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Revista Brava Gente

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Mossoró terá maior unidade hospitalar da rede estadual

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ossoró, município no qual a cultura da resistência permeia toda a sua formação histórica, terá ainda neste ano de 2022 mais um reduto alinhado ao ato de resistir. O Hospital da Mulher Parteira Maria Correia está sendo construído pelo Governo do RN na cidade, mas também servirá a toda a região Oeste. Mais de 70% de sua execução já foi concluída e esta será a maior unidade hospitalar da rede estadual. Especializado na saúde feminina, sua implantação conta com o investimento de R$ 134 milhões, recursos viabilizados pelo Projeto Governo Cidadão, com fiscalização da Secretaria de Estado da Infraestrutura (SIN), gestão da Secretaria de Estado da Saúde (Sesap) e a partir do empréstimo estadual com o Banco Mundial. Ao todo, serão mais de 160 leitos focados na atenção materno-infantil, ginecológica e obstétrica de média e alta complexidade. A meta é realizar 20 mil atendimentos/ano a pacientes oriundos de mais de 60 municípios.

Serviços em andamento Serão 15 mil m² de área construída dividida em quatro andares com oito elevadores. O terreno, que soma 36 mil m², terá quase 200 vagas de estacionamento. Atualmente, estão sendo executados os serviços de pavimentação, iluminação e drenagem, na área externa. Por dentro do prédio, estão sendo concluídos detalhes de acabamento (divisórias, revestimentos de parede e piso, forros e esquadrias) e estão em andamento as instalações hidrossanitárias, elétricas, de gases medicinais, telecomunicações, de combate a incêndio e de climatização. Restam apenas poucos serviços a serem executados, como a conclusão da drenagem externa e paisagismo (calçadas, estacionamento, iluminação externa, etc.). Toda a infraestrutura e superestrutura das edificações e alvenarias já está concluída. Entre os detalhes desta grande construção estão a sua fachada, parte composta em porcelanato e outra parte, em “pele de vidro”, o que favorece a ventilação natural.


Hospital da Mulher

está mais de 70% concluído pelo Governo do RN e será referência em saúde feminina

Mais de R$ 40 milhões em equipamentos Estão programadas 16 licitações para compra de equipamentos, mobiliários e veículos para a unidade, que somam mais de R$ 40 milhões. Aparelhos de grande porte, como Raio X, que necessitavam estar no local antes das obras físicas serem erguidas, já estão no local. Todas as licitações previstas contam com consultas públicas para dar transparência e promover uma ampla concorrência entre empresas do ramo hospitalar.


Ín dice Lampião no RN, medo, terror e sangue...................................................................8 Tomada de Apodi teve papel decisivo......................................................................10 Lampião conhece Massilon Leite............................................................................12 Lampião foi convencido a atacar Mossoró..............................................................14 Levante na antiga Marcelino Vieira........................................................................15 Mossoró era o destino...........................................................................................16 Mossoró fica em alerta com ataques em Apodi...................................................17 Mossoró exibia prosperidade em 1927................................................................18 Início da peleja com a prisão de Antônio Gurgel...................................................18 Mossoró recebe o primeiro aviso.........................................................................19 Governador Dix-Sept Rosado e nova tentativa de ataque a Apodi........................22 O fim da festa e pânico...........................................................................................23 As primeiras horas do dia 13 de junho...................................................................23 "O homem tá disposto a brigar".........................................................................24 Mossoró se prepara para o confronto...................................................................25 Última troca de bilhetes.......................................................................................26 Tudo pronto para o ataque...................................................................................27 A hora fatal: invasão e resistência.........................................................................28 Colchete e Jararaca...............................................................................................30 Derrotados usaram o cemitério da cidade como trincheira..................................31 BRAVA GENTE

Prisão de Jararaca ocorreu no dia seguinte ao ataque...........................................32

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Reféns libertados sem pagamento.......................................................................33 Proteção de Padre Cícero......................................................................................34 O assassinato de Jararaca....................................................................................35 Heróis da resistência............................................................................................36 Quem foi Rodolfo Fernandes?................................................................................39


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Terra da Liberdade, de Povo Herói, de Gente Brava. Mossoró é assim. É de sua natureza. É de sua história. Em 1875, o Motim das Mulheres, liderado por Ana Floriano, impediu que os filhos de Mossoró fossem recrutados para a Guerra do Paraguai. Em 1883, Mossoró libertou os seus escravos antecipando em cinco anos a Lei Áurea, mostrando o seu pioneirismo de luta e liberdade. Em 1927, Mossoró concedeu o primeiro título de eleitora da América Latina, com a professora Celina Guimarães exercendo o seu direito à cidadania nas eleições de 1928. Antes de Celina Guimarães requerer título e ser inserida na lista de eleitores, também em 1927, Mossoró escreveu outro capítulo importante de sua história de pioneirismo, resistência e liberdade, ao expulsar o bando do temido cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. É sobre esse feito que a revista BRAVA GENTE atravessará o tempo, transferindo o imaginário popular para um documentário pedagógico, a partir de registros e narrativas de historiadores e estudiosos do cangaço. O trabalho editorial é sustentado pela publi-

cação “Invasão e Resistência”, com textos primorosos do jornalista José de Paiva Rebouças, respaldado pelos consultores históricos Geraldo Maia do Nascimento e Kyldemir Dantas. A obra “Lampião no Rio Grande do Norte”, do juiz Sérgio Augusto de Souza Dantas, legitima o trabalho jornalístico, assim como o crédito de Raul Fernandes, Raimundo Nonato e Sérgio Dantas. O propósito cultural e pedagógico desta publicação se justifica pelo fato de, apesar da história ser recontada há tanto tempo, com espetáculo teatral e tantas publicações editadas, ainda existe um vácuo de conhecimento sobre tudo que aconteceu naquele 13 de junho de 1927, quando a trincheira do prefeito Rodolfo Fernandes venceu a batalha contra Lampião. A revista BRAVA GENTE conta a história como ela aconteceu, a partir da entrada de Lampião e seu bando no Rio Grande do Norte até a expulsão e fuga para o estado do Ceará. Relata, com todos os detalhes, como o povo de Mossoró se preparou para vencer a batalha e escrever o capítulo “Heróis da Resistência” na história da Terra da Liberdade. Boa leitura. César Santos - Editor

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Expediente Editor: César Santos Pesquisa e textos: José de Paiva Rebouças Projeto Gráfico e Diagramação: Augusto Paiva Revisão: Regiane de Paiva e Ângela Karina Consultor histórico: Geraldo Maia do Nascimento e Kydelmir Dantas


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Lampião

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no RN, medo, terror e sangue 8


JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS josedepaivareboucas@gmail.com

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ara a maioria dos pesquisadores, o grande incentivador do ataque de Lampião a Mossoró, em 13 de junho de 1927, foi Massilon Leite, capanga de coronéis da Paraíba que teve vida curta no cangaço. Natural de Timbaúba dos Mocós/PE, segundo pesquisa de Honório de Medeiros, esta figura emblemática do cangaço da década de 1920 viveu em Cacimba de Areias, em Patos/PB, depois no Sítio São Joaquim, em Pombal/PB, até, finalmente, chegar ao sítio Japão, no município de Luís Gomes/RN onde viveu até sumir do mapa. Massilon, ou Benevides, como também é chamado, teria sido o responsável por persuadir o coronel Isaías Arruda a convencer Lampião do ataque. Coiteiro afoito do Ceará, Arruda era chefe político em Missão Velha/CE e costumava dar guarita aos cangaceiros no município de Aurora/CE, onde também tinha propriedade. O argumento principal para fazer a cabeça de Virgulino, no entanto, foi a invasão promissora de Massilon à cidade de Apodi, no dia 10

de maio de 1927, atendendo solicitação do fazendeiro Décio Hollanda, de Pereiro/CE. Genro de Tylon Gurgel, chefe político de Pedra de Abelha, distrito da zona rural apodiense onde hoje é o município de Felipe Guerra, Hollanda queria notoriedade política para ele e para o sogro. Na oposição, vivia de atacar a família Pinto, especificamente o presidente da Intendência Municipal, Francisco Ferreira Pinto, e era perseguido politicamente por isso. Acontece que a oligarquia Pinto tinha ligação com o poder em Apodi desde 1780 quando tomou posse na cidade o capitão Pinto Machado. Esse grupo se tornou tão poderoso que possuía representação política em toda a região – de Portalegre a Mossoró. Como Hollanda não conseguiu assumir a posição desejada, só lhe restou a vingança. Para isso, procurou o coronel Isaías Arruda. Este, por sua vez, contratou Massilon Leite para montar um grupo e pôr em prática o crime encomendado.

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Antes de pisar em Mossoró, o mais conhecido cangaceiro da história nordestina realizou uma peregrinação de mais de 200 km, espalhando medo, terror e sangue. Mas, talvez ele não tivesse vindo se não fosse o ataque de Massilon a Apodi, uma parte da história que poucos conhecem ou dão atenção.

