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Edicao 94

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ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO 2011 / RESENDE COSTA - MG

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Os problemas permanecem e reclamar tornou-se rotina na vida dos moradores de alguns bairros de Resende Costa

Quando a chuva vem, a luta é contra o barro e a água que costumam invadir as casas. Na seca, a inimiga é a poeira. Essa é a rotina de alguns bairros de Resende Costa que cresceram sem nenhum planejamento urbano, nos quais falta o básico: calçamento, quebra-molas, áreas de lazer e até coleta de lixo. As promessas são muitas, sobretudo em anos eleitorais. Não cumpridas, resta aos moradores apenas reclamar e esperar.

Moradias, esgoto, entulho e lixo invadem córregos em bairro sãojoanense Falta de calçamento, buracos e água na rua Zequinha de Lourdes

Página 03

Uma vida em favor do próximo

A conhecida Irmã Paulina trabalhou por muitos anos em Resende Costa. Completa-se neste ano o 10º aniversário de sua morte, acontecida em São Paulo. Pertencente à Congregação das Filhas de São Camilo, Irmã Paulina caracterizou-se pela piedade, doação e dedicação aos enfermos. Deixou saudades, especialmente nas famílias cujos filhos vieram ao mundo sob seu generoso amparo.

Desa na nova ponte que liga Barro Preto e Residencial Lenheiro

Se todos os caminhos levam a Roma, como diz o velho ditado, todos os córregos levam o esgoto e o lixo ao Córrego do Lenheiro que corta São João del-Rei. Casas construídas em leitos de córregos e terrenos baldios transformados em lixões; entulho, lixo e esgoto sem tratamento engrossam as águas dos córregos. Página 05

Zelosa e carismática, irmã Paulina sempre cuidou com carinho das crianças

Página 02


2 Jornal das Lajes Editorial

Tragédias e responsabilidades Tudo (ou quase tudo) já foi dito sobre a tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, cujos deslizamentos resultaram em mais de mil mortos, se considerarmos os corpos encontrados e os ainda desaparecidos, e milhares de pessoas desabrigadas. A mídia destrinchou à exaustão os fatos, o sofrimento e as emoções das vítimas; os governantes deram todas as desculpas possíveis (inclusive requentadas) e prometeram todo tipo de ajuda, mesmo aquilo que correm o risco de não serem cumpridas; especialistas apontaram causas e propuseram soluções. Enfim, aos poucos a vida volta à rotina e é justamente aí que mora o perigo. Fenômenos naturais ocorrem em várias partes do mundo, tais como nevascas nos Estados Unidos e na Europa, terremotos no Chile e no Japão, furacões no Caribe e enchentes na Austrália. Diante da enorme probabilidade de que novas castástrofes venham a ocorrer, em geral estes países e regiões estão preparados para o pior. Ao contrário, recentes tragédias no Brasil, como as da região serrana do Rio de Janeiro em 2002 (42 mortes); de Santa Catarina em 2008 (135 mortes); Angra dos Reis (RJ) em 2009 (53 mortes) e São Luiz de Paraitinga (SP) em 2009 (78 mortes), além de enchentes com mortes e desabrigados no Nordeste e em Minas Gerais, escancaram o despreparo de nossos governos (federal, estaduais e municipais) para lidar com tais fenônemos, especialmente quando se trata de medidas preventivas para minimizar a possibilidade de ocorrência de vítimas fatais. É, contudo, latente a incapacidade do poder público de prevenir tragédias e proteger populações nas chamadas áreas de risco. Outro aspecto relevante é o desconhecimento das áreas de risco no Brasil. O ministro de Ciência e Tecnologia falou recentemente em cinco milhões de pessoas em áreas de risco. O Censo 2000, do IBGE, aponta 12,4 milhões de pessoas morando em “assentamentos precários”. Independentemente das estatísticas, o que preocupa é o fato que há tolerância e até mesmo estímulo por parte de autoridades e políticos populistas em favor das ocupações desordenadas de encostas e outras áreas sob risco permanente de deslizamentos e enchentes. Desmatamentos, impermeabilização do solo, descaso com a cobertura vegetal e outras ações deletérias do homem somam-se à imprevidência dos governos, à ocupação desordenada e à omissão dos governantes em remover moradias de áreas comprometidas. Além disso, mudanças climáticas, fruto do aquecimento global, têm contribuído decisivamente para os fenômenos naturais que dão origem às tragédias. Frente a esses desafios, especialistas sugerem, em síntese, zonear áreas de risco, monitorar para evitar perdas humanas e realizar obras estruturais. A ideia é reduzir a níveis aceitáveis - dentro das informações e tecnologias disponíveis - o impacto dos desastres naturais sobre as vidas humanas. Diante das mudanças climáticas, não é absurdo dizer que, daqui para frente, tragédias ocorrerão com mais frequência nas mais diversas regiões, inclusive naquelas que conceitualmente são consideradas seguras do ponto de vista técnico. Resta, enfim, cobrarmos das autoridades, sobretudo políticas, mais ação e menos demagogia. Será que os pequenos municípios, entre eles Resende Costa, estão atentos aos problemas supramencionados, muitos deles oriundos do crescimento desordenado e da falta de planejamento urbano? Os gestores públicos estão preocupados em elaborar planos diretores eficazes? É hora de agir pensando no futuro e não esperar São Pedro decidir onde cairá a próxima e fatal tromba d’ água.

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Jornal das Lajes Ltda Editor-chefe: André Eustáquio Editora-assistente: Emanuelle Ribeiro

CNPJ: 09.323.470/0001-60 Redação Rua Assis Resende, 95 - Centro (32) 3354-1323 - Resende Costa - MG CEP: 36.340-000

Diretor de redação: Rosalvo Pinto Jornalista responsável: José Venâncio de Resende Registro Profissional: 10.894-SP Diretor Administrativo: Eustáquio Peluzi Chaves Diretor de Contabilidade: Antônio da Silva Ribeiro Neto

Editoração: Rafael Alves Impressão: FUMARC - Av. Francisco Sales, 540 Floresta - Belo Horizonte Tiragem: 3000 exemplares Circulação: Resende Costa e São João del-Rei Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

O verso e o controverso

JOÃO MAGALHÃES

Irmã Paulina: “mãe dos filhos dos outros” Dia 25 de março próximo, cumpre-se um decênio de sua morte. Inicialmente, transcrevo para nossos leitores seu necrológio, publicado no jornal “O Estado de São Paulo” do dia 30 de março de 2001, p. C5: “Irmã Paulina Gonçalves (Nair de Lourdes Gonçalves) - dia 25, aos 85 anos. Natural de São Carlos (SP), camiliana (“Filhas de São Camilo”), estava há 55 anos na Congregação que por vocação escolheu. Dedicou sua vida à religião e à enfermagem, que exerceu com grande dedicação. Entre 1945 e 1954, residiu na Argentina, período de sua formação e noviciado. Ao voltar para o Brasil serviu, inicialmente, na Casa Central das “Filhas de São Camilo”, na Parada Inglesa, em São Paulo, para onde voltou em 1995 (onde veio a falecer), depois na Granja Viana e, a seguir, no interior de Minas Gerais, em Rezende Costa e Cruzília, cidades em que pôde demonstrar seu elevado espírito cristão, cativando a todos por sua incansável disposição para o atendimento ao próximo e seus especiais dons carismáticos. Deixou primos, sobrinhos, sobrinhos-netos/ bisnetos. O enterro realizou-se no dia 26, no cemitério São Paulo. A missa de sétimo dia será celebrada amanhã às 15h30, na Capela da Casa de Descanso São Camilo, na rua Adelino Bortoli, 139, Parada Inglesa, nesta capital”. Nasceu a 8 de julho de 1915. Seus pais: José Carlos Gonçalves e Germânia Gonçalves. Desde os 3 meses foi criada sem a mãe. Infância e adolescência sofridas: muita tristeza e angústia. Aos 14 anos, cristaliza-se seu desejo de entrar para a vida religiosa num convento. O pai não autoriza: “só depois que eu morrer”, o que vem acontecer em 9 de agosto de 1929. Orfandade completa. Mora por 5 anos com sua irmã. Enfim, a dois de fevereiro de 1942, entrando para a Casa Religiosa das “Filhas de São Camilo”, a Nair vai aos poucos se transformando na Irmã Paulina, carismática, “mãe dos filhos dos outros que se desdobra sem limites”, como escreve Tote (Maria Alacoque Daher), no jogral escrito e apresentado em sua homenagem, quando de seus 25 anos de Religiosa, por volta de 1970. Tião Lima (nosso Tião da Caixa)

Irmã Paulina conversando com Adenor Coelho, ex-prefeito de Resende Costa

também confirma: Irmã Paulina costumava chamar de filhos, sobretudo, as crianças cujo parto ela fizera, o caso de um filho dele Meu testemunho é reforçativo quanto a seu carisma e espírito religioso vocacional. Minha admiração começa quando ela trabalha na Granja Viana, cuja paróquia era assistida pelos padres da “Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos (CCRRMI - Camilianos). Tinham lá o Seminário Menor (Instituto São Pio X). Aqui em Resende Costa, onde laborou no hospital de 4 de maio de 1962 a 30 de junho de 1964 e de 1º. de

maio de 1966 a 8 de fevereiro de 1980, deixou marcas indeléveis na memória de quantos que com ela conviveram. Cada um terá seus fatos pessoais, seus agradecimentos, suas emoções em torno dela. Não há espaço para transmitir tudo. Acho, porém, que o testemunho de Francisco Machado, 80 anos, (nosso popular Chico Machado), pedreiro que fez trabalhos no hospital, resume e representa nossas lembranças: “Irmã Paulina era jóia! Pra ela não tinha tempo ruim. Eu estava na roça, quando minha mulher correu pro hospital pra ter filho. Voltei rápido. Quando cheguei, irmã Paulina já tinha levado ela pra São João!”.

Irmã Paulina e irmã Ernestina na enfermaria das mulheres, antiga Santa Casa de Resende Costa

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Giro pela cidade

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ANDRÉ EUSTÁQUIO / GERALDO AIRES

Moradores pedem solução para problemas em bairros de Resende Costa O Jornal das Lajes se tornou, ao longo dos seus sete anos de história, um importante veículo de informação, divulgação e entretenimento para os moradores de Resende Costa e região. Com o passar dos anos, o contato com nossos leitores se estreitou e o jornal se tornou um “porta-voz”, através do qual a população se manifesta e vem publicamente reclamar da situação de abandono e descaso de alguns logradouros públicos. Nesta edição, o JL ouviu moradores que denunciam sérios problemas em suas ruas, muitos deles oriundos da falta de pavimentação e das obras de implantação da rede de esgoto. Bairro Nova Resende No bairro que foi devidamente planejado no início dos anos 80, quem reclama das condições da rua onde reside é o servente geral, Cipriano Francisco Júnior, o Ratinho do Depósito, que possui sua residência na Travessa Carmem Geralda Daher Gomes. Segundo relatou o morador, a situação está cada vez pior e já até pensaram em uma alternativa para trocar o nome da rua. “Nós pensamos em trocar o nome dessa rua para Travessa da Vergonha, porque não podemos mais ficar nessa situação. Falta meio fio e calçamento. Sobra poeira, barro, buracos e obras mal acabadas. A promessa era que assim que finalizassem as obras da rede de esgoto, uma reforma seria feita, mas até agora nada”, reclama Cipriano. Bairro São José A via que apresenta sérios problemas no bairro São José é a Rua Zequinha de Lourdes. Tal situação enfrentada pelos moradores do referido logradouro já foi destaque em matéria publicada pelo JL. Na ocasião os moradores que reclamaram das condições da via foram Gláucio Wallacy e Marlene. Desde aquela época até os dias atuais, a situação é a mesma, como relata o morador da rua, Raimundo Jair da Silva. “O que mais incomoda a todos que aqui residem é que somente em parte da rua falta calçamento. São cerca de 100 metros de rua que não

têm nenhuma manutenção por parte do poder público. E essa falta de pavimentação transforma essa parte em um caminho comum. Para todos terem uma ideia das condições, nem o caminhão de coleta de lixo passa por essa parte da rua. É necessário que os moradores carreguem sacos e latas de lixo para a esquina da rua de baixo para que o caminhão recolha”, reclama o morador. Bairro Nossa Senhora da Penha

