Skip to main content

Artefato Nº 4

Page 1

Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato | Edição Nº 4 | Julho/Agosto 2013

Rubem Braga –

O Fazendeiro do Ar

EXPOSIÇÃO EM COMEMORAÇÃO AO CENTENÁRIO DO GRANDE CRONISTA CAPIXABA CHEGA AO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


2

artefato

Julho/Agosto 2013 | nº4

Quem faz

EDITORIAL

O charme da impressão

F

ora do mundo virtual, em meio a tantos mecanismos que, consideravelmente, tentam corresponder às expectativas daqueles que lutam arduamente pela manutenção da literatura, cinema, teatro, história e música, hoje contamos com periódicos impressos, como o “Artefato”, para amparar e reparar esta lacuna existente no campo das publicações.

Ailson Lovato: Mora em Castelo e é estudante de Letras/ Literatura no Centro Universitário São Camilo Espírito Santo, em Cachoeiro de Itapemirim.

Breno Callegari: Poeta, cursou História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Atualmente cursa Letras/ Português/Literatura na São Camilo.

Paulo Tarso: Membro fundador e efetivo da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Atualmente mora no Rio de Janeiro e colabora com esta edição.

Bruno Paraíso: Jornalista e editor; membro fundador da Academia Cachoeirense de Letras (ACL); e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do ES.

Rabisco

Creio que todas as ferramentas podem colaborar mutuamente para realizarem juntas uma divulgação mais ampla. Claro que financeiramente é muito mais atrativo publicar na internet, porém, algumas obras são mais admiradas quando são impressas em veículos dedicados exclusivamente à arte, educação e literatura. Temos publicações culturais respeitáveis em Cachoeiro de Itapemirim-ES e outras cidades, como as revistas da Academia Cachoeirense de Letras (ACL), entidade que já é parceira do Artefato, e a revista bimensal Cachoeiro Cult, uma desbravadora nesta editoria. Todas elas rompem as barreiras do município e se propagam mundo afora como a internet. Há colaboradores internacionais na revista da ACL, bem como a Cachoeiro Cult abrange todo o estado. Digamos que o Caderno Especial “Artefato” veio para somar com as demais publicações e também aliar às novas tecnologias para divulgar a arte. É um caderno especial repleto de pontos de vista e aberto a qualquer posicionamento dos autores ou leitores sobre seu conteúdo, que é concreto, mesmo sendo abstrato na sua concepção. Mesmo correndo o risco de parecer tradicionalista, as publicações on line têm seu valor, mas o papel tem o seu charme. É menos frio. Consegue, como nenhuma outra mídia, segmentar o público com eficiência e, ao mesmo tempo, ser o livro, suplemento ou revista de cabeceira.

Diretor - Wagner Santos wagnersantos25@hotmail.com Departamento Comercial - Lília Argeu e Elenir Atalaia

Desde 14 de março de 2003

Editoração/Design/Capa - Gil Velasco contato@gilvelasco.com

artefato

Editor - Roney Moraes roneyamoraes@gmail.com Suplemento Especial mensal de cultura, arte e literatura do Jornal ES de Fato.

Suplemento Especial de Cultura do Jornal ES de Fato

Jornal Espírito Santo de FATO - CNPJ.: 06056026000138 - (28) 3515-1067 es.fato@terra.com.br - Bernardo Horta, 81, sala 101, Guandu, CEP 29.300-782 - www.jornalfato.com.br

A


cultura Arte

Julho/Agosto 2013 | nº4

Relatos de mais uma despedida Breno Callegari

Higner Mansur: Advogado, escritor, articulista, cronista, membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e colaborador do Jornal Fato.

Felicia Scabello: Castelense, advogada, poetisa Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL) e colaboradora do Artefato.

Roberto Al Barros: Escritor, Jornalista, membro efetivo da Academia Cachoeirense de Letras, colaborador do caderno de cultura do Fato.

Janine Bastos:

Fisioterapeuta – especialista em RPG, Osteopatia, Shiatsu, Pilates, Terapia Corporal(Bioenergética em curso),casada e mãe de três filhos.

