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Edição 216 - Jornal das Lajes

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Jornal das Lajes www.jornaldaslajes.com.br

FUNDADO EM 2003 - RESENDE COSTA

ANO XVIII

• ABRIL 2021 • Nº216

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Campanha de imunização contra a Covid-19: quase 14% da população resende-costense foram vacinados Foto: arquivo pessoal

Jogo Aberto O JL conversou com o juiz de direito da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos, sobre a situação do presídio local. Desde março de 2020, quando o presídio se tornou centro de triagem, devido à pandemia, presos de 10 comarcas da região cumprem quarentena em Resende Costa antes de serem levados de volta às unidades prisionais das suas comarcas de origem.

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A enfermeira Núbia Resende vacinando a auxiliar de enfermagem Fernanda Assis

Até o início de abril, 1.585 pessoas (equivalentes a 13,73% da população) foram vacinadas em Resende Costa, sendo 461 com as duas doses. Quase 100% dos grupos prioritários já foram vacinados, segundo a enfermeira Núbia Augusta Resende Vale. A Secretaria Municipal de Saúde está preparada para acelerar o processo de vacinação em caso de aumento na entrega dos lotes de vacinas, mesmo coincidindo com a campanha contra a Influenza A, garante o secretário responsável pela pasta, José Luiz de Resende. PÁG 07

Vereador de Resende Costa busca apoio na comunidade para desenvolver projeto de reflorestamento O objetivo de Fernando Chaves (PDT) é plantar 315 árvores nativas em quatro anos, justamente o prazo do seu

mandato no Legislativo Municipal. Para cumprir sua meta, o vereador vem contando com apoios importantes de asso-

ciações, ONGs e voluntários. O projeto “Refloresta RC” já conseguiu, até o fechamento desta edição, realizar o plantio

de 66 mudas de árvores nativas. “Mas, pela energia que estou sentindo das pessoas e pelos apoios que estou rece-

bendo, acredito que podemos ir bem além disso”, comemora Fernando. PÁG 11


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ANO XVIII Nº 216 - ABRIL 2021

EDITORIAL Fé e ciência: esperança e saber no exercício de salvar vidas

Jornal das Lajes Ltda Sócio administrador: Antônio da Silva Ribeiro Neto Editor-chefe: André Eustáquio Melo de Oliveira Editora assistente: Vanuza Resende

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Ainda é possível encontrar pessoas que defendem que fé e ciência não combinam, são dimensões antagônicas essencialmente adversárias. Num passado não tão remoto, promover o diálogo entre essas duas dimensões, demasiadamente humanas, ressalta-se, seria quase impossível. Felizmente os tempos mudaram. O desenvolvimento da ciência e a reflexão humanista e filosófica mostram que fé e ciência não precisam ser adversárias. Ambas são produtos do espírito (mente) humano e da sua inquietante e prodigiosa capacidade criativa, contemplativa e investigativa. Quando a humanidade foi surpreendida pela notícia de que um vírus desconhecido se alastrava pela cidade de Wuhan, na China, levando inúmeras pessoas a óbito, imediatamente começara uma caça implacável ao inimigo invisível. De onde veio o vírus? Qual sua identidade? Perguntas que cientistas do mundo inteiro tentavam responder. Não tardou surgir as primeiras respostas. O sequenciamento genético realizado em tempo recorde permitiu aos cientistas descobrirem a identidade do patógeno. Um novo membro da grande família dos coronavírus acabava de nascer para assombrar a humanidade e desencadear uma das maiores e mais letais das pandemias já vistas na história. Porém, não só a identidade do vírus foi descoberta em tempo recorde. Os cientistas, que já estavam estudando há algum tempo a família coronavírus e previam que uma grande epidemia poderia surgir a qualquer momento, possuíam conhecimento e técnica suficientes para produzirem a arma de que a humanidade necessita para derrotar o inimigo invisível: a vacina. E ela foi desenvolvida em menos de um ano! Tempo recorde para a ciência, capaz de surpreender até o cientista mais otimista. Mas houve também algo que surpreendeu e ainda surpreende as pessoas minimamente sensatas: os raivosos discursos negativistas que almejam desconstruir ou desqualificar o saber científico, apelando para teorias fundamentalistas, muitas vezes com arcabouço religioso. Trata-se de mais um inimigo que a ciência, a razão humana e o bom senso precisam combater. Aliás, como é possível à inteligência humana entender que ainda há pessoas que acreditam que a Terra é plana? Talvez o atual inquilino do Palácio do Planalto tenha a resposta. Um dos legados mais importantes deixados pela pandemia da Covid-19 é, sem dúvida nenhuma, a importância da ciência para a humanidade. Quando mais precisávamos do saber científico, ele nos socorreu, apesar de inúmeras propagandas contrárias incentivadas por políticos demagogos e seus fanáticos seguidores. Destaca-se, no entanto, que em momento algum as religiões tentaram desqualificar a ciência ou mesmo confrontá-la. Líderes religiosos, como o papa Francisco, vêm incentivando a vacinação e cobrando celeridade dos governantes em promover políticas públicas de imunização, capazes de contemplar, sobretudo, as nações mais pobres. Sincero reconhecimento da ciência que salva vidas! Quando a ciência é agredida e desqualificada, os sermões não ecoam mais dos púlpitos das igrejas e catedrais. As vozes tenebrosas ressoam dos parlamentos, multiplicam-se no Twiter e nas redes sociais de políticos demagogos. A incomparável crise sanitária em que se encontra mergulhado o Brasil é fruto da ignorância premeditada que nega a ciência, da maldade consentida que se esconde por trás de discursos religiosos (“Deus acima de tudo”) hipócritas e da ausência de empatia de um governo com a população pela qual jurou zelar e defender. A sociedade contemporânea deixou definitivamente para trás o antagonismo fé e ciência. As duas dimensões, demasiadamente humanas, se uniram, cada uma respeitando suas respectivas metodologias, pensamentos e investigações, e se deram as mãos em favor da vida. O teólogo e escritor dominicano, frei Betto, traduz perfeitamente o que deve fundamentar um diálogo construtivo, investigativo e ao mesmo tempo fascinante sobre fé e ciência e suas implicações. “Que a ciência seja o reino da dúvida ninguém pode questionar; todo cientista é alguém que – para usar uma expressão da moda – quer conhecer a mente de Deus”. Defender, portanto, a divisão é se aliar ao discurso de morte.

Editor regional: José Venâncio de Resende Revisão: José Antônio Oliveira de Resende Diretor de administração: Eustáquio Peluzi Chaves

Redação: Rua Assis Resende, 95 Centro - Resende Costa, MG CEP 36.340-000 TEL(32)3354-1323 Editoração e Site: Rafael Alves Tiragem: 2000 exemplares Circulação: Resende Costa e São João del-Rei Impressão:

Tel: (31) 2101-3544 Conselho Editorial: André Eustáquio Melo de Oliveira, Emanuelle Resende Ribeiro, José Venâncio de Resende, Rosalvo Gonçalves Pinto, João Evangelista Magalhães e José Antônio Oliveira de Resende.

Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.

De um ponto de vista JOÃO BOSCO DE CASTRO TEIXEIRA*

Ele está no meio de nós Ele está no meio de nós. É o que de nós se pede neste dia. Dizê-lo em plena convicção. Dizê-lo como proclamação, como grito de absoluta confiança. Ainda que em algum desespero. Cremos, sabemos e vivemos a realidade da presença de Jesus em nós, conosco, para nós. Sem essa fé, não há o dia que o Senhor fez, não há a festa da vida e Jesus não é um vivente. “Dia que o Senhor fez”. Não pode haver dia maior. Dia, por excelência, da realização da Aliança, dia em que, convictamente, atestamos que Deus é um aliado fiel. Esta é a certeza que se tem quando se atende ao convite de não procurar entre os mortos aquele que está vivo. Esta a postura a que somos chamados: aceitar a boa nova, crer no Evangelho. Esta a evidência que temos: não é preciso buscar a Deus nos céus, pois ele está aqui embaixo, na terra, no meio de nós.

Páscoa, a festa da vida. Festa que nos leva a fazer uma decisiva opção pela vida. Festa da vida, pois dela é que Jesus se encantou. E porque se “encantou”, nos “encanta”, nos leva a declarar que Ele está no meio de nós. É essa declaração que ilumina nossas vidas presentes, com a garantia de uma vida prolongada sem tristeza, sem sofrimento, sem discriminação. Festa de todos e para todos, porque assim é a festa da vida. Festa em que o centro é a partilha. Festa que não se acaba. Festa em que despedidas não acontecem. Festa em que a distância física não separa irmãos. Festa em que a variedade e a diversidade de expressão de vida são riqueza. Ele não está aqui: ressuscitou. Jesus é um vivente. Vivente de uma vida nova. Vivente a garantir-nos que tudo quanto aqui se constrói, em seu nome ou sob sua inspiração, não cai-

rá no vazio. Vivente porque libertador. Vivente porque o encontro com ele continua sendo sempre provocador. Vivente porque junto dele não há a mínima possibilidade de mesmice. Jesus é. Mas, também, é o que vem e vem continuamente. Hoje e sempre a inflamar-nos o coração. Então: este é o dia que o Senhor fez; esta é a festa da vida. É o dia do Vivente. Há que celebrar tudo isso, fazer brotar, tornar visível, inegável e inevitável a verdade de que Ele está no meio de nós, a despeito de tudo, até na aparente contradição com a vida cheia de mortes que estamos chorando. Feliz Páscoa, de fé: Ele está vivo. De alegria: é festa. De paz: ele está no meio de nós. *Professor aposentado da UFSJ, membro da Academia de Letras de São João del-Rei.

Foto e situação do mês

O sino da igreja matriz ANDRÉ EUSTÁQUIO

Durante toda a quaresma, o sino maior da igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, como mostra a imagem ao lado, feita pelo fotógrafo Felippe de Ramos Melo, nos fez recordar que, apesar da pandemia, é tempo de Semana Santa em Resende Costa. Felizmente a cidade ainda mantém vivas as tradições religiosas e culturais, que em muitos lugares se perderam no tempo e no esquecimento, vítimas, sobretudo, do descuido daqueles que deveriam zelar pela sua preservação. A música sacra, o toque dos sinos e as piedosas e belas procissões da Semana Santa são verdadeiras preciosidades da religiosidade e da cultura dos resende-costenses, que se orgulham de suas tradições.