O problema vivido pelo morador Luis Carlos Pinto na Rua Inconfidência Mineira, no bairro Nossa Senhora da Penha, não é a falta de calçamento ou manutenção do logradouro, uma vez que a rua onde reside é asfaltada e apresenta boas condições nesta questão. O entrave que preocupa o resende-costense é um bueiro localizado na via, mais precisamente em frente a sua residência, e que está parcialmente aberto, causando sérios prejuízos ao morador. “Já fiz vários pedidos na Prefeitura Municipal para que esse problema, que há anos se arrasta, mas até hoje nada foi feito. Participei da reunião realizada pela atual administração municipal aqui no bairro, na qual este problema foi relacionado como prioridade para ser solucionado, mas sem nenhuma ação até o momento. Como parte do bueiro se deslocou e afundou, varias rachaduras no passeio e no muro da minha casa apareceram. E quando chove a água recolhida na parte de cima do bairro vem para cá invadindo a rua com muita força”, disse o morador que já teve sérios prejuízos com tal situação. Centro No centro da cidade o problema relatado por Alexandro Barbosa é a falta de segurança na Rua Sete de Setembro. Segundo o morador, devido às obras do sistema de esgotamento sanitário, os quebra-molas existentes no local foram desfeitos, consequentemente a velocidade dos veículos que trafegam pela rua aumentou, apresentando alto risco de atropelamento, visto que na rua há muitas crianças que brincam nas calçadas. Alexandro, que é pai de um menor que infelizmen-

Após as obras da rede de esgoto, os quebra-molas não foram refeitos na rua Sete de setembro

No bairro, Nossa Senhora da Penha, bueiro estourado pela força das águas problema complexo, segundo a prefeitura

te fora vítima fatal de um acidente ocorrido no local, diz que não deseja a outros pais o sofrimento que ele mesmo vivenciou, por isso reclama a construção dos redutores de velocidade no logradouro. “Todos conhecem a minha história recente. Por isso estou preocupado com os moradores, pedestres e principalmente com as crianças que residem nesta rua. Sei que não são todos, mas alguns motoristas abusam da velocidade colocando em risco a segurança de todos que transitam na Sete de Setembro”, relatou emocionado. Bairro Bela Vista Num dos bairros mais novos de Resende Costa, o Bela Vista, a reclamação que motivou o morador José Geraldo da Costa a procurar a equipe de reportagem do JL é a falta de áreas de lazer no bairro. Pai de dois filhos menores, Geraldo reclama que, apesar da boa estrutura no que tange a calçamento e limpeza, não existe no bairro nenhuma área de lazer para as crianças se divertirem, o que as levam a ir brincar na rua. Segundo o morador, tratase de um grave problema de segurança no local. “O único espaço que as crianças aqui do bairro têm para brincar é a rua. Para isso, no entroncamento das Ruas Aristides Ferreira de Resende e Julieta de Paula Resende elas até desenharam um campo, mas este não é o lugar correto para se divertirem. Pois vários veículos transitam pelo local, e em algum momento podem atingir essas crianças”, disse preocupado. Há no bairro uma área que pertence à prefeitura, o que para o morador é a solução desse problema. “Queremos que o espaço, que pertence ao poder público, seja preenchido por uma quadra ou por uma área de lazer que atenda a toda a população. Não precisa ser de imediato. Como uma solução rápida e barata, basta que o terreno seja limpo e seja construída uma pequena quadra de areia para as crianças. Nas plenárias realizadas pela atual administração, esta foi uma das prioridades em obras públicas para o bairro, mas até o momento nada foi feito”, destaca o morador. Prefeitura – A Prefeitura Muni-

cipal de Resende Costa, através do secretário municipal de obras, José de Assis Sobrinho, o Zé do Dico, fez comentários sobre as reclamações dos moradores. Segundo ele, existem na cidade muitas ruas que necessitam de urgente intervenção. “Assumi a Secretaria Municipal de Obras há pouco mais de um mês, mesmo assim posso dizer que estamos procurando correr atrás e solucionar esses problemas, além de outros tantos na zona rural, onde há estradas que não recebiam reparos há mais de oito anos. Estamos trabalhando e priorizando estradas por onde circulam veículos de linha escolar. Por enquanto estamos tapando buracos, quando as chuvas cessarem realizaremos o patrolamento”. Há previsão de que algumas ruas sejam pavimentadas ainda este ano, mas outras não estão no orçamento (LDO), como é o que caso da Rua Zequinha de Lourdes. O secretário José de Assis informou que poderá fazer alguns reparos. “O calçamento integral não está previsto; quanto ao problema da coleta de lixo, vou ver o que está acontecendo e pedirei para que o caminhão faça a coleta”. O secretário informou também que o início dos trabalhos de pavimentação depende do resultado das licitações. “Muitas ruas certamente serão calçadas ainda este ano, algumas inclusive já estão licitadas. Quero informar que há caminhões que voltam da zona rural carregados de cascalho, que é utilizado

em operações tapa-buracos, enquanto o calçamento definitivo não acontece”. De acordo com Assis, essas ações paliativas continuarão, mas há problemas complexos, como na Rua Inconfidência Mineira, no bairro Nossa Senhora da Penha: “O problema lá não é somente o bueiro, isso podemos solucionar rápido. Acontece que as manilhas de 30 não estão suportando o escoamento da água de chuva. Teremos que colocar manilhas de 40 e ainda drenar o brejo que existe próximo ao local. É um trabalho maior, que inclui questões ambientais e necessita de máquinas apropriadas”. Na Rua Sete de Setembro, o secretário concorda com a necessidade de quebra-molas, porém, segundo ele, para que a prefeitura instale os redutores de velocidade é necessário pedido formal dos moradores do entorno: “Até hoje nenhum morador me procurou para fazer o quebra-mola lá. Se eles me procurarem, mando fazer amanhã mesmo. Mas a prefeitura não pode simplesmente chegar lá e construir um quebra-mola na frente da casa de um morador, que depois vai reclamar das rachaduras que poderão aparecer”. Disse ainda: “Para construir quebramolas é preciso autorização dos moradores. Reconheço que há muitas ruas que necessitam deles. Desde o início de janeiro, venho fazendo reparos em vários quebra-molas, que foram danificados pelas obras da rede de esgoto”. Quanto ao pedido para que seja construída uma área de lazer no bairro Bela Vista, José de Assis discorda da necessidade do que ele chama de “mais uma praça esportiva”. “Acho que falta orientação. Os pais poderiam levar seus filhos ao Campo do Expedicionários, que é perto e em breve receberá uma pista de caminhada com calçamento e banheiros novos. Ao invés de construir novas praças esportivas, a comunidade poderia aproveitar muito mais as que já existem. Por outro lado, poderemos correr o risco de construir novas praças esportivas, que não serão devidamente utilizadas, o que, para mim, representa desperdício de dinheiro público”.

As crianças improvisam uma quadra no meio da rua, no bairro Bela Vista


4 Jornal das Lajes

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

Jogo Aberto

POR ANDRÉ EUSTÁQUIO

“Cada um, à sua maneira e isoladamente, criou e produziu o que no final deu muito certo, uma identidade econômica e cultural sem a qual, hoje, Resende Costa entraria em colapso”. avançamos muito. Agora, o nosso grande

pio priorizar ações que visam ao desen-

nhor concorda? Não concordo. Apesar

desafio está em melhorar o nosso recepti-

volvimento do turismo? As vantagens

de estar disseminado pela cidade o senso

vo turístico propriamente dito. É preciso

são imensas. Primeiro, o turismo traz

comum favorável ou simpático à idéia,

preparar guias, atendentes, e a própria

divisas econômicas para o município de

acredito que a criação de uma festa nes-

população para recebermos e informar-

diversas maneiras. No caso de Resende

ses parâmetros (shows, barracas etc.) não

mos cada vez melhor o turista, fazendo de

Costa, essas divisas são essenciais para

ajudará em nada o turismo local. Além

nossas atrações naturais, arquitetônicas e

a vida econômica do município. Além

de comprometer financeiramente outras

culturais verdadeiros atrativos turísticos.

disso, este turismo saudável que nós re-

ações mais eficazes para a solidificação

cebemos reforça a nossa auto-estima. É

do turismo. Uma festa criada nesses mol-

Falta mais iniciativa do poder público

bom percebermos que a nossa cultura e

des vai atrair o mesmo público de exposi-

na formulação de políticas públicas

o nosso trabalho são reconhecidos e va-

ções, carnaval etc. Não é que não queira-

voltadas ao setor do turismo em Re-

lorizados por gente de todo lugar. Incute-

mos receber este público, mas queremos

sende Costa? Sempre faltou. Desde a

nos a vontade de preservar nossas raízes,

e precisamos de eventos esparsos e de

minha tenra infância, sempre fui ligado

conhecer nossa história. Instiga a nossa

cunho cultural, capazes de atrair públicos

ao artesanato e também muito atento às

criatividade produtiva, nossa capacidade

que consumirão em nossa rede receptiva

proposições e realizações do poder públi-

de aperfeiçoar e adequar nossos produ-

montada (lojas, hotéis, restaurantes, ba-

co na área. Faço esta crítica muito cons-

tos às exigências e tendências modernas,

res etc.) e não em barracas sazonais.

cientemente. As ações até hoje tomadas

contudo, sem abandonar ou esquecer

pelo poder público sempre foram isola-

nossas tradições. Ao investir no turismo,

Não seria interessante a cidade ela-

O Jornal das Lajes conversou com o

ao crédito, confecção e compra conjunta

presidente da Associação Comercial e Tu-

de etiquetas para fixação em produtos

rística de Resende Costa (ASSETURC),

têxteis etc. Além de representar e defen-

Cícero Resende Chaves. Empresário do

der os interesses da classe perante os po-

das e sem projeções para médio e longo

esperam-se não só compensações finan-

borar uma agenda anual de eventos?

ramo do artesanato, Cícero, 31, é casado,

deres constituídos.

prazo. Não atingiram, na época, metas ou

ceiras, mas compensações em áreas so-

Acredito que aí esteja uma excelente

expectativas satisfatórias e, consequente-

ciais e humanas. As vantagens transcen-

maneira de enaltecermos o nosso arte-

há três anos, com mandato até maio de

Quais as metas que a diretoria atual

mente, caíram posteriormente no esque-

dem o âmbito econômico. O empresário

sanato. Não com uma mega festa, mas

2012. Cícero defende o associativismo

pretende alcançar? Diante da baixa tra-

cimento. O patamar de desenvolvimento

que consegue prosperidade econômica

com muitas festas e acontecimentos. No

como ação vital para o desenvolvimen-

dição associativista de Resende Costa (e

de Resende Costa deve-se ao trabalho e

através de uma empresa que valoriza

meu entendimento, precisamos criar ra-

to do comércio e do turismo de Resende

mesmo do nosso país), a principal meta

criatividade ímpares de seu povo. Apesar

seus colaboradores, que é parte integran-

pidamente um calendário de festas para

Costa. Nesta entrevista, ele aborda a situ-

da associação tem sido, simplesmente,

deste trabalho também ter sido realizado

te de uma cadeia como a do artesanato/

Resende Costa. Devemos agregar mais

ação atual do turismo e do comércio de

manter-se em funcionamento, o que já

sem nenhuma articulação associativa en-

turismo de Resende Costa, presta um be-

cultura a cada evento. Aqui está a im-

artesanato, fazendo uma análise histórica

representa para nós um grande desafio

tre os milhares de artesãos, comerciários

nefício imenso à sociedade. E sendo ele e

portância das comissões organizadoras e

de como o setor se desenvolveu no muni-

e uma missão que vem sendo cumprida.

e empresários. Cada um, a sua maneira

sua família partes dessa sociedade, usu-

poder público pensarem as festas como

cípio sem contar com políticas públicas

O compromisso fundamental da atual

e isoladamente, criou e produziu, o que

fruem de todas as vantagens econômicas,

partes de um tudo. Tentar agregar valo-

pontuais e especialmente elaboradas para

diretoria com a associação é conduzi-la

no final deu muito certo, uma identidade

sociais e culturais de poder viver em um

res culturais e atrações capazes de atrair

o setor e sem se valer de uma articulação

com vida financeira saudável, com uma

econômica e cultural sem a qual, hoje,

ambiente com essa riqueza plural.

turistas que visitam a região. Essas festas

associativista.

estrutura em constante melhoramento

pai de duas filhas e preside a ASSETURC

e apta a receber, propor, encaminhar e

Resende Costa entraria em colapso.

poderiam ser pensadas com mais anteceO maior atrativo turístico de Resende

dência e divulgadas com antecipação em

Faz falta uma Secretaria Municipal de

Costa é, sem dúvida alguma, o comér-

um calendário de festas oficial da cidade.

