Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo UFU ano 10 • 47ª edição dezembro de 2019 ESPECIAL DESIGUALDADES
A luta em campo Mulheres que desafiam a misoginia do futebol Páginas 6 e 7
Cotidiano
Saúde
Política
Associação de catadores ajuda meio ambiente por meio da reciclagem
Tabus dificultam diálogo sobre a sexualidade feminina
Ocupação Fidel Castro carrega história que mostra a cara da desigualdade
Página 3
Página 5
Página 8
Senso nº47 Dez/2019
DA REDAÇÃO
ESPECIAL DESIGUALDADES
EDITORIAL//
"Mundo tão desigual, tudo é tão desigual..." O refrão da música “A Novidade” de Gilberto Gil ilustra a desigualdade como um problema social recorrente nas discussões, no que diz respeito às particularidades do Terceiro Mundo, e é um problema enraizado na cultura de países emergentes, como o Brasil, onde o termo vem acompanhado de adjetivos relacionados a “crescimento”. Nesta edição temática, a equipe do SENSO procurou mostrar um recorte das desigualdades do Brasil em Uberlândia, considerada uma cidade próspera e em constante desenvolvimento. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, a partir de 2016, o índice de Gini - cálculo usado para medir a desigualdade social - voltou a crescer, atingindo um aumento em 2018. De toda a renda do país, 40% dela está concentrada nas mãos de 10% da população. Trocando em miúdos, a maioria da população brasileira sofre com o efeito cascata da desigualdade, entre eles a precarização de serviços públicos, o aumento dos preconceitos e a pobreza. Essa edição pretende dar rosto e histórias às desigualdades. O plural da palavra abrange o desequilíbrio que atinge não só o aspecto socioeconômico, mas também o de gênero, raça e o cultural. O objetivo é entender a desigualdade como problemática para o acesso à informação, educação, acessibilidade, moradia e direitos trabalhistas. Pela primeira vez, o jornal-laboratório traz um Especial de esporte, abordando o tema da desigualdade de gênero no futebol. O esporte carrega o título de “paixão nacional”, mas em estádios e quadras de todo o país, jogadores e jogadoras são alvo de atos discriminatórios que envolvem racismo, LGBTfobia e comportamentos machistas e xenofóbicos. Será essa a reprodução de um Brasil desigual? Diante de constantes questionamentos sobre o exercício da imprensa no Brasil, o SENSO reforça o Artigo 220 da Constituição Federal, que garante o direito à plena liberdade de informação jornalística. Ou seja, onde houver liberdade de imprensa, haverá espaço favorável para a consolidação do regime democrático. Com isso, a responsabilidade social do jornalismo de fiscalizar o Poder Público e denunciar os problemas enfrentados pela população, torna-se importante para informar e fazer refletir sobre a sociedade. O diálogo, a desigualdade e o impulso por mudanças não acabam aqui, e como estudantes e moradores de Uberlândia, devemos estar sempre atentos. ERRAMOS #46 | CAPA: a chamada atribuída à editoria de Cultura, na verdade, seria para Política. Página 2: no expediente, a impressão é pela Gráfica e Editora Scanner Ltda. e não a Imprensa Universitária como foi publicado. Página 3: na infografia de Políticas, a população brasileira total é de 210.147.125 habitantes, (IBGE, julho/2019). Página 6/7: a imagem é de autoria de Vitor Bueno.
FOTO: EMERSON SOARES
CRÔNICA//
A (r) existência do rap Vocês sempre me construíram como a figura do meu próprio algoz. Apontaram os meus erros e disseram que aquilo era o que me definia. Nunca me deram nada além de motivos para chorar. Mas, hoje, não luto contra mim. Quando a gente percebe o controle, o rebanho do qual faz parte, não tem volta. Esse fardo é seu pra carregar. Quem me dizia isso era o meu irmão, e eu nunca esqueci. Ele também dizia que a minha rima corta como faca. Hoje, eu acho que eu sei o porquê. Eu não canto o que é bonito. Eu não canto o amor, nem a paz mundial, porque eu nunca vivi essas coisas. Minha poesia é cheia de dor. O meu ritmo é agressivo. É o meu sangue que escorre e respinga em vocês.
Eu cresci à margem de tudo o que conheciam. Meu berço era a rua que vocês evitam. Meu único sonho era que deixassem de tirar de mim tudo o que eu amo. Porém vocês tentam até calar o meu som e a minha voz. Tentam silenciar a minha luta, assim como já fizeram com a luta de tantos, mas nunca vou deixar. Posso ser enjaulado e humilhado, mas a minha voz vai reverberar na cabeça de vocês em todos os seus momentos de paz. Hoje, eu sei por que vocês não gostam de mim, sei por que não aturam os excluídos, os fora da curva e os marginalizados. Conheço as bases do racismo e de todos os outros preconceitos que mancham de sangue as nossas ruas.
FELIPE MELO Fonte de todos os gritos de dor que vocês tentam abafar. Eu sei que minha rima incomoda por tocar na ferida. Abre os olhos de muitos pra realidade, e dá força pra eles lutarem contra. Por isso eu apanho e levo cuspe na cara, por isso me perseguem por fazer arte. Porque a única arte que vocês querem é a que conseguem vender. A voz da rua nunca vai ter lugar nos seus salões. Eu canto por todos os meus, não só por mim. Faço minha parte em uma luta que, pra muitos, já foi perdida. Mas eu não acredito nisso. Mesmo sem nunca ter tido o mínimo, eu continuo dando tudo de mim por aqueles que vivem hoje o que eu vivi no passado e encontram seu apoio numa rima alheia.
