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Dezembro 2025 68 Edição

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Dezembro 2025

68º Edição

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Este ano queremos ser um postal de Natal Sim. Mesmo para os que nem são muito destas coisas do Natal e implicações respetivas Queremos dizer-vos que vos desejamos tudo o que há de bom no vosso Universo, e que tudo o que for positivo se multiplique em partilhas Acreditem nos vossos sonhos …Eles vão realizar-vos … Terminamos assim, em formato Natal e acreditem que teremos surpresas em 2026 Até já… . Num Dezembro muito frio em 2025

Adelina Barradas de Oliveira Diretora

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Indíce DEZEMBRO 2025

04 ....... A crueldade na voz do amor | Carla Paiva

06 ....... As leis da astrologia | Orlanda Pinheiro

08....... Cantinho do João | João Correia

10 ....... Pano para Mangas | Margarida Vargues

12....... Entrevista Wellington Pereira Carneiro | Por Carla Coelho

18....... São assim as mulheres | Licínia Quitério

20....... O céu em 2026 | Luís Ramos

24 ....... Ré em Causa Própria | Adelina Barradas de Oliveira

26....... Reinserção como te quero | Fernanda de Almeida Pinheiro

30....... Vertigens | Nelson Escórcio

32 ....... O Mar Logo Ali | Ana Gomes

34 ....... Flores na Abíssinia | Carla Coelho

38 ....... Entre Linhas |

Recomendações literárias

DIRECÇÃO: ADELINA BARRADAS DE OLIVEIRA DESIGN E PRODUÇÃO: INÊS OLIVEIRA PUBLICAÇÕES: ISSUU.COM/JUSTICACOMA FACEBOOK: JUSTIÇA COM A

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A CRUELDADE NA VOZ DO AMOR

CARLA PAIVA

A casa que deve albergar e ser ninho e paz e sossego e compreensão e empatia, e amor, porque é disso que se fala quando nos reportamos ao casamento, ou à partilha de vida de duas pessoas que se amam, com igualdade de direitos e deveres, dos cônjuges, ou dos dois seres humanos que coabitam no amor, e a palavra amor subentende respeito – e não apenas os deveres conjugais debitados numa lei obsoleta e a meu ver desrespeitosa dos deveres da personalidade e do bem jurídico, é a casa dos horrores dos tormentos e das lágrimas suadas, e sufocadas num almofada testemunha de tantas coisas. Perguntar-me-ia se o débito conjugal, por exemplo, não é por si só um atentado aos direitos da personalidade, bem como uma ofensa aos bens jurídicos e “in maxime” a potencialização de um crime, ou pelo menos a abertura de portas para que o mesmo seja cometido sob a alçada de dever conjugal – débito – já estamos em dívida logo à cabeça!

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Mas na realidade o que me traz a este texto é o facto de um agressor, regra geral, após as diligências das vítimas, quando as há, as diligências, continuar a sua vida airosamente. A vítima no meio de tanta miséria humana, de depoimentos e perguntas que são necessárias, tem de se “desenrascar” e procurar uma casa, ou pedir ajuda, ou recorrer a família ou a instituições de forma a por algum tempo garantir a sua segurança e muitas vezes a dos filhos, mas o impulso tem de ser da vítima, o sair de casa carregando uma culpa nas costas que não é sua, ter que abandonar a casa de família sem culpa, mas com à mesma depositada nas suas costas é revitimizante, assemelha-se a uma derrota – fiz queixa, mas tenho que sair deixar tudo para trás – uma pena sem culpa. O agressor fica no seu espaço, na sua casa, dono de si próprio, dos bens, de tudo, é-lhe dado um aval do benefício da dúvida. A questão é, porque é que, depois de ser dado o estatuto de vítima à vítima, esta não deveria ficar na sua casa de morada de família e o agressor teria de sair e procurar uma solução com medida de afastamento imediato – o “in dúbio pro réu ” vê-se “ em sede própria e depois logos se veria se caso a vítima não conseguisse provar os factos então teria de indemnizar o então “agressor”. Seria uma possível solução. O que não pode acontecer é que o agressor se acha no direito de agredir, perseguir, amedrontar, e até matar, porque lhe é dada essa liberdade.

criminalmente e eliminar a violência doméstica, promovendo a cooperação internacional conceber um quadro global com políticas e medidas de protecção e assistência para todas as vítimas, o que se me afigura necessário é esta tem de ser uma abordagem integrada a fim de assegurar uma verdadeira protecção, e passa por afastar o agressor, assim que a queixa é feita. É a demora de todo este processo que leva a que as vítimas não prestem declarações, tenham medo das consequências, não se sintam protegidas pelo sistema, e por isso os silêncios, pela sociedade e muitas vezes pela própria família…é vergonhoso, é um estigma social, ainda que seja um crime transversal, não tem classe social, é o choro em silêncio, é o grito de dor sufocado no banho para que as crianças não oiçam, é o medo de chegar a casa, da discussão que surge do nada, do empurrão, da bofetada, do escalar impune de um comportamento terrivelmente perigoso, porque dentro de portas o “lobo”, e fora delas o “cordeiro”. Não somos nós que temos que sair, muitas vezes com a roupa e pouco mais…têm que ser eles a procurar um quarto, um espaço para viver enquanto se apura a verdade, mas deem à vítima o benefício da dúvida de anos de sofrimento, deem-lhe o benefício de alguns dias de paz, deem-lhe a dignidade do colo que qualquer vítima merece.

A lei deve ser mudada, a lei tem de ser mudada. A Convenção de Istambul tem como objectivo proteger as mulheres contra toda e qualquer forma de violência, prevenir e processar

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ORLANDA PINHEIRO

As leis da Astrologia

A astrologia, praticada há milénios em diversas culturas, baseia-se na observação dos movimentos celestes e na relação simbólica entre o céu e a experiência humana. Embora não opere segundo leis científicas no sentido moderno, ela estrutura-se a partir de princípios, regras interpretativas e correspondências simbólicas, que funcionam como “leis”. Estes fundamentos orientam a leitura de mapas astrais, previsões e análises de cada personalidade.

coordenadas, define a posição de cada um dos planetas, na sua casa e no seu signo. Sim, porque cada um de nós tem um pouco de cada um dos signos dentro do seu mapa e é mesmo a posição dos planetas que irá a ajudar a determinar o resto.

Na minha interpretação daquilo que é a astrologia, a nossa decisão prevalece sempre, porque, não obstante existirem influências externas, a nossa atitude perante o que nos acontece, acaba por ser sempre muito importante e decisiva no desenrolar dos acontecimentos. E é por isso que se diz que a astrologia é “o Para se estudar astrologia, estudamos todos estudo dos astros”. os posicionamentos em graus de cada planeta, Deriva do grego “astrou” que significa porque só a conjunção de todos nos permite uma “astros”, “estrelas” e ainda “logos”, com o análise fiel de nós mesmos. significado de “estudo”. É a interpretação da relação simbólica entre E esta é a minha leitura - a astrologia é uma os movimentos celestes e os eventos terrestres e, boa ferramenta de autoconhecimento. por isso, sempre foram observados os ciclos da lua, O ano de 2026, marca o início de um novo as estações, os planetas e o seu impacto na vida ciclo planetário. Os planetas transpessoais Úrano, humana, sendo que, ao longo dos anos, o estudo Neptuno e Plutão assentam, presença nos novos foi-se aprofundando cada vez mais, mantendo, signos, como se estivesses a atravessar o limiar no entanto, sempre o maior rigor matemático. de uma nova era, que aliás a numerologia já A minha proposta, neste pequeno artigo, é anunciava :2+0+2+6=10, ou seja um ano 1. um pouco a desconstrução daquilo que é a análise de um mapa astral, começando, pelo conceito de Deixo, as tendências para 2026, para cada um mapa astral que é uma fotografia do céu, no dia, dos signos, no entanto alerto que só com a análise mês, hora, ano e local do nosso nascimento. individual as mesmas podem ser mais especificas Estes elementos dão o mote para aquilo que para cada um de nós: é a análise individual de um mapa, que com estas

