Júlia Cadó
esta é uma história sobre ciclos. um conjunto de fatos, uma sequência não numerada de acontecimentos, uma narração partidária. é a constatação diária de uma mulher que mora em uma cidade-mar. é a apreensão do tempo de se lançar às ondas e de fincar os dois pés no chão. é a redescoberta de que a terra é redonda. sempre há terra firme, mesmo quando tudo o que se vê é mar
A partida O mar À deriva A linha A chegada
Júlia Cadó
A PARTIDA
firme Sair da terra
Além Mar
INÉRCIA depois de muito tempo, a gente nunca pensa que as coisas vão mudar e o problema tá aí, no costume do bicho humano na inércia do meu corpo já tão acostumado ao ritual do nada na dormência que começava no meu braço esquerdo ao anoitecer e seguia o corpo inteiro pela manhã na boneca russa que dentro de sí só tinha mais bonecas igualmente vazias no equilíbrio tão perfeito, que não era vida nem morte só passos enfileirados em linha reta e olhar perdido no horizonte mas acontece que eu moro no litoral, e o vento que sopra aqui é forte e a queda, por mais dolorosa que seja, ação é novamente corpo em movimento, circulação acelerada, boneca desfeita em cacos é desequilíbrio imperfeito é vida e é morte
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Júlia Cadó
rodei três vezes a terra não porque precisava, ou tinha algo novo a descobrir mas porque a minha cabeça supersticiosa me grita que algo só existe se eu puder fazer três vezes e por isso, eu sigo bebendo três copos de água antes de dormir arrancando três fios da minha sobrancelha cuspindo três vezes a pasta de dente dizendo três vezes o meu nome em voz alta
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Além Mar
MALDITAS PERSIANAS todo dia finjo esquecer de fechar as persianas do meu quarto só para ter o gosto de pela manhã gritar o quanto elas são malditas e mesmo assim me levantar para fechá-las e você, que não me conhece, deve estar se perguntando o porquê desse ritual masoquista meu bem, é que se eu não fingisse esquecer de fechar as persianas e o sol da manhã não batesse no meu rosto às 5 de uma segunda-feira o mundo daria uma volta e eu continuaria deitada aqui porque a depressão que mora no lado esquerdo da cama é teimosa e parece não escutar minha mãe, a psicóloga, ou eu mesma, apenas as malditas persianas
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Júlia Cadó
eu que sou cobra no corpo de gente sei do árduo trabalho de cravar um machado no peito para poder crescer
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Além Mar
a gente nunca sabe quando a morfina começa a atingir os nossos nervos o caminho sonolento não nos permite marcar o tempo já o despertar têm hora, minuto e segundo marcados é sensação imediata - não dá para fingir que não se está viva
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Júlia Cadó
O MAR embarcar no desconhecido
Além Mar
SAMBA nos encontramos no samba no remexer dos pés em busca de calor no tamborilar das mãos guiadas por um mesmo compasso no pulsar dos corpos na respiração ofegante que o esforço causou no músculo enrijecido do exercício no suor que encharcou aqueles retalhos no silêncio da voz posterior aos gritos na boca sedenta que ficou de lembrança nos encontramos no samba sem nunca termos saído para sambar
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Júlia Cadó
PANDEIRO quatro tempos chego toco dispo deito ou melhor, fico de pé desafino, hoje não quero regulado - o estridente me atrai 1 dedo, 2, punhos, tapa abafa 1 dedo, 2, punhos, tapa no meu corpo tuas mãos marcando o compasso dessa colcheia
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Além Mar
FULL ALBUM ( para ler ao som de you don´t know me ) you don't know me e o portão desliza para gente entrar bet you'll never get to know me e a porta do carro destrava feel so lonely e o trinco roda the world is spinning round slowly e caímos bêbados no chão There's nothing you can show me e o fecho abre a música para não há mais paredes e em vão aberto a transa continua, mesmo com a agulha da vitrola suspensa
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Júlia Cadó
A CIDADE ALAGADA o dia em que me avisaram que iriam construir uma represa era uma terça-feira o sol estava a pino e nas ruas homens e mulheres reclamavam da cotidianidade até o carteiro chegar com a notícia e a palavra correr solta pela boca de todos falavam de reembolso, de descaso e de dinheiro até o padre falava de dinheiro e eu só conseguia pensar que não há mal nenhum em estar um pouco molhada
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Além Além Mar Além Ma
eu fui porque a gente cresce olhando para os arranhas céus desejando o desencontro com a terra afinal, empilhar blocos é melhor do que espalhá-los pela casa eu fui mas uma criança saberia que eu iria cair eu sabia que iria cair porém, de vez em quando, só de vez em quando a gente cruza os dedos, fecha os olhos e sobe as escadas sem olhar para trás
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Júlia Cadó
À DERIVA não ter onde pôr os pés
Além Mar
QUEDA PREMEDITADA o corrimão com lustra móveis o piso extremamente encerado a sandália quase sem sola em um mundo sem atrito - e sem nada para se segurar quanto tempo se leva até cair?
