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Cultcom #3

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cultcom +JAZZ FUNK

HQ DE ORIXÁS CASARÃO DAS ARTES UNDERGROUND LGBTI PROFISSÃO GAMER MODA ANOS 1980 NU MASCULINO

distribuição gratuita

REVISTA LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNG

#3 maio 2019

OLHARES

Nossos colunistas falam sobre Netflix, mulheres no Masp, arte no Metrô e a crise das livrarias

MYRA RUIZ

ESTRELA DOS LÁZARO RAMOS MUSICAIS Revelação da ‘Broadway’ paulistana, atriz se detaca pela versatilidade em papéis que vão do pop ao clássico, e se prepara para brilhar além dos palcos

E ainda a funkeira travesti MULHER PEPITA e o muralista EDUARDO KOBRA


O QUE AS AGÊNCIAS YOUNG & RUBICAM | JWT | DPZ&T RÁI | FULLJAZZ | TV1 | WUNDERMAN RAPP | GREY | EUGÊNIO MOHALLEM TÊM EM COMUM? TODAS CONTRATARAM ALUNOS DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA DA UNG. FAÇA PARTE DO CLUBE DE PUBLICITÁRIOS VENCEDORES! FAÇA UNG!


índice | 3

fala, jornalista!

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bastidores | expediente

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dança

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jazz funk

quadrinhos

conto dos orixás

8

cinema 10

casarão das artes

música 12

cena underground lgbti

olhares 14

diferentões da netflix mulheres no masp artistas de metrô crise das livrarias

games 18

jogadores profissionais

teatro 20

espetáculos musicais

música 22

mulher pepita

artes plásticas 26 eduardo kobra

capa 30

myra ruiz

moda 36

anos 1980

galeria 40

nu masculino

100 95 75

25 5 0

Xangô é um super-herói na história em quadrinhos “Conto dos Orixás”, criada pelo quadrinista baiano Hugo Canuto


4 | fala, jornalista!

saravá, leitores! As luzes se apagaram. Aqueles acordes de violinos e violoncelos subindo o tom aos poucos, junto com a voz do barítono em “The Music of The Night”. Aquele cenário grandioso e os figurinos de sonho me tomaram de uma emoção arrebatadora, irresistível. Era uma cena sinistra e doce (como pode?) que pinçaram lá de dentro da minha alma o choro incontido de quem se emocionava pela primeira vez em um musical da Broadway. O enorme “mico” que paguei na exibição de “O Fantasma da Ópera” faz 22 anos, mais ou menos o mesmo tempo em que começaram a ser encenados em São Paulo os primeiros espetáculos teatrais musicais do gênero – hoje um setor que movimenta milhões em bilheteria, aquece a economia e emprega centenas de pessoas, integrantes de uma extensa cadeia produtiva. Esta edição da Cultcom traz o tema em duas reportagens – uma delas, a de capa – e nos conta sobre jovens talentos que despontam nesta indústria artística. Abrimos também espaço para contar sobre a luta da cidade de Arujá para incentivar as artes no município e na região do Alto Tietê, principalmente o cinema. Mas não são os únicos a nadarem contra a maré. Vamos conhecer também a funkeira travesti Mulher Pepita, que vem quebrando tabus desde que virou febre nas redes sociais. Como diria Marisa Monte, “nós que passamos apressados pelas ruas da cidade, merecemos ler as letras e palavras de Gentileza”. Mas merecemos também as vivas cores do muralista Eduardo Kobra, tatuadas no concreto urbano da metrópole. Do picho até chegar aos murais, a trajetória do artista brasileiro, cujos trabalhos fazem sucesso também no exterior, é tema de uma reportagem especial. E não é de hoje que os orixás são inspiração estética para a cultura no Brasil. O que dizer das telas de Djanira e Caribé? Na música, tantas canções: “Dorival Caymi falou para Oxum”; “Xangô me mandou lhe dizer, se é canto de Ossanha, não vá! Que muito vai se arrepender”; “Oloxum, Inae, Janaina, Iemanjá, são rainhas do mar”. Os deuses das religiões de matriz afro, tão presentes no imaginário nacional, agora são super-heróis em quadrinhos. Então, já que entre os valores editoriais precípuos da Cultcom estão a liberdade de expressão, de culto e a diversidade, sob as bênçãos de Oxossi (orixá da caça e das artes), saudamos os leitores: Saravá! c

PROF. ME. FLÁVIA DELGADO

coordenadora dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Fotografia da Universidade Guarulhos (UNG) maio 2019 | cultcom


bastidores | expediente | 5

Universidade Guarulhos

EXPERIÊNCIA MARCANTE

O repórter Gustavo Batista entrevistou a atriz Myra Ruiz para a capa desta edição. Nas redes sociais, o aluno de Jornalismo da UNG postou: “Tive uma das melhores experiências da minha vida. Entrevistei uma atriz com uma história impressionante. Myra é uma grande estrela e uma pessoa maravilhosa. Obrigado jornalismo por me proporcionar essa oportunidade”. Veja na página 30.

mantenedor Ser Educacional reitor Prof. Dr. Eloi Lago diretora adjunta dos cursos de ciências humanas e sociais Prof. Dra. Miriam Bevilacqua coordenadora dos cursos de jornalismo, publicidade e propaganda e fotografia Prof. Me. Flávia Delgado

cultcom editor Prof. Esp. Alex Francisco chefe de reportagem Mayara Nascimento redação Aline Bernardo, Aquiles Marchel Argolo, Audrey Costa, Barbara Medeiros, Beatriz Yukimitsu, Bruno Oliveira, Cleiton Silva, Carol Ferreira, Carolina Ribeiro, Cristiane Feitosa, Daiane Crema, Denis Maciel, Elias Macedo, Gustavo Batista, Hermes Henrique, Igor Souza, Junior Coneglian, Karoline Alves, Larissa Cerqueira, Larissa Queiroz, Laura Dantas, Mariana Nogueira, Mayara Nascimento, Queren Ruama, Thiago Apelbaum, Valéria Campello e Vitória Santiago

TEM ILUSTRADOR NA ÁREA

O aluno do curso de Design da UNG Matheu Deiró assina as ilustrações criadas com exclusividade para a seção “Olhares”. Em seu perfil no Instagram, o “amante de pombos” publica “uns desenhos chave” do que lhe dá vontade. Veja na página 14.

JORNALISMO E MUSICAL NA VEIA

Quem vê o repórter Jean Leme pelos corredores da universidade nem imagina que ele é apaixonado por teatro musical e tem se preparado para estar nos palcos. É dele a reportagem sobre o gênero, que tem cada vez mais plateia no Brasil. Veja na página 20.

GENTE FASHION

Além de posar para esta edição, Gux Woop também cuidou do cabelo e da maquiagem do editorial de moda. Inspirados nos looks dos anos 1980, os alunos de jornalismo Junior Coneglian e Larrisa Cerqueira formaram uma boa dupla no quesito produção e estilo. Veja na página 36.

Confira todas as edições da Cultcom em issuu.com/jornalismoung

ilustrações “Olhares” Matheus Deiró revisão Prof. Me. Lislei Carrilo anúncios Prof. Esp. Fábio Martins projeto gráfico e diagramação Prof. Esp. Alex Francisco endereço UNG Campus Centro Praça Tereza Cristina, 88 Centro, Guarulhos - SP CEP: 07115-280 www.ung.br Instagram: @ecos_ung Facebook: @UnGECOS data maio de 2019 número 03 tiragem 1.000 exemplares Cultcom é uma produção acadêmica desenvolvida na disciplina de “Tópicos Integradores III” pelos alunos do 7º semestre de Jornalismo da Universidade Guarulhos (UNG), sob a supervisão do Prof. Esp. Alex Francisco. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião da Universidade Guarulhos.


6 | dança

A bailarina Malu Braga Diascanio (no centro) durante uma aula de jazz funk

foto divulgação

No ritmo da batida Usada por divas da música, coreografia do jazz funk é uma junção dos ritmos urbanos com o gingado clássico por Vitória Santiago