Minhas costas doem. Eu deitado em um sofá abandonado pela vida numa madrugada qualquer, observo uma página em branco. Odeio quando não consigo escrever! Resolvo observar o céu pra ver se ele derrama sobre mim tamanha inspiração necessária pra colorir com palavras o dito papel que repousa sobre meu olhar cansado. Pra minha surpresa o céu estava anêmico. Mesmo aberto, sem nenhum sinal de nuvens, ele parece triste. Seu meio luar não contente com algo se refugiava dos meus olhos por detrás de um prédio azul anil. As estrelas, poucas, amuaram-se em um cantinho do céu e brilharam pela metade. Que merda é essa? Um boicote. Todos eles estavam enraivados por minhas atitudes amorosas. Acho que eles presenciaram o beijo de adeus que eu dei na menina com o rosto de lua. Na verdade, não foi bem um beijo de adeus. Eu contei a ela que eu era um perigo. Que eu amava o amar. Não quero magoar mais uma moça. Não quero derrubar mais um coração. Mas se ela for inteligente, como parece ser, fará daquele beijo o ultimo. Eu não quero que ela vá embora, até pedi que ficasse mais um pouco. Contudo, se eu estivesse em seu lugar iria pra longe enquanto é tempo. Enviei-lhe uma mensagem antes que a noite se vertesse em madrugada e ela, pela primeira vez, não respondeu. Isso deve significar um adeus. Adeus! Esta é a primeira vez que o céu me nega poesia. Esta é a primeira discussão que tenho com o céu. Dói, espero que na menina do rosto de lua não doa tanto! Espero que ela não chore por mim, eu realmente não valeria uma, se quer, lágrima. Espero que o céu me perdoe. Espero que a poesia volte. Esperarei até amanhã. Boa noite!

3


4

artefato

Julho/Agosto 2013 | nº4

Coluna

Casa cheia Os cachoeirenses têm frequentado mais o teatro. É o que demonstram os números apresentados pela Secretaria de Cultura do município. O Teatro Rubem Braga possui 292 lugares e estrutura adequada para receber grandes espetáculos. Sete atrações nacionais subiram ao palco do espaço neste ano, entre eles, as peças “Parem de falar mal da rotina”, com a atriz Elisa Lucinda, e “Manual Prático da Mulher Desesperada ”, estrelada por Adriana Birolli.

Seminário A Associação dos Psicanalistas do Estado do Espírito Santo (Apees), em reunião, dia 03 de julho, com início às 19h30, realizada na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimento de Saúde do Sul do Estado (Sitesci), nomeou sua diretoria e ainda criou núcleo de estudos que vai debater temas a serem levados no seminário de psicanálise, para o público em geral, no mês de outubro deste ano.

Mostra de artes Aconteceu no dia 11, na histórica Capela São Pedro, no centro de Mimoso do Sul, mais uma mostra de artes sacras organizada pelo artista plástico Renato Aleixo. O vernissage contou com a participação de mais dois artistas, também mimosenses, Luciano Santos e Walleson Chanca. A pianista Josette deu a sua colaboração ao evento fazendo o som ambiente. Na abertura de seu repertório a música “Jesus, Alegria dos Homens”. Os artistas Walleson Chanca e Luciano Santos apresentaram quadros em óleo sobre tela, já Renato Aleixo, além de telas, também apresentou imagens em gesso, cerâmica e madeira pintadas em estilo barroco.

Rock Explícito realizado no dia 13 na Pastelaria Mutantes foi um sucesso. A banda The Legend Floyd foi a atração principal do evento que agitou a noite de sábado.

Perfil: Tamara Angel Tamara Ferreira Fonseca, mais conhecida como Tamara Angel, nasceu na cidade de Cachoeiro de Itapemirim – Espírito Santo no dia 19 de junho de 1991. Começou a carreira aos 14 anos, fazendo shows por vários estados brasileiros, como cover da cantora canadense Avril Lavigne. Em 2010, participou do programa Raul Gil, no Quadro Jovens Talentos. Tamara Angel representou o Rock Nacional e chegou as semi-finais. Conterrânea do Rei, em 2011, ganhou o prêmio e título da comenda Roberto Carlos, em sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, pela câmara municipal da cidade, em homenagem ao excelente trabalho no ramo artístico. Tamara Angel trabalhou como repórter no RockinRio 2011 pela SKYTV. Onde fez a cobertura completa do evento e entrevis-

tou vários artistas como: Capital Inicial, Jota Quest, NxZero e Amy Lee (Evanescence). Além disso, a cantora também fez a cobertura do Show do Justin Bieber no Brasil, também pela SKYTV. Em 2012, Tamara Angel participou do acesso MTV, protagonizou a campanha publicitaria da operadora TIM (Trem Azul) e resolveu dar inicio a seu trabalho próprio na música, onde lançou seu primeiro hit “Oi”. O hit repercutiu tanto no interior paulista, que entrou para as 10+ pedidas em rádios renomadas. A cantora chegou a fazer shows para um publico de 15 mil pessoas. Em 2013, foi repórter para TVT Cannes + Revista Tribo Skate e visitou a Europa onde gravou seu WebClipe da musica “Perto de Mim”.


cultura

Julho/Agosto 2013 | nº4

5

Crônicas

“Os Quintais e os Rios” Felicia Scabello “O fazendeiro do ar” título destinado a Rubem Braga porque na agitada Ipanema ele reconstruiu os aromas e os sons de sua infância: um recanto para se inspirar e receber os amigos. Pois bem, me recordo do quintal onde eu passava muitas horas exercendo a imaginação da melhor forma possível um local recheado de mangueiras, enorme parreira, hibiscos e margaridas. Ao fundo contemplava o rio Castelo ainda limpo e mais cheio onde a meninada jogava brinquedo na água para se banhar, pois piscina somente na casa do vizinho e a vontade era muita.