Cultura e Turismo no município? Faz

cio de artesanato. Há, porém, críticos

Quem sabe não seria esta uma ação a ser

sim. Um município do tamanho do nosso

que dizem que a cidade ainda não

desenvolvida pelo novo Conselho Muni-

deve ter como uma de suas principais me-

oferece estrutura devida (pousadas,

cipal de Turismo?

tas a manutenção e a ampliação de seus

restaurantes, outras atividades) que

Fale um pouco sobre a ASSETURC, o

encabeçar projetos ou ações que visem a

que significa, quando foi criada, quanto

manter vigorosos o comércio, o turismo e

sócios a integram... Em poucas palavras.

o artesanato de Resende Costa. Na me-

Foi fundada em 12 de setembro de 2005

dida do possível, buscamos incrementar

com o intuito de atender prioritariamen-

e solidificar ainda mais as estruturas da

te às demandas do comércio turístico de

associação.

postos de trabalho. O povo para ter vida

mantêm os visitantes aqui. O senhor

Qual a sua opinião acerca do desen-

digna deve ter oferta de trabalho. Manter

concorda com essas críticas? O que

volvimento do turismo rural para Re-

dificuldades, principalmente financei-

Em sua opinião, quais os principais de-

e melhorar a saúde econômica do muni-

fazer para mudar o quadro? A crítica

sende Costa? O turismo rural pode, sim,

ras, fundiu-se à associação do comércio

safios que Resende Costa enfrenta atu-

cípio, fomentar a geração de emprego e

é pertinente. Agora, quanto à mudança

ter espaço na nossa região e na nossa ci-

local (a ACIRC), que na época também

almente quando se fala em turismo e,

renda é, sim, obrigação do poder público.

desse quadro, considero que já está acon-

dade. Temos belíssimas fazendas, sítios,

passava por problemas financeiros, além

mais ainda, associá-lo ao comércio de

Sabemos que a economia local é direta-

tecendo, pelo processo a pouco citado.

uma atraente e tradicional produção rural

de estar com a diretoria vencida. Assim, a

artesanato? Na verdade, nós já temos um

mente influenciada e governada por leis

Individualmente, porém com brilhantis-

familiar. Somos, com certeza, capazes

ASSETURC (sigla da antiga Associação

fluxo turístico considerável, que é direta-

de mercados, tendências de moda, rotei-

mo, empresários e empreendedores têm

de receber bem. Entretanto, o desenvol-

das Empresas do Artesanato e Turismo

mente ligado ao comércio de artesanato.

ros turísticos etc. Não existimos por nós

investido e melhorado o nosso receptivo

vimento do turismo rural não é muito

de Resende Costa) é hoje a Associação

Nos últimos anos, soubemos aproveitar o

mesmos. Somos muito pequenos, ou até

de bares, restaurantes e pousadas. A de-

simples. Apesar de termos um ambiente

Comercial e Turística de Resende Costa

bom momento econômico do país, que é

insignificantes para um mercado como o

manda incentivou isso nos últimos anos.

relativamente propício para a atividade,

e representa todo o seguimento comercial

propício ao turismo, bem como a proxi-

brasileiro. Porém, somos extremamen-

O que ainda está muito incipiente é a

ainda nos falta know-how para o seu

resende-costense. A Associação Comer-

midade de cidades históricas, como Ti-

te grandes e importantes para Resende

melhoria do receptivo coletivo, atrações

desenvolvimento satisfatório. Acredito,

cial conta hoje com 62 associados e, de

radentes, desenvolvendo nossa vocação

Costa. Todo e qualquer amparo do poder

públicas e culturais, que temos condi-

porém, que a demanda é capaz de em-

acordo com o seu estatuto, a ela podem

artesanal e comercial. Para os próximos

público é muito bem-vindo. Uma secreta-

ções de melhorar e muito. Quanto a es-

purrar o desenvolvimento. Tomara que

associar-se comércios, indústrias e pres-

anos, a perspectiva também é boa. Com

ria de cultura e turismo, se bem dirigida,

tas, também estou muito otimista agora

comecemos logo a atacar no turismo ru-

tadores de serviços do município.

a crescente expansão da construção ci-

poderia muito nos fortalecer. A nossa re-

com a recriação do Conselho Municipal

ral. As falhas e os erros vão acontecendo

gião guarda particularidades riquíssimas

de Turismo, que terá recursos para que

e nós aprendendo com eles. Melhor será

da cultura mineira, cultura esta que move

em poucos anos possamos mudar e fazer

se os interessados puderem trabalhar as-

através do artesanato a economia de

chegar a patamares muito satisfatórios o

sociados e com maior amparo do poder

quase todas as cidades da nossa micro-

nosso receptivo.

público.

Muita gente sugere a realização de

A íntegra da entrevista está no site www.

uma festa anual do artesanato. O se-

jornaldaslajes.com.br/entrevistas

Resende Costa. Entretanto, devido às

vil, minorando o déficit habitacional do Quais são os objetivos da associação?

país, temos projeções de crescimento do

Prestar aos associados orientações perti-

nosso setor. Nós vendemos decorações e

nentes às atividades por eles exercidas,

utilidades. Ora, quem constrói depois tem

manter serviços de necessidade comum,

de montar e decorar sua casa. Nos requi-

barateando seus custos, como a manuten-

sitos criatividade, qualidade e variedade

ção de convênio com serviço de proteção

do que produzimos e comercializamos já

região. Quais são as vantagens para o municí-


Jornal das Lajes

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

São João del-Rei

5

JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

Córrego do Lenheiro de São João del-Rei: mistura explosiva de água com lixo e entulho

Se todos os caminhos levam a Roma, como diz o velho ditado, todos os córregos levam o esgoto e o lixo ao Córrego do Lenheiro que corta São João del-Rei. O que levou uma autoridade local a dizer que “não existe esgoto a céu aberto porque o esgoto é todo jogado nos córregos da cidade”. Um terreno baldio, antigo desbarrancado na beira da rua Juvenal Vaz Guimarães, é motivo de preocupação para os moradores do bairro, segundo a agente de saúde Neusa Jesus Neves, conhecida como Desa, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Barro Preto. O terreno virou um lixão, alimentado pela construção civil, moradores e mesmo a prefeitura, que de tempos em tempos recebe uma máquina que nivela a área, empurrando o entulho misturado ao lixo rumo a uma encosta íngreme. “Eu tenho muito medo que um dia, com o excesso de chuva, o entulho e o lixo depositados ali venham a ceder, descendo encosta abaixo”, diz Desa. Sem falar que qualquer construção que venha a ser feita no local futuramente seja condenada ao deslizamento pela própria inconsistência do terreno. Melhor do que construir casa ou prédio, seria transformar a área em espaço de lazer, sugere Jorge Gouveia, secretário da Associação. A ação de moradores, empresários da construção e poder público pode ter efeito explosivo, alerta Desa. “Toda vez que empurram o entulho, ele vai se aproximando das casas da rua Francisco José da Silva (na parte mais baixa do bairro)”. Daí para a ocorrência de deslizamentos é um passo. “É uma coisa que a gente tem que evitar agora para não ter problema futuro, que a gente vê tanto na televisão nos lugares fora daqui”. Um pouco mais adiante, a rua Juvenal é cortada pelo córrego que desce das bandas da avenida Maria Alves Barbosa, próxima da BR 265 (São João del-Rei a Lavras). Este córrego vai despejar água, esgoto e lixo no Córrego do Lenheiro. Perto da rua, casas foram construídas praticamente no leito do córrego, que vai sendo engrossado por esgoto sem tratamento. “Agora, como é período de chuva, ele

está com bastante água. Mas quando chega o tempo da seca é pouquinha água e muito esgoto; então, o cheiro fica forte”, observa Desa. Uma dessas casas, logo abaixo da rua, pertence à filha de Gouveia. Em vez da mata ciliar, um paredão de concreto para impedir que a água invada a casa em época de enchente. “O marido da minha filha foi obrigado a fazer esse muro de arrimo sem poder. E tinha um muro de arrimo pouco acima das manilhas (que passam por baixo da rua), deixando a rua bem protegida. Mas, quando o pessoal da Copasa veio aqui colocar as manilhas, eles não consertaram o muro de arrimo. Então, se chove muito, a água que desce lá da BR 265 deságua toda aqui. A água já chegou até a porta da casa da minha filha”. Quando a manilha não comporta o volume de água, não dá vazão e o córrego invade a rua, explica Gouveia. O vizinho também foi obrigado a construir um muro para proteger a casa dele. Um pouco abaixo, Desa aponta outro trecho do córrego, na rua Francisco José da Silva, que acumula grande quantidade de lixo, entulho e galhos de árvores jogados por moradores, que praticamente obstruem a passagem da água. “Eles fecham o caminho do córrego e com a chuva a tendência é a água passar por cima da rua. No tempo das chuvas, tudo pode acontecer”. Uma casa cuja construção praticamente invadiu o córrego está abandonada. “Parte dela caiu com a força da água e os moradores tiveram que sair. Infelizmente, os moradores contribuem para que tudo de errado aconteça”. Desbarrancado - Um desbarrancado nos fundos de propriedade particular reúne uma mina de água e o esgoto das casas das ruas Juvenal Vaz Guimarães e Josino do Nascimento e do conjunto habitacional Dom Lucas, resultando em mau cheiro insuportável. “O esgoto invadiu o terreno que é propriedade particular na rua Juvenal. Ele segue a céu aberto até o córrego do Lenheiro, que está aqui perto”, relata Desa. Com o excesso de chuvas, a área corre o risco de novos deslizamentos. “O terreno vai ficando muito

Esgoto a céu aberto em desbarrancado em propriedade particular

Casa construída no leito de córrego na Rua Juvenal Vaz Guimarães

úmido e a tendência é deslizar”. Chegamos a outro trecho do córrego, que passa por baixo da rua Juvenal Vaz Guimarães. Corre praticamente colado ao muro e não tem espaço para se expandir, segundo descreve Desa. “Quando chove e enche muito, alaga tudo e não tem como a gente passar aqui”. Na altura do número 10 da rua Juvenal, este mesmo córrego encontra o Córrego do Lenheiro. O curso d’água contendo esgoto sem tratamento passa por baixo da rua, num lugar que também costuma encher e, quando isso acontece, inunda aquele trecho de rua. “É uma correnteza muito forte, desce muita água ali de cima”. Mais um pouco e encontramos novo trecho de córrego onde se pode ver lixo acumulado e casas ocupando as margens. “Não tem espaço nenhum para o córrego se expandir”. Por fim, chegamos ao córrego, canalizado, que nasce na Serra do Lenheiro e corta o Residencial Lenheiro, recebendo o esgoto das casas do bairro. Pode-se ver a casa da agente de saúde Vânia, amiga de Desa, cujo terreno o córrego atravessa manilhado. Ele passa por baixo da avenida Mário Mazzoni, cujas manilhas nem sempre comportam o volume de água em época de chuva. Do outro lado da rua, terreno baldio, entulho, lixo e mato, ao lado de casas com canos à mostra por onde corre o esgoto, formam a paisagem. “Aqui, o que mais se vê é isso”, desabafa Desa. “Quando inunda, a rua fica intransitável. A minha amiga já sofreu muito por causa desse córrego”. Tudo vai desembocar no Córrego do Lenheiro, ajudando a acarretar enchentes. Nova ponte, velhos problemas -

A ligação do Barro Preto com o Residencial Lenheiro é feita por meio de nova ponte de concreto inaugurada no ano passado. “Era uma ponte de madeira que caiu com uma enchente”, conta Desa. A ponte sobre o Córrego do Lenheiro fica um pouco abaixo do local onde ele recebe água, esgoto e entulho do córrego que vem da região da BR 265. “Desce muita água daquele córrego e também do Córrego do Lenheiro, que recebe água da cachoeira e do poço Sete Metros na serra do Lenheiro. Foi essa água que passou por cima da ponte de madeira que não aguentou. Aí amarraram a ponte numa árvore com cabo de aço, em tempo de irem os dois embora (ponte e árvore), destruindo as casas por ali abaixo. Mas Deus ajudou e não teve chuva forte nesse período. Então, a prefeitura resolveu fazer essa ponte de cimento, que ainda não enfrentou enchente, mas aparentemente é resistente”. O que mais se vê neste local é a proliferação de canos de PVC de diferentes diâmetros, despejando esgoto das casas localizadas nas margens do Córrego do Lenheiro. “Fizemos um apanhado geral desde o lixo até

o esgoto e concluímos que o próprio morador é responsável por muita coisa”, diz Desa. Mas a cadeia de irresponsabilidade pelo caos em que se encontra o saneamento básico em São João delRei não tem limites. Um dia, Desa passava pelo centro da cidade, após uma enchente que fez transbordar o Córrego do Lenheiro. A água tinha baixado e a grama ao longo do córrego canalizado estava coberta de esgoto e lixo de todo tipo. “Fiquei espantada quando vi os funcionários da prefeitura pegando aquele lixo e jogando de volta dentro do córrego. Achei aquilo um absurdo, como também várias pessoas que passavam por ali”. A ironia é que o volume de esgoto e lixo que cobria o gramado das margens do Córrego do Lenheiro desceu dos morros da cidade, sendo engrossado pelas residências ao longo do caminho. Certamente, parte desse material veio das próprias residências desses funcionários municipais. (A íntegra da reportagem está disponível em www.jornaldaslajes. com.br)

