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Artefato 5

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Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato | Edição Nº 5 | Agosto/Setembro 2013

Mais literatura

no Sul do Estado

CRESCE O NÚMERO DE PUBLICAÇÕES COM INCENTIVO PÚBLICO E PRIVADO EM CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM E REGIÃO


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Agosto/Setembro 2013 | nº5

EDITORIAL

Experiência e iniciação literária

A verdadeira beleza ... Lorraine Dobrovosk

Hoje contamos com periódicos impressos, como o “Artefato”, para amparar e reparar uma lacuna existente no campo das publicações: a divulgação do trabalho literário mesclando experiência e iniciação. É com imenso prazer que falo de uma ideia que deu certo. De uma conversa informal em uma das redes sociais, fundamos o Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato: Artefato! Um espaço para quem gosta de ler, escrever, criticar e acompanhar o desenvolvimento e crescimento de novos talentos. No caso, a ferramenta digital serviu, informalmente, para a criação de um veículo formal. Suas edições são aguardadas ansiosamente pelos leitores e colaboradores que contribuem com seus talentos a cada edição.

Atualmente vivemos em uma sociedade onde o que importa é BELEZA - exterior , não é por acaso que, nesses tempos em que reina o “ter” e o “aparecer” as pessoas estejam frustradas, bebendo (e se drogando) mais e mais. E isso é consequência do vazio existencial que sentem , vazio esse que roupas e pessoas não preenchem .Quando uma pessoa é bonita por dentro ela não precisa de roupas caras e beleza (exterior) para aparecer , a luz interior que possui já chama atenção por onde passa , e todos percebem . Pois a verdadeira BELEZA perpassa tudo que é superficial .

Sarau Literário

Digamos que o Caderno Especial “Artefato” veio para somar com as demais publicações e também aliar às novas tecnologias para divulgar a arte. É um caderno especial repleto de pontos de vista e aberto a qualquer posicionamento dos autores ou leitores sobre seu conteúdo, que é concreto, mesmo sendo abstrato na sua concepção. Insistimos em publicar impressos porque é importante ter um comportamento profissional na área da cultura, tanto ou mais que nas outras (política, economia, polícia) para uma valorização, em termos comerciais, que viabilizem sua periodicidade, uma vez que o ambiente virtual aparenta um perfil mais informal. O Artefato é uma ponte entre os escritores experientes e os iniciantes com seus leitores. Vamos continuar com a nossa missão de divulgar a arte para que outros possam produzir e, enfim, publicar seus textos num periódico que já é referência do segmento em todo o sul do Espírito Santo.

Aconteceu no dia 15.08.13, no teatro municipal Rubem Braga, o 1º sarau literário “Desvelando Rubem, Drummond e Vinícius”, promovido pela escola Professor Claudionor Ribeiro com o objetivo de introduzir e contextualizar o aluno no ambiente cultural, enfatizando a literatura brasileira, além de ressignificar o ensino aprendizagem. Outro objetivo atingido com o sarau foi o trabalho envolvendo valores humanos e sociais que aconteceu através da doação de alimentos não perecíveis à casa de apoio ao câncer do Hospital Evangélico. Juntamente com os alimentos doados, foram vendidos para alunos e familiares, ingressos no valor de R$ 1,00.

Diretor - Wagner Santos wagnersantos25@hotmail.com Departamento Comercial - Lília Argeu e Elenir Atalaia

Desde 14 de março de 2003

Editoração/Design/Capa - Gil Velasco contato@gilvelasco.com

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Editor - Roney Moraes roneyamoraes@gmail.com Suplemento Especial mensal de cultura, arte e literatura do Jornal ES de Fato.

Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato

Jornal Espírito Santo de FATO - CNPJ.: 06056026000138 - (28) 3515-1067 es.fato@terra.com.br - Bernardo Horta, 81, sala 101, Guandu, CEP 29.300-782 - www.jornalfato.com.br


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Quem faz Arte O reino de Cachoeiro Ronald Onhas Grolla

Bruno Garschagen: Mestre e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa. Brunogarschagen.com

Higner Mansur: Advogado, escritor, articulista, cronista, membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e colaborador do Jornal Fato.