Reitor Valder Steffen Jr. - Diretora da Faced Geovana Ferreira Melo - Coordenador do Curso de Jornalismo Vinicius Dorne - Professores Gerson de Sousa, Nuno Manna, Raquel Timponi, Reinaldo Maximiano - Jornalista Responsável Reinaldo Maximiano Mtb 06489 - Editores-Chefe Luan Borges - Túlio Daniel - Lorena Sanches - Foto de capa Pedro Souza - Editores e Diagramadores Ítana Santos (Capa) - Luan Borges e Laura Justino (Editorial/Crônica) - Gabriel Souza (Cotidiano) - Josias Ribeiro (Cultura) - Matheus Rabelo (Entrevista) - Betina Scaramussa, Ítana Santos e Juan Madeira (Especial) - Lorena Sanches, Lorena Artemis e Emerson Soares (Política) - Jackeline Freitas (Saúde) - Túlio Daniel (Fotoensaio) - Finalização Danielle Buiatti e Ricardo Ferreira de Carvalho - Tiragem: 1000 exemplares - Impressão Gráfica e Editora Scanner Ltda - Apoio (edições 46 e 47) Sintet-UFU. Acesse conteúdo exclusivo: sensoincomumufu.wixsite.com/jornal
2
Senso nº47 Dez/2019
COTIDIANO
ESPECIAL DESIGUALDADES
"Eu vi a desigualdade de perto" Aos 58 anos, Roosevelt acredita que seu trabalho como catador e reciclador ajuda o planeta GABRIELA CARVALHO
RESPONSÁVEIS POR FAZER CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO, CATADORES AINDA SOFREM COM DESCASO DO MUNICÍPIO. FOTO: LUAN BORGES
O lugar já fala por si só. É um galpão com janelas quebradas, grama alta e com três grandes portões do lado esquerdo. Em volta do espaço, tem de tudo: portões, janelas, espelhos, caixas de papelão e garrafas – que confundem o galpão da associação com um depósito de ferro velho. Por dentro, assemelha-se a um labirinto. Apesar dos materiais estarem organizados em pilhas, a enor-
“De fato, o material [da coleta seletiva] que a prefeitura passa para gente já é o suficiente pra sobreviver, mas eu gostaria de viver, sabe? Eu quero algo mais”. Roosevelt Martins dos Santos me quantidade deixa a sensação de bagunça. No sopé de cada pilha, há pessoas selecionando o que será reciclado e o que será descartado. Essa triagem é necessária devido a chegada de resíduos inadequados juntos ao material reciclável, mesmo havendo uma coleta específica. Ao fundo, na terceira entrada, há uma cozinha e um escritório improvisado. Lá, de pé e com olhar atencioso, está Roosevelt Martins dos Santos, presidente da Associação de Catadores de Materiais
Recicláveis do Bairro Taiaman (Assotaiaman), com cerca de 15 associados. Ele abandona o caderno de anotações, senta no escritório de frente a uma prateleira cheia de esculturas santificadas e revela sua história de 30 anos como catador. Mensalmente, toneladas de materiais são selecionados e enviados para fábricas de reciclagem. Só em outubro, entre vidro, plástico e papelão, foram 40. Ainda assim, o reciclador explica que até descartes eletrônicos são aproveitados para reciclagem na associação, visto que alguns deles são treinados para desmontá-los e prepará-los. Contudo, reforça que é preciso ter estômago forte devido a muitos descartes inadequados. “Tem gente que vai lá, varre as fezes do cachorro em uma sacolinha e põe um monte de garrafa pet em cima. Outro pega um gato morto, coloca em uma caixa e manda pro caminhão da coleta seletiva”, alerta. Preocupado com o meio ambiente, o catador enfatiza que seu trabalho afeta a vida de todos no planeta. “Você pega uma fotografia das tartarugas enroscadas em garrafa pet e abre alguns peixes aí que dentro deles é só plástico”, exemplifica. Ele reforça: “é um absurdo, uma pessoa educada achar que o material que ela tá mandando pra coleta tá ajudando só os catadores Não sabe que tá se ajudando, tá ajudando as gerações futuras da família dele”. Administrada com carinho, Roosevelt conta que a associação disponibiliza os materiais para preservar o catador e faz diversas parcerias para
coletar e vender materiais, tal como a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Essas colaborações são essenciais para conseguir equipamentos, como uma balança conquistada através de uma parceria com a Coca-Cola e outras associações. Essas cooperações são importantes também para garantir a continuidade dos serviços das associações. Apesar da ajuda fornecida pela Prefeitura Municipal de Uberlândia, que disponibiliza o espaço, o custeio das contas de energia e a realização da coleta seletiva, Martins conta que ela deveria se preocupar mais com os catadores, já que eles são os responsáveis por fazer as campanhas de conscientização populares e ensinar a fazer descartes de maneira adequada. No entanto, mesmo com o grande impacto promovido pelo seu trabalho, Roosevelt desabafa diante da precariedade em que trabalha e o menosprezo das organizações públicas. “Tô com 60 anos, aí eu vou parar de trabalhar e vou viver de um salário mínimo de aposentadoria. Não vou conseguir viver com isso e vou ter que voltar a catar, pra eu conseguir ganhar alguma coisa e conseguir comprar pelo menos os meus remédios”, lamenta. Logo após a conversa, ele se levanta e vai atender os catadores autônomos que o procuravam em busca de ajuda. No caminho até a saída, sentada em meio às pilhas, segurando uma boneca que deve ter achado nas montanhas de lixo, uma criança se despede da repórter que pensa alto: “eu vi a desigualdade de perto”.
Saiba mais sobre o lixo e seu descarte em Uberlândia
3
Senso nº47 Dez/2019
CULTURA
ESPECIAL ESPECIALDESIGUALDADES DESIGUALDADES
Cinema: Cultura para todos? TÚLIO DANIEL
A volta de Toy Story 4 (2019) para as telas de cinema deixou os jovens empolgados pela nostalgia e, na cidade de Patrocínio, a 150 km de Uberlândia, o clima era ainda mais agradável. Uma promoção comemorava, no dia 12 de julho, um ano da estreia da rede de cinemas na cidade e as salas estavam lotadas, menos com a presença de Ana Karoliny (20 anos), portadora de deficiência visual e patrocinense, que até hoje não frequentou o local por falta de acessibilidade. Mesmo comparecendo poucas vezes, a jovem gosta de ir a cinemas e já foi em alguns nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, porém, também sem acessibilidade para pessoas com deficiência (PCD). A falta de audiodescrição faz com que Ana dependa da ajuda de alguém que a esteja acompanhando para descrever as cenas, se não todas elas, pelo menos aquelas que ela tenha mais dificuldade em imaginar o que seja. A 844 quilômetros de distância, Carlos Antônio Bonavita (24 anos), namorado de Ana Karoliny e também pessoa com deficiência visual, divide do mesmo problema. Apesar de morar na capital do Rio de Janeiro, o jovem nunca foi a um cinema acessível. Quando frequenta as salas de cinema, vai com amigos ou familiares que possam narrar o filme. Uma das soluções encontradas é poder assisti-los nas versões online e que possuem legendagem. A Agência Nacional do Cinema (ANCINE) publicou, em 2016, a Instrução Normativa nº 128, que regulamenta a Lei 13.146/2015 e estabelece regras voltadas à promoção da acessibilidade aos distribuidores e exibidores cinematográficos. Em resumo, ela prevê que distribuidores devem