senso
comum
Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo UFU ano 8 • 37ª edição dezembro de 2017/janeiro de 2018 distribuição gratuita
Corte de verbas cria cenário de incertezas para 2018
página 6
cotidiano
economias
experimentos
Estudantes que vêm de fora movimentam mercado imobiliário ao redor da UFU página 3
Alunos apostam em comércio informal para conseguir renda extra página 8
Falta de acessibilidade no ensino provoca impasse para surdos na instituição página 10
DA REDAÇÃO OPINIÃO//
EDITORIAL//
Nós por nós
Um amanhã incerto
ROSÂNGELA GOMES DANIEL Não é nenhuma surpresa a atual situação financeira do país, mas não deixa de ser assustadora a forma violenta como esse cenário repercute dentro das universidades. Com a UFU não é diferente. Os boatos circulam por todos os campi, vindos de diversas fontes. O problema se mostra ainda mais grave quando esses comentários são divergentes. A atual conjuntura da universidade, do repasse de verbas e, principalmente, da distribuição, ainda é um mistério para os alunos. Nos últimos meses, o desespero passou a ser evidente. Com o atraso das bolsas de assistência estudantil, alunos dependentes do auxílio viram-se sem saída. É aterrorizante pensar
que um dos motivos da evasão estudantil na academia seja o corte de recursos destinados à permanência de alunos de baixa renda. Estamos falando de universitários que, de mãos atadas, escolhem voltar para suas cidades porque falta comida. Vulnerabilidade é ter que escolher entre a passagem de ônibus e ficar sem comer ou caminhar inúmeros quilômetros até sua casa e almoçar – porque o ônibus e a comida, sem a assistência estudantil, podem não ser possíveis. Para 2018, há previsão de mais contingenciamento de verbas pelo Ministério da Educação, e desde já, é preciso contestar: qual será o futuro da nossa universidade?
CHARGE//CAROLINA F. CUNHA
"Macumbeira"
O racismo é perverso em diferentes níveis e fases de vida das pessoas negras. No ambiente escolar, logo no início da infância, período no qual formamos nossa identidade, somos expostos a essa violência na relação entre professores e alunos, em situações como o subjugamento da capacidade intelectual, valor social e perspectiva de futuro. Estendendo o debate para o ambiente acadêmico, já presenciei diversos relatos que denunciam a prática nas universidades e já passei por muitos episódios. Desde um simples desdém após um questionamento feito em sala de aula até o sarcasmo na forma de tratar um
aluno negro, esses são eventos que se expressam como formas de silenciar a nossa voz. É preciso nos fortalecer enquanto grupo! A construção da identidade negra nem sempre vem cedo, ela pode ser lenta, dolorida, um processo que leva meses, anos. Ter semelhantes por perto para apoiar, dar suporte nos momentos em que nos sentirmos fracos e prontos para desistir, é essencial para enfrentar os dilemas na vida de um preto, principalmente os vividos no ambiente escolar e acadêmico, que insiste em nos excluir de diversas formas. Ubuntu, nós por nós, pretos e pretas!
ESTEREÓTIPOS "Pra casar"
"Incapaz"
JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (UFU) Reitor Valder Steffen Jr - Diretor da Faced Rafael Duarte Oliveira Venâncio - Coordenador do Curso de Jornalismo Gerson de Souza - Professores Responsáveis Felipe Saldanha, Ivanise de Andrade, Vanessa Matos, Vinicius de Souza - Jornalista responsável: Vanessa Matos (MTB 50.456) - Revisão: Ivanise de Andrade - Editoras-Chefe Mariana Solis, Mariana Oliveira Editores de Sessões Ana Laura França Marques, Anatália Amorim, Bianca Mundim Felix, Caio Roberto, Gabriela Bonatto, Gustavo Ribeiro, Marco Túlio Silva, Maria Carolina Frigo Maschio Repórteres Ana Júlia Gotardelo, Ana Luiza Costa, Bárbara Santa Olalia Fernandes, Carolina Fernandes Cunha, Cassiana Batista, Daniel Gonzaga, Giovanna Caldeira Tedeschi, Guilherme Dezopa, Isabela Cardoso, João Pedro Alves, Juliana Tobias, Melissa Ribeiro, Pedro Vítor Vieira, Raphaela Augusta, Richard Eduardo Militão, Rosângela Gomes Daniel, Thaís Angerami, Vinicius Silva de Oliveira, Zilá Carvalho - Tiragem 2000 exemplares Impressão Imprensa Universitária - Gráfica UFU sensoincomumufu@gmail.com www.sensoincomum.net
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COTIDIANO
Estudantes buscam opções de moradia próximas à UFU Vindos de outras cidades, alunos relatam as escolhas, desafios e processo de mudança para Uberlândia ELOISA ROCHA E MELISSA RIBEIRO Casas de familiares, pensionatos, apartamentos e repúblicas estão entre as opções dos recém-chegados a Uberlândia, após serem aprovados nos processos seletivos para ingresso na UFU. O Senso Incomum conversou com alunos que vieram de outras cidades para entender como funciona todo o processo de mudança, desde a escolha de um local para viver até as principais dificuldades. A estudante Iannaya Mota (19 anos) é da cidade de Pirassununga (SP) e cursa Psicologia na UFU. Ela conta que veio para Uberlândia e optou por morar em um pensionato, onde ficou por um ano. Após esse período, mudou-se para um apartamento. “Meus pais decidiram comprar [o imóvel] como forma de investimento, tendo em vista que eles consideram pagar aluguel um dinheiro jogado fora”, conta.