Maria Gabriela: Blogueira, estudante de Letras/Literatura no São Camilo e bolsista da CAPES, através do programa de iniciação à docência (PIBID).

Lorraine Dobrovosk: Estudante de Letras/ Literatura do São Camilo e bolsista da CAPES, através do programa de iniciação à docência (PIBID).

Sonhei com um reino, que se chamava Cachoeiro. Ou Cachoeira de pedras pequenas? Ah, não me lembro. Lembro que havia reis famosos, como um tal de Rubem Braga. É também de um calor que só tinha lá, em Cachoeiro. Lá em Cachoeiro. Um reino, parecia ser construído em cima de um vulcão. Vulcão, que estava adormecido. Era guardado por duas pedras encantadas que foram enfeitiçadas por causa uma paixão. Lá em Cachoeiro. O frade e a freira eram os guardiões desse reino. Apaixonaram-se. Amaram-se. Lá em Cachoeiro. Um amor proibido pelos deuses. E pela estrada 25 de Março, eles fugiram. Fugiram, em direção contrária ao rio Itapemirim. Passaram pela aldeia Jerônimo Monteiro pela ponte de ferro, e pelo vilarejo da beira rio. Eram procurados por todo o reino. Olhando para a pedra Itabira os dois juraram amor eterno. Os deuses do reino não aceitaram essa traição e lhe jogaram uma maldição. Foram transformados em pedras. A maldição era para mostrar para todo o reino que lá em Cachoeiro um casal desobedeceu ao deuses e juraram amor eterno. Isso aconteceu lá no reino de Cachoeiro … Lá em Cachoeiro.


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Uma carta para o velho Rubem Braga Maria Gabriela

“Conta-se na família que, quando meu pai comprou nossa casa de Cachoeiro, esse relógio já estava na parede da sala; e que o vendedor o deixou lá, porque naquele tempo não ficava bem levar. (Hoje, meu Deus, carregam até uma lâmpada de 60 velas, até o bocal da lâmpada, e deixam aquele fio solto no ar.) Há poucos anos trouxe o relógio para minha casa de Ipanema. Mais velho do que eu, não é de admirar que ele desande um pouco. Há uma corda para fazer andar os ponteiros, outra para fazer bater as horas. A primeira é forte, e faz o relógio se adiantar: de vez em quando alguém me chama a atenção, dizendo que o reló-

gio está adiantado quinze ou vinte minutos, e eu digo que é a hora de Cachoeiro.” Rubem, você se foi em 1990. Infelizmente, almas nobres como a sua também precisam transcender. Queria te falar que sua irmã Yedda doou o relógio para o museu memorialístico de sua família, lugar em que ela confiou seguro para guardar sua memória. Rubem, sua casa foi assaltada, violentada e estuprada por ladrões em 2009. O relógio foi levado, e até a dada de hoje, em 2013, não se tem nem registros dos possíveis criminosos. É com vergonha e pesar que afirmo: Nunca soubemos guardar você. Nunca conseguimos

o relógio transcendeu até você? O pé de fruta-pão está cravado no solo, seco, quase infértil, apenas guardando zigue. O jardim está tão triste... Já não há cajueiros nem flores. A casa sofre com sua ausência. O relógio também não aguentou viver longe de ti, e negou-se viver na casa sem você ou seus irmãos. A falta de pistas me leva a crer que o relógio fugiu Rubem, não aguentou a sua ausência.

enxergar você, além das suas palavras escritas. Eu gostaria de poder testemunhar a falta de ordem na existência do relógio que você descreveu tão bem, mas esse direito me foi roubado quando levaram o relógio. Ou será que