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Carneiro 20 /21 de março -19 / 20 de abril Em 2026, a presença de Saturo e Neptuno, pede pausa, silêncio, escuta interior e recolhimento. Momento para dizer “sim” a si mesmo e seguir em frente. Os carneiros devem aliar a impulsividade, que lhes é característica, com as ovas aprendizagens. Touro 19/20 de abril -20/21 de maio Este novo ano, traz para os Taurinos a necessidade de simplificar, organizar ideias, grupos ou ambientes por onde se movimenta. Fecho de um ciclo importante de vida, já que Úrano, se afasta agora de forma definitiva, sem o medo da mudança, tão característico neles. Gémeos 20/21 de maio- 20/ 21 de junho 2026, chega para revolucionar os nativos de gémeos: o que quer mudar? O que quer construir? O que não lhe serve? A presença de Úrano, para estes nativos vai exigir mudanças e revoluções. O segredo aqui é estar atento aos sinais que estão sempre lá, e usar a curiosidade que vos é inata, aliada com boa comunicação, ou não fosse o vosso regente o planeta Mercúrio. Caranguejo 20/21 de junho -22 / 23 de julho O vosso 2026 começa ainda numa fase muito promissora e luminosa, com a presença de Júpiter. O ano vosso ano promete crescimento, financeiro e amadurecimento emocional. Tempo de se afirmar, confiar e iniciar um novo ciclo. Quando Júpiter entrar em Leão as oportunidades podem ampliar. Leão 22 / 23 de julho - 22 / 23 de agosto O ano de 2026 é um fechar de ciclos, por isso a vida irá pedir resiliência e confiança para melhor receber um novo ciclo de 12 anos com maior brilho e autenticidade. Pode ser o início de um ciclo de destaque e expansão. Vão colher o que foi plantado, nos últimos anos. Plutão em Aquário pede um equilíbrio entre o “eu” e o “nós”. Virgem 22 / 23 de agosto -22 /23 de setembro O início do ano favorece compromissos sérios, mas também um mergulho interno nas suas próprias emoções. Em 2026, os Virginianos estão a colher os frutos e os seus esforços, nos últimos anos. Júpiter pode favorecer o trabalho em equipa Confie em si que o universo irá devolver.

Reorganização nas relações e na vida profissional, eventualmente definir novos rumos. Mote a ter presente: leveza é importante no dia a dia. Escorpião 22/23 de outubro - 21/22 de novembro O vosso 2026 pede equilíbrio entre o silêncio interno e ação mo mundo. Vocês estão a viver um ciclo de profunda transformação e expansão profissional. A retrogradação de Vénus, no vosso signo irá intensificar as emoções e os pedidos de revisão. Vais sentir vontade de expandir os seus conhecimentos e de fazer mudanças estruturais. Sagitário 21/22 de novembro - 21/22 de dezembro O novo ano pede um olhar para o mundo com maior honestidade para depois transformar o que não serve. Restruturação nas rotinas e eventualmente nas finanças. No amor, o desafio será equilibrar liberdade e compromisso. Capricórnio 21/22 de dezembro - 20/ 21 de janeiro ​Urgência para reorganizar a vida prática, mas também o emocional, o que poderá significar curar feridas antigas. O signo de Capricórnio, foi o que vivenciou maiores mudanças nos últimos anos, já que contou com a presença de Plutão. O foco do ano é consolidar as conquistas, já que Júpiter e Úrano podem trazer oportunidades de expansão. Aquário 20 /21 de janeiro a 18/19 fevereiro Novos caminhos e novas ideias, rumos diferentes que podem mudar tudo, já que Plutão está no vosso signo, nos próximos anos. Autenticidade e mudança são as palavras de ordem. Agir em consciência e construir relações baseadas em liberdade e verdade. Peixes 18 /19 fevereiro a 20 /21 de março Para vocês o ano de 2026 traz cura, criatividade e uma nova visão sobre o amor. Júpiter e Neptuno reforçam a vossa intuição e sensibilidade, mas também exigem foco para não dispersar Vai-se sentir conectada ao seu propósito mais do que nunca, mas o ano pede sintonia entre corpo, mente e alma.

Balança 22/23 de setembro-22 /23 de outubro O vosso 2026 promete ser um ano marcante tanto a nível profissional como nas relações que lhe são mais próximas.

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CANTINHO DO JOÃO João Correia

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O Mar na cor azul-escura das noites frias de dezembro José, sem saber porquê, fechou os olhos. Não como quem dorme, mas como quem escuta melhor. A cabeça deixou de balançar, os pés afundaram-se um pouco mais na areia fria, agora já marcada pelo inverno que se aproximava, e o vento, percebendo essa mudança mínima, pareceu ajustar-se a ela. Já não era apenas toque: era presença.

a rabanadas e a açúcar quente. Um rádio antigo a tocar uma música lenta, quase desafinada. José franziu o sobrolho, não por confusão, mas por reconhecimento, como se aquelas sensações lhe fossem familiares, mesmo sem nunca as ter vivido exatamente assim.

Abriu os olhos. O céu tinha a cor azul-escura das noites frias de dezembro, com uma primeira O ar trazia um frio diferente, cortante, mas estrela a surgir, tímida. José sentiu-se pequeno, limpo, misturado com um cheiro distante a mas não insignificante. Pequeno como uma vela lenha queimada vindo das casas junto à praia. acesa num canto da sala — frágil, mas capaz de José pensou, sem pensar muito, no Natal que se iluminar. aproximava. Nas luzes que em breve apareceriam nas janelas, piscando cores improváveis naquele Levantou-se, sacudindo a areia dos lugar onde o mar costumava mandar mais do que calcanhares, e por um instante teve a certeza de as pessoas. O vento parecia carregar pequenos que, se quisesse, poderia responder ao vento. sinos invisíveis, um tilintar suave que não vinha de Talvez enviando-lhe um desejo simples, como os lado nenhum e de todo o lado ao mesmo tempo. que se fazem em silêncio na noite de Natal. Não o fez. Ainda não. Limitou-se a sorrir, um sorriso Nesse silêncio feito de mar escuro e de curto e contido, como quem guarda um segredo. gaivotas raras, José sentiu um peso leve no peito, uma espécie de aperto morno, como quando se Enquanto caminhava de volta para casa, com entra numa casa aquecida depois de muito frio. o frio a apertar e o Natal a aproximar-se devagar, Não era tristeza, não era alegria, era expectativa. José não sabia que aquele final de tarde ficaria Uma emoção sem nome, como tantas que ele com ele para sempre. Sabia apenas que, mesmo sentia e nunca conseguira explicar. Talvez fosse no inverno, voltaria à praia. Porque ali, entre o parecida com a sensação da noite de Natal, vento, o mar e aquela promessa invisível de luz, o quando tudo parece suspenso e até os adultos mundo parecia falar-lhe com a mesma delicadeza falam mais baixo. com que se fala a uma criança na véspera de Natal. O vento trouxe-lhe imagens que não eram imagens, memórias que não eram dele. Uma mesa simples com uma toalha branca. O cheiro

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PANO PARA MANGAS Margarida Vargues

EM TOM DE CONFISSÃO Confesso-me num silêncio de olhar cerrado, como se todas as palavras que constroem cenários dentro da minha cabeça fossem as únicas possíveis e verdadeiras. Como se nelas residisse uma única hipótese de penitência, ou talvez de construção de uma realidade onde o que é dito nunca poderá ser desfeito. Confesso? Não… Não tenho nada a confessar. Até porque esta palavra, dita, escrita, pensada, imaginada num contexto sem som, ecoa ao pecado que a religião nos faz crer existir nos mais pequenos devaneios diários. Parece ser tudo inapropriado a uma realidade que se diz livre. Livre para se amar quem se quiser. Livre para se ser quem se desejar. Livre para se ser feliz. Livre para se deixar mergulhar na amargura em que (não) nos podemos transformar. E, no entanto, esta liberdade nunca chega sem amarras. Como se cada escolha fosse uma algema dourada, bela mas limitadora. Preferia soltar estes devaneios, afinal, como diz o ditado, palavras leva-as o vento, ou se escritas no papel podem acabar fugidas numa enxurrada ou destruídas pelo poder do fogo.