A família de Iannaya Mota é uma exceção. Segundo a corretora Mariana Rodrigues, que atua no mercado imobiliário há mais de 12 anos, a preferência pelo aluguel está em primeiro lugar na opção dos pais e estudantes. “É raro os pais optarem pela compra de imóveis”, afirma. A escolha por pensionatos também é outra opção frequente dos estudantes. Geovana Soares, (19 anos), é natural de Buritizeiro (MG) e mudouse para Uberlândia no ano passado para cursar Direito. Além de ter se deparado com dificuldades para encontrar moradia, ela tinha alguns receios, pois várias pessoas diziam que as moradoras não respeitavam a privacidade umas das outras nos pensionatos ou repúblicas – o que não foi o caso dela. “Nos dois lugares pelos quais passei, tive muita sorte. Amo todas as meninas
que moram comigo, é como ter uma família fora de casa”. Outra alternativa oferecida aos discentes são as repúblicas. É o caso do estudante de Ciências da Computação Marcelo Nasser (27 anos). Nascido em Jacuí (MG), ele veio para Uberlândia em 2012. Em pouco tempo, iniciou a procura por vagas em repúblicas, pois este sempre foi um desejo pessoal. “Durante minhas buscas, encontrei a Taverna, que é onde moro atualmente. Fiz a entrevista com os moradores, pois eles não aceitam qualquer pessoa na casa. Fui na sorte e acabei conseguindo a vaga”, relata. Ele conta ainda que o apoio entre os colegas da casa é fundamental. “Se eu não tivesse morado na Taverna, não estaria concluindo meu curso. Aqui é minha segunda família, sem isso eu não seria o mesmo”.
COMO ALUGAR? A corretora Mariana Rodrigues explica que o primeiro passo para o estudante alugar um apartamento é a visita para a escolha do imóvel. Com o lugar escolhido, é entregue a lista de documentos exigidos para locação. “O locatário não pode ter restrições em seu nome. É necessário ter um fiador e que ambos possuam uma renda três vezes maior que o valor do aluguel”, esclareceu a corretora. Porém, na imobiliária em que Rodrigues trabalha, quando o locatário for o próprio estudante, não é preciso que ele tenha renda fixa, apenas o fiador.
EM REPÚBLICA AO LADO DA UFU, 17 ALUNOS DE DIVERSOS CURSOS OCUPAM SETE QUARTOS • FOTO: ARQUIVO PESSOAL
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COTIDIANO
Rivalidade entre atléticas da UFU extrapola o espírito esportivo visto nas quadras A competição saudável é incentivada, mas casos recentes mostram que esse estímulo vem sendo confundido com violência JULIANA TOBIAS a rivalidade como forma de motivação para os atletas e torcida”. Mas a competição entre atléticas não fica só em quadra. A Atlética Monetária, neste ano, lançou como campanha para a Olimpíada o slogan: “Orgulhosos de não sermos como vocês”, fazendo referência à AAA Engenharia. Caetano diz que a principal motivação para essa campanha foram as atitudes tomadas por parte de membros da atlética mencionada, que, de acordo com ele, são sexistas, racistas e homofóbicas. “Independentemente de termos perdido dois anos seguidos para eles, preferimos perder para sempre a sermos como eles”, conclui o estudante. Já o atleta de handebol e de basquete pela AAA Humanas, Vinícius Maruschi, acredita que a rivalidade entre as atléticas nas competições tem pontos positivos e negativos dentro e fora de quadra. “Assim como o jogador sente mais vontade de vencer para mostrar que é melhor, também acabam acontecendo cenas lamentáveis como brigas e agressões durante os jogos, simplesmente porque uma atlética é historicamente rival da outra”, conta.
DURANTE JOGOS, TORCEDORES ENTOAM GRITOS DE APOIO A SUAS EQUIPES, A FIM DE INTIMIDAR ADVERSÁRIOS • FOTO: MONETÁRIA/ARQUIVO
Todos os anos, as Associações Atléticas Acadêmicas (AAA) da UFU reúnem seus atletas e torcidas para participar da Olimpíada Universitária. A disputa, porém, não acontece apenas nas quadras e o espírito esportivo nem sempre reina nas competições, acirrando a rivalidade histórica entre os grupos. O vice-presidente da Atlética Engenharia, Frederico Maradei, afirma: “Nós, da Engenharia, incentivamos sim a rivalidade, mas uma rivalidade que existe desde sempre. O que foi passado para nós é essa tradição, e com certeza passaremos para as próximas gerações”. O presidente da Atlética Monetária, Henrique Caetano, concorda. “Nós realmente incentivamos
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“
O espírito de rivalidade não significa violência de nenhuma forma. (Eduardo Santos)
Outro caso de rivalidade que extrapolou as arquibancadas dos jogos aconteceu em outubro deste ano, às vésperas da Olimpíada UFU. A sede da AAA Computação foi invadida, o que acabou prejudicando a atlética nas competições. O autor, ainda não identificado, arrombou a porta e espalhou pó de extintor por toda a sala. “Perdemos muitos uniformes, que não conseguimos recuperar por conta do pó”, relata a vice-presidente da atlética, Izabela Maestri.
Segundo ela, por causa disso, a atlética teve que encontrar outras soluções. “Estamos nos virando com alguns uniformes que conseguimos. Não são os melhores nem os oficiais de competição, mas já dá pra quebrar um galho”, completa. Ela acredita que o ataque foi feito com a finalidade de prejudicar a entidade, porém, optou por não acusar ninguém, devido à falta de provas. A Divisão de Esporte e Lazer Universitário (Diesu) foi questionada sobre o ocorrido, mas não se manifestou. Para o professor da Faculdade de Educação Física (Faefi) da UFU, Eduardo Santos, apesar de a rivalidade poder servir de motivação aos atletas, ela não deve ser a principal forma. “O maior incentivo a um atleta deve ser o gosto pelo esporte, competir e vencer os limites”, relata. O professor ressalta a importância de delimitar a disputa ao ambiente de competição e reforça: “O espírito de rivalidade não significa violência de nenhuma forma.”