Este rio que lá pelas bandas de Itaóca Pedra deságua no Itapemirim tornando-o mais completo e cheio de vida. Com o tempo o quintal virou uma casa de colunas grossas e cômodos enormes e do universo infantil restou a jabuticabeira, a ameixeira e a jaqueira que sobreviveu por certo períodoaté uma família de gambá subir pelos seus galhos próximos das janelas e se apoderar dos quartos. Na jardineira média duas pitangueiras que ninguém plantou, e sim os passarinhos, e um pé de hortelã para temperar os deliciosos quibes que a família aprecia, local este deno-

minado “Villa Adriana” porque remete a uma estimada amiga que reside na cidade natal do “fazendeiro do ar”. No ginásio nas aulas de Técnicas Agrícolas eu e outra amiga, xará da cachoeirense, fizemos um canteiro de alface e parecíamos fazendeiras com enxadas e regadores naquela pequena horta escolar, porém bastante produtiva. O rio passa hoje sem crianças brincando em suas margens e felizmente ouço rolinhas e bem-te-vis nos pés de jamelão, fruta também conhecida como jambolão.

Fazer...puro e simplesmente Janine Bastos Sem nada em troca esperar receber.Elogio, agradecimento, compaixão, companheirismo, solidariedade... Nada, nadinha. Já ouviu falar em amor ágape, aquele que tudo dá, sem nada em troca querer? Os que conquistaram tal façanha ou viraram santos, ou foi o próprio Jesus Cristo. É provável que não conseguiremos com esta atitude, alcançarmos tamanha honraria. Penso que este comportamento simplesmente nos encoraja a acreditarmos,

que não precisamos ser super, para desfrutarmos das alegrias de simplesmente sermos. Em outras palavras, podemos ser bons no que fazemos sem necessariamente nos preocuparmos em sermos super. Talvez ser super seja apenas uma forma de fugirmos de nossas fragilidades, de nossas grandes inseguranças, e assim, como em um passe de mágica, ser super nos colocaria em outro patamar. É claro, bem superior.

Por isso, sigamos nossa caminhada, construindo nossos caminhos com nossos próprios passos. E quando bater uma vontade de logo correr para aquele super lugar lembraremos que este lugar pode também ser morada de grandes frustrações. Pena! Quem é que nunca sonhou em ser super? Mas talvez agora percebam, o quanto pode ser mais real sermos o que somos, pura e simplesmente, ser e fazer sem nada em troca esperar receber.


6

Julho/Agosto 2013 | nº4

artefato Especial

Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar Exposição em comemoração ao centenário do grande cronista capixaba chega ao Museu da Língua Portuguesa

Visitação: 25 de junho a 01 de setembro de 2013 A mostra interativa comemora o centenário do autor e reúne textos, documentos, correspondências, desenhos, pinturas, fotografias, objetos, depoimentos em vídeos e publicações, para que os visitantes – em especial as novas gerações – possam mergulhar no universo deste grande escritor. Nascido em 12 de janeiro de 1913, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga elevou a crônica à potência máxima na literatura brasileira. A concepção e realização do projeto são do Instituto de Inovação do Estado e da Sociedade (IIES) e da Empório Empreendimentos Artísticos. A realização é do Governo do Estado do Espírito Santo e a exposição no Museu é uma realização da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

rápida, é o prazer de ler. “Ele vai atravessar todas as gerações. Suas crônicas falam dos detalhes, das cenas cotidianas, dos consensos da humanidade, e são embrulhadas uma a uma com um texto que veste a roupa da língua comum”. O curador observa não ser à toa que chamam Rubem Braga de inventor da moderna crônica brasileira. “O gênero já existia, vinha desde José de Alencar, passara pela maestria de Machado de Assis, a carioquice peripatética de João do Rio. Foi Rubem quem lhe acrescentou lirismo poético e a influência, bem humorada e coloquial, dos modernistas de 1922. É o formato que a gente conhece hoje, por exemplo, em textos de Veríssimo”, explica.