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Tomada de Apodi teve papel decisivo

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Massilon e seu bando entraram em Apodi por volta das quatro horas da manhã do dia 10 de maio de 1927. Com tiros e algazarras espalharam o terror. Atacaram prédios importantes e estratégicos como o telégrafo e a cadeia pública, onde prenderam os praças e roubaram as armas. Segundo o pesquisador Geraldo Maia, os cangaceiros levavam uma lista de tarefas indicando o castigo de cada uma das futuras vítimas: executar o presidente da Intendência Municipal, Francisco Ferreira Pinto (Chico Pinto) e o capitão Jacinto Tavares; espancar e cortar a orelha do comerciante Luiz Leite e saquear as fazendas de Luiz Supino e Benvenuto Laurindo. Sérgio Dantas explica que os cangaceiros tinham à mão uma lista, escrita a lápis, com nomes dos alvos. O mais importante era o intendente Chico Pinto, seguido pelo capitão Jacinto Tavares e os comerciantes Luiz Leite, Luiz Sulpino e Bevenuto Laurindo. Ao lado de cada um dos nomes, a pena respectiva ia desde o espancamento até a execução. Na casa de Chico Pinto, Massilon anunciou

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sua morte, mas, não se sabe porque acabou desistindo depois de conversar com o intendente. Levaram do homem cinco contos de réis entre dinheiro e joias da família. O segundo ataque foi na casa de Luiz Leite. Arrombaram a porta e pediram resgate. O homem implorou pela vida. Depois disse que não tinha em caixa o dinheiro pedido por seu resgate e então pediu permissão para tomar emprestado nas redondezas. Massilon vacilou, mas acabou cedendo. O homem saiu e não voltou mais. Quase 10h da manhã, os cangaceiros ainda dominavam a cidade. O chefe do bando, enfurecido com a enganação do refém, mandou saquear seu comércio. Acabaram entrando na firma Jázimo & Pinto, pertencente a outro comerciante. Apossaram-se dos bens mais valiosos e, em seguida, incendiaram o lugar. O fogo se espalhou por outros prédios. Os cangaceiros ainda roubaram os comércios de Elpídio Câmara, João de Deus Ferreira Pinto e a agência da Mesa de Rendas Estaduais. Ali perto, o quadrilheiro José Pequeno, o Cajazeiras, encontrou, por acaso, com o bodegueiro Manoel Rodrigues de França, conhecido como Manoel Velho, antigo desafeto. Depois de humilhá-lo, atirou nele à queima-roupa. Agonizou até a morte.


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Lampião conhece Massilon Leite

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Com o sucesso da empreitada criminosa, Massilon Leite foi se encontrar com o então coronel Isaías Arruda em Aurora/CE, a 240 km de Apodi. Lá, dividiram o saque. O bandido estava eufórico e fazia grandes planos, um deles era entrar para o cangaço. Na penúltima semana de maio, Virgulino armou acampamento na Serra do Coxá-Diamante, em Aurora/CE. Tinha fracassado na missão de saquear a Paraíba. Coube a José Cardoso, primo de Isaías, a tarefa de levar e apresentar Massilon a Lampião. Contou sobre seu assalto e pediu que fosse incorporado ao bando. O cangaceiro desconfiou, mas, como tinha perdido alguns homens nos confrontos recentes, aceitou a parceria.

Foto: Arquivo histórico

Chico Pinto era o intendente de Apodi em 1927

Apodi estava mascarado. Mas isso não impediu que alguns fossem identificados como antigos residentes do lugar.

Foto: Arquivo histórico

Segundo Sérgio Dantas, não aconteceram outras mortes na cidade graças à intervenção do padre Benedito Basílio Alves. De crucifixo na mão, rogou por misericórdia. Devotos, os cangaceiros atenderam. Sem o retorno de Luiz Leite, o bando foi embora por volta do meio-dia, deixando a cidade arrasada. No caminho, invadiram e saquearam as propriedades de Antônio Manoel de Sousa, Joaquim Pereira e João Francisco de Oliveira De acordo com a edição de 15 de maio de 1927, além dos 5 contos levados de Chico Pinto, os bandidos levaram ainda 1 conto de Luiz Sulpino e 20 contos de Bevenuto Hollanda. João Paizinho, Antônio de Souza, Lucas Pinto, João Pinto, Elpídio Câmara e João de Deus também foram assaltados em quantias inferiores a 1 conto de réis. Um fato interessante, segundo Geraldo Maia, é que, embora não fosse comum aos cangaceiros, parte dos bandidos que atacaram

Massilon Leite foi o comandante do ataque a Apodi


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Foto: Arquivo histórico

Cinegrafista do documentário Chapéu Estrelado durante tomada na casa onde foi tramada a invasão de Lampião a Mossoró – Fazenda Ipueira – Aurora/CE

O coronel Isaías Arruda usou o assalto de Massilon a Apodi para convencer Lampião a invadir Mossoró, embora, desde o começo, o cangaceiro desconfiasse que a ideia não era vantajosa. Gozando de bastante prestígio, o chefe político de Missão Velha – a 50 km de Aurora - tinha ganho o apoio do próprio governo cearense para derrotar, como quisesse, seus adversários. A sua fama de valente era reforçada pelo envolvimento com o cangaço. Atraía para suas fazendas tanto bandidos como homens da lei. Lampião recuava dizendo não conhecer o Rio Grande do Norte, onde não tinha nem coiteiros, nem inimigos. Mas a pressão de Arruda e a promessa de riqueza em Mossoró encheu os olhos do cangaceiro. Finalmente se decidiu. “Vou, na primeira oportunidade, mas coronel tem que arranjar bastante munição”, narra Sérgio Dantas. Arruda organizou a empreitada. Discutiu com Lampião o itinerário e apoio logístico para o retorno ao Ceará e arregimentou a munição prometida. Virgulino, por sua vez, conseguiu mais homens, agregando ao seu os grupos de Sabino, Jararaca e João Vinte e Dois, somando cerca de 70 capangas. Massilon daria a direção dos trechos principais.

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Lampião entra no RN em 10 de maio de 1927

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No dia 10 de maio de 1927, Lampião passava em terras do município de Luís Gomes, no alto Oeste Potiguar, sem nenhuma dificuldade. Não tinha rastros de volantes, mesmo na Paraíba, onde havia saqueado o povoado Canto do Feijão, hoje município de Santa Helena, fazendo grande estardalhaço e provocando mortes. O agricultor José Leite cuidava dos afazeres da fazenda Baixio, quando foi surpreendido pelo tropel dos cavalos. Sequer reconheceu os filhos

Foto: Arquivo histórico

Lampião foi convencido a atacar Mossoró

O coronel Isaías Arruda foi incentivador da entrada de Lampião a Mossoró

no meio do bando. Massilon e Manoel Leite, o Pinga Fogo, tomaram a bênção. Surpreso ao ver Manoel na tropa, o velho reclamou, mas depois lavou as mãos. Só pediu para não invadirem a fazenda do coronel Joaquim Moreira, que era seu patrão e padrinho de Massilon, mas ficou sem resposta. Um pouco afastado, Lampião avistava a região serrana do Rio Grande do Norte. Decidiu com Massilon seguir para Mossoró margeando a serra de Martins, mesmo sendo mais longe. Para guiá-los, prenderam o vaqueiro Francisco Galdino.


Levante na antiga Marcelino Vieira

Tenente Napoleão de Carvalho Agra, representante da PM/ RN organizou a resistência aos cangaceiros

Coronel José Marcelino de Oliveira, chefe político de Vila Vitória, organizou a ofensiva

comandada por Agra. Sabino aproveitou-se do fumacê provocado pelas armas e mandou que cinco homens, sob comando de Moreno, forçassem um fogo por um dos flancos. Inexperientes e com armas inferiores, os soldados se precipitavam. Os cangaceiros ouviram quando o corneteiro Francisco Sales gritou que a munição estava acabando, motivo para os bandidos ampliarem o fogo. A chegada da tropa de Lampião encerrou o confronto. A ofensiva forçou o recuo do regimente comandado por Agra. Ferido, o soldado José Monteiro de Matos dava cobertura para seus colegas fugirem. Tinha dito em Vila que morreria, mas não recuava. Assim o fez. A resistência sumia na curva da estrada. Fim do confronto, os cangaceiros encontraram morto o bandido Patrício de Souza, conhecido com Azulão. O cabra conhecido como Cordeiro também foi ferido com bastante gravidade. Pouco adiante, o soldado Monteiro agonizava. Coqueiro lhe tomou o fuzil, atirou contra ele várias vezes e terminou a atrocidade desferindo diversas cutiladas de punhal no homem já morto. Recolheram o que se aproveitava de armas e munição e atearam fogo nos automóveis. Enterraram Azulão em cova rasa.

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Até àquela altura, tudo estava dando certo para Lampião no Rio Grande do Norte, bem como discutido com o coronel Isaías Arruda. Mas, desde a fazenda Caiçara, ele tinha informações de um possível levante no povoado Vila de Vitória, hoje município de Marcelino Vieira. Aproximadamente 60 homens armados, tinha alertado o refém Antônio Dias de Aquino. O coronel José Marcelino de Oliveira, líder local, organizou o piquete contando com voluntários. O tenente Napoleão de Carvalho Agra, representante da Polícia Militar do Estado, foi incumbido de organizar força armada para enfrentar os cangaceiros. Para percorrer os 18 km até a fazenda Aroeiras, de José Lopes, contaram com o empréstimo dos automóveis do boticário Álvaro Andrade, de Pau dos Ferros, e de Emiliano Arnaud e Antônio Caetano, de Alexandria. Sabino comandava a tropa quando teve a impressão de ouvir barulho de motor à explosão. Levantou o braço em sinal de comando. O grupo parou atento. Numa curva do caminho, apontaram os veículos perfilados, entupidos de soldados. A resistência também viu os cangaceiros, mas foi obrigada a parar os veículos em declive desfavorável. Sabino deu comando e a bateria de tiros começou. Soldados entrincheirados. As balas resvalavam na lataria dos automóveis fazia menos barulho que a algazarra dos bandidos. Sem saída, o tenente ordenou o revide. O guia Antônio Dias de Aquino aproveitou o confronto para empreender fuga. Foi baleado, mas mesmo assim conseguiu escapar. Mais experientes, os cangaceiros dominaram a batalha, praticamente cercando a tropa

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Mossoró era o destino

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Foto: José Otávio

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Foto: Toke de História

No sítio Buraco, espancaram e fizeram refém o fazendeiro Sebastião Ferreira de Freitas, o Sebastião de Marcolino. No sítio Carnaubinha tomaram o cavalo de Manoel Ricarte e assaltaram Olinto Martins e Francisco Ferreira. De lá, cruzaram o sítio Cajueiro, maltratando os moradores, e, mais à frente, prenderam como guias o tangedor de rebanhos João de Doca e um companheiro.