REGULAMENTO GERAL DA OLIMPÍADA Segundo o artigo 80, “qualquer tipo de agressão física à Coordenação, atleta ou dirigente cometida por atleta, dirigente ou comissão técnica inscrito na Olimpíada Universitária 2017 será punida com a imediata eliminação da competição, não cabendo recurso”. Entretanto, Luiz Fernando Guimarães, técnico desportivo da Diesu, afirmou por telefone que o setor só se responsabiliza por agressões entre alunos dentro do campus Educação Física e durante o período de jogos. Em quaisquer casos que fujam a essas circunstâncias, a polícia deve ser acionada. As denúncias referentes a atléticas e eventos esportivos podem ser realizadas pelo e-mail diesu@proae.ufu.br ou pelo telefone (34) 3218-2959.
COTIDIANO
Alunos realizam práticas religiosas na UFU Grupos vêem na universidade um espaço para seus encontros, enquanto outros estudantes questionam a laicidade da instituição
CAROLINA FERNANDES CUNHA
ILUSTRAÇÃO: CAROLINA FERNANDES CUNHA
É comum o estranhamento entre ciência e religião dentro da universidade. Na UFU, enquanto parte dos alunos pertence a grupos religiosos e apontam benefícios da prática, outros creem que ela incomoda e toma espaço do saber científico. A instituição se mantém neutra e o conflito continua. Grupos religiosos de iniciativa estudantil se reúnem em diferentes espaços dos campi e divulgam seus encontros por meio de panfletos e das redes sociais. O Grupo Espírita Universitário (GEU), a Aliança Bíblica Universitária (ABU), de origem protestante, e o Grupo de Oração Universitário (GOU), católico, são alguns deles. A professora especializada em Antropologia das Religiões, Claudia Wolff, explica que os jovens são quem mais se declaram sem religião. “Nessa fase da vida, há um distanciamento em relação às práticas religiosas, geralmente herdadas da família”, afirma. De acordo com o Censo 2010, 10,6% das pessoas de 20 a 24 anos se declaram sem religião. Apesar disso, alguns jovens universitários apontam benefícios advindos da prática religiosa. A estudante de pós-graduação em Engenharia Elétrica, católica e membro do GOU, Bárbara Miranda, ressalta a importância do grupo religioso: “A vida universitária exige muito de nós e o GOU
sempre foi meu porto seguro, minha segunda família”. A função da religiosidade na universidade, para o estudante de Filosofia e candomblecista Pablo Prado, é a de apoio psicológico. “O percurso acadêmico pode ser exaustivo por uma série de motivos, como a incerteza do futuro, a dificuldade de socialização, a independência, o início da vida sexual, o contato com o álcool e outras drogas, a depressão etc”. Thiago Cardoso, discente de Pedagogia, espírita e coordenador do GEU, declara: “É necessário que acreditemos em coisas além das relacionadas à questão materialista da carreira, de títulos e benefícios imediatistas.” A estudante de Jornalismo Elaíny Carmona, umbandista, relata que começou a ter ansiedade durante a graduação e piorou a ponto de não conseguir se relacionar com pessoas por bastante tempo. “Realmente senti uma melhora em diversas questões psicológicas depois de começar a frequentar [a umbanda]. Dá uma sensação maior de que você não está sozinho”, afirma. CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO O conflito não é novo. “Podemos falar de uma tensão entre ciência e religião ao longo da história da sociedade ocidental. Os critérios de validade propostos pela ciência são diferentes dos critérios de validade presentes nas religiões, mas ambas pretendem produzir verdades”, explica a professora Cláudia Wolff. O Código de Ética da UFU, aprovado pela Comissão de Ética Pública (Comep), recomenda que a universidade deve ser laica, isto é, não deve tomar posição ante às religiões. De acordo com a procuradora-chefe da universidade, Bianca Duarte Teixeira Lobato, a principal fonte do princípio de laicidade da instituição é extraído do texto da Constituição Federal de 1988, que prevê a separação entre Estado e Igreja.
O estudante de licenciatura em Física, Weligton Nogueira, ateu, acredita que não seja um problema se alguém quiser usar um local da universidade para reuniões religiosas, desde que não incomode outras pessoas. “Mas, se ele quer levar isso para dentro da sala de aula, é errado. Assim como é errado eu ensinar o ateísmo dentro de uma escola ou falar que Deus é errado. Eu não tenho esse direito”, opina. INTOLERÂNCIA O estudante Pablo Prado ressalta a falta de representatividade das religiões de matriz africana na universidade: “[Isso ocorre] não porque não existem universitários candomblecistas, por exemplo, ou porque não queremos, mas porque não nos sentimos bem-vindos neste espaço”. Ele diz que sofre com constrangimentos que podem ser percebidos no olhar de espanto e repulsa das pessoas, em cochichos e em risadas. “Nada me assegura que minha expressão religiosa vai ser respeitada na universidade”, conclui.