A curadoria da exposição é de Joaquim Ferreira dos Santos – ele próprio escritor, jornalista e cronista –, que mergulhou nos arquivos integralmente cedidos pela família de Rubem Braga, e ainda nos documentos e fotografias já doados à Fundação Casa de Rui Barbosa, para traçar o percurso da exposição. O projeto cenográfico é de Felipe Tassara.

O diretor técnico do Museu da Língua Portuguesa, Antonio Carlos de Moraes Sartini, afirma que a obra de Rubem Braga é muito apropriada, por sua simplicidade cativante e enorme qualidade, para promover a aproximação entre os jovens frequentadores do Museu e os bons livros. “Estamos muito felizes com a exibição da mostra ‘Rubem Braga - O Fazendeiro do Ar’ no Museu da Língua Portuguesa”.

Joaquim Ferreira dos Santos afirma que Rubem Braga, em uma frase

O secretário de Estado da Cultura, Marcelo Mattos Araujo, ressalta que

o Museu da Língua Portuguesa vem conseguindo, por meio de exposições como estas, conquistar um público diversificado, que encontra no local soluções criativas na abordagem de um patrimônio que é imaterial. “Museus devem ser principalmente lugares para o desenvolvimento de experiências humanas. O Museu da Língua alcança isso proporcionando uma vivência multissensorial das questões desenvolvidas em suas mostras”. Estarão na mostra vídeos com depoimentos de amigos próximos, que conviveram com Rubem Braga, como Ziraldo, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, Danuza Leão, Fernanda Montenegro, Lygia Marina, José Hugo Celidônio, entre outros. “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar” está dividida em módulos temáticos: Retratos, Redação, Guerra, Passarinhos e Cobertura, que abordarão sua infância em Cachoeiro de Itapemirim; o dia-a-dia em jornais como redator, repórter político e também de artes plásticas; sua ação como correspondente de Guerra na Itália; sua paixão por pássaros, tema recorrente de seus textos; e sua lendária cobertura em Ipanema, no Rio, um pedaço do mundo rural em plena selva urba-


cultura

Julho/Agosto 2013 | nº4

7

Especial

na, com pomar e passarinhos. Cada um desses espaços tem uma concepção visual de modo a provocar no espectador a ideia de imersão no universo ali retratado. Assim, na sala Retratos, imagens do escritor, em diversas épocas de sua vida, ocupam uma parede. Em Capital Secreta do Mundo estão dez caixas suspensas que, ao serem abertas, revelam textos, documentos e fotos. Em Redação, reproduções de páginas de jornal cobrem paredes e chão, e dez mesas, típicas das existentes dos jornais da época, trazem

um tema cada uma, que podem ser explorados pelo espectador a partir de iPads acoplados a antigas máquinas de escrever, como se fossem folhas de papel. As mesas temáticas, que mostram suas várias facetas, atividades e interesses, são: Espírito Santo, Manchete, Diplomata, O andarilho, Homem de televisão, Editor, Repórter, Escritor, Arte, O homem Rubem Braga.

No espaço Guerra, em uma mesa estão dez telefones antigos, típicos dos anos 1940, que, ao serem tirados do gancho, permitem ao

visitante ouvir músicas, jingles, trechos de programas de rádio e noticiário da época da Segunda Guerra Mundial. E, pendurados no teto, aviões de papel, feitos na técnica japonesa de dobradura, o origami. No último espaço, Cobertura, é reproduzida sua famosa cobertura, palco de reuniões memoráveis com amigos artistas e intelectuais. Nela, os visitantes podem assistir os depoimentos em vídeo de Ziraldo, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, Danuza Leão, Fernanda Montenegro, entre outros.

FICHA TÉCNICA: CURADORIA: Joaquim Ferreira dos Santos PROJETO CENOGRÁFICO: Felipe Tassara CONCEPÇÃO E REALIZAÇÃO: Instituto de Inovação do Estado e da Sociedade (IIES) e Empório Empreendimentos Artísticos Coordenação e Produção Executiva: Luciana Vellozo Santos e Robson Outeiro / Empório Empreendimentos Artísticos e Culturais REALIZAÇÃO: Governo do Estado do Espírito Santo/ Secretaria de Estado da Cultura/ Ministério da Cultura PARCERIA: Instituto Sincades APOIO: Fundação Casa de Rui Barbosa e Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim. REALIZAÇÃO EM SÃO PAULO: Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, Museu da Língua Portuguesa SERVIÇO: Exposição “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar” Museu da Língua Portuguesa VISITAÇÃO: de 25 de junho a 1 de setembro ENDEREÇO: Praça da Luz s/n; tel.: (11) 3322-0080 HORÁRIO: de quarta-feira a domingo, das 10h às 18h (a bilheteria fecha às 17h). Fechado às segundas. Às terças-feiras, o museu fica aberto até as 22h. INGRESSOS: R$ 6 e R$ 3 (meia entrada), com entrada gratuita às terças-feiras e ao sábados


artefato

8 Julho/Agosto 2013 | nº4

Coluna

Coluna da Academia de Letras (ACL)

Nova diretoria da ACL

Joacy Ribeiro Novaes, Roney Moraes, Valquiria Volpato, David Loss, Isaura Theodoro e Solimar Soares.