ANO XVIII Nº 216 - ABRIL 2021

JORNAL DAS LAJES

CÂMARA DE RESENDE COSTA INFORMA

Câmara Municipal institui título de “Honra ao Mérito Vereadora Maria” Foi aprovada a Resolução nº 431/2021, de autoria do vereador Fernando Chaves (PDT), que institui a homenagem pelo “Título de Honra ao Mérito Vereadora Maria”. A homenagem será concedida a mulheres residentes e/ou nascidas no município de Resende Costa que tenham se destacado por sua relevante atuação social ou política, por serviços prestados à comunidade. A homenagem criada será realizada pela Câmara Municipal em sessão solene, anualmente, no mês de março. A primeira homenageada pelo “Título de Honra ao Mérito Vereadora Maria”, será a Sra. Geralda Aparecida R. Sousa, ex-vereadora do município de Resende Costa, e acontecerá em sessão solene no primeiro mês de março após o término do estado de pandemia causada pela Covid-19. De acordo com o autor do projeto, a proposta do título é dar reconhecimento e incentivo à luta das mulheres por mais espaço e representatividade social e política. “Uma leitura da história política de Resende Costa revela o quanto essa luta é atual, tendo em vista que apenas quatro mulheres estiveram em nosso Legislativo Munici-

pal. A ausência quase absoluta de mulheres na Câmara é uma triste realidade durante os 108 anos de sua existência.” AS MARIAS HOMENAGEADAS Em 21 de fevereiro de 1963, tomou posse, como primeira vereadora eleita no município de Resende Costa, a Maria Raimunda da Conceição, a Dona Maroca, do Distrito de Jacarandira. Dona Maroca, porém, cumpriu somente um ano do seu mandato, renunciando no fim do primeiro ano. Em 1983, Maria Luíza Cesconi foi eleita vereadora pelo PMDB e ocupou uma das cadeiras da Câmara Municipal de Resende Costa, presidindo-a entre 1985 e 1986, quando Gilberto Pinto se elegeu prefeito pela primeira vez. Maria das Dores Silva, a Maria do Pedro, pelo Partido dos Trabalhadores, foi representante feminina na Câmara por duas vezes, entre os anos de 2001 e 2008. Três Marias que representaram com sua trajetória a luta das mulheres por participação política. Geralda Aparecida R. Sousa, a Cidinha do Posto, que foi eleita vereadora na década de

1990, completa a lista das quatro mulheres que ocuparam cadeira na Câmara de Resende Costa, tendo participado da votação de vários projetos de grande importância para o município, tais como o Estatuto do Servidor Público do Município, Estatuto do Magistério, Novo Código Tributário, Política Municipal de Atendimento dos Direitos da Criança e do Adolescente, Instituição do Conselho Municipal de Educação, Declaração de Utilidade Pública da Associação Filhas de São Camilo, dentre outros. HOMENAGEM PÓSTUMA O nome do título homenageia postumamente três vereadoras, Maria Raimunda da Conceição, Maria Luíza Cesconi e Maria das Dores Silva, simbolizando também a mulher num sentido universal. “Maria é o nome mais comum entre as mulheres e carrega forte simbologia popular”, justifica o autor do projeto. “Nada mais justo e simbólico que eleger como primeira homenageada a ex-vereadora Geralda Aparecida R. Sousa, a Cidinha do Posto, que alegra e honra a comunidade com sua companhia vivaz e que já deixou seu

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INFORME PUBLICITÁRIO

Indicações apresentadas em plenário durante as reuniões ordinárias do mês de março • Implantação de publicidade visual de Resende Costa em rodovias federais e estaduais, com o objetivo de fomentar a divulgação do município, promovendo e fortalecendo o turismo local. (vereador Coló) • Realizar serviços de manilhamento de águas pluviais e extensão do calçamento de via até o mata-burro sobre o córrego do Tijuco, sentido estrada para o povoado do Curralinho dos Paulas. (vereador Zé do Dico)

importante legado na luta por maior representação da mulher no Legislativo Municipal”, completa. O TÍTULO “É um título de honra ao mérito voltado para as mulheres. Nós vamos abrir o legislativo municipal todos os meses de março para homenagear uma mulher que tenha se destacado pelo seu trabalho social em nossa comunidade. Nós temos muitas mulheres atuantes em associações e movimentos sociais, mas infelizmente temos uma tradição de baixa representatividade política da mulher aqui em Resende Costa. A proposta desse título é valorizar e incentivar a participação da mulher”, disse Fernando Chaves.

O vereador João Dias, presidente da Câmara, também comentou sobre o título. “Fico feliz com o projeto de resolução de autoria do vereador Fernando Chaves, que institui o título de honra ao mérito “Vereadora Maria”. Essa iniciativa só vêm agregar aos projetos já existentes de honra ao mérito, cidadão honorário e honra ao mérito “José de Resende Costa”. Acredito que tais homenagens devem ser feitas em vida, sempre que possível. Agindo assim, estaremos incentivando, valorizando e agradecendo as lutas dessas mulheres nos aspectos sociais e políticos, além de ressaltarmos, dessa maneira, como se faz necessária a presença feminina nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário do nosso município”.

Projeto de lei oficializa o cognome “Avenida dos Artesanatos” à avenida Alfredo Penido Na reunião ordinária da Câmara Municipal, ocorrido no último dia 12 de março, foi votado o Projeto de Lei nº 18/2021, de autoria do vereador Fernando Chaves (PDT), que resultou na Lei Municipal nº 4.731/2021. A lei oficializou o cognome “Avenida dos Artesanatos” à Avenida Alfredo Penido, na entrada da cidade. O cognome já é amplamente utilizado por grande parte da população resende-costense e também por turistas que visitam a cidade. Na avenida, estão concentradas mais de 80 lojas de artesanato. Segundo as justificativas do PL, com a oficialização da

Lei, será possível estimular o uso massivo do cognome em correspondências, selos, envio de encomendas, bem como em peças de publicidade do município ou de empresas privadas, de modo a projetar ainda mais a vocação econômica e turística do município, que recebeu recentemente o título de “Capital mineira do artesanato têxtil”. Ainda de acordo com as justificativas do projeto de lei, “entende-se que a lei pode dar reforço e mais visibilidade a uma das características de Resende Costa que ajuda a atrair turistas ao município, qual seja: o fato de a cidade possuir quase uma

centena de lojas de artesanatos concentradas em uma única avenida, como um “shopping a céu aberto”, disponibilizando ampla variedade de artesanatos (em tecido, em madeira, em ferro, crochê, cerâmica, dentre outros). O reforço desse atrativo, que é a grande variedade artesanal, poderá funcionar como estratégia de marketing para o município a partir da difusão do uso do cognome.” O autor do projeto de lei fala sobre a iniciativa: “O título oficial ‘Avenida dos Artesanatos’ vem para agregar valor à marca da nossa cidade. Nós sabemos que existe o sonho de fazer

uma revitalização urbanística dessa avenida. Ali está acontecendo também a construção do CAT (Centro de Apoio ao Turista). Não tem como pensar o desenvolvimento do turismo de

Resende Costa sem pensar na nossa Avenida dos Artesanatos. Esse projeto veio para reforçar essa marca. Para fortalecer nosso turismo”, declarou o vereador Fernando Chaves.

Veredor Fernando Chaves (primeiro à dir. na bancada), autor dos dois projetos de lei


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GOVERNO MUNICIPAL INFORMA

INFORME PUBLICITÁRIO

Família acolhedora: conheça e faça parte do programa Devido ao aumento significativo de casos de crianças e adolescentes com direitos violados no município, a Secretaria Municipal de Assistência Social ampliou o programa Família Acolhedora, buscando cadastrar mais famílias para participarem do programa. O serviço busca oferecer um ambiente saudável e familiar, dando garantias de atenção e boas práticas de convivência, até que a criança ou adolescente possa voltar à sua família de origem ou ser encaminhada para uma família substituta. A Secretaria fica responsável por selecionar, capacitar e cadastrar famílias interessadas em oferecer acolhimento. Ela também acompanha as famílias de origem dessas crianças e ado-

lescentes. Esse serviço também é conhecido como guarda subsidiada: a família selecionada acolhe a criança ou adolescente por um período, até que a família de origem esteja apta a cumprir novamente a função de proteção. No entanto, o programa Família Acolhedora não é um programa de adoção. É importante destacar que o afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar é de competência exclusiva da autoridade judiciária e só acontece em casos excepcionais, quando há grave risco à integridade física e/ou psíquica da criança ou adolescente. Para Edirlene do Nascimento, secretária de Assistência Social, o programa é impor-

tante para toda a comunidade. “O Família Acolhedora é essencial para o desenvolvimento social de todos que, de alguma forma, estão envolvidos por ele. É um programa que busca preservar os laços da criança e do adolescente com a família de origem de acordo com recomendações do Judiciário e, ao mesmo tempo, oferece condições favoráveis para o seu desenvolvimento, através dos carinhos e cuidados da família acolhedora. E em Resende Costa isto se torna ainda mais especial, pois é uma cidade com vocação solidária”, explica. Ela também aponta outros pontos positivos: “o programa tem uma grande vantagem de ser uma melhor opção em relação às instituições de

acolhimento, onde o vínculo familiar acaba se perdendo. Por isso, é muito importante que mais famílias se inscrevam e se tornem uma Família Acolhedora, dando melhores oportunidades e qualidade de vida a

jovens e adolescentes”. Caso tenha interesse em se tornar uma Família Acolhedora, entre em contato com a Secretaria de Assistência Social através dos números: (32) 3354-2520 ou 3354-2379.

Vacinação Resende Costa segue avançando na campanha de vacinação contra a Covid-19. A prefeitura municipal começou o mês de abril vacinando pessoas entre 65 e 69 anos. Mais de 1000 resende-costenses já receberam pelo menos a primeira dose das vacinas contra o coronavírus. Mesmo com a ótima execução da campanha de vacinação, ainda restam algumas dúvidas em relação ao funcionamento das vacinas e do modo como a campanha é executada. Para tirar algumas dúvidas, conversamos com Núbia Resende Vale, enfermeira e referência em imunização: Como está a vacinação em Resende Costa? A vacinação está sendo

feita de acordo com o grupo prioritário que está em andamento, com horário e dia programados. Esse agendamento é feito pelo agente de saúde, que entra em contato com o paciente. As pessoas que estão residindo em Resende Costa recentemente e que não foram cadastradas em nenhum PSF precisam fazer o cadastro com o agente de saúde ou irem até um PSF para maiores informações. Até o momento, já foram vacinadas as pessoas idosas residentes em instituições de longa permanência, pessoas com deficiência em residências inclusivas, pessoas acima de 65 anos e os profissionais da saúde atuantes. Os que não receberam a vacina por algum motivo e fazem parte destes grupos citados, devem procurar a sala de vacinas para agendar o dia e o horário para serem vacinados. Como está a vacinação das pessoas acamadas, domiciliadas e daquelas que moram na zona rural? A vacinação de acama-

dos e domiciliados, que são aquelas que têm alguma incapacidade funcional, está sendo realizada em domicílio - tanto na zona urbana quanto na zona rural. Também estamos realizando a vacinação na zona rural nos postos de saúde para as pessoas que podem se dirigir até o local. Quem toma a vacina pode pegar a doença ou transmitir o vírus? Sim. Porém, quando isso acontece, a doença vem de uma forma mais branda. Ou seja, a probabilidade de desenvolver a forma grave da doença é bem menor em quem recebeu a vacina. O imunizante apenas protege contra o desenvolvimento da infecção, o que significa que uma pessoa vacinada, embora tenha pouco risco de desenvolver sintomas, ainda pode transmitir o vírus para outras pessoas, especialmente se não estiverem vacinadas. Por isso, todas as pessoas que tomaram a vacina devem seguir utilizando máscaras, mantendo distanciamento social e lavando

frequentemente as mãos. Isso também é necessário para evitar que mais variantes do coronavírus surjam, já que quanto mais gente se contamina, mais o vírus pode sofrer mutações. Qual o seu conselho para o combate da pandemia de maneira eficiente? É importante que todos esperem a sua vez de vacinar, pois a campanha está sendo realizada de acordo com as

exigências do Ministério da Saúde. Ninguém esperava viver dias tão difíceis, mas posso afirmar que nós, profissionais da saúde, estamos trabalhando sem medir esforços. Estamos aqui para ajudar, mas precisamos também que as pessoas nos ajudem a proteger o bem mais precioso que cada um tem: a saúde. Fica aqui o meu carinho em forma de pedido. Sempre que preciso, contem com a gente!