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Os quatro elementos. Sempre. O ar. A água. O fogo. A terra. E a terra? A terra é onde quero viver as tais pequenas fantasias diárias que tendo a ocultar nas confissões silenciosas. A terra, ao contrário do vento que se dispersa ou do fogo que consome, parece-me a única que pode sustentar o peso do que somos e das palavras que dizemos. Mas até ela, com o tempo, esgota-se, quebra-se, transforma-se noutra coisa que não sabemos, muitas vezes, o que é.

têm o poder de me transformar. Em boa ou má pessoa? Isso pouco importa. Consigo aniquilarme pelo amor que sinto e é-me possível sobreviver no seu oposto. Há um ponto de encontro, um limbo, onde as linhas do amor e do ódio se cruzam, como num desenho geométrico perfeito, mas cruel. Os anos transformam a vida num labirinto de encontros e desencontros. Visto de cima, poderíamos saber onde estamos, quem vem na nossa direção ou quem caminha à nossa frente a uma distância segura para que se evite um choque em cadeia. É um emaranhado que nos chega sem a tecnologia de ponta de um GPS. É um espaço onde os limites se encontram com a ciência, mas de onde ninguém sai ileso.

O tempo, senhor de tudo isto, terá o trabalho de as fazer esquecer ou de as tornar grandes. Pouco importa. São confissões que, depois de partir, já não me poderão causar qualquer prejuízo. Mas pergunto-me: que preço pagamos por esquecer? E, se crescerem, que impacto terão no que sou?

O labirinto dá sentido à vida? E as confissões e devaneios conferem-lhe som?

Acomodo-me. Ou não.

O que faz, então, aqui o amor e o ódio, amarrados ao mesmo porto? O porto do medo de amar. O porto do receio de odiar. Lutam, ambos, pelo mesmo barco, enquanto o mantêm à deriva no labirinto da vida.

Solto as confissões. Transformo-as. Tiro-lhes o peso do pecado e faço com que se tornem mel aos ouvidos de quem as recebe. E o prejuízo que não se vive no esquecimento? Aceito-o na liberdade de ser quem sou. Em quem me transformo. Mudo, apenas o tom. Digo-te, com o coração na alma, o quanto te amo, mas que me amo mais ainda. Digo-te o fel do quanto te odeio e que esse ódio me corrói as entranhas. Digo-te que amor e ódio são opostos que se atraem e que me afastam do tom confessional. O amor, enquanto tal, é tão rebelde quanto o ódio que se cola ao corpo, à alma, à vida. Ambos

Talvez sim. Que cada curva inesperada, cada confissão sussurrada ou gritada, são os ecos que enchem o seu vazio e o tiram da escuridão.

E, aí, vislumbra-se algo mais. De um destino, ou pelo menos de uma ideia de destino. Não é um fim - porque finais são definitivos - mas talvez uma pausa. Um momento em que as confissões se tornam não num peso, mas numa ponte. Uma forma de atravessar as águas turvas e chegar ao outra margem. Lá, espero encontrar a terra novamente. E nela, as sementes dos meus devaneios, antes sufocados, terão espaço para crescer. E talvez, só talvez, o vento que antes levava as palavras seja agora a brisa que as faz florescer.

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Entrevista

Wellington Pereira Carneiro 12


Nascido no Brasil em 1966, Welington Pereira Carneiro tem um percurso impressionante, no plano académico e profissional. Estudou Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade do Vale de Paraíba e mestrado em Direito Internacional na Roccisky Universitet Drujby Narodov, em Moscovo. Doutorou-se em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Desde 2004 integrou as Nações Unidas, trabalhand no Brasil, Sudão, Ásia Central, Cazaquistão, Colômbia, Líbano, Angola, Rússia e Suíça, ao serviço daquela entidade (ACNUR). Ao currículo como trabalhador humanitário e pesquisador junta ainda o trabalho como romancista. É autor de Floradas em Atacama – A Noite dos Cachorros Loucos. A obra é composta por quatro volumes, ao longo dos quais acompanhamos Maria da Graça e Emília numa história em que a memória, a resistência e o exílio são temas principais. Gregório Câmara e Vale do Coveiro são locais inventados à dimensão das vivências do autor. O primeiro volume da tetralogia venceu o Prémio Bunkyo de Literatura de 2023. É ele que serve de pretexto à nossa conversa, numa tarde quente do Verão Lisboeta, depois de uma ida ao Panteão, ao encontro de Eça de Queirós. Como surge a escrita na sua vida? O meu impulso, o meu primeiro mentor foi uma das minhas tias. Ela era uma mulher muito culta. Sucedeu que em jovem, eu estava muito entusiasmado com os processos de redemocratização da América Latina. Por isso, nos anos 90 fui estudar Direito Internacional para a Rússia. Ali, assisti a muitas coisas, vivi momentos históricos, conheci culturas completamente diferentes, tinha muitas histórias. Quando fui visitar a minha tia no Rio de Janeiro, ela disse-me que eu devia escrever sobre tudo isso. Não sei se ela se estava a referir a alguma obra histórica ou científica ou se estava a pensar em ficção. Mas eu gostava mais de ficção e por isso fui por aí. A ironia do destino é que não escrevi nada sobre a Rússia. Escrevi ficção, mas sobre a minha infância e outros temas. Mas esse foi o fio condutor. E como passamos daí para as personagens de Emília e Maria da Graça? Ouvi uma entrevista em que diz que esteve dez anos a pensar sobre esta obra. No primeiro volume da obra há uma frase em que diz que a personagem vai pela rua e há um rumo que a encontra. Gostava de perceber se foi o Wellington que as encontrou ou se foram elas que o encontraram? Quando me fui despedir da minha tia ao Rio de Janeiro antes de ir para o Panamá (via São Paulo), o rumo me encontrou. Fui apanhar o ónibus e estava a subir as escadas da estação pensando em como ia começar, pensando nas histórias da minha família. Eu sou de Minas Gerais, um estado muito antigo, onde há uma tradição de narração oral muito forte. Inclusive, há uma expressão para isso, “contar o causo”. Os meus pais e tias juntavamse na noite de final do ano e ali contavam histórias sobre a sua infância. Pensei que esse rico acervo de causos familiares era uma boa forma de começar na escrita. Quando ia a subir a escadaria da estação de ónibus vejo a indicação de Barbacena. Foi aí que o meu avô nasceu.

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Entrevista Wellington Pereira Carneiro

E naquele momento decidi ir a Barbacena. Era uma viagem de oito horas. Fui lá antes de ir para São Paulo onde tinha voo para marcado para o Panamá. O meu avô nasceu em Barbacena e eu sou o único da família que visitou o lugar. Todas as descrições de Gregório Câmara são inspiradas em Barbacena.

situação brasileira. Num livro mais adiante vejo a opção pelo esquecimento como sendo um esquecimento compulsório. Há um movimento para não lembrarmos os momentos maus. Mas isso não pode ser assim. Sem lembrarmos as coisas ruins perdemos o rumo, não sabemos para onde vamos. É essa a situação de Emília.

Surgiu assim a Maria da Graça?

Sei que o Wellington tem a história toda pensada. A Maria da Graça e a Emília não o surpreendem de vez em quando com coisas que não estava à espera que elas dissessem ou fizessem?

Sim. Ela é alguém que saiu do interior, teve uma infância infeliz e por isso fala muito disso. Rompe com o mito da infância feliz. A infância nem sempre é feliz. É uma época de muita insegurança, de muitas dúvidas e, claro, depois de ela passar, a memória vai-se depurando. A memória separa as coisas ruins e preserva as boas. A memória é um tema importante nos meus livros. Precisamos de ter memória, mas não podemos lembrar-nos de tudo. Se formos ver na nossa infância nem sempre fomos felizes, mas a memória preserva o que foi importante e nós ressaltamos o que é feliz. Esse tema da memória está muito presente no livro. Uma das personagens não tem memória. Queria perceber se na situação individual de amnésia de Emília há uma mensagem para todos nós? A preocupação na construção da personagem da Emília é precisamente a metáfora de que o esquecimento nos conduz à infelicidade. Não ter memória histórica leva-nos a repetir os erros do passado. Um povo que não sabe de onde veio, não sabe para onde vai. E isso é uma metáfora da

Com certeza. Eu acho que o bonito da experiência da escrita é que quando criamos o personagem ele adquire vida própria. Muitas vezes surpreende o escritor, impõe uma certa dinâmica que o autor tem de respeitar. O personagem vai-se desenvolvendo e chega um momento que se rebela contra o escritor. Pode parecer esquizofrénico, mas é assim. O personagem da Emília, à medida que descobre coisas sobre si, muda um pouco de rumo, de atitude. Há uma tomada de consciência que leva a que ele escreva o livro com o autor. Sem demasiados spoilers, pode explicar porque motivo o livro tem o título Floradas em Atacama - A noite dos cachorros loucos? Estamos sempre à procura de verdades perdidas. A noite dos cachorros loucos é um título que assenta num episódio histórico. Nos anos 30 do passado houve uma revolta de doceiras em Minas Gerais. O Brasil era um país exportador de sobremesas, na época.