A esperança dormiu em meu portão Ronald Onhas Sabe aquelas semanas que tem tudo para dar certo, e por ironia do destino, só acontecesse empecilhos? É, essa semana foi assim. E foi também a semana que conheci a Esperança. Depois de um dia exausto de trabalho, chegar em casa é sonhar com um Oasis no deserto. Mas para inverter o caos, o deserto em evidência era frio e de congelar o cérebro da alma. Esperava a resposta de uma nova oportunidade e fui com a corda toda. Só que a corda rebentou. Eu menti e disse que estava tudo bem. Mas no fundo eu tinha me sentido perfurado por uma flecha venenosa. Foi aí que conheci Esperança. De cara não a reconheci, achei que fosse um de seus primos. Podia ser o louva-deus com sua cara de brava ou ser o

grilo. Mas grilo é escandalosamente chato e Esperança não era. Era fina, doce e elegante. Fui dormir pensando na Esperança e que as coisas pudessem melhorar. Acordei e vi que Esperança tinha dormido em meu portão. Pobrezinha! Naquela noite tão gelada ela dormiu ali firme e forte. Fui trabalhar. Voltei do trabalho e Esperança ali estava. Fui estudar. Voltei da faculdade e Esperança ainda estava ali. Eu comecei a admira-la. Fiquei com vergonha de mim, um grande homem bobo da cidade desistindo dos sonhos por causa de uma derrota. Esperança me fez refletir nos meus medos e sonhos. Fez renascer em meu chamado castelo uma vida que estava apagada. Uma luz, uma virtude, um encanto capaz de quebrar qualquer

angustia e sofrimento. Essa noite tive um sono melhor e acordei esperançoso. Corri para agradecer a Esperança por ter me ajudado a acreditar nos meus sonhos, só que Esperança nem me escutava. Estava ali parada, quieta... Estava morta! Fiquei inconformado e entristecido. E por mais que possam dizer que era só uma esperança. Eu repreendo dizendo que Esperança não era uma esperança qualquer. Dizem que quando uma esperança aparece ela traz consigo sorte e coisas boas. Mas ninguém nunca fala da morte de uma esperança. O que ela leva quando se vai? Acho que ninguém tem a resposta. Nem eu sei a resposta. Sei apenas que ela morreu em meu portão. E sempre a levarei comigo.

Sobre Cachoeiro Bruno Garschagen Cachoeiro de Itapemirim é uma cidade curiosa. Feia, quente, árida e ao mesmo tempo incute nos seus um cativante sentimento de pertencimento, de identidade, que acaba por se transformar num espírito comum para uma parcela específica dos cachoeirenses que vê na cidade a continuação histórica de sua própria história familiar. Ser esse cachoeirense é assumir graciosamente a responsabilidade de preservar a continuidade cultural que criou uma tradição, tradição esta que está sempre sob ameaça das contingências e do alheamento

daqueles que ficam e a ignoram. Por isso é que sempre considerei o cachoeirense presente, cada um que conhece, respeita e preserva a tradição local, um herói sem direito a prêmio e com o fardo extraordinário de viver as intempéries e turbulências reais e cotidianas da cidade. O cachoeirense presente sequer tem o direito de idealizar a cidade onde vive, a cidade que, de uma forma ou de outra, ama e ajuda a construir. Como cachoeirense ausente sempre presente tenho o melhor e o pior dos dois

mundos – e é o que me permite, de certa forma, reconhecer as virtudes e perceber as vicissitudes de uma cidade que está sempre comigo, não importa onde eu esteja, porque sempre foi e sempre será o meu lar. Bruno Garschagen é mestre e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa, Visiting Fellow do Russell Kirk Center (EUA), Podcaster do Instituto Ludwig von Mises Brasil (São Paulo), especialista do Instituto Millenium (RJ), analista político e tradutor. Escreve no blog brunogarschagen.com


