Alexander von Humboldt. Por um capricho da deusa Fortuna, caí no grupo dos alemães. Aos seis anos sabia ler e escrever, mas só em alemão. Tudo isto fez de mim alguém que falava de maneira estranha. Não era uma grande virtude, mas essa singularidade livrou-me de algumas sovas e levou os mais fortes a proteger-me, como o teriam feito com um papagaio capaz de pronunciar palavras loucas ou de papaguear o plantel do campeoníssimo Guadalajara. O bairro tinha duas zonas misteriosas: a venda e as casas abandonadas. A venda cheirava a malaguetas em vinagre, a papel de embrulho e a coisas doces. Aquela caverna mal iluminada punha-nos em contacto com um universo longínquo e colorido – decididamente moderno –, o mundo onde se produziam as guloseimas envoltas no prodígio estaladiço do celofane. O nosso destino media-se em centavos: a Coca pequena custava trinta e cinco; a grande, quarenta e cinco, e a familiar, noventa; os polvorones, cinquenta; as chicletes Motitas, dez, e as Canguro, cinco centavos. A minha mente nunca esteve tão atenta à economia como nessa altura. Sou incapaz de me lembrar do preço daquilo que comprei ontem num Oxxo, mas não consigo esquecer-me de que o estranho Delaware Punch custava quarenta centavos, menos cinco do que uma Coca média. 35
Reuníamo-nos na venda La Colonial, mais do que para consumir, para conversarmos sobre qualquer assunto e cobiçarmos os bolinhos industriais que começavam a dominar o mercado com os seus nomes de histórias infantis: Gansitos e Pingüinos (mais tarde chegariam os Mamuts). Para nós, aquele sítio foi o equivalente à ágora de Atenas. O local para pensar a urbe. O outro destino de interesse eram as casas abandonadas. A vida imobiliária parecia submetida a intensas tragédias pessoais que obrigavam as pessoas a sair de um sítio sem porem um cartaz de «Arrenda-se». As plantas invadiam essas casas, e vagabundos ocasionais faziam fogueiras nos quartos com os restos de algum móvel. Pulávamos as grades terminadas em pontas de flor-de-lis para explorarmos esses museus do abandono e da desgraça. As casas vazias costumavam ser mais luxuosas do que as nossas, o que aumentava o enigma de terem sido entregues ao salitre e aos ratos. Que catástrofe explicava a fuga? A vida devia ter corrido muito mal a alguém para deixar aqueles quartos pintados de cor-de-rosa pastel à mercê das crianças da vizinhança. Explorei o bairro por minha conta, mas encontrei a minha principal amizade diante de casa. Uma solteirona ganhou uma grande afeição por mim. Vivia numa casa antiquada com soalho de madeira. Aí o ar cheirava a genciana e a trapos húmidos, a coisas boas e vagamente submarinas. Convidava-me para lanchar, pedia-me que lhe contasse episódios da escola, perguntava-me pelos gatos vadios e pedia-me que os baptizasse para ela. Uma tarde preparou-me um banho. Adorei entrar naquele quarto de mosaicos brancos e móveis arcaicos – um gomil desbeiçado, um armário com espelho duplo, uma banheira suportada por quatro garras de felino –, uma casa de banho da época da Revolução. Continuei a amizade em estado de demolha. À distância, surpreende-me a relação com essa mulher cujo nome não recordo e que baptizei como A Senhora Amiga. Não 36
houve toques nem indícios de um relacionamento erótico precoce e confuso. Não quis abusar de mim. Era, simplesmente, uma pessoa solitária. Parecia feita para as casas abandonadas do bairro. Passei bons momentos na sua companhia discreta, mergulhado num aprazível nirvana sem obrigações, até a minha mãe ficar a par do assunto e reagir como qualquer mulher inteligente que estuda Psicologia, ou seja, como uma louca. Foi a primeira cena de ciúmes a que assisti na minha vida, sendo o protagonista involuntário da afronta. A minha mãe acusou-me de preferir A Outra. – Se a amas assim tanto por que não ficas com ela? – perguntou, à beira de um ataque. Antes de que eu pudesse responder, foi buscar uma mala, levou-a para o meu quarto e começou a emalar as minhas coisas. Dobrou cuidadosamente as camisas e enrolou as peúgas sem que eu acreditasse que estava de facto a expulsar-me de casa. Tratava-se da minha mãe, da mulher que eu adorava a ponto de acreditar, com uma convicção granítica, que a sua biografia apareceria numa das minhas bandas desenhadas favoritas, Vidas Exemplares, que contava de forma melodramática os martírios dos santos. Vi-a meter os meus pertences na mala que usávamos para ir a Veracruz à espera que suspendesse, de um momento para outro, aquela tarefa absurda. Não o fez. De chofre, dirigiu-se à cozinha e regressou com o frasco do ferro. Eu tomava de manhã aquele xarope denso que supostamente ajudava a crescer. Quando o frasco entrou na mala, teve um efeito mágico: aquilo era real. Se a minha mãe se dava ao trabalho de trazer algo tão específico, não podia estar a brincar. Foi a melhor e mais dolorosa lição literária da minha vida. Para que uma cena seja verosímil requer alguma coisa que não devia estar aí, mas que, no entanto, está aí. A mosca na sopa. Essa presença insólita e ao mesmo tempo lógica atribui ao facto uma singularidade que só pode ser crível. 37