O jazz funk nasceu da combinação do ritmo clássico com a dança de rua, ou seja, é a união do jazz com linguagens urbanas, principalmente com o hip-hop. Tal mistura exige que o dançarino tenha atitude, energia e, claro, muito carão. As primeiras manifestações do jazz funk foram no início dos anos 2000. Muitas pessoas começaram a reproduzir as coreografias, mas foi com a proliferação de vídeos na web que os profissionais da dança começaram a investir no estilo, e isso lotou as academias. A modalidade se potencializou inspirada nas coreografias dos clipes de divas da música pop, como Beyoncé, Lady Gaga, Madonna e Britney Spears. Além de um reflexo do empoderamento feminino, jazz funk exige da dançarina “pegada” e presença de cena, já que traz uma atitude de liberdade da mulher. A bailarina Malu Braga Diascanio, 23 anos, participa de clipes musicais, além de eventos publicitários. Começou a dar aulas aos 18 anos, quando substituiu uma professora de jazz. Ela

conheceu o jazz funk em 2016, em um evento de danças urbanas no Rio de Janeiro (RJ), onde esteve com a coreógrafa da Beyoncé, a renomada bailarina Sheryl Murakami. “Fiquei apaixonada pela energia da aula e, depois disso, comecei a me envolver em tudo relacionado aquele tipo de dança”, lembra. Segundo Malu, embora o jazz funk seja uma modalidade recente, tem comunicação contínua com o street dance e traz para os que praticam uma maior consciência corporal e presença cênica, além de trabalhar a memória. “O jazz funk traz diversos benefícios, como a melhora da autoestima e o autoconhecimento, além de trabalhar a musculatura das pernas e dos braços”, explica. Muito treino, prática, disciplina e trabalho árduo são alguns dos pré-requesitos para quem deseja praticar o jazz funk. O estudante Kenedy Henrique Silva, 23 anos, faz aulas o ritmo há três anos e já percebeu um aumento no seu desempenho, além de melhoras na coordenação motora. “Ao praticar esse maio 2019 | cultcom


dança | 7

estilo, ao longo dos anos, minha performance dentro da dança cresceu muito”. O dançarino Ruan de Oliveira Trindade, 19 anos, pratica a modalidade há um ano e, desde então, atingiu uma expansão de movimentos maiores, teve que se portar de uma maneira diferente dentro da dança e passou a ter uma postura mais delicada, que o fez sair de sua zona de conforto, que eram as danças urbanas. “O ritmo traz a ideia da diversificação dos passos e movimentos que promovem uma liberdade maior em cima do palco. Por isso, diversos artistas nacionais e internacionais apostam nele em suas performances”, conta. Nomes da música como Little Mix, Khelani, Pablo Vittar, Glória Grove e Anitta também usam o jazz funk em suas turnês, o que ajudou a popularizar o ritmo. Assim, as escolas e academias de dança começaram a mergulhar de maneira mais intensa nas técnicas e coreografias, e a apostar em hits do momento para trabalhar a modalidade com seus alunos. “É preciso divulgar cada vez mais o estilo e quebrar as barreiras que ainda existem em relação as danças urbanas em escolas de balé”, comenta a professora Malu. “As principais escolas de dança ainda têm preconceito com as modalidades vindas da rua, por não se aproximarem dos estilos clássicos e quebrar padrões, mas acredito que é possível mudar essa cultura e oferecer mais opções ao aluno”. c

Entre no ritmo do jazz funk Selecionamos as músicas que não podem faltar na playlist de quem quer gingar ao som do ritmo

1. A bailarina Malu Braga Diascanio (à esq.) com a coreógrafa da Beyoncé, Sheryl Murakami, em Nova York (EUA) 2. O dançarino Ruan de Oliveira Andrade, que pratica o jazz funk há um ano

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“Whine Up”, de Kat Deluna

“Woman Like Me”, de Little Mix feat. Nicki Minaj

“Love Language”, de Kehlani

“Put The Needle On It”, de Dannii Minogue


8 | quadrinhos

Os deuses da cultura afro na cena criada para a HQ “Conto dos Orixás”

Orixás em ação Quadrinista baiano Hugo Canuto lança HQs que mostram deuses das religiões de matriz afro como super-heróis por Denis Maciel

O quadrinista baiano Hugo Canuto é o nome por trás de “Contos dos Orixás” (2018), história em quadrinhos que transforma deuses da cultura afro em super-heróis. Ele precisou de dois anos de pesquisa sobre a cultura iorubá, visitas em terreiros de candomblé e conversas com líderes religiosos para ter a certeza de que era respeitoso mostrar as divindades dessa maneira. De uma mãe de santo, Canuto escutou: “meu filho, faça, e quando ficar pronto traga um para a gente”. “Aquilo me deu serenidade para começar o trabalho, pois tenho uma relação artista e intelectual com a língua iorubá”, comenta. A pesquisa foi importante para transformar em imagens os costumes, tradições, vestimentas e a geografia africana, que são fielmente demonstradas na HQ. O estudo dos orixás também permitiu que, na história, todos fossem representados por seu modo de ser. Nas páginas, Exu é cheio de energia e alegria, Ogum é feroz, e até a relação entre Xangô e Ogum, ao mesmo tempo rivais e amigos que lutam juntos contra

o inimigo Ajantala, é descrita tal qual a mitologia. Xangô é o herói principal de “Conto dos Orixás”. “Ele é a entidade com mais histórias: foi um rei que existiu e tem um ‘pézinho’ no contexto histórico”, explica Canuto. Segundo artista, a não aceitação da cultura africana e das religiões de matriz afro no Brasil foi uma das dificuldades para lançar a HQ. “É quase uma falta de amor próprio. É como olhar algo da sua própria cultura, que formou o seu país, e não valorizar isso”, diz. O quadrinista afirma que quando fez a primeira arte do projeto em 2016, o objetivo já era trazer os orixás como super-heróis. “Era uma tentativa despretensiosa de mudar o discurso que está sendo feito, o discurso da opressão, e do racismo religioso”, lembra. Pelo mundo, o trabalho de Canuto ganhou reportagens na CNN e na Global Voices, que mostraram a proximidade de seu estilo de desenho com as obras da consagrada Marvel, em específico o volume “Os Vingadores”. “O que me deixa mais feliz nesse trabalho, maio 2019 | cultcom


fotos divulgação

quadrinhos | 9

O baiano Hugo Canuto mostra Xangô, o principal herói de suas histórias

depois de tanto tempo de caminhada, é que nós conseguimos atingir públicos muito diferentes. Existem leitores do candomblé, da umbanda, que nunca leram quadrinhos, mas se interessaram, assim como leitores de quadrinhos que nunca tiveram contato com nada da cultura e da história afro e que começaram a se interessar”, conta o desenhista. Na exposição “Axé Bahia – The Power of Art in na Afro-Brazilian Metropolis” (2017), apresentada no Fowler Museum, na UCLA, Califórnia (EUA), uma série de 17 ilustrações de orixás criada por Canuto, ganharam espaço. O quadrinista é um grande fã de Jack Kirby, que foi desenhista e editor da Marvel. “Gosto de ‘Eternos’, ‘Thor’, enfim, de todos que têm um ‘pé’ na mitologia”, finaliza. c

“The Orixas” é a versão americana de “Conto dos Orixás”

Conheça outras HQs nacionais Diversidade cultural ganha as páginas dos quadrinhos

“Holandeses” (2017), de André Toral, mostra dois irmãos que buscam uma vida melhor no Brasil, na era colonial. “Silas” (2017), de Rapha Pinheiro, tem vilão com uma doença crônica e que usa um traje especial. “Angola Janga” (2017), de Marcelo D’Salete, mostra a vida de Zumbi dos Palmares no Brasil Colônia. “Mensur” (2017), de Rafael Coutinho, narra a vida de um estrangeiro que pratica esgrima. “A Infância no Brasil” (205), de José Aguiar, reflete sobre as contradições e dificuldades de ser criança no Brasil.


10 | cinema Bastidores da gravação de um curta-metragem no Casarão das Artes

Arujá, câmera, ação!

foto divulgação

Casarão das Artes movimenta a cena cultural do Alto Tietê e investe na capacitação para o cinema nacional por Carol Ferreira e Cristiane Feitosa

Localizada a 41 km da capital paulista e distante dos grandes polos culturais, Arujá, embora deslumbre um dos mais altos índices de desenvolvimento sócio econômico e crescimento populacional da região do Alto Tietê, não possui canais importantes de acesso à arte, como salas de cinema, teatros e museus. Em contrapartida, a cidade tem centros culturais mantidos pela Secretaria Municipal de Cultura, como o Casarão das Artes, que oferece cursos e oficinas de fotografia, teatro e produção audiovisual, além de exibição de filmes e documentários. O espaço já foi palco de diversos projetos, como os curtas “Tião Aviador” (2013), “Coda” (2014), “AchoAgora” (2015) e “Filoctetes” (2016). As obras foram produzidas e filmadas por alunos do Casarão sob a supervisão dos professores Marcelo Spomberg, Marcelo Costa, Joana Blumenscheinn e Rodolfo Valente. Para Helder Martinez, ator e diretor de “Filoctetes”, criar, roteirizar e produzir o curta foi um processo desafiador. “A ideia do filme foi baseada na tragédia Grega ‘Filoctetes’, de

Sófocles, que trata de um arqueiro do exército grego que, ao ser mordido por uma cobra, é abandonado em uma ilha durante a guerra de Tróia. O curta faz uma releitura da loucura enfurecida do personagem”, comenta. Segundo Martinez, embora os atores selecionados já fossem alunos orientados por professores de atuação e fotografia, a experiência com cinema foi inédita para todos, e as adequações perante as demandas técnicas e recursos de produção, diferentes do teatro, aos quais estavam habituados, tornaram o processo um intenso aprendizado. Dificuldades com equipamentos de filmagens, locação para o set de gravação, figurinos e iluminação, fizeram parte da execução de “Filoctetes”, que durou pouco mais de um ano. “Eu pretendia realizar essa obra teatralmente no futuro. Porém, quando se sai do teatro e vai para frente das câmeras, dirigindo, atuando e produzindo, e ainda se deparando com limitação de verbas, é complicado. A produção cinematográfica é cara e exigente”, diz Martinez. Mesmo com o espaço de gravação maio 2019 | cultcom


cinema | 11

cedido pela Prefeitura, o teatro e algumas salas da Escola Livre de Música Edmundo Ramos Barbosa, todo o restante, equipamentos, figurino, maquiagem, entre outros, foram conseguidos por meio de ações voluntárias dos participantes do filme, seus parentes, comerciantes locais e pessoas envolvidas com projetos culturais da cidade, além de voluntários na produção e edição. Segundo a assessora de Cultura de Arujá, Jurema do Carmo Teresa, o Casarão das Artes é um polo em constante processo de evolução, embora haja desafios para manter a unidade de portas abertas. “Tudo depende das verbas municipais ou de processos burocráticos. A cultura carece de investimentos mais significativos. No entanto, Arujá possui uma característica especial que é o apoio e colaboração dos artistas e professores de arte locais. Esta corrente mantém o Casarão produtivo”, diz. Seguundo a assessora, o programa de exibição de filmes no telão do Casarão reuniu cerca de 6 mil crianças, em 2018, que assistiram a projeção de produções nacionais. E quatro novos filmes foram produzidos e finalizados por alunos do projeto. c 2

fotos divulgação

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1. Projeto exibe filmes e atende a demanda da cidade, que não tem sala de cinema 2. Fachada do Casarão das Artes, que oferece cursos de teatro e audiovisual 3. O ator e diretor Helder Martinez

