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Autismo
Editorial Por Fernando Inácio Existe cerca de 2 milhões de brasileiros e brasileiras com autismo uma condição que causa problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação, na interação e comportamento social da criança. Com a chegada da Covid-19 no Brasil este ano, muitas pessoas tiveram que se adaptar às novas realidades e desafios impostos para prosseguirem com os trabalhos e estudos. Porém, existe um grupo específico para o qual essa mudança teve um impacto maior: as famílias com pessoas diagnosticadas com autismo. Levantando várias questões, principalmente a de, como agir e manter uma rotina de cuidados específicos dentro de casa? Devido à medida restritiva de isolamento social, grandes partes das famílias se encontram sem alternativas para complementar a rotina dos pequenos, que antes tinham uma agenda cheia com atividades escolares e terapias presenciais. Esta rotina adaptada pode refletir em instabilidade emocional e agressividade cada vez com mais frequência em crianças autistas, entretanto, apesar de parecer que estamos vivendo um momento de crise e instabilidade, é possível levar esse período de forma equilibrada e saudável.
Criança com autismo lendo livro (Foto: Ana Caroline)
Quando falamos sobre confinamento, o ideal é que as famílias tentem seguir a rotina do autista o máximo possível, criando atividades similares vivenciadas em situações normais. Como ajuda nesse tempo em que vivemos, fazer um cronograma de todas as tarefas a serem desenvolvidas durante o dia ajuda muito os pais e responsáveis no cotidiano e desenvolvimento dos jovens autistas. Apesar das dificuldades, o mais importante em um momento de isolamento social é manter a criança estável, a fim de preservar a saúde psicológica. Por isso, é relevante que os pais tenham um olhar diferenciado, atento e ainda mais carinhoso com eles neste momento que passamos.
Autismo e quarentena: um desafio especial Saiba como crianças autistas vem lidando com o isolamento social.
Criança brincando sozinha em cada (Foto: Crislaine Maria)
Já não é novidade que grande parte dos autistas dispõem de costumes e rotinas bem definidas e estruturadas. Com todas as mudanças causadas pelo novo Coronavírus, não apenas os autistas como também professores, terapeutas e principalmente os pais, vêm se adaptando e tendo que lidar com a transformação de suas rotinas e alternâncias de humor de seus filhos. Martina Brissa, psicóloga especialista em terapia cognitiva comportamental, alega que essas mudanças provocadas pela Covid-19 podem causar alguns prejuízos para os autistas, “[A pandemia] Afeta de forma geral todas as crianças, mas as com TEA (Transtorno do Espectro Autista) são mais afetadas pelo fato da diminuição ou parada dos atendimentos, mudanças na rotina, às vezes a falta de tempo, atenção e até paciência dos pais.
De fato, estamos mais estressados e preocupados que o normal.” E realmente, não são tempos fáceis. Claudiane (31) é prova viva disso, e conta como esse isolamento social afetou a família e, principalmente, seu irmão mais novo, Luiz, de dez anos que é autista. Ela diz que houve um pouco de estresse devido a tantas mudanças de rotina, especialmente em razão de que seu irmão gostava muito de ir à escola, igreja e passear com a família.
Criança com autismo nas atividades de interação ( Foto: Fernando Inácio)
Pedro Guilherme, que hoje tem 14 anos e foi diagnosticado como autista de grau leve desde muito novo, diz que sem suas terapias e esportes se sente entediado na maior parte do tempo durante o isolamento, “Eu sinto falta de ir passear com a minha família e das minhas atividades”, declarou.