Casa de Antônio Januário, tomada por Lampião como parada no Alto Oeste Foto: Salma Meira S. Dantas/Sérgio Dantas

Depois do confronto, os cangaceiros decidiram passar longe de Vila de Vitória. Lampião estava contrariado com a resistência e se dirigia a Massilon. Retomaram com os assaltos na fazenda Lajes, onde fizeram reféns o rendeiro João Bevenuto e seu irmão Emídio. Conquistaram o sítio São Bento e Poço de Pedras, de propriedade de Francisco Germano da Silveira, preso por dez contos de réis. Atacaram a fazenda Caricé, do capitão Marcelino Vieira, que tinha se evadido com a família. Na fazenda Morada Nova, surpreenderam o proprietário Antônio Januário de Aquino. Preocupado com as filhas adolescentes Raimunda, Arcanja e Maria, expressou aflição. Foi atendido, mas teve que disponibilizar dinheiro e comida para a cabroeira. Em terras do município de Martins, saquearam o sítio Ponta da Serra. O agricultor Francisco Dias foi pego de guia e obrigado a conduzir a tropa até a fazenda Morcego de Manoel Raulino de Queiroz, que foi espancado junto com esposa. Um filho conseguiu fugir e foi baleado, mas escapou por sorte. Em seguida, invadiram os sítios Ribeiro, Pintada, Garrota Morta e Corredor. O agricultor Manoel Barreto Leite cruzou o caminho dos cangaceiros e foi pego de refém por 50 contos de réis.

Casa da fazenda Morcego, de Manoel Raulino de Queiroz, vítima do bando

Imagem de Lampião em Limoeiro do Norte, após invasão em Mossoró, serve de parâmetro para se ter uma ideia da formação do bando


Foto: Toke de História

Mossoró fica em alerta com ataques em Apodi

Coronel Rodolfo Fernandes, presidente da Intendência de Mossoró, comandou a resistência

Lampião ocupa casa da Fazenda Santana como quartel general no dia 12 de junho

Valentim e o vaqueiro Euclides Pedro e usaram a casa grande como coito. Desde os ataques de Massilon a Apodi, o presidente da Intendência Municipal de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes, criou uma comissão destinada a angariar recursos para armas e munição. Apesar de importante, a cidade só tinha 22 praças na força pública. Rodolfo precisava do apoio da população e do comércio, pois suas ameaças de rompimento com o governador José Augusto tinham diminuído o apoio da capital. Por volta do meio-dia de 12 de junho, convocou reunião no salão da Intendência com presença de diversas autoridades e lideranças. Entre os temas, a preocupação com o aparato bélico. Os rifles enviados pelo governador, além de poucos, eram velhos. Alguns sequer funcionavam. O bancário Jaime Guedes, presidente da comissão angariadora, apresentou relatório. Apurou 23 contos de réis, com os quais foram adquiridos em Fortaleza (CE) cerca de 50 armas, entre fuzis e rifles, e quase nove mil munições. O coronel relatou sobre as últimas notícias recebidas do itinerário dos cangaceiros pelo Oeste. Soube que já estavam em Santana rumo a Mossoró.

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Foto: http://cariricangaco.blogspot.com.br/2016/07/opiniao-mossoro-por-oficio-das.html

O dia 12 de junho, parece ter sido de angústia para Lampião. Já tinha tido dois confrontos inesperados e, àquela altura, lhe passava pela cabeça preocupação com a volante paraibana, comandada pelo tenente João Costa. Teve informação de que a tropa havia seguido o rumo de Mossoró. Decidiram não invadir Gavião. Não valia a pena o confronto. Seguiram outro caminho. Invadiram as fazendas Campos e Traíras. Passaram em sítios Arção, Arção de Baixo, Grossos e Cachoeira e pararam para descansar na fazenda Apanha Peixe. Os agricultores Doca Ponciano e Lindolfo Canela foram presos como guias. Por volta do meio dia, chegaram à fazenda Santana. Espancaram o proprietário Manoel

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Foto: Manuelito Pereira

Imponente, Mossoró já era um grande entreposto do Nordeste

Mossoró exibia prosperidade em 1927 Por sua localização, entre duas capitais: Natal e Fortaleza, e por ser um importante entreposto para a região do alto e médio Oeste, Mossoró sempre foi desenvolvida. Em 1927, o município exibia um período de prosperidade econômica e expansão comercial e industrial. Possuía o maior parque salineiro do País, bem como três beneficiadoras de algodão, casas compradoras de peles de animais e cera de carnaúba.

Dispunha ainda de um porto por onde escoava sua produção, tinha boas estradas e ainda era cortado por uma estrada de ferro que ia do litoral ao sertão. A população estimada em 20 mil habitantes tinha energia elétrica, dois colégios religiosos, agências bancárias e repartições públicas. Informações valiosas que endossavam os interesses de Isaías Arruda, Massilon Leite e Lampião.

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Início da peleja com a prisão de Antônio Gurgel

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Depois das informações colhidas em reunião com o intendente sobre a presença de Lampião nas redondezas, o bancário Jaime Guedes foi conversar com sogro, coronel Antônio Gurgel do Amaral. Embora não tivesse informações confiáveis, Gurgel temia que o bando chegasse à fazenda Brejo, localizada na ribeira do Apodi, hoje Felipe Guerra, onde estava sua mulher. Saiu de Mossoró por volta de uma da tarde, mas já próximo do destino, o motorista Francisco Agripino de Castro, o Gatinho, tomou o caminho errado. Ao descer a ladeira do Mato Verde, ao invés de dobrar para a direita, foi para a esquerda, entrando em terras da fazenda Santana, onde estavam arranchados os cangaceiros.

Ao perceber a emboscada, Gatinho tentou fugir, mas foi em vão. Com medo dos tiros, Gurgel mandou que parasse o veículo. À distância, Coqueiro ordenou que entregasse a arma e o dinheiro. “Entreguei-lhe a carteira, onde tinha cerca de um conto e quinhentos mil réis, e uma pequena pistola automática. Então o patife me passou uma revista. Tirou-me a aliança do dedo e um par de óculos que estava no bolso, apoderandose também de uma caixa onde estavam 50 balas de rifle que eu levava para um amigo”, relatou coronel Gurgel em seu diário, escrito durante os 13 dias que ficou refém dos cangaceiros. O coronel foi conduzido ao quartel do grupo. No caminho, toparam com Sabino Gomes que


o bilhete de antônio gurgel

Jaime Estou preso pelo Sr. Virgulino, o qual exige quinze contos, preciso, porém que você mande vinte e um contos para salvar-me e a meus irmãos. O portador é Fausto, a quem você despachará com urgência. Deus nos proteja. Antônio Gurgel

Foto: Arquivo Histórico

Foto: Arquivo público/Toke de História

fixou o resgate: “Esteja preso por dez contos de réis”. Na casa de Manoel Valentim, Gurgel viu seus dois irmãos, José e Fausto Gurgel que foram sequestrados por 1 e 5 contos de réis, respectivamente. Educado, tentou ponderar com Lampião sobre o preço do resgate. Pediu para ir até a cidade levantar o dinheiro, mas Sabino tomou a frente: “A sua prisão custa agora quinze contos de réis se ainda ‘fala’! Mande um dos seus irmãos a Mossoró. Você fica preso!”, disse. Com a ordem, o homem cancelou a tentativa de negociação. Sugeriu que o irmão Fausto fosse até Mossoró com Gatinho buscar o dinheiro do resgate. Mandou com ele um bilhete endereçado ao genro Jaime Guedes, gerente do Banco do Brasil, contando o ocorrido e pedindo ajuda.

Na primeira foto, Antônio Gurgel, um neto e sua esposa. Na segunda foto, Francisco Agripino de Castro, o Gatinho, dirigia para Antônio Gurgel

Alguns quilômetros à frente, Fausto e Gatinho avistaram os comerciantes Alfredo Dias e Porcino Costa, velhos conhecidos. Receosos com os cangaceiros, iriam se refugiar em Mossoró. Desconfiaram do horário da carona e fizeram pressão pela verdade. Fausto não teve como esconder por muito tempo. Passando pelo povoado de São Sebastião, hoje Governador Dix-Sept Rosado, Alfredo Dias pediu que parasse o carro. Contrariando os pedidos

do amigo para manter silêncio sobre o caso, foi até a estação férrea e pediu o funcionário para avisar a Mossoró que Lampião estava próximo. O telefonista João Câmara realizou a tarefa após algumas tentativas. Dias ainda convenceu o funcionário Aristides de Freitas a não fechar o lugar. Por volta das oito e meia da noite, Jaime Guedes finalmente recebia o bilhete de Antônio Gurgel na presença do intendente Rodolfo Fernandes.

