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RIO: POEIRA-PALÁCIO

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RIO:POEIRAPALÁCIO

O Impacto Social e Cultural dos Cinemas de Rua na Cidade do Rio de Janeiro

Produção: João Pedro Schwenck Costa

Orientação: Jacqueline Sobral

Créditos às imagens: Caroline Valansi e Acervo Instituto Moreira Salles

Month Year

Introdução

O fim dos cinemas de rua?

Streamings e shoppingcenters

Cinema e memória urbana carioca Rio: Paris dos Trópicos

Mapa dos Espaços de Exibição “Filme é arte, cinema é cultura”

Fachada do Cinema Odeon, 2024 Imagem do autor

INTRODUÇÃO

I. Créditos: Caroline Valansi. Essa foto, junto à foto da capa, fazem parte da série artística “Cinema Também é Templo” 2016 Mais informações no hiperlink contido acima 2 Hernani Heffner no acervo da Cinemateca do MAM Imagem do Autor. 2024.

A grande reportagem “Rio: Poeira-Palácio”: uma revista digital sobre como a desvalorização históricourbana e o predomínio dos shopping centers impactaram a sobrevivência dos cinemas de rua no Rio de Janeiro no século XXI compõe o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Jornalismo do Centro Universitário IBMR

Intitulada “Rio: Poeira-Palácio: O impacto social e cultural dos cinemas de rua na cidade do Rio de Janeiro”, esta revista aborda como os espaços de exibição foram se transformando com a paisagem urbana da capital fluminense, como as reconfigurações de consumo do capitalismo contemporâneo contribuiu para a derrocada de espaços históricos e a busca pela preservação da memória cultural da cidade

Entrevistados: Adailton Medeiros, Alice Gonzaga, Cavi Borges, Christian Jafas, Fernanda Oliveira, Hernani Heffner, Luis Mendes Teixeira, Maurício Hirata Filho, Rafael de Luna e Talitha Ferraz

Agradecimentos à: Todos os entrevistados, Caroline Valansi, William Martins e Roberta Baltar.

Convidamos você para fazer essa viagem com a gente, boa leitura!

O FIM DOS CINEMAS DE RUA?

Cúpula luminária de 280 metros quadrados, painel de LED côncavo de 210 metros quadrados, com tecnologia 4D, resolução de 8 megapixels, permitindo uma experiência cinematográfica imersiva em 180 graus. No geral, investimento de R$67 milhões de reais, lotação de 680 pessoas, decoração art-déco a lá Moulin Rouge. Não, não é um cinema, mas o “novo” Roxy Dinner Show, uma luxuosa casa de espetáculos, inaugurada em outubro deste ano, em Copacabana.

“Novo”, escrito com aspas, pois ele já estava a muitos anos entre os cariocas, mas com outra roupagem.

O antigo Roxy, um singelo - por 83 anos - cinema de rua, foi alvo de muitas discussões desde o seu fechamento, em 2022 Seu novo administrador, o empreendedor Alexandre Alccioly, ao invés de revitalizar o cinema, pôs sobre o espaço a ótica empresarial de exportação de cultura e de ampla sofisticação para um entretenimento que visa turistas nacionais e internacionais, mas que prioriza o elitismo.

Em recente entrevista à Julio Wizlack, da Folha de São Paulo, Alccioly, em resposta as críticas, diz que “O cinema de rua acabou. Ele foi pra TV, para o streaming, para o shopping. Copacabana tinha 17 salas. O Roxy foi a última”.

O empresário ainda levanta dados afim de defender sua ideia de transformar, com o Roxy, Copacabana em uma “Broadway brasileira”, reminiscente ao empresário espanhol Francisco Serrador, que, há 100 anos atrás, criou a Cinelândia para ser uma “Broadway brasileira”.

O Rio de Janeiro, hoje, possui 360 salas. Somado a São Paulo e Minas Gerais, resultam 51% de todas as salas de cinema do país, segundo a Ancine

Se, segundo Alccioly, em 2023, o Brasil registrou 13,5 milhões de turistas nacionais e 1,4 milhão de estrangeiros – este ano devendo chegar ao 16 milhões de turistas nacionais e 1,9 milhões de internacionais – por que, em matéria de oferta de cultura e turismo carioca, um cinema de rua não pode ser valorizado? O cinema de rua realmente acabou?

BILHETES DE MEIA ENTRADA DOS ANOS 60; IMAGEM CEDIDA POR CAROLINE VALANSI

Rio, 2024

Nossa investigação começa com os espaços de cinema existentes espalhados pela cidade e as diferentes visões sobre a situação cultural, social, política e econômica atual.

“Eu vejo que o Rio de Janeiro, ele tá passando por um momento promissor na questão da distribuição artística cultural A gente teve políticas que distribuíram, né? Nos últimos anos, com momentos melhores e piores, a gente teve políticas de distribuição, de apoios e verbas pela cidade, né? E isso reflete hoje, a gente tem vários projetos que receberam fomento lá atrás e que aí teve pandemia e aí póspandemia executaram e tão aí acontecendo Então eu acho que a gente tá também numa fase promissora no sentido do entendimento do poder público de que o investimento na distribuição dos projetos artísticos culturais pela cidade é importantíssimo para a cidade, né? Não só Centro, Zona Sul, que são os maiores consumidores, mas distribuir isso pra Zona Norte, Zona Oeste, porque também tem grandes consumidores nessa região, que inclusive são muito populosas, mas que ainda falta esse investimento, mas a gente tem tido uma melhora, né? E inclusive também, eu acho que o pós-pandemia trouxe um entendimento do consumidor de arte, né? E de cultura, de o quanto é importante pra ele buscar isso, requisitar isso e frequentar, né? Se ainda há espaço pro cinema de rua? Com certeza. “

(Fernanda Oliveira, Gerente e Exibidora: Cine Santa)

“Sobre a situação atual, acho que a gente tem um aumento enorme da produção e diminuição dos canais de distribuição para a exibição pública e coletiva. Então o que acontece é tanto menos canais quanto também o predomínio de alguns títulos iguais nesses mesmos canais Então a gente tem uma produção mais diversa, mas essa diversidade muitas vezes não se reflete na oferta em geral, tanto pelo mercado quanto como acesso à cultura como todo E eu acho que sim, eu acho que dentro dessa hegemonia de um modelo de mercado baseado no multiplex, dentro do shopping center, estabelecido no circuito exibidor brasileiro, há espaço sim para outros modelos de negócio e outras formas de fruição, como o cinema de bairro, o cinema de rua, a sala cultural, a sala boutique, a sala de arte, o cinema popular, o cinema na comunidade. A gente não pode crer que a gente só possa ter um modelo, tanto para forma de acesso à cultura quanto um modelo de negócio Mas infelizmente a gente vive a ditadura desse modelo único que o shopping center e que tem todas as consequências de uma elitização, de uma concentração nos grandes centros urbanos, etc ”

“Os cinemas de rua tão acabando, né? Tem poucos. Se você for ver, por exemplo, Copacabana, tinham 15 cinemas, não tem mais nenhum. Até o Roxy virou casa de show, o Cine Joia virou teatro, bairros que eram lotados de cinema, não têm mais cinema E eu vejo muito isso também por causa da violência, né? O Rio é muito violento, então as pessoas preferem ir em shopping, porque no shopping tem estacionamento, tem restaurante, é protegido, pode sair tarde, não tem perigo. Cinema de rua tem esses riscos também de, por exemplo, o Estação não tem estacionamento O cara tem que dar um jeito aqui, parar longe, vir de metrô, entendeu? Então acho que o shopping tem essa vantagem. Mas o shopping tá muito linkado ao comércio, tá muito linkado ao consumo. Então os filmes que você vê no shopping são esses filmes blockbusters, né? Então assim, os cinemas de rua passaram a ser sinônimo de cinema independente, alternativo, cinema que passa esses outros filmes, entendeu? Onde você vai ver Tarkovski no cinema? Só no Estação, cara.”

(Rafael de Luna, Professor e Pesquisador, LUPA-UFF) (Cavi Borges, Cineasta e Exibidor: Estação Net de Cinemas) (Hernani Heffner, Pesquisador e Gerente: Cinemateca do MAM)

“Hoje se tem Secretaria Municipal de Cultura, se tem uma entidade como a RioFilme que não é mais só uma distribuidora, é um aparelho cultural que subsidia, que fomenta, que cuida, que estimula, que forma, difunde, e 30 anos atrás você não tinha, a RioFilme é de 1993, a própria Secretaria Municipal de Cultura, embora um pouco mais antiga, ela não existia em 1950, então tudo isso é relativamente recente e não só surgiu, mas permaneceu, então há um grande mérito em você ter esses instrumentos para fazer política cultural, para estimular o desenvolvimento da cultura, para entender que a cultura é um valor importante dentro da cidade do Rio de Janeiro. Tanto a Secretaria Municipal quanto a RioFilme dependem dos governos aos quais estão relacionados, e eventualmente o Rio de Janeiro é uma cidade que é particularmente mal dotada de governo dos últimos 60, 70 anos, com raras exceções. O atual momento é um momento quase glorioso, não que ele não seja passivo de críticas, ele é passivo de críticas, poderia fazer mais, poderia destinar mais recursos à cultura, poderia ser mais operativo ”

Por partes: RioFilme.

“O Rio de Janeiro, como outros grandes centros urbanos, precisa de um esforço, sempre permanente, que a prefeitura tem feito nessa gestão, com muita ênfase, de descentralizar o acesso à cultura. Porque naturalmente, como todos os modelos econômicos, a cultura faz parte de uma indústria, ela tem uma tendência a se concentrar nos lugares de maior poder aquisitivo. Naturalmente os equipamentos culturais tendem a se concentrar na Zona Sul Então precisa de um esforço de política pública para descentralizar. Um esforço que a Secretaria de Cultura do Rio tem feito isso com muita ênfase. Essa gestão está reformando e inaugurando um conjunto enorme de espaços culturais por todo o Rio de Janeiro. A gente também aqui na RioFilme, particularmente relacionado aos cinemas, com o apoio da Lei Paulo Gustavo, está conseguindo fazer também essa movimentação. A gente renovou um conjunto de cinemas, o Cine Santa, o Cine Carioca Nova Brasília e a Cinemateca do MAM. E a gente está reinaugurando dois cinemas na Penha, que tinham fechado há mais de 12 anos também Então a gente está fazendo esse esforço, mas é um esforço difícil, é custoso.

E isso é importante dizer, particularmente no caso dos cinemas, o custo de renovação é grande, mas mais difícil é a manutenção, é encontrar um modelo de negócio que torne aquele espaço viável, sustentável.

Porque senão você cria um elefante branco. Você inaugura o cinema e depois de um mês ele está fechado porque não tem frequência, porque não se encontra um modelo certo de precificação, ou o ingresso é alto demais e ninguém vai, ou ele é baixo demais e ninguém paga ”

Há mais de dez anos, a RioFilme é dona da rede de cinemas CineCarioca, que está preparando a inauguração do CineCarioca José Wilker, novo cinema de rua em Laranjeiras, na sede da RioFilme.

“CineCarioca surgiu para garantir que você tenha oferta de cinemas de rua em locais em que estavam sendo perdidos os cinemas de rua. A Zona Norte foi o primeiro foco, a gente estudou vários locais, mas o desafio do CineCarioca é que a gente precisa encontrar um terreno público disponível e precisa investir na construção do cinema como um todo na operação. Então, em Madureira a gente não conseguiu ainda solucionar a questão do local.

Você precisa ter um terreno que não é qualquer terreno, que é um terreno que tem espaço, tamanho, porte, e que tenha uma localização que faça sentido. A gente também quer um cinema em lugar de pouca circulação, o cinema tem que estar perto de outro serviço, então é uma situação um pouco complexa, mas a gente continua sempre procurando espaços locais para tentar implantar novos cinemas cariocas. Quando são cinemas privados, precisa desapropriar isso, tem um custo, tem que pagar o terreno, então é possível esse debate, mas tem que encontrar a equação econômica para essa viabilização. A gente chegou a dar uma olhada nesses dois cinemas¹, mas a gente ainda não conseguiu chegar numa modelagem para isso.

A Zona Oeste é ainda mais difícil, na verdade, porque você tem menos tradição, então a Zona Oeste é ainda mais complicada. A Zona Norte, por ser mais antiga, ela tem equipamentos, ela tem lugares que já foram (dedicados) ao cinema, a Zona Oeste não, quando ela é mais nova, ela não tem esses equipamentos históricos, ela não tem essa tradição, você tem que apostar, você tem que encontrar um terreno público e tem que apostar na localização.

Então tem que encontrar os modelos. A gente conseguiu encontrar um ali no Alemão² que funciona bem, a gente subsidia com o valor, mas o ingresso é cobrado, um valor bem popular que é 5 reais, o máximo que ele pode ser. Então a gente consegue encontrar modelos assim, mas em cada lugar é um lugar que tem seus desafios particulares. A gente vai experimentar agora essa versão da Penha para ver se é um modelo que a gente consegue expandir eventualmente para outros lugares

É um desafio grande, porque eu acho que há espaço para o cinema de rua, mas é preciso encontrar esses modelos e esses espaços Porque hoje em dia, depois da pandemia, você teve uma retração, quando você acompanha o público, todos os lugares de fruição pública tiveram uma retração agressiva durante a pandemia, só que alguns voltaram muito rapidamente. Mas o cinema está tendo uma curva mais lenta.”

¹ Os dois cinemas referidos são o Cine Guaraci, em Rocha Miranda e o Cine Vaz Lobo, em Vaz Lobo, que geraram manifestações populares pedindo suas revitalizações e até documentários. Confira-os clicando nos textos com hyperlink

² Maurício se refere ao CineCarioca Nova Brasília, localizado no Complexo do Alemão.

Por partes: RioFilme.

Com a palavra, Maurício Hirata Filho, diretor de investimento da RioFilme

“Esse ano a gente está com os editais na rua, a gente teve um pequeno decrescimento, porque no passado a gente teve a Lei Paulo Gustavo, e os nossos editais estão somando um investimento de 35 milhões de reais esse ano. Então no total nos 4 anos a gente vai ter, deixa eu ver, 25 mais 60 são 85, mais 55 são 140, mais 20 mais ou menos aí 160 milhões de reais investidos em 4 anos no setor audiovisual em todas as atividades.

Aí a gente investiu desde ação de formação local na periferia até longa metragem de grande bilheteria, todas as coisas no mês, sala de exibição, cineclube, curta metragem, jogos eletrônicos, websérie para TV, para YouTube, redes sociais, desenvolvimento de projeto de animação, desenvolvimento de projeto de longa, desenvolvimento de projeto de série, em documentários, séries de documentários e longas metragens de ficção e de animação. Então assim, não tem nada que exista no audiovisual carioca que a prefeitura do Rio de Janeiro não esteja investindo “

“A gente não controla o cinema, é importante lembrar isso, a gente chama RioFilme, a Ancine chama Ancine, mas são duas coisas completamente diferentes, a Ancine é uma agência reguladora que tem, entre as suas atribuições, regulação, e a regulação implica uma série de questões, como cobrança de imposto, então tem até alguns aspectos regulatórios que se relacionam até com cinemas adultos, digamos assim, do ponto de vista obviamente não, do ponto de vista de censura, do ponto de vista tributário, só tem imposto que tem que pagar porque é um produto audiovisual, cobra ingresso, enfim, tem as obrigações que qualquer outro tem.

A RioFilme não é isso, a RioFilme não é uma agência reguladora, a gente não fiscaliza nada, a gente não tem poderes fiscalizatórios sobre nada.

“O poder público, ele tem seu próprio tempo, sua própria natureza, ele é um tipo de instância muito mais lenta, muito mais burocrática, muito mais complexa, mas o que é importante sempre é a decisão política. Se você tem a decisão política de ter uma atuação, por exemplo, num circuito de salas de rua, isso é fundamental Se ele tem maior alcance ou menor alcance, a gente pode conversar, discutir, etc , mas o passo fundamental é ter, porque não ter é terra arrasada, é o deserto completo, é você perder as coisas.

Então, você julga num primeiro momento uma atuação política pelo vetor que ela instaura, ela quer ter alguma coisa, ela está trabalhando para ter alguma coisa, ela está criando instrumentos para isso, ela tem um aspecto positivo, pode ser maior, menor, mas tem um aspecto positivo. Agora, ela resolveu não ter, é um desastre.”

(Hernani Heffner)

A RioFilme e o foco da RioFilme é isso, é continuar atuando para fazer o setor audiovisual carioca crescer. Essa é a missão da RioFilme, é isso que a gente pretende continuar fazendo e continuar investindo no setor carioca plural em todos os seus aspectos, cultural, industrial, na sua exibição, na distribuição, na produção, e garantir que ela cresça de forma saudável com todos os seus elos vivos e atuantes.”

NO CENTRO, A CINEMATECA DO MAM

Gerenciada pelo pesquisador, crítico e curador Hernani Heffner, que nos conta mais sobre a importância do espaço pra cidade

“A Cinemateca tem uma programação extremamente diversa, intensa, volumosa, e nesse sentido não tem um único critério, uma única forma de desenvolver essa programação. Eu te diria que o conceito dela é diversidade, ela abriga de tudo, desde uma préestréia de um curta-metragem de um jovem realizador de 18 anos até uma retrospectiva de um cineasta consagrado, etc.

A Cinemateca, ela tenta não ser neutra, mas ela tenta ser abrangente no sentido de apresentar de tudo, mas também tenta ser crítica. E a crítica não é só, digamos assim, há uma manifestação mais conservadora às vezes, é uma crítica que também é uma manifestação progressista à medida em que ambas têm lá suas contradições e a Cinemateca, o papel dela é levar essa informação cultural da melhor maneira possível ao público.

O público variou ao longo do tempo, ele se perdeu ali entre os anos 90 e os anos 2000 porque foi um momento de crise mundial dos arquivos de filmes, porque a geração que acompanhou a formação dos arquivos de filmes tinha envelhecido, estava ali no limite da sua existência, tinha uma relação muito nostálgica com o arquivo de filmes porque o arquivo de filmes lido com o passado, então essa geração achou que o espaço do arquivo de filmes era o espaço da nostalgia, quando se tentou mudar isso no longo dos anos 2000 houve muita reclamação desse público de que estavam se passando não mais os filmes clássicos, estavam se passando filmes mais recentes, mais contemporâneos e que a Cinemateca não era para isso, etc.

Esse público mais antigo foi saindo de cena e o que ia acontecer na Cinemateca é que depois da pandemia, surpreendentemente o público que veio a frequentar a Cinemateca é um público inteiramente novo e jovem, é como se uma nova geração tivesse descobrido a Cinemateca, o tipo de programação que a Cinemateca oferece, o fato de ser uma sala presencial, por exemplo, em tela grande, etc.

Formalmente a Cinemateca é uma gerência de um museu, que é um museu privado, é uma associação cultural sem fins lucrativos, que vive de patrocínio através das leis de incentivo, e a Cinemateca desenvolve seus trabalhos através dessa forma de atividade cultural que se criou no Brasil a partir dos anos 80 com a lei de incentivo à cultura”.

SALA DE EXIBIÇÃO DA CINEMATECA DO MAM 2023 IMAGEM DO AUTOR.

“Ela tem presença na imprensa, eu diria até que muito natural, ela é sempre consultada por questões ligadas à área, à cultura, ao patrimônio, ela tem uma raiz muito forte porque a Cinemateca até os anos 90, com um ex-diretor aqui em 2015, ela sempre foi dirigida por críticos de cinema, que na verdade eram jornalistas e que na verdade atuavam na imprensa cotidiana, na época em que o jornal impresso era muito forte, era o principal meio de comunicação e era o principal meio cultural, meio de formação de opinião como se dizia antigamente. Então não só essa presença, ela acontecia pela própria existência da Cinemateca, importância da Cinemateca, valor da sua programação etc.

A gente tem uma série de atividades que inclusive o grande público não conhece, por exemplo, a gente tem um programa de exibições para a população de rua desde 2016. Isso é um programa desenvolvido junto com a Secretaria do Bem-estar Social da Prefeitura. Como a própria secretaria pediu que não se fizesse uma sessão aberta ao grande público, é uma sessão para a população de rua, o grande público não sabe que a gente faz isso. Em função da dificuldade às vezes de trazer as pessoas, etc. É uma sessão no meio da tarde, não é uma sessão à noite.

A gente faz sessões para grupos escolares, a gente faz sessões para deficientes, a gente faz uma série de coisas que nem é divulgada. Porque às vezes tem esse caráter, entre aspas, exclusivo, tem um caráter particular. Esse trabalho social da Cinemateca é muito antigo, na verdade. E eu diria que se intensificou de 2015 para cá e a gente considera esse trabalho um trabalho fundamental, porque embora a Cinemateca seja gratuita, tudo ela é gratuito, isso é uma das decisões políticas mais importantes que a gente teve ao longo do tempo, o fato de ser gratuito não significa que vai atrair todo mundo. A Cinemateca vive um ótimo momento porque ela soube encontrar um caminho para se renovar, sem abrir mão da sua missão institucional que é apresentar toda a história do cinema para as sucessivas gerações, e de alguma maneira soube trabalhar esse público novo para se fidelizar. Então nesse momento, do ponto de vista do público, a Cinemateca vive talvez o melhor momento do século XXI.”

Localizada no Parque do Flamengo há quase 80 anos, a Cinemateca, junto ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, são hoje duas das mais importantes instituições culturais do país E, para o RPP, Hernani conta um pouco de sua história.

“A Cinemateca está prevista na criação do Museu em 1948, mas quando ela surgiu foi de uma decisão do Museu que dizia assim, nós não temos condições, perna, dinheiro, etc, para investir nisso, mas se um grupo de pessoas quiser desenvolver isso, o Museu abriga, dá o espaço, etc, mas a Cinemateca sobrevivia por si só. Esse acordo foi feito lá no início, a Cinemateca acabou se viabilizando, nos anos 60 e 70, acabou se tornando grande instância do Museu e ela tinha uma autonomia completa, inclusive financeira, a Cinemateca era um órgão rico, e lá para você ter uma ideia, em 1970 ela tinha 11 salas de cinema no Rio de Janeiro, ela tinha um circuito próprio. Pouca gente sabe disso hoje em dia e tinha, digamos assim, um fluxo de público, 150 mil espectadores passaram por esse circuito em 1970, então ela tinha recursos, etc.”

NO CENTRO, A CINEMATECA DO MAM

Gerenciada pelo pesquisador, crítico e curador Hernani Heffner, que nos conta mais sobre a importância do espaço pra cidade.

“A primeira gestão da Cinemateca é de americanófilos. Tanto o (Antônio) Moniz Vianna e o Ruy Pereira da Silva são partidários de Hollywood. A primeira grande evento da Cinemateca é uma história do filme americano, em 1958, que é o evento que apresenta a Cinemateca para o mundo. Mas é dedicado a Hollywood. Quando vêm os momentos seguintes, os novos diretores se afastam de Hollywood e vão para o cinema europeu, ou para o cinema latino-americano, ou para o cinema de esquerda. E o entendimento e a compreensão de que você pode ter, sim, um interesse por uma outra cinematografia, mas que a rigor, você tem que compreender todas elas e apresentar essas contradições, é bem mais difícil dentro da história da Cinemateca. No meu caso particular, todo o meu trabalho é nesse sentido de não excluir ninguém. Por isso que eu te disse que o vetor é um vetor de inclusão, mas é um vetor de inclusão crítica.

