cultcom +LEANDRO LUNA
DUBLAGEM DE TERROR COLETIVO 308 CINE CONCERTOS CÉSAR MAGALHÃES BORGES BANDA RENASCENTES COVERS DO REI DO POP
distribuição gratuita
REVISTA LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNG
#4 junho 2019
CELLIA NASCIMENTO
A FORÇA DAS RAÍZES
Artista guarulhense se dedica ao novo álbum e comemora 20 anos de uma carreira que evoca o respeito às origens
A COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNG MARCOU PRESENÇA NA EXPOCOM 2018. CONHEÇA OS TALENTOS QUE ERGUERAM O TROFÉU!
índice | 3
fala, jornalista!
4
expediente
5
dublagem
6
filmes de terror
música
banda renascentes
8
cinema 10
cine concertos
artes plásticas 12 coletivo 308
covers 14
tributo a michael jackson
quadrinhos 16
estúdio e exposição mauricio de sousa
teatro 18
leandro luna
poesia 22
césar magalhães borges
capa 26
cellia nascimento
galeria 32
jumbo: cardápio do dentento
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Dudu Alves se apresenta como cover mirim de Michael Jackson (1958-2009) no Centro de Guarulhos; o registro é do aluno de Fotografia da UNG Iran Maciel
4 | fala, jornalista!
viagem musical Esta edição da Cultcom é literalmente música para nossos ouvidos, porque traz aos leitores uma miríade de reportagens com ênfase à arte musical. Conheceremos a experiência dos cine concertos e sua emocionante execução ao vivo de trilhas sonoras de filmes por uma orquestra, como era comum nos cinemas de 100 anos atrás. Aliás, falando sobre cinema, talvez nenhum outro gênero cinematográfico dependa tanto do som para conseguir produzir os efeitos de suspense e medo, desejáveis para obter a adesão do espectador, do que os filmes de terror. Se a trilha sonora é tão importante para nos causar aquele frio na barriga (especialmente na hora dos sustos!), não se pode prescindir também da expressão dramática da voz dos dubladores, tema de uma reportagem. Vamos conhecer a história da banda Renascentes, que leva reflexões sociais para além dos muros da universidade. E dez anos depois da trágica morte do rei do pop, para além das polêmicas presentes em sua biografia, veremos como permanece o fascínio que Michael Jackson (1958-2009) exerce sobre seus muitos fãs e artistas covers. Como de hábito em nossas edições, abrimos espaço para a valorização de artistas da cidade de Guarulhos. Na capa, a trajetória de luta de uma artista guerreira, orgulhosa de suas origens: a polivalente cantora, compositora e atriz Cellia Nascimento, que comemora 20 anos de carreira com um novo álbum. Outro artista local destaque desta edição é o escritor e poeta César Magalhães Borges. O “professor Jesus”, como foi carinhosamente chamado por tantos alunos durante os anos em que lecionou nos nossos cursos de Comunicação Social, partilhando seus conhecimentos e o lirismo de suas palavras. Ele fala à nossa reportagem sobre seu mais recente livro e sua ligação com a educação. Boa leitura! c
PROFA. ME. FLÁVIA DELGADO
coordenadora dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Fotografia da Universidade Guarulhos (UNG) junho 2019 | cultcom
expediente | 5
Universidade Guarulhos mantenedor Ser Educacional reitor Prof. Dr. Eloi Lago diretora adjunta dos cursos de ciências humanas e sociais Profa. Dra. Miriam Bevilacqua coordenadora dos cursos de jornalismo, publicidade e propaganda e fotografia Profa. Me. Flávia Delgado
cultcom editor Prof. Esp. Alex Francisco chefe de reportagem Mayara Nascimento redação Bárbara Camargo, Beatriz Yukimitsu, Bruno Oliveira, Caroline Ribeiro, Daiane Crema, Elias Augusto, Gustavo Batista, Hermes Henrique, Jean Lema, Joyce Mota, Karoline Alves, Karoline Souza, Larissa Queiroz, Laura Dantas, Mariana Lira, Mayara Nascimento, Nataly Simões, Thiago Apelbaum e Valéria Campello
CONHEÇA AS EDIÇÕES ANTERIORES DA CULTCOM
revisão Profa. Me. Lislei Carrilo anúncios Prof. Esp. Fábio Martins projeto gráfico e diagramação Prof. Esp. Alex Francisco
#3 - MYRA RUIZ ESTRELA DOS MUSICAIS A reportagem de capa é com a atriz Myra Ruiz, revelação do teatro musical paulistano. A edição ainda traz Mulher Pepita, Eduardo Kobra, jazz funk, HQ de orixás, cinema em Arujá, bandas alternativas LGBTI, gamers, moda anos 1980 e fotografia de nu masculino.
#2 - FÁBIO PORCHAT FALA SÉRIO SOBRE (QUASE) TUDO
#1 - LÁZARO RAMOS TALENTO PARA COMUNICAR
A reportagem de capa é com o apresentador Fábio Porchat. A edição ainda traz jovens que tocam música clássica, Casa das Caldeiras, Canto Cidadão, exposiões Nirvana e Renato Russo, manual de sobrevivência para bandas independentes e moda pin-up.
A reportagem de capa é com o ator Lázaro Ramos. A edição ainda traz João Carlos Martins, Sérgio Poroger, literatura policial, youtubers da UNG, locais para fotografar em Guarulhos, Os Cavaleiros do Zodíaco, samba da Gaviões da Fiel e moda brechó.
endereço UNG Campus Centro Praça Tereza Cristina, 88 Centro, Guarulhos - SP CEP: 07115-280 www.ung.br Instagram: @ecos_ung Facebook: @UnGECOS data junho de 2019 número 04 tiragem 1.000 exemplares
Cultcom é uma produção acadêmica desenvolvida na disciplina de “Tópicos Integradores III” pelos alunos do 7º semestre de Jornalismo da Universidade Guarulhos (UNG), sob a supervisão do Prof. Esp. Alex Francisco.
Confira todas as edições em issuu.com/jornalismoung
ERRAMOS NA CULTCOM #3
Na chamada de capa, o correto é destaca, e não detaca. Na seção Olhares, o nome da colunista é Caroline Ribeiro e não Carolina.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores e não refletem a opinião da Universidade Guarulhos.