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Entrevista Wellington Pereira Carneiro

Exportávamos açúcar e café. Quando surge a crise, a primeira coisa cortada foi o supérfluo, a sobremesa. Há registo de um conflito entre os senhores dos engenhos dos açúcares e as doceiras e de ameaça de intervenção militar decido à acção destas. No interior do Brasil há um mito de que os cães cheiram o medo não sei se aqui também existe. No evento em Gregório Câmara todos tinham muito medo, o que se espalha pela zona, pelo Vale do Coveiro, atraindo cachorros que confluem na cidade. Por isso ninguém consegue sair de casa nessa noite, pois à época uma mordida de cachorro louco era morte certa. Nesse contexto acontecem muitas coisas pois ninguém pode sair de casa e quem tinha saído tem de se refugiar. E Floradas em Atacama? É um contraponto ao surgimento de Emília na história. Ela foi encontrada muito ferida e não sabe o que lhe aconteceu. O deserto de Atacama, no Chile, é muito seco. Mas de oito em oito anos cai uma brisa húmida, não chega a ser chuva, eles chamam-lhe camanchaca. Cai no deserto e há uma floração. É nesse momento que Emília é salva por uma mulher que ela não sabe quem é. Mas é essa pessoa que a resgata. As floradas em Atacama são uma metáfora da vida que não se rende. Ainda não vi as floradas espero vê-las um dia no deserto de Atacama. O Wellington tem também uma preocupação estética muito grande na sua escrita. Gostava de perceber, tendo até em conta a sua vida profissional intensa,

como encontra espaço mental e emocional para depois procurar estas imagens, esta linguagem detalhada e bonita? Acho que a prosa e poesia se misturam. Os géneros literários misturam-se. O melhor da poesia brasileira é cantado. Isso foi reconhecido com a atribuição do Prémio Camões a Chico Buarque da Holanda. Para mim, alguma da melhor poesia está em forma de prosa. O lado bonito da vida e da escrita sempre existe. Está na prosa, na música, na poesia. Na minha vida trabalhando em zonas remotas, campos de refugiados, locais onde se vê o lado menos bonito da humanidade, acho que também é um acto de resistência, não se brutalizar, não se acostumar com a brutalidade, não se tornar insensível, pelo que vemos todos os dias. A literatura ajudoume muito a preencher-me de beleza nos meus tempos livres. Uma grande parte dos meus livros foram escritos nesses cenários difíceis e foram também uma espécie de terapia para enfrentar as realidades que surgiam na minha vida profissional. Quem são as pessoas, os artistas, incontornáveis para o Wellington cultivar essa beleza? Em termos de autores, tenho de começar por mencionar a literatura portuguesa em língua africana. Comecei a lê-la nos anos 80 e ela também está impregnada destes temas, da violência, das guerras e independência. Mas também do misticismo africano, tal como vamos encontrar o realismo mágico na América Latina com Garcia Marques, Isabel Allende ou o próprio Jorge Amado

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com Dona Flor e seus Dois Maridos, um vivo e outro morto, que convivem. Essa coisa fantástica que temos muitas vezes na literatura é incontornável. Para mim, foi uma influência muito grande. A realidade é fantástica e o fantástico muitas vezes é real. Independentemente de acreditarmos ou não. Foi essa influência literária que me levou a escrever. O realismo é bonito, mas o realismo fantástico o complementa. Porque ri e subverte a realidade. Cria imagens muito bonitas sobre o que é a vida quando deixamos a imaginação correr.

Podemos acompanhar o trabalho deste autor através das redes sociais. Instagram: @carneirowell Facebook: Well Pereira Carneiro * A entrevista foi editada para efeitos da sua passagem à forma escrita.

Para lá da literatura africana e da latinoamericana também a literatura russa. Ela faz parte da minha história. Toda essa busca pelo âmago da alma humana é uma contribuição importante trazida pela literatura russa e que eu também vou incorporando. O livro está à venda em Portugal? Não, pode ser encomendado via Amazon. Para mim, Portugal é uma meca da literatura. Esqueci-me de mencionar Saramago, mas ele é obviamente uma referência. O Ensaio sobre a Cegueira é uma obra do fantástico. E também tem esse tema da busca por entender a crueldade humana, uma coisa muito importante na literatura. Quero participar mais na vida literária em Portugal, pois é um público que consome literatura de qualidade. Isso explica a cena literária fantástica que existe em Portugal. Nem todos os países têm isso. Não sou especialista, mas neste momento vejo muita coisa bonita na literatura portuguesa.

Floradas em atacama - a noite dos cachorros loucos. Pode adquirir o livro: A Q U I

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LÍCINIA QUITÉRIO

São assim as mulheres. Calíopes, Cassandras. Pelo tempo dos tempos outros nomes tomando, outros cabelos, outros rostos. Doces e amargas. Sibilas e cerejas. Caçadoras, tecedeiras. Encantadoras e encantadas. Mulheres-serpentes. Mulheres-sereias. Mulheres-mães. Mulheres-filhas. Cantoras nas alturas. Chorosas e risonhas. Perversas amantes. Viúvas eternas. Julietas, Colombinas. Asseadas Marias. Não te demores Maria. Deixa o homem Maria. São todas assim. Mulheres-gregas, Mulheres-etíopes, Mulheres-da-França. Mães de Tebas. Enigmas por decifrar.

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NO SÍTIO DAS MULHERES ESTREMEÇO E TEÇO E PARTO Pode adquirir o livro aqui


São assim as mulheres

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Luís Ramos Luís Ramos, nascido em 1985 em Lisboa. Formou-se em Engenharia El e c t r o t é c n ica pel o I SE L. Trouxe sempre consigo um gosto genuíno pela ciência. Curioso por natureza, interessa-se pela astronomia amadora a partir dos 18 anos, passando esta actividade a fazer parte permanente dos seus hobbies. Defende a ideia de que as diferentes disciplinas se encontram ligadas umas às outras, sendo por isso importante criar as pontes necessárias para o desenvolvimento do conhecimento com amplos horizontes.

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O CÉU

EM 2026 A t e n ta t i va de ex pl icar os céus e a s ua origem despertou curiosidade à humanidade desde que há memória da sua existência. A experiência de enfrentar o cosmos numa noite limpa pode ser avassaladora, desconcertante, imponente e inspiradora. O certo é que não há espírito que lhe f ique indiferente. É errado pensar que só pode se interessar p o r e s t a t e m á t i ca q u e m s a b e m u i t o d e ciências, aqui todos são bem-vindos. Esqueça igualmente os telescópios, fazer astronomia enquanto hobby é começar, antes de mais, a olhar apenas para o céu. Proponho-me, por isso, a escrever as previsões precisas para 2026 e que são de fácil observação. Comecemos por uma dinâmica simples e com a qual podemos ter um contacto diário com relativa facilidade. Com certeza que observou o nascer e o pôr-do-sol, mas um olhar mais atento permite perceber que passado algum tempo (um mês, por exemplo), quando observado do mesmo local, o Sol já nasce e põe-se num lugar diferente no horizonte. Isto acontece porque a Terra está inclinada (23,5º) em relação ao plano da sua órbita. À medida que a Terra se vai deslocando à volta do Sol, no chamado movimento de translação, vaise dando um efeito que se traduz em mais ou menos tempo de luz solar conforme a altura do ano em que estamos. Em resumo, para um observador localizado numa zona setentrional no Verão verá o amanhecer e o ocaso a acontecer mais a Norte, enquanto no