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fotos Juliana Marotta e Renata Vila Nova

12 | música

Nas duas imagens, a guitarrista Karine Campanille, mulher trans que lidera a banda Mau Sangue

Cantar para resistir Bandas alternativas apostam no som que fala da causa LGBTI e ganham fãs mesmo fora da grande mídia por Mariana Nogueira

A cena musical underground é formada por artistas que não se encontram na grande mídia, e que raramente tem espaço nas programações das emissoras de rádio e TV. Mesmo sem divulgação massiva, no meio independente é possível encontrar artistas com potencial acima da média e que resistem por décadas sem nunca serem reconhecidos pelo mainstream. Esses artistas ganham fãs não só pela qualidade do som que produzem, mas também por usar a música como instrumento para mandarem seu recado, por serem ativistas. As questões do público LGBTI também estão na pauta das bandas undergrounds. A temática, que já era comum no rock com representantes como Renato Russo (1960-1996) e Cazuza (1958-1990), também está na vertente punk / hardcore, e tem ganhado adeptos que, além de curtir o som pesado, se identificam com a causa gay. Karine Campanille, 39 anos, é uma mulher trans que se interessou pela música ainda na adolescência, nos anos 1990. “Na época, conhecer bandas era algo limitado a ouvir rádio, pegar discos ou fitas emprestadas e fazer grava-

ções caseiras. Quem não podia pagar por aulas, que era meu caso, aprendia a tocar sozinho”, lembra. Atualmente, Karine tem projetos musicais em quatro bandas: Mau Sangue (guitarra e vocal), Kultist (baixo e backing vocal), Messias Empalado (teclado e backing vocal) e Post Mortem (bateria), todas abordando temas sociopolíticos, feministas e LGBTI. “As questões que me inquietam também me inspiram a criar música. Foi a forma que encontrei para ocupar minha mente ao máximo possível e não me auto-sabotar”, diz. “Eu ficaria feliz se as letras das músicas despertassem curiosidade nas pessoas para irem atrás de certos assuntos e que tivessem impacto”. A atual cena underground de São Paulo conta com eventos no estilo punk/hardcore que, embora incentive a liberdade em diversos âmbitos, tem um público heterossexual ainda predominante em shows. “Quantos rolês que frequentamos que vemos pessoas LGBTI? Eu, particularmente, vejo em poucos e por muito tempo não me sentia bem em rolês que são predominantemente héteros. Não me sentia acolhida, maio 2019 | cultcom


nem segura”, comenta Karina. Segundo o vocalista da banda curitibana, Teu Pai Já Sabe?, Carlos Alberto Tostes, o Mamá, o movimento independente cresceu muito nos últimos anos, tanto com pautas e membros LGBTI, como em bandas formadas por mulheres e com temas feministas. A Teu Pai Já Sabe? toca queercore, um movimento cultural e social que teve início em meados dos anos 1980, como uma ramificação do movimento punk e com fortes elementos de militância gay. “Tivemos uma receptividade muito grande quando começamos. Não só do público de Curitiba, mas público LGBTI de outros estados que gostam de punk e hardcore”, diz Mamá. “Antes, as pessoas se escondiam. Tudo era um tabu dentro do punk. Hoje tem muita representatividade, eventos, coletivos, muita gente mostrando a cara”. O underground não necessariamente é apenas sobre bandas punks. Há cena independente em vários outros estilos ligados ou não ao rock and roll. O movimento headbanger, por exemplo, é ligada ao heavy metal, e é bem mais fechada em relação às causas LGBTI. O fotógrafo Guilherme Lisboa, 27 anos, frequentou a cena heavy metal na adolescência e, mesmo havendo pessoas gays no grupo, sentiu que a abertura era (e ainda é) menor para homossexuais. “Já adulto, comecei a frequentar a cena emo/shoegaze. Nesse círculo, vi uma abertura maior ao público gay, e com frequência encontro essa galera dentro das bandas e no público em geral”, conta ele, que sente falta de eventos com artistas independentes voltados para o público LGBTI. “Já notei que eles atraem o público, que sempre está disposto a debater, curtir as músicas e compartilhar os mesmos gostos. Existem diversas bandas com membros gays, e o que falta é uma união dessa turma em uma boa festa”, finaliza. c

fotos divulgação

música | 13

Nas duas imagens, apresentações da banda curitibana de queercore Teu Pai Já Sabe?


14 | olhares | on demand

Não tão diferentes assim

Personagens de produções da Netflix parecem únicos, mas são comuns como na vida real

O

por Mayara Nascimento

Aproveite essa ilustra e desafie alguém a dizer o nome desses personagens.

filme “Felicidade por um Fio” (2018), indicado por uma amiga que se sentiu representada em uma fase de sua vida, me fez perceber que a Netflix está abordando assuntos atuais, muitas vezes polêmicos, e com personagens da vida real. A produção conta a história de uma mulher negra que sofre a pressão do padrão de beleza e alisa os cabelos antes mesmo de se levantar da cama. Cansada de se privar de coisas simples da vida, como entrar na piscina no verão, ela decide raspar o cabelo e começar uma transição

capilar, deixando os fios afros naturais crescerem. Além do papel principal ser interpretado por uma mulher negra, a representatividade aumenta quando se trata de assumir os cabelos naturais, tema em alta e retrata uma questão do cotidiano. Era comum ver nas telonas mulheres, em sua maioria, com cabelos lisos, sempre altas e magras. Aos poucos os tipos “diferentes” ou da vida real vão ganhando cada vez mais espaço, mostrando outros tipos de cabelo, corpo e belezas. Independente das características físicas, esses personagens não são tão diferentes, pois são inspirados em pessoas reais. Pensando nisso, comecei a observar

em outros filmes que se encaixam nesse perfil. A produção francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil” (2018), além de trazer à tona o machismo implícito na sociedade, discute a sensibilidade dos homens ao mostrar que não existe certo ou errado quando se demonstra os sentimentos. Os longa-metragens “Dumplin” (2018) e “Megarromântico” (2019), também originais da Netflix, colocam atrizes plus size em posição de destaque. Ao inserir personagens gordos fora do estereótipo esplorado pela gênero comédia, essas produções fazem com que o espectador se identifique e se sinta representado. Esse tipo de abordagem e de produção ganha cada vez mais público por encenar a vida como ela é, por estar cada vez mais próxima do cotidiano e por priorizar a representatividade social. Segundo a antropóloga e professora da Universidade Guarulhos (UNG), Ana Cláudia Fernandes, o desejo de identificação com personagens por parte do espectador muitas vezes vem da necessidade de se ver e até mesmo de enxergar o que gostaria de ser. “As representações são importantes para mostrar que aquela característica, seja ela física ou mental, é normal e não tem nada de diferente nisso”, conta. Apesar das produções e das abordagens estarem mudando aos poucos, ainda existe um público que não foi representado nos originais Netflix, como aqueles que possuem doenças crônicas e de pele, por exemplo, o vitiligo. Esses personagens se encaixariam perfeitamente nessa nova leva de filmes, que retratam pessoas reais, com sentimentos, problemas e preconceitos, e que, em um futuro próximo, podem protagonizar e representar uma sociedade em uma produção cinematográfica. c maio 2019 | cultcom


exposição | olhares | 15

Luta feminina pela arte

S

Vá até o Masp, que fica na avenida Pauista, e confira as obras em exposição.