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Mais produções literárias

Roney Moraes O sul do Espírito Santo é privilegiado. Chega a ser anormal, no sentido de fugir do que é considerado comum, principalmente em se tratando de cultura e leitura, como é o caso aqui nestas linhas. Um celeiro de escritores torna a “Atenas Capixaba” e adjacências diferentes. Do fim de 2012 até agora, inúmeras obras de qualidade foram lançadas por escritores locais. Citamos alguns, como “Falando Francamente 2”, de Marilene Depes,; “Cachoeiro e outras capitais”, de Sérgio Damião; “Em nome da Lei”, de Evandro Moreira; “Os pontos cardeais da redação”, de Solimar Soares; “No Tempo da Onça”, de Maria Elvira Tavares Costa; “Palavra de Mestre”, de Rosângela Venturi; “Pedaços de mim”, de Marcelo Grillo; “Memórias de um Benjamim”, de Claudia Sabadini, dentre outros... Além dos títulos, outras ações de valorização cultural sempre estão sendo realizadas, como publicações específicas e eventos que promovem o encontro dos agentes culturais. Toda essa movimentação faz com que a região se sobressaia, mas ainda é cedo para comemorar. Onde a leitura é presente há que considerar que ler é um hábito prazeroso e a região, apesar da pulsante atividade literária e cultural, sofre com a dificuldade em se produzir literatura. Mesmo assim, os incentivos existem como a Lei Rubem Braga e outras fontes para financiar a produção literária. Teremos a Bienal Rubem Braga em 2014. E, com certeza, até lá novas obras vão encher as livrarias e pontos de vendas. Incentivar é preciso!

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6 Agosto/Setembro 2013 | nº5 6 Julho/Agosto 2013 | nº4

artefato artefato Coluna

Coluna da Academia de Letras (ACL)

Mais um evento cultural com a presença de Regina Monteiro, Luciana Maximo, Celia Ferreira, Christina Rangel e Paula Garruth. Além de livros, música, sarau e bate-papo na Noite Cultural no Shopping Cachoeiro em parceria com a ACL (18/07/20013).

Pesquisa

Teoria psicanalítica

Pesquisa de Mestrado: Instituições de Longa Permanência para Idosos, da acadêmica Marilene de Batista Depes, publicada em agosto de 2011 e aprovada pela Universidade de Leon — Fundação Universitária Ibero Americana – foi relançada com objetivo de concorrer ao título de Gerontóloga, em congresso que será realizado em Brasília, em final de setembro.

Acadêmico Roney Moraes recebe titulo de Doutor Honoris Causa em Teoria Psicanalítica pela Cambridge University.

Educação A acadêmica Rosângela Venturi Barros assumiu uma cadeira de Língua Portuguesa na Escola Estadual Agostinho Simonato, em Cachoeiro de Itapemirim, após passar em primeiro lugar no município em concurso promovido pela Secretaria de Estado da Educação (Sedu). Vale lembrar que o patrono da Cadeira 22 da Academia Cachoeirense de Letras, agora ocupada por Rosângela, foi o também professor Pedro Estellita Herkenhoff.

V Bienal

Noite Cultural II A segunda noite cultural no Shopping Cachoeiro será realizada no próximo dia 05, às 19h, com a presença de escritores, agentes culturais e público em geral. No cardápio, música, bate-papo sobre literatura, música e muito mais. Este evento tem a parceria da Academia Cachoeirense de Letras (ACL).

Entrelinhas

+ A poetisa Isaura Theodoro completou mais uma primavera no mês de agosto. + Reuniões da ACL sempre na segunda quarta-feira do mês, às 19h30. Diretoria se reúne meia hora antes. + Livro da acadêmica Célia Ferreira, contemplado pela Lei Rubem Braga, saindo do forno. + Em comemoração aos 10 anos do jornal ES de Fato colaboradores participarão de antologia. Em sessão realizada no dia 14 de agosto, os acadêmicos nomearam uma comissão composta por Valquiria Volpato, Rosângela Venturi e Roney Moraes para representar a ACL nos preparativos para V Bienal Rubem Braga, que será realizada entre os dias 13 e 18 de maio de 2014 em Cachoeiro de Itapemirim-ES.

+ Abertas as inscrições para o III CONCURSO BENJAMIM SILVA DE SONETOS.


cultura

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Personagens de Nossa História Higner Mansur

O QUE É O MUNDO!?