prover, para todas as obras lançadas em salas de cinema, os recursos de legendagem, legendagem descritiva, audiodescrição e LIBRAS. Os exibidores deverão adaptar suas salas de modo a permitir a oferta dos recursos de acessibilidade em todas as sessões comerciais, sempre que solicitado pelo espectador. Os prazos da normativa iniciaram-se em junho de 2019 e até janeiro do próximo ano, todo o parque exibidor comercial deverá estar adaptado. Adriana Oliveira, assessora da ANCINE, confirma que boa parte do conteúdo audiovisual ofertado no Brasil ainda não oferece modalidades de consumo aptas a proporcionar uma experiência satisfatória às pessoas com deficiência auditiva e visual. “Nenhum cinema aqui em Uberlândia é acessível”. Essa é a primeira fala de Sayuri Karoline Nogueira, estudante de Língua Portuguesa com Domínio em LIBRAS e estagiária intérprete na TV Universitária da UFU. Mesmo ouvinte, a jovem percebe a dificuldade que surdos encontram ao se falar em cinema na cidade: “É um atraso cultural. Legenda nem sempre é a solução, já que não é todo surdo que sabe ler”. Cada pessoa é um ser individual, assim, alguns surdos são capazes de oralizar, ler o português, entender LIBRAS, enquanto ou-
4
tros apenas gesticulam, o que faz com que a desigualdade esteja cada vez mais presente. A realidade de Luís Fernando (20 anos), estudante de Engenharia Elétrica e pessoa com deficiência auditiva não se distancia das demais. Morador de Uberlândia, o jovem só frequentou cinemas em sua cidade natal, Montes Claros, que também não possui acessibilidade para surdos. "Vingadores: Ultimato" (2019) foi o último filme que viu em um cinema, e o que restou a ele foi ir a uma sessão legendada por ser a que mais lhe assistiu. Porém, a falta de assistência fez com que não ir ao cinema se tornasse algo comum: “pra mim é tranquilo não ir a cinemas, não me sinto excluído, mas isso varia de pessoa pra pessoa”. O diretor e roteirista Cássio Pereira, dono da empresa Campo Cerrado Produções, sediada em Uberlândia, percebe a importância da acessibilidade de deficientes visuais e auditivos e também a representação destes em conteúdos cinematográficos. “Ė importantíssimo, não só do ponto de vista econômico, mas porque o certo em uma democracia é que todos tenham acesso à cultura”, opina. Há cerca de 10 anos, Cássio foi contratado pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) para dirigir vários curtas com atores surdos encenando em LIBRAS, e seu longa-metragem, Valentina, terá versões acessíveis, incluindo a Língua Brasileira de Sinais, legenda descritiva e audiodescrição. Abrangendo o cenário nacional, a ETC Filmes é uma empresa que atua produzindo acessibilidade para grandes estúdios do mercado, como Disney, Sony e Universal. A coordenadora de acessibilidade e legendas da ETC Filmes, Thais Ortega, possui uma visão positiva a respeito da implementação da normativa 128: “a acessibilidade será feita de maneira individual e fechada, ou seja, as pessoas com deficiência receberão equipamentos próprios para a exibição dos recursos escolhidos, sem interferir na experiência das pessoas sem deficiência”. A empresa na qual Thais trabalha surgiu justamente pensando em derrubar barreiras através de recursos acessíveis. Assim, quando uma produtora recebe incentivo público para a produção de um filme, ela deve produzir os três recursos de acessibilidade já citados anteriormente e é aí que a ETC atua. “Cinema é cultura e a cultura é um direito de todos os seres humanos. Se não houver barreiras, todos terão as mesmas possibilidades, isso é inclusão de verdade”, afirma Ortega. Enquanto a normativa da ANCINE não é aplicada, Ana Karoliny, Carlos, e outras 16,3 milhões de pessoas com deficiência visual e auditiva, de acordo com os dados do IBGE de 2010, continuam na espera das salas de cinema frequentadas assiduamente por amigos, familiares e casais, serem menos desiguais e passarem também a serem frequentadas por eles.
Senso nº47 Dez/2019
A ditadura do pênis
SAÚDE
ESPECIAL ESPECIALDESIGUALDADES DESIGUALDADES
A sexualidade feminina ainda é cercada por preconceito e vergonha
BEATRIZ EVARISTO
Quando você era criança e começou a sentir curiosidade sobre seu corpo, como seus pais reagiram? Na adolescência, quando sentiu vontade de tocar sua vagina por estar com um desejo diferente, como contou para suas amigas? Já adulta, quando transou com aquela pessoa que tanto queria e não sentiu prazer algum, o que você fez? Essas são situações vivenciadas por mulheres todos os dias e a culpa é de quem? Crescemos com uma cultura enraizada de desaprovação e proibição de tocarmos nossos próprios corpos e falarmos sobre sexo, pois é visto como pecado, algo sujo ou errado. Não conversar com os jovens e não ensinar de forma adequada sobre sexualidade só constrói uma sociedade preconceituosa e desinformada. “Qualquer assunto voltado a vida sexual é um tabu na minha família, então me sinto desconfortável e com vergonha”. Essa foi uma das respostas dadas em anônimo no questionário produzido pelo Senso Incomum. Foram 126 mulheres, entre 18 e 60 anos, que se abriram e falaram sobre sexualidade feminina. O assunto tem sido pauta de debates e artigos acadêmicos, mas ainda é um tema muito velado na sociedade. No mesmo questionário, a maioria das mulheres respondeu que sentem vergonha ou medo ao falarem sobre sexo. Somos caladas todos os dias, desde pequenas, pelos órgãos públicos, pelos pais que não falam do assunto, pelos homens que se recusam a utilizar o preservativo ou que acham graça quando falamos da vagina, pelas igrejas que julgam as mulheres como pecadoras, quando falam abertamente sobre sexualidade. Tornar secreto é uma forma de repressão. Não conversar sobre sexualidade é tão enraizado na nossa cultura que essa dificuldade vem desde a formação dos professores. As universidades não se importam em ensinar essa temática. “Durante toda minha graduação eu tive 14 disciplinas pedagógicas, que abordaram muitos temas importantes, mas sexualidade, não”, relata a professora de biologia, Bruna Nobile. Nobile é professora de Ciências Biológicas, há doze anos, Atualmente, ela trabalha na rede pública da cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Quando o assunto é sexualidade, ela percebe algumas dificuldades para o aprendizado das alunas e dos alunos, em essencial, para os estudantes da rede estadual. “A apostila, trabalha a sexualidade apenas na 1ª série do ensino médio. Esse ano a recebemos em uma qualidade bem inferior [em relação aos anos anteriores]” Os alunos não estão habituados com esse tema, obrigando os professores a se desdobram para conseguir atenção e a seriedade dos estudantes. “Eu faço toda uma preparação psicológica com eles antes de começar a trabalhar a sexualidade. Eu explico as regras, faço acordos com eles”, conta Nobile. Não ensinar temas como esse dentro da escola reflete no crescimento dos jovens. Um relatório divulgado em 2018, pela Organização Pan-Americana da Saúde/ Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), informa que, na grande maioria dos países, as