Mulheres, finalmente, ganham espaço nos corredores do Masp

por Carolina Ribeiro

empre me incomodou visitar museus cuja maioria das obras em exibição são assinadas por artistas homens. Incomoda também saber que o Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), que foi projetado por uma mulher, Lina Bo Bardi (1914-1992), não dava tanto espaço para o olhar feminino sobre a arte. Apenas 6% dos nomes em exposição no museu, em 2017, eram de mulheres, segundo o Guerrilha Girls. Para minha felicidade, dessa vez, quebrei a cara. Eu não estava indo para mais uma exposição que contemplava a arte feita por mãos masculinas, e sim, estava a caminho de ver três andares do Masp ocupados por obras de mulheres. Entre elas, Tarsila do Amaral (1886-1973) – e quem me conhece sabe que Tarsila foi a grande influência para a minha descoberta do papel da mulher nas artes. Nunca vi o Masp tão cheio. Pessoas ansiosas e falantes estavam ali por um único motivo: prestigiar o trabalho feminino na história da arte. Ao subir as escadas, uma onda de inquietação tomou conta do meu corpo. Pela primeira vez eu ia presenciar os quadros de Tarsila. Como reagir ao fato de estar perto de várias obras que marcaram minha vida acadêmica por anos? Aquela sensação era única: ver as cores, os traços, os significados. Cada obra se destacando por si. É impossível passar por cada quadro e não refletir sobre a vida e as dificuldades enfrentadas por Tarsila. Não tem como passar ali sem sentir a energia que ela queria transmitir. Ter contato com esse acervo só me fez pensar na grandeza e contribuição dessa mulher para o mundo. Ser mulher sempre foi um ato de

coragem. Posso dizer que hoje, devido a atitudes como as de Tarsila, que enfrentou a convicção masculina e lutou com intensidade por espaço e reconhecimento, o fardo que carregamos é bem menor. Ter um olhar crítico sobre a disparidade da quantidade de artistas homens e mulheres no museu já é um começo. A iniciativa do ano das mulheres no Masp contribui para o entendimento da importância do discurso de igualdade entre gêneros. Dar atenção para a produção

ilustrações Matheus Deiró (aluno do curso de Design da UNG. Siga no Instagram: @matheus.com.h)

artística da mulher é construir um espaço justo e igualitário na história da arte. A exposição dessas mulheres convida a compreender a crítica presente na arte e nos chama para caminhar rumo a uma sociedade que tem a obrigação de refletir a atuação da mulher em diversos lugares – e onde ela quiser. É como Tarsila dizia: “nenhum artista consegue escapar da influência do contexto, das ideias de seu tempo”. A arte foi e sempre será um instrumento de luta e libertação. c


16 | olhares | metrô

Arte que pulsa no vagão

E

Dá pra prestigiar o trabalho desses artistas pelo Instagram. Peça a @ e siga!

É dura a busca de músicos por um espaço para mostrar sua arte e alegrar a vida no coletivo por Hermes Henrique

ntrar nos vagões do metrô de São Paulo e se deparar com pessoas que retiram um instrumento musical das costas para apresentar algumas músicas aos passageiros é algo comum. Para quem se acostumou ao espaço tão apático do trem, sentir a energia de uma apresentação ao vivo é quase inexplicável. Cada artista tem o seu motivo para estar ali. Uns para conseguir dinheiro e pagar as contas, outros para trabalhar com o que gostam, e têm aqueles que querem unir a música com uma oportunidade de emprego. Porém, o mais comum nos vagões é a presença de músicos que já se apresentam em bares da cidade e aproveitam para conseguir uma renda extra ou publicidade para novos projetos. Apesar dos diversos motivos, todos esses artistas entram em um consenso quando questionados sobre o porquê de se submeter a essa exposição todos os dias e ser, às vezes, ignorado: mostrar sua arte. A segurança é o ponto fraco, pois esses artistas precisam ter uma cautela com alguns dos comerciantes ilegais que dividem o mesmo ambiente e atenção dos passageiros. A estudante Giulia Pavani, 18 anos, é uma artista de metrô. Ela já foi agredida por marreteiros, como são conhecidos os ambulantes. Para eles “vender” música é uma concorrência e acaba atrapalhando a renda do dia. “Em uma das apresentações, um marreteiro entrou no mesmo vagão onde eu e minha parceira fazíamos nosso trabalho e, no meio da nossa música, ele ficou gritando para vender os produtos. Decidimos ignorar ele e continuar a apresentação. Quando começamos a passar o nosso chapéu, o vendedor começou a falar para

pararmos com a música, pois ele precisava ser rápido ou os seguranças poderiam tirar o produto dele. Expliquei que nós também estávamos trabalhando, e ele me agrediu. Por sorte os passageiros interviram”. O Metrô proíbe esses tipo de trabalho, como a venda de produtos ilegais e a apresentação nos vagões. Os fiscais são instruídos a retirar o artista do local e, em casos mais extremos, confiscar o instrumento. Para pegar de volta, o artista precisa pagar uma multa. Tal ato raramente acontece, pois é comum os seguranças resolverem no diálogo. Para fazer apresentações de maneira regularizada, os artistas precisam se inscrever no site do Metrô e esperar uma resposta que demora até três meses. Para

quem tem o interesse de manter uma rotina de apresentações, a opção não vale a pena. A sociedade necessita aprender a valorizar os artistas e dar a atenção que eles merecem. Eles fazem parte da cultura urbana e trazem um alívio para a rotina estressante nas grandes cidades. A arte manifesta nesses vagões é mais que necessária para não criarmos uma massa de sociopatas, que já se esqueceram como é a sensação de presenciar um momento mágico na presença de outras pessoas, ainda mais na pressa cotidiana. Viva os nossos artistas! Viva a arte e a cultura da nossa cidade! Vamos valorizá-los e ajudá-los da forma como conseguimos, pois uma cidade sem arte, é uma cidade sem alma. c maio 2019 | cultcom


livros | olhares | 17

A livraria que estava aqui

Grandes empresas tentam escapar da crise no mercado literário brasileiro

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urante o intervalo das minhas aulas no ensino médio, meu grupo de amigos fazia um clube do livro para discutir os lançamentos, leituras da semana e compartilhar a wish list do momento. Naquela época, em meados de 2014, era difícil para boa parte do meu grupo, viciado em leitura, acreditar que os livros físicos seriam substituídos por e-books ou que o mercado literário seria ameaçado no Brasil. Em 2018, quando a Saraiva e a Livraria Cultura entraram em recuperação judicial, finalmente foi possível enxergar com clareza a real situação dos livros no país. Em setembro do ano passado, a Fnac fechou suas portas na avenida Paulista. Já em outubro foi a vez da Saraiva fechar cerca de 20 lojas pelo Brasil e, nesse momento, as preocupações começaram a surgir na cabeça dos leitores sobre o futuro dos livros físicos. Professores e amigos lotaram meu feed com os anseios sobre o futuro. Ninguém sabia o que iria acontecer, e até agora, ninguém sabe ao certo como as livrarias vão se recuperar. Esse parece ser um processo de “extinção” quando olhamos para as empresas de grande porte, mas quando analisamos o cenário por completo, vemos que a crise que acontece para alguns é a oportunidade para outros, as livrarias menores, como me disse Rodrigo Barros, diretor executivo da Cartola Editora. Segundo Barros, “o modelo de mercado da Saraiva é pouco sustentável, pois a venda de livros é feita sob consignação e isso desvaloriza a empresa e pouco interessa o público específico”. Mas este não é o único problema para as

grades livrarias. O Brasil é um dos países em que a população menos lê livros. Basta fazer uma busca rápida no Google para se deparar com relatórios como a 4º edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, e descobrir que os brasileiros leem em média 2 livros por ano. E de quem é a culpa? Talvez do modelo de negócios, que não favoreça a situação atual do mercado dos livros, ou do governo, que não tem propostas para estimular sua população a ter o hábito da leitura. Pode até ser culpa da falta de interesse do leitor ou o preço mais alto se comparado aos preços de e-commerces, como a Amazon. Muitos amigos e pessoas com quem tive contato nas redes sociais, relataram que as promoções são atraentes. Pagar mais barato pelo mesmo serviço prestado é vantagem para o consumidor.

Lembro que na escola onde estudei, haviam prêmios para quem lesse uma quantidade determinada de livros. Lembro também como aquilo incentivava a gente a ler cada vez mais. Hoje, a maior parte dos investimentos de incentivo à leitura foram cortados. Como faremos um país de leitores se a população não é incentivada? E cadê a livraria que estava aqui? Não sei se os investimentos para estimular a leitura voltarão um dia, mas se isso não acontecer, talvez o futuro seja seguro pelas empresas pequenas, de perfil segmentado. Mas isso não resolve o problema maior, porque segmentação não engloba toda a população e não nos faz escapar da crise, só muda o foco dela. As livrarias precisam existir para que as novas gerações sintam, ao menos, o prazer de segurar e ler um bom livro. c

Coloque um livro na sua bolsa e experimente ler no transporte público.

por Aline Bernardo


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O pró-player Allan Castelo largou a carteira assinada e conquistou títulos como gamer profissional

Profissão: gamer Apaixonados por games fazem do e-sports uma oportunidade de emprego e colecionam títulos pelo mundo por Bruno Oliveira