Visita cultural A acadêmica Gláucia Moulin foi à França no mês passado, com os filhos, pela primeira vez. Ela está muito feliz e disse que se virou bem com o francês que aprendeu no Colégio Jesus Cristo Rei.

III CONCURSO BENJAMIM SILVA DE SONETOS A Academia Cachoeirense de Letras (ACL) promove o III CONCURSO BENJAMIM SILVA DE SONETOS, com o objetivo de incentivar e divulgar a produção literária, e, principalmente, despertar o gosto pela linguagem escrita, em verso. O tema é de livre escolha, podendo cada concorrente inscrever até 2 (dois) trabalhos inéditos, separadamente, datilografados ou digitados, em 3 (três) vias e em espaço 2 (dois), vedada a participação dos Membros Efetivos da ACL. Serão observados 3 (três) níveis: a) Local – para quem reside em Cachoeiro de Itapemirim; b) Estadual - para quem reside em outra cidade do Estado do Espírito Santo; c) Nacional – para quem reside em outros Estados da federação. Maiores informações no site http://www.academiacl.com.br

Sergio Damião, Estelemar Martins e David Lóss em momento de descontração.

Entre linhas + No dia 28 de junho, no Teatro Rubem Braga, nossa confreira Joacy Novaes recebeu a COMENDA RUBEM BRAGA, outorgada pelo Município. + Dr. Solimar Soares da Silva entregou finanças em dia, com pequeno saldo positivo, ao novo presidente da ACL, David Alberto Lóss. + Célia Ferreira, Ariette Moulin e Marcelo Grilo foram contemplados com a Lei Rubem Braga para publicarem suas obras.

Parceria Shopping Cachoeiro faz parceria cultural com a Academia. Foram lançados dia 18 os livros: “Em nome da lei”, “Cachoeiro e outras capitais” e “Filosofia de Butiquim”. De Evando Moreira, Sergio Damião e Ricardo Lemos. Em agosto será a vez de Roney, Marilene Depes e Ariette Moulin.

Lançamento do livro “Em nome da Lei”, do acadêmico Evandro Moreira.


cultura

Julho/Agosto 2013 | nยบ4

9


artefato Julho/Agosto 2013 | nº4

10

artefato

Cachoeiro, o nome da minha saudade Bruno Torres Paraiso (...) O canto do rio rolando nas pedras; os trilhos do trecho da Leopoldina entre altos paredões, que levavam até a ponte de ferro; descer a rua Moreira a caminho do Liceu; a poesia de Newton Braga, Benjamin Silva, Solimar de Oliveira e tantos outros que formavam uma multidão de poetas; os jornais quentinhos com as crônicas da província cosmopolita que era Cachoeiro; a fanfarra do maestro Taveira e as balizas de Dona Geni; a bandeira do Brasil que eu carregava nos desfiles do Liceu, o coração saltando do peito; o grito de guerra do professor Deusdedit, do alto do palanque, na festa da cidade: “La vem o Liceu!!!”; a casa do Dr. João Madureira filho, apóstolo do desenvolvimento sustentável e da liberdade; os papos com Tróphanes Ramos, enquanto ele compunha um texto de jornal com minúsculos caracteres tipográficos; o início das aulas do Liceu, no mês março, o auge do calor cachoeirense; as aulas de Aylton Bermudes, José Xavier do Valle, Deusdedit, e tantos outros mestres sublimes; as reuniões da Casa do Estudante (Ceci) e da União Cachoeirense de Estudantes Secundários (Uces), escolas de cidadania; os cinemas Central, Santo Antônio, Broadway, Cacique, São Luiz e Alvorada; as bandas de música 26 de Julho e Lira de Ouro; Suely Paes, Laís Flores da Cunha e Marilene Depes, desfilando com o fogo simbólico, na olimpíadas do Liceu; as eleições da Rainha dos Estudantes; a misses Cachoeiro, Joselina Cipriano, Antoinete Ribeiro e Dinah Machado; Míriam Coelho dançando a Dança do Fogo, nas horas sociais do Liceu; Margarida Lofego, rainha nacional do Turismo; as missas na Igreja de Nosso Senhor dos Passos; a casa alegre, cheia de filhos e amigos de Dona Nair Coelho e Dr. Valdelino; a morte do professor Gilceu Machado; Joselina Cipriano adentrando os corredores do Liceu, com toda a sua beleza, para dar a sua primeira aula de História, substituindo Waldemar Mendes; o encanto e o gingado de Atalídia Depes Bueno passando pelas ruas da cidade; a Rádio Cachoeiro, ZYL-9, e seus cantores, regionais, e locutores; a fundação da Academias Estudantil de Letras e Cachoeirense de Letras; o tenente Pereira, codinome Nordestino Filho, vendendo, de porta em porta, os seus livros de trovas; os Canarinhos de Cachoeiro, de Dona Evanny Ramos, dando seus recitais no Jardim de Infância; Marialva Pinto, loura, linda e inteligente, mancando levemente, passando pela minha rua sob o meu olhar deslumbrado; as moças Intra, filhas de operário, muito orgulhosas dessa condição: Vera era intelectual e Nola e Rejane, atletas; Rogério Franzotti, com seu riso fácil e seu jeito comunicativo, convi-dando-me para uma festa junina em Matilde, distrito à margem da estrada de ferro a caminho de Vitória, onde se comia doce em prato fundo; as reuniões da nossa turma no Liceu na casa de Lucília do Rosário Baptista, lá no alto,