Ao ver o frasco na minha mala, ajoelhei-me, pedi perdão, jurei que nunca amaria outra mulher. Pude continuar em casa. Contei esta história em El libro salvaje, como uma homenagem aos ensinamentos literários da minha mãe e a uma ânsia tardia de superar o trauma de não a amar em exclusivo. A partir desse incidente, deixei de ir à rua. Concebi então uma fantasia negativa. Imaginava que fugia e que os meus pais sentiam muitas saudades minhas. Durante anos vivia no espaço oco de um ahuehuete, o enorme cipreste mexicano, em Chapultepec. Quando finalmente eles me encontravam, eu era já um mendigo balbuciante que tinha esquecido o espanhol. Ao verem as minhas taras linguísticas, provocadas pelo sofrimento e pela miséria – a minha esforçada desaprendizagem em Chapultepec –, os meus pais sentiam uma profunda compaixão por mim, mas, sobretudo, sentiam-se tremendamente culpados. Com luxo de pormenores, imaginava os seus rostos arrependidos. O meu ideal de vida consistia em arruinar-me para os fazer sofrer. Não tive oportunidade de exercer esse masoquismo porque eles alteraram o destino de outro modo. Ambos provinham de tradições separatistas: ele, da Catalunha; ela, do Iucatão. Não foi estranho terem-se separado quando eu tinha nove anos. Saímos da casa de Insurgentes Mixcoac e mudámo-nos para um apartamento do Bairro Del Valle. A família ficou reduzida à minha mãe, à minha irmã Carmen, dois anos mais nova do que eu, e a mim. O meu pai vivia muito perto, no edifício Aule, na esquina das Ruas Xola e Insurgentes. Almoçava lá em casa duas vezes por semana, dormia a sesta, e aos domingos levava-nos ao Jardim Zoológico ou ao cinema, e a mim, ao futebol. Esta aparência de normalidade não era suficiente num meio onde o divórcio se revestia do halo negro do fracasso e do escândalo. Nenhum dos meus colegas de escola tinha pais divorciados, e entre os meus novos amigos do quarteirão só os Mondragón 38
tinham passado por esta situação. Foi o primeiro motivo para me aproximar deles. O contacto com essa família mudou a minha vida para sempre. Jorge tinha a minha idade e isso facilitou a amizade. O mais velho dos irmãos, Gustavo, tinha mais quatro ou cinco anos do que nós, mas apreciava imenso a companhia dos mais novos. Passava as tardes a ensinar-nos novas formas de dominar a bola ou a dar-nos a conhecer grupos de rock. Percebi que a vida tinha sentido porque existiam o futebol e a música. Pouco depois, os Mondragón revelaram-me outro prodígio. Estudavam no Colégio Tepeyac, no Bairro Lindavista, a norte da cidade, e um dia convidaram-me para um treino dos Frailes, a equipa de futebol americano. Graças a essa travessia, entrei no labirinto. Atravessámos o Distrito Federal em autocarros e eléctricos. De forma intraduzível mas real senti que aquelas ruas, praças, rotundas, avenidas, cinemas, lojas, letreiros luminosos e parques desconhecidos eram meus. A minha família estava reduzida ao mínimo, eu estudava no Colégio Alemão onde não dominava frases com orações subordinadas em número suficiente para me integrar, e falava de uma forma estranha. Sentia-me deslocado. No entanto, a vastidão do território fez-me saber que aí podia ter lugar. Decidi ser da cidade, como se antes não o fosse. Decidi amá-la e menosprezá-la como só se ama e se menospreza o que nos pertence. Decidi compreendê-la, com uma mistura de entusiasmo e de assombro. Para o desorientado, o labirinto é uma casa. Acabado de mudar-me para o Bairro Del Valle, comecei a passar cada vez mais tempo nas ruas em volta da Cerrada de San Borja, o que era conveniente para a minha mãe que chegava muito tarde do Hospital Psiquiátrico Infantil. Às sete ou oito da noite, ela voltava a casa e não fazia a mais pequena ideia de onde eu estava. Isso não a preocupava minimamente. Não me 39