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JOGO ABERTO

Entrevista com o Juiz de Direito da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos

VANUZA RESENDE E ANDRÉ EUSTÁQUIO

A pandemia da Covid-19, que a cada dia vem ceifando vidas em todos os cantos do planeta, mudou também a rotina do sistema prisional. Para mitigar a possibilidade de contágio do novo coronavírus entre os detentos privados de liberdade, medidas de segurança sanitária vêm sendo tomadas desde que foi decretada a pandemia, em 2020. Desde o ano passado, o presídio de Resende Costa tornou-se referência como centro de triagem para presos provenientes de 10 comarcas da região. O JL conversou com o juiz de direito da Comarca de Resende Costa, Donizetti Nogueira Ramos, sobre a atual situação do presídio, inaugurado em 2008. Natural de Barbacena, dr. Donizetti chegou a Resende Costa em 1998 e desde então é o juiz responsável pela Comarca. No dia 23 de março de 2020, foi divulgado que o presídio de Resende Costa se tornaria um entre os 30 centros de triagem das unidades prisionais no estado de Minas Gerais, durante o período da pandemia. Desde então, como está funcionando a logística das prisões em Resende Costa? Desde o reconhecimento da Covid-19 como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde, em março de 2020, o presídio de Resende Costa passou a ser um centro de triagem para os presos provisórios das comarcas de Andrelândia, Barroso, Barbacena, Carandaí, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Entre Rios de Minas,

Ouro Branco, Prados e São João del-Rei. Portanto, todo indivíduo preso em uma dessas comarcas é trazido para Resende Costa, onde passa o período da quarentena (geralmente quinze dias), e depois é recambiado para sua comarca de origem. A logística das prisões no presídio local tem funcionado da seguinte forma: todos os presos das comarcas acima referidas e também os de Resende Costa ficam na cidade por 15 dias, em média, durante o período da quarentena, e depois são recambiados para usas origens. No caso de presos de Resende Costa, eles são levados para o presídio de São João del-Rei. Existe uma cela totalmente separada no cárcere, onde estão cerca de dez presos já condenados em Resende Costa e que são os responsáveis pela manutenção dos serviços desenvolvidos na Unidade Prisional. Esses detentos não têm nenhum, absolutamente nenhum, contato com os presos que aqui cumprem o período da quarentena. A orientação é que, após cumprido o período da quarentena e atestada a saúde dos presos, eles são levados para outras penitenciárias ou presídios, seguindo o fluxo normal de gestão de vagas do Estado. Esse prazo vendo sendo cumprido? Sim, os detentos são levados para outros presídios após o lapso da quarentena. Os prazos têm sido cumpridos, na medida do possível, pois, como são várias cidades e diversos presos, isso demanda uma logística imensa, o que às vezes dificulta o cumprimento fiel dos prazos. Os detentos passam por exames antes de serem levados para Foto: Emanuelle Ribeiro

Presídio de Resende Costa

outras unidades prisionais? Os presos passam por exames antes de serem encaminhados para seus presídios de origem. O presídio de Resende Costa vem comportando a demanda regional? A média de presos nos últimos tempos varia de 70 a 100 presos. O presídio suportou a demanda da região, mas é evidente a superlotação carcerária. Tanto assim, que existe um procedimento da Defensoria Pública de Minas Gerais, com apoio do Ministério Público, visando obrigar o Estado a buscar outras alternativas, de modo a adequar o número de presos à realidade da unidade prisional. Houve transferência de detentos que cumpriam pena em Resende Costa para outra unidade prisional? Os presos de Resende Costa que não estavam trabalhando anteriormente à pandemia foram todos recambiados para o presídio de São João del Rei. Foram diagnosticados casos de Covid-19 entre os detentos do presídio de Resende Costa? Sim, já houve casos de contaminação pelo coronavírus no presídio de Resende Costa. Além dos presos, vários agentes penitenciários também foram contaminados. O procedimento adotado foi o tratamento e o isolamento. No total, foram 13 presos e 22 agentes infectados, conforme constatado por exame médico. Os detentos que cumprem pena passam periodicamente por exames, a fim de detectar possível contaminação? Geralmente os exames são feitos naqueles presos que apresentam algum sintoma característico da Covid-19. É como na população, em geral: ninguém fica toda semana fazendo o PCR (exame laboratorial), mas, sim, quando tem algum sintoma. Quais medidas estão sendo tomadas para evitar contaminações pelo coronavírus no presídio? As medidas tomadas são aquelas preconizadas pelas auto-

Foto: André Eustáquio - arquivo Jornal Fas Lajes

“O presídio suportou a demanda da região, mas é evidente a superlotação carcerária. Tanto assim, que existe um procedimento da Defensoria Pública de Minas Gerais, com apoio do Ministério Público, visando a obrigar o Estado a buscar outras alternativas, de modo a adequar o número de presos à realidade da unidade prisional”

Dr. Donizetti Nogueira Ramos, juiz de direito da Comarca de Resende Costa

ridades de saúde, ou seja, limpeza com álcool em gel ou álcool 70º e uso de máscaras. As visitas aos presos foram suspensas durante o período da pandemia? E a entrega de kits com suplementos de alimentação e materiais de higiene, levados pelos familiares? Os presos que estão na quarentena não recebem visitas nem alimentos de parentes, o chamado “sacolão”. Somente têm acesso ao seu advogado. Já os presos que colaboram no presídio continuam com o direito às visitas e também ao “sacolão”. Todavia, isso também está suspenso para eles nesse período da Onda Roxa. E em relação às saídas temporárias? Durante o período da pandemia da Covid-19, nenhum preso foi autorizado a usufruir da saída temporária. Isto se deu não só para proteger os familiares e moradores da cidade, como também para proteger a eles próprios. Mesmo durante a pandemia, os detentos continuam trabalhando nas oficinas no interior do presídio? Sim, os presos que tinham autorização para o trabalho interno continuam desenvolvendo suas atividades, tanto no tear, fabricando colchas, tapetes, cortinas etc., quanto na fabricação de blo-

quetes e manilhas, na parceria com a Prefeitura Municipal de Resende Costa. Existe também o trabalho na marcenaria, com bancos, mesas e outros objetos de madeira. Deixo consignado que o trabalho dos reclusos tem sido muito vantajoso para eles e para a nossa cidade. Os presos têm remido um dia de pena para cada três dias de trabalho. A cidade já ganhou várias ruas calçadas com bloquetes feitos no galpão do presídio. A média diária é de mil e duzentos bloquetes feitos pelos reeducandos do presídio de Resende Costa. A pandemia impôs tristezas e enormes desafios para toda a sociedade. E não vem sendo diferente para quem está privado da sua liberdade... Nesta quadra perturbada pela qual passamos, todos devemos dar nossa cota de sacrifício. A sociedade, o mundo, nunca mais serão os mesmos depois que essa pandemia passar. Deveremos olhar para nós mesmos e entendermos que somos simples passageiros deste sopro que é a vida, que hoje existe e amanhã pode nos ser levada, num átimo. Daí a importância de saber reconhecer o erro do próximo. De puni-lo, porque ele deve ser realmente punido pelo erro que cometeu. Mas de perdoar-lhe, porque até Cristo perdoou a quem o crucificou no Calvário.


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GENTE QUE FEZ E FAZ A HISTÓRIA

A passagem de um herói JOÃO BOSCO PINTO LARA*

Neste mundo da pós-modernidade, a marca é a relativização de tudo que esteja ao nosso alcance, principalmente de nossas cabeças pensantes. Tudo pode ser relativizado, inclusive o sexo das pessoas, o conceito de família etc., dizem os pós-modernistas e os adeptos ferrenhos das novas culturas. Basta querer, invocando-se sempre novos padrões culturais e, muitas vezes, o simples desejo dos viventes. A linguagem, então, nem se fala! Vão surgindo a cada dia palavras e palavreados novos que soam até mal e inapropriados aos nossos ouvidos. Bem entendido, de quem não se dispõe a acompanhar os modismos e adotar aquilo que se convencionou denominar de “politicamente correto”, que, convenhamos, além de ser a coisa mais chata da atualidade, só faz promover a divisão entre pessoas na sociedade, entre amigos, grupos familiares e outros. Cito um exemplo corriqueiro: quando uma mulher, merecida e necessariamente assume a presidência de uma instituição pública e privada, ela não pode ser tratada de “presidente”, como sempre ocorreu aqui e em qualquer quadrante do planeta, mas, sim, de “presidenta”. Horrível, não (?!). Mas quem não gostar ou não aderir vai logo sendo carimbado de machismo ou de misoginia. Nós estamos tornando nosso planeta cada vez mais chato e inabitável! Ocorre que o relativismo não chega nunca àquilo que, do meu modesto ponto de vista, é muito mais importante para nós e para a nossa história. Refiro-me aqui aos significados e conceitos de dois vocábulos e expressões da nossa cultura: o de herói e o de personalidade ilustre. O primeiro, herói, para todo mundo ainda tipifica aquelas pessoas que praticaram ou cometeram atos de bravura na esfera pública, atos de força física ou de repercussão intelectual, científica e histórica. Já o segundo, o de personalidade ilustre, embora quase coincidente com o primeiro, ostenta novas características: via de regra, é destinado a pessoas com alta escolaridade, os chamados doutores ou professores, e os próceres políticos dos mais variados matizes. Daí que muitos dos nossos verdadeiros heróis com H maiúsculo e outras tantas personalidades ilustres, que realmente importam para a vida de muitos ou de sua comunidade, vão ficando soterrados no passado ou esquecidos na história que realmente vale para muitos de nós. Pois é! Dias atrás, e escrevo estas linhas em 28 de março no ano pandêmico de 2021, mais exatamente no passado dia 17, nós, os resende-costenses, particularmente seus familiares e nós seus amigos, perdemos um desses Grandes Heróis, uma personalidade pública das mais relevantes da nossa comunidade. E, por que não (?), de relevância para pessoas de muitas comunidades e estados distantes deste enorme país, já que os frutos da sua inteligência e do seu árduo

trabalho percorreram léguas e léguas ou centenas e milhares de quilômetros de distância. E por solicitação do jornalista André, editor do Jornal das Lajes, fui agraciado com a oportunidade e a honra de contar um tiquinho da história deste Grande Homem. Sim, perdemos aqui nessa terra de pobres mortais o Senhor Geraldo Balbino da Silva, mais conhecido, admirado e amado por todos nós como SÔ GERALDO MELO. Com quase 93 anos de vida bem vividos, é verdade, mas ainda com disposição e lucidez de fazer inveja a muitos jovens. Tanto que dias antes se dirigira à sua propriedade rural, na Mata ou no Marimbondo, para olhar seus bovinos e lhes dar sal. Nós todos que lemos e admiramos a celebrada obra do grande João Guimarães Rosa, certamente uma das mais relevantes e importantes de nossa literatura ou da literatura universal, porque traduzida para quase todos os idiomas do mundo, ficamos matutando diante da partida do Sô Geraldo Melo. Se o grande escritor tivesse avançado um pouquinho mais nas suas andanças pelos sertões de Minas no lombo do seu alazão baio e topasse com esta figura ímpar do Sô Geraldo, certamente o teria elegido como personagem central de uma de suas obras literárias. Não de um dos maravilhosos e robustos contos de dezenas de páginas, de “Sagarana” ou de “Primeiras Estórias”, mas de um romance inteiro equiparável ao “Grande Sertão, Veredas”. Ora, sabemos pela leitura das obras de Guimarães Rosa, que ele esteve, em viagens acompanhando boiadeiros e boiadas, ali bem pertinho, em Itaguara, pouquinho além de Passa Tempo e de Piracema, a um tiro de cartucheira do Ribeirão de Santo Antônio, onde naquela quadra se encontrava o nosso herói, a personagem ilustre de nossa história. Precisaria só avançar um pouquinho mais, passando por Jacarandira e pelo Cajuru, ou poderia mesmo vir por Capela Nova, hoje Desterro de Entre Rios... e pronto: lá estaria o Sô Geraldo sentado, ou de, pé em sua tenda de ferreiro ou na sua oficina de carpinteiro, esculpindo uma ferramenta a partir do ferro bruto... ou construindo um carro de boi... ou terminando a montagem de um moinho de pedra tocado a água; ou, pasmem (!), cortando o cabelo de alguém. E muito mais: poderia estar perambulando pelo povoado para aplicar uma injeção num membro da comunidade que estivesse doente, ou mesmo trabalhando num caixão mortuário no fundo do quintal de alguém que tivesse falecido naquele dia. A maioria dessas habilidades ou atividades ele as exercia de modo gratuito, apenas com a finalidade de praticar o bem e de ajudar o próximo. Este era o Sô Geraldo Melo, o nosso Herói Sem Medalha. Verdadeiro personagem e perfeito herói para uma obra de Guimarães Rosa, perdido numa das grotas do aprazível Povoado do Ribeirão de Santo Antônio, onde nasceu no longín-