6 | dublagem
Vanessa Hudgens e Nicolas Braun na cena de terror do filme “Guerra dos Monstros” (2015)
foto divulgação
Vozes que dão medo Filmes do gênero terror exigem que o dublador esteja preparado para utilizar técnicas e oferecer grande carga emocional por Valéria Campello
O terror é um gênero cinematográfico que não dá para passar despercebido. É aquele que as pessoas amam ou odeiam, não há meio termo. É o que faz os pelos do braço se arrepiarem, e é o que carrega subgêneros: o slasher, onde há um assassino em caçada; o paranormal, com entidades sobrenaturais envolvidas; e o gore, em que a carnificina é mostrada com ênfase. Ao assistir um filme de terror, o espectador escolhe se vai sentir medo ou se arrepiar na versão dublada ou legendada. Quando ele opta por escutar a dublagem, nem imagina que há por trás um estúdio que traduziu aquela obra, fez testes e escolheu um elenco que representaria os personagens. Afinal, dublar uma história macabra com suas arfadas, sussurros, cochichos e gritos (muitos gritos!), não é tarefa fácil. Michelle Giudice, 24 anos, é dubladora profissional e deu voz a várias personagens em filmes de terror, como Quinn Brenner de “Sobrenatural: A Origem” (2015), Lorelei de “Guerra
dos Monstros” (2015), e Chloe de “Satânico” (2016). “Para ser um profissional da área, é preciso formação em artes cênicas e se especializar em dublagem”, conta. “Ao ter o roteiro com a tradução do idioma, nós atores precisamos transpassar junto a interpretação”. Segundo Michelle, no quesito técnica, especialização e testes, não há diferença entre os filmes de terror e os de outros gêneros. “O trabalho do dublador é o de observar, analisar e detectar as escolhas, o estilo e as ferramentas de interpretação que o ator original utilizou para fazer determinada cena”, conta. Gritos, palavras entrecortadas e sustos são as situações mais complicadas. “Não existem filmes difíceis de dublar, mas sim cenas difíceis”, complementa. Nesse tipo de trabalho, o desgaste vocal é maior e a dificuldade particular de Michelle é, por incível que pareça, ter medo de filmes de terror. “Ocorre uma submersão quando se dubla, e eu tento ficar dentro da realidade. Às vezes, retiro um dos lados do fone, como junho 2019 | cultcom
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1. Cena do filme “Sobrenatural: A Origem” (2015)
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2. Cena do filme “Satânico” (2016) 3. A atriz Michelle Giudice, que dublou os dois filmes citados acima
um meio de manter a concentração”, diz ela, que tem mais dificuldades de dublar cenas sobre possessão. Após finalizar um trabalho de dublagem, Michelle muda rapidamente de foco. “É claro que você sai com uma vibe um pouco pesada, mas aí coloca uma música, conversa com as pessoas e já volta ao normal”, conta. Entre as cusiosidades do meio está o pedido das produtoras para manter algumas reações do elenco original e a preparação vocal, que exige uma rotina de exercícios diários para evitar a rouquidão. “A qualidade da voz diminui após gritar. Mas existe um truque: gravar as cenas de grito por último”, diz Michelle. Para quem sonha em se tornar dublador, persistência é a palavra-chave. “Seja persistente e foque em fazer um trabalho de qualidade. O mercado de dublagem é um mercado ótimo para se trabalhar, um pouco difícil de entrar, mas a partir do momento que você se torna bom naquilo, com certeza haverá seu lugar”, finaliza Michele. c
Dublagens de dar medo Selecionamos filmes, cujas vozes nacionais provocam arrepios
“O Exorcismo de Emily Rose” (2005) conta a história do julgamento de um padre que fez um ritual de exorcismo. “Mártires” (2008) é um filme francês do estilo gore, com cenas não recomendadas para os mais sensíveis. “Invocação do Mal” (2013) é primeiro de uma franquia que cresce a cada ano e tem temática sobrenatural. “Um Lugar Silencioso” (2018) mostra que qualquer barulho pode ocasionar a morte dos personagens.
8 | música
Integrantes da banda Renascentes formaram o grupo nas aulas de Letras da universidade
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Entre os livros e a música Conheça a história da banda Renascentes, que leva reflexões sociais para além dos muros da universidade por Laura Dantas
Em 2004, entre instrumentos musicais e livros do curso de Letras, surgiu nos corredores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) uma banda formada por quatro amigos, a Renascentes. Inspirados pelo rock in roll dos anos 1960, o movimento Tropicália e nomes da literatura brasileira, como Guimarães Rosa (1908-1967) e José Saramago (1922-2010), os músicos João Ortácio (guitarra e voz), Átila Viana (baixo e vocal), Dionísio Monteiro (bateria e vocal) e Eduardo Morlin (flauta, violão, MPC e controladores) dividiram as horas na sala de aula com a vida de músicos na estrada. O nome da banda surgiu após um evento cultural na universidade, o Sarau Nascente. O baterista Monteiro conta que Renascentes faz uma alusão a uma experiência que a banda, em todos esses anos de carreira, sabe bem como é. “Tivemos muitos integrantes que acabaram saindo, outros novos entraram... Então acho que renascer tem tudo a ver com a nossa história”. Os desafios foram e ainda são grandes. Conciliar as aulas com a agenda
de shows que crescia nos arredores de Porto Alegre (RS) resultou em dobrar o tempo de conclusão da graduação dos músicos. Eles levaram oito anos para se formarem no curso de Letras. Por ter uma produção independente, o lançamento dos discos ainda é uma dificuldade. Para a gravação do primeiro, intitulado “Renascentes”, os músicos precisaram guardar dinheiro por um tempo até conseguirem fazer a gravação, em 2014. Apesar dos problemas, no final de 2018 o segundo CD “Dia Real Inventado”, ficou pronto. Diferente do primeiro, em que as músicas tinham influência da literatura, o segundo álbum segue uma linha política e discute problemas sociais. As canções são todas autorais, e a que dá nome ao disco surgiu durante uma experiência no carnaval boliviano. “A música mostra um diálogo entre as pessoas, onde as diferenças políticas deixaram de ser divididas entre direita e esquerda e passaram a ser apenas troca de farpas”, lembra Monteiro. Segundo o baterista, a nova produção aborda e propõe refletir sobre os junho 2019 | cultcom
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Cena do clipe “O Poema”, elogiado pelo público da banda Renascentes
preconceitos presentes na sociedade brasileira atual. “Agora interessa especificamente a ideia da burrice, da estupidez, e as ações todas sendo colocadas com um ódio muito forte ao ponto de a gente achar que isso que estamos vivendo não faz parte da realidade, mas ela é realidade”, conta. “Talvez isso explique o motivo do nome do álbum, ‘Dia Real Inventado’”, complementa. Em maio deste ano, a Renascentes lançou o clipe da música “O Poema”, que já tem três mil visualizações no YouTube. Os fãs aprovaram a canção, e os comentários são parabenizando a banda pela letra e pela arte do vídeo. “Alguns falam até que é uma música necessária para o período atual que o país enfrenta, que é uma forma de cantar o que se vê nas ruas”, diz Monteiro. Os dois álbuns estão disponíveis em todas as plataformas digitais, e a banda deve seguir em turnê pelo Brasil, onde pretende visitar o maior número possível de cidades para levar o som que nasceu dentro da universidade. “Estamos totalmente focados no trabalho atual”, conclui o baterista. c
Atualize sua playlist Conheça outras bandas formadas por alunos dentro de universidades
Jah i Ras Banda de reggae raiz e rastafári, que surgiu no coral da Universidade de São Paulo (USP). Apanhador Só Banda de rock alternativo formanda no curso de Arquitetura da UFRGS. As Bahias e a Cozinha Mineira Banda de MPB formada no curso de História da USP. Irish Fellas Inspirada na cultura irlandesa, banda é formada por alunos de Arquitetura da UFRGS. Bidê ou Balde Banda de Rock formada em 1998 no curso de Comunicação Social da PUC-RS.