Se eu eventualmente vou valorizar Hollywood, tenho que valorizar Hollywood, porque Hollywood é história, porque Hollywood é arte, mas isso não significa eliminar o fato de que Hollywood é um oligopólio, o fato de que Hollywood é um corpo estranho no mercado brasileiro, o fato de que Hollywood tem uma relação de dominação com atividades cinematográficas no Brasil. Apresentar Hollywood não é eliminar as contradições de Hollywood. Eu te diria, inclusive, que a melhor forma de lidar com isso é justamente apresentar as contradições e fazer a crítica. Então, a Cinemateca oscilou, como a atividade cinematográfica brasileira oscilou, em função das relações de poder que acontecem dentro do país e do país com o mundo. O Brasil não está isolado do mundo. Então, de alguma maneira, a Cinemateca reflete isso, mas não reflete por uma relação de causa e efeito. Reflete porque, às vezes, tem um grupo dentro da Cinemateca que é partidário disso ou partidário daquilo, tem um momento na história da Cinemateca em que ela se reposiciona em função do contexto, tem diretores dentro da Cinemateca que têm um pensamento X ou um pensamento Y, e isso não é automático. Ao contrário, isso é bem complexo e, às vezes, aprofunda as contradições.

Ela acorda tardiamente para o cinema brasileiro, quer dizer, a primeira vez que ela recebe algum material brasileiro é só em 1959, ou seja, mais dez anos depois da sua criação, a primeira vez que ela exibe um filme brasileiro é só em 1964, e ela só vai se voltar sistematicamente para a coleta e conservação de filmes brasileiros nos anos 70. Então, isso não foi automático, muito pelo contrário. Mas, ao longo da sua história, de alguma maneira, ela tem, às vezes de forma difusa, às vezes de uma forma direta, uma relação de apoio à atividade cinematográfica no Brasil, e, particularmente, de apoio à criação fílmica brasileira. E, nesse sentido, a Cinemateca do MAM é única, porque ela foi o único arquivo de filmes no Brasil que participou da produção de filmes, que coproduziu mais de 150 filmes desde 1958 até agora”.

EM BOTAFOGO E GÁVEA, O GRUPO ESTAÇÃO

Atuando desde 1985 na cidade, hoje contam com três espaços. Com a palavra, o cineasta, produtor e parceiro do Estação, Cavi Borges.

“O Estação já foi muito maior do que ele é hoje. Já pegou o Odeon. Ele tinha um cineminha no Paço Imperial lá do Centro, tinha o Cinema I em Copacabana, o Estação chegou a ter 30 salas, só que com a crise foi fechando e ficando só esses. Ipanema fechou e não reabriu, já teve na Barra, no Catete, no Paissandú.. a Petrobras patrocinou já o Estação durante um tempão. Hoje em dia a NET, a Claro agora, mas o Estação já foi muito maior que já é.

São três cinemas e ao todo são treze salas. É muita gente. Tem os funcionários daqui, tem os funcionários do escritório, tem o pessoal da programação, tem o pessoal da logística, tem assessoria de imprensa, designers, é um grupo grande assim, por isso também é um custo alto. Durante a pandemia eles fizeram um crowdfunding, uma vaquinha e conseguimos setecentos mil reais, cara. Em três meses, setecentos mil numa vaquinha. Quem consegue 700 mil numa vaquinha? Só quem é muito querido e o Estação é muito querido. Então acho que tem essa força, né? Assim, a grande força do Estação são as pessoas que frequentam o Estação. E aí quando o Estação precisa de ajuda, essas pessoas te ajudam, né?

O cinema sobrevive dos ingressos. Ele tem o apoio da NET o patrocínio da NET, mas a NET paga só vinte por cento do custo do cinema, oitenta por cento é da frequência, do ingresso vendido. Quando a sala fechou com a pandemia, não tinha mais dinheiro, entendeu? Como é que vai pagar os funcionários? Como é que vai manter esse aluguel aqui? Mesmo não sendo usado, tinha todo um custo. Então aí foi preciso fazer essa vaquinha pra pagar os custos. Mesmo assim ficou devendo. E essa dívida acabou gerando esse movimento de despejo que o Severiano Ribeiro fez, que ele é o dono deste espaço aqui, atrasou quatro meses, eu acho, de dois anos atrasou só quatro meses e ele entrou com recurso pra tirar o Estação, entendeu?

Mas aí de novo o Estação se juntou, se mobilizou, criou o movimento Fica Estação, tombando pelo patrimônio histórico depois conseguimos ganhar na justiça e fomos vencendo batalha a batalha.

Eu estou há oito anos pra cá no Estação mas o Estação tem quase quarenta né? Então assim, já passou muito altos e baixos, já passou muitas dificuldades, já superou, então é assim é como a vida né? Você está num momento ruim, aí um bom, aí outro momento ruim. Agora eu acho que ele está indo pra um momento bom, saindo de um momento ruim. A gente nunca sabe, né?”

“O Grupo Estação cumpre uma missão muito importante, duas missões muito importantes, uma é de preservar os cinemas de rua mais frequentados do Rio de Janeiro, que são os dois cinemas do Estação ali em Botafogo, então preservar uma cultura de frequência de cinemas de rua, e a segunda é garantir a diversidade de ofertas de produtos cinematográficos para a população carioca, é garantir que a gente não tenha só uma cinematografia sendo representada no Rio de Janeiro, você tem acesso a múltiplas cinematografias, estéticas e diversidade estética e tipos de vozes no Rio de Janeiro, que é muito importante. Nenhuma democracia saudável sobrevive com apenas uma única visão de mundo, uma única voz, independente qual seja, independente de se concordar ou não concordar, precisa ter diversidade, diversidade é fundamental, o Estação cumpre essa missão.” (Maurício Hirata)

“O Estação tem um espaço privilegiado, um lugar privilegiado com salas privilegiadas, mas eles talvez não tivessem tanta força mais assim, braço pra fazer tanta coisa. quando chega a Cavídeo (vídeolocadora do Cavi localizada em Laranjeiras e no próprio Estação Net Rio, como loja e sebo de cinema), quando chegam os novos curadores, quando chegam outras pessoas também juntando forças, a coisa se fortalece entendeu? E aí consegue fazer a coisa dar certo.

Eu acho que esse novo Estação já vem com essa cara de coletivo, de juntar forças, de juntar a nova geração com a antiga geração e de abrir espaço pra galera de hoje em dia que tem gente de treze a vinte anos aqui frequentando as sessões da meia-noite, as sessões de classiquíssimos, as festas, vai ter a festa do pijama aqui semana que vem que vai ter viradão de meia-noite até às sete da manhã passando vinte e cinco filmes aqui pra galera ficar dormindo aqui dentro do cinema, essas ideias que vieram da galera jovem, entendeu?

Mas acho que é isso, o legal da Adriana Rattes, que é a que é a diretora (também gerente e co-criadora) do Estação, é que elas abriu portas pra essa nova geração chegar junto. Porque geralmente essa galera velha renega o novo, aí fica “ah, estão tirando nosso lugar!”, ela, ao contrário, abraçou o novo e aí tá transformando o Estação numa cara nova. Antigamente cê olhava o saguão e era só velhinho, hoje em dia tá só gente nova, não é só velhinho, não é um lugar mais só de velhinho, tem a galera jovem também. E essa renovação veio graças a essa junção de pessoas jovens e os novos curadores e acho que tá voltando a força.

A gente está tentando trazer todo mundo, sabe? Mostrar que o Estação é um lugar assim onde é a casa de todo mundo, de quem gosta de cinema e de arte. Não importa se é negro, branco, queer, velho, roqueiro, metaleiro, artista plástico, casa de todo mundo, é de quem gosta de arte, de cultura e de cinema, entendeu? Mas é difícil, né? Porque Zona Sul... Mas a gente tá tentando com esses eventos, com essa programação, trazer todo tipo de gente.

O ESTAÇÃO E SUA IMPORTÂNCIA

Estação Net Rio, Estação Net Botafogo e Estação Net Gávea. No total: 13 salas.

RPP: Você tem uma análise própria do público do Estação Net?

R: “Acho que hoje em dia tem de tudo, essa mostra do Fellini foi um exemplo, tinha gente nova vendo pela primeira vez e gente velha revendo Fellini. Na mostra do Chaplin, veio uma avó com o filho e o neto. A gente faz uma sessão de clássicos (Classiquíssimos) às segundas e quando perguntamos nas salas “quem nunca viu o filme levanta o braço”, metade da sala levanta o braço. Então vem uma galera pra rever e descobrir pela primeira vez. Cinema mundial, Bergman, Tarkovsky, o próprio cinema brasileiro mesmo, Neville, Nelson Pereira dos Santos… Então, assim, acho que hoje em dia o Estação tá bem eclético. A mostra de terror tem mais jovens, essas maratonas de virar a noite também, essas mostras tipo Tarkovski tem mais gente velha vendo. Depende também do evento, do que tá rolando, mas acho que, de uma forma geral, a programação do dia a dia tem de tudo.

A gente percebeu que o Estação tem de tudo. E cara, e as mostras LGBT e as mostras de terror lotam aqui no Estação. Vai virar uma tradição, vai ser uma coisa todo ano que vai ter. A gente percebeu que que agrada tanto o jovem quanto o mais velho, entendeu? Então sempre todo ano vai ter. Nunca vai deixar de ter a amostra Terrível, a Quem Quer Queer? que é essa amostra que o Estação criou de cinema LGBT, próprias Sessões de meia-noite que também às vezes tem temática LGBT, ontem por exemplo passou documentário do Rolling Stones, o Gimme Shelter, semana que vem tá esgotado já a sessão do Talking Heads, um documentário sobre também música, né? O cinema como música também, os festivais tão vindo pra cá também, eu tô trazendo de manhã também escolas públicas pra vim ver filme infantil, filme com temática negra também, eu me associ também a galera do Cultne, de cultura negra também, desde quando a gente faz os eventos também, tem o próprio Clementino do Cineclube Atlântico Negro, também que é uma preocupação nossa também que aqui não seja um lugar só de elite, branco, sabe? Tem a gente da periferia que venha também, agora vai ter o Visões Periféricas também e da mostra também da Baixada também.”

“O Grupo Estação cumpre uma missão muito importante, duas missões muito importantes, uma é de preservar os cinemas de rua mais frequentados do Rio de Janeiro, que são os dois cinemas do Estação ali em Botafogo, então preservar uma cultura de frequência de cinemas de rua, e a segunda é garantir a diversidade de ofertas de produtos cinematográficos para a população carioca, é garantir que a gente não tenha só uma cinematografia sendo representada no Rio de Janeiro, você tem acesso a múltiplas cinematografias, estéticas e diversidade estética e tipos de vozes no Rio de Janeiro, que é muito importante. Nenhuma democracia saudável sobrevive com apenas uma única visão de mundo, uma única voz, independente qual seja, independente de se concordar ou não concordar, precisa ter diversidade, diversidade é fundamental, o Estação cumpre essa missão.” (Maurício Hirata)

“No cinema, os funcionários chegam às dez da manhã e o cinema só abre às duas. Então de dez às duas fica meio vazio, eles vão arrumando salas e tal. E aí eu aproveitei esse horário que os cinemas estão vazios, eu comecei a convidar escolas pra vir. Entendeu? E começou a dar certo, as escolas começaram a me procurar. A grande dificuldade também é trazer né? Porque não é só ter o cinema de graça e o filme, é também deslocamento. como trazer cem crianças da baixada pra cá? gasta dinheiro, então também depende de apoios políticos, apoios da escola, mas a gente tá tentando.

A Adriana (Rattes, gerente e co-criadora do Grupo Estação) sempre abre pra essas possibilidades aí de deixar o cinema democrático assim de todo mundo poder ter acesso, né? Lógico que isso aqui é uma empresa comercial que visa pagar de custo e lucro, mas ela também tem esse lado social. O Estação faz iniciativas como essa assim pra tentar colaborar também né? Porque é isso que eu te falei. O cinema não é só o cinema em si. É o bairro né? É a sociedade. São as pessoas que frequentam aqui. Então assim, é um lugar pra todos né? É um lugar pra cidade, né? Tem uma importância pra cidade, sabe? Não é uma importância só pros donos do Estação. É pra gente, né?

Nem em Nova York tem um bairro com vinte salas de cinema, entendeu? Então assim, Botafogo é um bairro privilegiado, cinéfilo. Você consegue vir aqui no Estação, no Itaú, na Praia de Botafogo, no Shopping Botafogo, você consegue ver todo tipo de cinema aqui. E aqui também é próximo do metrô, que é uma coisa, o diferencial, né, porque o transporte, né, público, as pessoas às vezes vêm de longe, por exemplo, o cara vem, sei lá, da Baixada Fluminense, ou vem lá da Zona Norte, ele vem de metrô, ele vem de trem e metrô, e aí ele pode voltar de trem e de metrô também. Então, se você fosse, por exemplo, no Lagoon, ali na Lagoa, não tem metrô, ou você tem que pegar Uber, ou você tem que pegar táxi, entendeu? Então já dificulta o acesso para ir e para sair, entendeu? Então eu acho que essa coisa do acesso também ajudou muito.

E eu acho que esses cinemas foram atraindo esses bairros, né, esses bairros todos que foram abrindo, e acabou, é porque o cinéfilo, ele vê filme e depois ele continua no bar, né, conversando sobre o filme, bebendo, então é fundamental, assim, você vê, onde tem cinema? No shopping, próximo das praças de alimentação, o cara vê o filme e depois vão comer. Aqui o cara vê o filme e depois vai no barzinho aqui fora. Então também ter essa possibilidade de ter um lugar, depois de ver o filme, de poder beber, conversar, também é muito bom, então vai juntando essa boemia, esse lugar para comer, beber... É falta de integração, né?” (Cavi)

Na “Cinelândia Botafoguense”, além dos dois cinemas do Grupo Estação, há o cinema do Botafogo Praia Shopping, o do Shopping RioSul e o “novo” Cinesystem Praia de Botafogo “Novo”, escrito com aspas, pois ele já estava entre a muitos anos entre os cariocas, mas com outra roupagem, como Espaço Itaú de Cinema, que fechou esse ano gerando repercussão

“O abandono do Cinesystem vai simplesmente gerar duas coisas, no primeiro momento a mudança de perfil de programação, e se isso não funcionar, o fechamento do estado de cinema. Então assim, a adoção do Cinesystem pelo público que já frequentava o Itaú é muito importante para que o Cinesystem entenda que vai sentido manter aquele espaço como cinema, que faz sentido manter aquela operação, e a gente vai manter uma sala de cinema de rua, senão a gente provavelmente vai ter uma situação de fechamento também, o que é triste.” (Maurício)

“No Rio de Janeiro a gente tem um problema mais uma vez imobiliário, o problema é manter esses espaços, manter financeiramente, sala de cinema é caro para manter conta de luz, energia, limpeza, manutenção dos equipamentos, troca de equipamento porque, do dia para a noite, as tecnologias mudam, então assim é caro de ser mantido, ele já sai deficitário, né? E aí é complicado. Se manter, né? Então é um negócio que sai dinheiro, mas o dinheiro não entra, então. Talvez a possibilidade para que isso seja viável seja agregar funções a esse espaço. Fazer com que esse espaço também tenha outras funcionalidades, né? Desde culturais até comerciais. Mesmo assim, de outras coisas, mas enfim né, mas é só a sala de cinema ou teria que ter um suporte público, né? Uma contrapartida pública porque aí você tem com apoio, né?

Enfim, de leis de incentivo ou de editais, ou equipamento é um equipamento público, mas a gestão, ela é comercial, enfim, aí dá para essas modalidades, daria, mas eu acho que tem. Espaço no Rio, sim, para cinema, acho que tem demanda e tem demanda reprimida, tem gente que sente falta de ter cinemas mais próximos das suas casas, no sentido de rua mesmo, não shopping, e ter um lugar para ir, né? Para tomar um café para não ter que ir para Botafogo para o cinema de rua, e eu acho que rola esse aproveitamento dessa integração rua-cinema, que eu acho que isso é bom, mas a questão é essa, né? Que assusta, porque é um empreendimento que financeiramente de início não é viável, né?

Por isso que o plano de negócios para abrir uma sala de cinema nesse sentido de rua teria que incluir ali uma série de atrativos para que aquilo se pague tipo, por exemplo, salas multiuso é fazer evento, teatro, fazer a exibição de outras coisas que não sejam exatamente filmes, de piadas, de jogos, de espetáculos, palestras, ter uma livraria dentro, um restaurante dentro, uma coisa assim né? Coisas culturais também que possam trazer esse público e possam ajudar a pagar o espaço, então, na verdade, o que está pagando são as outras atrações, não é o cinema que está ali, meio que sendo sustentado pelas outras atrações, né? Mas pelo menos tem o cinema, né?”

(Talitha Ferraz, professora e pesquisadora)

EM GUADALUPE, O PONTO CINE

O primeiro cinema digital do Brasil se localiza na Zona Norte carioca. Com a palavra, seu criador, Adailton Medeiros.

“Quando a gente (do Ponto Cine) fala de (o termo) cinema de shopping, (na verdade) ele é de rua mesmo, sabe? E a gente assume isso na boa. Porque aqui é uma galeria e é de cara pra rua. Sabe o que é? Não é um shopping. É porque eu acho que estava na moda, na época, e o pessoal que construiu lá o espaço é um centro comercial. Aí eles chamaram de Guadalupe Shopping. Mas é uma coisa simples, sabe? Mas é bonitinho, bem cuidado. E a gente fica de cara pra rua.

E o Guadalupe Shopping foi um espaço que tava muito parado porque eles construíram, aí deu aquele boom, só que a maioria das pessoas que montaram lojas lá não eram profissionais do comércio, eram aquelas pessoas que entram naquele lance de demissão, aquele projeto de demitir pra pegar fundos de garantia, investimento e mais multa, e investiram nos seus negócios, só que não tocaram. E não tocando, foram pro buraco e levaram o shopping.

E lá na praça de alimentação não tinha nada, só tinham três lojinhas. Eu vi aquilo dali, falei aqui eu não tenho competição, (não tenho problema) com vento, porque, pô, montar uma tela, cara, em praça pública ventando é um terror. Eu não tenho problema com tempo, não tenho problema com chuva porque tá coberto. Vou lá falar com os caras. E os caras toparam.

Eles precisavam de movimentação no shopping. Aí o primeiro (dia) foi um sucesso, eles achavam que ia ter 30 pessoas, botamos 800 pessoas lá dentro, ficaram tudo doido. Isso é uma história muito longa, uma hora fora da pesquisa eu te conto quando você vier aqui, mas é muito, muito louca. Aí botaram 800 e depois eles mesmos ficaram interessados em que eu fizesse outra (sessão). Aí eu fiz “Deus é Brasileiro”, do Cacá Diegues, que hoje é o nosso padrinho do Ponto Cine.

E foram mais de mil pessoas, gente pra caramba. Só que nessa o dono do shopping foi lá. Aí o cara me perguntou, “pô Adailton, você nunca pensou em ter um cinema não?” O nome dele é Ruy, Ruy Paim. “Pô, Ruy, eu sonho com isso todos os dias, eu só não tenho bolso, cara”. Eu falei, rapaz, “vamos fazer um cinema aqui”. Ele não entendia nada de cinema, na verdade era um cineclube, o meu equipamento dava pra fazer um cineclube. E a ideia era fazer um cineclube. Aí ele topou, tinha duas lojas desocupadas, uma era só a metade da loja.

O sistema era o da Rain, então eu tinha que pagar royalties pra Rain Network. Cara, montamos o cinema. Foi a primeira sala popular de cinema digital do Brasil. Na América Latina, só tinha uma sala de experiência na Alemanha, mas era com outro sistema. Cara, começou ir gente lá de tudo quanto aquele lugar do Brasil pra saber o que que era esse negócio de cinema digital.

Eu tenho maior orgulho dessa história, pô. A gente tem que bater de frente. Tem hora que a gente tem que bater de frente, né, cara?”

FACHADA DO PONTO CINE, NO GUADALUPE SHOPPING, 2023. IMAGEM: DIVULGAÇÃO

“Lá (no Ponto Cine) a gente tem uma política que é o seguinte: Eu queria fazer um cinema que coubesse no bolso das pessoas daqui, porque eu sou suburbano. E eu cresci ouvindo que as pessoas daqui não tinham condição de assistir um bom espetáculo, um bom filme, um concerto de música. Mas eu curtia tudo isso. Eu ia pra tudo quanto que é lugar, fuçava de graça. Porque eu não podia pagar, sabe? Pedia até os amigos, o ingresso. Aí eu comecei a refletir sobre assim, as pessoas não têm condições por quê? É questão intelectual ou econômica? E eu saquei que o problema era econômico.

Então tinha que criar um cinema que pudesse caber no bolso das pessoas. E nada melhor do que o cinema digital. Os meus ingressos são subsidiados. Por exemplo, o professor, estudante, lá no Ponto Cine eles não pagam ingresso. Tem um projeto chamado Promoção Social de Cinema que subsidia os ingressos deles. Mas eu monto isso e vou captar recurso todo ano pra fazer isso. Ou seja, o cinema paga o ingresso deles e parte do que é captado também se mantém. É uma engenharia. É complicado, até pra entender. Tipo assim, se eu fosse na linguagem capitalista, seria assim, “como é que você se mantém?” “Bom, eu ganho dinheiro oferecendo de graça. Tá entendendo?” Lá o ingresso é 10 reais a inteira e 5 reais é a meia entrada.

Já teve gente lá, teve uma senhora uma vez, que foi lá com a filha e começou a falar lá pra bilheteira que ela gostaria muito de mostrar a sala pra filha dela, porque a filha dela nunca viu um cinema. Mas a bilheteira pediu pra ela guardar o horário de intervalo, que ela ia permitir pra senhora entrar lá pra filha. E isso aconteceu. E calhou de eu aparecer naquele momento ali na bilheteria, fui conversar com a bilheteira, não sei, não me lembro quem era, e ela me contou essa história. Eu falei, “ah, pô, eu vou lá ver a reação da menina”. Cara, quando eu cheguei lá dentro, estavam as duas, a mãe e a menina, com as sandálias na mão. Aí eu perguntei, “por que a senhora tava com as sandálias na mão?” “Não, porque aqui é carpete”. Ou seja, a mãe também não tinha entrado no cinema. Cara, isso é genial, isso é humano, é um bicho. Aquela pessoa ali merece cinema à beça, mas ela tava com tanta vergonha que ela falou que a filha não conhecia. Sabe? E hoje ela vai lá constantemente no Ponto Cine.

Eu queria ter investimento da Prefeitura aqui. Pois o cara fala assim, não, a gente vai botar um milhão todo ano pra vocês, fazer uma manutenção. Eu, pô, pode botar mais pra vocês aí, cara. Beleza. Agora, sem investimento não dá. O esforço é muito grande, JP”.