Com jovens e adultos cada vez mais apaixonados por games e jogar pela internet, criou-se um nicho de mercado chamado e-sports. Já faz parte da cultura desse público consumir os jogos favoritos em diversas plataformas, mas o que surpreende é ver que o que era apenas diversão para alguns virou profissão para outros. Assim, os jovens estão empenhados na busca por uma oportunidade como jogador profissional. Os gamers têm rotina de atletas e chegam a treinar de três a quatro horas por dia na frente da tela. Eles estudam os adversários, investem tempo e até dinheiro para participar de competições. Atualmente, no Brasil, existem gamers profissionais, os pró-players, que participam de equipes e competem em nível mundial. Uma das atletas da equipe Fifa é Juliane Póca. A paulista de 29 anos é destaque nos torneios, em sua maoria, ocupados por competidores homens. Assim, ela tem se destacado no e-sports e cravado o espaço das mu-

lheres, já que não existem ligas ou torneios voltados para o público feminino. “No Fifa, independente da modalidade, não há ligas exclusivas para mulheres, e acredito que seria importante ter para incentivar o surgimento de mais atletas. Muitas jogam sem equipe”, comenta. Mesmo com dificuldades, Juliane busca incentivar quem quer jogar profissionalmente. “Para entrar nessa área e se tornar um pró-player precisa treinar, insistir e perseverar. Entender que terá muito ‘não’ e que ele é importante para amadurecer na profissão”, diz. O gamer Allan Castello, carioca de 23 anos, começou se interessar pela profissão quando viu um anúncio dentro do jogo “Fifa 14”. “Dizia assim: ‘dispute torneios e ganhe até US$ 10 mil. Foi aí que coloquei na cabeça que entraria para as competições”, lembra. “Comecei a fazer uma renda maior que no meu trabalho de carteira assinada, mas ainda permaneci trabalhando por um ano até me dedicar exclusivamente maio 2019 | cultcom


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O futuro está presente Victor Tore poderia ser considerado uma promessa no e-sports, mas seus feitos já são uma realidade. O jogador de apenas 17 anos já disputou torneios na Inglaterra, Romênia e em Singapura. Em seu primeiro torneio oficial, o prodígio acabou conquistando o vice-campeonato. Recém contratado pelo Ajax da Holanda, o jovem foi convocado pela seleção brasileira para a disputa do torneio e-Nations Cup de Fifa 19, na categoria PS4. “Recentemente teve a entrada do Cruzeiro no Fifa, um tempo atrás o Goiás. Fico feliz em saber que os clubes estão abrindo os olhos para o Fifa. Torço para que mais clubes invistam em nós, jogadores. Seria uma alegria ver diversos gamers representando o Brasil nas etapas mundiais”, conta. A tendência mundial é que o mercado dos games cresça ainda mais com os altos prêmios pagos aos vencedores de torneios e com grandes patrocinadores, que enxergam com bons olhos o investimento nesse mercado, somados a chance de um jovem transformar o hobby em profissão. c

1. A gamer Juliane Póca se destaca nas competições de e-sports 2. Com 17 anos, Vitor Tore é um prodígio no univerdo dos pró-players 3. Títulos do gamer Allan Castelo

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ao e-sports”, complementa. Castelo participou de diversos torneios e, recentemente, sagrou-se campeão do Man City Cup, na Inglaterra. Foi a primeira viagem internacional da carreira. “Já venci mais de 200 torneios online, tenho três títulos cariocas e um título nacional, este último transmitido pela TV, no Esporte Interativo”, conta. Apesar do sucesso, o gamer está se dedicando a outra atividade dentro do e-sports, a de coach, uma espécie de treinador para quem deseja ter vitórias no mundo dos jogos. Ele mantém um site com vídeos onde dá dicas das competições Fifa e ensina desde a saída de bola, o sistema de marcação, até o setor ofensivo e finalização. “A ideia é fazer com que meus alunos tenham um melhor desempenho nas partidas online”.


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Cena do espetáculo “Hairspray”, sucesso na Broadway

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Na trilha dos musicais Profissionais falam do prazer de produzir espetáculos e dão dicas de como brilhar no badalado teatro musical por Jean Leme

Com mais de 150 anos no Brasil, o gênero musical passou por muitas fases até se tornar o tipo de espetáculo aclamado e que atraiu multidões para os teatros nos últimos anos. Grandes produções, dificuldades, amadurecimento profissional e a popularização do estilo fizeram parte da história desta arte, que ganhou notoriedade nos anos 1960. Foi em meio ao regime militar que espetáculos como “Gota D’Água” (1975) e “Ópera do Malandro” (1978), do compositor Chico Buarque, encantaram, emocionaram e chocaram plateias. O formato de produção de teatro musical que faz sucesso atualmente começou em 1999, com a chegada do espetáculo “Rent”. Com o sucesso da produção, que narrava a vida de um grupo de jovens boêmios, leis de incentivo fiscais surgiram e, com orçamentos maiores, outras novas produções ganharam espaço, fazendo popularizar um teatro musical inspirado nos sucessos de bilheteria da Broadway, mas com pitada e gingado brasileiros. Para atender o mercado, foi preciso investir em especialização. Por isso, atualmente, existem inúmeras escolas e

oficinas que formam artistas para atuarem no segmento de musicais, e desse profissional é exigido o máximo de esforço para apresentar algo impecável. Segundo a coreógrafa e diretora Fernanda Chamma, responsável por produções como “Alô Dolly” (2013), “Hairspray” (2009) e “A Família Addams” (2012), para o artista brasileiro seguir carreira nos musicais, o esforço tem que ser maior. “O país não tem a cultura de formação artística forte comparado a outros países, que têm como costume trabalhar a arte já na escola básica”, analisa. “Em países da Europa e dos Estados Unidos, por exemplo, as escolas têm o chamado ‘Drama’ em seu ensino, que é quando as crianças aprendem a cantar, atuar e dançar”, complementa ela, explicando que o estilo teatro musical ganhou força de profissionalização nos últimos 15 anos. Embora sejam recente os investimentos na formação de artistas para musicais no Brasil, houve um aumento no número de produções nacionais. A demanda de pessoas para compor o elenco desses espetáculos também aumentou. Para o maestro Marconi Araúmaio 2019 | cultcom


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1. A atriz Cássia Raquel, que esteve no elenco do musical “Hair” (2010) 2. A musicista Tatiana Gurgel comanda um projeto de teatro musical em Guarulhos

foto Elisenda Linares

jo, que trabalhou como diretor musical e vocal coach de Les Misérables” (2001), “Cabaret” (2011), “Chaplin, o Musical” (2015), já há mão de obra capacitada para estar nas produções que, em sua maioria, são de produtoras internacionais. “Nas audições do ‘Les Mis’ já dava para notar que tinha um bom material humano, com muitos bons artistas nacionais para poucas vagas no elenco. E, hoje em dia, com novas escolas formadoras, esse material se fortificou”, conta. “Não criamos só material para o teatro musical, nós também criamos preparadores para tal”. Neste ramo profissional também existe concorrência. “A profissionalização, as aulas de interpretação, canto, dança, a capacitação em cursos técnicos ou faculdade são o básico, mas, o diferencial vai vir na sua garra e energia. Você precisa conquistar as pessoas”, conta a atriz Luciana Artusi, do elenco de “Billy Elliot” que está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo. Já para a atriz Cássia Raquel, que atuou em produções como “Hair” (2010) e “60! Década de Arromba” (2016), a intensidade com que o artista de teatro musical se entrega no palco é um ponto alto. “O grande destaque numa pessoa é a verdade no que ela fala, pensa e acredita. Não dá para ser falso, não dá para ser mínimo, não dá para se poupar”, indica. Em Guarulhos, a Cia, de Teatro Tatiana Gurgel tem, há 20 anos, incentivado crianças e adolescentes a seguir carreira nos musicais. O projeto também dá acesso a cultura do musical para quem não consegue acompanhar a programação de grandes centros culturais. “Muitos dos meus alunos disseram que foi numa apresentação do projeto que conheceram essa arte”, conta ela, que não tem interesse em levar suas produções para um grande teatro. “Já tem pessoas e empresas levando grandes espetáculos para esses lugares. Já estamos vivendo o sonho musical”. c


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foto divulgação maio 2019 | cultcom


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Grandona além do arco-íris Mulher Pepita quebra tabus como funkeira travesti, fala da importância de não desistir dos sonhos e do desejo de uma comunidade gay mais unida por Audrey Costa

“Nunca pensei em desistir de nada do que faço em minha vida. Às vezes, bate uma dúvida, mas duvidar é uma coisa, desistir é outra. E eu acho que quando a gente quer alguma coisa, a gente tem que ir até o fim. Desistir, nem pensar”. É assim que Priscila Nogueira, 37 anos, a Mulher Pepita, como é reconhecida por seus seguidores, encara desafios como funkeira travesti. Ela iniciou a carreira como dançarina e, persistente, logo soltou a voz em “Tô à Procura de um Homem”. A fama também veio dos bordões. Em 2014, em um vídeo divulgado no YouTube sem seu consentimento, a cantora dança e solta o verbo: “sou grandona pra caralho”. Alta e com corpão, ela não imaginava que a repercussão e o número de visualizações seriam tão altos, e ela teria seu trabalho ainda reconhecido nas ruas. Aproveitando o sucesso nas redes sociais, em 2018 Pepita não perdeu tempo, persistiu, e lançou o segundo EP, “Mulher Evoluída”. “Ser evoluída é ser uma mulher independente, forte, que se aceita da forma e da maneira que é”, enfatiza. Pepita é quem ela é. Tanto que, mesmo com a visibilidade, não deixou de frequentar os blocos de Carnaval de rua de São Paulo e estar perto do seu público. Este ano, ela arrastou fãs para >


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“Eu ficava chateada com certos tipos de comentários, mas superei. Hoje, olho no espelho e falo: ‘aceita que eu sou gostosa’”