adolescentes sem acesso à educação estão propensas a engravidar quatro vezes mais. Ainda neste relatório, é possível ver formas para erradicar essa situação. Algumas delas são: aumento na distribuição de contracepção, promover medidas e normas que proíbam o casamento infantil e as uniões precoces, ou seja, antes dos 18 anos de idade e aumentar os cuidados qualificados de pré-natal, parto e pós-parto. Porém, essas estratégias não são pensadas para conscientizar a população e evitar o problema, são dadas para conter um cenário em que já há gravidez na adolescência, uma possível explicação é de fato não poder falar sobre sexualidade. CONHECENDO O CORPO Quando o assunto é masturbação, é comum associar a homens. Para as mulheres, a palavra “segredo” está completamente ligada. Basta fazer uma busca sobre masturbação feminina no Google que aparecem vários sites prometendo ensinar as “técnicas secretas” para atingir o orgasmo. A problemática está no fato de transformar o ato feminino em algo completamente difícil e misterioso. A ginecologista e terapeuta sexual, Thaís França, enumera alguns problemas da sexualidade feminina: “um terço das brasileiras nunca conseguiu chegar ao orgasmo, as causas podem ser as mais variadas, como emocionais, culturais e físicas, mas uma das razões mais comuns é o desconhecimento do próprio corpo”. Em muitos casos, não chegar ao orgasmo, tanto na masturbação quanto na relação sexual, é associado a falta de autoconfiança e autoestima . Mas não é exatamente assim, França afirma que “o prazer sexual não é intuitivo, ele precisa ser aprendido”, ou seja, a forma ideal para desfrutar dos prazeres é a educação. Modelo: Beatriz Evaristo Foto: Beatriz Evaristo
5
Senso nº47 Dez/2019
ESPECIAL
ESPECIAL ESPECIALDESIGUALDADES DESIGUALDADES
Para driblar o machismo: passado
A história das jogadoras que desafiaram a lei ALLANA LIMA
Os dedos de Zalfa Nader, pioneira do futebol feminino, percorrem a caixa de fotografias como se estivessem à caça de um tesouro. De óculos escuros e com a disposição de quem está prestes a entrar em campo, ela recebeu a reportagem do SENSO para falar daquilo que ela mais ama: futebol. “É inesquecível essa parte da vida”. Zalfa Nader foi capitã do time Araguari Futebol Clube, nos anos de 1950. Naquela época, dispositivos legais impediam que as mulheres entrassem em campo. As fotografias em preto e branco da atleta veterana são como janelas para uma viagem no tempo. O ano era 1941 e, nas páginas do jornal carioca O imparcial, o noticiário esportivo estampava a seguinte frase: “Pé de mulher não foi feito para se metter em shooteiras!”. Naquela mesma década, a primeira árbitra brasileira, Léa Campos, foi proibida de apitar jogos e o Conselho Nacional de Esportes autorizou a prisão de mulheres que ousassem o contato com a bola. Frases como “Fottbal mata a graça da mulher” se tornam rotineiras no jornal. O ano é 2019 e, na página de Facebook do time uberlandense Divas Dom Almir, dentre os comentários sobre a vitória no campeonato de futebol, está a frase: “No campo são vencedoras, já fora dele, as louças de casa estão todas sujas”. Exatos 78 anos separam as publicações em O imparcial e no Facebook. DECRETO LEI PROIBIA MULHERES DE JOGAR Em 1947, o então presidente Getúlio Vargas assinou o decreto-lei 3.199 que estabelecia “as bases de organização dos desportos em todo o país”. O artigo 54 determinava: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis (SIC) com as condições de sua natureza”. O texto determinava, ainda, que o Conselho Nacional de Desportos editasse instruções complementares. “O decreto da década de 40 é coerente com a forma de pensar as coisas no mundo daquela época. O que é estranho é como ninguém teve energia de revogá-lo, emergindo de algo autoritário e controlador”, explica a historiadora da Universidade de Brasília (UnB), Teresa Cristina Marques. De acordo com a pesquisadora, essas resoluções sobre o espaço das
6
mulheres na sociedade perduram no século XXI. “Eu acredito que o que chega, até hoje, contra as mulheres é muito mais pela permanência cultural do que pelo impedimento legal”. O decreto de Vargas foi revogado em 1979. Entretanto, somente no ano de 1983 a modalidade foi regulamentada no Brasil, por força da mobilização das atletas.
MULHERES EM CAMPO Em 2012, 33 anos após a revogação do decreto de Vargas, uma atividade de lazer para as mulheres do bairro Dom Almir, em Uberlândia, adquire força e desponta nacionalmente: o time de futebol feminino Divas Dom Almir. Aliado a um crescimento profissional e pessoal, as atletas começam o contato com o projeto desde a adolescência. “[Os treinadores] nos cobram foco nos estudos, responsabilidade, disciplina e comprometimento”, relata a jogadora Maria Laura (19 anos). Esses princípios têm sua origem nos anos 1950 com a atuação em campo das pioneiras atletas de Araguari que desafiaram a lei e entraram em campo. “Jogar, até então, era tranquilo. Não sofríamos com assédio e nem desrespeito. Porém, logo depois que a proibição se intensificou, precisamos parar de jogar e o time se encerrou, sem volta”, recorda a capitã Zalfa segurando a foto em que aparece, aos 15 anos de idade, fazendo uma embaixadinha. Ainda em 1958, jogadoras de 15 e 16 anos foram proibidas de atuar em campo por moradores de Tupaciguara (MG) por acreditarem que futebol não era coisa de mulher e os shorts estavam curtos. “Umas mulheres da igreja ameaçaram colocar fogo no ônibus se entrássemos na cidade”, relembra a ex-atleta. A jornalista Teresa Cristina de Paiva é filha do fundador do clube araguarino Ney Montes e defensor do futebol feminino. “Ney Montes foi uma pessoa muito à frente do seu tempo”, define. Segundo Paiva, Montes tinha por objetivo incentivar outras cidades a criar amistosos de futebol para mulheres. ELAS SÃO O FUTURO A proibição do futebol feminino contribuiu para um déficit de mulheres escritoras e comentaristas esportivas no Brasil. A jornalista e
PIONEIRA DO FUTEBOL FEMININO, ZALFA NADER, CONTA SUA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA. FOTO: PEDRO SOUZA
gestora de comunicação da organização internacional Love.Fútbol, Larissa Brainer, gosta de futebol desde a infância e se profissionalizou, em 2015, após uma campanha de comunicação. “Ao desenvolver a ação de comunicação #JogaPraElas, passei a entender melhor o cenário da modalidade. Desde então, me tornei ativista pela presença da mulher no futebol”, explica a jornalista que é uma das autoras do Elas e o
Futebol (Editora Xeroca!). No campo jornalístico a disputa também é por espaço na cobertura. Em 2018, as jornalistas se uniram na campanha Deixa Ela Trabalhar, para denunciar o assédio nas redações. “Ser mulher e ocupar esse espaço de produção de conteúdo, de conhecimento sobre esporte é um ato político. Vai além do indivíduo. É representação e resistência”, defende Brainer.