RPP: E você recebeu um prêmio pela Ancine na época, né? R: “É, é o PAR (Prêmio Adicional de Renda). Esse prêmio durou acho que 12 anos, e nós ganhamos durante 11 anos. Só não ganhei o primeiro porque foi no ano da inauguração do cinema, não tinha como contabilizar. Esse prêmio era dado ao maior exibidor de filmes brasileiros do território nacional. A gente ganhou esse prêmio, a gente ganhou o prêmio da Secretaria do Estado de Cultura também, nesse mesmo modelo. Ganhamos o Faz Referência do Jornal O Globo pela democratização e acesso ao cinema. Aí ganhei também medalha Tiradentes, medalha Pedro Ernesto, uma medalha da cultura carioca. Mas eu te falo a verdade, se esses prêmios tivessem sido em dinheiro seria melhor, cara.”

“Adailton era um cineclubista. Ele fazia o projeto Cinema em Movimento, que era da Petrobras, que levava cinema pra várias áreas do Brasil, assim, itinerante. Depois ele começou a trabalhar naquelas lonas culturais. Depois ele abriu o próprio cinema, entendeu? E Guadalupe hoje em dia tem até cinema em shopping, mas (o Ponto Cine) Guadalupe foi o primeiro cinema digital do Brasil e só passava filme brasileiro, cara. Ele fez uma pequena revolução lá. Pena que ele não conseguiu manter o patrocínio e fechou. Mas agora ele tá reabrindo.” (Cavi)

“O caso do Ponto Cine, que é o cinema de Guadalupe, que é um cinema que ficou um tempão fechado, mas ele vem justamente dessa preocupação de reorganizar a oferta de cultura na cidade, que a área não tinha absolutamente nada, então é uma iniciativa para justamente movimentar a cultura ali de Guadalupe e arredores, que enfrenta muitos problemas em termos de viabilidade econômica, de apoio governamental. Entra apoio, tira apoio, tem dia que tem apoio, tem fase que tem apoio, tem fase que não tem. Mas eles são ali vanguardistas nessa ideia de fazer mesmo com que a descentralização de oferta cultural aconteça na cidade.

Um outro exemplo, que é um exemplo muito legal, é o Subúrbio em Transe, que é um coletivo, que na verdade nasce com um aspecto cineclube, uma coisa mais cineclubista, só que eles viraram um coletivo de formação, ainda tem forte o cineclubismo e de produção. O Subúrbio em Transe também tem essa vocação pela produção no cinema, então é uma questão que não é só gerar o acesso à coisa que vem de fora do produto que eu vou lá exibir, é fazer também o produto cultural. Eu vou fazer o produto cultural aqui e eu vou ver o meu produto cultural que eu mesmo fiz, a minha comunidade fez.

Então isso completa ali uma possibilidade de ciclo de vida da cultura, produtores e consumidores dinamizando esses mercados, digamos assim, locais, e fazendo com que você tenha produção e consumo locais, sem depender, obviamente, o tempo todo dos polos que naturalmente estão emanando dos seus poderes. Claro que a gente sempre vai estar ali a mercê dos hegemônicos, sempre. Mas esses exemplos são interessantes porque provam o que dá para fazer. É difícil, é uma luta, apoio, vai ter dificuldade, mas há possibilidade. Então eu acho que a cultura no Rio é muito concentrada, esse é um problema histórico, mas há linhas de fuga, digamos assim. Há possibilidade de a gente furar esses esquemas, só que tem que ter muita paciência e fôlego para poder enfrentar isso aí. Muita mobilização.” (Talitha)

“Arroz, Feijão e Cinema” é um documentário de 2016, dirigido por Léo Barros, que fala sobre o Ponto Cine e a desigualdade no panorama cultural carioca. Esse texto contém hyperlink, clique nele para assistir!

FACHADA DO CINE SANTA, 2024 IMAGEM: DIVULGAÇÃO

EM SANTA TERESA, O CINE SANTA.

Resistindo a 20 anos de luta, com a palavra, sua co-criadora, Fernanda Oliveira.

“Há uns 8 anos a gente criou uma nova nomenclatura, uma nova marca que se chama Grupo Casal. Quando a gente passou a ter cinco cinemas na cidade, então a gente meio que fez uma brincadeira com os grandes grupos exibidores, (como) o Severiano Ribeiro, o Kinoplex, o UCI, que são grupos até estrangeiros. Então, a gente fez essa brincadeira que nós nos tornamos um grupo, já que passamos a ter mais de uma sala. Então, denominamos de Grupo Casal, porque continuamos sendo os únicos dois sócios desse conglomerado de salas.

A gente virou meio guardião dos cinemas que começavam a fechar, qualquer cinema que perigasse fechar já começavam a avisar a gente para a gente pegar, porque na verdade o Cine Santa, ele um exemplo de guerreiragem, sabe, porque a gente, por 10 anos, os 10 primeiros anos, era eu e Adil (Tiscatti, sócio e marido de Fernanda) ali com um carinha que fazia projeção em película, que a gente não sabia fazer e era a gente fazendo tudo ali, lavava o banheiro e fazia pipoca, vendia ingresso e chegava cedo, aspirava a sala, limpava a poltrona para manter o cinema, que era um cinema pequeno.

A gente tinha muitas dívidas porque a gente abriu o cinema com um cheque pré datado, comprou poltrona usada, montamos a sala, ficamos um tempão pagando dívida, então era um exemplo de casal guerreirinho e aí começou, o primeiro cinema que a gente pegou depois do Cine Santa foi o Cândido Mendes, um cinema lá em Ipanema, de rua também, um cinema muito antigo, muito tradicional, com mais de 50 anos, ficamos 10 anos lá, aí logo depois veio o Museu da República que ia fechar, estava ali na mão do Adhemar (Oliveira), que era dono do ArtePlex há uns anos já e o Adhemar cresceu muito, tinha mais de 100 salas no Brasil inteiro e aquele cineminha ali do museu, um cinema com 70 lugares e estava bem precário assim, no sentido de precisar de investimento, a gente pega e mantivemos o cinema aberto também cinco anos ou seis até a pandemia.

E aí o Cine Carioca Nova Brasília, um cinema da prefeitura e que fica lá dentro do Complexo do Alemão e a empresa que tinha ganhado a gestão desde a inauguração decidiu sair, era uma empresa de São Paulo e a prefeitura licitou e não apareceu ninguém, porque esses cinemas pequenos ou cinemas assim muito particulares, os grandes grupos não têm interesse e o mercado de exibição ele é feito de grandes grupos e temos nós, a gente é um nano grupo inserido num contexto de gigantes, então apareceu a gente lá na licitação e obviamente ganhamos porque nem tinha outro para concorrer, ficamos lá cinco anos também até a pandemia.”

“No final então a gente tinha o Cine Santa, o Cine Cândido, o Cine Museu e o Cine Carioca Nova Brasília e aí por último o cinema do Barra Point, que o Estação estava lá também há quase 20 anos e entregaram duas salas e aí a gente falou, ai não, pelo amor de Deus, vamos pegar porque vai fechar, era o único cinema da Barra que passava filme de arte e nós pegamos também, então no final a gente estava com cinco cinemas, estava indo tudo muito bem, a gente adorava para dizer a verdade porque os cinemas estavam ali de pé se mantendo abertos, que é quase essa missão da gente, né?

O Cine Carioca Nova Brasília era o meu xodó, porque era uma sala realmente linda num contexto social incrível, né? Ela tinha o ingresso subsidiado, então era muito acessível, né? Todos podiam ir e a gente chegou lá com muita gana, né? A empresa que saiu meio que estava muito desmotivada, então a gente trouxe todo um novo astral para o cinema, a comunidade na hora entendeu que chegou pra acontecer e a gente subiu a ocupação da sala que estava em 20% para 80%, foi muito bacana, eu adorava, foi muito difícil, a gente resolveu entregar, digamos assim, porque eu engravidei e uma gravidez meio de risco porque eu já tinha 46 anos e ir para o Alemão todos os dias, foi bem naquela fase do Witzel, do governador Witzel e ele estava muito bélico ali, né? Bombardeando, digamos assim, as comunidades de helicóptero, né? O helicóptero sobrevoava atirando, eu passei por momentos difíceis e aí a gente nesse contexto da nossa gravidez e num território que estava passando por uma fase difícil de violência a gente decidiu entregar e não continuar, digamos assim, né?

E foi uma experiência muito bacana porque tem a nossa linguagem, né? Eu sou do subúrbio, eu sou de Santíssimo, então eu me identifiquei muito com a região, com o comércio, com as pessoas, não teve algum choque territorial, “ah a dona do cinema é da Zona Sul e vem pra cá”, não, eu tenho esse perfil, né? Então foi muito fácil, foi talvez mais fácil do que os cinemas da Barra, que a gente frequentava pouco a Barra, a gente conhecia pouco ali os moradores, então no final deu tudo certo, a gente ficou fechando as salas na pandemia, não conseguiu reabrir porque, enfim, muita dificuldade, os cinemas são pequenos, então passando por um baque desse a gente não conseguiu se erguer e ainda com um bebê em casa no meio da pandemia, mas a gente ainda tem essa missão, a gente ainda fica muito atiçado quando vê um cinema que pode ser reaberto ou que o Museu, o Cine Museu da República no Catete, a gente tá aguardando até agora pra reabrir, tá tudo lá, tá montado, estão todas as nossas coisas lá, aí é a burocracia e seguir em frente.”

RPP: Voltando um pouco no tempo, eu vi que vocês também participaram de um cinema de rua em Bangu (Cine Arte Bangu), pode falar mais sobre como isso aconteceu?

R: “Tanto eu quanto o Adil (Tiscatti), nós somos da Zona Oeste, eu sou de Santíssimo e o Adil é de Bangu, então é uma região que já nessa época, né, há poucos anos atrás, já era precária, né, em relação à cultura, nós somos dessa região, com família morando lá e tudo, então assim que a gente teve oportunidade, a gente cavou ali um acesso a ter ali um cinema, se chamava CineArte Bangu, era um cinema de rua, nós tínhamos um sócio da região, né, um sócio capitalista que investiu e ele funcionou acho que por uns três anos ou quatro, era bacana, nós tínhamos um público bem interessante, tinha esse perfil, né, do cinema de arte, do cinema brasileiro, do cinema cult, então a gente foi ganhando público, mas aí veio a inauguração do shopping, o primeiro shopping de Bangu, né, que era, que foi construído na fábrica de Bangu, um shopping bem bacana, aí com aquelas salas de shopping e nós não suportamos a concorrência e aí acabamos fechando, mas foi uma experiência muito bacana porque a gente viu que é possível.

Bangu é um bairro enorme, mais de um milhão de pessoas morando ali e é um bairro muito precário culturalmente falando no sentido dos equipamentos, né, tem muita cultura acontecendo, tinha naquela época que nós morávamos lá, nós inclusive participamos de vários núcleos culturais que fomentaram e criaram a lona de Bangu, nós participamos, mas assim, em termos de equipamento é precário, hoje o bairro tem cinema no shopping, o bairro tem a lona, né, que serve para música, para teatro e tudo, mas se você pensar num bairro tão grande, né, quanto Bangu, é pouco, né, é pouco, então foi uma experiência muito bacana, não é fácil, né, você criar do zero um equipamento de rua numa região que não tem esse hábito, né, mas não tem, mas a gente tem essa expertise, tem essa garra, né, a gente fez com muito amor, foi muito bacana e quem sabe a gente não volte a abrir um cinema ali na região.”

RPP: O Cine Santa ganhou por quatro anos seguidos o prêmio da Ancine de maior exibidor de filmes brasileiros do país Qual o tamanho da influência que isso causou?

R: “Nós ganhamos sim, como maior exibidor de cinema nacional, Prêmio da Ancine, né? Foi na época uma estratégia, né, era nossa missão, a gente entendia que tinha que ser por aí, a nossa identidade enquanto empresa, enquanto equipamento cultural, ela tinha que partir do cinema nacional, então a gente absorveu durante esse tempo os filmes nacionais e quando a gente fala absorveu é porque eram muitos filmes pequenos, muitos documentários, produtoras pequenas, filmes até independentes e a gente acabava recebendo esses filmes, colocando em cartaz e criando ali um perfil, né? do nosso equipamento e da nossa marca.

Mas há também, tinha também uma necessidade porque como a gente era muito pequeno e o mercado nessa época, 21 anos atrás, tava achando que o mercado, ele ditava muito, ele achava que tava muito bem no sentido da ocupação dos cinemas, a gente não conseguia pegar os filmes estrangeiros, entende? as distribuidoras não davam para a gente. Quando elas davam um filme, por exemplo, um Woody Allen, lançou um Woody Allen, eles davam para a gente na oitava semana, ou seja, dois meses depois que o filme entrou em cartaz é que a gente recebia o filme, então o que a gente faz enquanto não tem o filme? Vamos passar filme nacional, vamos passar o filme, o documentário da produtora dali, tal, então foi uma necessidade também, né? Que era o que a gente podia exibir e acabou dando essa repercussão, né, da gente ser um cinema que no final das contas absorvia ali o mercado nacional, que as salas de shopping não, as salas de shopping elas exibem o filme brasileiro obrigatório, porque se não tivesse a lei da cota de tela, os cinemas nem exibiriam, no máximo um Paulo Gustavo, uma comédia, uma coisa assim, de resto não exibem mesmo, eles só exibem o que é obrigatório.

Essa premiação nem existe mais, mas hoje o Ponto Cine, né, há muitos anos atrás, o Ponto Cine, que é um cinema muito particular, muito característico, entendeu que ele ali, não adianta ele brigar com os leões, ele tem que criar o teu, o perfil dele, ele passou a exibir só filme nacional, aí a gente tem hoje uma sala no Rio de Janeiro, né, que é o Ponto Cine, que só exibe filme nacional.”

RPP: O que patrocina o espaço hoje?

R: “A gente não tem nenhum patrocinador, nunca teve, a gente tem o apoio da prefeitura que nos cedeu espaço, então que é fundamental, sem esse apoio a gente nunca teria existido ou continuado, porque aluguel e essa coisa realmente inviabilizaria, então a gente tem apoio e só, nunca tivemos nenhum patrocínio. Durante um tempo lá atrás eu vislumbrei que a gente poderia ser tipo Cine Santander, porque eu tinha o Santa no nome e eles tinham lá o cinema em Porto Alegre e eu achei, mas depois eu pensei bem, naquela época eu achava que se eu tivesse um patrocínio desse porte eu ia acabar virando uma ovelhinha do mercado e os caras iam ditar regras e aí nunca busquei, fiquei só com essa imagem do Cine Santander e nunca busquei e nunca buscamos até hoje.

Às vezes eu me arrependo, porque eu acho que se a gente tivesse tido qualquer patrocínio a gente teria passado por fases difíceis, mais fácil ou menos complicado, porque tem fases difíceis, quando quebra um equipamento, quando dá um problema sério, quando você tem que investir, mas por enquanto é isso, a gente segue sem patrocínio.”

“(...) A gente hoje já tem um espaço na mídia, né, a gente é muito querido, eu posso até dizer, da mídia, sempre que a gente precisou, a gente buscou as mídias oficiais para mandar nossas mensagens, para falar sobre inauguração, sobre festa, sobre coisas importantes que estão acontecendo, sempre tivemos espaços nos jornais, nas revistas, até na TV, porque eu acho que hoje o Rio de Janeiro, ele entende a importância do Cine Santa como um equipamento que resiste, é um equipamento aberto, democrático, num bairro lindo, e que mantém essa estrutura de receber todas as pessoas.

Agora para a reinauguração do Cine Santa, depois da obra, nossa, a gente teve matéria de capa, a gente teve matéria de página dupla no jornal, a gente teve matéria no RJTV, então imagina, é só o reconhecimento mesmo de que é um equipamento fundamental na cidade hoje, né? E o público, ele é um público A-B, porque é o perfil do nosso filme, né, é um filme de arte, é um filme nacional, a gente acaba tendo esse perfil, mas hoje a nossa programação, ela tá mais híbrida, justamente para a gente tentar ampliar esse público, a gente democratizar esse acesso à sala, e a gente entende que só passando os filmes também que estão num apelo mais comercial, então a gente tem tentado ampliar e dar espaço ali, uma sessão, né, para que a gente atenda mais, porque é essa a missão do cinema, né, a gente não quer ser um cinema cult, a gente quer ser um cinema de rua e do bairro.

Nós reabrimos na raça, né, sem nenhum edital. Reabrimos em 2020 ainda, foi no finalzinho do ano que foi liberada a abertura, a gente reabriu, passamos 2021, 2022, em 2023 veio o fomento, então a gente passou aí praticamente dois anos, quase três ali respirando por aparelho, porque depois da pandemia, obviamente, o movimento caiu muito, né, acho que caiu pra 20% de ocupação, a gente vive exclusivamente do ingresso, né? Então foram anos difíceis e aí veio o investimento, Lei Paulo Gustavo, né, do governo federal pro estadual municipal, e aí a gente pôde fazer melhorias.”

PERGUNTAMOSA70PESSOAS. ENTREELES28HOMENSE42MULHERES,SENDO37.1% COMMENOSDE50ANOSE62.9%COMMAISDE50ANOS. LOCALIZADOS48.1%NAZONA NORTE,20%NAZONAOESTE,9.9%NAZONASUL,7%,NAZONACENTRALE11.3%FORADA CIDADEDORIODEJANEIRO.

QUANDOPERGUNTADOSQUAISCINEMASSÃOFREQUENTADOS,72.9%DASRESPOSTAS CITAVAMCINEMASDESHOPPING,QUEHOJESÃODOMINADOSPELAEXIBIDORACARIOCA KINOPLEX,DORENOMADOGRUPOSEVERIANORIBEIRO,PRESENTEEM13SALASPELA CIDADE.

OESTADODORIODEJANEIRO,SEGUNDODADOSDAANCINE,FECHOU2023COMO9º MAIORPREÇOMÉDIODEINGRESSODOPAÍS,MANTEVE80COMPLEXOSCOM371SALAS FUNCIONANDOEPOSSUIU43.275HABITANTESPORSALAS.55%DELASLOCALIZADASNA CAPITAL.

“STREAMINGSESHOPPING-CENTERS”

AS AMEAÇAS DOS CINEMAS?

Os cinemas e os shoppings

A partir dos anos 80, os shoppings se configuraram como principal centro de consumo na cidade, fornecendo segurança e abrigando cinemas.

“Olha, o cinema de shopping cumpre uma função importante que é trazer um pouco de cultura para dentro de um ambiente em que a relação é de compra e venda de coisas. Boa parte das lojas estão vendendo objetos, estão vendendo coisas materiais, então acho legal porque é interessante que tem alguma coisa ali que passa por uma outra né? Que é uma esfera cultural. O cinema de shopping tem essas diferenças em relação ao cinema de rua porque ele tá dentro de um espaço programado para um tipo de execução de trajetos, um espaço que tem temperatura controlada, luminosidade controlada muitos quando você não sabe se lá fora é dia ou noite né? Então você tem toda uma organização ali que é focada para fazer com que você seja levado ao consumo

O shopping tem um princípio de domesticação da vida que é controlado, então ele é protegido, ele é seguro, você não vive a cidade, você não transita entre o diferente, entre a possibilidade de acaso que faz parte da configuração urbana. A vida urbana é onde você está no meio de anônimos e, nessa situação, você encontra formas entre as artes e as espécies de tecer laços de identidade e cultura, enfim, política. Mas esse é o barato, né?

Tirar o cinema desses espaços é também um pouco tirar o cinema da participação da vida imediata das pessoas né não da vida imediata do consumidor né, mas da vida imediata das pessoas, então, assim, eu não tenho nada contra cinema de shopping, acho que tem que existir, mas ele não teria nesse sentido uma função que um cinema de rua pode ter. Em alguns lugares do mundo está acontecendo uma coisa muito estranha. Em 2024, a gente já tem ruína de shoppings. Alguns shoppings já não funcionam mais porque as pessoas estão comprando online, jogando online, vendo online e comprando comida online. Algumas pessoas compram comida pelo aplicativo e a comida chega na sua casa pelo cara que entrega

Então tem também uma questão aí que é a própria mutação das mídias que vai também operando né na reorganização da cidade e também daquilo que é daquilo que se torna preocupação para nós de proteção de atenção de patrimônio. Não devemos demonizar o shopping, mas a relação não é idêntica e não substitui a relação existente com o cinema de rua. Pode-se ter memória de alguns cinemas de shopping, inclusive alguns que já foram fechados, né?”

(Talitha Ferraz)

Um desses exemplos está num dos shoppings mais antigos da cidade, o Barra Point

“Eu tenho uma intuição de que o cinema de rua vai sobreviver e o cinema de shopping não Por quê? Porque na verdade eu acho, a minha experiência no Shopping Barra Point, né, que me fez refletir sobre isso. O Shopping Barra Point é um dos primeiros shoppings da Barra, né? É um shopping antigo e por conta disso ele tem um padrão antigo, né? Ele não tem ar-condicionado, ele não tem um padrão de shopping, dos shoppings novos que abriram, Village Mall e tal

Então eu acho que esse perfil do shopping ele vai acabar sendo, no futuro, não sei quantos, 50 anos, 20 anos, não sei, mas eu acho que ele tem um futuro comprometido no sentido da crise do mundo, né? A crise financeira que o mundo pode atravessar a qualquer momento Porque o shopping é muito caro, então ele acaba sendo um elefante branco caro pra se existir, né? O lojista que vai pra um shopping padrão, né, moderno, ele tem que investir muito, porque é difícil se sustentar e se manter no shopping,

A gente tinha o cinema no Barra-Point, que é um shopping antigo, sem arcondicionado, então obviamente ele já tem um custo mais baixo pro lojista, mas mesmo assim era altíssimo. Mesmo assim era altíssimo, porque o shopping ele carrega em si essa oferta de tantos serviços, ele tem segurança, ele tem limpeza, ele tem estacionamento, ele tem seguro, ele tem, sabe, uma brigada de incêndio

É tanto investimento pra ele existir ali que fica caríssimo. Então, eu fico pensando, um cinema de rua, ele é um equipamento de rua, ele pode ser mais simples, ele pode ter menos serviços, o cliente que escolhe o cinema de rua, ele sabe, é um cinema de rua, eu não tô aqui indo pra um “palácio”³

Então, nesse aspecto, eu acho que se houver realmente a crise em que os cinemas não vão resistir, vão, vai sucumbir, eu acho que essa crise vai afetar muito mais rápido os shoppings do que os poucos cinemas de rua que existem.

(Fernanda Oliveira)

³ “Palácio”: nome popularmente dado à antigos cinemas que eram requintados, com alta tecnologia, salas grandes, conforto, luxo, etc

O contrário desse tipo de cinemaisto é, com salas sujas, pequenas, sem manutenção, etc - é chamado popularmente de “Poeira”

Os cinemas e os shoppings

Com os shoppings, vieram a arquitetura moderna, as multissalas e a elitização da exibição cinematográfica. Seria um cenário irreversível?