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Nos ridicularizam como se fôssemos pessoas “bitoladas”. (Bárbara Nogueira)
Bárbara Miranda também lembra casos de intolerância enquanto pregava cartazes do GOU pela UFU: “Algumas pessoas fizeram comentários um pouco desrespeitosos e já arrancaram os cartazes. Nos ridicularizam como se fossemos pessoas ‘bitoladas’”, lamenta. Denúncias de intolerância ou preconceito religioso na UFU podem ser feitas por meio da Ouvidoria Geral pelo número (34) 3239-4074 ou pelo e-mail ouvidoria@reito.ufu.br.
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ESPECIAL
Orçamento de 2018 desafia permanência de alunos Previsão orçamentária do Pnaes para 2018 tem redução de R$ 1,8 milhão; ainda há receio de contingenciamento ANA LUIZA COSTA E BÁRBARA FERNANDES A projeção do cenário econômico tem causado preocupações acerca dos desafios que as comunidades acadêmicas terão de enfrentar no próximo ano. No planejamento or-
çamentário da UFU para 2018, está prevista diminuição nos valores dos repasses financeiros destinados à universidade. Entre as reduções, para o próximo ano na UFU, está a
verba de investimentos, que passará de R$ 19,2 milhões, em 2017, para R$ 16,5 milhões em 2018. No entanto, o mais grave para os universitários é a redução de mais de
ALUNOS SE PREOCUPAM COM SEU FUTURO E PERMANÊNCIA NA UNIVERSIDADE • MONTAGEM FOTOGRÁFICA: BÁRBARA FERNANDES
R$ 1,8 milhão no orçamento do Programa de Assistência Estudantil (Pnaes) para a UFU, destinado a bolsas de assistência e manutenção dos restaurantes, das moradias estudantis e também de ações de esporte, lazer, saúde, apoio pedagógico e transporte. Para esse ano, por exemplo, a lei orçamentária havia destinado mais de R$ 21 milhões para a universidade por meio do programa, sendo metade desse montante para pagamento de bolsas. Do total do Pnaes que iria para investimentos, 70% nem chegou a ser liberado pelo Ministério da Educação (MEC). A preocupação, hoje, é que, mesmo com um planejamento orçamentário, os cortes de verbas pelo governo federal continuem, o que gera incertezas quanto ao futuro. O reitor da UFU, Valder Steffen, admite que, para o ano que vem, a maior parte dos recursos de capital ficarão com o MEC e não serão distribuídos para as universidades. “Isso preocupa porque, evidentemente, a UFU perde autonomia na utilização desses recursos”, explica. Ele ainda esclarece que há uma preocupação com o financiamento do programa de assistência estudantil, uma vez que há um crescimento significativo desse gasto da universidade. Segundo Leonardo Barbosa e Silva, economista e sociólogo, o Brasil vive uma crise econômica que, em parte, tem desdobramentos políticos, uma vez que o governo tem re-
ESPECIAL duzido gastos em programas de assistência social. Em consequência disso, o professor explica que universidades públicas viverão mais um ano de pouquíssimos recursos financeiros. Ainda de acordo com ele, além da redução de verbas para a melhoria do espaço físico e a diminuição no número de bolsas de graduação, pesquisa e extensão, a perda passa a ser maior para os estudantes que dependem de assistência estudantil para permanecer na universidade. “Todo o esforço do movimento de expansão e democratização da universidade passa a ser vítima de uma regressão”, pontua Silva. IMPACTO PARA OS ESTUDANTES De acordo com Noriel Viana Pereira, diretor de Inclusão, Promoção e Assistência Estudantil, em vista da falta de recursos para pagamento das bolsas de assistência, haverá mais rigor no acompanhamento daqueles que já recebem o auxílio. A Proae iniciará o controle mais atento das condições de permanência das bolsas, que já são descritas nas Resoluções que regulamentam a política de assistência estudantil na UFU. São elas: CRA acima de 60, matrícula em pelo menos três componentes curriculares e aprovação em 70% das disciplinas do semestre anterior. Embora Pereira afirme que não haja previsão de redução no número de bolsas por questões orçamentárias, ele admite que o montante destinado a eles na UFU está no limite. Como consequência, o diretor declara que o auxílio tem sido destinado apenas aos alunos com renda familiar inferior a um salário mínimo, descumprindo determinação do Pnaes que estabelece que a assistência deve atender também a estudantes que tenham renda abaixo de um salário mínimo e meio. “Primeiro serão disponibilizadas bolsas para alunos da classe ‘E’ e depois, havendo vagas, para a classe ‘D’”, justifica.
Uma das mudanças na assistência estudantil que já afetou os alunos foi o atraso na seleção de novos bolsistas do segundo semestre deste ano. A estudante do primeiro período de Biotecnologia, Luiza Ferreira dos Santos, relata que desde a época do vestibular o dinheiro já era contado. Na teoria, ela receberia a bolsa fornecida pela UFU para se manter durante a graduação. Entretanto, de acordo com a estudante, desde seu ingresso na universidade até novembro nenhuma assistência havia sido prestada. Em resposta ao problema no atraso na seleção de bolsistas, Pereira diz que as avaliações socioeconômicas do edital ainda não haviam sido concluídas. Isso se deve à grande demanda recebida pela Divisão de Assistência e Orientação Social (Diase) e ao baixo número de funcionários para realizá-las. O estudante Carlos Eduardo, do curso de Gestão em Saúde Ambiental, recebe bolsa moradia fornecida pela UFU e afirma que esse ano houve atraso do auxílio, causando vários transtornos. “É comum para as pessoas que dependem desse dinheiro o atraso em contas e até mesmo falta da alimentação”, relata. Ele explica que, como está se formando, as previsões de novos cortes não o afetam, mas que conhece muitas pessoas que dependem desse dinheiro para permanência na universidade e que isso pode significar prejuízo no rendimento acadêmico delas. PLANEJAMENTOS FUTUROS Em relação aos Restaurantes Universitários, Noriel Pereira informa que o processo de planejamento para a gestão do próximo ano ainda está em andamento e que os investimentos futuros estão sendo calculados, uma vez que apenas os gastos com restaurantes da UFU somaram mais de R$ 8,5 milhões este ano. A Pró-reitoria de Planejamento e Administração (Proplad) foi consultada pela equipe do Senso Incomum acerca das estratégias que a UFU
pretende adotar para a gestão no próximo ano, mas não se manifestou. O pró-reitor Darizon Alves de Andrade estava em férias e seu substituto, Odorico Coelho da Costa Neto, não respondeu aos questionamentos. Apesar de o planejamento orçamentário para 2018 já ter sido elaborado, a situação financeira da UFU ainda se mostra repleta de in-
certezas, uma vez que não há qualquer garantia de que os recursos necessários para custeio, investimentos e bolsas serão repassados pelo governo federal. O reitor reconhece os desafios que estão por vir. “Nossa previsão é que tenhamos dificuldade para 2018, mas o cenário ainda não está totalmente delimitado”, afirma Steffen.