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Mossoró recebe o primeiro aviso

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Governador Dix-Sept Rosado e nova tentativa de ataque a Apodi

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Concomitante à prisão do coronel Antônio Gurgel, o bando se dividiu em duas facções para correr a região. Uma delas, chefiada por Massilon, foi a Apodi para nova tentativa de saque, mas dessa vez a história foi diferente. O bando nem entrou na cidade. O tenente Juventino Cabral montou uma força para a defesa do lugar. Ao perceber os bandidos, policiais e paisanos dispararam uma violenta sequência de tiros. Massilon ficou em desatino e não teve como prosseguir a emboscada. Voltou desapontado com a incursão desastrosa. A segunda facção tinha duas colunas. A primeira com Jararaca e a segunda, mais atrasada, com Lampião. Ao todo, cerca de 40 homens, além dos reféns. Seguiam em direção ao povoado de São Sebastião. Passaram em Riacho Preto, Taboleiro Grande, Ramadinha e Gangorrinha. No sítio Carnaubinha, chegaram à casa de Manoel Pregmácio, parada obrigatória para viajantes e comboios. Encontraram um carregamento pertencente a Manoel Alves de Medeiros, desafeto de Sabino. A carga foi queimada. Os bandidos dançaram e beberam aguardente ao redor do fogo. Entraram em São Sebastião por volta de onze horas da noite, sem dificuldade. Na estação ferroviária, os funcionários se mantinham a postos conforme combinado com João Câmara poucas horas antes. Aristides de Freitas ligou para o coronel Vicente Sabóia, superintendente da estrada de ferro em Mossoró, e avisou do ataque. Depois fugiu em um

trole de ferro sob fogo dos bandidos. Deficiente físico, Manoel Pereira não conseguiu escapar, mas foi poupado pelos cangaceiros. De acordo com Sérgio Dantas, Vicente Sabóia retornou o telefonema querendo mais detalhes. Um cangaceiro atendeu com ameaças: “Vocês vão ver o estrago que nós vamos fazer em Mossoró”, teria dito. Embriagados, os homens não pouparam nem os casebres. Invadiram e depredaram tudo. Saquearam os comércios de José Ludgero Costa, João de Freitas Oliveira, Adauto Dias Fernandes e Eleutério Mendes. Puseram fogo em um automóvel e em um caminhão estacionados próximos à estrada de ferro. A destruição só parou quando Massilon se juntou ao grupo. Reclamou com Jararaca e os dois se estranharam. Coube a Lampião acalmar os ânimos. Partiram em seguida, fazendo parada no sítio Cigana, de Francisco Chagas Lopes. Virgulino mandou um grupo na frente para saber nas redondezas se tinha notícia de alguma volante. Depois seguiu para Passagem de Oiticica, onde iria acampar.


Estado maior do cangaço: Lampião, Virgínio (o moderno), Ezequiel Ferreira e Luís Pedro

O fim da festa e pânico Quando Vicente Sabóia recebeu o aviso do ataque a São Sebastião, o povo de Mossoró estava na residência de Humberto Aragão Mendes, comemorando a vitória do Humayatá Futebol Club sobre o Ipiranga. Ao receberem a notícia, os moradores entraram em pânico. Alguém ponderou que deveria ser boato de gente do Ipiranga para acabar com a festa. Ninguém deu ouvidos. Os sinos das igrejas começaram a tocar e para ampliar o aviso, foram acionadas as sirenes da usina de força e luz e de outras firmas comerciais. Muitos se dirigiam à sede da Intendência para saber mais informações. Na mesma noite começou a retirada da cidade. A ordem, segundo Sérgio Dantas, era fugir.

Por volta das cinco da manhã, Jararaca, Moreno, Colchete e meia dúzia de cangaceiros chegaram em Passagem de Oiticica, visivelmente embriagados. Sem sinal de volantes, saquearam todas as casas. De lá, foram até o sítio Bom Jesus, hoje bairro de Mossoró, para ver se tinha resistência. Nem sinal. No retorno, prenderam Amadeu Lopes e o prestador de serviços de dedetização Luiz Joaquim Siqueira, o Formiga que seguiam a cavalo para Passagem de Oiticica. No sítio Cigana, o bando comandado por Lampião assaltou Francisco Rosendo. Mais à frente, fez José da Silveira de refém por três contos de réis. Assaltaram a choupana de Cícero Secundino e tomaram dinheiro de Pedro Lopes e José Flor. Em Ipueira, invadiram a mercearia de Antônio Vasco, no sítio Canudos, e sequestraram Anacleto de Oliveira Freitas por 500 mil réis. O refém mandou recado ao pai que lhe alcançou pouco adiante com o dinheiro do resgate. Parte do bando se afastou do grupo maior e seguiu até outros lugares próximos. Em Lagoa de Paus, entraram na casa de João Abdias. Adiante, prenderam os sertanejos Joaquim Germano e Júlio Soares por um conto de réis cada. Azarias Januário, da fazenda Picada, foi preso por quinhentos mil réis. O agricultor José Geraldo de Oliveira e seu filho também foram presos. Os sertanejos Adolfo Guilherme, Sancho Amaro e Belarmino de Morais foram levados para servirem de escudo humano se houvesse necessidade. Por volta de sete e meia da manhã, o bando se reunia em Passagem de Oiticica.

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As primeiras horas do dia 13 de junho

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"O homem tá disposto a brigar"

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Foto: José Otávio/Arquivo Histórico

Ao ver Lampião, Luís Siqueira, o Formiga, pediu proteção. O cangaceiro garantiu, mas lhe fez um interrogatório. Quis saber quantos homens estavam armados em Mossoró. Formiga exagerou e disse que talvez uns duzentos. Lampião chamou o estado-maior e voltou a detalhar o plano de invasão. Escutaram as ponderações de Massilon que desenhava na areia um mapa das principais artérias da cidade. De acordo com a estratégia, o ataque seria protagonizado por duas colunas que se dividiria em quatro ao entrar na cidade. Sabino comandaria a tropa. Os melhores atiradores seriam distribuídos nos grupos, cada um com cerca de 400 cartuchos. Lampião propôs entrar pela barragem do Rio Mossoró, mas Formiga avisou que seria arriscado, pois havia um piquete naquela área. Aborrecido, Lampião chamou Massilon. “Você tinha me dito que entrava em Mossoró com dez homens. A cidade tinha poucos soldados e os civis estavam desarmados e eram mofinos. Agora o homem tá disposto a brigar. Não estou gostando nada disso”. Reclamou. Lampião e Sabino perguntaram ao coronel Antônio Gurgel se ele conhecia o coronel Rodolfo Fernandes. Gurgel disse que sim, mas não era íntimo. Lampião ordenou que o coronel escrevesse uma carta ao intendente. Determinou que no bilhete fosse cobrado 500 contos de réis para o bando não entrar na cidade. Gurgel achou muito, Lampião então baixou para 400. Assim a carta foi escrita.

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Homens pousam para foto na trincheira de Rodolfo

13 de junho de 1927. Meu caro Rodolfo Fernandes: Desde ontem estou aprisionado do grupo de Lampião, o qual está aquartelado aqui bem perto da cidade. Manda, porém, um acordo para não atacar mediante soma de quatrocentos contos de réis – 400.000$000. Posso adiantar sem receio que o grupo é numeroso, cerca de 150 homens bem equipados e municiados à farta. Creio que seria de bom alvitre você mandar um parlamentar até aqui, que me disse o próprio Lampião, será bem recebido. Para evitar o pânico e o derramamento de sangue, penso que o sacrifício compensa. Tanto que ele promete não voltar mais a Mossoró. Diga sem falta a Jaime que os vinte e um contos que pedi ontem para o meu resgate não chegaram até aqui, e se vieram, o portador se desencontrou. Assim, peço por vida de Yolanda para mandar o cobre por uma pessoa de confiança para salvar a vida deste pobre velho. Devo adiantar que todo o grupo tem me tratado com muita deferência, mas, eu bem avalio o risco que estou correndo. Creia no meu respeito. (a)Antônio Gurgel do Amaral.


Depois de escrita, a carta foi lida em voz alta. Lampião perguntou quem era Yolanda e o coronel explicou se tratar de sua neta de dois anos. Ficou a cargo de Formiga o trabalho de levar a carta e trazer resposta de Mossoró. Ao chegar à cidade, o portador pode ver a aflição das pessoas. Casas vazias e mulheres chorando pelas ruas em desalinho. Perto do meiodia, entregou o bilhete à mão do intendente Rodolfo Fernandes. Ele leu o texto em voz alta para que os presentes acompanhassem o drama. O coronel fez discurso efusivo bradando a necessidade da luta por parte de Mossoró. Em seguida, contou vantagem sobre a preparação da cidade. Com o fim da reunião, pediu ao portador que aguardasse na recepção pela respos-

ta da carta. Horas depois lhe entregarem um pequeno bilhete.

Mossoró, 13.06.1927 Antônio Gurgel Não é possível satisfazer-lhe a remessa de quatrocentos contos (400.000$000) pois não tenho e mesmo no comércio é impossível se arranjar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o gerente do Banco, sr. Jaime Guedes. Estamos dispostos a recebe-los na altura em que eles desejarem. Nossa situação oferece absoluta confiança e inteira segurança. Rodolfo Fernandes.