quo dia 21 de junho do ano da Graça de 1928. Conto tudo isso não somente com imensa tristeza por ter perdido um velho amigo e um amigo mais velho do que eu, mas ainda com uma ponta de orgulho: também tenho origens no Ribeirão de Santo Antônio, local em que nasceu minha saudosa Mãe, a Trindade do Góes, onde viveu até os 7 anos de idade, lá deixando minha avó, viúva, a cuidar dos outros três filhos pequenos, ainda crianças. É com orgulho redobrado quando anuncio que o Sô Geraldo fazia questão de lembrar sempre que foi, desde criança, aprendiz do meu bisavô materno, o Senhor João Gonçalves, que não tive a ventura de conhecer, mas meus irmãos mais velhos, sim. Com o meu velho bisavô aprendeu seus ofícios, começando como ajudante desde a sua infância. Assim ele sempre fazia questão absoluta de relatar e de frisar nas longas conversas que travamos. E daí vinham histórias e mais histórias daquele passado nem tão longínquo, mas que ficou nas dobras da primeira metade do século passado. Talvez por isso eu e meus irmãos tenhamos desenvolvido uma relação tão amiga e tão próxima com o Sô Geraldo. Vim a conhecê-lo de perto, na verdade, quando se mudou com sua numerosa e maravilhosa família, constituída de esposa e 10 filhos, para a cidade de Resende Costa, há cerca de 48 anos. Certamente tangido pela necessidade de dar estudo e melhores condições de vida para seus filhos. Também para cá se transferiu, com sua inteligência inigualável e sua habilidade, com todas as suas ferramentas e apetrechos, a fim de construir tudo que fosse necessário para o homem e para a vida no campo, a fim de dar continuidade ao que sempre fez. Adquiriu um belo sítio nas proximidades da cidade, mais exatamente na fonte da Ilha, que pertenceu ao Sr. Pascoal Maia e família. Ali abrigou sua família e os seus animais e estabeleceu suas oficinas. Daí em diante, os resende-costenses passaram a afluir diariamente à sua propriedade, todos aqueles que demandavam o seu grande portfólio de serviços, mas principalmente o homem e a mulher do campo em busca dos seus meios de trabalho e de sobrevivência, o que ele com maestria sabia inventar e fabricar a partir da madeira e da ferragem. Trouxe na sua bagagem tudo o que tinha de significativo para a sua vida e para a sobrevivência de sua família, e também para dar continuidade aos seus diversos ofícios. Mas nunca se desligou do povo e das coisas do Ribeirão de Santo Antônio. Para sua morada afluíam todos aqueles, parentes e amigos, que vinham da sua antiga comunidade. Jamais perdeu os laços com tudo que deixara para trás e por isso, mais importante, trouxe consigo a sua inseparável viola de 10 cordas, da qual tirava maravilhas nas horas e nos dias de folga. De família de muitos músicos, os filhos do Senhor João Melo, a quem tive a honra de conhecer, de

Sr. Geraldo Melo (1928 - 2021)

cantores e foliões de mãos cheias, o Sô Geraldo era um deles. Até nos seus últimos tempos de vida, fazia questão de empunhar a sua viola de onde retirava maravilhosas modinhas e melodias, que certamente representavam o contentamento e o lamento do sertanejo, do homem da roça, que dia a dia vê seus valores humanos e culturais ficando ao longo da sua sofrida história. Nos últimos anos, fazia dupla com o seu filho Irimar, também grande violeiro, ou com seu genro Hamilton, sanfoneiro dos bons. A sua fiel esposa e companheira de longa jornada, Sra. Maria Antônia de Jesus, lhe sobreviveu e ainda mantém aceso o fogo do fogão a lenha na cozinha que eu e muitos outros não deixaremos de frequentar. Ainda no finzinho do dia 27 de março último, lá estive tomando seu cafezinho gostoso com seus biscoitos caseiros e, acreditem, lá estava ela espremendo sua última safra de queijo mineiro que tão bem sabe fazer. Do seu longo e profícuo casamento com Dona Maria, formou-se uma família linda, unida e solidária entre si, donde nasceram e sobreviveram os seguintes filhos, em ordem decrescente: Maria Florinda, Maria Ilda, esta a sua companheira permanente dos últimos anos, Ivanil, já falecido há 17 anos, Ilma Aparecida, Ivanei (Neizinho), Ivanilda Antônia, Irlei (Preto) Irléia Antônia, Iraci, falecido há apenas 3 meses, e Irimar. Aspecto importante a ser realçado, além da perfeita união da família, é que seus filhos homens, todos eles, herdaram parte dos seus ofícios e deram seguimento à sua grande obra. A Ilda, sua fiel companheira dos últimos anos, deu-lhe mais um neto de nome Valdovino, nome herdado do avô paterno, mas que todos aqui na cidade conhecemos carinhosamente como Preguinho. Este, sim, um autêntico herdeiro das diversas habilidades do Sô Geraldo, que, junto com seu primo Jonas, dão prosseguimento à extensa prestação de serviços fundamental para o homem do campo. Hoje, naturalmente, com a ajuda de muitas máquinas e ferramentas que antes era ele próprio que construía. Contar a longa saga do Sô Geraldo Melo demandaria de fato um volumoso livro, um romance épico de um verdadeiro herói, o que este artigo para o JL não comportaria. Todavia, devo ainda ressaltar uma qualidade marcante dele, que tal-

vez perpasse todas as outras que já enumerei acima: ele não foi tão somente um homem inteligente, habilidoso, trabalhador, benfeitor, violeiro e muito mais! Ele era sobretudo um homem bom, educado, de fala mansa, quase sussurrada, que a todos atendia, dos mais pobres aos mais bem aquinhoados, sempre com a mesma boa vontade e com o mesmo sorriso no rosto, debaixo do seu inseparável chapéu. A cidade cresceu muito, mais ainda pelos lados do seu sítio, que, num piscar de olhos, estava aprisionado dentro da área urbana. Grande parte de suas terras foram transformadas em loteamento e passaram a integrar uma região muito bonita e densamente povoada da urbe, o Bairro Bela Vista. Mas a casa original dele e dos seus familiares permanece lá firme, com sua cozinha acolhedora, com aquela que foi a sua grande oficina ao lado, e hoje com um enorme terreno repleto de máquinas agrícolas para consertos e reparos pelo Preguinho com o concurso do Jonas. Ainda tem o curral com as vacas de leite, a engorda de porcos, as galinhas e a horta de verdura, onde muito se produz para a família. Lá se reúnem os familiares e por lá passam diariamente dezenas de pessoas em busca dos serviços, que podem não ser exatamente os mesmos que o Sô Geraldo prestava à comunidade. Encerro com uma grande névoa de saudade que me embaça os olhos e a mente, saudade de um Homem correto, inteligente, digno e trabalhador, eternamente envolvido em suas mais marcantes características: a humildade e a bondade. Esse foi e é um verdadeiro Herói, um grande homem público de Resende Costa. Dele, além das ternas e boas lembranças, e também da amizade, guardo uma relíquia na minha propriedade rural: um moinho de pedra que ele construiu e assentou para mim com todo carinho – uma preciosidade que me enche de orgulho, de onde retiro o meu fubá para o angu, para a broa, para os biscoitos, para os passarinhos etc. Eu e meus vizinhos, a quem sempre empresto com o maior prazer. Até um dia, Sô Geraldo! *Desembargador aposentado, advogado e produtor rural em Resende Costa.


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Saúde

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Quase 14% da população resende-costense foram vacinados até início de abril Foto: Cássio Almeida

JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

Até o início de abril, foram aplicadas 2.046 doses de vacinas em Resende Costa contra a Covid-19. Desse volume, receberam a primeira dose 1.585 pessoas (equivalentes a 13,73% da população), sendo que 461 foram totalmente imunizadas (duas doses), de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde. A principal vacina utilizada em Resende Costa é a Coronavac (parceria entre a chinesa Sinovac e o paulista Instituto Butantan), a exemplo do que ocorre no Estado, onde representou 85,38% (3,97 milhões) das doses utilizadas. Os outros 14,62% (687.100 doses) são da AstraZeneca/Oxford e da Fiocruz, de acordo com reportagem do jornal Estado de Minas (05/04). Em Resende Costa, 935 pessoas idosas acima de 70 anos receberam a primeira dose (200 já imunizadas com as duas doses). Por faixa etária, 45 idosos com mais de 90 anos foram vacinados (42 com as duas doses). Entre 80 e 89 anos, foram 248 com a primeira dose (137 totalmente imunizados). Na faixa de 70 a 79 anos, 642 receberam a primeira dose (21 com a vacinação completa). Aos profissionais da saúde atu-

Resende Costa avança na imunização contra a Covid-19

antes foram aplicadas 500 vacinas (332 deles receberam a primeira dose e 168 as duas doses). Pessoas com deficiência em residências inclusivas já foram imunizadas com as duas doses (total de seis vacinas). Também 64 residentes em instituições de longa permanência (Lar São Camilo e Presídio), com mais de 60 anos, já foram vacinados (62 receberam as duas doses). “Acredito que quase 100% desse público está realmente vacinado”, diz Núbia Augusta Resende Vale, enfermeira referência em imunização. “O ritmo da vacinação em Resende Costa está de acordo com o quantitativo de doses que

recebemos da Gerência Regional de Saúde (GRS) e também com o público alvo que é permitido pelo Ministério da Saúde.” Ela orienta aqueles pertencentes a algum grupo prioritário e que, por algum motivo, não receberam a vacina a procurar a Sala de Vacinas e marcar nova data. Trata-se de um “ritmo totalmente fora do normal para que todos sejam imunizados o quanto antes e também para que as pessoas tenham em nós a confiança e o acolhimento de que precisam”, acrescenta Núbia Vale. É o caso, por exemplo, de pessoas acamadas e domiciliadas com alguma incapacidade funcional, que são imunizadas

no domicílio pela equipe de vacinação, tanto na zona urbana quanto na zona rural. Também na zona rural, é realizada vacinação nos postos de saúde das localidades. De acordo com os grupos prioritários, o agente comunitário de saúde agenda dia e horário da vacinação, informa Núbia. “A vacinação é com horário e dia programados. É o agente comunitário quem entrará em contato com o paciente, avisando o dia de receber a vacina.” Ela orienta os moradores recentes em Resende Costa para que se cadastrem com o agente de saúde ou procurem um PSF. Este mês, começou a vacinação de pessoas entre 65 e 69 anos, “e conseguimos contemplar com a primeira dose 251 pessoas nessa faixa etária”, contou Núbia Vale. O plano é vacinar em abril essa faixa de idade e a população quilombola (acima de 18 anos de idade). Na medida em que aumentar a entrega de vacinas por parte do governo estadual, será possível acelerar o processo de vacinação, segundo o secretário municipal de Saúde, José Luiz de Resende. “Posso garantir que a SMS tem condições de atender a demanda. Para isso, estamos com processo seletivo de contratação de profissionais de enfermagem. Estes profissionais serão destinados única e exclusivamente ao PNI (Programa Nacional de Imunização).”