Senso nº47 Dez/2019 ESPECIAL DESIGUALDADES
Senso nº47 Dez/2019
o e presente do Futebol Feminino
i e dificuldades atuais para entrar em campo
'Enquanto tiver uma rua ou terreno baldio, a gente joga' ÍTANA SANTOS
Estádio Municipal Parque do Sabiá, casa do Uberlândia Esporte Clube (UEC), time masculino de futebol da cidade. Não só homens jogaram nesse gramado. O estádio também faz parte da história do futebol feminino do Brasil e da América do Sul, pois sediou, em 1995, o Campeonato Sul Americano Feminino. Porém, a cidade palco do segundo título do país na competição, que viu Sissi marcar 12 gols e ser artilheira do campeonato, tem uma equipe masculina com vaga garantida no Mineiro A1, enquanto não tem um time feminino, nem estrutura ou apoio para os projetos que tentam formar um. Os treinos do Divas do Dom Almir não têm um local fixo. Eles ocorrem na quadra pública do bairro Dom Almir ou na escola Ederlino Lannes. Os problemas não abalam o empenho. O técnico e coordenador do projeto, Alexsandro Damas, afirma que elas reclamam quando só tem bate-bola: “Elas querem toda sistematização, chegar, alongar, aquecer, ter educativos e, só no final, uns 15 a 20 minutos de coletivo”. Ele observa que há pouco trabalho técnico direcionado ao futebol feminino. “Você vai nas escolinhas e tem uma ou outra menina treinando com os meninos, mas não tem um trabalho específico com elas. As carências do futebol feminino são totalmente diferentes do masculino”, constata. Não é por falta de local ou treino técnico que as jogadoras desanimam. O problema vem quando surge
convite para campeonatos em ou- postas do amador feminino de tras cidades e o time não possui ver- Uberlândia para desenvolver trababa para a participação. Damas conta lho conjunto. Para ele é inviável proque há casos de meninas que che- fissionalizar a partir do amador gam sem se alimentar, não possuem feminino, que são projetos embriões nem uma bolacha em casa, que vêm se comparados ao amador masculide longe a pé ou de bicicleta. Não há no, centenário na cidade. “Para fazer condições de custear a viagem, não um projeto profissional, teria que têm patrocínio e nem apoio munici- contratar muito material de fora, inpal. Por falta de recursos financeiros clusive atletas, pelo nível técnico para transporte, o time deixou de atual do futebol uberlandense”, diz. participar dos dois principais tor- Embora existam muitas promessas neios de futebol nas equipes amade campo e socidoras, elas devem ety da região. ser trabalhadas “Falta uma quadra. Muitas equipes gradualmente. amadoras fizeram Talvez liberar uma ou Segundo Gomide, parcerias com seria possível faclubes masculinos um horário para gente. zer um trabalho profissionais para de mescla, reuterem melhores Tem mais horário para nindo amadoras e condições de treiprofissionais. no e participarem os meninos jogarem do O clube já de outros campepensou em ter onatos, como o que para nós”. uma equipe femiMineiro Feminino nina, mas o fator 2019. O Divas não Tálita Fernandes financeiro inviateve contato direbiliza sua criação. to com o UEC soManter a modalibre a possibilidade da parceria. Alguns dade, de acordo com Gomide, comapoiadores do grupo prometeram fa- prometeria 25% do orçamento zer a ponte com o clube, mas houve mensal de um departamento de funenhum resultado até o momento. tebol, prejudicando o setor masculiEnquanto Uberlândia não mostra in- no e acarretaria em duas teresse pelas atletas, outras cidades, instituições fracas. Como a partir de como Araguari, Patrocínio, Patos de 2021 todos os clubes que estiverem Minas e Uberaba vem realizando nas séries A, B e C do Brasileirão seconvites para montar um time. rão obrigados a ter representantes O diretor do UEC, Flávio Gomide, femininos e o UEC anseia em retorconfirma que nunca recebeu pro- nar para as divisões nacionais, a di-
retoria já pensa em estratégias financeiras para atender essa demanda. O diretor afirma que entrando nas séries do brasileiro e recebendo as cotas de transmissão da TV, parte dos valores serão repassados para o desenvolvimento do time feminino. Atualmente, o Uberlândia não disputa nenhuma das quatro divisões do brasileiro e somente a série A é transmitida em canal aberto. Enquanto isso, o Divas segue jogando com as condições que possuem e conquistando espaço e títulos. A equipe de Damas ganhou o Torneio Regional em Guimarania de futsal feminino, dois torneios em Indianópolis e um campeonato sub17. Além das conquistas coletivas, algumas jogadoras atuam em outras cidades e estados, também colecionando títulos. Três foram vicecampeãs no Campeonato Matogrossense, quatro estão jogando no Ceilândia Esporte e duas pela cidade de Guará. Em meio a dificuldades pessoais, financeiras e estruturais, elas buscam soluções para continuar o projeto. Como afirma Alexsandro Damas, “a gente não vai desanimar. Podem tirar o que quiser, mas enquanto tiver uma rua ou terreno baldio, a gente joga”. O Divas encerra a temporada com o tradicional Torneio Solidário em dezembro. Para a temporada de 2020, a aquipe já se prepara para o regional de society em janeiro e o internacional em março.
MESMO COM RECURSOS LIMITADOS, GAROTAS FAZEM SEUS TREINOS DIÁRIOS EM QUADRA PÚBLICA. FOTOS: TÚLIO DANIEL.