Apesar da confiança de Rodolfo Fernandes, o clima em Mossoró era de pânico. Antes do meio-dia, estima-se que 15 comboios já tinham partido para Areia Branca. Dali a pouco, nem mesmo o telégrafo teria mais gente para anotar os recados. Trincheiras tinham sido espalhadas pela cidade, mas a maioria estava incompleta. Muita gente tinha largado as armas e ido embora, outros caíam de sono por causa da vigília da noite. A maior barricada ficou na frente da casa do chefe da Intendência. Sacos de algodão foram colocados em posição estratégica de modo a não permitir qualquer transposição. Pelo menos 40 homens estavam de prontidão, do quintal ao telhado. Manoel Alves de Souza, Léo Teófilo e Manoel Félix ficaram no campanário da capela de São Vicente. Tinham a incumbência de informar qualquer aproximação. Na estação ferroviária, hoje Estação das Artes Elizeu Ventania, Vicente Carlos de Sabóia Filho, o Saboinha, diretor

gerente da Estrada de Ferro, distribuiu homens armados em pontos estratégicos. Ao seu lado, estavam o engenheiro Lafaiete Tapioca, o comerciante Raimundo Leão de Moura e os militares Severino França, Clóvis de Araújo e o sargento Pedro Sílvio, além de nove funcionários. Outra trincheira foi montada na empresa Tertuliano Fernandes & CIA. Na igreja matriz, estavam posicionados o dentista Antônio Brasil, com um binóculo, e dois policiais. No ginásio Diocesano, outros quatro homens; mais quatro na torre da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e oito no Mercado Central. Seis atiradores se deslocaram para a parede divisória das águas do rio. Piquetes menores foram dispostos no prédio da Mesa de Rendas do Estado, no Grupo Escolar Eliseu Viana, no Grande Hotel, na residência de Ezequiel Fernandes e na Cadeia Pública. Os tenentes Abdon Nunes, Laurentino Morais e João Nunes ficaram responsáveis pelas patrulhas nas áreas mais abertas. Coube ao vigário da matriz, Padre Mota, corrigir as trincheiras. Encontrou diversos problemas e chegou a dissolver a da Caieira, redistribuindo os homens.

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Mossoró se prepara para o confronto

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Lampião parecia apreensivo. Desconfiava do fracasso e fez nova tentativa com Rodolfo. Escreveu de próprio punho outro bilhete.

Carta de Lampião ao prefeito de Mossoró, Rodolfo Fernandes

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Última troca de bilhetes

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Passava de duas da tarde e Formiga não chegava. Os cangaceiros não podiam mais esperar. Mesmo sem notícias do intendente, precisavam seguir. Às margens do rio Mossoró, próximo ao Estreito, o capitão voltou a perder a paciência com Massilon. “Você disse que o rio estava seco. A viagem está atrapalhada! Nada está dando certo!”, reclamou. Massilon pouco respondeu. Atravessaram o rio com água na cintura. Na outra margem, Sabino usou os reféns como escudo humano. Antônio Gurgel ia na frente. “Você é o nosso ministro da guerra”, sentenciou. Pouco adiante, perceberam a aproximação de um cavaleiro. Era Formiga com a resposta de Rodolfo. Ao saber do conteúdo, Lampião amassou e jogou fora o papel. Alarmou aos comparsas que iriam mesmo tomar Mossoró. “Vamos atacar! É vergonhoso chegar tão perto e voltar sem fazer uma tentativa”, destacou, conforme Sérgio Dantas.

Enviou o bilhete ao destinatário e seguiu por mais quatro quilômetros, parando no sítio Saco, hoje bairro Belo Horizonte. Da residência de Domingos Camilo, Lampião pode contemplar Mossoró pela primeira vez. Segundo Sérgio Dantas, jamais o cangaceiro tinha visto aglomerado urbano de semelhante proporção. Observou casas e alguns edifícios mais altos e se demorou contemplando as torres das quatro igrejas. Teria, segundo o pesquisador, olhado para Antônio Gurgel e dito ali uma de suas frases mais célebres: “Cidade de mais de uma igreja não é lugar para cangaceiro”. Ao receber a mensagem de Lampião, coronel Rodolfo Fernandes fez como antes e compartilhou com outros em seu gabinete. Recebeu apoio dos presentes. Após conversa longa com o tenente Laurentino de Morais e Sabóia Filho, escreveu, também de próprio punho, a resposta ao cangaceiro. Mais uma vez foi inflexível.

Virgulino Lampião, Recebi seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na mesma. a. Rodolfo Fernandes. Prefeito. 13.06.1927


Foto: Acervo Sérgio Dantas

Tudo pronto para o ataque No Saco, a dois quilômetros de Mossoró, os reféns foram acomodados na cada de Joaquim Soares. Antônio Gurgel, Manoel Barreto e Formiga em um quarto; dona Maria José Lopes e o coronel Joaquim Moreira no outro. Na preparação para a guerra, o plano original tinha sofrido um contratempo. Embriagado demais, Jararaca não possuía mais condições de comando. Com isso, restaram apenas três frentes: a de Sabino, a de Massilon e a do próprio Lampião. Oito homens, sob o comando do cangaceiro Félix, foram destacados para vigiar os reféns, esperar os resgates, cuidar dos animais e combater qualquer resistência. No terreiro, Lampião dava as últimas orientações antes de partirem. “Sabino, você prenda logo o coronel Rodolfo Fernandes, porque assim ele arranjará o dinheiro”, disse. O céu estava cinzento naquela tarde; não havia vento e da terra subia um mormaço insuportável. Apesar de motivados, havia um so-

Cangaceiro Félix da Mata Redonda ficou no Saco tomando de conta dos reféns

bressalto de preocupação. Amadeu Lopes, Pedro José, Azarias Januário, Júlio Soares, Joaquim Germano, Guilherme de Melo, Belarmino de Morais, Sancho Amaro, Geraldo Oliveira e o filho, reféns menos importantes presos durante a jornada no alto Oeste, foram colocados na frente como escudos humanos. Poucos minutos de caminhada, os homens de Sabino invadiram a mercearia de Antônio Domingos, abandonada desde o dia anterior. Mais à frente, violaram a residência de Luiz Firmino, também vazia de gente. Ex-integrante da extinta Guarda Nacional, Firmino mantinha em casa uma farda limpa e engomada da corporação. Ao encontrá-la, Sabino se livrou das roupas velhas e se enfiou no casaco. Ficou parecendo um militar. Passaram pela Caieira, onde Padre Mota tinha desfeito a trincheira, e, por volta das três e meia da tarde, alcançaram o bairro Alto da Conceição. Uma sentinela atirou para cima avisando da entrada dos cangaceiros e fugiu. Com o susto, os bandidos reagiram, mas atiraram à toa. Os reféns, que estavam mais à frente, aproveitaram o momento de tensão para escapar em direção ao rio. Não foram seguidos.

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Foto: Acervo Sérgio Dantas

Júlio Soares e Pedro José da Silveira, presos pelos cangaceiros próximo à Passagem de Oiticica, foram usados como escudo humano

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A hora fatal: invasão e resistência

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Foto: Manuelito Pereira

O dentista Antônio Brasil foi o primeiro a avistar os cangaceiros com seu binóculo, desde uma das torres da igreja de Santa Luzia. De lá, deu alarme aos que estavam entrincheirados na agência do telégrafo. Padre Mota correu para a praça da matriz e mandou badalar os sinos, sendo seguido pelas outras igrejas. Quando o barulho cessou, a cidade silenciou aguardando o primeiro ataque. “Homens a postos retinham a respiração. Olhos grudados nas armas à espera dos milicianos do temível cangaceiro”, conta Sérgio Dantas. Por volta das quatro da tarde, começou a cair uma neblina seguida de um vento frio. Os cangaceiros esgueiravam-se entre as primeiras casas da cidade e desciam pelo Córrego do Barbosa com bastante discrição. Logo, chegaram à linha férrea e à parte posterior da capela de São Vicente, próximo às trincheiras principais. Diferente de hoje, o lugar tinha pouquíssimas residências. Ali, o primeiro grupo se dividiu em dois, sendo uma parte comandada

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A trincheira de Rodolfo era a mais guardada

por Sabino e a outra por Massilon. Pouco atrás vinha Lampião com a segunda coluna. No meio do caminho, entre a linha férrea e a casa do coronel Rodolfo, erguia-se imponente a residência de Joaquim Perdigão, genro do intendente. Arrombaram a casa para saqueála e usá-la de trincheira enquanto estudavam a área. Massilon seguiu na esperança de surpreender a casa de Rodolfo, onde hoje é a Prefeitura de Mossoró, entrando pelos fundos. Lampião marchou em direção ao cemitério. Bem próximo da capela de São Vicente, Sabino saiu na rua para ver melhor a trincheira. Com a farda da Guarda Nacional, foi confundido por alguns instantes com um militar. Mas logo alguém descobriu. Tiros partiram de todos os flancos. Ágil, o cangaceiro saltava de um lado para o outro sem ser atingido. Com pouco, uma bala perfurou seu chapéu e outra arranhou a perneira. Então ele recuou.


Avenida Alberto Maranhão, com a capela de São Vicente ao fundo, em 1927

Tiros acertaram a parede e a porta de madeira. Estilhaços atingiram um cangaceiro. Nas proximidades da estrada de ferro, os homens de Lampião estavam em desvantagem. A dificuldade de chegar às trincheiras os obrigou a recuar do fogo e buscarem abrigo nos jazigos do cemitério.