muito acima da minha casa, cheias de alegria e calor humano; Miriam Branca Très descendo a sua rua, cruzando a Siqueira Campos, linda como a Branca de Neve; dona Clarice Caiado, com a sua pose de matriarca; Nagibinho, irmão do Zé da Jóia, mongolóide esperto, sempre andando de um lado para outro; as broncas de dona Olga Ayd e de dona Ormy Resende, Catiqunha, Gregório e Náureo Valdino, seu Ovídio e Seu José, eternos chefes e inspetores de disciplina, no Liceu, mantendo-a ferreamente, sem jamais perder a ternura; dona Stael de Medeiros Corrêa, a doce secretária do Liceu e nosso anjo da guarda; a beleza da senhora Gerson Moura, iluminando a cidade, nas raras passagens pela praça; o sonho que era ver passar dona Ivone Marins Vivacqua e dona Nina Pivovaroff Arão; a padaria de seu Eutímio e o pudim de pão e a empada de dona Alta, parada obrigatória, a caminho do Liceu; dona Azenath e o pastor Jader Coelho, em frente ao Ateneu, recebendo seus alunos; as freirinhas do Cristo Rei, que mais pareciam pinguins ensopados pelo calor escaldante de Cachoeiro; Dona Zulmira penteando os cabelos na janela com um pente em brasa; Solimar de Oliveira, indo para a Prefeitura, inteiramente no mundo da lua, poetando enquanto caminhava com seu passo lento, lento; Deusdedit Baptista com suas passadas de galgo, sempre com pressa, a caminho de um sonho impossível; Gilson Carone, Newton Meirelles, João Cândido dos Santos e Ramon Ramos fazendo suas pregações socialistas, junto a outros companheiros do comitê nacionalista, que defendia as reformas sociais, a igualdade e a justiça; o 31 de março de 1964 e, muito especialmente, o 1º de abril daquele ano, o início do reino de terror que iria durar 21 anos; a cooperativa dos funcionários públicos, onde se comprava com caderneta, por mês; a mansão dos Amaral, com Maria Luiza na janela; as meninas ricas do Morro São João, perto da catedral, Mara, Heloísa, Lourdinha, e tantas outras desfilando sua beleza; as meninas Freitas, entre elas a linda Celinha, com sua extrema comunicabilidade; a Rua Estela do Norte, onde Elzinha passava a sua graça; o Guandu fervilhando, com se fosse um shopping popular céu aberto; a estação da Leopoldina, onde se chegava e de onde partiam trens sonolentos para tantos destinos; a praça Luiz Tinoco da Fonseca, em torno da qual se espalhava a colônia libanesa, gente hábil no manejo do comércio; a pensão de Maria do Carmo Gomes Novo, minha colega de Liceu, bem em frente à estação; o velho Hotel da Estação, com sua arquitetura encantadora; as ilhas da Luz e do Meirelles; a fábrica de pios de aves do velho Coelho, um louco que esculpia sons em madeira; caminhar pelo Amarelo, em tardes perdidas; ir sonhar na Baiminas, lá onde o rio Itapemirim, outrora, recebia as embarcações que vinham da Barra de Ita-