7
Senso nº47 Dez/2019
POLÍTICAS
ESPECIAL DESIGUALDADES
"O olhar das pessoas muda quando eu falo que sou da Ocupação" Preconceito dificulta acesso aos serviços públicos em Uberlândia LUAN BORGES
na Fidel Castro provoca respostas em tom de obviedade. Há três anos, Tatiane conviveu com os aluguéis do bairro Tibery e sabe o número de anos, meses e dias em que pagou aluguel, antes de aceitar condições de moradia por vezes insalubres, que não custam nada por mês. Isso porque, não é só a falta de moradia que justifica a necessidade de uma
ção de posse. Já teve apenas um quadrado de cimento para chamar de lar, mas, hoje, vê a mãe e a irmã construindo seus barracos na mesma ocupação. A baixa taxa de casas de alvenaria em contraste às dezenas de barracos de madeira não impedem a existência de uma comunidade hospitaleira, que vê em confraterniza-
“Da última vez falaram que elas eram da terra, que chegavam lá com os pés sujos e sujava toda escola de barro. A gente sofre porque isso pesa na mente das crianças e atrapalha no estudo delas”. Tatiane Cardoso
TATIANE ACREDITA EM UM FUTURO COM MELHORES CONDIÇÕES DE MORADIA PARA OS FILHOS. FOTO: ÍTANA SANTOS
Tatiane Cardoso, 28 anos, senta em um banco de madeira enquanto segura o filho mais novo, de três anos, no colo. É uma quarta-feira de sol e, cansada, a mãe de outras duas meninas, uma de oito e outra de onze anos, acaba de chegar em casa, já que precisa caminhar dois quilômetros a pé para levar as filhas até a escola. “O ônibus escolar não para no ponto em frente ao bairro para pegar as crianças daqui”, afirma. O problema de mobilidade afeta também o direito de acesso à saúde. Sem dinheiro para ônibus, os moradores precisam se deslocar à Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Morumbi, a seis quilômetros de distância. Nas proximidades, o atendimento é apenas para gestantes e crianças de até dois anos. A família de Tatiane, que também conta com o marido Antônio, faz parte das mil famílias que, de acordo com a Coordenação do Movimento de Trabalhadores Sem Teto
8
(MTST), constituem a segunda maior ocupação de Uberlândia: a Fidel Castro. Em número de famílias, a comunidade fica abaixo apenas do bairro Élisson Prieto, conhecido como Glória, que, segundo a Companhia de Habitação de Minas Gerais (COHAB Minas), possui cerca de 2500 moradias. Ainda que a Fidel Castro não esteja dissociada do território do município, os moradores da ocupação enfrentam preconceito de forma cotidiana. Na fala segura, Tatiane carrega a indignação de ver a mudança no olhar das pessoas quando fala que é moradora da comunidade. Por essas circunstâncias, ela acredita que as filhas sofram bullying na escola. “Da última vez falaram que elas eram da terra, que chegavam lá com os pés sujos e sujavam toda a escola de barro. A gente sofre porque isso pesa na mente das crianças e atrapalha no estudo delas”, declara. Perguntar o motivo de ir morar
ocupação. As condições em que a família vive também configuram tópicos de déficit habitacional. “A gente pagava mais de mil reais de aluguel por mês, além das despesas com contas, alimentação e as crianças”, frisa. À época, mãe solteira e desempregada, Tatiane ficou 11 anos inscrita no programa do Governo Federal, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), e nunca foi contemplada. “Sempre tive os requisitos para receber e, quando fui correr atrás já não era mais esse programa”, lembra Cardoso, referindo-se a retomada do “Tchau Aluguel”, programa habitacional da prefeitura de Uberlândia destinado a famílias com renda entre R$ 1.200 e R$ 2.600, que ficou impossibilitado de execução devido ao baixo número de aprovações na análise de crédito da Caixa Econômica Federal. Depois, Tatiane se manteve firme diante das tentativas de reintegra-
ções um anestesiante dos dias difíceis. Segundo Débora Alves, uma das coordenadoras do MTST, “estamos construindo nosso barracão, que vai ter aulas de balé, jiu-jitsu, capoeira e tudo que a gente conseguir de parceria”. As palavras animadas de Débora ainda reforçam o Natal Solidário, no qual cada morador dá o alimento que pode para fazer um almoço na praça. Carregado de histórias como a de Tatiane, o assentamento teve início no dia 28 de novembro de 2016 pelo MTST e este ano, completa três anos. No início, foram reunidas mais de 900 famílias às margens da BR050. Atualmente, os moradores do terreno de 16 hectares em frente ao Parque do Sabiá vivem entre incertezas e esperanças de que o processo de regulamentação da ocupação, parado desde 2017 no Tribunal de Justiça (TJ), seja retomado e que o movimento abrace novas famílias para fortalecer sua frente.
O PAÍS REFERÊNCIA NO FUTEBOL SEGUE TAMBÉM SENDO REFERÊNCIA NA DESIGUALDADE SOCIAL. FOTO: ÍTANA SANTOS
Senso nº47 Dez/2019
POLÍTICAS
ESPECIAL DESIGUALDADES
Trabalho doméstico intensifica vulnerabilidade de mulheres no Brasil Depois de seis anos da aprovação da PEC das domésticas, o quadro mudou para pior MILENA FÉLIX
“Tá tudo bem, hoje, o trabalho é fácil”. É o que a diarista Joana D’arc, de 47 anos, diz para acalmar a família ao sair para trabalhar logo após chegar do hospital com uma disenteria. Ela não pode perder um dia de trabalho, já que a família – composta por quatro mulheres portadoras de problemas de saúde – depende unicamente do seu salário para as despesas diárias. Joana trabalha como empregada doméstica há 16 anos e meio, e há cinco assumiu a função de diarista. Durante dez anos, cumpriu a função de doméstica em uma casa de família, mas foi dispensada do trabalho quando teve um caso de depressão. Ao ficar desempregada, foi obrigada a procurar outro tipo de remuneração, e passou a atuar como diarista na cidade de Uberlândia (MG). Mulheres como Joana, que trabalham há muitos anos no serviço doméstico, não possuíam direitos trabalhistas até a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 66 em 2013. Por volta da data de aprovação da PEC, Joana teve sua carteira assinada na casa onde trabalhava.
LOGO DE MANHÃ, JOANA PULA DA CAMA PARA COLOCAR AS COISAS EM ORDEM E SEGUIR PARA A ROTINA DE TRABALHO. FOTO: BARBARA JANNINI
QUEM SÃO OS EMPREGADOS DOMÉSTICOS De toda a classe trabalhadora do Brasil, 7,6% se ocupa do serviço doméstico, de acordo com a última pesquisa completa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril de 2010. Segundo a mesma pesquisa, trabalhadores domésticos do país têm sexo, idade, cor e classe social bem definidos. Aproximadamente 95% pertencem ao sexo feminino - o que explica o uso tão natural da expressão “empregadas domésticas”. Além disso, 62% desse grupo são pessoas pretas ou pardas, possuem entre 45 e 54
A PEC Em abril de 2010, o deputado federal Carlos Bezerra (MDB) apresentou a proposta de alterar o artigo 7º da Constituição Federal para assegurar igualdade de direitos trabalhistas entre os empregados domésticos e demais trabalhadores do Brasil. No texto apresentado na proposta, o deputado afirmou que não havia “justificativa ética” para a não formalização dos empregados domésticos e que a continuação da situação de desigualdade da época era uma “iniquidade”. O processo, iniciado no início da década na Sala das Sessões, só seria terminado, no entanto, três anos mais tarde: a PEC das domésticas foi aprovada no dia 3 de abril de 2013 e garantia, pela primeira vez na história do Brasil, todos os direitos trabalhistas dos empregados domésticos. A PEC regularizava salário mínimo, décimo terceiro, repouso semanal, férias, licença maternidade, aviso prévio, aposentadoria e previdência social à classe das domésticas.