Chuva de bala no país de Mossoró

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Foto: Elias Medeiros

Os homens do seu bando, presos entre as trincheiras da capela de São Vicente e a casa de Rodolfo, ficaram em desvantagem e tiveram de esperar o fogo cessar. Massilon, um pouco mais atrás, chegou pelos fundos da casa do intendente. Tentou arrombar a porta da garagem, mas o piquete reagiu.

Espetáculo teatral no adro da Capela de São Vicente é exibido todos os anos, dentro da programação cultural do Mossoró Cidade Junina, retratando o confronto dos heróis da resistência com o bando de Lampião

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As trincheiras pareciam intransponíveis. Os cangaceiros nunca tinham encontrado tamanha resistência. Os três dias de arrastão pela região do alto e médio Oeste foram suficientes para que a cidade organizasse bem as trincheiras. Nem a desconfiança de Lampião previa tamanha força. Colchete, no entanto, não tinha intenção de desistir. Esgueirando-se pelas esquinas, usou a mureta da casa de Alfredo Fernandes como proteção e com paciência observou a posição dos atiradores. Num instante de delírio, correu desprotegido em busca dos fardos de algodão. “Levava punhal à boca e rangia os dentes em atitude feroz”, conta Sérgio Dantas. “Tiro certeiro partiu do palacete e atingiu em cheio seu rosto suado”, completa. Colchete se estrebuchou antes de cair. Um segundo tiro lhe atingiu as costas quando ele já estava fora de combate. Ali mesmo ficou sem se mexer. Diante do ocorrido, Sabino ordenou a retirada. Concluiu que seria impossível vencer a batalha. O grupo saiu correndo e atirando contra as trincheiras para a própria cobertura. Ainda embriagado, Jararaca não escutou a voz de comando. Aguardou escondido até não ouvir mais tiros. Se apoiou no mesmo muro usado por Colchete na tentativa pouco inteligente de apanhar os pertences do companheiro. Na trincheira, um atirador viu a movimentação e esperou o momento certo. “Disparo certeiro abateu Jararaca. Caiu desacordado por cima do corpo fétido de Colchete”, narra Sérgio Dantas. Ficou assim um tempo, até redobrar a consciência. Ferida feia se abriu no peito. Tentou rastejar, mas logo per-

Foto: José Otávio

Colchete e Jararaca

Mesmo ferido por um tiro, Jararaca ainda conseguiu fugir

cebeu que seus companheiros abandonavam a zona de guerra. “Sabino, estou ferido! Moreno, socorro! Me ajude, Sabino”, teria gritado Jararaca. Mas não adiantou. Os homens não voltariam para acudi-lo. Com esforço, levantou-se e tentou fugir no sentido do cemitério para onde estavam indo seus companheiros. Novo tiro vindo da trincheira de Rodolfo acertou sua perna. Caiu outra vez.


Com a ordem de retirada, Massilon correu no sentido da estrada de ferro. Topou com a trincheira da Estação e não aguentou o fogo. Voltou pela cidade e se entrincheirou na União dos Artistas. Ensaiou breve resistência com seu grupo. Do cemitério, Lampião tentou nova ofensiva, mas foi em vão. Mandou o cangaceiro Luís Pedro e outros cabras ajudarem Massilon. Não deu resultado. O fogo contra eles era intenso e sem condições de revide. Pelo cemitério, Sabino avisou das baixas. “Vamos embora. Colchete e Jararaca estão mortos”. Lampião reconheceu a derrota e ordenou retirada. Pediu que Sabino fosse buscar Massilon e Luís Pedro. Após encontrá-los, os guiou contra o fogo com alguma dificuldade. O piquete da Estação não dava trégua. Com esforço, os cangaceiros chegaram ao cemitério e sumiram pelo mato. As trincheiras permaneceram ativas. O tenente Abdon Nunes de Carvalho, na companhia do sargento Pedro Sílvio e outros civis, resolveu ir até o cemitério. Logo voltou com a notícia de que os bandidos tinham fugido. Após a notícia, os homens começaram a deixar as trincheiras. O corpo de Colchete estendido no chão atinou a curiosidade do povo, mas também a fúria de muitos. Arrastaram o cadáver pelas ruas até a igreja matriz. No caminho arrancaram uma orelha e lhe deram uma cutilada de arma branca na altura das costelas.

Retorno ao Saco e a fuga dos cangaceiros Por volta das seis e meia da noite, o bando voltava para o acampamento pelo meio do mato. Semblante de derrota. Tiveram de derrubar uma cerca de varas para seguir caminho.

Em silêncio, demonstravam a frustração. Perderam dois homens valiosos: Colchete e Jararaca e, de igual forma, carregavam outros feridos. Virgínio, cunhado de Lampião, tinha sido atingido na coxa esquerda por uma bala. Outro homem apresentava Capitão Abdon ferimento grave na altura do Nunes fez a última abdômen. Gemia em desatino. revista próximo ao cemitério para Uma toalha usada para estanconfirmar a fuga car o sangramento estava endos cangaceiros sopada. Lampião decidiu parar para acudir o comparsa. No casebre de Maria Liberata pediu água e sal para lavar o ferimento. “A chegada ao Saco foi melancólica. O olhar faiscante do rei-vesgo refletia ódio e decepção pelo fracasso. Ralhava ferozmente contra Massilon – no seu entender, o único responsável pela desastrada empresa. Esmurrava cavalos. Gritava para a cabroeira”, conta Sérgio Dantas. A escuridão da noite não impediu a retirada do bando. Uma lua em esmaecimento era a única sombra de luz. Tomaram o rumo da fazenda Jucuri e cortaram o fio do telégrafo. Pararam na casinhola de Antônio Gomes de Araújo e o levaram, junto com seu filho, como guias. Um pouco à frente, Formiga, que ainda os guiava, demonstrou sinais de cansaço. Solicitou liberdade a Lampião. Ele concedeu, mas pediu que fosse falar com Antônio Gurgel. O coronel aproveitou a oportunidade e enviou outro bilhete, agora ao irmão Tibúrcio Gurgel, conhecido como Tiburcinho. Era visível o cansaço também nos cangaceiros, mas eles disfarçavam e contavam vantagem na frente dos reféns. Pararam para descansar em lugar ermo e de madrugada acordaram de sobressalto com tiros vindos de Mossoró. “Olhem, estão atirando pensando que é em nós, mas é na força paraibana”, sugeriu Sabino.

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Derrotados usaram o cemitério da cidade como trincheira

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Foto: Toke de História

A noite do dia 13 foi de apreensão. Porém, afora a passagem da volante paraibana, do tenente João Costa, por volta das três horas, nada mais tinha acontecido. Pela manhã, os homens ainda nas trincheiras mantinham guarda, mas logo Francisco Fraga, o Vinoca, saiu pelas ruas de carro gritando que o povo poderia sair de casa. Comemorações se espalharam, mas o grande chamariz era a praça da Igreja de Santa Luzia onde ainda estava exposto do cadáver de Colchete, exalando forte odor. Famílias inteiras iam olhar o morto. A aglomeração e o medo de Lampião voltar, no entanto, obrigou o tenente Abdon Nunes a dispersar o povo.

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Ponte férrea de Mossoró que impediu avanço da fuga de Jararaca

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Colchete foi amarrado pelas pernas e braços em um tronco e levado ao cemitério, onde foi enterrado nos seus arredores sem receber a extrema-unção. Mesmo baleado em duas ocasiões, assim que caiu a noite, Jararaca rastejou até os trilhos do trem e se afastou da cidade. Chegou à ponte férrea na esperança de escapar com vida, mas não conseguiu atravessar os dormentes. Pela manhã, avistou uma barraca de lona próxima ao rio, ocupado por trabalhadores da estrada de ferro. Se assustaram quando viram

Foto: José Otávio

Prisão de Jararaca ocorreu no dia seguinte ao ataque

Cangaceiro José Leite de Santana, o Jararaca, preso na cadeia pública de Mossoró

o cangaceiro, mas ele os tranquilizou e disse que pagaria por ajuda. Pediu a Pedro Tomé, um dos cassacos, que fosse até a cidade comprar medicamentos: gaze, algodão, tintura de jucá e água oxigenada. Entregou-lhe uma nota de 500 mil réis e lhe advertiu para não o entregar. “Na volta lhe dou boa gratificação”, assegurou. Na cidade, Pedro ainda encontrou o povo em movimento para ver o corpo de Colchete. Seguiu-se para a botica e pediu os produtos. O boticário perguntou para quem eram as compras e o homem contou tudo. Foi orientado a procurar o tenente Laurentino de Morais. O oficial vibrava com a notícia. Sacramentaria a vitória de Mossoró com a prisão do cangaceiro. Bolou um plano com Pedro Tomé e o mandou voltar para o rio. No local, Jararaca cansado e abatido, não se deu conta da emboscada. Ao contrário, atendeu ao homem quando lhe pediu para baixar as armas e tirar os arreios. Ao passar o braço por dentro do casaco, se obrigou a largar a arma por tempo suficiente para Pedro tomá-la, rendê-lo e gritar pelos policiais. As últimas palavras de Jararaca para Pedro, no entanto, lhe devem ter incomodado durante muitos anos: “Você é um cabra de sorte. Quando você saiu eu pensei que ia mesmo me denunciar e quis matar você, mas não me decidi”, disse, segundo conta Raul Fernandes.