10 | cinema
Fã vestido como um personagem da saga “Star Wars” durante exibição com orquestra
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O despertar da orquestra Filmes com trilhas sonoras marcantes voltam a ser exibidos, dessa vez, com orquestra ao vivo por Beatriz Yukimitsu
Para os amantes do cinema e da música, esse é um momento de alegria. Filmes que marcaram toda uma geração voltam a ser exibidos assim como era nos primeiros anos da sétima arte: um espetáculo com uma orquestra executando a trilha sonora ao vivo. Os cine concertos ou concertos de cinema vêm se tornando cada vez mais populares no Brasil. Em abril deste ano, o Allianz Parque foi palco da exibição de “Star Wars in Concert. Uma Nova Esperança”, regido pelo maestro Thiago Tibério, 38 anos. A apresentação contou com as partituras originais do filme, que ganhou o Grammy de melhor trilha sonora em 1977. Tibério é formado em Composição Musical pela Universidade de Nova York e já apresentou vários cine concertos pelo mundo. Além da saga “Star Wars”, também tocou na franquia “Jogos Vorazes”, e em “Alice no País das Maravilhas” (2010). “Sou muito fã de ‘Star Wars’ e vi os filmes várias vezes. Para mim, é uma realização profissio-
nal poder reger esse espetáculo”, conta. Segundo o maestro, é grande o desafio e a responsabilidade executar a trilha sonora de um dos autores mais importantes do ramo, John Williams, que se consagrou com os acordes de “Star Wars”. “Também faço ópera e nesse gênero você tem seu tempo, uma certa liberdade. Os músicos podem cantar mais lento ou mais rápido, como eles se sentirem confortáveis. Como maestro, sigo com a orquestra. Tudo funciona”, compartilha Tibério. “Já no filme com orquestra ao vivo, não. Se a gente estiver atrasado, temos que correr pra acertar. O filme não nos espera, temos que estar sempre sincronizandos”. O maestro relata que outro desafio de tocar em cine concertos é encarar a aprovação dos fãs, que já conhecem as músicas. “A orquestra tem que estar preparada para entregar um espetáculo fantástico e surpreender”, comenta. Aliado aos filmes, esse tipo de concerto está trazendo uma nova força para as orquestras e levando o público brajunho 2019 | cultcom
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1. A partitura original de “Star Wars: Uma Nova Esperança” usada na apresentação 2. O maestro Thiago Tibério durante a execução do cine concerto
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sileiro de volta aos espetáculos clássicos. “Os cine concertos estão cobrindo uma lacuna formada pela estagnação do público que vai ver orquestras. Antigamente as pessoas não iam a uma orquestra para ouvir música clássica, era só música. Não temos uma cultura de ir assistir os clássicos”, comenta o maestro. “Muitas delas [orquestras], as que tocam apenas música clássica, sofrem até com problemas financeiros. Os cine concertos estão aí para chamar um público novo. Para trazer pessoas que nunca tinham visto um concerto”. Desde o final do ano passado, o Brasil já recebeu os cineconcertos dos filmes “La La Land” (2016) e “Me Chame pelo Seu Nome” (2017). No mês de agosto, Thiago voltará aos palcos brasileiros para apresentar “Crepúsculo” (2008), cuja divulgação animou os fãs. De 4 a 7 de julho, o Espaço das Américas, em São Paulo, receberá o espetáculo “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel In Concert”, cuja trilha sonora será executada pela Orquestra Sinfônica Villa Lobos, formada por músicos da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp) e da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo (OSMSP). A trilha sonora dos filmes inspirados nos livros de J. R. R. Tolkien ganhou importantes prêmios, como o Oscar e o Grammy, o que aumenta a expectativa dos fãs para o espetáculo. E o maestro Tibério acredita que os cine concertos chegaram para ficar e ser uma grande adição à cultura do país. “A América do Sul está acordando para esse tipo de concerto. É um formato que as pessoas amam, porque elas amam o filme, e o redescobrem”, finaliza. c
12 | artes plásticas
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Aventais utilizados nas oficinas carregam o símbolo do Coletivo 308
Unidos pela arte Coletivo 308 oferece oficinas e espaço para artistas independentes que sofrem com a falta de investimento na cultura em Guarulhos por Thiago Apelbaum
Um número de apartamento, onde aconteciam reuniões de arte, e um ônibus, que representa a revolta política de uma cidade, inspiraram o nome do Coletivo 308, criado por designers, educadores, artistas e fotógrafos, que produzem arte em Guarulhos desde 2007. No logotipo do grupo, o ônibus faz uma crítica ao governo da época, quando o prefeito Paschoal Thomeu (19262006), também dono da Empresa de Ônibus Guarulhos S/A, proibia que linhas de outros municípios trafegassem pela cidade, criando mais um empecilho para os artistas que buscavam visibilidade na capital do estado. É que Guarulhos sempre teve pouco incentivo para a arte, e os artistas locais eram obrigados a sair do município para produzir e exibir suas obras se desejassem visibilidade e também promover a troca de conhecimentos com seus pares. Foi essa realidade que Alexandre Vilas Boas, Marcelo Oliveira, Sergio Augusto de Oliveira, Eduardo Garofalo, Rodrigo Kenichi, Leticia Carvalho,