SITUAÇÃO ORÇAMENTÁRIA DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS
PERDAS ORÇAMENTÁRIAS EM 2017 O ano de 2017 representou perdas orçamentárias comparado ao de 2016. Entre os projetos que sofreram com essa redução, estão o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), com diminuição de 10%, e o Programa de Assistência Estudantil (Pnaes), que encolheu 3,15%.
ORÇAMENTO DE CUSTEIO PARA 2018 No planejamento orçamentário do próximo ano, a verba de custeio mantém os mesmos valores da matriz de 2017, reduzindo o Reuni em aproximadamente 11%, além de não recompor a inflação do ano e desconsiderar a expansão do sistema.
Fonte: Fórum de Pró-reitores de planejamento e Administração das Instituições Federais de Ensino Superior (Forplad)
ECONOMIAS
Alunos complementam renda com comércio informal Vendas de salgados e doces são opções dos discentes para conciliar carga horária de trabalho e estudos ISABELA CARDOSO Para conseguir um dinheiro extra, estudantes da UFU investem no comércio informal de alimentos dentro da instituição. A prática é motivada por diferentes razões e vem se popularizando entre os estudantes. Todos os dias, alunos ficam em frente ao Restaurante Universitário e em outros locais da universidade vendendo seus produtos. Jordan Adão Coelho dos Santos, estudante do curso de Direito, é um desses comerciantes. Vendedor de brigadeiros, ele começou a prática há um ano para realizar viagens mensais até a cidade da então namorada, mas agora usa o dinheiro como um complemento de renda. “Devido à carga de matérias do meu curso, é difícil conciliar um emprego e a faculdade”, conta. Brenda Carolina de Carvalho Gomes, do curso de Engenharia Química, usa a verba arrecadada para despesas gerais. “Me casei há pouco tempo e, como estudo em período integral, não consigo trabalhar. Assim, vendo trufas e o lucro eu uso para comprar coisas de que preciso na faculdade e também para minha casa”, explica Gomes. Ela, que tem um rendimento semanal de R$ 200, produz os doces aos finais de semana e gasta 50% de seu faturamento com os ingredientes. "Em um dia com muito movimento, vendo 50 por dia. Os preços variam de R$ 1 a 1,50". A situação é parecida com a vivida por Romilda Evangelista. Mãe de Juliana Izabel Evangelista, estudante de Jornalismo na UFU, Romilda produz salgados e quitandas que são vendidos por sua filha na faculdade entre R$ 1 e 4, e usa o dinheiro extra para cobrir despesas básicas há cerca de seis meses. “Amo culinária e precisava aumentar a renda, então resolvi trabalhar com algo que para mim é prazeroso e tem dado certo”, conta. Além de pagar contas como aluguel, luz e água, ela também ajuda Juliana a fazer o curso de língua inglesa da Central de Línguas da UFU, que é pago. Segundo Romilda, são vendidos 40 salgados por dia, o que gera um lucro de R$ 60. As vendas são bem aceitas pelos demais discentes. Rafaela Botelho, aluna de Engenharia Civil, destaca que, além da praticidade, esses alimentos são mais baratos do que nas lanchone-
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NA SAÍDA DO RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO, DOCES COM PREÇO MAIS BAIXO SÃO OPÇÕES • FOTO: ISABELA CARDOSO
tes dentro da Universidade. Amanda Araújo de Assis, estudante de Agronomia, vê nas vendas informais uma maneira rápida e acessível de se alimentar. SITUAÇÃO LEGAL Além das vendas feitas por alunos, a UFU abriga hoje cinco estabelecimentos autorizados a produzir e vender alimentos. A Tenda do Café é um deles. Sua gerente, que preferiu não se identificar, diz que o comércio de alimentos entre os estudantes não afeta as vendas. “Acredito que quando há eventos, como feiras e encontros de food truck, a competição é maior”, diz ela. Opinião compartilhada por Adegmar da Silva, proprietária do café Chega Mais, outro comércio autorizado que serve discentes e servidores. “O problema não são os alunos vendedores, mas
sim aqueles que vêm ‘de fora’ e comercializam, às vezes, produtos iguais aos nossos por um preço muito abaixo, e não possuem as mesmas despesas que nós”, conta ela. José Maria Caixeta, proprietário da lanchonete LOL Café, localizada no bloco 3Q do campus Santa Mônica, acredita que exista certa concorrência, mas até hoje não se sentiu atingido, devido ao grande número de consumidores que frequentam a universidade. A Prefeitura Universitária é responsável pelos editais, licitações e autorização de vendas alimentícias na UFU. Procurado, o orgão não respondeu questões como a proibição ou não do comércio feito pelos discentes e o processo ao qual as lanchonetes devem submeter-se para serem autorizadas a fornecer alimentos na Instituição.