pemirim; a Curva do Caixão, onde Rubem Braga quis que suas cinzas fossem espalhadas; O Belas Artes, de boa culinária, e Rubem Braga lá dentro, com a sua falsa cara de poucos amigos; o cartório de Newton Braga, depois do meu professor de História das Américas e diretor no Liceu, Edmar Mendes Baião; a Casa Manhães, pioneira em eletrodoméstico, do velho Manoel Manhães, pai de Hélio Carlos, prefeito e, depois, deputado federal; a agência do Banco do Brasil, pólo irradiador de de-senvolvimento, com Raymundo Araújo Andrade na gerência, lugar que foi, depois, do jornalista Ormando Moraes e de Juanito Gama; a mansão-símbolo da riqueza de então, de dona Ruth Vivacqua Vieira, ao lado da Rádio Cachoeiro; o Aquidabã se espalhando em desordenado crescimento; os bailes do Cruzador, e do Caçadores, nos quais a minha timidez nunca me deixou entrar; as matinês dançantes da Casa do Estudante onde as meninas chiques não iram; as solteironas passeando na praça de braço dado; o palácio de pedras de Anacleto Ramos e sua mulher, filha do lendário Samuel Levy; o Bernardinho Monteiro fervilhando de meninos e meninas bem no centro da praça que leva o nome do seu irmão; bairro dos Ferroviários, em terreno doado por Anacleto, de onde saíram tantos líderes das lutas populares; o armazém dos Fornazier, perto da linha do trem, onde eu a contra gosto fazer compras de casa, atendido pela Tieta; a Campanha de Alfabetização da genial Zilma Coelho Pinto; “seu” Kleber Massena, comunista histórico e excelente comerciante popular; as fotos Brunini e Byron, que registravam a história da cidade; a banca de jornal dos Santana; a casa de sapatos A Principal, onde se comprava para pagar no fim do mês, cujo dono era pai de Cláudio e Roberto Guimarães, colegas do Liceu; o Jardim de Infância com suas lindas professoras, que pareciam escolhidas a dedo; O Coronel Borges e a chácara dos Athayde, onde nunca ousei entrar, mas que me parecia o próprio paraíso, no qual dona Ertha, severa professora de Francês do Liceu, escondia-se do mundo; o teatro de Elias Aoni Filho; a poetisa Alma Selva lendo seus poemas na Academia; o sobrado do professor de Física e advogado Osires de Azevedo Lopes; Rage Miguel, com seu sorriso e delicadeza, atravessando, lentamente, a rua 25 de Março; os prédios da Maçonaria e do Centro Operário, monumentos de história municipal. Lembranças, lembranças e lembranças, que não acabam mais. Tudo isso são pedaços da minha saudade. *Trecho de livro inédito, Glossário Sentimental de Cachoeiro. *Jornalista e editor; membro fundador e efetivo da Academia Cachoeirense de Letras (ACL); e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES).


cultura

Julho/Agosto 2013 | nº4

11

Personagens de Nossa História Exposição de Rubem Braga Higner Mansur À medida que a gente vai pegando idade e escrevendo com maior regularidade e maior responsabilidade, acabamos por elevar o nível de exigência ao fazer afirmativas, que só são escritas com probabilidade grande de não errar. Ao menos é assim comigo. Por isso, quando li, em espaço da imprensa local (Atenas Noticias), entrevista de Joaquim Ferreira dos Santos, curador da Exposição “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar”, me preocupei, mas não escrevi. Precisava apurar, antes. O curador Joaquim disse, textualmente, em 29 de março: “A exposição estará em Vitória até o dia 26 de maio. Depois de Vitória, ela segue para São Paulo e de lá para o Rio de Janeiro, retornando para o Espírito Santo, onde ficará na Casa dos Braga, em Cachoeiro”.Achei que nada deveria escrever naquele momento. É que baixou perplexidade: para caber fisicamente na Casa dos Braga, espaço nobre da cultura local, e sempre em más condições de conservação (“só” de conservação, pois o pessoal de lá é ótimo), a exposição “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar” deveria ser no mínimo, pequena, vez que o espaço lá é mínimo e, sendo mínimo, tem

esse mínimo tomado por livros, afinal é biblioteca. Por conhecer a biblioteca e não conhecer, na ocasião, a exposição, intui que algo estava errado: com o rebuliço com o qual foi anunciada a Exposição, não poderia ser ela coisa pequena, não poderia ser coisa simples, não poderia ser algo que apenas fosse depositada entre os corredores do Palácio Anchieta, em Vitória e nem na Casa dos Braga. Como diz Sérgio Neves, tinha algo errado e eu não sabia o que era – e nada falei. Pois bem, agora posso escrever com possibilidade mínima de errar: Fui lá ver: a Exposição “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar” é algo grandioso, da altura de Rubem Braga e merece sim, após rodar capitais do Brasil, retornar ao Espírito Santo, especificamente a Cachoeiro, mais especificamente ao Bernardino Monteiro, antiga escola no centro da cidade, único local com espaço suficiente para acolhe-la permanentemente e sempre aberta à população daqui e dos visitantes que colocam Cultura em primeiro lugar. Eu vi: é exposição que custou caro, que será de manutenção cara. Sendo boa (óti-