Além da imunização contra o coronavírus, este mês tem início a campanha de vacinação de Influenza A, “mesmo com a possibilidade de aumento de lotes da vacina Covid-19”, assegura o secretário. “Para essas demandas, além das novas contratações, iremos promover campanhas de vacinação nos finais de semana e feriados.” Solidariedade. Núbia Vale lembra o papel mais amplo dos profissionais da Saúde nesse momento de pandemia, de “dias difíceis, tristes, inconsoláveis, por tanto tempo”. “Nós trabalhamos firmes, sem medir esforços, dia a dia, para ajudar você na recuperação da sua saúde.” Por isso, a enfermeira alerta as pessoas que se sentirem fracas ou incapazes de aguentar a pressão dos últimos meses para buscarem ajuda “em qualquer coisa em que acredite”. “Não demorem, pois todos nós iremos precisar de estar pelo menos de pé para acolher os que mais precisarem.” Ao esforço dos profissionais da Saúde, Núbia pede reciprocidade às pessoas na forma de solidariedade. “Tentaremos sempre fazer o melhor que estiver ao nosso alcance”, inclusive oferecer “um ombro amigo, uma conversa, uma demonstração de solidariedade”. Texto 06/04/2021.

finalizado

em

Resende Costa adere a consórcio nacional para compra de vacina contra Covid-19 VANUZA RESENDE

Resende Costa é um dos 1.820 municípios do Brasil que integram o Consórcio Nacional de Vacinas das Cidades Brasileiras (Conectar), liderado pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP). A proposta do consórcio é complementar o Plano Nacional de Imunização (PNI), caso o governo federal não consiga suprir a demanda nacional. De acordo com o grupo de municípios, há três alternativas de financiamento para compra das vacinas: repasses de verbas federais, inclusive decorrentes de emendas parlamentares; doações nacionais e internacionais e, eventualmente, recursos dos próprios municípios consorciados. As

ações para compra serão definidas pela assembleia geral e executadas pelo responsável direto pelo consórcio. A cidade aderiu ao programa através do Projeto de Lei nº 30/2021, votado na reunião ordinária do dia 19 de março último. O presidente da Câmara Municipal, vereador João Dias (MDB), falou sobre a aprovação do PL. “Todos os vereadores ressaltaram em suas considerações a importância do projeto e ele foi aprovado por unanimidade, resultando na Lei Municipal nº 4.744/2021”. João Dias destacou a importância do município de ter aderido ao consórcio. “Precisamos combater o avanço da pandemia e buscar todas as formas de enfrentamento. Não é fácil reunir tantos municípios

de todo o país, e essa união mostra toda a força para resolver o problema. A população clama pela vacina e pela saúde, sendo obrigação dos representantes buscar meios de fornecê-la. O consórcio tem como finalidade, além da aquisição de vacinas para o combate à pandemia do coronavírus e suas variantes, a aquisição de medicamentos, insumos e equipamentos da área da saúde em geral”. No entanto, até o fechamento desta reportagem, ainda não havia sido definido qual o valor do recurso a ser investido e qual a possível quantidade de vacinas a ser adquirida. “O protocolo para participar do consórcio dos municípios foi possível depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) autorizou que estados e municípios pudes-

sem comprar e distribuir doses da vacina imunizante. Essa permissão vale, caso o governo federal não cumpra com o Plano Nacional de Imunização, ou caso as doses previstas sejam insuficientes. Depois que o consórcio for instituído, surgirá uma nova pessoa jurídica estruturada para executar as suas finalidades. Sendo assim, não há, a princípio, como saber a quantidade de doses a serem adquiridas”, explica João Dias. Também ainda não se decidiu qual vacina seria adquirida pelo município. O presidente da Casa Legislativa de Resende Costa destacou ainda outras ações tomadas pela Câmara ao longo da pandemia. “Aprovamos convênio entre a Prefeitura e o Hospital Nossa Senhora do Rosário, com o objetivo de ceder

uso de equipamentos para propiciar atendimento adequado aos eventuais pacientes internados na unidade com suspeita ou em tratamento de doenças respiratórias decorrentes do coronavírus. Aprovamos também, por unanimidade, a contratação de profissionais técnicos em enfermagem para atender a demanda de vacinação contra a Covid-19, bem como realizamos a aprovação de projeto do Executivo para o incremento temporário na execução de ações socioassistenciais devido à situação de emergência em saúde pública decorrente do coronavírus. Tudo que for possível fazer, dentro da lei, pode ter certeza de que não mediremos esforços a fim de ajudar no combate à pandemia em nosso município”, conclui o vereador João Dias.


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O verso e o controverso JOÃO MAGALHÃES

A antiga poesia litúrgica católica – parte 3: “Stabat Mater” O Hino Escrevo às vésperas da Semana Santa. Claro que o tema será a dor de uma mãe que presencia seu filho morrendo numa cruz: o “Stabat Mater”, considerado um dos sete maiores hinos latinos de todos os tempos. O texto é baseado na profecia de Simeão, quando da apresentação de Jesus no templo: “E a ti, uma espada traspassará tua alma” (Lc 2,35). Trata-se, portanto, de um hino em honra a Nossa Senhora das Dores, composto no século XIII, auge da devoção franciscana a Jesus Crucificado. O Autor Embora atribuído a outros, grande parte dos pesquisadores considera Jacopone de Todi como o autor real. Jacopone nasceu em Todi, Itália, região da Úmbria. Nobre por parte paterna e materna. Vida surpreendente, com aspectos novelescos. Filho de mãe protetora e de pai severo, ele estudou direito em Bolonha. Aí,

leva uma vida dissoluta, acompanheirando-se com os estudantes da Universidade. Enriquece como advogado dos abonados. Casa-se com uma rica e muito piedosa jovem de Todi, mas, em 1268, sua vida sofre uma reviravolta. Num dia de jogos públicos em Todi, o palanque de madeira dos assistentes privilegiados desmorona. Entre as vítimas mortais, sua jovem esposa. Ao socorrê-la, tira suas vestes e percebe, na cintura dela, um cilício (cordão de crina de cavalo com farpas, amarrado no corpo para fazer penitência). Mortificação, assim interpretada, para expiar os pecados do marido Giácomo (Jacopone). Sente-se culpado e modifica radicalmente seu comportamento. O excesso de dor praticamente o enlouquece. Vende todos os bens e distribui tudo aos mais pobres. Homem de rua, coberto de andrajos, ridicularizado pelos meninos que o chamavam pejorativamente de “o doido Jacopone”! Dedica-se ao catolicismo popular, mas estuda profundamente

a teologia. Entra para a Ordem III Franciscana e após dez anos – 1278 – foi admitido entre os Frades Menores Franciscanos. A Ordem de São Francisco e a Igreja Católica vivem profunda crise. A Ordem, uma divisão: uns querem uma regra (leis que regem uma instituição religiosa) mais branda, outros propugnam uma vida disciplinar e práticas severas. Os primeiros eram chamados de conventuais, os segundos, Irmãos Espirituais. A Igreja, com 27 meses de vacância do papado, elege o eremita Pedro Murrone, que adota o nome de Celestino V, mas que renuncia poucos meses depois. Sucede-o Bonifácio VIII, que governa sob intensa oposição. Jacopone está entre os opositores ferrenhos. Preso e excomungado por críticas, só em 23/12/1303 o sucessor de Bonifácio, o Papa Bento XI, revoga sua prisão e excomunhão. A Estética O poema se organiza em 10

estrofes de 6 versos. Sextilhas rimadas no esquema AAB – CCB. AA: e CC: rimas perfeitas: B: rimas imperfeitas. Estrutura poética que agradou aos ouvidos populares. Poesia cantada não só nas igrejas, mas também nos grupos de romaria, nas rezas grupais etc. A força poética do poema-hino é uma pedra lançada num lago, formando ciclos e interagindo com outras formas de arte: pintura, escultura, arquitetura, teatro. Sobretudo, intumesceu as veias melódicas de compositores renomados, gerando inúmeras composições sacras, ditas eruditas: Pergolesi –Vivaldi – Rossini – Dvorak – Alessandro Scarlatti – Karl Jenkins – Fedele Fenaroli – Brunetti – Rheinberger – Perosi – Zoltan Kodaly – Agostino Stefani – Boccherini – Caldara – Tartini – Juan Mathias (compositor indígena mexicano). São os que conheço. Deve haver mais. O padre Heitor Pedrosa (“Nos Esplendores da Poesia Litúrgica”), na extensa análise de cada verso, comenta: “Jacopone, com um senso muito agudo e

profundo do coração humano, alterna e combina as considerações psicológicas com intuito sensível, isto é, com contemplação direta e espontânea: análise objetiva com a prece, o presente com o futuro, a fé com o misticismo, a alma com o corpo, o tempo com a eternidade.” Prossegue o padre Pedrosa em sua análise: “O Stabat é o poema imortal das augustas dores de Maria, o poema que todos os cristãos jovens e velhos, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, repetem com as mais suaves emoções da alma; é o poema cujo ritmo, quando embebido na música popular, nas notas profundamente patéticas da cantilena eclesiástica, em sua simplicidade ingênua faz reverdecer a esperança em tantas almas desconsoladas e reanima a fé em tantos espíritos abatidos pelo infortúnio.”

A íntegra do texto latino com a respectiva tradução está no site do Jornal das Lajes.

De olho na cidade EDÉSIO DE LARA MELO

No último mês de março, o historiador Olinto Rodrigues dos Santos Filho publicou um texto no Facebook da paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, da nossa cidade. Nele, Olinto destaca os trabalhos de restauro do retábulo do altar-mor da matriz, que vem sendo realizados desde 3 de novembro do ano passado. A obra fundamental, devido ao estado crítico de conservação em que o retábulo se encontrava, custeada pela prefeitura municipal em parceria com a paróquia, foi aprovada pelo Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura. Apoiado em pesquisa realizada, basicamente nos livros de tombo da paróquia, o historiador relaciona uma série de eventos ocorridos desde meados do século XVIII até o momento. Lá estão, bem delineadas, ações promovidas por religiosos e parte significante da sociedade local que se empenharam na construção da igreja, aquisição de bens materiais, tais como imagens de santos, pinturas e objetos diversos de grande valor e de uso contínuo do sacerdote e de seus auxiliares. Algumas informações chamaram a minha atenção: são as que destacam a atuação de sacerdotes e de músicos quando do estabelecimento da paróquia no Distrito da Lage, ocorrida em 1840. Naquela época, o distrito, instalado em 1836, pertencia à Vila de São José do Rio das Mortes (Tiradentes). E

era de lá que vinham os padres e os músicos para atuarem em cerimônias tão apreciadas pelos católicos e realizadas ao longo de cada ano. Santos Filho aponta que, em 1848, Francisco de Souza foi contratado para organizar a música para a Festa de Passos e José Joaquim do Nascimento, em 1852, para exercer a mesma função na Celebração de Passos. Somente na segunda metade do século XIX, de acordo com os documentos de que dispomos, é que começaram a surgir os músicos nascidos na Lage capazes de atuar como maestros, compositores, instrumentistas e cantores e também de atender às demandas surgidas no lugar, tais como as cerimônias promovidas pelas irmandades no âmbito da Igreja Católica ou em festas populares. É importante dizer que não só da música sacra se incumbiram os artistas naquela época. Os mesmos músicos que cantavam e tocavam na igreja eram os que saíam pela vila a fazer serenatas, participar de saraus, tocar em bailes realizados em ambiente familiar, quando as moças dançavam sob olhares atentos dos pais, principalmente. Parte significativa de material musical impresso, como valsas, tangos, boleros, maxixes, vinha de fora, era produzida no exterior. Quase sempre, sua circulação se dava por meio de cópias feitas por copistas. Querem um exemplo? Há no

arquivo deixado pelo maestro Joaquim Pinto Lara uma das partituras de música mais antigas que temos na cidade. Trata-se de El sol de Sevilla, obra composta para canto e piano, manuscrito assinado por Neto em trabalho realizado na Lage no dia 13 de outubro de 1875. A música é do espanhol Sebastián Iradier Salaverri (1809-1865), que se tornou conhecido pelas suas habaneras. A habanera, uma dança canção cubana, é assim conhecida em virtude da sua associação ao nome da capital de Cuba. Esse gênero, de andamento moderado, mais lento, conquistou o gosto de espanhóis e franceses ao longo do século XIX. Pelo visto, dos brasileiros também. Observando as datas, o trabalho do copista na Lage se deu exatamente dez anos após a morte do compositor. O manuscrito, com medidas 34 x 32 centímetros, escrito a tinta, apresenta desgaste natural do papel, merecendo tratamento adequado e guarda permanente. Ele é testemunho claro de que no Distrito da Lage, além da música para o cerimonial litúrgico ou paralitúrgico, praticava-se também a boa música profana da época. Por fim, ficam perguntas no ar: quem foi o copista Neto? Qual casa, ou fazenda da Lage possuía um piano para que a música pudesse ser interpretada? E mais: Quem cantou e quem se ocupou de tocá-

Foto: arquivo Edésio de Lara Melo

El sol de Sevilla

Partitura de El sol de Sevilla

-la no piano? Teria sido o copista Neto o cantor ou o pianista? Historiadores, musicólogos ou outros pesquisadores podem, em algum momento, responder essas pergun-

tas. Se nos dedicarmos ao estudo do que nos resta de documentos antigos, passaremos a conhecer mais e melhor sobre as nossas origens.