Foto: Chico Ribeiro

Reféns libertados sem pagamento

Foto: Francisco Batista Maia/Sérgio Dantas

Nas proximidades da fazenda Lagoa do Rocha, já no Ceará, um portador apareceu com o resgate de Manoel Freire. Ainda no Vale do Jaguaribe, no dia 18 de junho, o vaqueiro Manoel Alves levou o resgate do coronel Joaquim Moreira. Somente no dia 25 de junho, depois de enfrentar novos confrontos, sede e fome, e por decisão dos cangaceiros, é que Antônio Gurgel e Maria José Lopes foram libertados, mesmo sem pagamento do resgate. Lampião pediu que dona Maria tivesse cuidado na volta e a Gurgel entregou duas moedas de ouro. “É para sua netinha”, disse para a surpresa do coronel. Os dois se despediram e foram guiados por Sabino, Mormaço e outros três.

Maria José Lopes após ser libertada. Aqui ao lado do irmão Antônio Batista Maia e os homens da milícia formada por ele para libertar a refém

Mais à frente, Sabino mandou que os dois esperassem no leito de um riacho. Ficaram ali meia hora achando que os homens não voltariam, mas dali a pouco, retornaram com alguns mantimentos. Sabino entregou a eles metade de um queijo coalho e 100 mil réis ao coronel e outros 60 à dona Maria. Apontou o caminho que ia dar numa cabana e partiu sem despedida. No lugar, foram mal recebidos. Tentaram outra casa, mas o medo de que fossem cangaceiros afugentava as pessoas. Dormiram ao relento. Perto das nove horas do dia 26, toparam com os sertanejos Agápito Ferreira Maia, da fazenda Boqueirão, e Manoel Herculano da Cunha, do sítio Letrado. Os homens os levaram até a fazenda Lagoa do Córrego, de Alexandrino Diógenes, onde foram bem recebidos. Alexandrino emprestou dois cavalos para levá-los até a fazenda Letrado. Ao saber que Tylon, seu irmão, estava pelas redondezas, o coronel Antônio Gurgel lhe mandou um bilhete. No mesmo dia se encontraram e seguiram para Mossoró. Dona Maria José Lopes ficou na casa de Herculano Cunha, no Letrado. Recebeu telegrama do irmão pedindo para esperá-lo ali mesmo. Quando chegou, Antônio Batista Maia trazia consigo um pequeno grupo volante. Há dias, marchava em busca da irmã. Queria resgatá-la à força. Tinha se unido ao coronel Manoel Gonçalves, de Lastro/PB, mas estavam sempre há dois dias de atraso em relação a Lampião.

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Foto histórica do bando de Lampião em Limoeiro do Norte/CE – ainda com os reféns – é uma das principais referências para pesquisadores do cangaço porque ajuda a identificar grande parte do grupo

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Proteção de Padre Cícero

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Preso na cadeia pública de Mossoró desde o dia 14 de junho, surpreendentemente, o cangaceiro Jararaca apresentava sinais de melhoras, apesar de ter ferido a bala no peito e numa perna. No mesmo dia em que foi preso, Jararaca concedeu entrevista ao jornalista Lauro da Escóssia, do jornal O Mossoroense. Segundo o pesquisador Geraldo Maia, começou dizendo que se chamava José Leite, que tinha 27 anos e havia nascido no dia 5 de maio em Buíque/PE. Disse ainda que o ataque a Mossoró foi idealizado por Massilon Leite e que Lampião relutou um pouco, por causa da história das duas Igrejas. Que quando Lampião chegou a Mossoró não gostou nada, nada daquela “Igreja da bunda redonda” (Capela de São Vicente) de onde estavam partindo os tiros contra o bando. Então Lauro perguntou: “Mas, enfim, Jararaca, para que Lampião queria tanto dinheiro? ” “Era para comprar os volantes de Pernambuco.” O cangaceiro disse ainda que “encontrava proteção no território cearense, tendo Padre Cícero do Juazeiro, no tempo da revolução, fornecido armas e munição a Lampião”. Lauro da Escóssia o descreveu como sendo “moreno, muito moreno, mas não era negro.” Era solteiro e andava com Lampião há um ano e alguns meses. Tinha um fuzil mauser e cartucheiras de duas camadas, mais 560 mil réis no bolso e uma caixinha com obras de ouro no valor de 1 conto de réis. No dia seguinte, 15 de junho, deu outra entrevista, agora ao jornal Correio do Povo. Neste momento, falou ainda mais e passou a dar nome aos apoiadores do cangaço.

Cangaceiro Jararaca foi assassinado pela Polícia dentro do cemitério de Mossoró

Segundo ele, parte do dinheiro dos saques realizados por Lampião era para comprar os oficiais da polícia de Pernambuco, especialmente o major Teófanes, oficial responsável pela prisão de Antônio Silvino. Disse ainda que o bando de Lampião vinha armado com 44 fuzis mausers, 9 rifles e 15 mil cartuchos, todos doados pelo médico e político Floro Bartolomeu –responsável pelo combate da Coluna Prestes no Ceará em 1925. O cangaceiro informou também que o cangaço recebia apoio dos coronéis José Otávio, de Vila Bela/PE e Santana, de Serra do Mato/CE, onde armazenava parte da munição. Depois da conversa, segundo Sérgio Dantas, é possível que o celerado tenha percebido que falou demais. Por isso, pediu uma audiência com o intendente Rodolfo Fernandes, mas não foi atendido pela Polícia.


O assassinato de Jararaca

Foto: Acervo Histórico

Por volta das onze horas da noite do dia 18 de junho de 1927, Jararaca que dormia em sua sela na cadeia pública, foi acordado pela Polícia. Disseram que o levariam para Natal. Suspenso pelos braços, foi levado para fora da cadeia. Lá fora, estavam os tenentes João Antunes, Laurentino de Morais e Abdon Nunes, os sargentos Pedro Sílvio de Morais, João Laurentino Soares e Eugênio Rodrigues, além dos cabos José Trajano e Manoel, bem como os soldados Militão Paulo e João Arcanjo. Jararaca reclamou estar sem as sandálias, mas os policiais fizeram pouco dele. Depois disse que não aguentava viajar de carro, mas lhe disseram que o levariam até a estação, onde tomaria um trem até Areia Branca e de lá embarcação para a capital. Em momento algum o preso se convenceu, por isso não estranhou quando os policiais fingiram uma pane no motor do automóvel em frente ao cemitério. “Eu sabia que vocês me traziam praqui”, disse Jararaca. A partir de então, começou a tortura. Um sol-

dado puxou sua perna ferida, fazendo-o urrar de dor. O motorista Homero Couto, que nada tinha a ver com a história, presenciou o ato brutal. “O soldado do lado oposto desferiu-lhe violenta coronhada de fuzil na cabeça, sem dar-lhe tempo ao mais leve gesto de defesa. Sucederamse as pancadas. Tomavam proporções altíssimas, em meio ao silêncio da noite. Pareciam que socavam terra”, disse, segundo relatos de Raul Fernandes. Mesmo sob forte ataque de covardia, Jararaca não se entregava. “Vocês querem me matar, mas não vão me ver chorar de medo, nem pedir de mãos postas para não me tirar a vida. Vocês vão ver como é que morre um cangaceiro”, esbravejou, segundo conta Sérgio Dantas. Um tiro na cabeça, por traição, teria findado o sofrimento. Jararaca caiu com todo o corpo em uma cova já aberta para ele. Mas o espaço era pequeno e para poder enterrar, os soldados tiveram de quebrar suas pernas a coices de fuzil. Nos dias seguintes, todos comentavam a morte do cangaceiro. O jornal O Mossoroense informou que ele havia morrido a caminho de Natal. Seu laudo cadavérico, feito com ele ainda vivo na cadeia, diz que sua morte se deu por “projéteis de arma de fogo”.

Túmulo de Jararaca continua sendo muito visitado em Mossoró

As circunstâncias da morte de Jararaca causaram comoção entre as pessoas mais pobres e o túmulo do cangaceiro virou ponto de romaria. Para muitos, ele foi enterrado vivo e teve tempo de se arrepender dos pecados. Há relatos de pessoas que teriam alcançado alguma graça ao rezar no túmulo do cangaceiro, um dos mais visitados, ainda hoje, no velho cemitério de Mossoró, principalmente no dia de finados.

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De cangaceiro a santo de Mossoró

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Heróis da Resistência Geraldo Maia do Nascimento Pesquisador

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Centenas de homens participaram do confronto ao bando de Lampião, naquele dia 13 de junho de 1927. Grande parte de origem humilde, o que, segundo alguns pesquisadores, não lhe conferiram o nome na lista dos heróis. Segue lista de grande parte dos resistentes, divididos por trincheiras.