César Riello Santos e Cintia Nagatomoo viveram durante anos até criarem o coletivo e promover artistas guarulhenses por meio de oficinas. Artistas como Artur Barrio, Joseph Beuys, Nelson Leirner, Cildo Meireles, Maria Bonomi, Renina Katz e Fayga Ostrower serviram de inspiração para o grupo. Os modernistas, os concretistas, o Grupo Rex, os cubanos do Los Carpinteiros e o coletivo Opavivará também são referências de criação e atuação para o Coletivo 308. “São artistas e grupos que, de alguma forma, fazem o que gostaríamos de fazer. Uma das principais influências é a arte conceitual da segunda metade do século XX”, contou um dos fundadores do coletivo, Alexandre Vilas Boas, ex-professor da Universidade Guarulhos (UNG). O grupo realiza oficinas gratuitas, como as de encadernação, desenho, gravuras, xilogravuras, cerâmica, fotografia, silk screen e a criação de papel reciclável. A maioria dos materiais são fornecidos pelo próprio coletivo. junho 2019 | cultcom
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O espaço do ateliê, que fica no Jardim Ponte Grande, foi cedido ao grupo para que, em troca, oferecesse serviços de arte para a comunidade. Os eventos acontecem com periodicidade de 20 a 40 dias, aos finais de semana, e são divulgados pelas redes sociais. “Guarulhos é a segunda maior cidade do estado, e faltam oficinas de artes e eventos culturais. A cidade tem muitos artistas bons, sejam eles escultores, pintores ou músicos”, afirma Vilas Boas. O ateliê abriga também outros coletivos e artistas que queiram utilizar o espaço, como é o caso do coletivo Criô, que realiza exposições fotográficas, e o Diversart, que propõe um sarau com microfone aberto para aqueles que queiram cantar ou recitar poemas. O espaço do Coletivo 308 também recebe rodas de leitura, amantes do cinema e apreciadores de vinhos, o que rende encontros que possibilitam o diálogo entre os artistas locais. Para fomentar a arte, o grupo, com ajuda de outros artistas e produtores
culturais, participa e ajuda a realizar a Bienal Internacional de Guarulhos (BIG) para pequenos formatos. A última edição aconteceu em 2018, contou com cerca de 900 trabalho de artistas de mais de 20 países. O Coletivo 308 participou da inauguração do Sesc Guarulhos, no Jardim Flor do Campo, com oficinas de xilogravura, sistema de impressão por uma matriz de madeira. Só no estande do grupo, cerca de três mil pessoas participaram das atividades. As imagens impressas pelos participantes foram remontadas em um lambe-lambe, como um quebra-cabeça. Em Guarulhos há muitos talentos a serem lapidados para que possam ser prestigiados pelo público. “Os artistas buscam visibilidade e reconhecimento por seus esforços. Para isso é preciso que tenham espaços e estrutura apropriada para incentivar a prática artística”, diz Vilas Boas. O Coletivo 308 faz seu papel social e artístico fomentando o desenvolvimento da cultura local. c
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1. Alunos durante uma oficina realizada pelo Coletivo 308 2. O artista plástico Alexandre Vilas Boas, um dos fundadores do coletivo, durantre oficina no Sesc Guarulhos
14 | covers
O cover Jader Soares ao lado da estátua de Michael Jackson no Rio de Janeiro foto arquivo pessoal
Herdeiros do rei Covers mantêm o legado de Michael Jackson em meio a polêmicas e após dez anos de sua morte por Elias Augusto
Michael Jackson (1958-2009) foi um dos artistas mais populares do planeta. Conhecido como o rei do pop, foi cantor, compositor, dançarino e produtor musical. Com tantas qualidades e em meio a episódios polêmicos, sua obra sempre foi reverenciada e permanece viva na memória do público. Quem nunca arriscou um moonwalk (passo onde o dançarino se move para trás, enquanto parece caminhar para frente) ou imitou os mortos-vivos de “Thriller”? Com uma legião de fãs, logo surgiram pessoas que fizeram da imitação do artista uma profissão. É assim com Rodrigo Teaser, cover brasileiro de Michael Jackson. O artistas ganhou notoriedade e fez carreira apresentando as coreografias que encantam o público, mesmo após dez anos da morte do ídolo. Outro que
também faz sucesso imitando o astro é o pequeno Dudu Alves, cuja atitude e habilidade nas coreografias, mesmo sendo tão novo, o tornaram popular nas redes sociais e no YouTube. Há casos em que o cover, além de imitar o ídolo, mantém uma profissão. É o caso de Jader Soares, que se apresenta como MJader e trabalha como motorista de aplicativo. Ele faz corridas à noite para manter suas apresentações durante o dia. “Minha família nunca se preocupou com meu lado cover. Eles torcem, mas acreditam que fazer uma faculdade seria o correto”, conta. “Não tiro a razão deles, mas acho que não adianta ir para um curso sem ter paixão por aquilo”, complementa. Soares faz cover de Michael Jackson desde 2013, mas dança os passos do artistas desde os 7 anos. “Não tenho junho 2019 | cultcom
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foto arquivo pessoal
memórias sem amar o que ele fazia. Os meus 30 anos de vida são dedicados a esse ser grande e de luz”, conta ele, que se emociona toda vez que se caracteriza como o ídolo. “Naquele momento, vejo e sinto que sou o Michael. Todas as vezes que me transformo nele sinto que sou grande, completo, pronto para mostrar o que tenho dentro de mim. É uma sensação muito forte de felicidade”. Nas apresentações, Soares costuma manter um repertório diversificado, sem deixar de fora seu gosto pessoal. Os hits “Dangerous” e “I Can’t Let Her Get Away” são suas preferidas. “O público gosta e ver as performances clássicas: ‘Thriller’, ‘Beat It’ e ‘Billie Jean’. Mas a maioria dos covers se cansa de dançar as mesmas músicas”. Embora tente imitar Michael Jackson com perfeição, Soares busca manter sua personalidade durante as apresentações. “Não sou totalmente preso ao que o Michael fazia. Sempre coloco o Jader em algum