Inverno verá o mesmo a acontecer mais a Sul. Convido assim o leitor a fazer este exercício, vá observando o nascer ou o pôr-do-sol, sempre do mesmo local, e tire uma fotograf ia em cada uma destas ocasiões. Ao f inal de um ano compare os sítios onde o Sol andou no horizonte. Este movimento foi sempre muito apreciado ou mesmo deif icado pelos povos que viveram sobretudo no período neolítico e que viam nisto algo divino, ou pelo menos uma verdadeira conexão entre o céu e a Terra. Af inal de contas era possível estabelecer um nexo de causalidade entre os movimentos do Sol e os seus efeitos na Terra, uma vez que no Outono e no Inverno havia mais escuridão, estava mais frio e a natureza retraía-se trazendo menos vida no geral, sendo que, pelo contrário, as épocas da Primavera e do Verão estavam cheias de luz, calor e vida. Aos dias de hoje as coisas não diferem, nem nesta lógica, nem em termos de estações do ano, porém já não nos interessamos tanto por estes efeitos, essencialmente porque a nossa sobrevivência deixou de depender disto há muito tempo. Ainda assim, e porque não deixam de ser efemérides de interesse, em 2026 o início das estações será nas seguintes datas: Equinócio de Primavera e Outono a 20 de Março e 22 de Setembro, respetivamente, e os Solstícios de Verão e Inverno acontecerão a 21 de Junho e 21 de Dezembro. Quem sabe se o leitor não quererá começar o desaf io que propus justamente numa destas datas?

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O CÉU EM 2026 Em 2026, vamos ter a oportunidade de ver um eclipse total do Sol no dia 12 de Agosto. Contudo, para isto é necessário que se desloque até Espanha já que a faixa da sombra total atravessará a península ibérica numa diagonal, começando na Galiza e terminando logo após as ilhas baleares. Caso f ique por Portugal, o eclipse não será total, mas ainda assim será um espetáculo que não deve mesmo perder e que terá o seu apogeu pelas 19:36hr em Lisboa. Escolha um local de horizonte desimpedido uma vez que o Sol se encontrará bastante baixo a esta hora. Nota importante para se observar o Sol: usar uns óculos próprios para o efeito ou através de um telescópio munido de um f iltro adequado. Ainda durante o mês de Agosto, no dia 28, haverá um eclipse parcial da Lua. A hora não será convidativa já que o máximo de encobrimento da Lua acontecerá pelas 05:00 horas da madrugada. Ainda assim valerá o esforço da hora, não só por ser uma bonita efeméride, como é sempre interessante testemunhar um acontecimento que pode ter servido como sugestão para que a humanidade começasse a pensar desde muito cedo que a Terra podia ser redonda, af inal de contas se observarmos com atenção, vimos que o formato da sombra da Terra projectada na Lua é perfeitamente redonda. Observar planetas ou reconhecer estrelas mais brilhantes é também um momento a não perder, especialmente quando se encontram próximos da Lua, promovendo não só um enquadramento ainda mais bonito, como também dá a quem observa a facilidade de ter um ponto de referência bem visível no

céu. Ora deixo aqui as oportunidades para o próximo ano: No dia 3 de Janeiro, próximo à Lua cheia estará Júpiter também muito brilhante dada a sua proximidade com a Terra nessa data. A 19 de Fevereiro será uma óptima oportunidade para ver Mercúrio a poente a partir das 18:45h num local onde tenha um horizonte sem obstáculos. Um pouco mais afastado do horizonte estará a Lua na sua primeira falcada com um f iníssimo crescente, e que estará acompanhada de Saturno nas proximidades. No dia 29 de Março, a Lua em primeira giba ocultará a estrela mais brilhante da constelação de Leão, Régulus. Por volta das 20:05hrs e com recurso a uns binóculos será possível ver esta estrela a reaparecer novamente. De qualquer forma, caso não tenha binóculos verá nos minutos seguintes uma estrela bastante próxima da Lua. Será u m a b oa o p o r t u n i d a d e pa r a p e r ce b e r a velocidade a que a Lua anda em relação às estrelas f ixas. Em Abril, no dia 2, a Lua estará cheia e aparecerá próximo à Espiga, estrela mais brilhante da constelação da Virgem. O efeito será semelhante ao indicado para Março, sendo que pelas 23:30hr a distância aparente entre a Lua e esta estrela será menor. A 9 de Junho Júpiter e Vénus farão uma bonita conjunção logo após o pôr-do-sol. Se tiver oportunidade de estar num local com o horizonte desimpedido (junto ao mar, por exemplo) conseguirá também localizar

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Mercúrio que estará próximo desde dois planetas mas bem mais chegado à linha do horizonte. Aproveite ainda o dia 27 de Junho para um sunset de Verão já que será o dia do ano em que o pôr-do-sol ocorrerá mais tarde (às 21:06hr). Em 24 de Julho, pelas 22:30hr, a estrela mais brilhante da constelação do Escorpião estará por cima da Lua em fase crescente. Já Vénus estará a poente no dia 9 de Julho pelas 21:45hr muito próximo da estrela Régulus.

guia do céu e um par de binóculos que são opcionais mas não deixam de poder ser uma vantagem. Evite as noites de Lua cheia ou próximo desta fase, pois o brilho da Lua não permitirá ver tão bem as estrelas. Primeiro que tudo identif ique as diversas constelações e desfrute da beleza desconcertante que a ViaLáctea proporciona, lembre-se que ao olhar para esta zona do céu está a ver um dos braços da nossa galáxia onde estão concentrados milhões de estrelas.

Saturno terá o seu maior brilho no dia 3 de Outubro dada a proximidade com a Terra, e no dia 24 de Outubro a Lua quase totalmente cheia aparecerá próxima deste planeta.

Se quiser aprofundar mais o tema da astronomia deixo algumas dicas: compre um guia do céu, junte-se a grupos temáticos especialmente no Facebook, instale no t e l e m ó ve l a a p l i c a ç ã o d o S t e l l a r i u m (uma ajuda impressionante para localizar objectos no céu e com uma versão gratuita muito completa), consulte a revista Sky & Telescope ou a Ciel et Espace. Aproveite i g u a l m e n t e a s a c t i v i d a d e s d e Ve r ã o d a C i ê n c i a Vi va a b e r t a s a o p ú bl i c o que decorrem a partir de meados de Julho onde geralmente há telescópios para observar alguns objectos estelares mais brilhantes, e pessoas que partilham o entusiasmo pelos mistérios do Universo.

2026 será um ano bastante favorável à observação das chamadas “chuvas de estrelas” dado que as duas maiores têm o seu pico a ocorrer em noite de Lua nova. As perseidas ocorrerão a 13 de Agosto, enquanto as gemínidas terão o seu pico no inverno no dia 14 de Dezembro. Esta chuvas de estrelas não são mais do que pequenos detritos a entrarem na nossa atmosfera como pequenos meteoros, por isso a ideia é apenas olhar para a zona da constelação de Perseus, no caso das perseidas, ou para Gémeos, no caso das gemínidas, e ir apreciando sem uso de binóculos e muito menos de um telescópio. Leve apenas uma cadeira onde se possa recostar e apreciar o momento.

Nota: As datas e horas apresentadas tem por referência a latitude de Lisboa.