anos de idade – faixa etária que tende a aumentar – e têm até sete anos de escolaridade. A PEC das domésticas, então, representa os interesses de um grupo específico da população: mulheres negras de meia idade e baixa escolaridade. A historiadora especialista em trabalho doméstico da UFU, Jorgetânia Ferreira, explica que, historicamente, foi construída a ideia de que o cuidado é uma atribuição feminina. A professora acrescenta: “Como o Brasil é um país de muita desigualdade, quem vai fazer o trabalho doméstico são as mulheres pobres - que além de ser mulheres, em geral são negras”. A NECESSIDADE DA PEC Joana D’arc, hoje, enfrenta muitos problemas de saúde que decorrem do esforço físico que seu trabalho tem exigido ao longo dos anos. Entre uma injeção de corticoide por mês e algumas doses já tomadas de morfina, a diarista conta que terá que se afastar do trabalho em decorrência de um desgaste nos ombros: “Eu tento usar mais um braço que o outro que está doendo menos, mas os dois braços doem muito”. Sem os devidos direitos trabalhistas, Joana não vai conseguir se aposentar ou tirar férias por causa do seu problema no braço. Como diarista, sem carteira assinada, seus direitos dependem do pagamento privado da previdência. De acordo com Jorgetânia, esse é apenas um dos problemas enfrentados pelas empregadas domésticas não regularizadas no país. “Elas se submetem a uma jornada de trabalho muito grande. Mulheres sozinhas, muitas vezes criando seus filhos. Então elas cuidam da casa e dos filhos dos outros, e ninguém, nem o Estado, cuida dos filhos e das filhas delas”, reflete a pesquisadora. Jorgetânia também recorda do sofrimento do seu passado como empregada doméstica durante a infância e adolescência. “Cheguei a ser assedi-
ada pelo patrão e a sofrer agressão do filho da dona da casa. Mas quando eu era criança não percebia, quando eu fui estudar comecei a ficar revoltada”, relata a historiadora que transformou a dor em pesquisa. SINDICATO Em Uberlândia, o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos (SINTRAD) – órgão responsável por representar os interesses dos trabalhadores domésticos e promover discussão e fiscalização sobre a atuação desses profissionais na cidade – deixou de existir. Em seu lugar, foi criada uma empresa de contratação de diaristas, chamada “Click domésticas”. A especialista em direito das empregadas domésticas e ex-doméstica, Lyzyê Almeida, afirma que a ausência de sindicato é grave. “O sindicato é importante, porque ele é que dá uma retaguarda para as empregadas domésticas em uma negociação, por exemplo. É também papel dele sanar dúvidas, porque as empregadas não têm conhecimento dos seus direitos e é preciso ter esse ponto de apoio”, afirma a advogada. A sindicalista Solange Barros ressalta que, sem o órgão em Uberlândia, as domésticas ficam mais vulneráveis, porque, precisando de trabalho, acabam se submetendo ao que é proposto pelo empregador. Mesmo sem direitos trabalhistas, Joana gosta do trabalho que exerce. Para ela, o dia de quartafeira é seu preferido: na casa onde faz faxina, brinca com o filho do casal de um ano. “Ele é apaixonado por mim e eu por ele”. A diarista revela: “Eles dizem que eu sou da família, e eu me sinto mesmo. Pela liberdade, pela confiança de me entregar a chave da casa”. Diante dessa realidade, Joana afirma que se sente uma mulher forte diante do trabalho exaustivo de todos os dias e diz que se orgulha disso.
9
Senso nº47 Dez/2019
EDUCAÇÃO
ESPECIAL DESIGUALDADES
Preocupações além do ENEM batem à porta Pós ocupações escolares, estudantes refletem sobre desafios da educação pública GABRIELA CRISTINA E GUSTAVO MEDRADO
Em outubro de 2016, o governo anunciou medidas impopulares que geraram revolta em alunos secundaristas. A PEC 241, popularizada como “PEC do teto”, congelaria, por 20 anos, investimentos em áreas como saúde e educação. Dentre as reivindicações dos alunos estava também a desaprovação da reforma do ensino médio, ação unilateral iniciada pela Medida Provisória 746, proposta no governo Temer, com a intenção de modificar o currículo escolar. Mesmo diante das manifestações, o governo avançou com as propostas e ambas foram aprovadas. Apesar disso, três anos depois, os integrantes das ocupações não se veem como vencidos. Para alguns, o movimento teve êxito e trouxe contribuições para a realidade de suas escolas. É o que observa a graduanda em His-
tória pela UFU, Isabella Ribeiro, que integrou as atividades na Escola Estadual Antônio Luís Bastos na época. Além de gerar proximidade entre alunos e professores, as ocupações possibilitaram o “contato com universitários que, com os aulões, nos ensinaram coisas importantes para o ENEM”, avalia. Com as ocupações, a graduanda percebeu que poderia fazer parte de uma universidade federal e que deveria lutar por tal direito. Em todo o país, os estudantes mobilizaram-se contra essas ações. Em Uberlândia, 64% das escolas de ensino médio foram ocupadas. Karenina Milosevic, hoje com 20 anos e graduanda em Filosofia, também pela UFU, participou da ocupação na Escola Estadual Messias Pedreiro e enfrentou resistência por parte da direção da
escola. Decidida a realizar a ocupação, no dia seguinte Karenina e seus colegas estavam prontos para iniciar o movimento: “chegamos com cartazes, megafones e nos posicionamos no pátio prontos para ocupar uma das maiores escolas de Uberlândia”. DESIGUALDADE E ENSINO Parte fundamental para alcançar o tão sonhado ingresso no ensino superior, como diz Isabella, é o acesso a uma educação de qualidade. Em 2018, o IBGE divulgou dados da Síntese de Indicadores Sociais. Eles apontam que apenas 36% dos alunos que completam o ensino médio na rede pública ingressam em uma faculdade, em contraste com 79% dos alunos da rede privada.
ESTUDANTE DE BICICLETA AGUARDA ABERTURA DOS PORTÕES DE UMA ESCOLA PÚBLICA
A discrepância fica ainda mais visível quando observado os dados locais da Superintendência de Ensino de Uberlândia. No município, a comunidade escolar de ensino médio é composta por 34 escolas estaduais, dez colégios privados e três institutos federais. As instituições particulares, mesmo representando minoria do total, colocam mais que o dobro de alunos nas universidades que as escolas públicas. Os alunos da rede pública, acessando pouco o Ensino Superior, conciliam a rotina de estudos com momentos de reivindicações por melhores condições de ensino, como nas ocupações de 2016. Para Eugenia Pires, professora de física na Escola Estadual do Parque São Jorge, o movimento contribuiu
para a formação política e conscientização de cada aluno, bem como os aproximou da comunidade externa e trouxe novos olhares para o ensino e para a educação. Além da “valorização do ensino formal e não formal”, Eugenia vê as ocupações também como um lugar de aprendizado: “hora nenhuma percebi que o aprendizado deles havia sido afetado durante o movimento. Pelo contrário”. As aulas também não deixaram de acontecer. Segundo a professora, o momento das ocupações também foi dedicado a relembrar conteúdos. “Deixei um pouco do meu conhecimento com eles e aprendi muito também." A professora acredita que um dos fatores que contribuem para o bom desempenho dos alunos de escolas parti-
ENQUANTO ESTUDANTE DE ESCOLA PARTICULAR VAI EMBORA DE CARRO. FOTOS: MILENA FÉLIX
10
culares é a intensa participação dos pais na vida escolar. Para Eugenia, é essencial que os pais e responsáveis acompanhem o estudante para que o aprendizado seja efetivo. Reconhece, contudo, que nem sempre isso é possível, visto que parte de seus alunos não convivem com uma família estruturada. Mesmo diante de tais questões, os estudantes seguem lutando. Em 2019, o movimento estudantil manifestouse contrário à política de contingenciamento de 30% da verba de instituições de ensino federais. Seus protagonistas, advindos do ensino médio e superior, lutam para melhorá-los. Os abismos continuam, mas o legado da educação pública e gratuita permanece lutando para reduzi-los.