momento da performance”, conta ele, que se exibe toda semana na Avenida Paulista, em São Paulo. Ricardo Walker, que se apresenta como cover de Michael Jackson desde os 15 anos, conta com o apoio da família para realizar seu sonho. “Tenho uma condição de vida boa e, por causa disso, sempre pude focar nos meus objetivos. Então mesmo que eu faça outros trabalhos, estarão relacionados com dança por causa desse incentivo que vem de casa”, diz ele, que já participou de competições na TV, como o “Qual É o Seu Talento?” (2009-2012, SBT). Walker recebe cachês em suas apresentações. “Tudo que eu fiz e faço em tributo ao Michael é muito mais pelo amor e satisfação do que por dinheiro”, conta. “Honro a obra dele com respeito, amor e qualidade. E fico muito feliz pelo carinho dos fãs”, complementa ele que, assim como os demais covers, luta para viver um sonho e manter viva a memória de uma lenda. c
foto Iran Maciel
1. Rodrigo Teaser é considerado o cover número 1 de Michael Jackson no Brasil 2. O pequeno Dudu Alves encanta plateias ao imitar o ídolo pelas ruas de São Paulo 3. Ricardo Walker já participou de programas de TV imitando o rei do pop
16 | quadrinhos
Estúdio de criação da Mauricio de Sousa Produções, em São Paulo
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Fábrica de sonhos No estúdio, visitantes podem acompanhar todo o processo de criação da Turma da Mônica e ainda brincar com os personagens por Daiane Crema e Nataly Simões
Após receber mensagens de pessoas de dentro e fora do país que sonham em conhecer o estúdio da “Turma da Mônica”, a Mauricio de Sousa Produções (MSP), em São Paulo, decidiu abrir as portas para a visitação do público. No espaço que recebeu o nome de Bairro do Limoeiro, os fãs dos personagens que ilustram as histórias do cartunista Mauricio de Sousa podem conferir de perto o trabalho dos mais de 400 funcionários que estão por trás de todo o processo de criação. “Na MSP nascem histórias em quadrinhos, desenhos animados, filmes, livros, design de produtos, espetáculos musicais, eventos temáticos interativos, aplicativos e games”, conta o diretor Mauro Sousa. Logo no início da visita, o público é convidado a assistir um vídeo de Mauricio de Sousa dando boas-vindas e contando um pouco sobre a história do estúdio, onde são criadas 1.500 páginas de gibis por mês. Em seguida, com
o auxílio de uma monitora, o público pode conferir imagens dos primeiros desenhos do cartunista, assim como os primeiros bonecos dos personagens. Os fãs também têm a oportunidade de acompanhar o trabalho dos departamentos de Design e Criação, Roteiro e Arte Final. “Uma das coisas mais importantes da nossa visita, principalmente para a criançada, é que eles percebem que quem está fazendo as histórias que eles adoram e acompanham são pessoas. Isso é abrir as portas não só para os visitantes, mas para a esperança, para um caminho profissional que alguns podem seguir depois. De repente até trabalhando conosco”, explica Sousa. A pedagoga Claudilene Silva, 42 anos, levou a filha Aiana, 10 anos, para conhecer o estúdio. “Gostei muito de conhecer o processo de criação, me impressionou muito o trabalho feito aqui. Minha filha e eu sempre gostamos da ‘Turma da Mônica’, e ela adorou brinjunho 2019 | cultcom
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car e conhecer os personagens”, diz Claudilene, que veio de Recife (PE) especialmente para conhecer a MSP. A produtora pretende manter o espaço aberto ao longo dos próximos anos. O ingresso é R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia) e está disponível em www.visitamauriciodesousa.com.br.
foto Nataly Simões
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1. A pedagoga Claudilene Silva levou a filha, Aiana, para conhecer o estúdio da MSP
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2. Famosa fachada do prédio da Fiesp, que recebe exposição sobre Mauricio de Sousa
foto divulgação
Exposição no Centro Cultural Fiesp O criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa, completa 60 anos de carreira neste mês. Para celebrar a data, o Centro Cultural Fiesp recebe a exposição “Olá, Mauricio!” até 15 de dezembro. A mostra destaca a história dos quase 500 personagens da Mauricio de Sousa Produções (MSP) que fazem parte da trajetória do desenhista. Seja nos quadrinhos, nas telinhas e, agora nas telonas, e também no teatro, a “Turma da Mônica” está presente na infância de muitos brasileiros desde julho de 1959, com a publicação de uma tira do “Bidu e Franjinha”, no extinto Folha da Tarde (Grupo Folha). A exposição terá um espaço especial para lembrar essa época. “São 60 anos de muito trabalho e constante realização de sonhos. Não só os nossos sonhos, mas de todos os fãs que nos acompanham”, comenta Mauricio de Sousa. Entre as atrações da mostra estão o “Ovo do Horácio”, “Livro dos Mortos da Turma do Penadinho”, esculturas para fotos, cadernos da infância do desenhista, além de obras inéditas da coleção “História em Quadrões”, que baseia-se nas releituras de pinturas de artistas consagrados com os personagens criados pelo quadrinista. Na exposição haverá distribuição gratuita da segunda história do novo personagem da turminha, o Edu, um menino de nove anos que tem Distrofia Muscular de Duchenne (DMD), doença genética rara caracterizada pela deterioração muscular progressiva. c
Serviço Exposição “Olá, Mauricio!” | Quando: até 15 de dezembro, de terça a sábado, das 10h às 22h; domingos, das 10h às 20h | Onde: Espaço de Exposição do Centro Cultural Fiesp – Av. Paulista, 1.313 | Grátis | Informações: www.centroculturalfiesp.com.br.