Nas noites de Verão aproveite para ir para um local mais ermo, longe das luzes da cidade para contemplar o céu. Basta levar companhia, umas cadeiras, umas mantas, um

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RÉ EM CAUSA PRÓPRIA Adelina Barradas de Oliveira

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Houndstooth e noites frias de Natal Tinha de ser um texto de Natal e eu lembrei-me da Lanalgo,.... inevitavelmente do meu casaquinho vermelho e verde escuros em Houndstooth (Piedde-poulee) e dos balões que vinham com o saco conforme o custo da compra cheios de um gás que os fazia flutuar. Depois, não cabiam em casa ou ficavam no quarto e desciam sobre a cama mas nunca pousavam. O casaquinho abotoado até ao pescoço com a gola e os punhos de veludo. Verde e a boina de lado, as meias até ao joelho com um lacinho e o sapato de fivela e eu a gostar que era vaidosa, Chiado acima, chiado abaixo. Havia calor nas ruas, juro que havia, e a azáfama não era diferente da dos dias de hoje, mas era é mais chique e mais divertida,... e mais luminosa. Era o Chiado rua acima, calçada abaixo, as lojas das luvas, dos sapatos, das roupas, daquilo que se comprava porque fazia falta e saía das montras de vidro transparentes, algumas cheias de brinquedos. Havia a escolha dentro das luvas e dentro do bolso e a ideia que não vinha nem sobre o presente nem sobre o papel embrulhado em fita. Às vezes o Natal era frio, mas tinha sempre bombons daqueles com pratas por fora, ou celofane colorido, e recheio por dentro, e tinha aquelas tabletes de chocolate em prata fina da regina, que tinham um som único... e tinha sempre o presente desejado.

e das minhas mãos fechadas em luvas que eu não gostava, porque não me deixavam sentir as mãos da minha mãe também em luvas de pelica.... e ficavam frias. Modas!! Não seriam mais quentes as mãos nas mãos?! No meu Mundo pequenino não havia guerras, nem pessoas velhas e sós deitadas pelas ruas que podiam dormir à noite, na de Natal, em corredores cheios de uivos de vento onde de dia passavam pessoas enlouquecidas pelos relógios. Havia as luzes cheias de cores e alguma lojas tinham cânticos, cantavam para as ruas e para os que na esplanada se deliciavam com o chocolate quente. Não me lembro de haver mendigos, iguais aos que me olham hoje, como aquele velho deitado na rua, Tem um cão ao lado, tão inativo quanto ele ... aos dois basta a comida suficiente para não morrerem na noite fria É o Mundo que não tem todo o mesmo verde os mesmos brinquedos o mesmo presente embrulhado em fita, e eu julgava que sim e quis acreditar que sim, e quis que sim, acontecesse, .... e envelheci a pensar que sim, que ía acontecer..... Mas, afinal, o que o Mundo continua a ter ao fim de tantos anos, em todo o lado onde não há Dignidade (aquilo que no meu País é a base da República Soberana), é a mesma noite sempre fria. Que o Natal seja Natal e que façamos acontecer.

O meu mundo era pequenino, do meu tamanho

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Fernanda de Almeira Pinheiro

Reinserção como te quero? 26


O sistema penal português assenta, e bem, no princípio de reintegração social e ressocialização.

esmagadora maioria dos casos, violadoras da Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (conhecida de forma mais abreviada por Signif ica isto que as obrigações do Estado Convenção Europeia dos Direitos Humanos não cessam após o cumprimento de uma pena (CEDH)). privativa da liberdade. Bem pelo contrário, os serviços têm, necessariamente, de continuar Continuamos a manter condições prisionais a acompanhar de forma ef icaz, aqueles que que infringem o Artigo 3.º (proibição regressam à sociedade civil. de tratamentos desumanos/degradantes), o Artigo 13.º (direito a recurso efetivo), É, por isso, fundamental que os serviços de a sobrelotação, celas pequenas (menos de Reinserção Social, desde há muito integrados 3m² por recluso), a falta de ar fresco, de na Direção Geral dos Serviços Prisionais (um privacidade, a insalubridade, a infestação por erro cometido por altura da intervenção da insetos e roedores, as restrições excessivas de Troika no nosso país e que ainda ninguém teve circulação (muitos reclusos permanecem nas a coragem política para reverter), cumpram celas cerca de 22 horas por dia), que apontam com o seu desiderato e disponham dos meios para a existência de claro problema sistémico, e dos recursos humanos adequados, para criar que exige melhorias urgentes nas condições alternativas de vida a quem termina o seu do edif icado que, como sabemos, vão sendo período de reclusão. procrastinadas ano a pós ano, porque garantir dignidade humana a quem comete crimes não Segundo as estatísticas da Direção Geral de dá votos a ninguém… Reinserção e Serviços Prisionais (DGPRSP), no 1 de dezembro de 2025, a população Aliás, Portugal só não tem mais condenações prisional era de 12.543, o que signif ica um junto do Tribunal Europeu dos Direitos grau de ocupação total de 118,7% dos meios Humanos (TEDH), porque o acesso à justiça de reclusão disponíveis, sendo que, mais de está extraordinariamente comprometido 1/6 destas pessoas são reclusos preventivos e durante o período de reclusão, sendo sempre arguidos que estão a aguardar o trânsito em muito dif ícil (principalmente para quem tem julgado da decisão já proferida em tribunal. parcos recursos económicos), aceder a uma simples consulta jurídica, garantir a defesa Esta realidade (que é recorrente), contrasta nem procedimentos disciplinares (que não com os níveis de segurança do nosso país que, está prevista na lei do acesso ao direito), e como é do conhecimento público, ocupa um por aí fora. honroso 3º lugar no ranking mundial. É u r g e n t e g a r a n t i r a co n s u l t a j u r í d i c a Também não constitui nenhuma surpresa generalizada e gratuita a toda a população que as condições de cumprimento de pena prisional, que poderá, inclusivamente, ser privativa da liberdade em Portugal são, na prestada on line, evitando burocracias e

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A s p r i n c i p a i s q u e s t õ e s de s t e sistema residem na eterna falta de prevenção, mas também na falta de implementação das medidas concretas e necessárias, para uma verdadeira reintegração social e ressocialização.

Fazem falta técnicos suf icientes para ajudar a criar projetos de empregabilidade e formação para quem cumpre penas ,

ocupação de meios desnecessárias, porém, continuamos a denegar acesso à justiça a quem, por força da sua enorme fragilidade, mais dela carece. Sucede que, infelizmente para todos/as, nem é este o principal problema do sistema, porque esse, bem ou mal, um dia, terá um f im, as penas de reclusão não são perpétuas.

capazes de promover o empreendedorismo para inserção no mercado de trabalho, falta o apoio psicossocial e comunitário, para garantir o desenvolvimento de competências sociais e emocionais, falta a reabilitação e reintegração familiar e comunitária, falta criar habitação e autonomia, garantindo casas de saída e apartamentos de autonomização, para pessoas recém-libertadas, falta a criação de mais programas para agressores sexuais, pa r a a g r e s s o r e s d e v i ol ê n c i a d o m é s t i ca , pa r a r e c l u s o s p o r d e l i t o s r o d ov i á r i o s e outros, com foco em desenvolvimento ético e moral individual e, por f im, mas não menos importante, falta mais intervenção a nível das dependências, para trabalhar as pessoas com

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Reinserção, como te quero?

comportamentos aditivos para reabilitação, tudo isto feito de forma prof issional e com conhecimento especializado. Portugal, fruto do desinvestimento na tal prevenção e no combate aos comportamentos a d i t i vo s ( q u e t ã o b e m r e s u l t o u n o f i n a l da década de 90 dos século passado), com especial incidência nas Regiões Autónomas da Madeira e do Açores (ambas a braços com problemas gravíssimos de drogas sintéticas), voltou a ter um problema gravíssimo que urge combater, quer do ponto de vista a prevenção, mas também do ponto de vista da sua cura (porque a adição é uma doença), já que só assim evitamos a criminalidade ligada a esta realidade que, como sabemos, provoca sempre um enorme alarme social e a disrupção familiar bastante traumática. Queremos, por isso, uma verdadeira reinserção, que acolha uma visão macro do indivíduo temporariamente privado da sua liberdade, mas também que tenha soluções para coisas tão simples como um olhar para os cuidados de saúde oral e a dentição da população prisional, que é fundamental não só para a saúde individual de cada um/a, mas também para o cuidado com a sua imagem, que poderá ser essencial na conquista de um emprego, que, a par de uma autoestima mais forte, diminui as vivências que levam tantos/as a permanecer numa situação de delinquência, depois de cumprir a sua pena.