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A teia do mundo

Contemplando as palavras

JOSÉ ANTÔNIO*

REGINA COELHO

Cafona... Assim o brega era chamado nos anos 70. Tinha outras designações: boko-moko, careta... Mas o cafona pegou. Teve até uma novela com esse nome. Até hoje não sei precisar o que significa “cafona”. Você sabe precisar o que é brega? Então. A coisa vai por aí. Alguns diziam, naqueles anos 70, que cafona era o que estava anacrônico. Porém, nem tudo o que é do passado é cafona. Beethoven é cafona? Ou ainda: Beethoven é do passado? Beethoven é anacrônico? Por outro lado, algumas coisas anacrônicas não são cafonas. Por exemplo, a palavra “anacrônico” é cafona. Houve mais chutes semânticos: cafona é o mau gosto. E aí eu penso no funk. Não é cafona nem é gosto requintado. Penso ainda nos canais abertos de TV: preciosos testemunhos do mau gosto, mas não acho que sejam cafonas. Um dia, alguém me disse que o cafona é o feio que deu certo. Sei lá, sou mais radical. Pra mim, o cafona é o incerto que deu feio. Está vendo como a questão é relativa? Tudo é relativo, já dizia o Einstein, aquele que tirou uma foto que ficou cafona, olhando pra gente e com meio metro de língua pra fora. Os tempos mudam e os costumes também. O que era moda ontem passa a ser démodé hoje. Concordo com o velho e bom Machado: os anéis vão embora, mas os dedos ficam. O que atrapalha é que sempre fica um dedo

100 anos enfiado no nariz. Talvez isso seja o cafona: teimar em fazer bobagem achando que é coisa chique. Tenho cá minhas cafonices, mas também tenho o direito de perceber a cafonice alheia. Acho cafona o cara dirigir o carro com o som naquela altura. Cafonice irritante. Ninguém admira. Ninguém gosta. Ninguém acha bonito. Outra cafonice: fotografar, ginecologicamente, a esposa na hora do parto. Tem gente que exibe essa cafonice em álbum e sai mostrando pra todo mundo. É aquela mistura de sangue, placenta, algodão, mãos, carne humana, secreções... e lá no meio um bebê chorão, inchado e amarrado por um cordão umbilical. E a mulher ainda permite que seu íntimo seja mostrado a olhos mais curiosos do que admiradores. Puro mau gosto. Cafonice. Quer mais uma? Casal de recém-casados tirando foto depois do casamento, olhando pra trás no vidro traseiro do carro. Sem falar nas fotos do beijo no altar: às vezes o retrato é uma detalhada aula de higiene bucal recíproca. Cafona. A gente vai vivendo e acaba criando umas filosofias. Tenho algumas comigo. Uma delas é: “Ou você aparece bem ou não aparece.” Não é somente a primeira impressão que fica. As outras também ficam. Ou você aparece bem ou não aparece... talvez o cafona seja o meio termo disso aí.

*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Membro da Academia de Letras de São João del-Rei. E-mail: jresende@mgconecta.com.br

Muita gente em nossa cidade há de se lembrar, especialmente os mais antigos, do Tonico Chalé (1878 – 1959) ou conhecer variadas histórias envolvendo sua exclusivíssima personalidade. Segundo o primo Alair (Côelho de Resende), em livro sobre os casos e causos do tio Totonho (seu pai), nosso avô era um “homem de poucas letras, porém possuidor de uma inteligência fulgurante que o transformou em um comerciante dos mais hábeis. Era extremamente franco, e suas respostas, seu modo de ser e proceder diante de quaisquer situações e pessoas fizeram dele uma das mais populares e respeitadas pessoas de Resende Costa”. Tirado do vasto repertório de casos em que o estilo Tonico Chalé se fez presente, o Celso Reis, outro primo querido, revive um episódio engraçado que ele próprio presenciou e assim narrou: “Houve uma briga dentro lá da sinuca (do botequim) entre o Dedete do Barbosinha e o Zé do ‘Olício’ (na verdade, Zé do Ulisses de Melo, seleiro). Eles estavam jogando a valer e de repente eles se desentenderam. E passaram a mão nos tacos para brigar. O vovô saiu lá de dentro e passou a mão em duas trancas daquelas (provavelmente enormes). E falou: – Larga os meus taco aí! Toma! Uma tranca pra um, a outra pro outro. Vai lá pra rua e pode brigar lá, aqui não! E botou os dois pra fora”, concluiu, rindo, o Celso. Nascidos do casal Cotinha e Tonico Chalé, 10 dos seus filhos chegaram à idade adulta, tendo vindo ao mundo na seguinte ordem cronológica e recebido nomes iniciados em A: Aurélio, Aristóteles,

Abigail, Acrízia, Adhemar, Alzira, Aracy, Adenor, Argemiro e Arlindo. Entre eles, nessa turma, encontra-se meu pai, Adenor. Por seu casamento com minha mãe nasceu sua própria família, também numerosa, a exemplo daquela da qual se originou a nossa, ambas com endereço, em tempos e pontos distintos, é certo, na Rua Gonçalves Pinto, cenário principal de grande parte dos acontecimentos vividos pelo nosso imenso clã. Comerciante como o pai, Papai foi formando com Mamãe e com os filhos o nosso time de 11. Inesquecíveis anos de uma época sem igual. Ver os pais ora no comando, na responsabilidade do lar, ora na retaguarda, no amparo aos filhos em posturas voltadas à vida deles é o melhor dos mundos. Mudam os tempos. Não, os pais. Particularmente em relação ao seu “Adenor”, vêm-me agora algumas singelas lembranças. Uma delas de quando íamos juntos, ele dirigindo, para o Papagaio (nosso sítio). Antes, ele parava próximo a um supermercado. E me pedia que entrasse lá e comprasse o nosso lanche. Bastava isso para o então motorista se sentar no meu anterior lugar (ao lado dele) e deixar a direção do carro para mim. Era esse o seu jeito de me incentivar a dirigir, coisa que ele queria muito mais do que eu mesma. Um outro momento me leva a dezembro de 2001. Papai estava internado no Hospital das Mercês, em São João del-Rei, porque havia sofrido um segundo AVC, mas estava bem. A gente se revezava ao lhe fazer companhia. Certa tarde, saí de Resende Costa para cumprir meu horário

Foto: Arquivo familiar

Cafona

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Sr. Adenor de Assis Coelho

com ele e por lá passar a noite. Como era período de muito aperto na escola, levei uma pasta cheia de provas à espera da devida correção. Instalei-me com elas num canto do apartamento. Um olho no paciente, o outro nas provas. Foi aí que a Dr.ª Maurília (cardiologista) entrou e, sem que ela lhe perguntasse nada sobre mim, ele foi logo lhe dizendo: “– Essa aí é minha filha, doutora. É professora de português, e das boas!”, revelando todo o orgulho que os pais normalmente têm dos filhos. O mesmo orgulho estendido em relação aos netos e levado, certa época, no bolso das camisas que usava, onde guardava cópia do recorte de um jornal (Diário Oficial do Estado) a ser mostrado aos mais próximos. Ali se comprovava a aprovação do Crístian no concurso para o Cartório do 1º Ofício de Notas de Resende Costa. Esses breves e esparsos fragmentos de revelações familiares se propõem a ser uma homenagem a meu pai, Adenor de Assis Coelho, cujo centenário de nascimento tem registro precisamente neste 24 de abril de 2021.


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ANO XVIII Nº 216 - ABRIL 2021

Meio Ambiente

Voluntários há 20 anos contra degradação da Serra do Lenheiro

Em CXC, alunos de escola estadual selecionados para projeto ambiental

Foto: Arquivo pessoal

Voluntários que atuam em projeto de preservação ambiental na Serra do Lenheiro

JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

Ulisses, Miranda, Iago, Edmilson, Betânia e Arlon. Um grupo de voluntários pequeno em tamanho, porém grande em visão e em ações. Eles atuam na histórica Serra do Lenheiro, localizada inteiramente no município de São João del-Rei. O grupo tem o propósito de estancar a crescente degradação da Serra, evidenciada em problemas como esgoto, especulação imobiliária, danos ao patrimônio por motos de aventura, incêndios anuais, destruição de plantios de árvores, acúmulo de lixo e escassez de água. A Serra do Lenheiro esteve na base da constituição da cidade: por ser “caminho do sertão”, passaram os primeiros bandeirantes, inclusive o fundador Tomé Portes del-Rei; foi nela que surgiu o primeiro núcleo de povoamento; foi polo de exploração de ouro no período colonial e forneceu matéria-prima (pedra e madeira) e lenha para as primeiras construções da cidade, de acordo com o geógrafo Arlon Cândido Ferreira em sua dissertação de mestrado. Em meados do ano 2000, o professor Antônio Gaio Sobrinho liderou uma caminhada pela região da Arambinga, na Serra do Lenheiro. A partir daquele momento, Luiz Antônio Sacramento Miranda, técnico em turismo, e Ulisses Passarelli, pesquisador, uniram-se numa intensiva busca e observação das características históricas, geográficas e naturais da Serra. “No primeiro momento, o objetivo era

o conhecimento pessoal, logo estendido para a composição de um roteiro turístico, que revelasse os atrativos ao longo das trilhas.” A equipe foi crescendo. Em sua tenra infância, Iago Christino Salles Passarelli, filho de Ulisses, ingressou no grupo, “crescendo por assim dizer na Serra e contribuindo com as descobertas e, em grande parte, com as fotografias”. O início foi difícil, “com altos e baixos, momentos de mais avanço e outros de lentidão, mas nunca paramos. Promessas de publicação do roteiro fracassaram, mas o trabalho seguiu em contínuo aprimoramento”, revela Ulisses. O ano de 2015 foi decisivo. Ante a ameaça crescente dos processos destrutivos sobre a Serra, Ulisses e Miranda resolveram reconfigurar a pesquisa, dando-lhe o formato de dossiê. “A base inicial dos conhecimentos até então adquiridos foi a estrutura central. Sobre ela, a pesquisa se intensificou extremamente, sobretudo focada no patrimônio arqueológico.” Foi neste momento que o grupo ganhou mais um integrante: Edmilson Rezende de Sales, que se tornou “participante fundamental, pois já tinha larga experiência preservacionista daquele ambiente e vinha fazendo diversos trabalhos em prol da Serra”, conta Ulisses. Em 2018, o grupo foi fortalecido com a entrada da turismóloga Betânia Nascimento Resende, companheira de Ulisses, que tinha igualmente histórico de preservação da Serra. Assim, o grupo de voluntários consolidou-se, diz Ulisses. “Outros

parceiros prestaram colaboração em diversos momentos, ora pontual, outras vezes mais extensa.” É o caso do geógrafo Arlon Cândido Ferreira, “que muito tem colaborado na revelação da geodiversidade do Lenheiro”, tendo já sido incorporado ao grupo. Para além das pesquisas, o grupo realiza continuamente trabalhos de coleta de lixo na Serra e participa de ações, como plantio de mudas de espécies nativas, educação ambiental e patrimonial, controle de danos aos muros de pedras. “A pesquisa de campo (que durou cerca de 20 anos) e a montagem do texto estão concluídas. Estamos em preparativos para divulgação do conteúdo”, conta Ulisses. Dossiê. A ideia é publicar um “dossiê” da Serra, como define Ulisses. O “miolo” será constituído da exposição do levantamento dos bens patrimoniais, com o formato propriamente de inventário, devido ao fichamento da matéria. “Esta sistemática facilitou a exposição e a organização do conteúdo. Também facilita muito a consulta, pois as quarenta fichas estão em ordem alfabética.” O objetivo desse trabalho é revelar as riquezas patrimoniais da Serra, com o intuito de despertar nas pessoas a consciência sobre a necessidade de preservação, resume Ulisses. “Esperamos com isto contribuir para a ampliação do senso de pertencimento da Serra do Lenheiro e seu vínculo identitário à são-joanidade.” A intenção é de que haja uma publicação impressa, com a tota-