foto divulgação
18 | teatro | leandro luna
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A arte como destino Do escritório para a Disney, o ator Leandro Luna se destaca nos musicais e no cinema, fala sobre os desafios da carreira e de planos futuros por Jean Leme
Ao assistir novelas, cantar e acompanhar todas as falas do filme “O Rei Leão” (1994), o ator Leandro Luna descobriu sua paixão pela arte. Com 14 anos, um amigo lhe contou sobre uma aula de teatro no grupo em que participava. “Ele começou a contar sobre as aulas e que a professora pedia para eles representarem objetos, cadeiras, panela de pressão. Fiquei curioso”, lembra ele, que não teve a permissão do pai para ter essa experiência, mas o incentivava a trabalhar na metalúrgica da família. Enquanto estudava inglês business na Califórnia (EUA), algumas oportunidades artísticas surgiram para Luna. Com o retorno ao Brasil, iniciou a faculdade de comércio exterior e, em paralelo, realizou seu primeiro curso de interpretação. Quando soube da inauguração da escola de atores do diretor Wolf Maya, fez o teste e passou. O curso contava com vários nomes importantes da arte no país. “Minha turma tinha Andréia Horta, Tania Khalill, Thiago Luciano, Beto Schultz, Nanda Costa e Paolla Oliveira, atores que ganharam destaque no mercado”, conta. Aos 21 anos, ele decidiu que precisava ter um foco profissional. Foi o momento de uma conversa franca: “Pai, eu amo o que faço aqui na empresa, mas sinto que amo mais ser ator, e quero me dedicar a isso”. Luna nunca mais trabalhou no negócio da família. >
20 | teatro | leandro luna
“Pai, eu amo o que faço aqui na empresa, mas sinto que amo mais ser ator, e quero me dedicar a isso”
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Os atores Leandro Luna (à esq.) e Tiago Abravanel no espetáculo musical “Meu Amigo Charlie Brown”
Em 2010, após criar a empresa Luna Prodart, o ator produziu seu primeiro musical, o “Meu Amigo Charlie Brown”, versão brasileira de “You’re a Good Man Charlie Brown” (1967). Na pele do protagonista, Luna ganhou destaque na cena dos espetáculos musicais do país, mas a montagem não foi como ele esperava. “Levei um tombo com erros básicos e malícias de captação. Um banco renomado me mandou e-mail dizendo que queria aportar 100% do meu projeto, estava aprovado em R$ 3 milhões na época. Aí contratei todo mundo, aluguei o teatro. Quando chegou na hora, cadê o dinheiro?”, lembra. “A temporada prevista era de um ano. Entrei em contato com o banco e eles disseram que a verba seria alocada em outro projeto. Em resumo: vendi um terreno que tinha recebido de herança para pagar todas as contas e fiquei três meses em cartaz”, complementa. Em 2012, Luna realizou audições para participar da montagem brasileira do musical da Broadway “Priscilla, a Rainha do Deserto” e foi aprovado. Ele também foi convidado para o elenco de “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força” (2013). No mesmo ano, protagonizou o filme “Satyrianas”, com o qual foi indicado a Melhor Ator no Prêmio Sesi/Fiesp de Cinema. Em 2015, o artista também fez parte de “Chaplin – O Musical”, ao lado de nomes como Jarbas Homem de Mello e Marcelo Antony. Em 2018, foi para TV, e participou da série “(Des)encontros” (Sony). Uma nova oportunidade apareceu, após lançamento de versão cinematográfica de “Snoopy e Charlie Brown – Peanuts, o Filme” (2015). O garotinho de camisa amarela e seu companheiro canino caíram no colo de Luna novamente, e ele decidiu remontar o musical que marcou sua carreia. Por esse espetáculo, ele levou o renomado prêmio Bibi Ferreira como Melhor Ator. O trabalho com dublagem chegou
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1. Luna em uma cena com José Celso Martinez Corrêa, no filme “Satyrianas” (2013)
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2. O ator durante a dublagem do filme “O Retorno de Mary Poppins” (2018)
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de surpresa na carreira de Luna e foi por meio de um antigo diretor. “Na época, ele não conhecia ninguém do teatro musical e me disse que estava precisando de alguém para dublar alguns desenhos, e eu fui. Assim, comecei a fazer uns ‘jobzinhos’ de dublagem”. A primeira participação na Disney foi fazendo o jingle no filme “Divertidamente” (2015). Mas, seu grande destaque foi em “Viva, a Vida É uma Festa” (2018), onde deu voz a um dos protagonistas, Hector. Em “O Retorno de Mary Poppins” (2018), Luna dublou o personagem Michael Banks. Atualmente, o ator está em cartaz no musical original brasileiro “Aparecida” (2019), no qual é protagonista. Em julho, Luna volta a apresentar o espetáculo “Pacto”, musical que está na lista dos dez melhores de São Paulo de 2018, pela revista Veja. Sobre o futuro, Luna não economiza no tamanho. “Me espelho em artistas que se produzem, que conseguem investimentos e atingem grande público, sempre com teatro cheio, como Miguel Falabella e Cláudia Raia. Meu grande sonho é ganhar um Oscar”. c
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Palavras em sintonia com a vida O poeta César Magalhães Borges conta que desde jovem tinha a certeza que seria um escritor apaixonado pela arte e pelo ensino por Joyce Mota e Mariana Lira
“Um escritor que acredita na arte e no ensino pela palavra”. É assim que se define o escritor e poeta César Magalhães Borges, 55 anos, natural de Guarulhos (SP), lugar onde criou suas raízes culturais e artísticas. Formado em Letras e pós-graduado em Educação, foi professor na Universidade Guarulhos (UNG), onde era chamado com carinho de Jesus, e desenvolve um trabalho literário com poesia, contos, crônicas, canções, roteiros para teatro e histórias infantis. Borges teve uma infância solta, cheia de brincadeiras de rua e partidas de futebol em campinhos, mas que também foi marcada por uma grande perda: a morte do pai, que trouxe dificuldades financeiras para a família, o que, para ele, acabou sendo um aprendizado. Sempre foi influenciado pelas histórias em quadrinhos e pelos fascículos da obra de Monteiro Lobato (18821948), mas o gosto pela poesia veio por influência da canção popular, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Belchior (1946-2017). Assim, dos 15 para os 16 anos, Borges já sabia >
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“Para a construção de uma raça humana mas sensível e solidária, é necessário alimentar-se do trabalho artístico, afinal a ausência da arte deforma o ser”
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O escritor César Magalhães Borges durante a apresentação de um sarau