“Se você for na Barra, por exemplo, que é a cidade dos shoppings, você vai lá tem uma penca de shopping falido e essa briga de construtoras gigantes e tal, vai consumindo o que já tem, vai eliminando o que já tem. Então, eu acho que os shoppings vão, eles vão sucumbir, não vão resistir, é um modelo americanizado de comércio, mas é caro, é caro pra você estar ali, então pode ser que infelizmente, né, porque hoje o mercado de cinema tá todo concentrado nos shoppings, se isso acontecer, se os shoppings quebrarem, acaba o mercado exibidor, né, aí pode ser que se volte pra alternativas, qual alternativa?

Vamos abrir um cineminha ali, naquela rua ali, tem uma loja grande, dá pra fazer um cinema ali, vamos reabrir, pode ser, mas pode ser também que simplesmente acabe com o mercado e fique ali aquelas relíquias que vão ser um ou outro cinema, que vai ser quase um museu, que vai ter uma sessão por semana, não sei, cara ”

“Mesmo os cinemas de shopping estão tendo uma curva mais lenta Então o cinema precisa voltar a encontrar o fator de sedução, aquela razão que leva as pessoas a entenderem aquele espetáculo, aquele lazer como algo frequente Tem alguns fatores também que aí pesam em relação a isso, são coisas que eu me preocupo. Não é só o streaming.

Nos últimos dez anos, duas coisas aconteceram em paralelo Uma delas, todo mundo presta atenção, que é o streaming, ou seja, o fato de que agora você paga 30, 40 reais, que é um preço de ingresso para ter um serviço que te entrega uma curva enorme de conteúdo para sua família inteira por um mês, ou seja, você troca o ingresso de uma pessoa por conteúdo para a família por um mês

Além disso, a outra coisa que aconteceu simultaneamente foi o aumento da definição das televisões Hoje em dia, uma televisão 4K custa o que uma televisão 2K custava há dez anos atrás. Então você tem uma experiência de qualidade visual e sonora na sua casa, tendo um streaming em uma TV 4K, que não é igual ao cinema, mas assim, é muito distante do que era você ver uma TV de tubo nos anos 90 com o cinema.

Enfim, é uma experiência muito potente. Então assim, para convencer a pessoa de que tudo isso que ela tem dentro de casa, ela vale a pena gastar para ter fora de casa, é preciso encontrar os modelos, e esses modelos tem a ver com o tipo de filme, é por isso que as pessoas falam muito de filme-evento, essa ideia de que você cria uma ideia, uma necessidade coletiva de ter uma experiência, então é o que aconteceu, por exemplo, o “Barbenheimer”

Por que as pessoas foram ver Barbie no cinema? Porque se criou um Zeitgeist que se precisava viver aquela experiência coletiva, era quase como ir num show, eu preciso estar vendo e estar debatendo com as pessoas nesse momento e fazer isso daqui a seis meses não é a mesma coisa, vou ter perdido o negócio, é preciso recriar frequentemente essas experiências, o show da Taylor Swift foi a mesma coisa. Os filmes do Homem-Aranha também

A Marvel inclusive está vivendo esse desafio agora, a queda do interesse pela Marvel, claro, queda relativa, relativa à própria Marvel, não relativa aos outros filmes, tem a ver com o fato de que as pessoas estão cansadas do formato e já não parece mais um evento, parece mais do mesmo, alguma coisa tem que ser lá feita, imagino, pra de repente isso voltar ao Zeitgeist e voltar a ter um negócio que digere, mas você não precisa voltar a encontrar esse lugar que o show de música encontrou e que ele ainda não encontrou.

E tem uma equação de precificação também que eu acho que tem a ver com isso, esse pacote que é bomboniere, que a gente chama, que são o custo de alimentação do cinema, o ingresso do cinema, o estacionamento do shopping, você precisa encontrar um equilíbrio econômico que faça a pessoa dizer “não, vale a pena eu me deslocar de casa pra lá”, hoje em dia eu acho que ainda tem um desequilíbrio um pouco grande, mas está melhorando, não é por acaso que o cinema tem feito promoções muito mais frequentes, de repente vai ser quartafeira por 15 reais, sei o quê, porque estão testando modelos e encontrando esse ponto.”

(Maurício Hirata)

(Fernanda Oliveira)

A segurança pública

Um dos fatores mais importantes para entendermos não só o quanto isso afetou e afeta espaços de cinema, mas a vida em si na cidade.

“A questão da segurança é condição sine qua non ("condição indispensável" ou "algo essencial ou necessário para que algo ocorra") para tudo existir na cidade, o cinema tem a característica do seu horário de pico ser as duas últimas sessões da noite, que as pessoas chegam do trabalho, as pessoas saem da escola, da faculdade, então à tarde as sessões são mais vazias e à noite é quando o cinema consegue se manter.

E houve sim uma mudança drástica para o Cine Santa, e acredito que para os outros cinemas também, eu sei que o Estação também teve essa mudança, de questão de segurança você começar as sessões mais cedo, e isso foi uma perda, porque até dez anos atrás, digamos assim, nós tínhamos a última sessão começando às 21h40, então um filme de duas horas, a sessão terminava às 23h40, e era o horário nobre do cinema, a última sessão, e aí você foi passando para 21h30, aí você foi passando para 21h20, 21h00, hoje a última sessão fica entre 20h00 e 20h30, e é por questões de segurança, porque o público não vem, se você coloca para o cara sair do cinema às 23h30 da noite, o cara não vem.

Santa Teresa, assim como todos os bairros do Rio de Janeiro, tem os seus altos e baixos de segurança, então tivemos fases dificílimas, aí melhora um pouco, o Estado vem, investe um pouco, é polícia, é carro parado ali, é não sei o que, melhora um pouco a segurança, daqui a pouco baixa, e a insegurança vem novamente, e no final acabou ficando esse horário, sabe, também o meio de transporte mudou muito na cidade

Hoje, é difícil o seu funcionário sair do cinema depois das 22h, sabe, para ele ir para casa, porque não tem ônibus, o ônibus acaba, isso também afetou muito

Então a segurança ela é um complicador, é uma questão muito grave numa cidade grande como o Rio de Janeiro, é um problema, uma problemática dificílima, Santa Teresa, apesar de não ter essa fama, né, ela tem fama de ser um bairro meio perigoso, eu que moro aqui acho, eu me sinto muito bem, muito tranquila, porque é um bairro que é relativamente vazio, comparado com Botafogo e Copacabana, né, ele não é um bairro de passagem, não tem carro o tempo inteiro, então é um bairro de moradores que circulam os moradores, e isso acaba deixando um pouco de vulnerabilidade, né?

Porque as ruas são mais vazias e esse tipo de questões da criminalidade de hoje, né, que é o tal do homem de moto, né, o cara que tá numa moto com um outro, então do nada você tá vindo tranquilamente porque a sua rua é tranquila e vem uma moto, aparece, então Santa Teresa tem um complicador para a segurança que é um bairro com muitas saídas, né, um bairro que você entra aqui, sai ali, sai para lá, você sai para o Centro, você sai para a Zona Sul, você sai para a Zona Norte, você sai para todo canto, então é um bairro visado para quem quer praticar esse tipo de violência, mas eu graças a Deus vivo aqui e nunca passei por uma situação, mas o cinema foi afetado, os bares foram afetados, então a insegurança é o grande vilão da cidade, na verdade ” (Fernanda)

“Será que essa população faz muita questão, faria muita questão de ir num cinema, digamos assim, com muitos lugares, pra ter uma experiência mais trivial que ela tem no shopping, só que na rua? No shopping ela faz todo o circuito do shopping, não é um programa que eu gosto muito, mas tem muita gente que gosta, vai lá, passeia, vê as lojas, compra uma roupa, nem compra roupa, prova roupa, tem todo esse elã e tal.” (Maurício)

“A segurança pública é altamente eficiente para o Estado, não para o cidadão, entendeu? Matar ou morrer é banal, cara, sabe? A polícia vai ali numa troca de tiro, acerta uma criança de uma escola. Sabe como é legalmente falado isso em relatório? É um efeito colateral Mas existe uma engrenagem por trás, um interesse.

O Ponto Cine teve um problema muito sério quando acontecia um projeto que eu levava maior fé, e acho que todos nós fomos iludidos, porque foi muito bem divulgado. Então, o que aconteceu? Foi do caramba aquela parada assim, dos caras ocuparem o território sem um tiro. Ou seja, foi um acordão. Para aquilo acontecer, foi um acordo enorme. Só que a bandidagem veio toda para cá Aí foi assim que se formou o Chapadão. O Chapadão hoje é um dos lugares mais famosos do Rio de Janeiro em termos de violência e mais disputado pelas facções, porque é muito poder Só que além do Chapadão já tinha Moquiço, Palmeirinha, Gogó da Ema e Pedreira. O Ponto Cine é uma ilha cercada por essa parada. Aí o que acontecia? Eu acho, não posso afirmar isso, que nesse acordo alguma coisa furou. E como furou, a pressão tem que ir em cima de quem? Da população.” (Adailton)

Os streamings: uma ameaça?

Segundo dados da PNAD Contínua/IBGE, em 2023, dos 78.3 milhões de domicílios brasileiros, 4,5 milhões não tinham televisão, mas 6.1% tinham acesso a streamings.

“O streaming é uma doença que chega no mercado exibidor, né, e ela existe, a gente tem que tá mantê-la controlada, tipo, remédio controlado, você tá ali controlando aquela doença, mas o tempo inteiro ela tá te assombrando

Eu acho que o streaming é um agente complicador do mercado, o streaming não veio só oferecer filmes, ele veio oferecer o vício, eles não são bobos, né?”

(Fernanda)

“Gente, eu não acho que eles são a ameaça da distribuição do cinema, porque é isso. A experiência cultural, mais do que os mercados, os mercados se movem relacionando com a cultura, mas no final das contas é a cultura que muda. A cultura de assistir ao visual está mudando, e não é culpa dos streamings

A questão é, precisa repensar a experiência coletiva do audiovisual. Então é um desafio colocado O streaming está fazendo a parte dele, oferecendo serviços de qualidade para as pessoas no mundo inteiro. Precisa, sim, oferecer mais conteúdo brasileiro.

A gente precisa garantir que tenha conteúdo brasileiro, brasileiro de nacionalidade, propriedade brasileira nos streamings no Brasil. Vai ser um outro debate, mas assim, o serviço é ótimo. Tem nada errado, entendeu? Tirar os streamings não vai fazer as pessoas voltarem para o cinema.

Então assim, o cinema tem que renovar a sua experiência e passar a ofertar uma outra coisa Isso já aconteceu na primeira vez que isso acontece no Brasil. Quando houve a troca para o shopping, foi isso que aconteceu.

As pessoas começaram a fechar cinemas de rua, e porque as pessoas achavam que aquela experiência não tinha mais graça, o cinema de shopping veio com uma projeção muito melhor, sold-out, com surround, com pacote de pipoca, com estar dentro do shopping, que tem toda uma outra experiência em volta, e virou um outro programa, e as pessoas voltaram a achar o máximo. E isso foi crescendo até 2018.

O maior ano, só para lembrar assim, o maior ano de bilheteria mundial de cinema foi logo antes da pandemia (2019). Os streamings já estavam há dez anos.

Os streamings não tinham tirado o público do cinema Com a pandemia, você tem um reequacionamento e precisa repensar.

Talvez essa experiência só da pipoca não seja mais suficiente Você tem que pensar em outras coisas Por exemplo, uma das coisas que eu vivo provocando, particularmente para o cinema brasileiro, é que eu acho que os festivais cumprem um papel fundamental, porque festivais são naturalmente eventos. pena sair de casa porque não é só um filme. Você vai para um evento, esse filme você vai passar uma vez, vai ter o diretor lá, você vai debater com ele, você vai debater com as pessoas, você vai tomar um show no bar depois, é todo um elã, entendeu? E eu acho que é isso que precisa acontecer Cada vez mais festivais, mais eventos, mais debates, que daí as pessoas vão voltar a entender, po, isso é uma coisa maneira, tá na hora dessa nova geração viver essa curva de novo

Existe uma segunda camada muito importante que é nesse universo de telas e celulares. Ou seja, a gente nunca teve uma experiência tão individualizada com o audiovisual na história.”

(Maurício)

“Acho que assim, o cinema é uma arte que tá ali em cada tecnologia, entendeu?

A tecnologia muda, o cinema muda também, muda a forma de fazer, as câmeras, né? Muda a forma de ver. Agora com os streamings, as pessoas estão vendo em casa Então o cinema vai se transformando junto com a tecnologia. Mas eu acho que ele muda, mas ele não acaba. Por exemplo, quando chegou o Home Video/o vídeo-cassete, todo mundo falou que os cinemas iam acabar e não acabou. Quando chegou o DVD todo mundo falou que tinha acabado, não acabou. Quando chegou a NET, TV a cabo, não acabou Não chegou a televisão Lá nos anos cinquenta, falaram que os cinemas iam acabar e não acabou. Quando chegou nos streamings agora, falou que o cinema acabar e não acabou

Então assim, o cinema tem que se transformar, tem que se adaptar. Ele não pode ser mais visto como ele era nos anos setenta, nem como ele era nos anos oitenta, nem como era nos anos noventa Tem que ser visto como ele é hoje, entendeu? Tem que se adaptar às novas realidades, às novas tecnologias. Eu acho que (o cinema) nunca vai acabar Talvez mude, com certeza vai mudar. Com certeza vai se transformar.” (Cavi)

Um parênteses: massificação cultural

De acordo com o IBGE, o resultado da pesquisa citada na página anterior indica que está em andamento uma mudança nos hábitos dos brasileiros.

“Será que juntar pessoas é bom? Um cinema junta pessoas, entendeu? Aquele filmete da Marvel, você pode assistir em qualquer lugar, porque a Marvel é filme, não é cinema.

Cinema é uma coisa encantadora, cara, porque ele é humano, essencialmente humano Ele provoca uma convivência entre as pessoas, e ter gente pra caramba. E é tudo mentira. Pra mim, todo tipo de arte é mentira Arte pra mim é mentira O cinema se utiliza de todas as artes. Então o maior espaço de contação de mentiras possíveis pra mim é uma tela de cinema. Mas são mentiras que nos levam a refletir sobre as nossas verdades. É filosofia o tempo todo, sabe? Talvez você assista um filme e não saiba nem explicar o que aconteceu com você. Mas você sabe que saiu dali diferente Ele te muda, ele te modifica, sabe? Às vezes te irrita, às vezes te provoca.” (Adailton)

“Você ter um espaço de fruição coletiva de audiovisual é importante pra você manter essa conexão do audiovisual com uma experiência coletiva. E não essa experiência individualizada que a gente tem com rede social Enfim, que tenha seu valor, sua dinâmica, mas que ela precisa ser contrabalanceada por outras formas de relação.

As pessoas não têm coragem de gritar no cinema porque elas gritam nas redes sociais Porque o espaço coletivo impõe a eles uma percepção real de que aquela experiência se dá com os seres humanos. E a tela muitas vezes parece que elas estão falando com o ser humano ” (Maurício)

Adailton nos conta um pouco sobre a atuação da Indústria Cultural americana:

“Os americanos adotaram o cinema como um projeto de estado. E eles investem muito em cinema. Tem muito subsídio, muito E aí o que acontece? A maior indústria norte-americana é a indústria bélica. E a segunda maior indústria norte-americana é a de audiovisual. E ela está a serviço da indústria bélica Todos os filmes que você assiste norteamericanos vai aparecer arma, morte, conflito, guerra. Sempre vai ter isso. Eles adotaram. Isso é uma forma Isso naturalizou tanto que hoje a gente vive uma violência aqui no Rio do caramba e parece que é normal acontecer essas coisas. Banalizou a vida.

E os norte-americanos dominaram o mundo inteiro. Não é só o Brasil, não. Todo o mundo. Tanto é que eles não fazem lançamento local. Eles fazem lançamento mundial

O filme deles tem que se bancar pelo menos 60% no primeiro e final de semana em que entrou em cartaz. E se banca. Se banca o dinheiro que foi colocado, como é que a gente pode dizer, o dinheiro bom de investimento, não o dinheiro de subsídio Porque o dinheiro de subsídio é da propaganda. E a propaganda do filme norte-americano é muito mais, o investimento é muito maior do que no filme

Quando alguém fala assim, o filme custou 200 milhões de dólares. Pode acreditar que custou mesmo. Mas, na verdade, para a produção dele foi 35, 40 milhões O restante é jogar na tua mente, jogar na tua mente, é psicológico. E nós não nos preparamos para isso. E aí, no Brasil, a gente vive de ciclo Nós não formamos público para o filme brasileiro. O nosso maior produto audiovisual é a telenovela.

E é tão bom que está em 182 a 183 países Além de vendê-la para fora, você sabe que a maioria das famílias tem o hábito de ir 9 horas da noite para frente da telinha e ficar assistindo a sua novela.

Mas porque insistiu. Era a novela das 8 Eles conseguiram mudar para as 9 e a gente nem nota.

Hoje a novela é às 9 horas, mas a gente assiste a novela das 8 E é a cereja do bolo das novelas Mas nós não preparamos. E o cinema dá muito emprego.

Cada filme que você vê aí sendo feito, em baixo orçamento, próximo do médio, ele cria postos de trabalho do tamanho de 400 pessoas, no mínimo. E depois tem os derivados. Quando ele vai para o cinema, ele gera mais empregos. Porque tem o bilheteiro, tem o lanterninha, tem o recepcionista. E fora os insumos. Então é uma indústria muito forte, muito forte. A cultura, de uma forma geral. Mas que ela não é levada como uma estratégia de Estado quando deveria ser.” (Adailton)

“Essa experiência coletiva hoje do audiovisual chega a ser tão radical que às vezes a última coisa que você faz antes de dormir não é mais abraçar a sua esposa. Abraçar sua namorada é conferir um vídeo. Ou seja, sua última relação íntima é com a tela É um negócio muito doido imaginar o que está acontecendo “ (Maurício)

A preservação e a segmentação

Uma reflexão sobre o futuro da difusão do audiovisual, a preservação digital e a segmentação como uma estratégia mercadológica de competição.

“Eu acho que a internet cumpre bem esse papel de difundir as coisas e deixálas ali, acessíveis, por um motivo ou por outro, e as pessoas terem ali um instrumento para descobrir o que é, como era o Cinema Guaraci, como era o Cinema Vaz Lobo, como era o Cinema 3 na Tijuca, se tem imagens disso, para quase todos os cinemas tinha uma ou outra foto, você acha na internet e isso já não é mais um problema, o acesso não é mais um problema, a preservação é, a própria internet não dura para sempre.

Nos últimos 15 anos, o cinema e o audiovisual se tornaram digitais, tem um duplo trabalho aí, para trás é conservar fisicamente, a solução foi realmente ter um novo espaço, para frente é criar toda uma infraestrutura de conservação digital, servidor, nuvem e etc

E ir acumulando o que é digital antes que essas coisas apareçam, por exemplo, a gente faz um enorme esforço de guardar o material dos filmes que entram em circuito no país, então a gente já tem mais de 20 mil imagens de divulgação dos filmes dos últimos 20 anos, mas não chega nem perto daquilo que é publicado por aí, porque são milhares

São mais de 100 mil por ano, a gente não tem braço, não tem dinheiro, não tem estrutura para alcançar essa dimensão, que é uma dimensão muito difícil, muito, muito, muito difícil, porque o Brasil é muito grande, porque o volume de produção aumentou extraordinariamente, porque hoje não é mais só sala de cinema, é sala de cinema, televisão, TV a cabo, streaming, sabe quantos streamings tem no Brasil? 450, como é que a gente vai conseguir guardar o material de 450 streamings?

E, por exemplo, a gente guarda o material de divulgação da Netflix, já são 700 filmes por mês, mais de 7 mil por ano, e a gente baixa essa tralha toda, mas isso a gente está sempre no limite de espaço, porque é muita coisa, a gente faz isso porque no meio dos filmes que a população brasileira assiste, que a gente tem que guardar porque ela assiste, tem muita coisa feita pelos brasileiros, então mesmo que tecnicamente sejam filmes estrangeiros, filmes americanos e tal, mas que na verdade são feitos no Brasil, o povo brasileiro, dirigido ao público brasileiro prioritariamente, e a gente precisa guardar isso, é um volume descomunal.

Então o desafio da Cinemateca é crescer para o mundo digital, sem isso esse mundo vai se perder à frente.

Os grandes streamings estadunidenses se consolidaram no Brasil, Netflix, Amazon, HBO Max, o Disney, etc, eles hoje dominam 50%, 60% desse mercado. Como competir com isso? Você não tem mais como competir com isso, você tem que se segmentar, era a mesma coisa na época da película, do circuito de rua, etc.

Tinha o circuito do lançador, tinha o circuito de segunda linha, tinha a sala que só passava bangbang italiano, tinha a sala que só passava pornô, etc. Se você quer atuar nesse mercado e se você quer sobreviver sabendo que o mercado hoje ele está oligopolizado, você tem que se segmentar, não tem jeito, isso é o que aconteceu, isso é natural, qualquer ramo econômico é assim. Nesse sentido, o que interessa para nós é entender que o Brasil acabou não só segmentando, mas desenvolvendo uma política de nicho, e uma política que é bem complexa na medida em que a maior parte desses nichos não atende o imperativo econômico, mas atende o imperativo cultural, político, ideológico.

Só no Ceará tem sete streamings evangélicos, quem guarda a produção evangélica desses streamings? A gente tenta, o bolsonarismo tem seu famoso streaming que é o Brasil Paralelo, quem guarda a produção do Brasil Paralelo que já passou de 400 filmes?

Você tem streamings dedicados a filmes brasileiros, Canal Brasil Play, Curta, Embaúba Play, SPCine Play, Itaú Cultural Play, quem guarda isso? Então você tem que perceber o movimento da área, da atividade, e ir percebendo qual é o impacto e a implicação disso para um arquivo de filmes Não é tanto seguir para compreender isso como fenômeno social, cultural, histórico, econômico, isso eu deixo para a academia.

Aqui o nosso interesse é, esses são espaços de apresentação da obra audiovisual, nós precisamos preservar a obra audiovisual, nós precisamos preservar a divulgação dela, nós precisamos preservar os materiais relacionados a ela, então a gente precisa estar atento a isso.”

(Hernani)

A segmentação nos cinemas de rua

A segmentação foi uma consequência da mudança de mentalidade do público a partir da década de 1960, um dos exemplos é a criação de salas de cinemas de arte.

“Durante a Geração Paissandu, entre 1964 e 1968, o cinema tinha uma programação em conjunto com a Cinemateca do MAM, geralmente de noite, e durante o dia filmes vindos do catálogo da distribuidora FrancoBrasileira, dona do cinema

A sessão mais concorrida pela juventude era a da meia-noite. Existia a programação de ciclos de cinematografias mais afastadas como a italiana, francesa e de alguns países do Leste Europeu que chegavam ao Brasil via Cinemateca do MAM ” , conta o diretor e roteirista Christian Jafas, autor do curta-metragem “Cine Paissandu: histórias de uma geração”, que mostra o impacto cultural, social e político do cinema que formou uma geração na década de 60. Ao RPP, ele conta mais sobre:

“Passando um dia em frente ao Cine Veneza, me deparei com uma placa sobre o fechamento do cinema para reformas. Ele nunca mais reabriu. Nessa época, vi o fechamento dos cinemas Scala e Coral, depois de passarem pelo rito de decadência e terem se tornado cinemas pornô, e as placas tambem diziam que iria fechar para reformas. O Cine Ópera, onde morava, não tardou a fechar, deixando um vazio na Praia de Botafogo Nesse momento percebi que algo estava muito errado.