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TRINCHEIRA DE RODOLPHO FERNANDES Manoel Duarte, Honório Ferreira, Francisco Pinto, Antonio Pinto, Manoel Arão e seus filhos: Paulino e João, José Pereira Lima e seu filho Jorge Pereira Gomes, Júlio Maia, Francisco Fernandes de Queiroz, Enedino Inácio, João Domingos, José Rodolfo Fernandes, Amaro Silva, Abel Coelho, Adrião Duarte, Francisco Vidal, Francisco Calixto e seu irmão Raymundo, Herculano Barbosa, Geraldo Dunga, Joaquim Benedicto, Rochinha Freire, Antonio Caldas, Antonio Rolim, José Grosso e José Conrado. Conforme o jornal Correio do Povo, ainda fizeram parte desta trincheira as seguintes pessoas: Luiz Amâncio, Tibúrcio Silveira, Florêncio Netto, Manoel Reis, Francisco Ferreira, Cicero Pereira, Evaristo Pereira, Manoel Tonel, Ray-

mundo Calistrato, Pedro Raymundo, Euclides Aleixo, Sinhô Bento, Manoel Serra Negra, Júlio Souza, Sebastião Raymundo, João Pedro, Antônio Alves, Manoel Pereira, Jose Ribeiro, João Chá e Octavio Cavalcante. Segundo Raul Fernandes, em A Marcha de Lampião, pág.129 e 130: “Várias pessoas desarmadas procuraram a residência do Prefeito, por segurança. Ficaram no sótão e na sala de jantar. Ajudavam selecionando munição e na limpeza das armas – José de Oliveira Costa (Costinha Fernandes) José Martins Fernandes, José Ribeiro Dantas, José Miguel de Oliveira Martins, Mirabeau de Carvalho Costa, Jofily Paiva de Carvalho, Joaquim Mafaldo de Oliveira, Raimundo Nonato da Silva, José de Paula (motorista do Prefeito) e o jovem Epifânio Dias Fernandes.”


Nesta torre ficaram entrincheirados Manoel Alves de Souza, Léo Teófilo e Manoel Félix. Devido à posição de tiro, onde teriam que se expor, serviram mais como observadores. Um deles indicou a Manoel Duarte a presença do cangaceiro Colchete, que foi alvejado pelo exímio atirador.

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA Vicente Sabóia Filho, Pedro Sílvio de Morais (3º Sargento da Polícia Militar do RN), Clóvis Marcelo de Araújo – soldado, Severino França – soldado, Lafaiete Tapioca – engenheiro da Estrada de Ferro, Raimundo Leão de Moura – comerciante, Lourenço Menandro da Cruz, José Cordeiro, Francisco Santiago de Freitas, João Delmiro, José Tenório, José Pereira, Inácio Bispo e Pacífico de Almeida, funcionários da Estrada de Ferro.

TELÉGRAPHO NACIONAL Mirabeau Mello - encarregado da estação telegráfica e os funcionários dos Correios e Telégraphos: Alcides Magalhães, Mário Villar de Melo, Moacir da Cunha Melo, Manoel Leandro Bezerra – Guarda do Telégrapho e Francisco P. De Souza – Mensageiro; os Tenentes da PM: Laurentino de Morais, Abdon Nunes de Carvalho e João Antunes; o soldado João Arcanjo de Oliveira, Dr. Gilberto Studart Gurgel – Advogado, Dr. Jose Furtado de Castro – Dentista, Padre Motta, Cônego Amâncio Ramalho e Padre Ulisses Maranhão; Júlio Ramalho – Técnico da Usina Força e Luz, Homero Couto – Motorista contratado pela Polícia, João Fernandes de Queiroz – comerciante, Cornélio Mendes, José Gomes, Antônio Araújo e o Professor Eliseu Viana.

TORRE DA MATRIZ DE SANTA LUZIA Antonio Brasil e mais 2 homens armados, alguns citam que eram policiais.

TRINCHEIRAS DE TERTULIANO FERNANDES & CIA A primeira, situada no sobrado, nº 160, no lado leste da Praça Felipe Guerra, com o intuito de

proteger os dez armazéns da firma, ficou composta de João Manoel Filho, Antônio Juvenal, João Ferreira da Silva, Luiz Chico, José Manoel e Francisco Canuto. A segunda, no sobrado à Rua Cel. Gurgel com Frei Miguelinho, foi formada por Manoel Sabino Lima, Francisco Campos Nogueira, Sérgio Queiroz, Francisco Porto, Pedro Maia e Monte Belo. Pouco antes do assalto, chegaram uns comboieiros, armados de rifles e com dez balas cada um.

ALFREDO FERNANDES & CIA (situada a Avenida Cunha da Mota, 27). Foram colocados cinco (5) homens no dormitório dos empregados que ficava no primeiro andar. Nos armazéns (que se estendiam até a Av. Cel. Gurgel, nº 475 e 487), sob o comando de Francisco Alves Cabral ficaram mais dez (10) homens.

GYMNASIO DIOCESANO SANTA LUZIA GYNASIO DIOCESANO SANTA LUZIA (situado à Praça Vigário Antônio Joaquim, hoje sede do Banco do Brasil). Aqui ficaram: José Alves de Oliveira, José Ibiapino, Manoel Moraes, Celso Alves, Nestor Leite e Pedro Nonato.

JORNAL O NORDESTE (situado no prédio à Praça Vigário Antônio Joaquim). Lá ficaram: Amâncio Leite, João Damasceno, Manoel Luz e outros não identificados.

MESA DE RENDAS DO ESTADO (situada à Praça Vigário Antônio Joaquim). Ficaram de três (3) a quatro (4) militares (soldados).

CASA DE AFFONSO FREIRE (situada à Rua Padre João Urbano, atual Dix-sept Rosado, próximo à Catedral de Santa Luzia). Reuniu em sua residência, além do irmão Leônidas Freire, o vizinho Pedro Ferreira Leite, Lauro Leite, Francisco Negócio da Silva e Abel Chagas Filho.

FRANCISCO MARCELINO & CIA (no sobrado situado na Praça 6 de Janeiro, atual

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IGREJA SÃO VICENTE DE PAULO

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Praça Rodolfo Fernandes). Tertuliano Ayres Dias, José Mathias da Costa, Severino de Aquino, Noberto de Souza Rêgo, Basílio Silva, Manoel Ferreira, Luiz Mendes de Freitas, Antônio Godeiro e Antônio Estevam de tal.

(situado à Praça Miguel Faustino). Ficaram duas (2) pessoas.

M.F. DO MONTE & CIA

TRINCHEIRA DA BARRAGEM

(situado à Praça dos Fernandes, atual Getúlio Vargas). No escritório e nos armazéns, durante a luta, estavam entre seis (6) oito (8) trabalhadores, dentre eles Joaquim Gregório da Silva.

(na ombreira da barragem do rio, ao lado da cidade). Ficaram quatro (4) a seis (6) homens devidamente armados e municiados, O soldado João Arcanjo dizia haver três (3) soldados sob o comando do Sargento Efraim.

TRINCHEIRA DA BOCA DO ESGOTO DE ÁGUAS PLUVIAIS Situada na esquina da Praça do Esgoto do Cano com a Rua Alfredo Fernandes. Foi uma defesa casual, comandada pelo soldado João Antônio de Oliveira, que tinha sob suas ordens os companheiros de farda: Leonel Pastel, David Sabino, José Abreu e Manoel Pedro. Praça do Esgoto do Cano, antiga denominação da Praça 6 de Janeiro, hoje Rodolfo Fernandes. Em “Ruas, Caminhos da Saudade”, diz R. Nonato: “Praça do Esgoto do Cano ganhava o nome mais bonito, que era Praça 6 de Janeiro, para lembrar a data da fundação da Sociedade Libertadora Mossoroense”.

USINA FORÇA E LUZ Era propriedade da firma Tertuliano Fernandes & Cia. Ficaram duas (2) pessoas. Seu gerente, Mário Vilar, foi com o Tenente Laurentino à Cadeia Pública buscar dois rifles para os vigias que lá ficaram.

RESIDÊNCIA DE JÚLIO MAIA (situada à Praça Bento Praxedes, 42). Ficaram dois (2) trabalhadores seus.

RESIDÊNCIA DE EZEQUIEL FERNANDES

TORRE DA IGREJA DO CORAÇÃO DE JESUS (onde situa-se ao lado, hoje, a Cúria Metropo-

te, Jayme Guedes.

(situado à Praça da Independência, esquina com a Augusto Severo). Nele funcionava o Cine-Theatro Almeida Castro de Francisco Ricarte de Freitas. Ali ficaram Ismael Siqueira e um (1) soldado.

MERCADO PÚBLICO MUNICIPAL (situado à Praça da Independência). Estavam oito (8) homens armados. BRAVA GENTE

GRUPO ESCOLAR ELISEU VIANA

(situada à Praça da Igreja de São Vicente, atual Francisco Ramalho, 85, foi uma defesa casual). Com sua esposa gravemente enferma, Ezequiel se preparava para deixar a cidade, quando iniciou o tiroteio. O chofer do caminhão, apavorado, partiu deixando-os, juntamente com Pedro Fernandes Ribeiro, Francisco Fernandes Sena, Raimundo Nonato Fernandes, Murilo Eufrásio da Costa e Chico Velho. Algumas trincheiras, organizadas na noite do dia 12 pelas firmas e formadas por trabalhadores e sócios com o intuito de defenderem os seus patrimônios, ficaram desfalcadas no dia seguinte durante a luta, como foram os casos da M.F. do Monte (a maioria retirou-se ficando quase desguarnecida); da Firma Colombo Ltdª, de Luiz Colombo Ferreira Pinto, cujos funcionários saíram para almoçar e não voltaram; a agência do Banco do Brasil e a residência do Geren-

GRANDE HOTEL

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litana). Ficaram quatro (4) civis armados.

CADEIA PÚBLICA (situada à Praça Antônio Gomes), atual Museu Histórico Lauro da Escóssia. Sob o comando do Sargento João Laurentino, estavam cinco (5) Soldados.


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