ESPORTES
Olímpiada UFU mobiliza vizinhos no entorno do Educa Todo ano, queixas motivam debates entre moradores e participantes do evento: há quem reclame e quem se beneficie RICHARD MILITÃO ROCHA
A FESTA IMPROVISADA PELOS UNIVERSITÁRIOS É O PESADELO DOS MORADORES DA REGIÃO NO PERÍODO DE JOGOS • FOTO: RICHARD MILITÃO ROCHA
A Olimpíada Universitária da UFU é um dos principais eventos esportivos do Triângulo Mineiro. Neste ano, foram inscritas 23 associações acadêmicas dos campi de Uberlândia, Patos de Minas, Ituiutaba e Monte Carmelo, totalizando mais de 2.300 atletas envolvidos, de acordo com a Divisão de Esportes e Lazer Universitário (Diesu). A maior parte das competições entre as atléticas acontece no campus Educação Física (Educa), localizado em Uberlândia. No entanto, todos os anos a polêmica se repete: moradores se queixam do barulho e da sujeira deixada pelos estudantes durante o período dos jogos, que acontecem nos últimos meses do ano letivo. Em 2017, a Olimpíada aconteceu aos sábados e domingos, de 10 de novembro a 10 de dezembro. Em um simples fim de semana de jogos, passam pelo Educa cerca de 3.500 pessoas, entre atletas e torcedores. Além das competições realizadas dentro do campus, muitos jovens ficam do lado de fora dos ginásios. Lá, eles impedem o trânsito, fazem barulho, perturbam a
vizinhança durante a tarde e até o final da noite e também sujam toda a rua e a frente das casas dos moradores. Essas são algumas atitudes que incomodam os vizinhos do campus. Teresa Souza, moradora do bairro há mais de 40 anos, reclama: “Eles podiam só jogar, sem ficar com essa bagunça na rua”. Em contrapartida, outros residentes do entorno se beneficiam dos jogos. É o caso do comerciante José Carlos Gomes da Rocha (48 anos), que vende sanduíches no bairro há três anos e meio. Durante o evento, ele recepciona atletas e torcedores que estão nas quadras. Rocha ressalta os pontos positivos da competição. “Para mim, esse período de Olimpíada é muito bom, eu procuro aproveitar. O lucro durante os jogos é muito maior. Atendo os clientes até os finais de todas as partidas”, relata. Apesar dos benefícios, ele reconhece também que, para a vizinhança, o período após o término das competições do dia é bem conturbado. “A bebedeira incomoda e eles fazem xixi no portão dos outros”, exemplifica.
ORGANIZAÇÃO Segundo informações da Diesu, a organização do evento não tem nenhuma responsabilidade sobre os acontecimentos pós-jogos localizados fora do Educa. Dessa forma, os moradores precisam se organizar coletivamente para fazer as devidas reclamações em relação às festividades ao redor de suas residências. Eles podem acionar a Polícia Militar e a Secretaria de Trânsito e Transportes (Settran), que, neste ano, fizeram parceria com o comitê organizador da Olimpíada Universitária em virtude da submissão do evento à Comissão de Monitoramento da Violência em Eventos Esportivos e Culturais (Comoveec). Essa comissão existe desde 2009 e é gerenciada pela Prefeitura de Uberlândia. Ela tem como principal objetivo incentivar a integração de órgãos responsáveis pela segurança, contribuindo para a diminuição de atos de vandalismo. Também busca assegurar o bem-estar da coletividade, antes, durante e após a realização desses eventos no município.
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EXPERIMENTOS
Surdos enfrentam dificuldades para entrar e se formar na UFU Universidade conta com apenas sete discentes com deficiência auditiva: quatro na graduação e três na pós GIOVANNA TEDESCHI A educação de pessoas surdas é uma das áreas que necessita de melhorias e acessibilidade no Brasil. Na UFU, são poucos os discentes que possuem deficiência auditiva e conseguem ingressar e permanecer na instituição, em razão de dificuldades dentro da própria universidade, como a falta de intérpretes, e também na educação básica e nos vestibulares, que, em sua maioria, não oferecem o suporte necessário para a realização da prova. A professora Eliamar Godoi, coordenadora do Centro de Ensino, Pesquisa, Extensão e Atendimento em Educação Especial (Cepae), reforça que o problema não se encontra apenas na educação superior. “E claro que é pungente propiciar condições de acessibilidade para o surdo nos vestibulares, e nós estamos trabalhando para isso. Mas, no meu ponto de vista, seria preciso um investimento maior na escola básica, para que o surdo consiga ter uma base razoável e tenha êxito tanto nos anos finais do Ensino Fundamental, quanto no Ensino Médio”, opina. Muitas vezes, tanto na escola quanto na universidade, a falta de intérpretes que possam acompanhar os alunos durante as aulas é uma realidade. Por isso, tanta complexidade no ensino: é difícil para o estudante surdo que foi alfabetizado em Libras compreender conteúdos em português, um idioma que não é seu nativo e que tem uma estrutura gramatical completamente diferente. Nesses momentos, se fazem necessários órgãos especializados para atendimento pedagógico desses indivíduos. Godoi explica que a função do Cepae é viabilizar a acessibilidade da pessoa com deficiência dentro da academia. “O Cepae oferece intérprete de Libras para sala de aula e atividades de orientação, além de acompanhamento de monitorias para os alunos surdos”, descreve. Sarah Takada, (27 anos), é estudante do curso de Pedagogia da UFU e surda. Para a aluna, o trabalho do Cepae oferece bastante auxílio dentro da universidade. Ela afirma que até por volta de três anos atrás era muito difícil conseguir intérpretes, mas desde então, por meio do diálogo
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SARAH TAKADA PRECISOU DE UM INTÉRPRETE DE LIBRAS PARA FALAR AO SENSO INCOMUM • FOTO: ELOISA ROCHA
com o Cepae, tem havido uma melhoria. Apesar disso, a estudante critica a acessibilidade de eventos promovidos pela universidade. “O Cepae ajuda, mas, infelizmente, em eventos como o Vem Pra UFU, só há o foco no português. Como se faz com o surdo?”, questiona. A professora Godoi acredita que a situação prejudicial abrange todas as categorias de alunos e todo o contexto educacional do país. “O que ocorre é que o processo de inclusão da pessoa com deficiência está caminhando. As instituições ainda estão se preparando para receber essas pessoas com qualidade”. Takada conta que, quando estava na escola, tinha problemas para compreender os conteúdos. Suas dúvidas só eram resolvidas no período da tarde, quando tinha acesso à Educação Especial. “No AEE [Atendimento Educacional Especializado], usavam a língua de sinais, faziam algumas adaptações e eu entendia mais claramente dessa maneira, principalmente matemática”, relata.