Esgoto a céu aberto, lixo e cano de esgoto doméstico no Córrego do Lenheiro


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Cinema Saiu a lista dos indicados ao Oscar 2011 e, como no ano passado, são 10 os concorrentes a Melhor Filme. Como estou em gestação avançada, creio que neste ano não conseguirei cumprir minha “maratona cinéfila” antes da cerimônia, como tenho costume. Assim, aproveito para trazer 3 filmes que disputaram diferentes categorias em 2010 e sobre os quais ainda não havia comentado. O MENSAGEIRO (The Messenger, EUA) Gênero: Drama Direção: Oren Moverman Duração: 112 min. Ano: 2009 Tendo concorrido a Melhor Roteiro Original em 2010, este longa aborda um ponto pouco explorado nos ditos “filmes de guerra”: quem são e o que sentem os oficiais incumbidos de notificar os parentes de soldados

CARINA BORTOLINI mortos em combate? Ben Foster vive o sargento Will Montgomery, herói de guerra no Iraque que, após sofrer sérios ferimentos e voltar aos EUA, é designado para tal missão de honra. Ele trabalhará juntamente com o capitão Stone (Woody Harrelson, indicado a Melhor Ator Coadjuvante em tal papel), há anos exercendo tal função. Experiente em lidar com os familiares e entes queridos em momento tão delicado, Stone passa a ensinar toda sua técnica a Montgomery, que a princípio reprovará o método frio e formal do superior – tanto que o rapaz envolvese afetivamente com a viúva de um oficial do qual deram a notícia da morte. Com a convivência forçada e a intimidade de ambos sendo aos poucos desvelada, surgirá uma autêntica amizade, livre dos traços de pieguice comuns do gênero “colegas combatentes leais até a morte”. As ótimas interpretações e o tratamento minucioso dado às diferentes reações humanas diante de uma tragédia fazem do filme uma referência no tema. Classificação: 16 anos. CORAÇÃO LOUCO (Crazy Heart, EUA) Gênero: Drama Direção: Scott Cooper Duração: 112 min.

Ano: 2009 Jeff Bridges teve, com este filme, sua consagração e devido reconhecimento. Ganhador do Oscar de Melhor Ator, já havia sido indicado outras quatro vezes. Aqui ele dá vida a Bad Blake, cantor e compositor de música country que fizera grande sucesso no passado, mas agora amarga franca decadência. O talento permanece, mas o vício em cigarros e bebida e a postura errática diante da vida o transformaram na figura vulgar que, dirigindo uma velha caminhonete de cidade em cidade do sudoeste americano, se apresenta em boliches e casas noturnas nada elegantes. Recebendo um cachê tão baixo a ponto de não sustentar seu whisky favorito, canta sempre os mesmos velhos hits. Entretanto, ao conhecer a repórter Jean (Maggie Gyllenhaal, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante) e seu adorável filho de 4 anos, Bad verá seus sentimentos tomarem um rumo

inesperado, capaz de fazê-lo cogitar uma mudança em sua indolente rotina. Dono de um estilo absurdamente natural e sedutor de interpretar, Bridges ainda nos emociona cantando e tocando as músicas do personagem. A participação de Colin Farrell como o pupilo de Bad que é o novo astro do country enriquece o filme, que levou ainda o Oscar de Canção Original. Classificação: 14 anos. DIREITO DE AMAR (A Single Man, EUA) Gênero: Drama Direção: Tom Ford Duração: 101 min. Ano: 2009 Em 2005, Ang Lee e seu O Segredo de Brokeback Mountain quebraram um grande tabu do cinema ao retratar uma história de amor entre dois típicos cowboys americanos. O que mais me surpreendeu naquele filme – que, inclusive, merece uma indicação nesta coluna – foi a forma como ele consegue nos envolver, ao longo da história, a ponto de não mais classificarmos os protagonistas como um casal gay, mas sim, como dois seres humanos que se amam e sofrem com a impossibilidade de ficarem juntos. Este filme me

Mostra de Cinema

passou uma sensação parecida. Tom Ford é um estilista renomado, que faz aqui sua primeira e muito bem sucedida incursão no cinema – como diretor e corroteirista. Colin Firth, indicado a Melhor Ator, é George Falconer, professor de literatura que, no início da década de 60, agoniza a morte de Jim, seu amado companheiro por 16 anos. Ao mesmo tempo em que planeja diariamente seu suicídio, George não se dá ao direito de externar seu luto e sua dor. Com ternos e semblante impecáveis, não há quem desconfie de sua consternação interior, à exceção de sua melhor amiga e confidente Charley (Julianne Moore), ela também padecente de um amor impossível. Que honra para Jeff Bridges levar o prêmio pelo qual concorriam atores do nível de Firth. Classificação: 14 anos.

MARISA MAGALHÃES

Um flash da Mostra de Cinema de Tiradentes e muitos aplausos Durante nove dias, Tiradentes sediou pelo 14º ano consecutivo uma das mais importantes mostras do cinema nacional contemporâneo. Sua singularidade está no seu formato e concepção, voltados para a formação dos profissionais do cinema, nas mais variadas funções que a 7ª arte abriga: diretores, autores, atores, críticos, pesquisadores, técnicos com debates, discussões, análise dos filmes apresentados, como também reflexões e tomadas de posição no quesito de pensar o cinema nacional: rumos, trajetória e possibilidades técnicas e ideológicas. Portanto, essa mostra vai além da exibição de filmes. Ela dá oportunidades de a nova geração apresentar seus trabalhos e vivenciar situações de troca de experiência, que de fato contribuem para o seu crescimento. E para quem aprecia cinema, recebe de bandeja um manjar esplêndido, tal a diversidade e riqueza dos filmes apresentados, além de democratizar o acesso a todas as atividades que compõem essa mostra. O público é convidado não só a assistir, mas também a participar de debates, oficinas, seminários, exposições e expressar sua opinião através do voto no “Júri Popular”. Neste ano de 2011, sob a temática de “O olhar capta a diversidade –

o Brasil visto de todos os ângulos”, grande parte dos filmes possibilitaram momentos de reflexão sobre nossa realidade sociopolítica atual, exibindo como representante do gênero o campeão de bilheteria, até agora, “Tropa de Elite 2”. No entanto, outros filmes denunciaram, revelaram, rememoraram dramas vividos pela sociedade brasileira: o massacre da cultura e da identidade indígena em nome da evangelização (praticada pelos padres missionários salesianos) e dos padrões culturais europeus em “Remissões do Rio Negro”, documentário, 90 minutos, AM 2010; “Enchente”, documentário, 71 minutos, RJ 2010: o drama vivido pelos moradores da Cidade de Deus em 1996, vítimas de uma das maiores enchentes. A água com violência e força devasta tudo e deixa, além da revolta, desesperança, desespero, indignação, a consciência crítica, que desmascara a omissão do poder público, a alienação de muitos e a constatação de que o problema não é de ninguém, ironizando: é da natureza! Ou, quem sabe, São Pedro descarregou na chuva seu mau humor. Ninguém fez sua parte e o fato se repete; “Olhos Azuis”, que trata da arbitrariedade, preconceito e abuso de poder a que são submetidas as pessoas que desejam

receber o visto de entrada nos EUA.; “Cortina de Fumaça”, que aborda o problema político das drogas, jogando para reflexão a descriminalização da maconha – mito e verdade dos efeitos de seu consumo, à luz da ciência. Esses são alguns dos longas, sem falar nos curta, na mostrinha de cinema indicada para o público infanto-juvenil, nas atrações teatrais, nas oficinas de temáticas diversas oportunizando a educação para o cinema, para a arte. Enfim, proporcionando experiências culturais que visam ao crescimento intelectual e à conscientização social, na medida em que propõem o pensar sobre a vida, o eu, o mundo. E tudo isso gratuitamente. A mostra também não deixou de fora aqueles que não apreciam a 7ª arte, mas que curtem a noite, oferecendo a cada término da programação do dia, show de música, diversificando o gênero a cada noite. Exposições, lançamento de livros, produção de audiovisuais integraram as atividades do evento. O público prestigiou com sua presença todas as sessões lotando os espaços. Tirantes bombou! Haja vista a frequência nos bares, restaurantes, lojas e nas ruas. E nem por isso a exibição do Cine Praça ficou prejudicada.

Aplaudindo em pé, público, críticos e cineastas celebraram o término da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes realizada pela Universo Produção e Instituto Universo Cultural – um evento do programa Cinema sem Fronteiras. Parabéns pela estrutura, idealismo de levar a bandeira da arte, tão pouco

valorizada pelos vários segmentos político-sociais, mas tão importante para a formação humana. A cidade fervilhou, o comércio aqueceu e, creio, todos lucraram, cada um na sua medida. Resta aguardar a 15ª Mostra 2012. Que seja bem-vinda! Foto Leonardo Lara - Divulgação

Irandhir Santos e Paulo Cesar Saraceni , recebem o trofeu Barroco das mãos da Ministra da Cultura, Ana de Holanda


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Aconteceu

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EMANUELLE RIBEIRO / ANDRÉ EUSTÁQUIO

Mistura do Pagode agitou a noite na Pizzaria e Buteco da Maura No dia 21 de janeiro último, samba e pagode ditaram o ritmo da noite na Pizzaria e Buteco da Maura. O grupo resende-costense Mistura do Pagode se apresentou para um público grande e animado, que já vem demonstrando bastante energia para o Carnaval 2011. Com apresentações musi-

cais para diversos gostos, desde o sertanejo e MPB até o rock e pagode, a Pizzaria e Buteco da Maura é sempre uma excelente opção para quem deseja curtir a noite em alto astral. E quem curtiu o Mistura do Pagode definiu a noite do dia 21 como “imperdível”. Ano passado, a Associação

dos Amigos da Cultura de Resende Costa (AMIRCO), em parceria com a Prefeitura Municipal, realizou na Pizzaria e Buteco da Maura o 1º Concurso de Marchinhas. O sucesso foi tanto, que o evento se repetirá no próximo dia 18, dando início à programação do Carnaval de Resende Costa. o grupo Mistura do Pagode agitou a noite de sexta-feira na Pizzaria e Buteco da Maura

Os casais Marcelo e Goreti, Toninho e Elisângela

Yara, Eliane Márcia, Elen e Talita

O público animado curtiu o Mistura do Pagode

Álvaro e Zezé

Aconteceu em Resende Costa o 2º Encontro de Folias de Reis No último dia 30, no Ginásio Poliesportivo Monsenhor Nelson de Resende Costa, aconteceu o 2º encontro de Folias de Reis. O evento teve início às 11h30 com almo-

ço na E. E. Assis Resende e foi encerrado às 18h30 com celebração de missa no próprio ginásio. No total participaram 11 grupos, sendo cinco do município de Resende

O encontro reuniu folias de diversos lugares do muni-

Costa. De acordo com Antônio dos Santos (Chá Preto), organizador da festividade, o evento foi possível devido ao esforço dos envolvidos e também ao apoio da Prefeitura

Tradição e religiosidade marcaram o Encontro de Folias

Foto e situação do mês O banco das fofocas

Barbacena, Rodrigo e Márcio

Lá estão eles, com os olhos atentos e a língua afiadíssima, passando a limpo tudo o que acontece na rua Gonçalves Pinto. O Banco das Fofocas, mais conhecido como BF, é o novo ponto de encontro na “Avenida”, onde as mais “quentes novidades” de Resende Costa são trocadas em miúdo e, claro, espalhadas.

Municipal. Ele só lamentou o fato de o público presente ter sido realmente pequeno. Apesar disso, o encontro foi fantástico e o JL parabeniza o esforço dos organizado-

A apresentação agradou ao público que compareceu ao encontro

res e as apresentações dos grupos de Folia.