Declaração Universal dos Direitos Humanos), através do lançamento do livro “Prisão: De Dentro para Fora”. Esta obra reuniu 132 coautores, que, tal como referiu por altura do seu lançamento o seu coordenador, o Diácono José Carlos Costa, constitui “uma vasta compilação de testemunhos reais que revelam a multiplicidade de vivências no interior de um estabelecimento prisional” (…) “e dar voz a quem raramente a tem, mostrando o quotidiano de quem ali habita — reclusos, prof issionais, voluntários e todos os que, de forma direta ou indireta, atravessam este espaço.” O produto da venda do livro reverterá na íntegra para apoiar necessidades prioritárias das pessoas em estado de reclusão naquele EP, como é o caso das despesas de telefone, p r o g r a m a s d e s e n s i b i l i z a çã o d e r ed u çã o de adições (tabaco, café, açúcar e outras substâncias), porém, não podemos nunca perder de vista que é ao Estado que compete garantir a continuidade deste investimento na pessoa humana, recuperando-a, para a reinserir, garantindo-lhe um verdadeiro direito de escolha para o seu futuro em liberdade!

Foi isso que fez a Pastoral Penitenciária, em conjunto com o Estabelecimento Prisional de Aveiro (EPA), no passado dia 10 de dezembro (dia em que celebrámos o 77º aniversário da

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NELSON ESCÓRCIO

VERTIGENS A velha e minúscula plataforma, reduzida a anómala protuberância de betão sem reAs irregulares rajadas de vento balançacordável propósito e rendida às ervas e fissuras, vam-me o corpo e agitavam-me a alma, foapontava, sedutora, à falésia e Atlântico que se mentavam tensão e excitação que imaginava lhe seguiam. semelhante à de um gatilho perdido num dedo nervoso, inconstante, indeciso. Recordo-me de os apreciar, como um só, agradecido pelas possibilidades que ofereciam: As visitas ao local haviam-se, despercebidapercorrer a laje até consumir o último espaço e mente, transmutado de pontuais a ocasionais e o vazio sugerir uma opção nunca assumida. As finalmente habituais. Via e era visto por turistas rochas escuras, um mundo abaixo, escarpadas e locais, crianças, casais e velhos, todos indiferpor ondas incansáveis e indiferentes, silencia- entes aos meus passos ou ideias, mesmo quando vam qualquer incerteza sobre as consequências elevava um pé para o vazio e saboreava a fantasia de outro passo. da decisão.

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“Não vai saltar, pois não?” A pergunta, em forma de gemido, proveio de um miúdo magricela, de cabelos negros esvoaçantes, que largara a bicicleta e se aproximara. Inquieto, aflito.

“É um bom trilho. Mas existem outros que quero descobrir. Nesta curta, preciosa Vida.” Que idade tinha o miúdo?

Pedalou com energia sem dizer adeus. Reparei então “Penso que não”, respondi. no decrépito estado do andarilho de duas rodas. O amarelo desvanecia-se na ferrugem e a cada volta uma “Pensa?” das rodas era ruidosamente assinalada por um lamento “A morte é sempre uma possibilidade, um desfecho que nenhum óleo conseguiria já silenciar. Moribunda, possível, até natural, mas a vida tem-me parecido mas funcional. Como a plataforma. preferível. Hoje não será diferente.” Mentia. Aquele era um dia tão bom para morrer e mau para persistir No dia seguinte tudo aparentava semelhança. vivo como qualquer outro. E diferença. A brisa e mar sugeriam discreta hostilidade; a plata“Pondera morrer todos os dias?” forma percetível náusea. “Opto por viver todos os dias”.

Dediquei horas a disfarçar ou justificar o constante girar de pescoço e corpo e mente, a apurar sentidos por Uma pausa, longa, tensa, e reparei nos olhos tam- um qualquer resquício de amarelo, de ruído, de palabém negros, brilhantes, incrédulos, receosos. vra. “Acredita que o aguarda o Céu?”

Nenhum apareceu nesse dia, ou outro.

“Não, não, não! A morte é o fim, definitivo, Percorri ainda umas poucas vezes plataforma, por absoluto.” insistência e despeito, mas senti encenado cada passo agora sem propósito ou destino. Depois abandonei tei“Então acredita que a Vida é tudo o que tem e terá.” mas e não mais me abeirei do precipício. “Sim. Mas é a Morte que lhe confere algum ou todo Diz-se, com a certeza de quem pouco sabe, que sonho o sentido. O valor de qualquer coisa define-se também e realidade são, de quando a quando, indiscerníveis. pela sua ausência. Percebes?” Nas semanas seguintes confiei na lucidez do miúdo, da bicicleta, da conversa; e nos meses que se seguiram Outro silêncio, ainda mais longo, nervoso. Déramos, no contrário. Depois, consumida a frustração, aceitei talvez sem decisão ou ideia, dois ou três passos até que nenhum sonho sobrevive ao despertar; e nenhuma ficarmos a um braço de distância. realidade sucumbe à lucidez. Perdido e partido, mas sóbrio e desperto, conheci um amigo que nunca “É parvo perder parte do que se tem a pensar no que reencontrei. de se não pode fugir.” Passaram muitos anos e já não reconheceria aqueles “No que de se não pode fugir”?! — “Que idade grandes olhos negros. A bicicleta terá tido o seu final tens?” descanso, encostada num qualquer canto, sem dono ou amor. “Volta amanhã?” respondeu sem resposta. “Eu... talvez.” Saltou para a bicicleta. Mas nunca deixei de ouvir, nos melhores, piores e sempre inesperados momentos que a vida me oferece“Talvez?” ria, o confortante chiar das suas rodas.

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E O MAR LOGO ALI Ana Gomes

P O S TA L D E N ATA L

Jubilei-me no último janeiro. En tretanto, aproveitei para fazer os exames que tinha adiado durante ano s. Passados pouco meses de ter mudado a rotina, a notícia de que não me restaria muito tempo. Ain da ponderei contrariar a previsão do médic o … Acabei por aceitar o destin o. Estamos todos a morrer … Acho-me com sorte por não ter de rever em seg undos supersónicos todos os momento s vividos. Tive tempo para estar com todas as pessoas importantes e desped ir-me, tive tempo para reavivar memórias com fotografias e filmes, tive tem po para reler os romances favori tos, tive tempos para escrever as histór ias reais que me passaram pel as mãos alg umas com olhos bem aberto s e mente desperta em busca da sol uçã o-, tive tempo para escrever postais de natal. Acredito que vou ter tempo e che gar ao dia 25. Joana

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Pankeka Man As estrelas contam a nossa história antes dela ter acontecido? Niko nunca pensava nisto quando seguia ao romper da alba pelas ruas da aldeia, o vento húmido a banhar-lhe o rosto onde os olhos se deixavam guiar pelas luzes fracas que assomavam às janelas já entreabertas enquanto as luzes celestiais feneciam lentas.

cumplicidades e farpas. ​iko observava-os regalado, N a inteligência a brilhar-lhe nos olhos escondida pela penumbra. Via como farinha, óleo e sementes ressequidas se transformavam em pão e panquecas. Era nelas que o pai e os irmãos depositavam arroz, lentilhas e silêncio todas as noites quando voltavam da lida. Niko comia ao lado deles. Fraco ou não, era um homem, tinha sido o veredicto do pai, para quem este filho passava já demasiado tempo junto das mulheres. Também a avó uma ou outra vez rosnava que a cozinha não era lugar de homens. E sabiam todos que era à sua presença franzina e tossicada que se referiam.

O que o salvou foi ser doente. Também não pensava nisto. Em como o tom amarelado do rosto, o ar franzino e febres constantes, tinham evitado que fosse guardar gado ou plantar os terrenos à volta da aldeia, como os irmãos que vieram antes e depois dele. Ele ficava Talvez por isso, o pai decidiu ​ por casa, quase sempre sentado num banco alto junto à bancada mandar Niko à escola. Uma velha da cozinha, onde a avó paterna furgoneta transportava as crianças e a mãe cozinhavam trocando de madrugada e entregava-as já noite

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FLORES NA ABISSÍNIA Carla Coelho

cerrada. Limpos e alimentados, frisou o pai quando comunicou a sua decisão. E talvez, arriscou a mãe, lhe dessem alguma coisa para comer em casa. O pai não a desmentiu. Além disso, pensava, ia ser útil alguém em casa saber ler as facturas e as receitas médica. Já que aquele filho não servia para mais nada ao menos que lhes desse esse tanto. ​Niko ficou sentado numa carteira no meio da sala, ao lado de uma menina de tranças longas presas com um laçarote rosa descolorado. Começou a somar e subtrair, depois aprendeu a multiplicar e dividir. Às sextas-feiras havia aula de inglês. E todos os dias, ao meio-dia, o cozinheiro da missão distribuía o almoço. Quem quisesse podia repetir. A grande panela parecia a Niko inesgotável. No primeiro dia de aulas, ao ver os colegas aproximarem-se com a malga estendida, ficou admirado. Aproximou-se do cozinheiro e perguntou-lhe “e para amanhã?” O homem respondeu-lhe com um sorriso: ​- Não te preocupes, lá dentro há mais. ​ pontou distraído para a despensa. Ao fim da tarde, levou Niko e A uma menina a verem o que lá estava. Sacos e sacos de arroz, lentilhas, feijão de várias cores. ​- Podem comer à vontade. Só de barriga cheia se aprende.