Godoi acredita que a resolução inicial para os problemas enfrentados pelos deficientes seria uma mobilização da sociedade por meio de profissionais que participam da Educação Especial, ramo que atende deficientes em ambientes pedagógicos. De acordo com ela, foi muito significativa a criação do curso de Letras com habilitação em Libras na UFU em 2013, uma vez que, além da formação de mais falantes da língua, é uma maneira de exercitar a inclusão e viabilizar a acessibilidade dentro da instituição. A professora diz ainda que, apesar de a língua de sinais não estar presente no currículo da escola básica, é importante que os professores conheçam o idioma, para receberem os alunos surdos na sala regular de ensino. “A possibilidade de habilitar o professor é fundamental nessa perspectiva, tanto no ensino e na aprendizagem da Libras quanto também na perspectiva da difusão da língua. E isso que prevê a lei nº 10.436/ 2002, que regulamenta a Língua Brasileira de Sinais”, afirma.
CULTURA
Coral da UFU comemora 40 anos Desde 1979, o projeto trabalha estilos musicais variados e leva espetáculos gratuitos a diversas cidades ZILÁ CARVALHO O Coral da UFU celebrou, nos dias 9 e 10 de novembro, a trajetória de quatro décadas marcadas por inúmeras cantorias, produções operísticas, missas e concertos. 37 participantes do coral, sendo sete alunos da UFU e 30 membros da comunidade, realizaram o espetáculo “Uma Ópera aos 40!”, que lotou o Teatro Municipal de Uberlândia, resgatando a estilística musical diversa, um dos atrativos do grupo. O Coral foi criado em 1977 por Carlos Alberto Storti, então professor do Departamento de Formação Musical e, desde 1979, é regido pela professora Edmar Ferretti, soprano de renome internacional. Atualmente, a iniciativa está ligada à Diretoria de Cultura (Dicult) da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc) e tem sua sede própria no número 285 da Avenida Duque de Caxias, centro de Uberlândia. Por ser um projeto de extensão, há participação de membros da comunidade que não precisam ser músicos: apenas realizam um teste gratuito com o Coral para descobrir em qual naipe vocal cada voz mais bem se encaixa. A partir disso, passam a acompanhar os exercícios técnicos e os ensaios, podendo integrar as apresentações à medida que absorvem o repertório. A UFU apoia financeiramente o Coral, disponibilizando vale-transporte para os membros que precisam, pró-labores anuais pelas apresentações e auxílio nas compras e reposições dos materiais necessários. Entretanto, os membros também contam com apoio de empresas que contribuem pontualmente. O estudante de Música e estagiário do Coral da UFU, Bruno Caldeira (21 anos), interessou-se em participar por causa da variedade de gêneros trabalhados, que inclui música popular brasileira, clássica erudita, renascentista e contemporânea. “Os estudantes de música aprendem muito com o Coral, sendo uma experiência positiva para o crescimento profissional e pessoal. Além disso, temos uma recepção maravilhosa do público, em todas as apresentações. O Coral tem um público cativo, as pessoas amam”. O grupo é convidado para se apresentar em muitas cidades e tenta atender os chamados, com espetáculos sempre gratuitos.
Caldeira comenta que os regentes do Coral são muito atenciosos com as especificidades de cada estilo. Assim, os estudantes de música podem aprender muito e vivenciar uma experiência positiva para o crescimento profissional e pessoal. Um dos membros do coral, o artista Hugo Arbex (23 anos) conheceu muitas obras históricas do canto acompanhando sua mãe nos ensaios e apresentações, até que se tornou parte do grupo também. “Muitas vezes, cantar e apreciar óperas, operetas e demais estilos de canto erudito é motivo de riso e desinteresse entre pessoas da minha idade”, conta. Arbex relata ter aprendido sobre a importância de sua voz convivendo com obras clássicas, colegas de diferentes idades e timbres, além de perceber como sua participação é essencial para a composição de algo maior. O fato de o Coral incluir pessoas que não são parte do ambiente universitário é um grande passo em direção à democratização da cultura. A
música erudita, durante muito tempo, foi vista como uma manifestação cultural elitista, que não dialogava com a sociedade em geral. Entretanto, a diversidade é facilmente percebida no Coral através das classes sociais, crenças religiosas e etnias, como afirma Arbex. O regente assistente contratado Jôfre Goulart (30 anos), que ingressou no Coral aos 13 anos, comenta sobre os benefícios da música para os participantes e para os ouvintes. “As apresentações familiarizam o pessoal com a linguagem e leitura musical, além de contribuir para o desenvolvimento individual dos participantes, que vão perdendo a timidez enquanto lidam com o palco.” Para ele, os envolvidos no Coral desenvolvem a noção de espaço social e coletividade através da busca por um objetivo comum. Tal consciência do espaço social é sentida quando o produto de muito esforço, que é o espetáculo, é levado para a plateia, que interage com o coro por meio dos merecidos aplausos.