Junto com uma amiga, pensamos em realizar um documentário sobre um cinema de rua que ainda resistia. Ela queria encontrar um cinema no interior do estado e eu queria uma sala na cidade. Ficamos nesse planejamento por um bom tempo e percebemos que não teríamos viabilidade econômica para realizar o nosso sonho.

Passados mais alguns anos, em 2008, era anunciada a entrega do Cine Paissandu pelo grupo Estação, que estava em mais uma crise no momento, e o consequente fechamento da icônica sala carioca Nessa época, eu já tinha me formado, trabalhava como diretor de programas de televisão e tinha equipamentos na minha produtora. Sabia da importância do Cine Paissandu com a formação da Geração Paissandu, na década de 1960, e o impacto daqueles filmes nos jovens que iriam criar o Cinema Novo Como o Paissandu poderia fechar? Um dos cinemas mais importantes do Brasil e que rivalizava com o Odeon como principal cinema do Rio? Avisado do fechamento com antecedência, dessa vez pude me preparar para assistir a uma última sessão.

Me lembro da grande movimentação popular na semana derradeira de controle do Grupo Estação sobre a sala que na época se chama Estação Paissandu. Procurei a minha amiga da época de faculdade, Carla Sobrosa, e perguntei se ela queria me acompanhar na empreitada de registrar a última sessão do Cine Paissandu e realizar o documentário que não conseguimos fazer na década de 1990

Partimos com uma câmera Sony PD-150, microfones, tripé e equipamento básico de luz. Entrevistamos a gerente e o projecionista do cinema, frequentadores, pessoas que organizavam o abaixo-assinado pelo tombamento da sala e cinéfilos que quiseram falar algo sobre o quase finado cinema Depois esperamos para registar efetivamente a última sessão: o público saindo, a tela em branco, as portas se fechando e a grade abaixando, encerrando definitivamente as atividades do Estação Paissandu.

Esse modelo só de cinema de arte ou um cinema mais hermético e que não consegue conversar com um público amplo não se sustenta mais. Foi um período muito específico da nossa sociedade e dificilmente pode ser reproduzido outra vez O modelo atual de programação utilizada pelo Grupo Estação me parece ser a melhor combinação. Era o modelo do Espaço Itaú de Cinema, criado pelo programador Adhemar Oliveira Lá tinha documentário nacional, cinema iraniano e filmes da Marvel. Eu entrava lá e podia ver um Capitão América na quarta, um doc(umentário) nacional na quinta e uma comédia italiana na sexta. O preço do ingresso é o mesmo para quem vê Marvel e para quem assiste só filme europeu. Para o exibidor o importante é a sala lotada e a pipoqueira vazia.

O importante é levar o público, principalmente o jovem, de volta a poltrona da sala de cinema ”

O curta-metragem “Cine Paissandu: histórias de uma geração” mostra o cinema que formou a Geração Paissandu, nos anos 1960, e o impacto cultural e social desse período para a história do país. Este texto contém hyperlink, clique e assista!

A segmentação nos cinemas de rua

Em 1980, com a liberação do filme “Império dos Sentidos”, pela censura e o sucesso de bilheteria, favoreceu-se a criação de salas de cinema pornô.

“Quando os filmes de sexo explícito foram liberados no país, bons cinemas como o Vitória, no Centro, passaram a exibi-los, atraindo multidões. Com a popularização do videocassete no país, o grande público abandonou não só os cinemas que exibiam pornôs, mas também os adoráveis cinemas de bairro.”, conta o fotógrafo e jornalista Luis Teixeira Mendes, diretor do curta-metragem “Cine Pornô – Fragmentos de Desejo e Medo”, que registra, em fotografias, o ambiente insólito dos Cinemas Rex e Íris, localizados no Centro e, por efeito do público e da demanda, transformados em espaços pornográficos a partir da década de 80

Ao RPP, ele conta mais sobre:

“Em 2019, fazia o curso de videoarte no Parque Lage e surgiu a ideia inicial de mostrar como majestosos cinemas se transformaram em espaços insalubres. Era um trabalho com imagens de arquivo e fotos atuais.

À medida que fui me familiarizando nesses espaços decidi também retratar a atmosfera sexual. E o filme tomou outro rumo.

Ao longo de 2019, fui um frequentador assíduo desses cinemas A experiência foi uma imersão intensa e desafiadora, atravessada por sentimentos que variavam entre o desejo e o medo. Tudo foi feito de forma clandestina, com uma pequena câmera e celular. O material capturado se consolidou, primeiramente, em um curta metragem, que alcançou sucesso em diversos festivais de cinema ”

FACHADA DO CINE REX, 2023

IMAGEM DO AUTOR

RPP: O curta se encerra com uma frase escrita na parede do Cine Íris que diz “A arte não dorme, sonha acordada” Em um espaço marcado pelo desejo e pelo medo, como você lê essa frase?

R: “A arte, nesse sentido, está sempre em conexão com a inspiração, o inconsciente e o processo criativo. Mesmo sem a necessidade de "dormir", ela continua "sonhando", ou seja, gerando ideias e sentimentos Sempre quando lia essa frase no cinema ela me remetia à própria penumbra do espaço, ao anonimato dos frequentadores, ao vaivém de corpos doloridos e sem face, que elevam a psique humana a níveis extremos.”

“O excesso de idas a esses espaços me deixou um tanto perturbado Não frequento mais Tanto é que só finalizei o filme em 2022, já desprovido dos miasmas que me atormentavam. Nos dois cinemas que fiz a imersão ainda continuam a exibir filmes pornográficos Passando em frente ao Íris, percebi que está muito descaracterizado: sem bilheteria, sem roleta, sem a visão das escadarias. Parece um acesso a um quarto escuro, com apenas uma porta.”

Não recomendado para menores de 18 anos, o curta “Cine Pornô - Fragmentos de Desejo e Medo” revela, em fotografias, o que há por trás desses insólitos espaços Este texto contém hyperlink, clique e assista! A senha é 1927

RIO: PARIS DOS TRÓPICOS

JORNAL O DIA, RIO DE JANEIRO, 22 DE MARÇO DE 1981. IMAGEM CEDIDA POR WILLIAM MARTINS

A PRIMEIRA EXIBIÇÃO DE CINEMA NO PAÍS FOI AQUI

PRIMEIRA EXIBIÇÃO DE CINEMA: RUA DO OUVIDOR N. 57.

SALÃO DE NOVIDADES PARIS NO RIO: PRIMEIRA SALA FIXA

O PRIMEIRO AUGE DO CINEMA: O “BOOM” DE SALAS

O MERCADO DECRESCE E MUITAS SALAS VIRAM TEATROS

SURGIMENTO DA CINELÂNDIA, DOS PALÁCIOS, DO EXOTISMO

ÉPOCA DE OURO, DE LUIS SEVERIANO RIBEIRO A COMPANHIA BRASILEIRA DE CINEMAS

O MERCADO ENTRA EM CRISE, SURGIMENTO DA TELEVISÃO 1950's

“CINEMA DE BOLSO”, “CINEMA DRIVE-IN”, “CINEMA DE ARTE”, CIRCUITOS ALTERNATIVOS 1970's

“CINEMAS PORNÔS”, SURGIMENTO DO VIDEOCASSETE, BOOM DOS SHOPPING-CENTERS

“CINEMAS MULTIPLEX”: O FIM DOS CINEMAS DE RUA?

“O cinema de rua foi uma época de uma certa configuração do mercado cinematográfico. Um dos erros que existe ao se relacionar com esse momento é você cair na nostalgia. Esse momento não existia ali no início do cinema, porque o início do cinema ali é itinerante. Um mercado fixo só se estabelece por volta de 1915, 1920, portanto ele não existiu desde sempre, ele não é uma condição estrutural da atividade cinematográfica audiovisual, ele é uma condição contingente, ele é história, ele foi um momento. Para muitos, sobretudo para os da minha geração, é um momento esplendoroso, na medida em que o século XX é um século da vida social de massa, da vida social com a dimensão do grande, nesse caso das salas que tinham 10, 15, 20 mil lugares, das telas que tinham 50, 70, 100 metros de comprimento. Então era um momento da história em que ver grande, sentir grande, ter relação com a coisa massiva era significativo, era importante, mas esse momento já passou.

Hoje as pessoas veem as coisas na tela do celular e veem pequeno, a relação com o pequeno, com o imediato, com o direto é muito mais importante do que ver grande, e obviamente as salas de cinema gigantescas do passado perderam sentido. Elas existem como uma referência histórica, então você precisa preservar algumas delas, elas existem como uma referência arquitetônica, algumas delas são jóias arquitetônicas, elas existem como uma referência de espetáculo, é possível fazer esse tipo de espetáculo ainda hoje? É. Mas elas não existem mais como uma configuração de mercado, não faz mais sentido isso, e não faz mais sentido não porque não dê mais lucro, eventualmente pode dar, não faz mais sentido porque as pessoas não se relacionam mais com essa ideia. A ideia do grande não é mais uma ideia significativa a essa altura.

2000's BOOM DA INTERNET E DOS DVDS

2010's REDES SOCIAIS, STREAMINGS, PANDEMIA E RETORNO 2020's

Nesse sentido é preciso entender que o cinema nasceu itinerântico, depois virou uma produção fixa de base arquitetônica, depois essa produção fixa ganhou outra configuração que é o multiplex, o conjunto de salas que foi no Brasil mais para dentro de shopping, e depois isso se desfez porque hoje você vê filmes no celular, vê streaming em qualquer tela que você possa acessar em qualquer lugar do mundo a qualquer hora. Ou seja, é uma lógica que não existiu nos 120 anos anteriores, mas que existe hoje, e que é uma lógica que por exemplo dá muito mais liberdade. Essa liberdade não existia anteriormente, você tinha que se programar para ver num lugar fixo, num endereço fixo, numa hora fixa para ver um filme fixo, para de alguma maneira exercer esse direito de acessar um filme. Essa configuração não faz mais sentido hoje, as pessoas hoje têm esse desejo e essa liberdade de acessar o que quiserem a qualquer momento, a qualquer lugar, de qualquer jeito. Então o que você descobre por isso é que a configuração que o audiovisual teve ao longo do tempo é uma configuração histórica, mudou.”

(Hernani Heffner)

“O Rio de Janeiro sempre foi a grande capital do cinema brasileiro. As primeiras imagens, isso é muito significativo, acho que quando eu soube dessa informação a primeira vez eu não dei o valor que eu dou a ela hoje. As primeiras imagens cinematográficas do Brasil foram produzidas três anos depois dos Irmãos Lumière. Então foi muito rápido. Os Lumière estavam fazendo a chegada do trem lá na França. Três anos depois já tinha uma câmera de cinema no Brasil filmando e as primeiras imagens de cinema no Brasil são da Baía de Guanabara. E dali começa toda uma tradição do Rio de Janeiro como centro produtor de cinema. E durante um bom período foi também um grande centro exibidor.

Os cinemas tiveram uma importância, era um programa nobre, era um programa como ir ao teatro, como ir à ópera. A Cinelândia se constituiu como um espaço, os principais espaços de circulação pública. Então a preservação dessas dinâmicas é algo que tem importância na memória histórica da cidade pra não se perder. Porque cidades são feitas disso, dessa constante renovação e preservação de memória e dessa dinâmica. Do que a gente valoriza pra preservar e o que a gente não valoriza pra preservar e o cinema acho que merece ser preservado.” (Maurício Hirata)

“O cinema tornou-se um divertimento popular, especialmente porque a Zona Norte é mais populosa e próxima das moradias. Com o declínio da Cinelândia, o Centro se esvaziou, levando os cinemas a expandirem-se para o subúrbio, seguindo o trajeto das estações de trem, onde havia mais habitantes e comércio.” (Alice Gonzaga)

“O cinema foi a única arte da história que não era feita para a elite. Foi a única arte da história que surgiu ali no final do século XIX para a elite, mas rapidamente se configurou para as classes populares. E durante boa parte do século XX foi dirigida às classes populares. Você fazia um filme de arte para as classes populares. A partir dos anos 80 foi para a classe média e hoje em dia é igual ao vinil. É para quem? Para as pessoas ricas, que vão poder pagar R$150,00, como é o (Shopping) Village (Mall) lá na Barra. Para mim, o cinema nunca foi uma atividade voltada para as classes ditas ricas.

A elite está sempre atrás de um elemento que só ela pode ter e que só ela pode degustar. Seja a ostra que custa 10 mil reais o prato, seja o entretenimento presencial. Você está transformando o presencial em um valor. Em um valor caro. Toda a lógica de salas, de espetáculos presenciais, não só no Rio de Janeiro, mas no mundo hoje, é voltada para esse segmento. Porque o segmento de consumo que mais cresce no mundo é o segmento de luxo. Então, na verdade, o capitalismo descobriu que existe sim uma possibilidade de um segmento autossustentável que é o segmento de luxo. Lá você precisa construir um valor que é sempre um valor abstrato.

Faça uma viagem no tempo pela história dos cinemas de rua cariocas com os professores William Martins e Roberta Baltar! Esse texto contém hyperlink, clique nele para assistir!

Qual é o vetor básico de um país como o Brasil, que é um país relativamente novo, e é um país que se erigiu com muita vergonha e rejeição em relação ao passado? Particularmente uma cidade como o Rio de Janeiro é uma cidade que só se interessa pelo novo. Ela não se interessa pelo antigo. Tanto que o Rio de Janeiro, por seis ou sete momentos históricos, sobrou umas poucas ruínas disso aí espalhadas pela cidade. É uma cidade que se reconstrói o tempo todo. Nesse sentido, se o vetor não é o passado, se o vetor é o futuro, é o novo, o Brasil tem uma relação muito ambígua com a ideia de passado, patrimônio, cultura, preservação, etc. E você vê isso espelhado nem tanto na ausência completa disso, porque parte da população, uma parte relativamente pequena, valoriza isso.

Às vezes a elite valoriza no sentido de criar uma base civilizatória, uma parte das instituições de cultura do século XIX, da primeira metade do século XX tinha esse vetor, é preciso criar uma civilização brasileira, e para criar uma civilização brasileira você precisa recolher esse passado, entender esse passado, sistematizar esse passado, reapresentar esse passado. E, eventualmente, na segunda metade do século XX, você cria um mercado do patrimônio, um mercado do passado, consumir aí o passado de uma forma ou de outra. Virou cool, virou legal você ter referências antigas na sua sala, na sua bolsa, na sua forma de lidar com o mundo, etc.

Nesse sentido, essa ambiguidade, ela te diz que existe, sim, um interesse pelo passado, existe, sim, o interesse pela preservação, existe, sim, o interesse pelo patrimônio cultural no Brasil, inclusive, porque foi uma ação de estado e uma ação de elite e se criou o antigo serviço patrimônio lá em 1937, ou seja, quase um século atrás, que é hoje o atual IPHAN. Você tem milhares de instituições de patrimônio, museus, arquivos, bibliotecas espalhados pelo país, mas a maior parte desse conjunto é muito precário, é muito mal mantido, é muito pouco subvencionado, e talvez chegue esse paradoxo de você perder o Museu Nacional e ser consumido pelo fogo, porque ele não se conservava direito, apesar de sistemáticas denúncias, nesse sentido, durante décadas, e seis anos depois dele ter sido consumido pelo fogo, você ainda está lá, com os tapumes, não tem nada no lugar.

Eventualmente, a questão não é nem botar alguma coisa no lugar, é não ter perdido aquilo. Nesse sentido, mesmo o patrimônio conservado no Brasil ao longo dos últimos 200 anos, ele se perdeu em parte, e aí não é mais um paradoxo, uma ambiguidade, é uma contradição. Existe um movimento para preservar, mas esse movimento não é suficiente para preservar, ele perde coisas ao longo do caminho. Nesse sentido, essa relação ambígua do país com a ideia da preservação, ela te indica alguma coisa mais complexa, talvez uma falta de identidade, o que que o Brasil quer ser e qual é o valor, o papel do patrimônio nessa construção, ou por outro lado, se o Brasil quer ser alguma coisa que ele ainda não é, na verdade que ele rejeita esse passado, aí uma contradição maior que é por que esse passado incomoda tanto.”

(Hernani Heffner)

UpontheTown

“O Rio de Janeiro é uma cidade muito seccionada. Cada área dela corresponde, de grosso modo, a uma determinada classe social. A Zona Sul sempre foi a elite socioeconômica da cidade. E, logo, se você pensa em consumo de luxo, os elementos estariam voltados para esse segmento social vão estar na Zona Sul. Os teatros estão onde? Estão na Zona Sul. Os cinemas estão onde? Estão na Zona Sul. A reforma de salas como o Roxy vão acontecer onde? Na Zona Sul. Historicamente, a Zona Norte sempre foi pobre. Nesse sentido, a grande oferta cultural que a Zona Norte já teve ao longo da sua história, foram as salas de exibição cinematográficas.

Mas por que isso ocorreu? Porque num determinado momento da história, do comércio cinematográfico, ele era voltado para toda a população de forma indistinta. Então, o cara da Zona Sul podia ver o mesmo filme que o cara da Zona Norte. É isso que o Walter Benjamin diz que é a mudança que o cinema traz por conta da sua reprodução, por conta da sua importância, ele diz que é a mudança que o cinema traz por conta da sua reprodutibilidade técnica.

Então, existia isso e tinha um público muito grande. E, com os multiplex, o que acontece? Foi elitizando e se tornando caro. O cinema era muito barato, era acessível, não é? Então, você chega num shopping e você não pode entrar. Tem gente que não pode entrar, não é? E se entrar, ficam aqueles guardas lá andando atrás de você, que é a coisa mais ridícula do mundo, não é? E quando você consegue entrar, você não consegue pagar. Porque, pô, R$28, R$34 um bilhete, aí você vai comprar uma pipoca, um combo, 50 conto. Aí a gente fala assim, o cinema é o maior divertimento, não é? Mas é um divertimento caro pra caramba.” (Adailton)

O cinema é uma revolução em termos de como ele trata o consumo das várias classes. E isso, quando você pensa nisso, você descobre que a Zona Norte e as outras zonas da cidade podem ter acesso através de um instrumento digital, mas não terão acesso àquilo que é um consumo de luxo.” (Hernani)

“Eu fui formado no cinema de rua. O maior parque exibidor da América Latina era o subúrbio carioca. É que a gente esquece disso. Mas todo bairro tinha o seu... Principalmente os bairros cortados pela rede ferroviária, pela linha férrea, todos eles tinham o seu cinema do lado de lá e do lado de cá, dependendo de quem estava de cada lado. Mas tinham os cinemas. E os cinemas tinham 600 lugares, 700, 800 lugares.

IMAGEM DO AUTOR, 2024 PRAÇA TIRADENTES, CENTRO PALCO DA EFEVERSCÊNCIA CULTURAL CARIOCA (E DE MUITOS CINEMAS) NO FINAL DO SÉCULO XIX E COMEÇO DO SÉCULO XX

Se você for na tua pesquisa, você vai ver que você vai conversar com um saudosista. Todos eles vão falar assim, aqui no meu bairro tinha o maior cinema do Brasil. Aí o outro vai falar também que tinha o maior cinema, principalmente no subúrbio. O suburbano é megalomaníaco. Ele não tem nada. Então ele tem que falar que a praça dele é a melhor do mundo, que a esquina é a mais frequentada, que o bar é uma maravilha. Não é nada, é tudo uma budega, sabe? Mas a gente tem que fazer isso, não é?

Como é que a gente sobrevive aqui? Não tem oferta. E o cinema de rua, além de ser uma coisa muito humana, romântica, ele é democrático para caramba, porque qualquer um que pode pagar pelo ingresso pode entrar, sendo branco, preto, amarelo, marrom, sabe? No Shopping Center não pode. A gente sabe que com os multiplex, a virada com os multiplex, esses cinemas foram para shopping. É tudo consumo, só consumir, sabe?

“A questão da distribuição de aparelhos culturais pela cidade é uma questão ampla, complexa e crônica, essa concentração da oferta cultural nas zonas mais ricas, Centro e Zona Sul. Então o cinema não é o único, se a gente olha teatro, espaços de shows, etc. Acho que o fim da marca do (Espaço) Itaú (de Cinema), como qualquer patrocinador, está interessado em exposição da marca. Eu acho que principalmente com a pandemia se saturou uma ideia de que o cinema já é algo do passado, estamos na era pós-cinema. Então as decisões dos setores de marketing das grandes empresas muitas vezes não são pautadas pela inteligência ou pelo apoio que é mais importante ou que me necessita mais, mas por modismos. Então acho que talvez o Itaú esteja vendo que associa a marca dele com ideias de futuro, de progresso, de novas tecnologias, do digital, das redes sociais e talvez tenha achado que tenha perdido impacto. Mas enfim, eu acho que isso a gente tem que lamentar, mas não achar que é uma decisão que reflete perda de gosto do público, perda de importância. Infelizmente a gente vive nesse sistema em que a decisão de apoio à cultura cabe talvez a quem não seja de melhores cabeças a decidirem isso como os departamentos de marketing de bancos.” (Rafael)

UpontheTown

“A gente tem um problema histórico, estrutural. A gente tem uma tradição de concentração, de oferta cultural na zona sul do Rio de Janeiro. Até mesmo para pessoas que moram na Zona Oeste, na Barra da Tijuca, até pessoas que são de classes abastadas, pessoas com grana, que moram na Barra da Tijuca, lá está até tirando cinema de shopping.

É uma questão histórica de configuração da cidade, de marcação da Zona Sul e do Centro agora que também perdeu essa importância. Como lugares de produção dessa cultura, do que é ser carioca e tal. Então isso é histórico, é uma questão que precisaria de muito fôlego, muitas gestões da cidade que estivessem preocupadas em fazer planos com a possibilidade mesmo de transformação. Isso é complicado porque a gente sabe que as gestões são temporárias, muito do que às vezes é feito numa gestão chega na outra, muda completamente, então você não tem a continuidade de alguns projetos, mas a concentração de cultura, de acesso à cultura, que reflete, por outro lado, concentração de renda no sentido de quem tem dinheiro para ir e outra coisa, o dinheiro está tendo circulado ali.

“A Barra é um híbrido, cuidado. A elite mora na Barra? A elite carioca mora na Barra? Não sei, eu acho que ela ainda mora no Leblon. O Leblon tem um empreendimento lá como o Kinoplex Leblon, que é talvez o supra-sumo que está se tentando ali com o Roxy. A Barra vai de um conjunto de favelas, acho que hoje é o maior da cidade, tem uma população que hoje representa 40% da cidade, tem um território que é mais de 50% da cidade, e ela vai da classe mais popular a uma classe média alta nova rica. Nesse sentido, enfim, ela não tem nem tempo em história para ter o verniz, que as antigas elites cariocas têm que estão ali em Copacabana, em Ipanema, Leblon, São Conrado eventualmente, e o que significa, assim, simplesmente não teve tempo para formar essa identidade.