Senso nº47 Dez/2019
ENTREVISTA
ESPECIAL DESIGUALDADES
Arte negra para além do visual Flaviane Malaquias conta como a cultura negra a transformou como artista e educadora
FLAVIANE MARQUES COM OBRAS EM EXPOSIÇÃO: DIANTE DO RACISMO, ARTE POSSIBILITOU AFIRMAÇÃO DE IDENTIDADE E LUTA POR RECONHECIMENTO. FOTO: JOÃO MARCELO POZATTI
JOÃO MARCELO POZATTI
A artista Flaviane Malaquias, dedicada ao movimento negro e que se expressa, principalmente, através da arte, apresentou ao público de Uberlândia, fotografias, pinturas, desenhos e chapéus típicos a fim de demonstrar a história e as nuances do Congado uberlandense. A exposição ocorreu no ITV Cultural durante novembro, mês da Consciência Negra. Flaviane tem 35 anos, nasceu e cursou todo seu ensino básico em Uberaba-MG. Em 2004, ingressou no curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia e, atualmente, reside na cidade, onde divide casa com o amigo Sérgio Rodrigues, outro artista local. Malaquias é professora de Artes no ensino municipal e vinculada ao Núcleo de Pesquisa em Pintura e Ensino (Nuppe) do Instituto de Artes da UFU. Nessa entrevista, ela conta a sua trajetória, fala sobre a importância da arte afro na cidade e sobre como é ser uma professora negra no cenário atual. Quem é Flaviane Malaquias no mundo? Por ter sofrido racismo, a arte me fez ter um encontro comigo mesma, tendo sempre que reafirmar: “eu sou negra”. Às vezes, as pessoas falam que sou parda e isso me traz questões sobre onde eu pertenço e qual a minha raiz. A princípio, eu fui bem limitada por questões religiosas. Porém, quis encontrar novos caminhos para a minha vida. Então, abri a porta, entrei e me encontrei naquele pertencimento, que seria o início do meu trabalho com a cultura negra.
Em Uberlândia, como é o campo artístico? E o campo artístico negro? Na cidade, a arte é muito valorizada. A gente vê isso com a Secretaria da Cultura e outros órgãos. Claro que não dá pra dizer que tudo é “mil maravilhas”, mas muitos projetos são realizados aqui. O núcleo de estudos afro-brasileiros da UFU também abre muitos caminhos pra quem trabalha com a cultura negra na região. Como você vê essa relação entre ser artista e professora? E de que forma a arte afro entra nessa junção?
que tenham prazer no que vai ser desenvolvido, eles não vão ver sentido algum. Como professora de Artes, você precisa o tempo todo tentar mostrar para o seu aluno que ele precisa ser educado para a estética, para a arte, para o sensível e para a crítica. A arte é essa porta, mas os próprios alunos subestimam isso. Durante a sua exposição “Cores do Congado”, peças artísticas foram produzidas pelos seus alunos. Por que você decidiu colocá-los nesse projeto?
Enquanto professora, considero bem importante porque eu tenho alunos que também vivem essas crises identitárias. Quando eles te vêem como um exemplo, que atua nos dois lados da moeda, eles se sentem representados. Em Uberlândia as manifestações são bem fortes e foi esse contato que me fez despertar para novos olhares, onde eu consegui trazer essa cultura para as minhas áreas de trabalho.
Quem teve a ideia da exposição, foi o Sérgio. Decidimos partir para um trabalho em conjunto, a partir da especialidade de cada um. Eu tenho alguns alunos que fazem parte do Congado e pude trazê-los para serem os protagonistas. Eles explicaram qual a estrutura dos ternos do Congado para os colegas. Pegamos também o trabalho do artista Gleyson Archanjo, que já tinha realizado um trabalho sobre o Congado, e pudemos fazer desenhos sobre esse olhar do próprio Gleyson.
Há interesse dos alunos nas artes?
A arte mudou a sua vida?
Eu acho que os alunos até se interessam bastante, porque, na escola onde dou aula, temos alguns projetos, como o Recreio Cultural, que acontece uma vez por mês. Nele, os alunos pedem para mostrar suas artes, seja uma dança, um teatro ou as próprias artes visuais. Na sala de aula, o professor precisa ter algumas sacadas, ainda mais porque a maioria dos alunos não cresceu ligado à arte. Se você não achar caminhos para
A arte é mais forte do que a gente. Se eu não tivesse feito Arte, ela me perseguiria a vida inteira, porque o artista tem uma sensibilidade que traz a necessidade de colocar imagens, sons ou movimentos para fora. Eu não sei se posso dizer que a arte transformou a minha vida, porque ela caminha comigo desde de criança. Porém, eu sempre digo que a cultura e a arte afro me transformou para que eu me encontrasse.
11
Senso nº47 Dez/2019
FOTO ENSAIO
ESPECIAL ESPECIALDESIGUALDADES DESIGUALDADES
A segregação de um shopping ANNA JÚLIA, BETINA SCARAMUSSA, KAMILA CRISTINA, LORENA ARTEMIS, LORENA BARBOSA E TÚLIO DANIEL
Em novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o levantamento que aponta o aumento da desigualdade social no Brasil. De acordo com os dados, o rendimento entre ricos e pobres atingiu a maior diferença: os ricos possuem renda 13 vezes maior do que as classes mais baixas. Assim, as desigualdades socioeconômicas vêm crescendo e atingindo números recordes no território nacional.
12
Este fotoensaio possui o intuito de retratar essa desigualdade na cidade de Uberlândia, com o objetivo de mostrar as distintas realidades de um país que oferece muito aos ricos e pouco aos pobres. Na Zona Sul da cidade, dois bairros, Shopping Park e Jardim Karaíba, antônimos nos quesitos social e econômico, são separados por grandes centros comerciais. Qual lado do Uberlândia Shopping é visto pela sociedade uberlandense?