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Pankeka man ​Deu a cada um deles um saco de feijão e depois fechou de novo a porta à chave. ​ m dia, fazia anos uma pessoa importante U para o professor, um tal de Jesus. As crianças ouviram cânticos e comeram uma fatia de bolo. Cada uma recebeu um pote de mel. E pediram-lhes que falassem dos seus sonhos, garantindo que Jesus estava ali sem o verem e que haveria de os ouvir. Todos ficaram calados. Nenhum se lembrava dos sonhos que tinha tido. O homem explicou que os sonhos eram coisas que eles gostariam que lhes acontecessem. Uma menina estrábica disse que queria ser actriz. Todos se riram. Ela chorou. O professor olhou-os reprovador. Foram desfilando outros sonhos, mais modestos do que os da primeira menina, mas igualmente condenados aos olhos dos adultos. Por fim, chegou a vez de Niko. Não queria falhar apesar de achar o exercício difícil. Disse que gostaria de ser cozinheiro. O professor perguntou-lhe porquê e ele respondeu apenas: ​- Para nunca mais ter fome. ​O dia de festa passou seguido de muitos outros. Todos juntos formaram a mescla de anos que conduziu Niko ao limiar da idade adulta. Na escola o lugar de varredor e vigilante sucedeu ao de aluno. Uma manhã, o antigo professor chamou-o. Perguntou-lhe se ele já tinha ouvido falar do novo hotel. Claro que que tinha. Era o tema de todas as conversas na aldeia. Passavam cada vez mais turistas em camionetas modernas e de cores vivas, na velha estrada que ligava as aldeias. A alguns quilómetros tinham sido descobertas as ruínas de um palácio antigo. Era isso que os turistas iam ver. As pessoas da missão tinham

sido convidadas para a inauguração do hotel há uns dias atrás. Era um edifício grande, branco, cheio de sedas e brocados. A maior parte dos trabalhadores tinha sido recrutada na cidade grande, recebendo uma formação de três meses em “hospitality”. Viveriam em instalações ao pé do hotel e iriam a casa nas folgas. Claro que as pessoas das aldeias não podiam ser chamadas para a recepção ou o serviço de quartos. Não tinham maneiras para se aproximarem dos hóspedes. Iam ser chamados para a manutenção e limpezas, se houvesse gente para isso. Aqui o director do hotel, um americano louro e gordo, olhou para o professor, esperançoso. ​- Poderia recomendar alguns alunos seus? ​u mesmo alunas, acrescentou. O O professor pensou de imediato em Niko. Perguntou se não havia vaga na cozinha. O director do hotel sorriu. Não, na cozinha estava tudo preenchido. Vinham uns rapazes do Iowa. Mas havia uma vaga para a limpeza na copa. Close enough, não? ​ e maneira que era isso, explicou o D professor a Niko no dia seguinte: - Tens oportunidade trabalhar na copa. E daí podes passar para a cozinha, como sonhavas. Que dizes? Niko aceitou de imediato, ainda que tivesse não percebido a conversa do sonho. Isso também não interessava. Só o facto de entrar todos os dias no autocarro em tons de azul e dourado que apanhava os trabalhadores nas aldeias e ali os depositava no final do horário laboral, de camisa branca e banho tomado, tornavam-no um habitante destacado da aldeia. Que orgulho para a família!

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Foi então trabalhar para o hotel, limpando a copa, o chão da cozinha, os pratos, os copos, as chávenas pequenas e grandes, os pires, os talheres e as travessas. Dia após dias, enchendo semanas, meses, o primeiro ano, o segundo e o terceiro, até lhes perder a conta. O despenseiro de vez em quando entregavalhe à socapa um pacote de farinha. Com os restos dos frascos de doce que os hóspedes tinham deixado por comer e que limpava escrupulosamente, colocando os restos das compotas num tupperware gasto, Niko regressava à aldeia no final dos longos turnos. Depois de pôr o sono em dia, acendia uma frigideira na velha cozinha da sua pequena casa, abrindo o portão do quintal. Assim passava as tardes, fazendo panquecas barradas com geleias multicoloridas para cada uma das crianças da aldeia, que com as mãozitas pequenas e olhos vivos, as recebiam jubilosas gritando “pankeka man, pankeka man”.

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ENTRE LINHAS

ENTRE LINHAS

ENTRE LINHAS

1. MANTEIGA Azaku Yuzuki

Manteiga, escrito por Azaku Yuzuki, cruza a intriga policial com a típica estrutura de um romance de formação, conjugando de forma eficaz crime, comida e crítica social. A protagonista é Rika uma jovem jornalista que vive em Tóquio e que procura singrar na sua profissão. A esse propósito muito ajudará conseguir uma entrevista exclusiva com Manako Kanjii, cozinheira presa após a morte de vários homens com quem viveu romances. Incentivada pela sua amiga Reyko, Rika consegue obter esse furo jornalístico. É este o ponto de partida para mudanças de vida inesperadas e diversos dissabores não antecipados. O livro parte de um caso real que ocupou páginas nos jornais nipónicos. O enredo leva-nos a um mergulho no Japão contemporâneo. O papel das mulheres, o trabalho de cuidado dos outros que delas se espera, a supremacia masculina, o casamento e as expectivas sociais, bem como o culto da juventude e da magreza surgem uma e outra vez, ao longo das páginas do livro. É também uma leitura aliciante como reflexão sobre o modo como a pressão social nos impede de descobrir como queremos viver, servindo-se do percurso e das escolhas feitas por Rika e Reyko. Recomendação de Carla Coelho

2. O ENVANGELHO

SEGUNDO JESUS CRISTO José Saramago

Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra , resolvi eu também , depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído Lucas , 1, 1-4 Um romance que nos engole e desafia. Um livro que deu polemica quando foi publicado. Um livro que deve ser lido com ou sem vírgulas, sem pontuação ou com excesso dela , exatamente como foi escrito e para quem foi escrito - nós - os que têm curiosidade de o ler. Recomendação de Adelina Barradas de Oliveira

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ENTRE LINHAS

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ENTRE LINHA

RECOMENDAÇÕES

3.O OUTRO LADO DO REFLEXO Adelina Barradas de Oliveira O princípio de que os pensamentos felizes não fazem boa literatura sofre um profundo revés com a junção das letras no Escreve para mim. São pensamentos felizes sim, de quem confessa integralmente e sem reservas todo o esforço por cativar quem se senta à sua frente num ambiente nem sempre fértil para a comunicação. Nem sempre fértil para a compreensão. Nem sempre, simplesmente, fértil. É a oportunidade de se vivenciar na primeira pessoa a dinâmica emocional que conduz à resposta sobre o que se passa na cabeça de um juiz durante a realização de uma audiência de julgamento com todos os seus intervalos, ritmos e urgências. E, na realidade, quem nunca quis saber o que se passa na cabeça de um juiz durante um julgamento? Quem nunca pagaria por isso? Fala de abusos sexuais na pessoa dos mais frágeis, dos furtos em lojas, da toxicodependência, dos homicídios tentados, mas também dos jornalistas, da paixão pela literatura, da imagem do juiz, dos segredos de justiça, das becas e ainda das reacções perante a leitura dos Acórdãos por parte dos seus destinatários. Fala também das suas promessas de redenção aquando da percepção do sentido das decisões que lhe estão destinadas. A ler, pois a sua autora escreve para nós. Recomendação de João Correia

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Dezembro 2025 68 Edição by Justiça com A - Issuu