qual carreira seguir e nada fez diminuir a paixão que tinha pela leitura e escrita. Tanto que, ainda jovem, esteve envolvido na cena literária guarulhense em projetos como “Arco Literário” (1989), ao lado dos escritores José Alaercio Zamuner e Castelo Hansen. O poeta não tem apenas um ídolo literário, mas uma lista enorme com nomes como Manuel Bandeira (18861968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Paulo Leminski (19441989) e Fernando Sabino (1923-2004). “Tudo o que eu havia lido antes parecia extremamente rebuscado. Eu tinha a impressão que, para escrever, era necessário que um escritor engolisse, pelo menos, uns três dicionários, para então, produzir sua obra”, comenta. “Ao ler Sabino, eu me deparei com uma prosa solta, simples, de ritmo ágil e bem-humorado, algo que me fez lembrar do modo como meus familiares falavam e contavam causos”, complementa. Para Borges, tudo é material para
a escrita. Assim, ele encara o trabalho de escritor para estar em sintonia com a vida e traduzir isso em palavras, fazer disso sua criação. Sua maior preocupação ao escrever é a expressão, ou seja, a tradução em ideias, sentimentos e sensações. “Por isso a importância do equilíbrio entre o conteúdo e a forma”, diz o poeta, que ainda nomeia alguns grandes inimigos de seu ofício, como a estagnação, a repetição, a perda pelo encanto da escrita e o bloqueio criativo. Borges tem uma lista grande de hobbies, como ler, ouvir música, assistir filmes, viajar, se exercitar, entre outros e diz tentar afastar qualquer ideia de ritual ao escrever. “Pensar na falta de um momento ideal pode, de certa forma, criar um bloqueio. Tenho mania de escrever tudo à mão, para então, só depois, levar os escritos ao computador”, conta. “Gosto da caneta e do papel, de poder riscar, rabiscar, fazer setas que alterem a ordem de estrofes ou versos. É algo que me aproxima do universo da junho 2019 | cultcom
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“Embrião” (2018) é o nono livro do poeta e reúne 40 poemas, uma alusão às semanas de gestação
foto arquivo pessoal
pintura, que é outra forma de arte que venero”, complementa. Autor independente, Borges publicou os livros “Passagem” (1985), “Contrastes” (1987), “Canto Bélico” (1994), “Bolhas de Sabão” (1998), “Ciclo da Lua” (1999), “Três Acordes” (2003), “Folhas Soltas” (2006), “Dicionírico: Prosa, Poesia e Riso” (2016) e “Embrião” (2018). Seu maior sonho é que “vivamos em um mundo mais saudável e equilibrado, em todos os sentidos, seja social, econômico, político, cultural, espiritual e ambiental, com uma maior valorização das artes e da cultura, pois, em condições melhores, a poesia teria um alcance e espaço maior na vida das pessoas”. Na obra “Embrião”, uma espécie de “memorial poético” e de “regressão lírica”, há uma seleção de poemas acumulados entre 2006 e 2017. “O nome da obra veio por ser meu nono livro e estar associado aos nove meses de uma gestação. Ainda dentro desse conceito, há um número de 40 poemas para coincidir com o número de semanas de uma gravidez”, diz Borges. O poeta, que admite ter que driblar desafios e dificuldades constantes ao viver da literatura, faz uma crítica ao dizer que o meio da cultura tem suas formas particulares de corrupção. “Há apadrinhamentos ou tráfico de influências, jabá para ganhar espaço em colunas de jornais, revistas, programas de rádio, TV, obter resenhas...”. O poeta acredita que nesse momento em que vive o país é preciso olhar mais as semelhanças do que as diferenças. “Isso para que possamos derrubar barreiras, fronteiras e obstáculos que nos impedem de ver e sentir nossa verdadeira irmandade”, diz. “Para a construção de uma raça humana mais sensível e solidária, é necessário alimentar-se do trabalho artístico, afinal, a ausência da arte deforma o ser”, finaliza. c
Em 1989, Borges (à dir.) com os escritores José Alaércio Zamuner (à esq.) e Castelo Hansen
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MULHER DE RAร ZES por Daiane Crema
Polivalente, a cantora, compositora e atriz guarulhense Cellia Nascimento comemora 20 anos de carreira com um novo รกlbum. Em seu trabalho, a artista mostra toda a luta que travou contra os obstรกculos em seu caminho e enaltece a forรงa que vem das origens
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foto Claire Jean
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Cellia Nascimento caracterizada de Chica da Silva
A relação de Cellia Nascimento com suas raízes culturais começou quando o pai, Emilio Conceição, fundou o grupo Rosa Baiana e trouxe a capoeira para Guarulhos (SP). Ainda criança, ela já fazia parte das rodas de dança do conjunto e, aos 14 anos, em uma apresentação em Osasco, foi convidada a participar de um desfile de moda. O motivo do convite, porém, foi inusitado. “Eles me chamaram porque todas as modelos eram brancas, mas precisavam de uma negra para concorrer”, lembra Cellia. “No momento, eu nem reparei que aquilo era uma espécie de cota e aceitei”, complementa. Na época, a jovem não pensava muito sobre as diferenças sociais, pois estava sempre envolvida com a elite guarulhense, devido ao prestígio do pai. O primeiro choque da diferença de tratamento e do preconceito veio em uma festa. Na época, haviam três grandes bailes em Guarulhos. Um apenas para pessoas da elite, onde ela ia com o pai. Apesar de nunca pertencer a esse padrão, Emilio sempre foi muito bem quisto pela alta sociedade, mas a realidade da Cellia era outra. Seus amigos
“Se pessoa que produziu meu disco não tivesse me incentivado, talvez eu nem estaria mais na área musical” de escola frequentavam outros ambientes e, na adolescência, ela percebeu que aquele não era o seu lugar. Cellia lembra que queria conhecer o Guarulhão, uma festa onde só iam pessoas da periferia e negros. “Na primeira vez que fui, percebi que nunca tinha visto tanta gente preta reunida. Fiquei assustada, de verdade. Cinco minutos depois, pedi para ir embora. Quando cheguei em casa, me senti muito mal, afinal eu também sou preta. Por que eu não consegui me sentir bem perto de pessoas como eu? Na segunda vez que fui, percebi que ali era onde eu me identificava, ali era a minha raiz”. O impulso para a carreira artística veio aos 17 anos, quando participou de outro desfile de moda e decidiu fazer um curso de teatro. Como a renda familiar na época era precária, Cellia conseguiu uma bolsa de estudos. Foi nas aulas de interpretação que a jovem descobriu que, além de atriz e modelo, também tinha talento para o canto. “Fiz aulas de música para ganhar conhecimento teórico e comecei a carreira profissional como cantora”, conta. Todos os seus trabalhos realizados junho 2019 | cultcom
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foto Jennifer Glass