Mulher Pepita virou hit na web, mas também colecionou críticas pelo corpo e pela aparência

foto divulgação

o “Gloriosas”, da drag queen Gloria Groove, “Bloco da Pabllo”, da Pabllo Vittar, e o bloco “Agrada Gregos”. “Com o passar dos anos, a energia e o carinho do público dos blocos aumentou”, conta ela, que já cravou seu hit na história da folia. No fervo de 2017, a música “Chifrudo”, em parceria com a drag queen Lia Clark, foi uma das músicas mais tocadas daquele ano. Na internet, não foi diferente: o vídeo já acumula mais de 12 milhões views. Tamanha visibilidade condiz com o atual cenário da música no Brasil, que está aberto a artistas LGBTI. Pepita encontrou seu espaço e o defende com unhas e dentes, até mesmo daqueles que, segundo ela, se escondem no armário. “Algumas pessoas acham que o nosso arco-íris é uma modinha. Essa é uma vida que milhões de pessoas vivem 24h. Então, acho que é feio pra essas pessoas que querem viver na sombra”,

alfineta ela, que lamenta a desunião dentro do movimento gay e o fato de a julgarem por ser quem ela é. “Algumas pessoas julgam pela moldura que veem e esquecem da obra em si. Então, eu acho muito engraçado ver aquelas pessoas que me apontaram, me atacaram pedras e, hoje, querem ter o deboche de me chamar de diva”, comenta. Em seu Instagram, a artista já acumula mais de 430 mil seguidores, e faz sempre questão de tratá-los como afilhados. No YouTube, ela tem um quadro chamado “Cartas para Pepita”. “Esta é uma forma de me aproximar deles ainda mais, e não somente pela música. Têm pessoas que não conseguem ir a um show meu, e acho que um ‘bom dia’ ou um ‘olá’ que eu dê, importa muito pra elas”, conta. Aliás, não chame os seguidores de Pepita de fãs (cometemos esse erro até esta parte da reportagem. Desculmaio 2019 | cultcom


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pe-nos, Pepita!). Ela prefere que eles sejam chamados de família. “É uma família que admira e curte meu trabalho”. Mas como toda grande família, sempre surgem alguns problemas com aqueles mais insatisfeitos ou os haters, com seus comentários negativos. Como uma grande madrinha, Pepita já aprendeu a lidar com este tipo de crítica. “Antigamente eu sofria demais. Agora, conheço e pratico a palavra ‘bloquear’. Gente, é a melhor coisa que existe”.

1. Da esq. para a dir.: Lia Clark, Gloria Groove e Mulher Pepita no Carnaval de SP

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foto Cláudio Augusto/ Brazil News

2. Cena de “Tô à Procura de um Homem”, primeiro clipe da carreira de Pepita

foto reprodução

Preconceito Pepita enfrenta diversos tipos de preconceitos por ser travesti. Desde o vazamento de seu primeiro vídeo, em 2014, ela recebe críticas, em sua maioria, destinadas as mudanças que fez no corpo. Inúmeros julgamentos sobre o físico e a aparência da artista estão espalhados pelas redes sociais. “Ficava muito triste e chateada com certos tipos de comentários sobre o meu corpo, mas consegui superar. Hoje, olho no espelho e falo: ‘aceita que eu sou gostosa’”. Em 2017, Pepita foi apresentadora do evento Women’s Music Event Awards by Vevo, onde fez um discurso emocionante sobre ser uma travesti. “Sei da minha responsabilidade em representar as travestis. Me sinto mais feliz por um evento desse porte convidar uma travesti pra ser apresentadora”. Diante do preconceito, que ainda é grande, Pepita persiste e tem planos para o segundo semestre de 2019: música nova, turnê nova, looks novos e, pela primeira vez, estrear no teatro com um monólogo sobre ser travesti. E em sua mensagem, sempre um desejo de que mais pessoas LGBTI possam sair das sombra. “Essas gays não estão sozinhas. O ser humano briga pela bandeira do seu país, do seu estado e do seu time e a gente tem que lutar pela nossa. Quem não se aceita debaixo desse arco-íris, não se aceita em lugar nenhum”, conclui. c


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A visão que vem dos muros foto divulgação

Muralista brasileiro Eduardo Kobra leva sua arte para cidades ao redor do mundo e faz refletir sobre violência e paz por Aquiles Marchel Argolo

Criado no Jardim Martinica, zona sul de São Paulo, Eduardo Kobra é a prova de como um garoto que pichava muros conseguiu fazer da arte seu sustento, e um meio de quebrar as barreiras físicas e simbólicas impostas aos que vêm da periferia. Para ele, a transição entre picho, grafite e muralismo, vertentes do seu trabalho, não foi uma evolução. “Pichar foi meu primeiro contato com a rua. É um erro achar que o pichador vai ser grafiteiro e depois muralista”, avalia. “Cada artista tem o seu motivo, seja por status, por protesto. Mas, ao contrário do mural, tudo é feito de forma ilegal na maioria das vezes”. Nos tempos de pichador, Kobra foi detido três vezes, e isso o fez refletir sobre como passar sua mensagem e se estava no caminho correto. Foi nos anos 1990 que migrou para o grafite, mas se consagrou com os murais. “Pratico uma linha de desenho mais realista, com diversas perspectivas, então não dá tempo de fazer de forma ilegal. Uso os muros com autorização, mas mantenho a integridade da minha obra. Não deixo que o proprietário do muro interfira”.

Os murais de Kobra estão espalhados pelo mundo e sempre dialogam historicamente com personagens dos locais contemplados, como Gandhi (1869-1948), em Mumbai, e Anne Frank (1929-1945), em Amsterdã, entre outros. Após mais de 30 anos desenhando, o muralista também se considera um pesquisador, por ter essa característica de buscar um diálogo entre obra e ambiente, fazendo da cidade também um personagem. Com pinturas premiadas e exposições em Tóquio, Nova York e Dubai, Kobra não acha que alguma de suas obras tenha sido um divisor de águas, mas sim a descoberta da própria identidade. “Quando passei a seguir meu próprio caminho e parei de copiar outros artistas, foi o momento em que meu trabalho ganhou mais destaque e passei a ser convidado a trabalhar em várias partes do mundo”, lembra. Kobra, que é autodidata, tem no neo-expressionista Basquiat (19601988) e no britânico Bansky (1988), suas maiores inspirações. Em seus trabalhos, também encontramos remaio 2019 | cultcom


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1. Mural “Etinias”, no Rio de Janeiro, entrou para o “Guiness Book” em 2016

ferências do brasileiro Di Cavalcanti (1897-1976), do inglês Julian Beever e do austríaco Gustav Klint (1862-1918). É possível notar a inquietação de Kobra nas diversas matizes presentes em seus traços, além das perspectivas e técnicas, como a da pavimentação em 3D, que consiste em transformar o chão em uma obra em que se tem a impressão de poder mergulhar ou cair. Indissociável à sua criação, há também a visão política e os valores aprendidos desde os tempos de pichador. “Gosto de retratar coisas sobre proteção dos animais e que me inspirem a pesquisar a história, fazer um resgate da memória”, conta. “O que me inspira não é somente o que o cara faz, mas a história de vida. Ver onde as pessoas conseguiram chegar fazendo arte”, complementa. A razão das inquietações de Kobra é a busca constante por sentido e transmissão de significados ao público. Os traços realistas e gigantescos são mais que simples adornos nos muros das cidades. “Sempre busquei ter autonomia no meu trabalho. Nada do que eu faço é aleatório. Tudo tem o objetivo de passar algum tipo de mensagem”, comenta ele que, embora seja conhecido pelos trabalhos cheios de cores, construiu sua identidade artística na reprodução constante de imagens antigas em preto e branco. “Comecei a colorir essas imagens e misturar com minhas referências de grafite, cultura de arte de rua, e acabei criando uma identidade própria”.

2. O pintor Salvador Dalí, no mural pintado por Kobra na Espanha

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Reconhecimento Em 2016, um dos trabalhos mais conhecidos de Kobra, o “Etnias”, que retrata cinco tribos do planeta, entrou para o “Guiness Book World Records” como o maior mural do mundo. Na obra que está no Rio de Janeiro, as tribos são retratadas gigantes, coloridas e existem no mundo por causa das doze pessoas da equipe do artista que trabalharam três meses na representação. Toda obra fotos divulgação


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“Quando você segue o caminho de falar sobre questões raciais ou violências, há pessoas que não vão gostar, vão se incomodar”

Mural com o rosto do arquiteto Orcar Niemeyer, que fica na avendia Paulista, em São Paulo

do muralista absorve os personagem, os acontecimentos do cotidiano e a metrópole como complemento. “Quando vou realizar o trabalho, seja em qualquer cidade do mundo, visito galerias, bibliotecas, estudo a história do lugar e, por meio da pesquisa, busco uma conexão com o trabalho que faço”, fala. Em cada cidade que passa, Kobra faz questão de passar mensagens contra qualquer tipo de violência e enaltecer o retrato de líderes da paz. Mesmo assim, o artista não deixou de enfrentar problemas com os projetos de “limpeza” da capital paulista. Em 2017, um mural de mil metros de comprimento, localizado na avenida 23 de Maio, pintado pela equipe de Kobra, foi apagado na ação “Cidade Linda”, sob ordem do então prefeito João Doria (PSDB). O

foto Alex Francisco

muro tinha sido pintado em 2009, em homenagem ao aniversário de São Paulo. “A capital tem a arte de rua em seu DNA, não só com o meu trabalho, mas com o de outros artistas. Então acho que toda polêmica dos últimos anos reforça o respeito que a população tem pelos artistas e também mostra o caminho de apoio”, comenta. “São Paulo está na vanguarda do movimento de arte de rua e temos que aproveitar este momento para transformar a cidade numa galeria de arte a céu aberto”, complementa. O “Cidade Linda” pintou de cinza grafites espalhados pela cidade de São Paulo sob argumento de revitalizar áreas degradadas. “Qualquer um que estiver à frente da administração da cidade tem que apoiar e incentivar a arte, porque melhora sem dúvida a vida das pesmaio 2019 | cultcom