Cultura popular e reverência aos santos

Viagem à Terra Santa

No fim de novembro do ano passado, Roberto Resende e sua filha Jane, na companhia de Januário Pinto e sua irmã Maria da Penha, viajaram à Terra Santa, dando início a uma peregrinação inesquecível. O roteiro programado iniciouse no extremo oriental do Mar Mediterrâneo, finalizando ao norte do Líbano, Síria e Jordânia. O grupo também visitou a região sul, o deserto do Sinai, Jerusalém, Belém e Tel Aviv, capital de Israel. Viajar pela Terra Santa significa também mergulhar numa experiência espiritual inigualável. Berço das três grandes religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), a região recebe anualmente milhares de turistas cristãos do mundo inteiro que desejam ver de perto o lugar onde há 2000 anos Jesus nasceu. Caminhar pelas vielas de pedra da antiga Jerusalém é o mesmo que andar pelos capítulos milenares da história e ouvir de suas páginas os ecos de um tempo que mudou para sempre os rumos da humanidade.


8 Jornal das Lajes A Teia do Mundo

JOSÉ ANTÔNIO*

Ovo podre Nunca duvidei de três coisas quanto ao Mário Márcio: ele é meu amigo, ele toca maravilhosamente o violão, ele é teimoso. Pois o meu teimoso violeiro amigo conseguiu desovar uma situação indigesta que quase arrebentou as cordas do seu intestino. Tudo por causa da teimosia. Estávamos em casa depois das aulas Marcos eu e o Mário. Era tarde e o Mário cismou de fritar um ovo. – Mário, já vai dar meianoite... – E daí? Ovo é ovo de dia e de noite. Além disso, não tem geladeira aqui e esse ovo está dando sopa há semanas. Se não for agora, é nunca mais. Não vou desperdiçar esse ovo. Tentei uma última ponderação: – Antes, vamos colocar o ovo numa panela com água. Se o ovo boiar, então ele está podre. O Marcos encheu uma caçarola e mergulhou o ovo. Ele voltou à tona rapidamente. A operação foi repetida e, mais uma vez, o ovo boiou. Marcos ainda achou ânimo para dar uma explicação da física quanto ao fenômeno do ovo boiativo... mas o Mário insistia em comer aquele ovo que tinha despencado da cloaca da galinha numa semana já perdida no tempo. – Mário, o ovo está até meio verde. – Tem ovo que é assim mesmo. Nem mesmo uma curetagem no zigoto convenceria o meu amigo. Em poucos minutos, o ovo estava frito. Cheirava bem e mal ao mesmo tempo. Mário comeu e ainda jogou catchup por cima.

Depois foi tocar violão. No dia seguinte, o destino deu um show de ironia e sadismo. Mário ganhou, no Assis Resende, um bolo que uma aluna fez especialmente para ele. O confeito foi levado para nossa casa depois das aulas. Porém, o Mário não conseguiu comer. Contorcia-se de dor, estava pálido, pontadas no abdômen... era o ovo podre! Nem queria olhar para o bolo. Marcos sugeriu que ele passasse catchup no bolo, quem sabe? O negócio foi parar no hospital. Com isso, Mário pegou um afastamento... um período mais ou menos igual ao que a galinha leva para chocar um ovo. Quando retornou, teve que conviver com aquela coisa de provar que focinho de porco não é tomada nem Tratado de Tordesilhas é tarado atrás das ilhas: a escola toda jurava que a menina do bolo era terrorista e a menina do bolo jurava que jamais pensou em matar o Mário. Meu amigo veio me procurar para saber como ele se sairia daquela. – Deixe pra lá, Mário. Se mexer com isso, não vai demorar e você terá uma granja só de ovo podre. O tempo passou. Um a um, fomos saindo de Resende Costa e seguindo outros rumos. Quanto a mim, jamais fiquei sabendo quem é a menina do bolo. Caso você esteja lendo essas linhas, menina do bolo, saiba que jamais teve culpa de coisa alguma. Foi tudo culpa do ovo podre. ... mas o Mário ainda insiste que a culpa foi do catchup.

__________________________________________________________________ *JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. e-mail: jresende@mgconecta.com.br

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO

Retalhos Literários

DE

2011 / RESENDE COSTA - MG EVALDO BALBINO

De animais e de gentes

Cravada em terra úmida, uma cruz parece falar em silêncio. Sem nome, acabou de ser batizada com um número, 305. Mais um entre centenas de outros que registraram as mortes neste janeiro de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro. Iniciamos o ano com tristes índices, que não se devem apenas a catástrofes naturais, mas que se relacionam ao crescimento desordenado de nossas metrópoles. As casas instáveis, à beira de barrancos e abismos, dizem das instabilidades humanas e, no caso, da vulnerabilidade econômica e social de muitas pessoas. Voltemos à cruz com seu número. Ao lado dela, pelo que vejo numa foto que está circulando pela mídia, um maior silêncio jaz, deitado, com os olhos perdidos sabe-se lá onde e com as patas plantadas na terra molhada. Chamaramno de Caramelo. É um cachorro bonito, vira-lata dos bons, rente à sepultura de Cristina M. C. Santana, supostamente sua dona, morta em consequência da catástrofe que atingiu Teresópolis. Caramelo já foi adotado por uma família que vive na Barra da Tijuca. Esse nome tem mesmo a ver com sua cara, com sua cor de um marrom inequívoco. O cão já está a salvo e o drama é passado, segundo afirmam alguns. Mas a fotografia ficou. Tanto que ela deu o que falar pela internet. Olhemos mais uma vez a fotografia. O silêncio do cão é mais rumoroso que o da cruz. Ela é de madeira, objeto sem vida sobre a morte. O cachorro é vida pura, silenciosa, velando a vida que não

deveria ter ido embora. Velar a morte inesperada, desnecessária como muitas mortes, e assisti-la em silêncio como faz o nosso quadrúpede, é um ato que substitui qualquer discurso de dor e qualquer palavrório político. O cachorro fala com seus olhos e com seu corpo deitado sobre a terra. Diz sobre saudade, tristeza, apego, amor. Não interessa que falem tratarse de um animal que não pertencia ao corpo da mulher ali inumada. Sabemos que é um cão, um ser velando a morte e lamentando a perda da vida. Somaram-se às especulações sobre a imagem alguns comentários que o colunista Michel Blanco, no dia 25 de janeiro, postou na internet, mostrando-se indignado, e com razão, pelas mortes e pelos desalojados no Rio de Janeiro. O comentador, entretanto, pagando um tributo à defesa do ser humano, achou por bem execrar o que ele chama de humanização excessiva dos animais. Fala de uma “atenção exagerada aos cães desabrigados pela tragédia”, zelo que toma a cena do que deveria estar no centro do palco: o fato de que “quase três mil crianças estavam sem casa só em Teresópolis”. Ecoando o lema “troque seu cachorro por uma criança pobre”, da canção Rock da cachorra de Leo Jaime, o autor denuncia o pouco valor que damos à infância, já que “a cachorrada chegou antes à condição de vítima”. Argumentando que “somos cada vez mais ridículos no trato com animais de estimação, elevados à condição de filho mimado”, o colunista alega que “humanizamos a relação com os bichos ao mesmo tempo em que é lugar comum da vida urbana queixar-se da deterioração de relações interpessoais”.

Cultura

Comuns entre as gentes, tais ideias não me assustam. Blanco, pelo visto, pensa enfaticamente nas relações entre pessoas, esquecendo que todos nós somos também animais. Por que insistimos tanto em olvidar esse fato? “Animalesco” é sinônimo de selvageria, vandalismo, estado regressivo no seio das evoluções. Assim caracterizamos a conduta de humanos em diversas situações: “aquele homem é um animal”, “sua atitude é animalesca”, e assim por diante. Agora, quando afirmamos “aquele cão age como gente, é educado, parece humano”, não estaríamos mitificando o comportamento humano? Não estou execrando os cuidados com os humanos e defendendo apenas cães, gatos e bois. Somos também animais, gados entre gados. Se nos julgamos mais preparados para entender a vida (suas vulnerabilidades físicas, psíquicas e espirituais), eis aí um motivo para endossarmos aquilo que chamamos de humanismo, humanidade ou seja lá o que for. Protejamo-nos uns aos outros, mas também amemos as outras vidas que comungam conosco as felicidades e as adversidades da existência. Todos nós animais possuímos coração e sentimento, temos dor biológica e psíquica. Existindo como todos nós, os amigos animais podem também provar que somos bons. Afinal, como afirmou o filósofo Arthur Schopenhauer, “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.

RENATO RUAS PINTO

O prazer de ouvir um disco

Certo dia lembrava com amigos como era ouvir um disco nos tempos do vinil. Não era fácil e era um trabalhão: tira da capa, coloca no toca-discos, posiciona a agulha. E depois de ouvir um lado, vira o disco e ouve o outro. Não vou dar uma de saudosista e louvar o “bolachão”, o chiado, as capas e tudo mais – apesar de que o formato CD empobreceu a capa do Sergeant Pepper’s ou o encarte do Álbum Branco dos Beatles. Gosto de CD e de mp3 pela praticidade e facilidade de ouvir o que quero e onde quero. Porém, há pouco tempo percebi que justamente essa praticidade matou um dos grandes prazeres da música. Explico, voltando aos passos acima: capa, tocadiscos, agulha e vira o disco. E o prazer está justamente em ouvir o disco inteiro. É quando você entende a unidade do álbum, reflexo de um momento e época pela qual passava o artista ou banda. Os grandes álbuns foram especiais não só pelas grandes músicas, mas pela coesão das mesmas, pela história contada e por catalisar momentos, experiências e transformações. Há pouco tempo ganhei o livro “1001 Discos para ouvir antes de morrer” e, passeando pelas resenhas, comecei a me

tocar do quão mais interessante é ouvir um disco inteiro, na sequência, do que somente ouvir coletâneas ou montes de mp3 do mesmo artista. Listo alguns desses álbuns que estou aos poucos resgatando: - Rolling Stones: Exile on Main Street. - Crosby, Still, Nash & Young: Déjà Vu. - Eric Clapton: Layla. - Bob Dylan: The Freewhellin’ Bob Dylan. - Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina. - Marisa Monte: Mais. - Chico Buarque: Meus Caros Amigos - Miles Davis: Kind Of Blue

E a lista vai longe. O mp3 simplificou muito as coisas: você leva no celular ou no player, copia em segundos (lembra como era gravar as fitas cassete?) e, principalmente, facilita o acesso a álbuns fora de catálogo, especialmente nesse nosso Brasil onde é muito difícil e caro conseguir determinados títulos. Porém, essa facilidade é perigosa quando banaliza as coisas. Chega aquele seu amigo lhe dizendo que tem no pen drive todos os discos do Led Zepellin ou do The Who. Você na hora copia tudo e vai juntando vários

“gigas” de música que talvez nem venha a ouvir. Uma boa chance para resgatar esse prazer de explorar um disco são as coleções há pouco lançadas nas bancas de grandes clássicos brasileiros. Tenho visto também promoções de obras de grandes nomes como Legião Urbana, Marisa Monte e Led Zepellin relançados a preços acessíveis, provavelmente numa tentativa de combater a pirataria. Que tal aproveitar? Nos tempos atuais do sucesso – e esquecimento – instantâneo, a sensação que se tem é de que a criatividade – ou a vontade das gravadoras de incentivá-la – anda em baixa. Afinal, artistas que mal lançaram um álbum de estúdio já estão lançando o “ao vivo” ou “acústico” com quase as mesmas músicas e pouca renovação. Mais do mesmo. Então, gastar um tempo ouvindo aqueles considerados álbuns históricos é poder desfrutar de um momento onde a inventividade e o gênio humano foram iluminados e deixaram um legado capaz de resistir ao tempo. Por fim, recomendo também a divertida leitura do “1001 Discos...” pois desperta a vontade de ir atrás desses álbuns clássicos e que não o são sem motivo.