Os tempos eram outros, e os coronéis sentiam no ar a mudança e a sabiam inevitável. As rédeas, outrora firmes, seguras por mãos de ferro, agora folgavam, malgrado o esforço que faziam para dominá-las. Difícil acompanhar os novos tempos, por quem estava acostumado a mandar. Nisso eram concordes o Coronel Luiz e o Coronel Antonio Carlos, embora não fossem de ficar trocando essas impressões, um com o outro. Aliás, não trocavam impressões sobre nada, nem se conversavam, resultado de anos e anos de futricas pessoais e batalhas políticas que foram roendo as possibilidades de um aceno cordial. A situação política vinha se deteriorando para eles, ao longo das incontáveis eleições e nomeações para cargos públicos. A troca dos currais eleitorais dos fundões da roça pelos das periferias da cidade, que se acentuam cada vez mais, trazendo com ela novas caras e novos líderes, é que os vinha empurrando a tomar posições iguais, embora um não soubesse dos atos e pensamentos do outro. Até isso, pensar a mesma coisa era impossível imaginar que os coronéis viessem a fazer algum dia, das suas já longas vidas. Por isso que a comunhão de interesses, pensamentos e decisões não eram frutos de acordo selado com o fio de bigode. Era sim, fruto de batalhas que começavam a perder e resultado da necessidade de manter velhas forças que agora estavam sendo sugadas. A indisposição de um com o outro era coisa tão grande e desgastada que atingia o fígado. Basta dizer que o maior prazer do Coronel Antonio Carlos era dizer que o Coronel Luiz não tinha mãe (“mulher nenhuma pode gerar, pelo menos vivo, um bicho xucro como esse.”). E não se cansava de repetir histórias que ele mesmo se encarregara de espalhar nos últimos quarenta anos. E como era doce para ele, ouvir de volta, as suas histórias transformadas em coisas mais terríveis ainda. Coisas do demo, é o que dizia, enquanto se apressava em fazer o sinal da cruz. De sua parte, o Coronel Luiz, pelo menos a mãe do outro respeitava, até porque tinha muita consideração pela finada D. Mariquinha, viúva que fora do não menos finado – que Deus o tenha – Coronel Antonio Carlos (o pai, não era essa rança-tripas que passeia por aí.). Pois é, respeita a mãe. Mas, como eu ia dizendo das ruindades de um e outro, o Coronel Luiz tinha predileto prazer em fazer divulgar entre seus jagunços e entre os eleitores, que o Coronel Antonio Carlos era mestre na arte de furtar dos cofres públicos. E dizia com convicção da verdade, com tanta certeza e cerimônia que muita gente – quase toda – acreditava nisso. Dizia que a mansão do Coronel Antonio Carlos fora toda construída com muita reza, à base do terço e com muito dinheiro de imposto. E que tal se dera , quando o diabo, que era o Coronel Antonio Carlos, fora o intendente da desgraçada vila, que mesmo assim sobrevivera à pilhagem.

Muita reza, porque o Coronel era firme em invocar o nome de Deus. Muito dinheiro público, porque carroças e mais carroças de material de construção desceram até aquela baixada, quando deviam se destinar a outros lugares, menos particulares. Por isso quer era difícil imaginar uma aproximação ou uma simples confluência de opiniões ou de pensamentos. Essas coisas de mãe e de obras já estavam agarradas na memória dos coronéis, como o verde do lodo nos tijolos das construções. Ainda assim, acho que os coronéis até que resolveriam o caso a contento, pois o poder perdido é lâmina sob cujo fio, ninguém quer passar. Muito menos os coronéis, que sabem o que é viver à sombra dele e já sentiram o sol lhes queimando a pele, cada um no seu tempo. Difícil era explicar para os outros, os amigos, os eleitores, uma aliança do filho sem mãe com o rezador e construtor. Mas a necessidade é a mãe dos acordos e das mudanças e Dona Quitéria, mãe do Coronel Luiz, bem que achou o Coronel Antonio Carlos muito simpático e solícito na última missa, aquele em que o padre Ambrósio anunciou aos fiéis, não que Jesus tinha morrido, mas que as eleições estavam próximas e que era preciso pensar em quem votar, para não cometer os erros do passado. Voltando aos coronéis, já que o Padre e a Dona Quitéria fazem parte de outra história a ser contada, o fato é que coisas estranhas vinham acontecendo e um e outro coronel estavam inquietos, como se pulgas os incomodassem e os estivessem levando a mudar de posição. Pois é, coronéis! Deu-se que o atual intendente cismara de se aproximar de um intendente antigo, ambos coronéis e ambos inimigos (como tem coronel e inimigo nessa história). Os coronéis da nossa história, os primeiros, que não são bestas, e enxergam até quando a noite já caiu, desconfiaram, cada um no seu canto, que era preciso afastar algumas mal-querências e partir para a formação de uma frente que pusesse fim à sem-vergonhice daqueles dois intendentezinhos de merda, que viviam (no passado) a se ofender, um chamando o outro de débil mental, o outro devolvendo a ofensa, chamando-o de bêbado. Coronéis são sábios, ou têm experiência da vida. E aconteceu o que era impossível, mas inevitável. O Coronel Luiz, depois de muitos recados atravessados, em código que só políticos maturados reconhecem, foi à casa do Coronel Antonio Carlos (a mansão construída pelos contribuintes). Não sem antes se certificar de que ninguém o estava vigiando. Enfiou o Ford na estrada poeirenta e tratou de esconder ele embaixo de uma frondosa árvore, fora das vistas de quem passasse por ali. Um encontro desses, que não era para acontecer, não fosse a necessidade que já se falou lá atrás, não era de ir acontecendo assim assim. Os serviçais encaminharam o Cel. Luiz para a ampla sala do Cel. Antonio Car-