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1. Madre Teresa e Gandhi foram líderes da paz retratados neste mural nos EUA 2. O líder Martin Luther King ganha cores no mural de Kobra feito em Nova York (EUA)

soas. A arte transforma as pessoas. São Paulo é uma cidade marcada na história do grafite mundial como uma das maiores cidades do mundo”, diz Kobra. A origem da arte Eduardo Kobra se fez nas ruas. Embora seu discurso seja de união em prol da produção e divulgação da arte como meio de transformação social, o próprio muralista nunca teve apoio governamental e financeiro para divulgação. “Nunca contei com apoio da sociedade, nem da prefeitura. Segui minha própria caminhada”, diz ele, apontando a onda conservadora como possível sufocamento da produção de arte. “Com autorização ou não, vou continuar fazendo minha arte até o fim. Se fosse para depender disso, eu não teria chegado até aqui. Não teria conseguido fazer nada do que eu fiz”, complementa. Sem contratos com publicidade, a maior parte dos murais de Kobra é feito gratuitamente. A renda vem de contratos pontuais e de leilões de telas originais das obras. Usando o grafite e posteriormente o muralismo como forma de comunicação de dentro para fora para traduzir o que entende do mundo, Kobra não condena quem segue um caminho diferente. “Quando você segue o caminho de falar sobre questões raciais ou violências, há pessoas que não vão gostar, vão se incomodar. Sempre que uma artista parte para a linha decorativa, de pintar coisas inofensivas, não terá problema com ninguém. Agora toda vez que você coloca a sua opinião e um tema a ser debatido, vai enfrentar um grupo conservador”, opina o muralista. “Sigo persistindo. Não modifico meu trabalho de acordo com governo ou com o pensamento de ninguém. Tenho uma construção da minha obra que levei 30 anos para criar o conceito e não fujo disso, independente do que esteja sendo imposto no país”, complementa o artista. c

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NASCE UMA ESTRELA DOS MUSICAIS por Gustavo Batista

Aos 26 anos, a atriz paulistana Myra Ruiz é uma das maiores revelações do teatro musical da atualidade. Em seu currículo estão grandes espetáculos nacionais e versões consagradas da Broadway, como “Mamma-Mia” (2011), “Nine - Um Musical Felliniano” (2014) e “Wicked - A História Não Contada das Bruxas de Oz” (2016), seu mais recente sucesso. Além da carreira nos musicais, Myra participou da minissérie “Des(encontros)”, do canal Sony, e se prepara para ser jurada do “Cultura, o Musical” (Cultura), reality show em que avaliará novos talentos dos palcos ao lado de outros grandes nomes do teatro.


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A bruxa má do Oeste, Elphaba, vivida por Myra Ruiz no musical “Wicked”

Myra Ruiz ficou mais conhecida pelo grande público após interpretar Elphaba, a bruxa má do Oeste, no espetáculo “Wicked”, um fenômeno com mais de 300 mil espectadores. Antes de conquistar o papel e realizar o sonho de dar vida à personagem, a atriz passou por testes concorridos – e tudo valeu a pena. “O musical superou a expectativa de todos, tanto do elenco quanto do público. Tivemos relatos de pessoas que despertaram da depressão após ver a peça. A arte faz isso”, comenta. “Wicked” mostra a história não contada das bruxas Glenda e Elphaba antes de Dorothy chegar ao mundo de OZ. “Foi um musical muito bem escrito. Não é a toa que faz muito sucesso no exterior. É um acerto a história dessas duas mulheres que são muito diferentes, mas acham um jeito de se amar e de se dar força. A força da Elphaba, quando grita pelas pessoas que não têm voz, é uma mensagem muito forte nos tempos em que vivemos”, analisa. Quando criança, Myra queria ser jornalista, como os pais, ou estilista, e chegou a se dedicar à ginástica olímpica. Mas uma tendinite a fez mudar de

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ideia. “Cheguei a treinar todos os dias, um treino de atleta mesmo, até ter tendinite no ombro. O médico falou que se eu quisesse continuar como atleta teria que enfrentar cirurgias, torções. Então, ele me indicou fazer uma atividade mais leve, como o balé”, lembra ela que, na época, não gostou da ideia. A paixão pela dança logo surgiu quando Myra começou a estudar na companhia de dança Cisne Negro, na vila Madalena, em São Paulo. “Eu achava um saco, pois pensava que o balé era menos dinâmico que a ginástica olímpica. Fui fazer a primeira aula de coquizinho, colanzinho, tinha música clássica, aquela disciplina... Demorei pouco tempo para entender que, na verdade, aquilo era uma coisa que eu amava. Era desafiador”, lembra. O balé levou Myra para a primeira experiência com teatro musical. Em uma apresentação de final de fim de ano, a escola abandonou os clássicos “O Quebra- Nozes” ou “O Lago dos Cisnes” e ousou em fazer uma releitura de “Mary Poppins”. “Foi nessa peça que eu fiz um musical de verdade e amei. Minha mãe percebeu que eu gosmaio 2019 | cultcom


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Myra Ruiz e Jarbas Homem de Mello, em “Chaplin - O Musical”

“A força da Elphaba, quando grita pelas pessoas que não têm voz, é uma mensagem muito forte nos tempos em que vivemos” tei e, a partir daí, comecei a fazer um curso de musical na TeenBroadway”, lembra ela, referindo-se a escola de teatro musical na vila Madalena.

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O caminho para o sucesso Após passar pela Casa da Dança e pelo Célia Helena Centro de Arte e Educação, aos 16 anos Myra decidiu ir morar com o pai em Nova York, determinada a ingressar na Professional Performing Arts School (PPAS), uma das escolas de artes mais renomadas dos Estados Unidos. A atriz conta que treinava sozinha em casa, colocando vídeos e músicas no YouTube, além do livro de monólogos para a audição que faria para tentar uma vaga. “Fiz o teste e me preparei utilizando todos os recursos que aprendi nos cursos de teatro do Brasil. Cantei para o diretor da PPAS para ele ver se eu tinha aptidões técnicas para o curso”, lembra. Dentro da PPAS, Myra teve a oportunidade de estudar com os mestres responsáveis por nomes como Britney Spears e Alicia Keys. A escola oferece em sua grade curricular um curso de teatro musical, e foi quando a atriz pôde


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Atriz foi aclamada pela crítica ao viver a prostitura Sarraghina, em “Nine - Um Musical Felliniano”

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estudar com Amanda Colliver, mentora da atriz Nicole Kidman, quando esta se preparava para o papel de Satine, no filme “Moulin Rouge - O Amor em Vermelho” (2001). “Foi nessa escola que eu me profissionalizei, onde levei mais a sério os estudos para os musicais. Era meu sonho ser atriz de musical, mas não cheguei a pensar que esse sonho, um dia, poderia se tornar realidade”, comenta Myra. Quando voltou para o brasil, com 17 anos, fez seu primeiro teste profissional para uma personagem o musical “Hairspray”. Foi reprovada, mas isso não a fez desistir do sonho “Entendi cedo que vou levar muitos ‘nãos’ na vida. Então não desisti, até mesmo por aquele ter sido o meu primeiro teste”, lembra. “No teste seguinte, eu passei, que foi em ‘Mamma Mia!’. Depois disso, veio uma fase em que eu levei tantos ‘nãos’, que nem queria me levantar da cama. Mas tive pessoas que me apoiaram e me lembraram do meu talento”, complementa. Em “Mamma Mia!”, Myra interpretou Sophie, personagem que passa todo

o espetáculo buscando, entre os ex namorados da mãe, descobrir quem é seu pai biológico. A atriz brinca com o fato de viver uma situação parecida com a da mocinha do musical. É que ela não conheceu o pai biológico. “Minha mãe se casou com um cara, que eu chamo de pai. Após um período, eles terminaram e ela teve um relacionamento com um outro cara, que eu também chamo de pai (rs!). Eu não tenho problemas com isso, diferente da Sophie. Para ela é um problema não saber quem é seu pai biológico, e a história dela gira em torno disso. No meu caso teve só sobra de amor”, conta. Em 2015, Myra foi aclamada pelo público e pela crítica no espetáculo “Nine – Um Musical Felliniano”. Na pele da prostituta Sarraghina, que no cinema foi interpretada pela cantora Fergie, a atriz foi indicada a Melhor Atriz no 4º Prêmio Bibi Ferreira. Hoje, quando pensa na personagem que mais a representa, é a Elphaba de “Wicked” que ganha um carinho especial. “Foi o maior papel que eu já fiz. É difícil falar que eu me identifico, mas maio 2019 | cultcom