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ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

ARCOSTA

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GERALDO AIRES

ARCOSTA elege nova diretoria

Em assembléia realizada no último dia 15 de janeiro, a Associação dos Pequenos Produtores e Trabalhadores Rurais de Resende Costa (ARCOSTA) elegeu sua nova diretoria para o próximo biênio 2011/2012. Reunidos no Centro de Pastoral Paroquial (CPP), os associados presentes reafirmaram a necessidade da organização dos produtores e trabalhadores rurais como forma de garantir melhorias nas condições de vida de toda a comunidade do meio rural. Na reunião, conduzida pelo então presidente, Adélio Mariano, e que contou com a presença do Prefeito Municipal, Adilson Resende, os associados também relembraram ações do passado

e sugeriram ações futuras, salientando a necessidade de fortalecer a união e a solidariedade entre os membros. Em seu pronunciamento o Prefeito Municipal ratificou o apoio da atual administração à entidade, que há anos defende os interesses dos produtores e trabalhadores rurais do município. O presidente Adélio despediu-se do cargo, agradecendo todo o apoio recebido durante sua gestão à frente da entidade. Em entrevista ao JL destacou que o seu trabalho, realizado durante o 2009/2010, teve por fim maior garantir aos associados e seus familiares melhores benefícios. “Apesar das inúmeras dificuldades que encontramos durante

minha gestão, lembro que diversos projetos em prol de todos que estão diretamente ligados ao meio rural foram realizados e concretizados em benefícios. Aproveito a oportunidade para manifestar minha gratidão a todos que depositaram em minha pessoa essa importante missão de gerenciar uma das mais importantes associações de produtores da região”, disse emocionado. Após os pronunciamentos e em segunda convocação, a chapa única inscrita para concorrer foi eleita, por aclamação, com o aval de todos os presentes. Assim ficou constituída a nova diretoria: Presidente: José Gouveia Filho

Carnaval 2011

EMANUELLE RIBEIRO

Cabeção 2011

“Há uma equipe de foliões voluntários arregaçando as mangas e elaborando fantasias, alegorias e alas” (Fernando Chaves). O Bloco do Cabeção chega em 2011 à sua 14ª edição e, com o trabalho duro dos envolvidos, promete ser contagiante. Emerson Gonzaga, Fernando Chaves, Robson Assis e companhia vêm se esforçando bastante para que tudo saia da forma planejada no Cabeção do próximo carnaval. O evento, que há um bom tempo faz parte do carnaval resende-costense, tem como principal objetivo proporcionar alegria e entretenimento aos foliões. Entretanto, como explica Fernando Chaves, é também perceptível a busca pela identidade e cultura local. Segundo ele, “em várias edições, houve um esforço no sentido de promover a cultura da cidade. Isso aconteceu, por exemplo, com a homenagem ao carnavalesco Antônio Resende, numa das edições passadas e com o tema ligado ao Rio Santo Antônio, na edição 2010 do bloco”. Como na edição do ano anterior, para 2011 também foi gravada uma marchinha-tema para o bloco, que já está disponível na comunidade do Cabeção no site de relacionamentos Orkut. De acordo com Fernando, “o Wander Morais, músico da terra, tem sido o maior responsável por essa novidade que vem conferindo ao bloco um caráter ainda mais cultural”. Ainda segundo Fernando Chaves,

“este ano as intenções do bloco são as mesmas: proporcionar alegria e valorizar a cultura. A edição 2011 terá como tema o circo e homenageará um carnavalesco folclórico de Resende Costa. O nome do carnavalesco ainda não pode ser divulgado, é uma surpresa”. Fernando conta também que este ano está sendo possível organizar o bloco com mais antecedência. Conforme suas informações, o grupo de coordenação da edição 2011 tem procurado descentralizar melhor a organização do evento e o bloco deverá ser realizado com recursos da prefeitura municipal, além de ser coordenado pelo IRIS (Instituto Rio Santo Antônio), com o apoio do MAC (Movimento Arena Cultural) e da AMARC (Associação dos Músicos Amadores de Resende Costa). Além disso, a equipe está convidando pessoas que já organizaram alguma edição passada do bloco para contribuir da forma que puderem: “há uma equipe de foliões voluntários arregaçando as mangas e elaborando fantasias, alegorias e alas. O envolvimento das pessoas tem criado as melhores expectativas com relação a esta edição”. Fernando esclarece que qualquer pessoa pode participar do Bloco do Cabeção: “o Cabeção é um bloco, não um desfile. Embora seja de costume

incorporar um tema, o bloco não tem como objetivo maior realizar um desfile ensaiado. Não somos uma escola de samba. Nossa fórmula busca proporcionar entretenimento e não realizar um desfile impecável. Essa é a diferença entre um bloco e uma escola de samba. O bloco está aberto a todos os foliões. Todos podem participar, sem depender de inscrições ou de compra de camisas. Basta vestir sua fantasia e cair na folia”. O Cabeção este ano traz uma boa novidade: “estamos investindo mais na concentração, que será na tradicional esquina do Zé Padeiro, provavelmente a partir das 15h00. Como no ano passado, é provável que ocorra uma apresentação musical antes da saída do bloco. Vai valer a pena chegar um pouco mais cedo, temos algumas surpresas sendo preparadas para a concentração”, explica Fernando. A organização está sendo preparada com dedicação e cuidado. Resta a nós conferir o resultado no dia 7 de março, data em que o Bloco do Cabeção sairá às ruas e pelo que tudo indica, veremos um show de criatividade. Você pode conferir a letra da marchinha-tema em 2011, O Circo do Cabeção, na página do JL na internet: www.jornaldaslajes.com.br.

1º Vice: Benoni José de Lima 2º Vice: Cristian José Melo Coelho Tesoureiro: José Humberto de Resende Vice: Adélio Mariano Sobrinho Secretário: Marcos José Ferreira Vice: Gilberto José Pinto Diretor de Promoção Social: José do Socorro Vice: José Ivan de Assis Diretor de Patrimônio: Domingos Sávio Pinto Vice: Cláudio Roberto Resende Conselho Fiscal: Murton Carvalho Moreira, Iremar Basílio do Carmo, José Dimas de Resende Suplentes: Pedro Pio de Resende, José Vitor de Resende, Maurício de Sousa

Chaves O presidente eleito, José Gouveia Filho, o Zinho Gouveia, como é conhecido, agradeceu o apoio recebido e ressaltou que seu trabalho à frente da ARCOSTA terá como exemplo as administrações anteriores. “Vamos conduzir os destinos da entidade dentro dos moldes de todas as diretorias que nos sucederam, visando principalmente ao engrandecimento do produtor e do trabalhador rural. Com muita luta, trabalho, união e o indispensável apoio do Poder Público, teremos sempre uma ARCOSTA forte e que produzirá grandes resultados para seus associados”, destacou Zinho.

Carnaval 2011 com novidades

Dentro de alguns dias terá início o carnaval 2011 e, em Resende Costa, está praticamente tudo organizado para que o evento seja um sucesso. Segundo José Márcio, um dos planejadores da festa, os grupos que participarão do evento já estão com seus orçamentos, cronogramas e temas trabalhados e definidos: “quanto à organização, os foliões podem ficar tranquilos, porque diversos itens e todos os detalhes estão sendo discutidos para que tudo saia da melhor maneira. Os itens principais já estão sendo trabalhados e decididos para não faltar alegria, qualidade e animação”. Em Resende Costa, a festividade tem início oito dias antes com o carnaval antecipado. Em 2011, a concentração para os blocos terá início às 18h00 e a saída está marcada para acontecer por volta das 19h00 da tradicional Praça do Rosário. “A organização para o Pré-Carnaval permanece como nos anos anteriores: concentração no Rosário e animação e condução por conta dos ritmistas da bateria do Rifugo, sob o comando de Márcio Fernandes (Chiano) e da Banda Furiosa, coordenada pelos músicos resende-costenses Marcos, Josep, Alessandro, Bruno, João Tomaz e demais”, informou José Márcio. E também há novidades no Carnaval 2011 em Resende Costa. Surgem novos blocos com desfiles marcados para o sábado, 5 de março: às 17h00 haverá concentração nas Lajes de Cima, às 18h00 saída do Bloco do Sabão em Pó dos bairros São José e Santo Antônio em direção aos Quatro Cantos e às 19h00 saída do bloco para desfile. Além disso, aconteceu no dia 13 de fevereiro a Tarde de Samba - Grito de Carnaval, agito promovido pela ARNOVA. No próximo dia 18, os foliões podem acompanhar o II Concurso de Marchinhas (promovido pela AMIRCO) na Pizzaria e Buteco da Maura a partir das 21h00. Haverá ainda, durante a programação, de acordo com José Márcio, desfile e apresentação da

bateria e Escola Acadêmicos Vila Nova e coroação da rainha e madrinha de bateria do carnaval. Conforme explicou José Márcio, a organização ainda proporcionará aos foliões maior conforto, com a implantação de banheiros públicos gratuitos e tranquilidade, com as câmeras de segurança espalhadas no espaço do evento como no ano passado. Haverá ainda segurança particular nos dias oficiais, além de reforço no policiamento, que foi solicitado à PM. “Acredito que com todo o coquetel de programação e número de decisões tomadas pela administração, o Carnaval 2011 tem tudo para ser excelente, repetindo alguns sucessos de anos anteriores com tranquilidade, diversão gratuita, gente bonita e animada, criatividade, novidades e muitos visitantes, gente que escolhe Resende Costa para se divertir durante os dias de folia carnavalesca”. A programação segue praticamente no mesmo formato dos anos anteriores: matinê musical a partir das 14h00 e sonorização das 20h30 às 4h00 do dia 5 ao dia 8 de março. O Bloco dos Palhacinhos sai às ruas no domingo, 6, às 15h00 e logo depois haverá apresentação do Grupo Cultural e de Percussão Malungos, da cidade de Prados. Ainda no domingo acontecerá o desfile do Grupo Malungos às 21h00 e em seguida desfile da Escola Acadêmicos Vila Nova. Na Segunda-Feira, 7, as crianças poderão curtir o desfile de blocos mirins a partir das 15h00 e também na parte da tarde haverá concentração para o Bloco do Cabeção, com desfile marcado para as 23h00. Enfim, tudo está pronto pra ser colocado em prática e todos esperam ansiosos pelo Carnaval 2011, um dos eventos culturais mais importantes de Resende Costa, torcendo para que tudo dê certo e, como disse José Márcio, “chuva, só de confete e serpentina”. (E.R.)


10 Jornal das Lajes Causos & Cousas

Estou plagiando o título do famoso filme épico de 1956, de George Stevens, com Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean, premiado com o 29º. Oscar. Plagio também o conteúdo da crônica do Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo de 28 de janeiro passado, sob o mesmo título do filme “Assim caminha a humanidade”. As grandes invenções tecnológicas do século passado mudaram completamente a vida dos humanos. Uma das mais importantes delas talvez tenha sido na área da comunicação. Comunicação no seu sentido mais amplo: deslocamento das pessoas e processamento de informações. A primeira já teve início em fins do século 19 (ferrovias) e início do 20 (automóvel e avião). A outra começou a partir da segunda metade do século passado: o desenvolvimento da eletro-eletrônica, que teve como resultados a telefonia, a informática, a internet, os avanços na área de diagnóstico médico, entre outros. O conjunto dessas inovações possibilitou a criação da chamada era

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG ROSALVO PINTO

Assim caminha a minha cidade

da “globalização”. A tecnologia aproximou as pessoas do mundo. Terá mesmo aproximado? Que tipo de aproximação? Resende Costa, obviamente, vem caminhando juntamente com a humanidade. Por muito tempo foi uma cidade pacata, tranquila e acolhedora, mesmo sem luz e sem água encanada. E nela se vivia feliz. Até as três primeiras décadas do século passado a cidade não tinha energia elétrica e água encanada. Vivia-se com lampiões, velas, lamparinas e “latas d’água na cabeça”. Não havia carros. Na década de 40 começa, tímida e precariamente, a aparecer a luz elétrica e a água encanada. Um ou outro carro. Vivia-se uma vida de maior harmonia. Prevalecia a convivência, todos se conheciam. Luz e água só se consolidaram, razoavelmente, a partir dos anos 60. Caminhamos: hoje, ao que tudo indica, todas as casas da cidade estão ligadas à luz e à água. Salvo engano, até na zona rural todos têm acesso à energia elétrica. Isso significa que a cidade se abriu para o mundo moderno: automóveis, telefone (fixo e

móvel), televisão, internet etc. Entretanto, a cidade cresceu, recebeu imigrantes, as pessoas não mais se conhecem e se frequentam como antes, prevalece o individualismo. Até meados do século passado nem se falava em assaltos e latrocínios. O índice de criminalidade era baixo, resultado de uma ou outra desavença. As portas das casas eram abertas de manhãzinha e fechadas somente de noite. As portas abertas se transformaram em grades, cadeados, cercas do tipo “campo de concentração”. Não havia atropelamentos: ruas e praças eram para as crianças brincarem. Hoje já temos um trânsito complicado, atropelamentos. O primeiro semáforo pode ser, infelizmente, considerado por muitos como um progresso. Na verdade, estamos cada vez mais prisioneiros de nossa modernidade e pagando caro pela perda de nossa liberdade e tranquilidade. Até a década de 50 a comunidade resende-costense vivia ao redor e em função da Igreja Católica. O calendário da cidade era o calendário da Igreja. Não havia

carnaval, substituído por retiros espirituais. Hoje tudo mudou: temos muitas outras formas de manifestação religiosa ou espiritual. Aqui não se trata de avanços ou regressos. A cidade cresceu e, com ela, a liberdade religiosa, antes praticamente coibida. Até os anos 50 já tivemos manifestações artísticas que hoje não mais temos: o teatro, o cinema, a orquestra. Atividades produzidas e cultivadas aqui, com grande esforço e dedicação. Louva-se o empenho da juventude, que ainda mantém acesa a chama da música na cidade, da banda de música às bandas de rock e outros gêneros. Pena que vivemos a era do importado e do mecanizado. Até o Grupo de Serestas sumiu. Curiosamente, os bailes de antigamente, restrito aos adultos, foram hoje substituídos pelo som alto das danceterias e baladas da juventude, seguidas, nas madrugadas, da algazarra de rua de seus frequentadores. Foise a tranquilidade das noites dos fins de semana. Antigamente, à noite as pessoas se visitavam, assentavamse nos passeios para conversar,