Criança com autismo esrudand o ( Foto: Ana Caroline )
Apesar de Pedro não poder participar de suas aulas de natação e skate da qual fazia antes da pandemia, os especialistas aconselham manter uma rotina para que os autistas não se sintam tão afetados. É o que afirma Lúcia Barros, psicóloga e psicopedagoga com especialização em TEA, “Primeiramente arrumar a agenda do autista que ficou sem suas terapias, escola, passeios, etc. Não deixá-lo ocioso. Substituir essa rotina por outra. Ocupar o tempo dele com atividades pedagógicas, atividades motoras e buscar recursos e ideais na internet, ou até mesmo tentar o atendimento terapêutico online para não quebrar de vez a sequência de terapias.” Nos últimos meses, manter uma normalidade sobre as atividades do
cotidiano se tornou um verdadeiro desafio. Quando se trata do dia a dia de crianças e jovens autistas, a barreira para se alcançar a disciplina em suas rotinas se torna muito maior. Mas a mãe do adolescente Enzo, Márcia Bueno, nos mostra que, com um pouco de paciência, é possível manter os antigos hábitos e até mesmo, apresentar alguns novos aos portadores de TEA. “A rotina dele em tempos normais é uma terapia por dia, ele saia todos os dias [...], a gente tá tentando fazer tudo dentro de casa, a questão de escola, como as atividades, esporte e tudo. Eu tenho algumas coisas e passo no caderno algumas atividades pra ele, refazendo toda essa rotina. De manhã ele levanta, escova o dente, vai arrumar o seu quarto, então a gente vai introduzindo outras atividades, o que chamamos de AVD (atividade de vida diária), então essa quarentena também está possibilitando isso, você ter mais tempo com ele para que você possa ensiná-lo novas habilidades.”, declara. Márcia que lidera o GMFE (Grupo de Mães de Filhos Especiais) na cidade de Barueri - SP, neste tempo de pandemia, vem alertando os pais do grupo para que mantenham as rotinas de seus filhos e ainda dá algumas dicas para que concluam essa tarefa da melhor forma.
“Eu acho importante seguir a rotina que eles já tinham, também prestar atenção nas habilidades, o que eles mais gostam de fazer. Se eles gostam de jogar futebol, jogar mais bola com eles, se é pintar, ficar mais tempo e dar opções de pintura, se é assistir um filme ou um desenho, oferecer outros tipos de desenho, às vezes mexer na cozinha, fazer massinhas, bolinhos, colagem, alguns têm muita questão sensorial, mexer com esses materiais também é uma oportunidade pra mãe introduzir isso, esses novos materiais. E é importante ver o que eles gostam de fazer e começar por aí, porque depois eles vão ficar mais adaptados a introduzir atividades que eles não gostam tanto e ir intercalando, as que eles gostam e que sentem prazer e que vão fazer feliz, com outras que ele não gosta muito mas que serão importantes para o desenvolvimento deles", relata. Marcia lider do Grupo de Mães de Filhos Especiais Para ter êxito nas atividades em casa, é importante saber identificar qual a melhor abordagem para cada criança, uma vez que isso pode variar de acordo com o grau de cada uma. É o que assegura a psicóloga especialista em TEA e terapeuta de estimulação precoce, Mayana Lacerda: "Cada criança com autismo é diferente, além das diferenças individuaus tem a questão da idade, da rotina, o impacto que a rotina tem para cada criança.", e reitera
"Mas o nivel de prejuizo causado pelo isolamento vária também, mas já para outras, que já têm preferência para ficar em casa na companhia dos pais, é sempre muito interessante.” A psicóloga e psicopedagoga, Lúcia Barros confirma a alegação de Mayana, e completa: "A convivência de maior tempo com a família está sendo algo muito benéfico para alguns. Enquanto que para a maioria, principalmente os que têm dificuldade de mudança de rotina, isso afeta demais, mudanças de humor, mais intensidade nos movimentos estereotipados, ansiedade, agressividade, também alterações no sono e alimentação. A preocupação é que com esses sintomas possa haver uma regressão das habilidades adquiridas anteriormente e seja necessário mudança na medicação, ou até mesmo para os casos que não fazem uso, iniciar esse processo medicamentoso." Portanto, é de extrema necessidade que os pais ou cuidadores tenham o tenham cautela para analisar e tentar compreender as tendências, comportamentos e alterações no modo de agir dessas crianças no cotidiano, para que possam ajudá-las e tornar este momento atípico um pouco mais fácil para elas.
Criança com autismo montado um quebra cabeça (Foto: Ana Caroline)
Mas nem tudo sobre o isolamento social gerado pela Covid 19 precisa ser algo ruim, a psicóloga também diz que há relatos de pais de autistas que comprovam que os filhos se acalmaram nessa quarentena. O contato mais presente e ativo dos pais durante a quarentena, fez com que os membros da família se aproximassem mais entre si, gerando um maior bem estar, e assim desenvolvendo mais ompetências para lidar com seus filhos e na rotina anterior do início da pandemia com a correria do dia a dia faltava esse tempo para conviver. "A gente se desgasta, pois passa a ser mãe, terapeuta, terapeuta ocupacional, psicóloga, terapeuta sensorial. Está sendo um pouco desgastante para as mães cuidar da casa, lavar roupa, tudo isso, mas acredito que está sendo um aprendizado pros dois. Tanto para as famílias quanto para as crianças.”, atesta Márcia.