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Júlia Cadó
[peço desculpas aos vermes que roeram nosso amor] me solidarizo com a frustração daqueles que em busca de nutrientes fizeram greve de fome que passaram pela passagem secreta todos os dias, sem perceberem que ela era oca dos que tentaram provar a todo custo que um corpo sem massa também poderia existir fato é: ideia abstrata não vinga nessa cidade de concreto não enche a barriga, não nutre, não fica de pé não sustenta um amor, nem a fome dos vermes
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Além Mar
CASACO DE PELE nesse ritual de fé ateu me cubro com tua pele toda manhã desejando que por condução, ou mutualismo surja algo que aqueça mas, meu bem, nós dois sabemos que já é dezembro e que o cheiro de formol já inundou toda a casa na certeza da minha descrença vejo um milagre acontecer teu couro apodrece, deixando uma pilha de restos sem ossos, carnes, sangue apenas retalhos de uma renda preta que me cobre o rosto
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Júlia Cadó
AMOR COVARDE [ é, Pedro, nem todos os amores são coragem ] ouço um barulho de corte sinto o cheiro de sangue muito antes da dor a vértebra quebrada me impede de senti-la percebo minhas costas abrirem e sei é você indo embora as pernas não exercem a função. caio. sozinha. nem meu peito você teve a coragem de rasgar foi o medo de encarar meus olhos depois do que fez?
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Além Mar
CONCHA coloco a concha no ouvido espero o som do mar, mas nem uma melodia sai e penso que nunca tenha sido sobre as conchas e sim sobre quem as escuta como aqui não há nada só chega ao meus ouvidos o eco da ausência
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Júlia Cadó
A LINHA reencontrar a direção
Alémue Mar há Além Ma
ODE AOS BURACOS ( para ler ao som de O que é que há ) as pessoas, por todos os lados, querem estar tapadas compram metros e metros de panos colocam fones tapam os poros preenchem todos os buracos necessitam do falo e eu que demorei muito tempo para perfurar minha pele não vejo nenhum sentido em ocupar meus vazios assim
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Júlia Cadó
BORRACHA apago tudo o que faço até que o cheiro de borracha me suba pelo nariz e eu lembre do meu avô que atravessou estados em busca dela e penso que, talvez, eu também precise atravessar estados para conseguir deixá-la de lado
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Além Mar
o suor salgado que escorre pelos meus braços e encharca os meus pelos me diz ensina que desidratação não é sobre perda mas sim proteção do nosso corpo é excreção do excesso, do que já não cabe aqui então, eu rogo para que eu fique seca e essa água salgada - que um dia quase me afogou saia de mim
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Júlia Cadó
me olho no espelho, não como narciso em busca de contemplação mas como exercício de alteridade é que aquela que o vidro reproduz é tão diferente da que está aqui dentro que me pego tentando por mimetismo incorporar a outra para ver se encontro um pouco de mim naquele reflexo
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Além Mar
tem gente que sabe de có o nome de todas as esculturas feitas pela humanidade e eu até sinto um pouco de inveja porque a minha memória aprendeu aos 8 a palavra endoscopia e isso foi suficiente para que mais nada ficasse gravado assim, sigo satisfeita em saber que nem todo mármore foi feito para ser esculpido e que, às vezes, o mármore é só mármore não bancada na casa dos ricos, ou chão de uma repartição pública, tampouco estátua protegida em museu às vezes, o mármore é só mármore uma pedra bruta sem lapidação e, às vezes, um fim é só um fim
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Júlia Cadó
A CHEGADA redescobrir o amor nos outros e em si
Além Mar
gostaria de pensar que a terra é plana não por ser contrária à ciência mas por um desejo profundo e infantil de ver o rosto da cobra - ou o rabo porém, isso nunca me foi uma opção veja bem, é que eu moro no umbigo do mundo no centro, nem tão central assim no norte que me ensina a olhar à frente e sei que no horizonte há mais porque a ponte que me liga ao sul, ao leste e ao oeste me sussurra às 5 da manhã que sempre há caminhos e que se moro na zona norte da américa do sul o meu miolo é contradição é núcleo de terra redonda é redescoberta a cada passo é amor, mesmo quando eu não acho que seja
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Júlia Cadó
Júlia, ou para a maioria, Cadó, nasceu em Natal, mais precisamente na zona norte da cidade. Desistente de muitas coisas, como ballet, natação, violão e karatê, já pensou, muitas vezes, em desistir da escrita, mas sabe que desistir dela seria desistir da própria humanidade. Gosta de samba, cachorros, amarelo queimado, vitamina de abacate, cerveja gelada e gentilezas cotidianas.
2022