Crônicas do Cotidiano

batiam uma prosa nas janelas, passeavam na avenida. Hoje, mal escurece, todos se fecham dentro de casa para assistir às novelas das brigas e assassinatos, das traições, da futilidade e da banalização do sexo. Horários sagrados, até para assistir a barbaridades escrachadas, como o tal de BBB e outros. Assim caminha a humanidade. Para melhor? Para pior? Sei lá, mas aposto na segunda hipótese. E justifico. Nosso planeta caminha a largos passos para sua autodestruição. Não é preciso provas. Basta olhar ao redor e ouvir as notícias do resto do mundo. Quem, por crenças religiosas, acredita no fim dos tempos, pode ir se preparando, que ele vem mesmo, mas provocado pelo próprio homem. Como se não bastasse, com o capitalismo selvagem, agora globalizado, o humano torna-se cada vez mais individualista, egoísta e violento. Triste, mas simples e indiscutível realidade. Assim caminha a nossa cidade ...

RAFAEL CHAVES

Ensinando Padre Nosso ao vigário Outro dia eu circulava de carro por Resende Costa, lá pelos lados do bairro Bela Vista, quando ouvi um estalo no vidro do carro. Era um menino de uns 8 a 10 anos (tenho dificuldades para adivinhar a idade dos outros) que havia jogado uma pedra ou, segundo ele, outro objeto de que não me recordo o nome agora. Eu parei instantaneamente o carro, enquanto via, pelo retrovisor, o guri correndo tentando escapulir, e fui ao seu encalço. Acredito que eu estava com uma cara de poucos amigos, daquelas de fazer medo em assombração. Interceptei o moleque pensando em lhe dar um corretivo, quiçá uns safanões na cabeça ou uns panázios no traseiro. Acontece que sua tia – eu acho que era sua tia – e outros vizinhos logo acudiram ao local e o máximo que eu pude fazer

foi esbravejar um pito, um ralho para o moleque. E ouvir o “num pode fazer isso não!” da tia. Recurso eu não tive senão voltar ao carro enquanto o menino, meio ciente da sua impunidade, também retornava para as suas atividades junto aos outros que lhe faziam companhia, ali mesmo na rua. Coincidentemente, naquela mesma semana, eu recebi um desses e-mails que circulam aí pela rede, cujo título é “Psicologia 1959 x 2010”, contando a seguinte fábula, entre outras: “Cenário: Luís quebra o farol de um carro no seu bairro. Em 1959: Seu pai tira a cinta e lhe aplica umas sonoras bordoadas no traseiro. A Luís nem lhe passa pela cabeça fazer outra “cagada” dessa. Cresce normalmente, vai à universidade e se transforma num profissional de sucesso. Em 2010: Seu pai tira

a cinta e lhe aplica umas sonoras bordoadas no traseiro. Prendem o pai de Luís por maus tratos e o condenam a cinco anos de reclusão e a abster-se de ter com o filho. Luis conhece uma turma de drogados e se vicia. Comete pequenos furtos sucessivos até ser levado a um presídio especial para adolescentes”. Minha filha confessou-me, já depois dos seus vinte e poucos anos, que eu era um pai muito bravo. Engraçado porque eu jamais me senti assim e foi uma surpresa saber dela essa impressão que tinha de mim. Na verdade, a gente não se lembra do que fez ou deixou de fazer na educação de nossos filhos. Pais, em geral, querem acertar, querem o melhor para os filhos. Não quero ser egocêntrico ou dono da verdade, mas hoje, olhando minha filha e os cami-

nhos que escolhe – que as escolhas agora são dela – eu penso que a parte que me coube nesse processo de formação da pessoa humana que ela é foi bem sucedida. Quando somos crianças e adolescentes, havemos de ter muitas desavenças com nossos pais. Sempre houve um descompasso entre os interesses dos filhos e as permissões dos pais. Embora os interesses mudem, conforme a época ou tecnologia ou o que seja, o choque entre gerações é inevitável. Nesse aspecto, não há diferença entre 1959 ou 2011. O que é certo é que, diante de um fato reprovável feito por um filho qualquer, os pais podem ter as mais diferentes reações, desde a mais condescendente até a mais opressiva. Pois eu acredito que a mais perniciosa ao

ser humano é a da impunidade. Assim como as boas ações devem ser reforçadas, elogiadas e premiadas, as más ações devem ser reprimidas, desaprovadas e castigadas. E o menino, o menino que atirou a pedra no vidro do carro? Não sei. O que ele fez pode ter sido um fato isolado e nada se pode inferir daquele ato instantâneo. Ele sabia que tinha feito algo errado, senão não teria tentado fugir. Nem me recordo mais do seu semblante, exceto do seu olhar de espanto que me lançou quando eu me retirava da cena, enquanto ele já se punha a brincar. Resta saber se ele vai atirar novamente uma pedra em algum outro veículo. Se isso acontecer, com certeza ele não captou a lição daquele seu ato. E quem sou eu para ensinar padre nosso ao vigário?


Jornal das Lajes

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

Contemplando as Palavras

Muita gente deve ter visto veiculada em nossa mídia a bela peça publicitária da Nestlé a propósito dos seus 90 anos no Brasil. Na telinha, as imagens mostradas são mesmo um show de beleza. A escolha de “Emoções”, como trilha sonora, uma das músicas mais marcantes de Roberto Carlos, não poderia ser mais feliz. No embalo da voz do Rei, artista símbolo do país, emoção brasileira é, de fato, o que não falta ao comercial, entremeado de cenas do cotidiano e importantes momentos históricos ligados ao Brasil. Ponto para o reconhecido talento da propaganda brasileira! Ponto para a Nestlé! Paralelamente às comemorações nacionais, Minas Gerais recebe um conjunto de ações desenvolvido pela empresa suíça com exclusividade para os mineiros. Com o tema “A cozinha está no coração dos mineiros e é na cozinha que a gente se encontra”, a campanha em curso faz uma verdadeira homenagem à cultura de Minas. Tamanha consideração ao nosso estado se deve, provavelmente, ao fato de Minas Gerais ser um dos principais polos de captação de leite para a Nestlé no Brasil. Sabe-se também que a região está entre as maiores exportadoras de café para a empresa no mundo. E mais, ela opera no solo mineiro com cinco fábricas instaladas em Ibiá, Ituiutaba, Montes

Claros (onde é fabricado o tradicionalíssimo Leite Moça), Teófilo Otoni e São Lourenço. “A conversa ainda não chegou na cozinha” diz a sabedoria popular, mas é lá que eu quero chegar. A história já comprovou a importância desse local da casa no dia a dia das pessoas, dos mineiros, principalmente. Nesse lugar de cores quentes, de temperos, de cheiros e sabores acontecem as prosas e as reuniões de família em torno do fogão e da culinária. Ah, as velhas cozinhas de Minas, com seus fogões de lenha, cascas de laranja secas penduradas para acender o fogo, bule de café sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro da fumaça, rostos vermelhos. Colheres de pau, xícaras esmaltadas, coador de pano, panelas de pedra (e de ferro) e a garantia de uma refeição pra lá de gostosa. Do lado de fora da casa, sobre o telhado, a imponente chaminé soltando fumaça, sinal de vida, de lida com o fogão de lenha. Segundo o escritor Rubem Alves (tinha que ser mineiro), “quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma”. E continua “nas Minas Gerais onde nasci o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as crianças se comportavam bem (...). Na

Comunicado APAE

REGINA COELHO

Da cozinha lá de casa cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria”. São belas e verdadeiras as palavras do nosso mineiro de Boa Esperança. Cozinha é intimidade, lugar onde a gente recebe só os mais amigos, a família se confraterniza e a conversa costuma não ter hora para acabar. Dispensável dizer que tudo isso acontece ao redor da mesa de jantar, seja ela farta ou modesta, quase sempre o ponto onde convergem os mais variados assuntos. Quase porque às vezes a prosa acontece em volta do próprio fogão. Até um tempo atrás, a cozinha era separada das outras partes da casa, onde era comum existir também a despensa, um cômodo anexo que abrigava o sortimento a ser usado nas refeições. Atualmente, a integração da cozinha com a sala de jantar ou mesmo de estar é uma tendência. A gastronomia ganha cada vez mais status entre os apreciadores da boa mesa. E eis que surgem os espaços gourmet, ou melhor, são assim batizadas as cozinhas de hoje. Quanta mudança! Forno para fazer pizza, micro ondas, churrasqueira, fogão de lenha (tem que ser bonito), coifa, cooktop (novidade no setor de fogões), cafeteira, panelas e facas elétricas. E uma infinidade de utensílios feitos de cobre, de inox e até de silicone. Isso tudo e muito mais a serviço dos que praticam a arte culinária por obrigação pessoal ou profissional e (por que não?) por diversão. Seja lá como for, tradicional ou mo-

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(Janeiro de 2011)

A Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de Resende Costa (APAE) comunica a todas as pessoas que compraram os bilhetes da Campanha APAE NOEL/2010 o resultado do sorteio pela loteria federal, no dia 12 de janeiro passado, conforme relação abaixo:

Prêmios 1º 2º 3º 4º 5º

Prendas uma S 10 + moto zero km uma moto zero km uma moto zero km uma TV LCD 42 um notebook

Bilhetes sorteados

APAE contemplada

611.845

Jaraguá do Sul – SC

845.981

Santa Luzia - MG

981.138

Itapira – SP

138.063

Congonhas – MG

063.611

Federação do Estado do Tocantins

Número da Extração da Loteria Federal – 04518, do dia 12 de janeiro de 2011. Renda: R$ 2.500,00. Valor pago à Federação: R$ 996,12. Renda líquida: R$ 1.503,88 (renda líquida empregada no pagamento do 13º salário aos funcionários). Agradecemos, mais uma vez, a todas as pessoas que nos ajudaram no ano de 2010 e esperamos poder contar com a ajuda de todos em 2011. Que Deus abençoe a todos! Inácia Maria de Resende Moreira Presidente da APAE derna, simples ou sofisticada, fato é que “a cozinha está no coração dos mineiros e é na cozinha que a gente se encontra”. Aliás, ela é o próprio coração da casa. A

Turismo

propósito, não é sem razão que afirmamos ser um amigo muito próximo de nós da cozinha lá de casa.

ELAINE A. MARTINS

Sete municípios da região recebem recursos do ICMS Turístico em 2011

Com políticas e ações voltadas para o turismo, 44 municípios mineiros foram habilitados a receber recursos da cota-parte do ICMS Turístico, para o exercício 2011. Da região do Campo das Vertentes, da qual faz parte o Circuito Turístico Trilha dos Inconfidentes, 7 municípios integram essa lista. O resultado definitivo do índice de investimento em turismo dos municípios, cujas ações realizadas no ano de 2009 foram avaliadas por uma comissão técnica da Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais (SETUR), saiu no final de dezembro. Além de Conceição da Barra de Minas, Coronel Xavier Chaves, Lagoa Dourada e São Tiago, já habilitados pela primeira avaliação, outros 3 dos 4 que haviam entrado com recurso, Alfredo Vasconcelos, Antônio Carlos e Dores de Campos, também foram contemplados. Tiradentes não conseguiu convencer a comissão e ficou de fora. Sem uma política municipal de turismo, um conselho e um fundo municipais de

turismo até 2010, Resende Costa também ficou de fora da lista dos contemplados com o repasse. Para o atual presidente da Câmara Municipal, Luís Cláudio dos Reis, isso se deveu à morosidade da preparação dos documentos e das ações. “Reuniões foram feitas em todos os municípios, quando os gestores do Circuito Trilha dos Inconfidentes e a equipe da Empresa de Consultoria em Turismo (Projetu), empresa que prestou assessoria durante o ano passado, passaram todas as dicas. Quem acreditou e levou a sério já vai receber esse ano o repasse”, completou. Os municípios mineiros beneficiados já receberam no mês de janeiro o total de R$ 342 mil. O valor do repasse é calculado pela Fundação João Pinheiro (FJP) com base na arrecadação semanal do Estado e efetuado toda terça-feira pela Secretaria de Estado da Fazenda (SEF). De acordo com o secretário de Estado de Turismo, Agostinho Patrus Filho, a expectativa é que sejam destinados, até o final de 2011, aproxima-

damente R$ 7 milhões para os repasses.