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até hoje são independentes, carregados de muito samba rock, soul e black music. “Meu primeiro álbum foi todo produzido com um tecladinho em estúdio. Se a pessoa que produziu meu disco não tivesse me incentivado, talvez eu nem estaria mais na área musical”, afirma. O segundo disco foi um acústico, com dez faixas, só com voz e violão. Mas Céllia queria gravar algo maior, com mais arranjos, uma grande produção. A cantora acredita que Guarulhos tem muitos artistas bons, com talento, mas que, infelizmente, não são valorizados como os demais, os de renome. “Falta oportunidade, incentivo e apoio para a cultura de Guarulhos. Na verdade, no país inteiro. É um problema na cultura nacional. Desde que eu me entendo como artista isso acontece. Um artista de fora é muito mais valorizado do que o artista de dentro”, comenta. Na produção do terceiro álbum, ela tentou participar de alguns serviços culturais que são oferecidos pela Secretaria de Cultura de Guarulhos, mas infelizmente teve o pedido negado. Mesmo assim, Cellia não desistiu. Conseguiu parcerias para apoiar a pro-
1. A atriz durante a encenação de “Mistérios Gozosos”, do Teatro Oficina 2. Cena do clipe “Nega Soul”
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“Coloquei a minha alma nas músicas e falo do negro que tem menos oportunidades. Do ser preto que ilumina esse mundo e não é visto como luz” dução e gravou um show ao vivo onde ela menos esperava: no palco do Teatro Adamastor. O feito rendeu também um DVD. “Estava com muito medo no dia, chovia muito e fiquei com medo de ter um público pequeno, mas a casa lotou”. Cellia já viajou por quase todo o país apresentando seus trabalhos seja como cantora ou junto com o Teatro Oficina, considerado um ícone no cenário teatral, e mantido até hoje por um de seus fundadores, o diretor José Celso Martinez Corrêa. Junto com o Oficina ela participou de várias peças de teatro e musicais. Já em sua trajetória como cantora, ela dividiu palco com vários artistas de peso, como Ney Matogrosso, Chico César e Sandra de Sá, seus maiores ídolos. “Toda essa história foi importante para o meu reconhecimento como mulher preta. Eu sempre percebi
que teria dificuldades, que não ia ser fácil levar a minha vida sendo mulher, preta e artista”, comenta. Este mês, Cellia lançou o quarto álbum, com sete faixas, entre elas o single “Nega Soul”, e “Dora”, de Dorival Caymmi (1914-2008). “Em 20 anos esse é o primeiro disco que realmente se identifica comigo. Coloquei a minha vida nas músicas e falo do negro que tem menos oportunidades. Do ser preto que ilumina esse mundo e não é visto como luz”, ressalta. Em todas sus vertentes artísticas, a cantora, busca falar do contemporâneo, sem nunca perder suas raízes. “Hoje a cultura afro tem uma representatividade muito maior do que há alguns anos. Estamos em todos os lugares e a tendência é que isso cresça bastante, por mais que existam barreiras”, conclui. c junho 2019 | cultcom
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Dentro do jumbo Coletivo 011 registra imagens dos alimentos que familiares de detentos preparam para levar na visita do fim de semana por Larissa Queiroz fotos Coletivo 011
Penitenciária Desembargador Adriano Marrey de Guarulhos, sábado, 4h da manhã. Local, dia e horário em que muitos familiares de detentos se organizam em filas para o dia de visita. Quem chega primeiro, tem mais expectativa de conseguir entrar. A maioria na fila são mulheres, esposas com filhos e mães, todas carregam nas mãos sacolas contendo alimentos para o parente que está privado da liberdade. O número de presos do sistema carcerário do Estado de São Paulo chega a aproximadamente 236 mil, segundo dados do governo paulista. Além de tristeza e preocupação, que fazem parte do cotidiano, os familiares dos detentos passam a madrugada cozinhando e preparando o jumbo, nome dado aos mantimentos, itens de higiene pessoal e roupas levados para os presidiários. Durante cinco meses, o Coletivo 011, formado por cinco ex-alunos do curso de Fotografia da Universidade Guarulhos (UNG), acompanhou a rotina desses familiares para produzirem o ensaio “Jumbo: Cardápio do Detento”. Aimèe Louise, Alan Neves, Railane Valentin, Patrick Moura e Sabrina Ketlyn abdicaram da folga nos finais de semana para lançar um olhar sobre os alimentos levados para os detentos e a realidade que impacta a vida das
famílias. “O grupo quis proporcionar imagens de alimentos como os que existem nas mesas de casa, algo sem gourmetização, uma alimentação mais tradicional, que possa despertar uma releitura da forma como nos alimentamos ao lado de quem amamos”, diz Neves. Para a produção das fotografias, o coletivo selecionou três presídios: Penitenciária Desembargador Adriano Marrey – Guarulhos II, Centro de Detenção Provisória I e II – ASP Paulo Gilberto de Araújo de Chácara Belém (CDP Belenzinho) e a Penitenciária Feminina de Sant’Ana (Carandiru). No Marrey e no CDP Belenzinho, o coletivo teve alguns percalços, como abordagens de policiais e ameaças de prisão em caso de voltarem a realizar fotos no entorno do presídio. “Um agente penitenciário chamou a polícia e nos acusou de estarmos utilizando um drone para fotografarmos o presídio. Fomos abordados com certa truculência por vários agentes e convidados a nos retirar”, lembra Neves. Antes de conversarem com as visitas, o coletivo fez contato com a assessoria de imprensa e o comitê da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), e enviou requerimentos ao diretor do Marrey, para que autorizassem a realização do trabalho na parte externa junho 2019 | cultcom
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dos presídios, mas todas as tentativas foram negadas. Dessa forma, só restou ao coletivo produzir as fotos mantendo distância da zona de segurança dos presídios, a aproximadamente mil metros. Mesmo com receio de não conseguirem as fotos para o trabalho e toda dificuldade enfrentada, o Coletivo 011 persistiu e conseguiu realizar o planejado. Com estratégias criadas a cada visita, o grupo obteve as fotografias que precisava e, o mais importante, colheu histórias que serão levadas para toda vida. “Ver pais, mães, esposa e filhos levantarem de madrugada, gastarem o dinheiro que não têm, se afundarem em dívida para poderem passar algumas horas ao lado de quem ama e poder fotografar e levar para sociedade essa informação e talvez gerar uma conscientização, não tem preço”, afirma Neves. A fotógrafa Railane Valentim conta que mudou o seu conceito sobre os detentos após as visitas às penitenciárias. “Confesso que antes de ter contato com as famílias, eu tinha muito preconceito. Porém, já nas primeiras visitas onde acompanhamos as preparações de alguns familiares para poder entrar no presídio, fui começando a pensar de outra forma. Vi que se dedicavam sem opção nenhuma e sem recursos suficientes.”, conta a fotógrafa. c
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As imagens do Coletivo 011 foram escolhidas para ilustrar a reportagem “O peso do jumbo: as mulheres que levam comida e afeto às prisões femininas”, escrita por Juliana Reis para o portal Vice Brasil. Disponível em tinyurl.com/y5y3th7z.
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