Então você não está dinamizando outras áreas a partir de uma economia criativa, cultural que poderia estar sendo dinamizada em outros lugares também. Mas apesar disso, a gente tem exemplos interessantes de desconcentração, alguns vindos a partir de iniciativas públicas, de programas voltados para isso, ou outros casos, a própria comunidade, as próprias pessoas que se mobilizam e fazem aquela experiência cultural acontecer de forma descentralizada.” (Talitha)

“O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa. Ela só existe de um lado, que é o lado do túnel. O lado de lá do túnel, onde foram formadas as favelas, teve as remoções, fizeram a Baía de Guanabara. Aí você tem Leblon, Ipanema, Copacabana, aquela imagem linda, Corcovado, Pão de Açúcar, teatros, cinemas. Atravessou para cá, acabou. Acabou. “Por que você acha isso?” É o sintoma do capitalismo neoliberal que a gente vive, que é o mais acirrado. A mão de obra mais barata está aqui, cara.

As pessoas daqui saem para trabalhar no centro da cidade, na Zona Sul, ou Barra da Tijuca, que entrou no hall também da moda, e ganham pouco. E além de ganhar pouco, grande parte do que elas ganham fica lá, porque elas não têm tempo de fazer compras aqui, de comprar uma roupa. O máximo que elas fazem aqui é comprar comida, que é bem mais barato e tem que comer. Então, a gente tem que manter essa galera aí. E como é que a gente mantém essa galera aí? Não dando oportunidades para eles. O sistema escravocrata continua. Aonde que você apanha? Você apanha no trem, irmão. O chicote? Nosso chicote é o trem.

Já pensou se você tivesse um transporte maneiro, um ar-condicionado, uma telona, para você ficar uma hora ali, sentado, viajando. Pô, não é nada disso, cara. É todo mundo apertado numa lata de sardinha e um querendo morder a orelha do outro. Os iguais ficam com raiva de si mesmos. Isso é uma estrutura. Isso é cultura. Isso é cultura. Então, isso é política de estado. É uma coisa já programada.” (Adailton)

A Barra nasceu a certa altura com a pretensão de se tornar um novo polo de elite da cidade. E a antiga elite reagiu. E reagiu colocando essa pecha de que é um bairro artificial, que é um bairro equivocado, que é um bairro sem raiz, que é um bairro neutro, insípido, etc. Não, é um bairro novo, né? Tem o quê? 50 anos? A Barra nasce oficialmente em 1970, mas começa a ter população, que foi uma significativa, a partir dos anos 90. Então tem 30 anos. Não tem um século. O Rio de Janeiro virou Rio de Janeiro depois de 300 anos. Então não tem tempo para essa formação social ganhar uma identidade, etc. Embora hoje você possa dizer que o sujeito da Barra não se confunde com o sujeito da Tijuca ou de Copacabana. A Barra preservou uma relação com o cinema que o resto da cidade não preservou. Tem o maior número de cinemas da cidade hoje em dia. Se você considera a Barra, aquilo que vai de São Conrado até o Recreio, enfim, eu diria que 40, 50% das salas de cinema da cidade estão na Barra. Então qual é o bairro mais cinematográfico do Rio hoje? É a Barra”. (Hernani)

O Centro do Rio de Janeiro

Ou: discutindo a importância da revitalização de bairros pela sua importância histórica, social e cultural na cidade do Rio de Janeiro

“Eu acho que o cinema pode vir numa segunda onda, no momento em que você conseguir de fato repopular o Centro, você tirar o Centro dessa situação que ele foi colocar durante a pandemia de abandono, quando eu falo de abandono não falo da prefeitura, eu falo, as pessoas abandonaram o centro, o Centro foi tomado por uma população de rua, e você colocou numa situação que é difícil de lidar.

Você tem que encontrar uma solução pra população de rua que está no Centro, que está num volume muito maior do que era na pré-pandemia, e você tem que encontrar uma solução pra frequência do Centro que foi profundamente reduzida por causa do home office, então as pessoas fecharam escritórios no Centro porque as empresas se tornaram home office, ficou mais barato, e elas não retornaram pro Centro depois da pandemia.

Então tem muitos prédios com muitos imóveis desocupados, o que faz com que não tenha muita gente frequentando o Centro, então você tem essa equação, o Reviver Centro está tentando reverter isso, tornando o Centro de novo um espaço residencial, que é mudar a relação com o

Centro pra sei lá, uma relação de 30 anos atrás, não é um processo cultural fácil, quando isso conseguir avançar, ou seja, o Centro for retomado como espaço de convivência, de moradia ativa, com uma população fixa, aí naturalmente os serviços que serve essa população, como serviços de lazer e cinema vão fazer sentido, se ultrapassar isso primeiro, possivelmente é um risco muito grande de frustrar, porque assim é isso.

O Odeon é o caso mais clássico, o Odeon é um cinema maravilhoso, espetacular, mas pra você lotar você precisa de uma centena de pessoas, em duas, três sessões diárias, que é o que você precisa ter pra um cinema funcionar, nessas condições é improvável, você precisa criar um entorno, precisa criar uma experiência, por exemplo, como tem o Estação (NET) Botafogo, você tem ali dois cinemas, você tem todo um hall de serviços de bares e restaurantes, é um programa, você não vai só no cinema, você sai, toma uma cerveja, conversa com os amigos sobre o filme, você tem todo um elã, o Centro tem que voltar a ter um pouco esse espaço pra você voltar a revitalizá-lo, mas tem dois lugares que são meio naturais, digamos assim, pra esse tipo de debate, o Odeon e o Cine Íris

O caso do Odeon é isso, assim, ele continua funcionando como um espaço bom pra eventos, mas ele ainda não tem um modelo econômico que torne ele sustentável como cinema regular, estar aberto permanentemente, né, esse é a questão.”

ENTRADA DO CINE ÍRIS, ABERTO DESDE 1909, NO CENTRO, O MAIS ANTIGO EM FUNCIONAMENTO PORÉM, DESDE 1979, É UM CINEMA PORNÕ. IMAGEM DO AUTOR, 2024.

RPP: E bairros como a Tijuca?

R: “A Tijuca ao contrário, acho que é um espaço que precisa ser olhado com mais cuidado, acho que ele tem possibilidades, embora ele tenha uma oferta de cinema, mas você poderia voltar a ter uma frequência maior, porque a Tijuca de fato tem um público, uma população, enfim, com interesse pelo cinema maior.

A questão daí no caso da Tijuca é convencer os exibidores de que vale a pena voltar a apostar nesse modelo da Tijuca, precisar encontrar um pouco essa modelagem, assim, a gente teria aberto conversas, mas por exemplo, a situação da Tijuca não acho que se compare com a situação do Alemão, porque é uma situação onde a gente fala, “não, precisa ter um investimento público pra comprar uma sala, criar uma sala”, isso eu acho que o poder aquisitivo da Tijuca não justifica esse tipo de investimento, como a gente fez na Penha, como a gente fez lá no Alemão, pra encontrar uma outra modelagem onde uma parceria público-privada, onde tivesse um privado que se interessasse por investir também naquele espaço e tal, pra encontrar a equação.”

(Maurício Hirata)

O Caso do Cine Pathé

Ou: discutindo o mercado imobiliário, cinemas que viraram igrejas evangélicas e qual o destino desses espaços pela cidade?

“Pelo que eu vejo hoje, pelo que eu fico sabendo, pelo que eu leio, acho que tem rolado algumas cenas interessantes culturais na Tijuca. Tem lá o Centro de Música Artur da Távola, onde teve um balé na semana retrasada que inclusive o coreógrafo é um amigo meu Então assim, tem algumas coisas Tem uma vida... A Tijuca sempre foi bem boêmia, óbvio, né? Mas tem um lance também, né? De um certo vigor boêmio de agora, né? Em alguns pontos específicos da Tijuca, bem interessante, né? Tem uma questão que é uma certa gourmetização também, que a gente vê de algumas questões, né? Uma coisa meio assim, uma leblonização da Tijuca, né?

Agora, perde em relação a cinema, né? Que é só shopping.

Hoje eu fico vendo que tem mais pessoas querendo fazer com que a Tijuca tenha ali movimentos, artistas e tal. Eu acho que a Tijuca tem grande possibilidade de voltar a ficar na moda. Até porque tem uns expoentes de influencers interessantes, né? Tijucanos que têm falado muito do próprio bairro. Eu acho que tem muito potencial cultural nesse sentido, né? Agora, falta cinema. Isso é óbvio, né? A Tijuca tinha que ter um cinema de rua É imperdoável a Tijuca não ter um cinema de rua. E mais, tem público. Claro que tem. Tem público.” (Talitha)

Voltemos a falar sobre o Centro, seus cinemas e suas ruínas, como o antigo Cine Pathé, na Cinelândia, que foi um dos espaços comprados por igrejas evangélicas pela cidade nos anos 90.

“O caso do Pathé, o que acontece? É um caso específico, porque aquele imóvel não é da Igreja Universal. Eles alugam, eles são locatários. Então o imóvel ainda é ligado, de alguma forma, aos herdeiros do Pathé, da família Ferrez Tanto que os equipamentos só puderam sair de lá, porque a neta é a neta dos Ferrez que fez a doação. Então a Igreja Universal, na verdade, ela é locatária, ela está ocupando espaço Se amanhã, se bem que os equipamentos foram retirados, mas tudo bem. Mas se amanhã alguém oferecer, sei lá, “eu quero pagar um aluguel maior. Me aluga, tira a Igreja daí” Pode ser que possa haver uma coisa que a gente tenha chamado, que a gente chama, nesses processos, que é o processo de reconversão, que é quando o equipamento, ele deixa de ser aquilo que ele é e depois de um tempo ele volta para a sua finalidade original.

Esses prédios de cinema, o que tinha para comprar e que as igrejas puderam comprar, eu acho que eles já compraram.

Se eles fizerem isso, talvez a própria Prefeitura e a própria Sociedade Civil iam se mobilizar, porque o Odeon não. Mas, por exemplo, o Roxy de Copacabana foi vendido para uma finalidade cultural, vai ser um teatro, uma casa de show, mas poderia ter sido vendido para a igreja também, então o Roxy está fora porque não sei se lá na frente a igreja compra, mas de fato isso que você falou faz sentido, porque essa época das compras desses imóveis já aconteceu, mas pode ser que mude o destino desses imóveis e a igreja se interesse por alguns, mas realmente não sobrou tantos, porque não sobraram tantos cinemas com esse aspecto de templo. “ (Talitha)

“Elas foram as pessoas que se beneficiaram do modelo de negócio que mudou, foi isso que aconteceu nos anos 90, mas é isso, hoje eu acho que os que permaneceram continuam se sustentando, agora é isso, tem um desafio de mantêlos sustentáveis, porque depois da pandemia houve uma nova queda, eles tinham conseguido encontrar uma equação que nunca foi super confortável, mesmo em São Paulo, os cinemas de rua nunca deram muito dinheiro, mas estava equilibrado já há um tempo, depois da pandemia isso voltou a se desequilibrar.

Então é preciso voltar a encontrar o equilíbrio, mas eu acho que é possível, porque eu acho que esse investimento na ocupação dos espaços públicos externos por atividades de lazer é muito importante, para acabar todo trancado em casa, então eles vão entregar as ruas à marginais, porque a gente vai desistir do convívio público e esquece a sociedade que existe.”

(Maurício)

“Acho que o Roxy, no sentido do tamanho que ele tinha e a estrutura para manter um cinema naquele padrão, né, que eu acho que eram 800 lugares, se eu não me engano, assim como o Odeon, cinemas enormes, né, o Odeon tá fechado, porque não existe mais condição de se ter uma sala de cinema num tamanho desses, né, porque não tem, hoje você tem o streaming, na época que se construiu uma sala dessa, 100 anos atrás, não tinha, então, você era o entretenimento social, você tinha ali mil pessoas que vão assistir um filme hoje, se você tivesse 60 pessoas numa sessão, esse filme tá bombado.”

(Fernanda)

O Caso do Cine Roxy

Ou: discutindo questões relacionadas a turismo, especulação imobiliária e a imagem da cidade do Rio de Janeiro.

“Essa questão do Roxy, eu não sei nem o que dizer, assim, é um movimento de outros países, você ter esse entretenimento turístico, né, que aí é aquela crise que as grandes cidades turísticas estão vivendo, né, que já não tem capacidade de absorver tanto turismo, o turismo hoje é uma indústria, ela é predadora, porque a maioria dos lugares passou a viver do turismo, então, incrementaram demais a sua divulgação, essa coisa da divulgação via internet, né, aumentou muito o acesso aos lugares, aos cantos, que antes era só um ou outro que visitava determinado lugar, hoje você vai de avalanche, porque todos os lugares estão expostos e é uma crise mundial dessa coisa do turismo, então, o Rio de Janeiro, né, que já é uma cidade conhecida e que vive do turismo, ter um lugar como o Roxy, né, com uma atração turística, com grandes espetáculos, com jantar, eu acho bacana.“

“O caso do Roxy, ele é um caso que é um caso também bem lamentável

Porque o prédio do Roxy é um prédio de 1938. O cinema foi inaugurado em 1938. É um cinema que em termos arquitetônicos é muito importante porque é um exemplo do Art déco Tem várias influências ali E era um cinema que tinha público. Ele não era um cinema esvaziado. Ele não era um cinema deficitário. Mas era um cinema que tinha lá os sucessões, os velhinhos de Copacabana todos iam. Tinha sempre alguma coisa ali. Tinha sempre alguém ali. E a Severiano Ribeiro, ela preferiu o dinheiro. Não tem outra explicação

Até porque a esquina do Roxy, ela vale muito, porque é muito difícil no Rio de Janeiro você ter vacância, ou seja, você ter espaços vagos, prédios ali sem nada funcionando, de esquina. É um prédio de esquina. Então o valor imobiliário daquilo ali é altíssimo. A Severiano, ela é uma empresa de exibição, mas ela também namora há muitos anos, desde lá do Severiano pai, do Severiano Ribeiro mesmo, com o setor imobiliário. Então ele era um empreendedor também do setor imobiliário Então esses dois setores no Rio de Janeiro e em outros lugares também, sempre andaram muito próximos, inclusive em termos empresariais.

Então até dá para entender nessa lógica mercantil a jogada deles Vender aquilo lá para poder fazer caixa, até porque a gente sabe que o cenário da exibição em sala de cinema não é mais o mesmo. A gente sabe que cada dia que passa as taxas de ocupação são cada vez menores, dependendo ali, então a gente sabe do sufoco que é. Então foi uma cartada num jogo meramente do mercado imobiliário.

Aquilo ali foi uma transação imobiliária. Quem perdeu o cinema, o bairro e a vida cinematográfica, a pouca vida cinematográfica que o bairro ainda tinha Porque agora só tem o (Cine Teatro) Jóia, aquele negocinho lá que também bate um vento e o Jóia fecha. O Jóia ele não se aguenta em pé. Qualquer coisa que acontece, não consegue

O Roxy fechar é um sinal da tendência, do valor que a gente está dando para as coisas na cidade. Então o que vale mais, o valor de troca ou o valor cultural ou o valor de uso?

Será que o valor de troca está tão acima de questões identitárias, de preservação, de contato daquele lugar com a história do bairro, com a história das pessoas

A gente teve duas casas no Rio muito parecidas com o que eles estão querendo reproduzir, que foi a Plataforma Show e foi o Scala. O Scala ainda tinha os shows de artistas mais renomados, agora a Plataforma Show que usava-se essa palavra na época, vou usar aqui só para reproduzir o que se usava, a gente não pode usar mais ela, “Show de Mulata”, que basicamente era você expor mulheres negras sambando para turistas em qualquer época do ano, sem ser o carnaval. Então eram shows muito marcados pela exotização da cultura carioca e voltados para a superexposição das mulheres negras, desses corpos negros E pelo visto, vamos ver o que vai acontecer lá, a lógica desse lugar vai ser um pouco essa, que é um “dinner show”, é um lugar que você vai para comer e para assistir um show, mas não é um show, uma casa de show que você vai ver, são shows rápidos, são shows ali que se a gente for pensar na história das mídias, é teatro de revista, as vedetes É mais ou menos essa mesma fórmula, só que a gente está em 2024. Então, acho que eles estão um pouco fora do tempo e do espaço ”

(Fernanda Oliveira)
(Talitha Ferraz)

Cinemaememória urbanacarioca

CADEIRAS DO CINE ORLY, NA CINELÂNDIA

FECHADO EM 2013

MAGEM CEDIDA POR CAROLINE VALANSI

Qual sua memória afetiva com o cinema?

(RPP Pesquisa)

Qual sua lembrança do cinema?

Perguntamos aos nossos entrevistados e para o público de nossa pesquisa para posicionar os cinemas como grandes espaços de memória afetiva.

“Olha, sou de uma geração em que o Brasil inteiro ia ao cinema porque tinha um cinema em cada esquina, então isso fazia parte do cotidiano. Era um hábito como ir à padaria, ir à farmácia, etc.” (Hernani)

“Eu tinha uma tia que foi ela que me apresentou a tudo, aos melhores passeios, à praia, ao parque, ao circo e ao cinema. Eu nem sabia o que era isso. Chegamos lá tocando zaralha (fazendo bagunça), criança, cara Ela vendo que a gente estava fazendo bagunça, ela sentou numa poltrona no meio, me botou de um lado e ele (primo) do outro. As poltronas eram de madeira, sabe Daqui a pouco acabou a luz, desligou a luz Desligou a luz, apareceu aquela imagem lá na tela. Quando eu vi aquela imagem enorme, em movimento, daqui a pouco o som, cara, eu fiquei maluco Eu olhava lá, “da onde que vem essa imagem, sabe?” E vinha lá de trás, vinha de um quadradinho lá atrás, era o aquário. Mas quando aquela imagem começou a rodar, eu meti a mão assim na poltrona (se movimentando pra frente) e acho que eu colei os meus olhos. Sabe aquele negócio de desenho animado? Que os olhos soltam. Aí eu colei lá na tela, fiquei maravilhado, sabe? A partir daquele dia o cinema entrou em mim, que nunca mais ele saiu.” (Adailton)

“Eu tive a sorte e o azar, né, de ter sido criança na década de 80 Então, por que a sorte? Porque eu pude ver ainda alguns cinemas de rua, palácios, né, do cinema abertos em funcionamento. Então, eu pude ter essa vivência. Eu conheci alguns desses exemplos E eu tive o azar porque eu também vi a destruição desses lugares, né? Mas em relação a esses cinemas, assim, da minha infância, que em geral são os cinemas que ficavam na Praça Saens Peña, na Tijuca São os cinemas que eu mais tenho lembranças, assim, mais, né, aquelas lembranças que deixam a gente até mais emocionado, né?” (Talitha)

“Eu moro em Laranjeiras a vida inteira, então eu frequentava muito os cinemas do Largo do Machado, o São Luís, Paissandu, na Galeria Condor, também ali no Catete, eu ia muito porque eram próximos de casa. Eu lembro que eu vi muito Trapalhões, eu lembro que eu vi Goonies, esses filmes dos anos 80, ET, Indiana Jones, Star Wars, esses filmes ficaram muito marcados na minha cabeça nesses cinemas, (eles) lotavam, assim.” (Cavi)

“Nasci e cresci ao lado do Cine Azteca, no Catete. Aos 7 anos, presenciei sua demolição a marretadas, o que me incrustou marcas que carrego até hoje. Passei a acompanhar o processo de desertificação dos cinemas cariocas com muita dor, pois eles foram os principais responsáveis pela minha formação cultural, intelectual e emocional.” (Luis)

“Eu sou da Zona Oeste, da região de Campo Grande, Bangu, na verdade de Santíssimo E na minha infância toda eu frequentei Campo Grande, onde eu estudava e a primeira vez que fui ao cinema foi num cinema de rua em Campo Grande, se eu não me engano chamava Cine (Art) Palácio, e nós fomos assistir Memórias do Cárcere e foi incrível, né? Imagina assistir Memórias do Cárcere, eu devia ter uns 10 anos, 10 para 11, e eu fui levada pela escola, minha escola estadual. Então, eu lembro que foi muito impactante, eu lembro que eu fiquei muito impressionada com o filme, com aquelas memórias todas daquele presídio, né? Então, eu fiquei muito impressionada e foi uma experiência assim incrível, né?” (Fernanda)

“Essa temática sempre esteve ligada a minha vida de um jeito ou de outro Seja através das histórias que minha mãe e minhas tias contavam sobre a paixão pelos artistas e filmes das décadas de 1950 e 1960, que conheceram nas idas aos dois cinemas que existiam na pequena cidade de Sacramento, na região do Triângulo Mineiro, ou ao fato de ter morado parte da infância e adolescência no edifício do antigo Cine Ópera, em Botafogo, no Rio de Janeiro

Tendo nascido e vivido até a vida adulta em Botafogo, pude ter contato com uma espécie de terceira Cinelândia carioca que se instalava entre a Praia de Botafogo (Cine Ópera, Scala e Coral), passando pelos cinemas do atual Grupo Estação, na Voluntários da Pátria, e incorporando os cinemas de shopping (Rio Sul e Botafogo Praia Shopping). Então, sempre tinha um cinema de rua próximo, sempre a opção de um bom filme. Até meados da década de 1990 era fácil encontrar um cinema para ver filmes a qualquer hora do dia. A falta ainda não se fazia presente”. (Christian)

A preservação desses espaços

O porquê da importância de preservá-los em detrimento de fatores econômicos, turísticos, sociais e culturais.

“Nem tudo sobrevive, muita coisa se perde, o que sobrevive às vezes é fruto de um trabalho sistemático, às vezes é fruto do acaso. E, de tempos em tempos, a sociedade, as sociedades, elas escolhem o que valorizar e o que não valorizar e eventualmente dentro da sociedade você tem várias posições políticas, culturais, etc. E, eventualmente, cada grupo tenta preservar aquilo que lhe interessa e eventualmente isso não é possível Todo o esforço das instituições de patrimônio, das instituições de preservação, ela é em princípio fadada ao fracasso porque mesmo com todo o trabalho do mundo, com todo o dinheiro do mundo, com toda a infraestrutura que você possa reunir, você não vai conseguir literalmente salvar tudo.” (Hernani)

“Hoje em dia eu acho que tem duas coisas muito importantes. Tem uma questão que é da preservação da memória arquitetural da cidade, da preservação da memória dos espaços mesmo públicos que foram relevantes E o cinema se encontra um pouco nesse lugar de ser um espaço privado de frequência coletiva, que ele não é uma praça, mas ele também não é a mesma coisa que um prédio escritório Ele tá numa coisa entre um lugar e outro que tem, pro Rio de Janeiro em particular, uma importância histórica muito grande.

Tem cinemas históricos que pesam para o turismo da cidade O Odeon está funcionando de forma intermitente, é uma pena, é muito relevante conseguir encontrar uma solução para o funcionamento mais regular dele ” (Mauricio)

“Olha, antes de falar da preservação do cinema de rua, eu posso falar da preservação da convivência de rua, da convivência de bairro, porque como eu sou dessa região do Rio de Janeiro que praticou, né? Não posso dizer se pratica ainda, porque eu não moro mais, mas eu tive toda a minha infância, a minha adolescência no subúrbio, muito característico do subúrbio do Rio de Janeiro, né?