Pelo terceiro ano consecutivo, a cada semestre dois alunos do 3º ano do Ensino Médio participam da formação inicial em questões ambientais. Quatro alunos da Escola Estadual Coronel Xavier Chaves são selecionados, anualmente, por meio de uma prova que envolve conteúdos de ecologia, ciências ambientais e redação. Os escolhidos recebem bolsa de incentivo de meio salário mínimo. Os alunos Maria Clara da Silva Xavier e Lucas Augusto Aparecido Beraldo iniciaram suas atividades em janeiro deste ano. O projeto, denominado “Consciência Ambiental”, é fruto da lei municipal 1.194 (de 13/12/2017), de iniciativa da gestão Fúvio Olímpio de Oliveira Pinto. “O objetivo do projeto é que jovens com potencial e ideias inovadoras possam contribuir para a conservação, proteção, preservação do meio ambiente, além da melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, no intuito de formar uma população preocupada com a situação ambiental do município através de iniciativas de educação e sensibilização”, explica Viviane Assunção de Resende, Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente. O processo de seleção (inscrições e provas) é realizado exclusivamente pela EECXC, sob a orientação da professora Maira Assis, ou seja, sem a interferência da prefeitura. Só participam

lidade dos textos e uma seleção de fotografias, e outra digital que some ao texto um amplo documentário fotográfico. Não se trata de obra didática, “embora possa perfeitamente ser usada para ensino. É antes uma obra de referência, dada a amplitude dos assuntos abordados e a profundidade a que neles dedicamos”, explica Ulisses. “Esperamos que seja a semente de mais um movimento ou campanha popular em favor do Lenheiro. Queremos contar com o apoio da comunidade, da imprensa, de instituições e do poder público.” Para isso, o grupo está em busca de parcerias para concretizar o trabalho. “A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural têm sido muito sensíveis e acolhedores.” Ulisses faz questão de enfatizar que o trabalho é totalmente voluntário. A equipe de pesquisa “nunca

alunos interessados e que tenham afinidades com as questões ambientais. “A prova de seleção leva em consideração conhecimentos específicos e, principalmente, a capacidade de interpretação, argumentação, persuasão e também o embasamento teórico do candidato, de forma que sejam selecionados alunos com senso crítico que, de fato, poderão oferecer ideias eficazes”, explica Viviane. Os estudantes desenvolvem seus projetos com total autonomia, conta Viviane. “Os alunos já desenvolveram o projeto da estufa, que foi construída na Usina de Triagem e Compostagem de Lixo, com o objetivo de aproveitar o composto orgânico produzido no local. Estão sendo produzidas mudas de plantas para jardinagem que são usadas na própria cidade e plantio de mudas de árvores nativas que futuramente serão transplantadas para áreas degradadas e para recuperação das margens dos rios que cortam o município. Os meninos já mapearam algumas áreas.” Como parte da aprendizagem, os alunos fizeram visitas a algumas estufas para aprender como fazer adubação, identificar tipos de sementes etc. Também já saíram para coletar sementes de árvores nativas em algumas regiões do município, conta Viviane. “Apesar da pandemia, não paramos o projeto.” J.V.R.

recebeu nenhum subsídio, pro labore, recurso público ou privado para fazer o que faz. Repetimos que é um exercício de voluntariado, uma ação cidadã consciente. Tampouco tem objetivos político-partidários.” “A hora da Serra chegou”. Ulisses repetiu mais de uma vez essa frase durante encontro, no dia 3 de março, por ocasião da “2ª Semana do Patrimônio”, promovida pelo Museu Regional, com a participação do técnico em turismo Luiz Miranda e do professor José Saraiva Cruz, do núcleo ambiental do IF Sul de Minas. Para isso, entretanto, defende uma ampla união que ultrapasse as ações isoladas, congregando escolas, igrejas, associações de bairro, proprietários do entorno, universidades, o poder público municipal e o Ministério Público, entre outros, “por uma causa única que é salvar esse patrimônio maravilhoso.”


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Meio Ambiente

Vereador busca apoios na comunidade para projeto “Refloresta RC” O objetivo é plantar 315 árvores nativas em quatro anos; já foram plantadas 66 mudas JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

“Refloresta RC” é um projeto de reflorestamento idealizado e coordenado pelo vereador Fernando Chaves (PDT), que conta com a parceria de associações, ONGS, voluntários e empresas que atuam no meio rural. Um dos principais aliados é o Instituto Rio Santo Antônio (IRIS), associação ambiental e cultural que atua há mais de dez anos em Resende Costa. Ciente de que o mandato de vereador é limitado em termos de recursos e de estrutura pública para trabalhar, Fernando optou por envolver a comunidade no desenvolvimento das ações do projeto. A meta é plantar, pelo menos, 315 árvores em quatro anos. “Mas, pela energia que estou sentindo das pessoas e pelos apoios que estou recebendo, acredito que podemos ir bem além disso”, comemora. Plantios. Neste início de ano, já foram plantadas 66 mudas: 64 em áreas de preservação permanente e duas em zona urbana. “Vamos concentrar a maioria dos plantios no período chuvoso (verão)”, conta Fernando Chaves. O plantio mais robusto até agora foi de 50 mudas nativas em parceria com a Meta Construtora. A empresa disponibilizou o terreno na margem esquerda do Rio Santo Antônio, bem como a mão de obra, para que fosse realizado o plantio. Desde 2016, quando a empresa adquiriu o imóvel, “buscamos junto aos órgãos ambientais legais as devidas licenças para explorarmos a extração de areia no leito do rio”, conta o engenheiro civil Márcio Iago Pinto. Ele acrescenta: “Após todas as licenças exigidas estarem em dia, iniciamos os trabalhos e, como medida compensatória, fizemos o cercamento de toda a APP (área de preservação ambiental) nas margens do rio em nosso domínio. No

programa de recomposição da APP proposto pela empresa, iríamos cercar e deixar que a vegetação nativa se regenerasse.” Então surgiu o projeto “Refloresta RC” e a parceria com Fernando Chaves viabilizou o plantio das 50 mudas, explica Márcio. “Hoje dispomos de três colaboradores que, durante algum tempo da semana, fazem a vistoria no local plantado. Já podemos observar que nenhuma muda foi perdida, fizemos o controle de pragas, como formigas, e as mudas já possuem hoje em média um metro de altura cada e, com certeza, farão grande diferença para o local.” Também foram plantadas 12 mudas nativas no terreno do geógrafo e professor Adriano Valério, numa área de recarga de nascentes que alimentam o Ribeirão Mosquito, principal afluente à margem esquerda do Rio Santo Antônio. Adriano também é voluntário do IRIS. “O plantio de árvore é uma de nossas ações já realizadas desde o início. A proposta do vereador Fernando Chaves de plantar mudas nativas veio ao encontro do objetivo da Associação. Então, estamos em parceria com ele”, diz Adriano. Esse tipo de projeto é de grande importância para o nosso município, reforça Márcio Pinto, que é o responsável pela área ambiental da Meta. “Temos um projeto frutífero também para a região, onde estaremos plantando frutas nas margens do rio, o que fará com que animais se alimentem nessas matas, beneficiando não só o meio ambiente como também toda a fauna existente na região.” Mudas. As mudas plantadas são nativas da região e escolhidas com auxílio da diretoria técnica do IRIS, bem como dos viveiros que fornecem para o projeto, explica Fernando. “Já recebemos doações de mudas do IEF (Instituto Estadual de Florestas) e do viveiro da Fazenda do Pombal, na Floresta Nacional de Ritápolis.”

Há também mudas doadas por voluntários, como Antônio de Pádua (o Toninho do Apiário de Pádua), e a professora Janete Castro. Outros participam dos plantios e há o voluntário que inscreve seu terreno para fazer parte do projeto de reflorestamento. O primeiro passo é a definição do local onde se vai plantar, explica o geógrafo Adriano Valério. “Se for numa praça ou numa área vista por pessoas, é sempre bom plantar árvores que dão flores em uma época do ano, pois o que importa é o visual. Podem ser plantadas algumas espécies, como quaresmeira, ipês (amarelos, roxos, rosa, brancos), sibipiruna (tem uma flor pequena e amarela), espatódea (aquela que tem na pracinha central da cidade, de flor vermelha) e o flamboiã. As duas últimas não são nativas do Brasil, mas não tem problema, são árvores paisagísticas.” Em caso de áreas rurais, a prioridade deve ser por espécies nativas. “Mas é bom plantar árvores frutíferas também, pois servem de alimento para os animais, como mangas, jambos, goiabas, ameixas etc.”, orienta Adriano Valério. Espécies nativas da categoria denominada “pioneiras” não são plantadas porque surgem naturalmente, como o assa-peixe, explica o professor. “Quanto às (categorias) secundárias e clímax, não é feita muita distinção por nós; isso é uma questão muito técnica. O que se faz é a separação de árvores que gostam de áreas mais úmidas, como aroeira, sangra d’água, pau-pombo, mangue e a canela. Enfim, a gente planta as espécies que estiverem disponíveis no Horto de Resende Costa.” Escolas. O vereador Fernando Chaves informa que estão sendo inscritas as pessoas que possuam um terreno com área de preservação perFotos: Arquivo Fernando Chaves