Reconhecimento e incentivo - A Lei do ICMS Turístico (18.030/2009) permite às administrações municipais uma suplementação financeira, visando ao reconhecimento, incentivo e pleno desenvolvimento do setor turístico. Há cerca de um ano antes dessa lei ser sancionada, o Circuito Trilha dos Inconfidentes iniciou um intensivo trabalho, assessorando e capacitando os gestores municipais de turismo para que os municípios do circuito atendessem aos critérios obrigatórios para o repasse. A habilitação de 7 dos 20 municípios integrantes do circuito é avaliada como extremamente satisfatória por sua gestora, Mariana Resende. “Conseguimos a criação dos conselhos municipais de turismo em quase 80% dos municípios e o aumento do número de municípios da Trilha recebendo o repasse é só questão de tempo, pois o trabalho que vem sendo desenvolvido é de base. Estamos repassando conhecimento

para que esse repasse seja perene, para que os nossos municípios possam contar com essa verba todos os anos e, para tanto, é preciso que seja feito de fato um trabalho de muita articulação e persistência. Para este próximo ano, acreditamos que esse número possa dobrar”, disse. Nova habilitação - Até o dia 15 de abril de 2011, a SETUR receberá as do-

cumentações iniciais dos municípios interessados em obter o benefício referente ao ano base de 2011. Os requisitos mínimos para habilitação do município são: participar de uma associação de circuito turístico, ter elaborada e em implementação uma política municipal de turismo e possuir um conselho e um fundo municipais de turismo constituídos e em funcionamento. Crédito: C. T. Trilha dos Inconfidentes

Os secretários de turismo, Fúlvio (São Tiago), Elias (Conceição da Barra de Minas), Sebastião (Coronel Xavier Chaves) e Josias (Lagoa Dourada), comemoram a habilitação de seus municípios já na primeira avaliação.


12 Jornal das Lajes

ANO VII Nº 94 - FEVEREIRO DE 2011 / RESENDE COSTA - MG

Homenagens

Homenagem ao padre Antenor Pinto de Resende

*JANE RESENDE

No dia 14 de janeiro de 2011 o céu ficou mais feliz, pois aconteceu o regresso de um filho muito querido. Acreditamos que foi recebido com muita luz pela corte celeste. Pe. Antenor foi um homem que verdadeiramente renunciou a uma vida de luxo e de regalias. Nunca teve além do necessário para sobreviver. Sua bagagem se resumia em duas malinhas antigas. Jamais teve uma propriedade, embora tenha herdado de seus pais, tudo doou em favor dos pobres e sua congregação. Ainda criança, lá na Fazenda Catimbau, não demonstrava muito interesse nos afazeres do campo, achando mais interessante fazer sermões para os bezerros e vacas. Todos achavam graça, pois era uma criança brincando de missionário. O tempo foi passando e Antenor se destacou na arte da leitura e escrita, para não falar na fé. Foi mandado para o seminário com onze anos de idade. Nunca demonstrou dúvidas quanto a sua vocação. Mesmo seminarista, era recebido por seus pais com festa e honras de padre. O Sr. Sanico do Catimbau e dona Lifonsina não cabiam em si, de tanta alegria e todos da família sentiam o mesmo. Sua ordenação foi um tempo de festa. Todos se mobilizaram por ela, tornando-a harmoniosa. Durante todos os anos seguintes Pe .Antenor esteve trabalhando em vários lugares. Segundo informações que tivemos, ele jamais demonstrou qualquer

tipo de recusa em ir para um lugar ou outro e, sempre obediente a seus superiores, se destacou pelo alto grau de humildade e obediência. Trabalhou como missionário em lugares onde a religião não era bem vista e conseguiu colher bons frutos para a Pai. Todos os anos, escolhia um mês que não fosse muito chuvoso para visitar seus pais, irmãos, parentes e amigos. Isso era sagrado. Mandava um roteiro por escrito e solicitava aprovação. Assim, já vinha com tudo programado e planejado, não gostava de pegar ninguém de surpresa. Era um período de festas na família. Geralmente chegava ao Catimbau, visitava seus pais, irmãos, depois ia ao Ribeirão, Pintos, Cajuru, Jacarandira, a todos os lugares onde tinha parentes e amigos, os quais fazia questão de estar visitando. Era sempre muito bem acolhido por todos. Padre de missa diária, não deixava passar um dia sem celebrar. Nas capelas ou nas casas, as pessoas se reuniam para rezar. Receber um padre tão querido e bondoso passou a ser uma honra para as pessoas. Aqui, em Resende Costa, fazia questão de visitar o asilo, o hospital, as pessoas doentes que estavam passando por dificuldades e amigos. Quando alguém da família falecia, ele deixava tudo e vinha fazer sua última homenagem. Quantas vezes consolou a tantos, explicando como era o retorno à casa do Pai. Naquela manhã, recebemos a notícia

de que sua alma foi para Deus e que seu corpo deveria retornar a sua terra natal. Choramos e, com os corações apertados, fomos buscá-lo lá no trevo. Caiu uma chuva fortíssima, parecendo competir com nossas lágrimas. Foi um momento especial: a volta a sua terra de um filho que tanto trabalhou em benefício do reino de Deus. Agradecemos a todos pelo apoio. À Congregação de São Vicente de Paulo, ao Coral, a banda santa Cecília, ao padre Geraldo e demais padres que compareceram, aos parentes e amigos que vieram de longe e de perto para prestarem a última homenagem. Enfim queremos dizer a todos: Deus levou padre Antenor para o Céu, mas não nos desampara nunca, de lá ele continuará rezando e intercedendo por nós. __________________ *Jane Resende, filha do Roberto do Catimbau, é sobrinha do padre

Pe. Francisco David Resende

ROSALVO PINTO

Resende Costa se despediu de um de seus filhos religioso salesiano e sacerdote, no dia 15 de janeiro passado, o Pe. Francisco David Resende. Aos 86 anos ele havia falecido no dia anterior, em Belo Horizonte. O menino Francisco David Resende nasceu no dia quatro de maio de 1925, filho do casal Waldemir da Silva Resende, mais conhecido como Sr. Lulu e dona Maria José de Resende, conhecida como Maria José do Sr. Lulu. Entrou ainda menino no seminá-

rio menor (aspirantado) dos salesianos de Dom Bosco em Lavrinhas, SP. Fez o noviciado (período preparatório de um ano para entrada na ordem religiosa) em 1944, em Pindamonhangaba, SP. No dia 31 de janeiro de 1945, dia de São João Bosco, ele passou a fazer parte definitivamente da família salesiana, ao fazer sua primeira profissão religiosa. Cumpridos os três anos de estudos filosóficos em Lorena, SP e outros três de tirocínio (como educador e professor), ele passou para o Instituto Pio XI, no bairro da Lapa,

em São Paulo, onde cursou os últimos quatro anos de sua formação, a teologia. Sua ordenação sacerdotal se deu no dia oito de dezembro de 1954 e, dias depois, celebrou sua primeira missa (chamada “missa nova”) em Resende Costa. Como sacerdote salesiano exemplar, trabalhou toda sua vida nos colégios e nas obras salesianas pertencentes à Inspetoria (Província) de São João Bosco, cuja sede atual está em Belo Horizonte. Sempre muito ligado à sua terra, todos os anos gostava de

Turismo

EMANUELLE RIBEIRO

Novo COMTUR é aprovado pela Câmara Municipal A Câmara Municipal de Resende Costa realizou, no dia 20 do último mês, uma reunião extraordinária, em que foram aprovados quatro projetos que podem fazer a diferença em relação ao futuro turístico da cidade. De acordo com o novo presidente, vereador Luís Cláudio dos Reis, os projetos têm o objetivo de adequar o município aos critérios exigidos para participar do repasse do ICMS Turístico. De acordo com os projetos enviados pelo executivo municipal, Resende Costa passa a contar agora com uma divisão de turismo dentro de sua estrutura administrativa, um fundo municipal para o turismo, uma política municipal para o desenvolvimento turístico e cria novamente o COMTUR (Conselho Municipal de Turismo), dessa vez adequado às exigências da Secretaria Estadual de Turismo (SETUR) e, segundo Luís Cláudio, passa a ter um formato diferente. “O conselho agora será deliberativo, ou seja, vai gerenciar os recursos que forem destinados ao fundo. Para terem direito ao ICMS turístico, os municípios devem participar do Programa de Regionalização do Turismo, desenvolvido pela Secretaria de Estado, elaborar uma política municipal e manter em funcionamento o Conselho Municipal de Turismo”, explica o vereador. Esse não é o primeiro Conselho de Turismo aprovado em Resende Costa. O COMTUR já esteve em funcionamento na cidade, porém, com a falta de representatividade e apoio em suas ações, deixou de existir por falta de motivação e ações que tivessem resultado. O presidente Luís Cláudio ex-

passar a Semana Santa entre seus conterrâneos, sempre colaborando com a realização do evento religioso. Veio a falecer no dia 14 de janeiro passado, tendo sido sepultado, no dia seguinte, na terra que tanto amava. Com seu falecimento, deixa vivos ainda entre nós os irmãos Antônio Bosco de Resende, residente em Lagoa da Prata, MG, Maria da Conceição Resende (Nhanhá), Marta Resende, Madalena Resende Maia (Lili), Maria de Loreto Resende (Lôra), Maria do Perpétuo Socorro Resende e o nosso conhecido Ênio Resende, todos residentes em Resende Costa. Atendendo gentilmente ao convite do JL, o Pe. Nilson Faria dos Santos, Inspetor (provincial) da Inspetoria de São João Bosco, envia à comunidade resende-costense a bela mensagem abaixo: “Padre Francisco David Resende, ao anoitecer do dia 14 deste mês, partiu, leve como a pluma, para a plenitude do amor e do terno e eterno abraço de Deus, de onde todos viemos. Sem nada, do jeito que chegou,

plica que as diferenças entre o conselho do passado e o de hoje são as mudanças e as exigências do Estado para o fortalecimento desses conselhos (sem eles não há repasse). “É importante ressaltar que agora existe o acompanhamento técnico de profissionais do circuito Trilha dos Inconfidentes, de representantes da SETUR e para chegarmos a essas ações que resultaram nos projetos acima mencionados, foram realizadas inúmeras reuniões com os profissionais da Empresa de Consultoria em Turismo (PROJETU), que até o final do ano passado esteve prestando consultoria aos municípios integrantes do circuito”, informou Luís Cláudio. Questionado a respeito do trabalho da prefeitura em prol do turismo em Resende costa, o presidente diz que “até o momento estava caminhando de forma muito tímida, no entanto a partir da segunda metade de 2010 houve mais envolvimento e atenção ao assunto. Parece que as coisas estão tomando um rumo bem diferente, não só em Resende Costa, mas também em outros municípios da nossa região, que já começaram a enxergar o turismo como fator de desenvolvimento e oportunidades”. É possível que haja uma grande mudança em benefício do turismo com a aprovação do novo COMTUR pelo Legislativo Municipal e, como explicou Luís Cláudio, se levadas a sério essas ações poderão resultar em inúmeros benefícios para os resende-costenses, como melhoria na infraestrutura, capacitação dos atores envolvidos no setor (artesãos, vendedores, restaurantes, pousadas etc.), maior e melhor divulgação do município, dentre outros.

partiu. No entanto, durante a trajetória de sua vida salesiana, deixou-nos extraordinário legado: simplicidade de vida e dedicação assídua ao trabalho, como o próprio Dom Bosco recomendava a seus salesianos de outrora e do porvir. No costumeiro e criativo empenho de nossa entrega diária da vida, em comunhão com os que nos precederam, vivamos, como o Pe. David, o que Dom Bosco continua a dizer aos nossos corações: “O trabalho e a temperança farão crescer a Congregação”.


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