Em Santíssimo, então, a gente tinha ali essa convivência de rua, de pracinha, de portão, de calçada, então eu trago muito forte em mim essa necessidade da convivência com o meu bairro. Quando eu me mudei para Santa Teresa, eu tinha vinte e poucos anos, eu inclusive entendi que esse bairro estava muito próximo disso que eu trazia e que eu buscava. Santa Teresa é um bairro onde as pessoas também se frequentam, as pessoas circulam por ele, né?

E frequentam os lugares do bairro, o restaurante, o bar, a praça, o cinema, então eu acho que preservar um cinema de rua e de bairro se conecta com preservar essa atmosfera que o Rio de Janeiro, teve muito e que ainda tem, né? Que é a convivência, a alegria da troca da rua, do portão, daquela coisa de um bater na casa do outro. Então a preservação, que hoje eu considero até que o Cine Santa já é um equipamento preservado, né? Diante de tantos que fecharam, que reabriram e fecharam, né? Por causa da pandemia também, então o Cine Santa hoje, ele é um espaço que tá com uma atenção não só nossa, né?

Dos frequentadores, mas do poder público também, de preservá-lo porque ele é um equipamento que mantém essa estrutura que conecta um bairro, né? Que conecta pessoas, que conecta tradições, então pra mim é muito emocionante e muito emocionante ser a pessoa que criou esse equipamento e ao mesmo tempo que administra, que batalha, que mantém e que junto com todos os cinéfilos, os amigos, os vizinhos, entendem que esse equipamento é um equipamento que tem alma carioca, né?” (Fernanda)

“As salas de cinema trazem junto com ela uma memória afetiva A primeira pergunta que você fez pra mim foi ”qual a memória afetiva que você tem das salas de cinema?” Eu lembrei das salas do Largo do Machado Paissandu não existe mais, virou academia O cinema lá na Galeria Condor também virou academia de ginástica. Só sobrou o São Luís. O cinema, além dele exibir filmes e trazer toda essa história da arte, do mundo todo, ele também guarda ali uma lembrança das pessoas que frequentaram, entendeu?

Se você for ver Retratos Fantasmas, ele é todo em cima de lembranças do Kléber (Mendonça Filho), das salas que ele ia, com a mãe dele. Você vê que começa com a mãe dele, né? O filme, né? Com a casa dele, depois ele vai Ou seja, ele traz primeiro a família dele, depois ele vai pro cinema. Então, acho que o cinema tem essa força também de trazer com ele uma memória afetiva muito forte Que é a vida das pessoas, né? Então, acho que o cinema tem essa importância, assim, da memória do cidadão e a memória da cidade também. é muito triste ver um lugar desse com essa importância histórica de memória virar um supermercado, virar uma igreja, virar uma academia de ginástica.” (Cavi)

A preservação desses espaços

O porquê da importância de preservá-los em detrimento de fatores econômicos, turísticos, sociais e culturais.

“Então, assim, por isso que eu acho que os cinemas têm essa importância

Além de mostrar cultura, mostrar arte, ser um lugar de convívio, ser um lugar de memória, ser um lugar de vivência, né? Você vê, as pessoas vêm aqui não é só pra ver filme Sentam ali no café, tem a lojinha, conversam, dançam, às vezes tem uma exposição, às vezes vai ter uma festa aqui, vai virar uma boate isso aqui à noite. De meianoite até sete da manhã vira uma boate aqui o cinema Quantas coisas, olha quantas pessoas, quantas coisas esse cinema tá movimentando, entendeu? Cultural. Festa, música, né? Dança, exposição, artes plásticas, teatro, cinema, literatura ” (Cavi)

“Preservação de cinema é um assunto que é bem complexo, porque a gente tem na legislação brasileira algumas questões que são entraves, enfim, questões legais, que a gente precisa entrar nesse mérito. Mas a gente tem alguns entendimentos de preservação que não preveem a questão do uso ou da finalidade daquele equipamento cultural. São em geral as leis de preservação patrimonial no sentido material, não nos patrimônios imateriais, mas nos patrimônios materiais, em geral são ligados nesse caso de construções ao critério arquitetônico.

Então, muitas vezes, quando a gente fala de sala de cinema antiga, desses cinemas que ainda estão de pé, por mais que às vezes eles sejam tombados, por mais que às vezes tenham leis que os protejam como edifícios, arquitetonicamente históricos e importantes, isso não garante que esses espaços vão ser utilizados, primeiro, por cinemas, segundo, para destinos culturais.

Porque se eu compro um prédio desses, que já foi cinema, que é tombado, beleza, vou lá, compro esse prédio, um prédio antigo, sei que esse edifício, que essa propriedade vai me dar alguns trabalhos e vai me gerar alguns custos, porque por lei eu vou ser obrigada a fazer determinadas manutenções, porque é patrimônio histórico, mas esse tombamento, essa lei que me proíbe de fazer reformas estruturais, dependendo delas, não me proíbe, por exemplo, de eu instalar ali dentro uma farmácia ou uma igreja ou, sei lá, um supermercado.

Então, a gente vê muitos casos de salas de cinema, prédios que foram salas de cinema, com arquiteturas, às vezes, mantidas, como esse caso do Carioca (cinema de rua da Tijuca, hoje uma farmácia), só que a finalidade do uso do lugar não é uma finalidade nem cinematográfica nem cultural, então só se protege a casca, isso é bom, isso é maravilhoso, isso é importante, isso é importantíssimo, porque o patrimônio material, a arquitetura, às vezes, artdéco, às vezes é um outro estilo arquitetônico, que são peças ali, são construções que são marcas de uma época, é importante manter isso em termos patrimoniais, é importantíssimo.

Quando você preserva a casca, você está preservando o patrimônio, mas você não está guardando a questão da sobrevivência cinematográfica do lugar ou até mesmo a sobrevivência cultural, que não seja preservado para voltar a ser cinema, especificamente, mas que vire um centro cultural, que vire um teatro, que vire alguma coisa que tenha algum sentido que contribua para a cultura.

(Entre os anos 80 e o início dos anos 2000, muitos espaços de cinema foram desapropriados e comprados por igrejas evangélicas pela cidade.)

Vou até dar um exemplo para você de uma coisa que até acabei de escrever sobre isso, um capítulo de livro que estava escrevendo, sobre o cinema Condor, que existiu no Largo do Machado, na Galeria Condor Esse cinema fechou e a Igreja Universal comprou a loja, que é um cinema de galeria, ele fica dentro da galeria, a igreja comprou esse espaço, ela queria transformá-lo em igreja mesmo para fazer os cultos lá dentro, teve um problema ligado ao Estatuto do Condomínio, que não deixava que houvesse cerimônias e cultos dentro dessa galeria, por conta do Estatuto mesmo do prédio, e aí a Igreja Universal resolveu então transformar o Condor em cinema novamente, mas um cinema voltado para a exibição de filmes bíblicos, de filmes religiosos.

Eles abandonaram essa ideia e com o tempo eles não quiseram abrir a igreja mais lá, e eles alugaram para uma academia (de ginástica) Teria sido melhor se eles tivessem mantido o espaço do cinema e fizessem o culto lá dentro. Seria melhor. Esse foi um dos últimos casos que a Igreja Universal comprou, mas mesmo assim a própria igreja está alugando para a academia.” (Talitha)

Lerocinema

Hernani Heffner, também pesquisador e professor, conta sobre o processo de produção de “Palácios e Poeiras”, livro que conta a história do cinema de rua no Rio de Janeiro:

“Eu cheguei já tarde nessa história Essa história começa a rigor lá em 1921, quando o Adhemar Gonzaga e o Álvaro Rocha percebem que o cinema que eles conheceram na infância já tinha desaparecido ou estava em vir de desaparecimento. E que um novo circuito estava se construindo, estava se apresentando, estava aparecendo. E que algumas coisas mais antigas já estavam sumindo.

Então, o meu trabalho foi muito mais sistematizar essa informação, de entender quais eram esses cinemas, de fotografar, de sair pra fotografar com o Chico, as salas que ainda estavam por aí, as antigas e as novas, e aí depois fazer uma seleção disso para botar no livro, que o livro, embora muito legal, é um livro que já tem 250 fotos, o circuito teve mais de 700 salas, então muita coisa foi de fora, porque não tinha dinheiro para botar, e aí, enfim, se fez uma seleção final e foi o que se publicou.”

Já Alice Gonzaga, pesquisadora e autora do livro, orgulha-se do trabalho feito:

Essa intuição, que é a intuição de que a história é dinâmica e algumas coisas vão desaparecer e outras vão surgir, deu esse estalo na cabeça deles e eles fotografaram um monte de coisas ali ao longo dos anos 20 e início dos anos 30. Depois pararam, porque é difícil você acompanhar isso e investir nisso, porque eles faziam no próprio bolso, ainda com negativo de vidro. Imagina, um negócio bem complicado naquela época. Mas isso foi um embrião da ideia de que um dia se escreveria uma história das salas de exibição.

O Adhemar Gonzaga⁴ prosseguiu com isso, foi juntando o material, ainda em vida ele transmitiu isso à filha, a filha sistematizou o material. E eu cheguei já quando o material estava sistematizado, o material textual E aí se foi ver o material fotográfico, e aí, óbvio, como eles fizeram dos anos 20, dos anos 30, não fizeram dos momentos seguintes, aí tinha essa lacuna, já era o primeiro momento de, ah, tem que fotografar as salas que surgiram dos anos 40 em diante E ainda estão por aí, porque tem salas que a gente já não pegou mais.

Então, o primeiro trabalho foi levantar essas salas, foi ver quando elas surgiram, quando acabaram, se estavam em índice, não estavam, qual era a natureza delas, visando justamente você completar essa pesquisa e dizer, da primeira à última sala ali em 1995, o que é que se pôde obter.

“Tenho muito orgulho do livro "Palácios e Poeiras", onde muitas pesquisas realizadas e contidas no livro hoje seriam impossíveis

Muitos documentos consultados desapareceram. Para os não interessados em cinema, "Palácios e Poeiras" documenta muito a história do Rio de Janeiro, principalmente no início. Narra também os primórdios das diversões, como eram os brinquedos, os jogos, as quermesses, entre outros

Mereceriam um estudo mais rigoroso por parte dos estudantes. O livro continua atualíssimo, e hoje talvez seja ainda mais importante, já que muitos documentos consultados desapareceram ”

⁴ ADHEMAR GONZAGA (1901-1978): CINEASTA E JORNALISTA CARIOCA FUNDADOR DA CINÉDIA PAI DE ALICE

PLACA DO CINE ÍRIS, 2024, IMAGEM DO AUTOR DURANTE AS DÉCADAS DE 1910 E 1920, O CINE ÍRIS ERA AJJUDADO FINANCIALMENTE POR JOÃO ANTÔNIO DE ALMEIDA GONZAGA, PAI DE ADHEMAR

Talitha Ferraz, pesquisadora, professora e autora de “A Segunda Cinelândia Carioca”, livro que conta a história dos cinemas da Praça Saenz Peña, na Tijuca, compartilha um pouco sobre as histórias descobertas durante a produção do livro:

“Tem duas imagens ali que são imagens muito fortes pra mim, que são muito especiais, que foram compartilhadas comigo pelo Seu Wilson, que estava vivo na época. O Seu Wilson era irmão da avó da minha melhor amiga Era tio-avô da minha amiga Juliana E aí eu fui entrevistar o Seu Wilson, que já estava num processo de Alzheimer brando ainda. E aí o Seu Wilson ocupou vários cargos no Cine Olinda (atual Shopping 45, na Praça Saenz Peña), e entre os cargos ele foi lanterninha, foi bilheteiro, enfim. E o Olinda era a vida do Seu Wilson.

Então ele teve que sair do Olinda, ele teve um problema de saúde que o impedia de trabalhar regularmente, mas mesmo assim ele ia pra lá, ficava lá. A vida dele era lá. E aí quando o Olinda foi demolido, ele viu. E ele falou, ele falava coisas assim, que foi como se estivessem explodindo a casa dele, foi como se ele estivesse perdendo a pátria dele. E aí foi por conta também dessas conversas, no caso dele, ele me deu as fotos Eu escaneei as fotos, e aquela imagem ninguém tem Aquelas imagens do Seu Wilson e do amigo dele, que eu não sei o nome, que nem ele lembrava o nome do homem, na sala de projeção do Cinema Olinda, ninguém tem. É uma foto dele, pessoal, de ambiente de trabalho dele.”

INTERIOR DO ANTIGO CINEMA CARIOCA, NA TIJUCA, ABERTO ENTRE 1944 E 1999. IMAGEM DO AUTOR, 2024.

RPP: Caberia uma parte dois do livro?

R: “Eu acho que não, sobre a questão, caberia outras memórias e talvez um foco maior em salas que não foram tão priorizadas. Eu acho que tem várias coisas ali que precisariam ser revistas, que precisariam ser ali, não revistas, mas atualizadas Caberia outras memórias e talvez um foco maior em salas que não foram tão priorizadas Por exemplo, cinemas da região, mas que não estavam na Praça Saens Peña, especificamente. Como, por exemplo, o Comodoro. Quase não falei do Comodoro, que ficava mais ali, para quem está indo na direção do Estácio. Por exemplo, uma história muito forte dos Cinemas Um, que foram os cinemas de arte, que existiam na Tijuca, a questão do Cinema Osaka

Foi um cinema que existiu ali na (Rua) Major Ávila, que teve um período, o nome já diz, que era um cinema especializado em cinematografia asiática. Que programações eram essas? Que filmes eram esses? Quem é que distribuía? Que programação asiática é essa? Tipo, eu não explorei isso. Entendeu? O Bruni, em geral, os cinemas Bruni, você tem alguns dados de jornal, você consegue bastante informação, é legal Mas a história mesmo do (Lívio) Bruni, ele, o empresário e a família Bruni, não tem tanta informação. Até pegando esse gancho do seu Wilson, né. Como é que era a relação de trabalho? O trabalhador da sala de cinema. Que memória essas pessoas têm? O que era ser um trabalhador de um grande palácio do cinema? Projecionista, lanterninha, bilheteiro ”

RPP Pergunta: Por que não existe um museu do cinema carioca?

“Não sei, boa pergunta, a gente tem o Museu da Imagem do Som, que não conseguiu vingar um projeto estadual, não sei, é um debate, é uma proposta interessante, poderia ser interessante ter. Mas assim, gente, criar um museu, criar um equipamento cultural, uma coisa é um projeto grande, sabe? É um projeto caro, é preciso estudar viabilidade, entender como é que se faz, entendeu? Não basta ter os equipamentos, tem alguns equipamentos, então precisa entender qual que é o objetivo, de onde vem o acervo, o tamanho do acervo, a inovação de acervo, enfim. Ver se isso já não é melhor cumprido por instituições que já existem, que sempre é um debate importante, por exemplo, isso já não pode ser cumprido para o CTV (Centro Técnico Audiovisual), isso já não pode ser cumprido pela Cinemateca do MAM, entendeu? Isso não pode ser melhor cumprido, eventualmente, pelo MIS, quando ele estiver reformado e pronto, tem que ver se já não tem equipamentos no Rio de Janeiro suficientes, se existe demanda para mais um equipamento de preservação, se não faz mais sentido, por exemplo, procurar parcerias com esses equipamentos que já existem ” (Maurício)

“Não temos um Museu de Cinema porque as autoridades não se interessam, nem querem saber. Várias propostas já foram feitas e continuam sendo feitas sem resultado. A luta continua, não desistimos. Precisamos de um local apropriado que aguente peso ” (Alice)

“Não sei, acho que talvez seja falta de iniciativa mesmo, de grana. Eu não sei se a gente tem muita preservação material de equipamentos Uma coisa que agora o Rafael está tentando fazer é com que está aí, assim, preservado. Então ele está tentando catar o máximo de coisas que ele conseguiu Mas acho que não teve uma vontade institucional, de institucionalizar isso. O que tem são algumas pessoas que tem coisas guardadas. Tem a Cinemateca do MAM e tem algumas pessoas e instituições que tem guarda de coisas, de equipamentos, material mesmo com programas. Acho que foi uma questão mesmo de uma falta de uma institucionalização Não se institucionalizou Mas isso é um problema do Brasil mesmo.

A Cinemateca Brasileira em São Paulo já tem alguma coisinha mais Tem umas experiências de museu de cinema, mas não tem nada assim que a gente possa considerar. Por exemplo, quando você vai no Museu de Cinema de Berlim, quando você vai no Museu da Cinemateca de Lisboa, quando você vai no Museu de Cinema, sei lá, desses lugares. Talvez também porque o cinema para eles tenha virado arte no sentido assim, enfim, tenha tido um outro status do que talvez tenha tido para nós, que a gente ficou mais alinhado depois aos Estados Unidos para quem cinema é mais comércio, negócio Enfim, não sei É uma hipótese. Mas a gente não institucionalizou isso. É uma pena.

Agora, tem um lugar que é o Museu de Cinema, mas o Museu da MGM, que é o Cine-Centímetro do Ivo Raposo em Conservatória. Ele tem coisas que são originais do Metro mesmo, porque ele saiu catando. Metro estava para fechar, ele tinha dinheiro, alugou caminhão, foi na porta do Metro Copacabana, Metro Tijuca, catou, ele pilhou aquela linha de pilhagem, que é ótimo, que é tudo para o ferro velho. Isso é tudo jogado fora. Ele foi lá, ele pegou cinzeiro, cinzeiro de chão, catraca, bilheteiro, máquina de contar o negócio de bordeiro, porque como ele conseguiu pegar essas coisas, ele falando é muito engraçado, mas assim, cara, fez a limpa, literalmente, projetor e que bom que ele fez a limpa, porque está tudo lá, lá em Conservatória. Então tem muito livro, caixa, contas, então está tudo lá. Muito incrível ” (Talitha)

E O CINEMA DE RUA?

INTERIOR DO ANTIGO CINE VITÓRIA, NA
CINELÂNDIA IMAGEM DO AUTOR, 2024

Esta frase é de Adhemar Gonzaga

E quem a explica é sua própria filha, Alice Gonzaga.

“A ideia é destacar a importância do cinema ser tratado como uma indústria e não apenas como uma brincadeira, pois atualmente há uma tendência a não se pensar na continuidade e na construção de uma indústria sólida ” (Alice)

“Audiovisual é simultaneamente arte e indústria, simultaneamente, não existe a possibilidade de audiovisual sem os dois aspectos combinados, tá? Por que eu acho isso?

Porque de um lado, por mais que você possa achar, por exemplo, telenovela seria indústria, não é possível criar uma novela ou nenhum produto audiovisual como a fábrica de salsicha. Por mais que você tenha formatos e tal, se você não tiver criatividade ligada a aquele processo, pensamento artístico, pensamento criativo, aquilo ali deixa de ser interessante, então não existe formato audiovisual que se faça como salsichas são feitas, como engrenagens de carro, peças automobilísticas, onde você encontra o melhor formato, esse formato ele é perfeito do ponto de vista da engenharia, então você vai reproduzir ele para sempre e daqui a 50 anos está lá cumprindo a sua função perfeitamente porque alguém solucionou e encontrou o formato ideal, isso não existe, a gente acabou de falar disso hoje.

Estava falando dos filmes da Marvel, funcionou durante 10 anos,o que é surpreendente que tenha funcionado durante 10 anos, eu acho que estou chocado que funcionou durante 10 anos, porque é uma experiência muito rara que um formato funcione tão bem por 10 anos, mas já não está mais funcionando porque é natural, todas cansam, a cultura é diferente, a cultura evolui, a cultura muda, todas as formas culturais são assim e é bom que seja assim que a cultura humana funcione.

O Godard tinha que conversar com distribuidores para definir um circuito de exibição dos filmes dele, e o Godard negociava contrato para receber dinheiro pelos ingressos, isso é algo normal, negociava contrato de licenciamento quando o filme dele passava numa TV francesa, é o Godard, é isso, não existe, David Lynch negocia contrato de licenciamento, negocia cachê, negocia orçamento, que nem todo mundo, que nem a Disney, não é exatamente igual a Disney, mas assim, tem um aspecto industrial inerente, então produzir audiovisual inerentemente é as duas coisas, e sala de cinema é essencialmente comércio, não é nem indústria, nem arte, ele é comércio.

E é comércio de lazer, é um comércio diferente, não é o mesmo comércio, é a mesma comparação, você não dá para comparar uma sala de cinema com o Pão de Açúcar, não é a mesma lógica, o Pão de Açúcar está lá, as equações que também são complexas, enfim, de quanto vale as coisas, como eu ofereço as coisas para convencer as pessoas a gastar dinheiro aqui, o cinema não é exatamente assim, é mais sofisticado que isso, mas essencialmente é convencer as pessoas a gastar um dinheiro, no caso, numa experiência de lazer, que é parecido com um show de música, que é parecido com comprar um livro, ou seja, uma experiência de lazer, não é uma experiência de primeira necessidade, como é comida, e você tem que convencer as pessoas de que aquela experiência vale a pena gastar aquele dinheiro, então em algum grau é comércio, pode ser, digamos assim, comércio de larga escala, como é o caso de uma grande rede de cinema de um shopping, ou pode ser comércio de pequena escala, como é o caso de um pequeno cinema de rua.

De algum grau, é comércio, é a mesma relação que você tem com o mercado de bairro, com a rede de supermercado, o mercado de bairro também tem que oferecer os produtos que as pessoas que estão em volta do bairro querem comprar, não adianta, se o mercado está lá, no meio de Santa Teresa, resolve oferecer só um tipo de pão e um tipo de presunto que ninguém come, vai a falência, então ele tem que entender que pão as pessoas querem comprar, que presunto as pessoas querem comprar, que manteiga a pessoa quer comprar, que a pessoa quer comprar e coloca isso para vender, tem que entender o público, é a mesma coisa.” (Maurício)

“O

Cine Santa é o mercado local”

As questões políticas e econômicas envolvendo o mercado exibidor atual.

“O Cine Santa é o mercado local, a rede de shopping e o Pão de Açúcar são lógicas diferentes, mas no fundo é comércio, e não dá para tratar como arte, não dá para tratar, “eu vou fazer minha programação artística que ela é usada, ela é única, vou fazer coisas que nunca ninguém fez, eu vou colocar filme às dez horas da manhã, eu vou colocar filme em horas fracionadas, em vez de sessões um e depois da outra, eu vou colocar das duas às três, e a outra começando às quinze e três e terminando às dezesseis, eu não vou ter sessão noturna, vou ter só sessão de uma, aqui é diferente”, se você convencer as pessoas de que essa é uma experiência legal, maneiro, se você não convencer você vai a falência.