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“Entendi cedo que vou levar muitos ‘nãos’ na vida. Então, não desisti, até mesmo por aquele ter sido o meu meu primeiro teste”

foto Julia Figueira

admiro ela. Ela é forte, é durona, luta pelo o que acredita. Então eu aprendi com ela”, diz a atriz que, no ano passado, subiu aos palcos para viver outra personagem marcante: Oona, a esposa de Charles Chaplin, em “Chaplin - O Musical”, onde contracenou com outro grande nome dos musicais paulistanos, o ator Jarbas Homem de Mello. Myra se dedica com intensidade aos musicais, pois eles lhe deram as melhores oportunidades para a carreira como atriz, mas não descarta possibilidades para além dos palcos. “Por enquanto, os musicais estão ganhando, pois não consigo fazer musical e me dedicar a outra coisa ao mesmo tempo. É um outro lugar, outras energias. Já aconteceram alguns convites, mas não consegui fazer por causa da agenda”, comenta. A atriz está em cartaz com o musical “Meu Destino é Ser Star”, com músicas do repertório de Lulu Santos e foi convidada para ser jurada do reality “Cultura, o Musical” (Cultura), onde toda semana seis candidatos apresentam suas habilidades para os espetáculos musicais. c


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Solte suas feras Estilo anos 1980 volta repaginado, carrega nas cores e mostra que peças estão muito além da vertente street style por Junior Coneglian produção Junior Coneglian, Larissa Cerqueira e Gux Woop fotos Ellen Rios modelos Melissa Farago e Gux Woop

Ah, os anos 1980... As ruas estavam cheias de uma atmosfera maximalista. A nave espacial Columbia fazia seu primeiro voo, a Apple lançava o computador Macintosh. No Brasil, nascia o primeiro bebê de proveta. Lá em Nova York (EUA), Michael Jackson (19582009) fazia sucesso com “Thriller”. Foi nessa época que a comunidade LGBTI levantava voo, porém se viu tombada quando a Aids explodiu, carregando o discurso do castigo divino. E foi no final dessa década de ouro, em 1989, que a Nasa lançou duas importantes sondas espaciais: Galileo e Magalhães. Marcados pela competição entre homens e mulheres à procura de igualdade no mercado de trabalho, os jovens workaholics, com calças de cintura alta e ombreiras, jaquetas e animal print

(que será tendência certa neste inverno), estavam prontos para gritar seus direitos. Assim como o contexto histórico, a moda e a maquiagem dessa era foram marcadas por sofisticação, luxo e extravagância, e pudemos enxergar suas verdadeiras cores, como disse a cantora Cyndi Lauper, com delineados coloridos e tonalidades fortes. As discotecas famosas abrigavam essa atmosfera, carregando a luta da população trans para poder circular nos bares sem, literalmente, serem arremessados para fora. Todos precisavam de algo que transmitisse glamour, luz e brilho, e foi por meio dessa necessidade, que nasceu a moda dos anos 1980. O neon era uniforme obrigatório, fosse na roupa, nos acessórios ou na maquiagem. O animal print, dominava maio 2019 | cultcom


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os looks e, muitas vezes, aparecia na composição toda. As mulheres, em busca de cargos executivos, incorporaram o blazer e o suspensório em seu closet sem perder a feminilidade, por meio de esmaltes cintilantes e ultracoloridos. A boca, sempre marcada, fosse por um gloss, ou um batom metálico. O culto ao corpo ganha espaço, as roupas de academia fazem grande sucesso em calças legging das mais variadas cores. O sport aparece com moletons e corta ventos sempre muito fashionistas. O tênis deixou o modelito de homens e mulheres muito mais despojado. O estruturado aparece em macacões super utilitários e jaquetas bomber. Já o homem jovem, numa espécie de gender fluid, acompanha tudo isso não apenas como plateia, mas como protagonista – não é mesmo, Gucci? Para a estilista e produtora de moda Fer Faustino, os anos 1980 reúne tudo aquilo que queremos viver e que de alguma forma não superamos. “Seja por um apego histórico ou o porquê vivemos em um mundo cíclico, sempre estamos revisitando o que já vivemos, e se torna comum ver referências oitentistas no cinema e nas novelas”, comenta. É sob essa epifania futurista, num crossover alegórico, que a moda dos anos 1980 condiz tanto com a realidade atual, seja nas roupas, na luta ou no comportamento. c


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Macacão Brechó B Luxo / calça e jaqueta quadriculada Forever 21 / corta vento azul e rosa Puma / t-shirt animal print Riachuelo / blazer Moschino / calça rosa Brechó da Petra / jaqueta bomber azul neon Nasa Forever 21 / meia azul estampada de pato Forever 21 / sapato preto de couro Ellus 2nd Floor / relógio Champion / óculos multicor Uigafas / calça flare verde C&A

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foto Carol Cruz

Luz sobre o corpo nu

Alunos de Fotografia da UNG propõem uma reflexão sobre o corpo masculino com um ensaio sobre nudez por Karoline Alves

No século XVI, Michelangelo Buonarroti (1475-1564) produziu uma escultura em mármore maciço para representar o herói bíblico Davi com o corpo nu. A ideia era que o público apreciasse a nudez como uma obra de Deus. Cinco décadas depois, a escultura serviu de inspiração para alunos de Fotografia da Universidade Guarulhos (UNG) produzirem um ensaio artístico masculino. Caroline Cruz, Aparecida Valdcelia, Giovanna Mendes, Thaylla Alves e Vinicius Santos formaram o Coletivo Faces de Vênus para transmitir ao público o corpo nu como obra divina. “Nós temos um olhar muito conservador, muito preconceituoso sobre esse tipo de foto, pois a sociedade imagina a nudez masculina sempre erotizada. Porém, é muito importante esse tipo de ensaio para que as pessoas vejam que a nudez faz parte de todos nós e que é algo natural”, diz Sérgio Santoian, fotógrafo profissional e criador do “The Male Nude Project”.

A primeira aparição fotográfica de nu artístico foi em 1872, produzida pelo inglês Eadweard Muybridge (1830-1904). Quase 150 anos depois, ainda existe muito preconceito com essa arte devido aos conceitos religiosos e morais que cercam a sociedade. “Queríamaos desmistificar a ideologia trazida pela sociedade de que o nu masculino é algo agressivo. As fotos trazem a naturalidade de um indivíduo no seu dia a dia, ilustrando diversos tipos de corpo, sem a imagem bruta que a sociedade impõe”, comenta Caroline. Transmitir uma mensagem com fotografias nuas, principalmente de homens, é uma tarefa desafiadora. Santoian explica que é necessário conversar com o modelo antes do ensaio para apresentar a ideia e passar confiança no trabalho que será realizado. Desta forma, a sintonia acontece entre fotógrafo e fotografado. “Sempre existe tensão e nervosismo, ainda mais no primeiro trabalho”, explica. maio 2019 | cultcom


galeria | 41 foto Aparecida Valdcelia

A aluna Giovanna aponta que na produção do ensaio, a maior dificuldade que o grupo enfrentou foi se acostumar a fotografar o corpo nu. “Foram nossas primeiras fotos de nudes e tivemos a dificuldade de nos acostumarmos com o modelo nu na nossa frente. Mas, depois, nem percebíamos que existia um nu entre nós”, lembra. Mesmo com o passar dos anos, ainda existe censura e incompreensão sobre o nu masculino. Ao comparar fotos de mulheres e homens nus, chega-se à conclusão de que se trata de uma questão cultural. Para o fotógrafo Santoian, a nudez da mulher sempre foi glamourizada, enquanto a do homem foi considerada erótica. “Aos poucos estamos mudando isso. O ensaio dos alunos, por exemplo, contou com uma lente inquieta, procurando opções não óbvias, usando o corpo nu para fazer arte e dar uma assinatura ao trabalho”, avalia. E foi essa questão cultural que o Coletivo Faces de Vênus buscou modificar Thaylla, líder do grupo, conta que as fotografias do ensaio transmitem o corpo nu masculino tão belo quanto o feminino. “Trabalhamos todo o corpo dos modelos, desde curvas, silhueta e puxamos um pouco o lado sensual. Mas, um ponto importante do nosso projeto foi que não mostramos totalmente a parte íntima do homem. Brincamos um pouco nas fotos para deixar um ar de ‘mistério’ sobre as imagens”, explica aluna. As fotografias do Coletivo Faces de Vênus ganharam destaque na apresentação do trabalho e elogios de Santoian, fotógrafo com critérios minuciosos nas avaliações artísticas. “Um trabalho de nu masculino como esse, que não coloca o corpo do homem apenas como objeto de desejo, precisa ser contemplado por uma boa luz, uma boa composição, um bom questionamento e, principalmente, pelo motivo de fotografar nu não ser uma tarefa fácil”, conclui. c

foto Vinícius Santos


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foto Thaylla Alves

foto Aparecida Valdcelia

foto VinĂ­cius Santos

foto Thaylla Alves

maio 2019 | cultcom


A COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNG MARCOU PRESENÇA NA EXPOCOM 2018. CONHEÇA OS TALENTOS QUE ERGUERAM O TROFÉU!


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