São tempos difíceis para todos, em especial, para aqueles que possuem o TEA. “Sempre será uma luta constante, mas satisfatória.”, afirma Claudiane. O necessário a se fazer em momentos como este, é ressignificar e encontrar novas perspectivas de encarar a situação atual do mundo, dando lugar a pensamentos bons e atitudes positivas, seguindo o exemplo de todas essas famílias que foram apresentadas anteriormente, que apesar de todas as dificuldades, encontraram meios de se adaptar e de adotar novos hábitos.
Você Sabia? O TEA (transtorno de Rspectro Autista) é cinco vezes mais comum em meninos do que em meninas. Um dos motivos que justifica esse diagnóstico é o fato das meninas apresentarem com mais avanço habilidades linguísticas, sendo o atraso na linguagem um dos principais sinais apontado.
O TEA (Transtorno do Espectro Autista) por trás de um escritor na quarentena. Conheça a história do pai e filho autistas, suas vivências e desafios durante a pandemia. Com um sorriso no rosto e uma prontidão vísivel: foi assim que Diego, escritor de livros e roteiros baseados em suas experiências pessoais, topou nos contar um pouco de sua história. Diagnosticado com o TEA (Transtorno do Espectro Autista) desde jovem, ele relata com tom de conforto sua relação com a escrita. "Significa muito pra mim, durante a adoles cência eu vivia muitos conflitos e tinha muita dificuldade com a fala por causa do autismo. A escrita foi minha porta de comunicação com o mundo através de histórias.", conta. Quando questionamos sua rotina em meio à esta questão de quarentena, Diego explica que sua rotina inclui seu filho Mateus, que foi adotado e para sua surpresa, a criança também era autista. Ele relata, fazendo pequenas pausas ao lembrar, que ao descobrir a condição da criança achou "curioso", pois em nenhum documento dentre os requisitos constava que o pai também era autista. Diego continua contando, com um sorriso que uma de suas memórias mais especiais com o filho foi a primeira vez em que o viu. "Ele me viu e me abraçou como se já me conhecesse, fez o mesmo com a minha mãe ao meu lado, naquele momento eu soube que não podia se tratar de uma coincidência, estava destinado a acontecer", relata.
Explica que ficar em casa deu a ele possibilidade de cuidar melhor de Mateus, e com a ajuda de uma psicóloga criam uma rotina propícia ao que a condiçãode autismo traz à criança, com bons alimentos e atividades convenientes para a saúde dos dois. Portanto, ele continua escrevendo roteiros e fazendo faculdade de cinema pela internet e em casa, alegando que o fato de ele não precisar se deslocar ao local de trabalho foi um dos pontos positivos ao trazer a ele mais tempo com o filho. Em meio a conversa, Diego Explica em um leve tom de desabafo: "Algo que eu diria principalmente aos pais em re lação ao autismo: busquem aceitar e entender a situação das pessoas autistas. Vejo muitos pais relutando em aceitar e tratando essas pessoas como se fossem como outras. É essencial que eles busquem conhecimento sobre isso, pois temos nossas limitações e não é frescura." Durante a quarentena, Diego continua escrevendo histórias, livros e roteiros para o cinema, e ele conta que essa ainda é uma de suas formas de se comunicar com o mundo, e que sua relação com a escrita é mais do que um trabalho, é um ato especial.
Nesse ano de 2020, ambos estão se adaptando à rotina de quarentena. Quando questionado sobre os desafios, Diego se matem otimista. Duas mãos representando o pai e filho segurando o símbolo do autismo (Foto: google/internet)
EXPEDIENTE BOLETIM INFORMATIVO FCNEWS PRODUZIDO POR ALUNOS DO SEGUNDO PERÍODO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CANÇÃO NOVA Texto: Ana Caroline Bruna Victória Fernando Inácio
Entrevistas: Ana Caroline Bruna Victória Fernando Inácio
Diagramação: Crislaine Maria
Fotografia: Ana Caroline Crislaine Maria Fernando Inácio
Disciplinas associadas na pedagogia de projeto Fotojornalismo - Prof° Thiago Molina Produção Textual em Jornalismo - Prof° Vaniele Barreiros Planejamento Gráfico e Editoração - Prof° Darwin Motta