E não tem debate artístico que sustente isso, porque é negócio, é por isso que eu falo, a questão do cinema de rua tem essa questão, porque é preciso encontrar um modelo de sustentabilidade, a ideia é muito confortável, que o Estado vai entrar, vai bancar aquela experiência toda, e aquilo vai existir bancado pelo Estado, é uma ideia muito perigosa, porque gera coisas esdrúxulas como isso, você mantém ali um equipamento cultural que ninguém vai, você fica despejando dinheiro naquilo e ninguém está fruindo, e daí não é questão de novo, gente, a gente fala isso, às vezes a gente fala nossa, tem que dar lucro, não é dar lucro, é ter interesse público, não faz sentido eu gastar dinheiro numa coisa que as pessoas não se interessam, independente de se elas estarem pagando ou não, a equação do modelo econômico às vezes é importante porque ela permite, ela força o operador do equipamento, a pessoa que programa o equipamento a se relacionar com o público, porque ao depender de uma parcela do dinheiro daquele público, ela se força a ter o que atrai.

Quando você abre mão disso, de alguma forma, você abre mão da relação com o seu público, e o audiovisual infelizmente não pode ser isso, você pode até escrever um livro de poesia assim, e ninguém lê o seu livro de poesia e você está satisfeito de escrever o seu livro, ok, você gastou o seu tempo, colocou na internet, está tudo certo, tem nada errado e pode ser maravilhoso o livro, audiovisual não tem como ser assim porque você gastou dinheiro, gastou dinheiro público.

E, outra coisa que eu sempre falo para as pessoas, a política pública, qualquer política pública, tem como cliente, tem como objetivo atender a população, isso vale para todas as políticas, vale para a política audiovisual, então assim, o beneficiário final da política audiovisual do município do Rio é o cidadão carioca, é o cidadão carioca que vai no cinema, é o cidadão carioca que vê a sua cidade representada audiovisualmente, vê a sua cultura representada audiovisualmente, são os empresários cariocas que se beneficiam do soft power, de turistas que vêm para o Rio de Janeiro porque viram um filme, uma série legal que mostrou o Rio e o Rio pareceu interessante, entendeu, esse é o cliente final.

O produtor audiovisual é o meio, ele recebe o fomento, ele recebe o apoio, a sala de cinema recebe o apoio porque ela presta um serviço público, ela é meio, ela não é o fim, então a finalidade não é ter uma sala de cinema aberta, a finalidade é que as pessoas vão no cinema, então encontrar o modelo de negócio é fundamental porque você faz com que a política ganhe a sua eficiência, simplesmente abrir o equipamento, está lá, e eu pago uma grana e fico polindo o equipamento, e fico até projetando o filme, uma sala vazia, isso é meio maluquice.” (Maurício)

“O cinema de rua é uma invenção”

As questões políticas e econômicas envolvendo o mercado exibidor atual.

“O cinema de rua é uma invenção que é feita a partir do momento que muda o modelo das salas Antes ninguém falava cinema de rua porque todos os cinemas praticamente eram na rua. Como tem uma migração para galerias, depois shopping, e hoje hegemonia do modelo do multiplex, a gente passa a rever o passado e chamar cinema de rua, cinema de calçada. Mas para mim aquilo era o cinema, era a expressão de que era o cinema numa época do ano

Quanto ao Adhemar Gonzaga, eu acho que sim, não é o primeiro a falar isso e de fato o cinema, assim como diziam que o valor estético estava o fato de ser a soma de todas as artes, juntar fotografia, pintura, literatura, escultura, dança, teatro, eu acho que o cinema tem sempre caracterizado por ser algo multifacetado É fato cultural, documento histórico, é produto econômico, é expressão artística, é tudo isso. Obviamente que o cinema está baseado na reprodutibilidade técnica, mas o cinema traz muito das mídias, das formas de expressão anteriores.

Então o que a gente vê é sim a existência da aura também, por exemplo, em cópias únicas da época do cinema silencioso com formas de colorização que variam de cópia para cópia. Então, nesse sentido, o que a preservação mostra é que em vários momentos da história os filmes também se tornaram objetos únicos semelhantes a outros tipos de obras de arte.

Quanto ao Kinoplex, ele é a versão retrofit do Severiano Ribeiro, quase 100 anos o maior exibidor do Rio de Janeiro. Então foi ameaçado pela entrada das empresas internacionais, como o Cinemark, o U C I e etc E mudou a cadeia, começou a vender os ativos que eram os grandes terrenos e investiu no cinema de shopping Mas o modelo do Kinoplex é esse No Brasil assumiu essa feição, não de uma variedade de programação, mas é uma variedade de horários dos mesmos filmes Eu acho que hoje você tem uma oferta grande de filmes em cartaz, mas de fato você tem o shopping como modelo principal.

E eu não tendo a não idealizar nem criar uma dicotomia tão grande entre o cinema de shopping de hoje e as salas de rua do passado, porque as salas de rua do passado eram bem mais diferentes e variadas do que costuma se assumir Não existia um modelo de sala de rua e elas variavam muito de conforto, de qualidade, de programação, ao longo das décadas, então acho que também é uma generalização do que era o cinema do passado Eu acho que a principal diferença, não em relação ao início do século, mas talvez a meados do século, era quando o cinema de fato foi uma versão mais disseminada e mais acessível entre os anos 50 e 70, com ingressos mais baratos e mais presente e mais acessível à grande parte da população do que são hoje as salas de shopping Eu acho que essa é a principal diferença.” (Rafael)

“Kinoplex é uma grande exibidora carioca, e seus negócios estão fluindo bem, estão assim Elas têm os cinemas de rua que elas acham interessante ter, o Odeon dá nessa situação porque não encontra um modelo de negócio, mas é um pouco isso, de novo, não faria sentido a gente financiar a reabertura do Odeon enquanto não solucionar a ida de público para o Odeon, porque a gente vai criar um elefante branco, entendeu?

(O Odeon) é um cinema que está sobre o controle do grupo Severiano Ribeiro, mas que eu entendo porque eles mantêm fechado, porque é isso, porque não tem sustentabilidade econômica, mantê-lo aberto, e o simples subsídio público para mantê-lo aberto nas condições do entorno da Cinelândia hoje não justifica, eu acho que não justifica o investimento, entendeu?

É preciso que a revitalização do Centro avance um pouco mais, porque você cria as condições de frequência, porque daí talvez o próprio grupo Severiano Ribeiro diga que “eu mesmo vou reabrir, porque agora eu estou vendo que vai ter frequência, agora eu estou vendo que vai ter público, então eu mesmo vou reabrir”, porque eles não são bestas, eles não querem perder dinheiro, entendeu? Então, voltando a ter interesse de público no Odeon, eles vão reabrir, mas é preciso evoluir um pouco mais a revitalização do Centro para isso, eu acho que vem depois de algumas outras etapas que ainda estão sendo feitas.”

(Maurício)

Rio de Janeiro vs São Paulo

Os dois maiores parques exibidores do país, qual a diferença entre eles?

“Primeiro tem uma comparação, a gente adora comparar Rio e São Paulo, mas primeiro eu preciso contextualizar: São Paulo é um pouco maior, é muito maior que o Rio de Janeiro, São Paulo é 4 “Rios de Janeiro”, então ela tem muito mais ofertas, mas também tem muito mais pessoas, você tem muito mais dinheiro, muito mais renda, então você tem muito mais possibilidade de criar ofertas de lazer lá, porque em São Paulo, você sempre vai encontrar um público para o que você quer oferecer.

Você olha e consegue enxergar, digamos assim, no Rio de Janeiro quais são as zonas, São Paulo tem zonas dentro de zonas, você vai ter periferias ao lado das zonas gentrificadas, ao lado de uma outra zona gentrificada, ao lado de uma outra periferia, São Paulo tem centros no plural, não tem nenhum centro, o centro da cidade, que nem a gente tem, mas ele tem muitos Centros, para quem mora na zona oeste de São Paulo, por exemplo, o Centro está em outro lugar, o Centro não é o Centro, para quem mora na zona sul de São Paulo, o Centro não é o centro da cidade, ele é um outro Centro, entendeu?

Por exemplo, você pega só a zona sul de São Paulo, a zona sul de São Paulo vai ter o Morumbi e vai ter o Capão Redondo, então ele vai ter a periferia e vai ter o bairro enorme dentro de uma zona, do mesmo jeito que a Zona Oeste vai ter Higienópolis e vai ter a Penha, vai ter a Freguesia do Ó, vai ter a periferia, a comunidade, a zona gentrificada dentro de uma zona da cidade, que é uma experiência que o Rio não tem, uma experiência que nenhuma outra cidade do Brasil tem, de ter esses blocos, então por isso que a percepção de que o São Paulo é um pouco mais diverso, porque de fato são quase múltiplas cidades grudadas uma na outra, o Rio é mais simples porque ela é menor, então acho que é uma percepção.

A segunda questão é, São Paulo teve um programa muito importante, que a SPCine liderou, de criação de cinemas populares, mas ela conseguiu fazer isso porque São Paulo tinha uma rede de centros de educação, que era o CEUs, Centros Educacionais Unificados, que foram criados na gestão da Marta (Suplicy), que eram equipamentos de educação que tinham anfiteatros dentro, então ele tinha uma base física espalhada pela cidade, onde o projeto de cinemas veio se somar a essa infraestrutura física.

Foram construídos salas de cinema, foram inseridos salas de cinema dentro de um equipamento que já tinha anfiteatro, piscina, que era quase um clube colocado nas periferias da cidade, então tinha um caldo que permitiu isso, Rio de Janeiro não tem essa infraestrutura, então para a gente fazer esses movimentos é muito mais difícil, a gente tem que encontrar terrenos públicos, a gente tem que construir o cinema ali, que foi o que a gente fez no Alemão, por exemplo, e daí tem que equipar e manter, então é um processo muito mais difícil, muito mais lento de criação de salas de cinema.

Mas eu acho possível, são modelos que a gente tem que estudar, que a gente tem que entender a viabilidade, e de novo, não basta construir, São Paulo conseguiu, como a gente consegue no Alemão, eles conseguiram construir as salas, depois licitar a operação dessas salas numa modelagem onde essas salas são sustentáveis.

Então hoje tem um operador privado que opera essas salas de cinema na periferia com ingressos populares, numa equação de subsídio que torna aquilo sustentável como a gente faz no (Complexo) do Alemão, para a gente são um pouco mais complicados que isso, a gente tem que encontrar espaços públicos em zonas de favela, zonas de comunidade, que não é tão simples assim de fazer, os CEUs realmente foram um adianto.” (Maurício)

ENTRADA DO ATUAL CINE SALA IMAGEM DO AUTOR, SP, 2024

Cineclubes: Faça você mesmo!

Uma alternativa independente que existe e resiste há décadas.

“Eu sou da geração digital, né? Que é uma época que é de projetor digital, câmera digital, programas digitais, eu não sou da época da película, porque a película era um momento que era um cinema mais caro, entendeu? Então pra fazer um filme de película você tinha que ter grana. O digital democratizou, entendeu? Eu vivi o boom do cineclube dos anos

2000 Teve um momento, o cineclube esteve muito forte nos anos 60 e70 por causa da ditadura, né? Depois ele deu uma parada, em 2000 ele volta com tudo Mas uma nova geração de cineclubistas começaram a fazer eventos.” (Cavi)

“O movimento que eu acho que é mais interessante são os cineclubes virtuais São grupos de amigos que se reúnem virtualmente para ver um filme em sincronismo entre eles, e depois eles se batem papo entre si. Quantos fazem isso? Milhares, se não milhões ao redor do mundo. a partir do Facebook tinha isso, mas sobretudo no TikTok eles conversam, marquem e fazem. Tem biscoitinho, tem bebidinha, tem isso aqui, eventualmente até surge lá um namoro virtual Isso não tinha no século XX, no século XXI. Isso é melhor ou pior? Não, é só diferente.

O que é que há de importante aí? Continua se conversando, continua se promovendo algum tipo de encontro social, não é mais físico, mas o que é que precisa ser estritamente físico?” (Hernani)

“Acho que a pandemia criou esses cineclubes online também, que foi forte Mas se você olhar bem, cara, tem muitos cineclubes, tem muitos lugares fazendo exibições, alternativas, principalmente lugares que não tem cinema, porque hoje em dia tem muita pouca sala de cinema de rua, né? Aqui no Estação tem três cineclubes rolando hoje em dia. O Atlântico Negro, do Clementino (Junior), que é só com temática de cinema negro Tem o Cineclube Futuro, que é de um pessoal mais velho, mais politizado, então são filmes mais de esquerda, mais sobre política E tem o Cineclube da Gabi, que é o Cineclube Curta Noite, que é mais de cinema experimental, assim, de filme de arte. Então o Estação, ele apoia cineclube, mas se você olhar por aí, tem muitos, cara, muitos cineclube rolando. No MAM, na Lapa, Beth Formaggini tá fazendo um cineclube lá na casa da Marielle, eu acho Tem vários rolando, assim ” (Cavi)

“O Cine Santa começou como um cine clube, ali na igreja anglicana, bem próximo de onde é hoje o Cine Santa. E a gente tinha necessidade de um passo, porque nós tínhamos o projeto pronto, né? Um projeto premiado, o Cine Santa Teresa, enquanto projeto dentro da ONG em que eu participei para desenvolver esse projeto, né?

Então, era muito interessante porque a gente colocava a tela, que era uma tela enorme, muito maior do que a tela que é o Cine Santa hoje, no altar da igreja, não tinha essa ideia de que o Cine Clube acontecia no anexo, no salão de festas, no salão paroquial, não, era no altar, as pessoas sentadas no banco da igreja e a cada sessão, que era todo domingo, a igreja abria a sessão, né? E recebia ali os cinéfilos, né?

Então, foi muito bacana, a gente exibiu ali muitos clássicos, muitos cults e filmes importantíssimos brasileiros e estrangeiros, a gente exibiu o Pasolini, a gente exibiu o Glauber Rocha, a gente colocava uma faixa bem ali na grade da igreja para divulgar qual filme seria da semana.

A gente trocava toda semana o nome do filme, então assim, a gente teve faixas icônicas, tipo Deus e o Diabo na Terra do Sol, vários filmes, tipo você exibir um Pasolini na igreja, é um negócio muito transgressor, né?

E exibimos vários, muitos clássicos e também fizemos muitas sessões com debates, com os diretores, eu lembro que o Walter Carvalho veio exibir, eu não lembro qual foi o filme, e ele, convidamos ele para vir falar um pouco sobre o filme, e ele chegou, e ele veio, e quando ele chegou e viu o filme exibido no altar da igreja, ele ficou de queixo caído, e ele falou, “eu nunca vivi essa experiência, já fui a algumas igrejas que faziam cineclube, mas era sempre num anexo, sempre nessa história de uma sala e nunca no altar da igreja, eu nunca vi um altar virar cinema”. (Fernanda)

Cineclubes: Faça você mesmo!

O ChaplinClub foi um cineclube carioca pioneiro, que surgiu em 1928.

“O Cine Santa, ele tinha esse nomadismo, sim, mas foi puramente por necessidade, sabe, porque nós não tínhamos o espaço, né, e tínhamos muita força, muita gana, muita vontade de que isso acontecesse, e então a gente buscava, né, durante um tempo a gente precisava de algum dinheiro, isso é uma verdade também, a gente estava passando por uma crise na nossa vida particular, então a gente tinha que entrar algum dinheirinho, e aí a gente teve, foi tendo ideias, né? Então, essa ideia dos bares, por exemplo, foi muito bacana, porque já tava ali naquela nossa missão, né, de empreender e afetar a estrutura econômica do bairro, então a gente teve essa ideia de buscar uns bares do bairro ali, do entorno, e que nós exibiríamos os filmes que tinham a ver com o bairro, então nós tínhamos o Sobrenatural, que era um restaurante de frutos do mar, então nós exibimos filmes sobre mar, com o tema do mar, e bacana, aí tinha o Mineiro, o Bar do Mineiro, nós exibimos filmes de diretores mineiros, na época nós tínhamos o restaurante japonês, nós exibimos filmes japoneses, e aí foi, era uma necessidade, tinha um couvert, se eu não me engano.

Sempre vai acontecer um movimento, porque isso está inerente à juventude, e tem sempre jovem, graças a Deus, então eu acho que a qualquer momento vai surgir um cine clube, vai surgir aqui um movimento de uma roda de conversa, e debate, e filme, porque isso faz parte do movimento do que você precisa colocar de identidade sua no seu território.

E a gente está sempre ali à disposição, vira e mexe, alguém nos procura querendo propor uma coisa ou outra coisa, hoje como a gente é uma sala comercial, com todos os registros que são obrigatórios de regulamentação, é mais difícil para a gente atender essa demanda, ou vislumbrar, fazer um revival, porque a regulamentação é exatamente isso, ela te poda muito, tudo tem que estar muito enquadrado, os dados tem que estar muito divididos com a regulamentação, da Ancine, dos órgãos que fazem todo o quantitativo mundial dos filmes, né?

Você tem que mandar os seus dados diariamente para vários órgãos, os oficiais e até os que são diretamente do mercado, então são leis que você segue, então é mais difícil, mas é muito bacana, eu acho que o cineclubismo por exemplo, as iniciativas ousadas de você ter ideias e executá-las, isso é importantíssimo para uma sociedade

Você vê nós aqui no bairro, (Santa Teresa) sempre foi um bairro cultural, antes da gente teve cineclube, um cineclube bem importante inclusive, que acontecia, eu não morava aqui, mas uma galera mais da antiga fazia um cineclube, e isso é importante porque esse tipo de iniciativa sempre produz pensamento, produz ações, produz coletivos, e é aqui que parte sempre as mudanças, e claro o cinema em si, como o equipamento que existe hoje, também produz mudanças, eu não tenho dúvida como o cinema tem essa força, mas o cineclubismo já traz em si essa carga. Você não vai fazer um cineclube para passar um filme sem nenhuma mensagem, você vai escolher aquilo que vai promover um pensamento crítico, então é isso.” (Fernanda)

FACHADA DO ANTIGO CINE ART PALÁCIO TIJUCA. FECHADO EM 1999. IMAGEM DO AUTOR 2024

O espaço sempre haverá.

Segundo o livro “Palácios e Poeiras”, o Rio já contou com mais de 700 salas.

“A maior dificuldade do trabalho cultural para mim é você atingir todos os segmentos sociais. Um dos meus desejos, que sempre foi difícil, quase impossível de realizar, é interiorizar o trabalho da Cinemateca, interiorizar no sentido subúrbio da cidade de Rio de Janeiro e interiorizar no sentido do estado de Rio de Janeiro A gente vem tentando fazer convênios, estabelecemos alguns, por exemplo, temos um convênio com a prefeitura de Caxias na Baixada Fluminense, mas é muito difícil fazer isso, porque nem nós às vezes temos condição, somos uma equipe muito pequena para ficar viajando por aí, fazendo todo esse trabalho. Às vezes os próprios grupos locais também têm a mesma dificuldade, de se deslocar para a cidade de Rio de Janeiro e fazer esse trabalho. Mas eu acho fundamental e acho que um desafio futuro para a Cinemateca é fazer essa interiorização, porque é isso, a missão é levar essa informação cultural a todos os cantos e a todas as pessoas.” (Hernani)

“O espaço sempre haverá, porque você pode não ter mais um público de milhões e milhões de pessoas querendo ver filmes dessa maneira, mas você pode ter centenas de pessoas querendo ver filmes dessas maneiras. É uma equação difícil porque às vezes você vai gastar dinheiro para preservar um prédio que tem dois mil lugares e você não consegue botar 100 pessoas para assistir um filme ali dentro. Existem algumas razões pelas quais você deve preservar alguns cinemas de rua

Em primeiro lugar, dizer que aquela forma histórica existiu e proporcionar ao sujeito das novas gerações a possibilidade de entender como é que era aquilo Se eu posso ir a pirâmide que tem 5 mil anos, por que eu não posso ir a uma sala de cinema do século XX que tem 50, 70, 100 anos? E entender como é que era aquilo E ter a experiência daquilo concretamente. Segundo motivo é o motivo mais de valor artístico que é a arquitetura das salas. Alguns prédios são arquitetonicamente significativos Então você vai preservar aquele espaço não só pelo espetáculo, mas também por sua arquitetura.

Terceiro lugar, por ser uma forma cinematográfica muito específica. Você ver o filme, por exemplo, em película Você ver o filme numa tela de 100 metros

Você ver o filme numa tela curva, etc. Ou seja, você ver nas formas tecnológicas que existiam em determinado momento do século XX, é também você entender o verdadeiro impacto daquela obra de arte.

Quando é que você compreende a Monalisa? Só quando você tá diante dela. Se você vai ver a Monalisa num livro, num xerox, não é a Monalisa É um referente da Monalisa, mas não é a Monalisa em toda sua inteireza, complexidade, impacto, etc. Se vale para a Monalisa, vale para qualquer filme Só que os filmes, sobretudo da era da película, da era fotoquímica, eles estão intrinsecamente ligados a esse espaço que a gente chama de sala de cinema de rua Sem esse espaço, esses filmes não têm um impacto total que eles estiverem lá na sua origem, você não compreende exatamente como isso se dá ” (Hernani)

“É muito difícil ter um cinema pra passar filme brasileiro, eu poder trabalhar num lugar que passa pra mim é ótimo, porque eu faço e consigo exibir aqui Então está sendo uma situação muito boa pra mim, assim. Essa parceria está sendo muito rica pro Estação e pra mim também E me aproveitar disso de uma forma positiva, ajudar o Estação e também ser ajudado pelo Estação. Mas eu quero poder fazer mais eventos, mais mostras, poder divulgar mais o cinema brasileiro, homenagear mais nossos mestres, poder exibir meus filmes, poder ir pra Cannes com meus filmes se der, poder ganhar dinheiro com cinema, que é tão difícil ganhar dinheiro com cinema, viver de cinema no Brasil, é muito difícil. E o Estação está me possibilitando isso. A lojinha, lançando meus filmes aqui Então é uma parceria rica e o meu sonho é continuar vivendo de cinema, conseguir viver, pagar minhas contas e fazendo cinema.” (Cavi)

MAPA DOS ESPAÇOS DE EXIBIÇÃO

A CIDADE DO RIO DE JANEIRO CONTOU COM CENTENAS DE ESPAÇOS DE CINEMA NA SUA HISTÓRIA MUITOS HOJE RESISTEM E MUITOS ESTÃO FECHADOS MUITOS ESPAÇOS

MARCARAM HISTÓRIA POR SUA ARQUITETURA, SEU PÚBLICO, SUA LOCALIDADE, SUA DISTRIBUIDORA, SUA INFRAESTRUTURA, ETC

TIVEMOS CINELÂNDIAS NO CENTRO, NA TIJUCA E NA ZONA DA LEOPOLDINA. TIVEMOS CINEMAS EM PARÓQUIAS, PRÉDIOS, GALERIAS, SHOPPINGS, TEATROS, PARQUES, PRAÇAS, DRIVE-INS, ETC. TIVEMOS MUITOS ESPAÇOS ICÔNICOS, QUE MARCARAM VIDAS AO LONGO DAS DÉCADAS.

O “RIO: POEIRA-PALÁCIO” AGRADECE A SUA LEITURA E TE CONVIDA A CONHECER, PASSEAR E RELEMBRAR ESSES ESPAÇOS A IMAGEM ACIMA CONTÉM UM HYPERLINK CLIQUE E SE DIVIRTA!

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