O ESPETÁCULO "UMA ÓPERA AOS 40!" FOI REALIZADO EM COMEMORAÇÃO AO ANIVERSÁRIO DE 40 ANOS DO PROJETO • FOTO: ITAMAR MEDEIROS
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DIVERSIDADE
Filmes e séries auxiliam no aprendizado universitário De modo lúdico, obras cinematográficas funcionam como complemento aos estudos THAÍS DEGANI ANGERAMI Produções audiovisuais como filmes, seriados e documentários podem agregar aos alunos conhecimentos e reflexões que extravasam os muros da universidade. As obras passam as impressões do tempo e espaço em que foram gravadas, permitindo análises, embate de ideias e comparações com a atualidade. A professora da Faculdade de Educação (Faced) e doutora em Educação, Aléxia Pádua Franco, afirma: “A universidade, com a formação dos mais diversos tipos de profissionais, não pode desconsiderar os vários conhecimentos que circulam socialmente, entre eles os que circulam nas produções audiovisuais”. Por isso, a especialista destaca a importância dessa prática, uma vez que a realidade, hoje, é de uma multiplicidade de linguagens, não apenas a escrita, geralmente mais valorizada no meio acadêmico. As produções podem ser utilizadas, por exemplo, para os espectadores repararem como homens e mulheres representavam dilemas da
sociedade em diferentes épocas e lugares, e ajudam a perceber como pesquisas científicas são apropriadas por aqueles que estão fora do ambiente onde os estudos são realizados. Para Franco, todo filme, série ou documentário pode ser utilizado por qualquer área do conhecimento. “Depende das questões que eu faço à obra”. Um exemplo é o seriado Black Mirror, que apresenta situações ficcionais envolvendo a relação do homem com a tecnologia (veja box abaixo). A professora mostrou que essa série pode ser utilizada para reflexão em diversas ciências. Por exemplo, as práticas sociais e culturais dessa relação têm importância para o estudo das ciências humanas, enquanto a produção tecnológica é interessante aos alunos das ciências exatas, sobretudo àqueles que atuam na criação de tecnologias. Já a interferência dos eletrônicos no hábito ou no desenvolvimento humano deve servir àqueles das ciências biomédicas. Outro exemplo apresentado pela educadora é
o seriado Dr. House, que mostra a vida de um médico solucionando casos de doenças misteriosas. Segundo ela, os professores das ciências biomédicas podem usar episódios da série para discutir com os alunos o tratamento utilizado e sua viabilidade, além das responsabilidades profissionais. “Estive em um evento recentemente e alguns professores estavam contando como essas séries que mostram o cotidiano hospitalar influenciam nas escolhas do jovens”, conta a especialista. Dessa forma, trazendo este tipo de produção para as aulas, além de “desromantizar” o trabalho médico, o docente promove uma reflexão sobre o futuro acadêmico desses jovens. No entanto, todo o aprendizado só é possível se as produções forem vistas com reflexão. “É necessário, além de assistir, parar pra pensar sobre as obras, considerando as emoções, as sensações, mas também racionalizando-as”, ressalta Aléxia Franco.
ISSO É TÃO BLACK MIRROR! O HINO NACIONAL
ODIADOS PELA NAÇÃO
VERSÃO DE TESTES
Ciências Humanas
Ciências Exatas
Ciências Biomédicas
Temporada 1 - Episódio 1 Na obra, a princesa da Inglaterra é raptada e o preço de sua liberdade é alto demais para o primeiro ministro. O sequestrador exige que ele faça algo constrangedor e grotesco: ter relações sexuais com um porco em rede nacional. A decisão que o ministro terá de tomar e a reação e pressão dos cidadãos serve de base para reflexões sobre a ética e a moral na política e na sociedade.
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Temporada 3 - Episódio 6 No episódio, detetives investigam dispositivos desenvolvidos para solucionar a extinção das abelhas, que na verdade são armas de controle social. A partir da vigilância constante, as abelhas eletrônicas serviam para assassinar pessoas de forma imperceptível. Dessa forma, analisa-se a responsabilidade em desenvolver e criar aparatos tecnológicos, como armas, uma vez que estarão em contato com o humano, interferindo em sua vida.
Fonte: Adoro Cinema. Degani Fonte: Arte: DiesuThaís (UFU) - 2009Angerami a 2016 • Ilustração: Rafael Gomes
Temporada 3 - Episódio 2 O episódio retrata a inserção de uma tecnologia no cérebro de uma pessoa, que projeta visões fictícias em seu cérebro, como uma realidade virtual. No entanto, as sensações que elas produzem são reais, como o medo. A partir disto, é possível reparar como as tecnologias afetam o ser humano enquanto ser vivo, alterando e prejudicando sua saúde.