ma, aliás), trará dividendos para Cachoeiro, mais que os R$ 1.500.000,00 anuais de tendas na praça local. E a manutenção será cara, mas proveitosa, muito mais barata do que as mesmas tendas. Volto ao que queria dizer em março, e não pude, por não ter certeza. Hoje tenho. Corremos sério risco de cairmos no ridículo quando a exposição, no inicio de 2014, vier para Cachoeiro. A Casa dos Braga é o que é e não cabe. O Bernardino Monteiro, apesar da promessa do Padre Mariano, Diretor de Imprensa da Prefeitura, não vai voltar para a Cultura tão cedo e não tem outro local para a instalação da Exposição “Rubem Braga – O Fazendeiro do Ar” que, pela grandiosidade, será dispendiosa na manutenção. Talvez a saída possa ser como aquela do início deste ano, em relação à Revista do Globo, que andou falando algumas verdades incômodas: como o Curador Joaquim Ferreira dos Santos também é colunista de O GLOBO, vamos dizer logo que ele é PIG, Partido da Imprensa Golpista e está tudo resolvido; que mandou-nos a exposição só para humilhar nossa cidade e patati patatá. Mas que estamos à beira do ridículo, isso estamos. Há 24 minutos •

A Sombra do Vento (IV) Roberto Al Barros Que telefone desastrado! – justamente quando tento reaver meus laços acadêmicos, vem a telefonista me dizer que o professor Lacan não é mais catedrático de Estruturalismo na Universidade Lino Arzverda. Pergunto então, quase apoplético, pelo meu ex-mestre, ao que ela responde: – Deve estar na Europa. Amsterdã... Zurique. E não é só ele: os que não foram presos, partiram para o exílio! – Meu Deus! – exclamei incrédulo – O que está acontecendo? – Hoje não tem aula – continuou a telefonista –, greve nem se fala, o exército ameaça invadir o campus, caso haja alguma reação dos acadêmicos... Mas, afinal de contas, quem é o senhor que não sabe de nada? A essa altura eu já passara de aturdido a perplexo. O coração batia rápido, o pulso estava acelerado; procurei me explicar: – Desculpe – respondi atropelando o bom-senso –, meu nome é Pedro Zarzuela. Eu estava tão compenetrado esses dias terminando um livro, que me

descuidei do noticiário. – Ah, o senhor então é escritor!... Então não posso falar com o senhor sobre o professor Lacan ... – Por qual motivo o professor foi para o exílio? – insisti. – Não posso falar sobre isso! – Por quê? – O senhor também não sabe? Muitas linhas estão sendo vigiadas... – Linhas grampeadas? Não acredito que estejam ouvindo nossa conversa agora! – Olhe bem, senhor escritor, o professor Lacan... Naquele momento ouvi um clique, e a ligação caiu. Na noite daquele mesmo dia, enquanto concluía o desfecho do conto “Trevas urbanas”, percebi que havia uma movimentação diferente na rua. Afastei o canto da cortina, mas não percebi que a

casa se encontrava cercada, pois na rua às escuras todos os carros eram pretos. Eu só veria esse detalhe dez minutos depois, quando saí detido a sob acusação de ser mentor intelectual de um grupo contrarevolucionário. Agora, à pálida luz de uma lâmpada fria, enquanto escrevo toscamente nesta folha de papel, relembro meus tempos de estudante: ao olhar para trás, não encontro parâmetros no presente. Enquanto anoto, aguardo para ser levado a novo interrogatório..., mas, meu Deus! Que gritos são esses...? NOTA: Estas memórias foram resgatadas dos pertences de Pedro Zarzuela, deixados misteriosamente numa noite chuvosa na varanda da casa de uma sua tia, em Cincerro. A família os manteve intactos por trinta anos, aguardando sua volta, o que nunca ocorreu. Sua mulher, Levínia Zarzuela, morreu sem saber se o marido estava vivo. A reprodução do trecho acima, agradecemos a Pedro Zarzuela Júnior, concedida em simultâneo à recente doação dos originais à Universidade Lino Arzverda.

Continua...


12

Julho/Agosto 2013 | nยบ4

artefato


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Artefato Nº 4 by Jornal Fato - Issuu