los, enquanto este se fazia nos preparativos finais para uma conversa que não se sabia por onde era de se começar, mas cujo fim era muito bem previsível. Enquanto aguardava o momento do encontro, para traçarem rumos para conter aquela união espúria dos intendentes, o Coronel Luiz ficou a correr os olhos por toda a sala, terminando por fixá-los nas paredes da sala. Depois, correndo a vista por elas, observou as paredes descascadas e maltratadas (já ia tempo desde o término da construção), como viu um certo despojamento e simplicidade em toda a obra. Nenhum exagero ou modismo que valesse um preço alto. Olhou para o chão, de madeira comum, que tanto poderia vir das matas vizinhas quanto de outros lugares mais distantes. Olhou para a decoração – muita coisa do velho Coronel Antonio Carlos, o pai – que Deus o tenha – e de Dona Mariquinha, tão cuidadosa com a sua antiga casa da fazenda lá do São Geraldo. Foi imerso nesses pensamentos que ele viu chegar, vindo lá do fundo do corredor que levava ao resto da casa, o Coronel Antonio Carlos. Como previsto, ficaram sem palavras. Um e outro não sabiam como iniciar um diálogo para o qual nunca estiveram preparados, nunca quiseram , mas que agora foram empurrados para ele, pela força irresistível da sobrevivência, aquela que apaga mágoas e dores. E ficariam assim durante toda a noite, não fosse a premência dos assuntos a tratar, o principal deles, cuidar de liquidar aqueles aprendizes de feiticeiros que, um e outro, um dia colocaram na intendência e que agora queriam trocar os pés pelas mãos. Passado o impasse inicial, foi o dono da casa que abriu a conversa, perguntando ao Coronel Luiz, numa delicadeza até de se estranhar: - “E como vai a senhora sua mãe, D. Quitéria?” Depois de dizer que ela ia muito bem e que mandara recomendações, inclusive ao Quinzinho, filho do Coronel Antonio Carlos (que, aliás, estava rondando uma neta dela, flor de menina), não se contentou o Coronel Luiz. Numa dessas idas e vindas da conversa, não agüentou e disse, compreensivo: - “É Coronel Antonio Carlos, até que o senhor não deve ter gastado muito nessa mansão, como o povo anda dizendo e mal dizendo por aí!” Ah, ia me esquecendo do Coronel Jesuíno, que estava lá no cantinho da sala e que viera acompanhando o Coronel Luiz nesse encontro. Pois o Coronel Jesuíno, sem piscar, ruminando qualquer coisa, como era de seu costume, pensou, quase em voz alta, lembrando uma inscrição que vira numa vila mais ao norte, aos pés da região da montanha:

- O QUE É O MUNDO!?


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Agosto/Setembro 2013 | nยบ5

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