Imagens de ações do projeto Refloresta RC

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Barroso lidera emissões de gases poluentes na região Barroso (493.190 toneladas) e São João del-Rei (315.659 toneladas) são os dois municípios campeões em gases de efeito estufa (GEE) na microrregião do Campo das Vertentes. Os 18 municípios da região, juntos, emitem 1,7 milhão de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e). A emissão de carbono na atmosfera está diretamente ligada ao aquecimento global. São números modestos quando comparados aos 172 milhões de toneladas emitidos, juntos, pelos dez municípios campeões de GEE do Brasil. O município que mais emite no Brasil é São Félix do Xingu (PA), com 29,7 milhões de toneladas brutas de CO2e. Em Minas Gerais, Vespasiano (3,36 milhões de t) e Belo Horizonte (3,13 milhões de t) estão na dianteira. Os dados constam da primeira edição do SEEG Municípios, uma iniciativa inédita do Observatório do Clima. O SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) calculou as emissões de GEE de todos os 5.570 municípios brasileiros. O levantamento, que cobre os anos de 2000 a 2018, é detalhado para mais de uma centena de fontes de emissões nos setores de energia (em especial os transportes), indústria, agropecuária, tratamento de resíduos (lixo) e mudanças de uso da terra e florestas. Em Barroso, sede de unidade da Holcim (produtora de cimento e concreto), a indústria responde pela emissão de 297.579 toneladas de CO2e, seguida do setor de energia (176.595 t). Em São João del-Rei, a agropecuária lidera com 121.939 toneladas, seguida de energia (84.760 t), resíduos (60.517 t) e mudanças de uso da

manente ou reserva legal e queiram fazer plantio de espécies nativas nessas áreas. “Nós priorizamos APPs e reservas legais.” Ele considera essencial que a área esteja devidamente cercada para evitar o pisoteio de animais. “O projeto está buscando parceria para obter possíveis doações de mourões e arame para estimular o cercamento de nascentes e áreas de preservação. Mas por enquanto estamos priori-

terra e florestas (48.443 t). Na classificação regional, Lagoa Dourada (com 106.551 t) aparece em terceiro lugar. A agropecuária lidera com 71.883 toneladas, seguida de mudanças de uso da terra e florestas (18.910 t). Em quarto lugar, aparece São Tiago (97.774 t), com destaque para a agropecuária (94.491 t). Resende Costa responde pela emissão de 82.139 toneladas brutas de gás carbônico equivalente. Agropecuária é o setor que mais emite (53.053 toneladas), seguida de mudanças de uso da terra e florestas (17.835 t), resíduos (6.555 t) e energia (4.696 t). Utilidade. Esta é a primeira vez que se enxergam as emissões na esfera municipal e a primeira vez que um levantamento desse tipo é feito para um país continental. O objetivo é aumentar o conhecimento de prefeitos, câmaras de vereadores e da sociedade local de todo o país sobre a dinâmica das emissões e prover uma ferramenta para o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento municipal com redução de carbono. “Até hoje, menos de 5% dos municípios brasileiros tinham algum inventário de emissões de gases de efeito estufa. Agora todos terão os dados para uma série de 20 anos e esperamos que isso sirva de estímulo para promover o desenvolvimento local, com redução das emissões e enfrentamento das mudanças climáticas”, explica Tasso Azevedo, coordenador-geral do SEEG. “Como os dados são disponibilizados de forma aberta e gratuita, significam também uma enorme economia de recursos públicos, que podem ser focados nas ações para reduzir emissões.” J.V.R.

zando terrenos já cercados.” Fernando pretende envolver escolas e outras entidades, futuramente, assim que for superada a pandemia da Covid-19. “O objetivo do projeto é realizar ações de reflorestamento, em especial em áreas que estejam necessitando de recuperação, promovendo também a educação ambiental durante o processo e dando foco para o aspecto educativo e pedagógico dos plantios.”


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Meio Ambiente

ADRIANO VALÉRIO RESENDE

A água e sua gestão A água é o bem mineral mais importante para o ser humano. Ela é fundamental para toda a vida animal e vegetal do planeta. No dia 22 de março é celebrado o seu Dia Mundial. Neste ano, por causa da pandemia, não tivemos encontros nem ações para comemorá-lo. No entanto, aconteceram diversos eventos virtuais sobre o assunto, sendo várias temáticas debatidas, dentre elas: chuvas, qualidade de água, nível dos reservatórios, esgotamento sanitário, gestão, políticas públicas, degradação ambiental. Vamos tratar aqui de uma questão muito importante, mas, infelizmente, ainda pouco conhecida pela sociedade: planejamento e gestão da água enquanto recurso socioeconômico. Historicamente, a Constituição Federal de 1988 foi um marco no que tange aos recursos hídricos, ou seja, a água deixou de ser de domínio privado para ser pública, de dominialidade da União ou do Estado. Assim,

para utilizá-la, devemos ter autorização da Agência Nacional de Águas (ANA) ou do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), mesmo que ela provenha de nossa propriedade. Cabe destacar que não existe recurso hídrico que pertença aos municípios. Para regulamentar a gestão dos recursos hídricos, prevista na Constituição, a União e os Estados promulgaram leis específicas visando à implementação das Políticas Nacional e Estaduais de Recursos Hídricos. A chamada Lei das Águas (Lei Federal 9.433/97), de inspiração francesa, estabeleceu que o planejamento e a gestão devem acontecer de forma regional, isto é, por bacias hidrográficas. Para isso, dentro de cada uma dessas unidades de gestão foram criados os Comitês de Bacia Hidrográfica (CBHs), um fórum democrático e permanente de debate e de negociação, o “parlamento das águas”.

Na composição de um CBH devem estar presentes representantes do poder público (municipal, estadual e federal), dos usuários de água (que possuem Outorga) e da sociedade civil organizada. Ressalta-se que, como o município de Resende Costa é drenado por três bacias (dos rios Pará, Paraopeba e das Mortes), é área de atuação de três comitês estaduais (CBHs Pará, Paraopeba e Vertentes do Rio Grande) e dois federais (rios São Francisco e Grande). A Prefeitura Municipal já participou dos CBHs estaduais Pará e Vertentes do Rio Grande. Já o IRIS (Instituto Rio Santo Antônio) representa Resende Costa no CBH Vertentes do Rio Grande desde 2011 e a nossa região no CBH Grande desde 2016. Para implementação da Política de Recursos Hídricos, a Lei das Águas estabeleceu alguns instrumentos de gestão. Dentre os principais, o primeiro são os Planos Diretores, que contemplam os estudos das bacias hidro-

gráficas com as propostas técnicas para intervenção (Planos de Ações). Segundo: enquadramento dos corpos de água em classes, o que estabelece o padrão de qualidade das águas. Terceiro: Outorgas, as autorizações legais para intervenção nos recursos hídricos. O quarto é a cobrança pela utilização da água. O quinto é o Sistema de Informações, que são os canais de comunicação. Esses instrumentos de gestão, apesar dos percalços, estão sendo executados em Minas Gerais sob a coordenação do IGAM. Especificamente na bacia do Rio Grande, ainda não foi implantada a cobrança pela utilização da água. Segundo a Lei Estadual nº 13.199/1999, sujeita-se à cobrança pelo uso da água aquele que utilizar, consumir ou poluir recursos hídricos. A cobrança será feita inicialmente pelo Estado, através do IGAM, e depois diretamente pelos CBHs. A função da cobrança é manter a estrutura

administrativa e operacional dos comitês (7,5% do valor arrecadado) e financiar os projetos socioambientais previstos no Plano Diretor. Por exemplo, a área de atuação do CBH Vertentes é de 42 municípios, totalizando quase 600 mil habitantes. A previsão de arrecadação na bacia é de um pouco mais de um milhão de reais por ano, sendo o setor de saneamento (captação de água e esgotamento sanitário) responsável por quase 80% desse valor. Destaca-se que para a vertente mineira do rio Grande, composta por oito comitês, a previsão é de sete milhões. No último dia 23 de março, foram publicadas as regras para a cobrança em Minas Gerais, por meio do Decreto 48.160/2021. Nesse sentido, está posto o novo desafio para os gestores das águas da bacia do rio Grande: gerenciar os recursos que serão arrecadados visando à melhoria da qualidade socioambiental da nossa região.

com o baterista Tutty Moreno. Além disso, a caixa possui quatro CDs: “Feminina” (1980), “Água e Luz” (1981), “Tardes Cariocas” (1983) e “Saudades do Futuro” (1985). O terceiro simplesmente não está disponível no streaming. Finalmente, os dois primeiros aparecem com uma capa errada. Mais do que uma tremenda falta de respeito com a artista e seu trabalho, é uma parte da nossa rica música que vai sendo apagada e o acesso negado às futuras gerações. Não me tomem como um saudosista que resiste às tecnologias. Gosto muito do streaming pela praticidade e pelo universo de possibilidades que ele me abre. Porém, a forma como essas plataformas operam precisa ser revista urgentemente. O primeiro grande problema é a remuneração pífia aos artistas, em especial os pequenos e independentes, que, ao fim de um ano, recolhem no máximo uns

poucos reais e, mesmo assim, se conseguirem muitas execuções de suas músicas. Isso dificulta qualquer artista viver da sua arte e continuar produzindo material de qualidade. Com a pandemia, durante a qual os shows foram proibidos, o problema da remuneração ficou escancarado. Artistas são necessários e seu trabalho movimenta toda uma indústria. Ou o streaming se ajusta para pagar valores mais justos, ou estamos alimentando um modelo insustentável, em que só os artistas de grande repercussão poderão se sustentar. E não vamos depois reclamar que caiu o nível da música. Além disso, a falta de informação sobre os álbuns e a desorganização dos catálogos só atrapalham e uma parte da história dos artistas e seus álbuns vão sumindo. Eu sempre preciso recorrer à internet e à Wikipedia para pesquisas sobre determinado artista ou grupo, até para

saber coisas básicas, como qual álbum foi lançado primeiro, pois nem isso costuma aparecer corretamente no streaming. Finalmente, quando faltam discos no catálogo, a possibilidade de ouvi-los vai se complicando, já que, por razões que desconheço, o CD está sumindo no Brasil. Enquanto esse formato segue firme em outros países, com várias lojas vendendo CDs novos, aqui até as grandes gravadoras estão deixando de lançar novidades. Considerando que o preço do vinil, mesmo o nacional, é alto, quando ficamos restritos aos CDs importados, o preço começa a ficar proibitivo. Por isso tudo, eu acho que precisamos de discos. Curto e ouço muita coisa em streaming, mas, sem mudanças nas plataformas estamos perdendo oportunidades e apagando a nossa história recente. O que virá depois? É difícil prever. Mas algo precisa acontecer.

Trilha sonora RENATO RUAS PINTO

Precisamos de discos Bem, ao menos eu preciso. Gosto de ouvir música e ter informações sobre o que está tocando e não abro mão de ter um encarte e poder admirar a capa. Alguém pode até argumentar que isso seria coisa de fanático e que um ouvinte casual só quer escutar música e pronto. E talvez seja verdade, visto que muita gente sempre ficou satisfeita de ouvir sua música favorita no rádio e depois migrou para os tocadores de mp3 e, recentemente, para o Spotify e outros serviços de streaming. Mas a minha preocupação é que se o formato do streaming não for revisto, pode contribuir para apagar parte de nossa memória cultural. Por esses dias, eu comprei uma caixa de CDs da grande compositora e cantora Joyce Moreno, com quatro álbuns lançados por ela nos anos 80, remasterizados. Feliz com a aquisição, já estava preparando para tirar uma foto e compartilhar nas

redes sociais, quando comecei a analisar o conteúdo com cuidado e as reflexões que se seguiram me levaram a escrever este texto. Nos CDs foi incluída uma reprodução dos encartes originais, além das letras e créditos aos músicos envolvidos. Não é uma edição de luxo, mas é um trabalho muito bem executado, promovido pelo selo “Discobertas”, do pesquisador Marcelo Froes, sobre o qual já escrevi nessa coluna. E aí alguém pode me questionar: “Mas se não preciso do encarte, é só abrir no Spotify”. Pode tentar, caro leitor, mas já adianto que o sucesso será parcial. E é quando se percebe que essas plataformas precisam melhorar e muito. O problema começa na organização do acervo da Joyce. Parte dos seus discos está sob nome artístico “Joyce”, como ela começou a carreira, e outra como “Joyce Moreno”, que ela adotou após se casar


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ECONOMIA & NEGÓCIOS

Em Resende, produtores de uva podem ganhar mais ao engarrafar seu produto JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

O município de Resende, às margens do rio Douro, na região norte de Portugal, tem perto de 1.000 produtores de uva, mais do que o vizinho Baião (cerca de 800 produtores). Porém, em Baião há 53 engarrafadores de vinho contra apenas 9 em Resende, de acordo com a Comissão Vitivinícola dos Vinhos Verdes. “Eu deixo, mais uma vez, o

alerta aos nossos produtores de uva, que existe aqui uma janela de oportunidades; que pensem em engarrafar efetivamente o seu vinho”, disse Anabela Oliveira, vice-presidente da Associação Empresarial de Resende (AER), em seu último programa mensal (26/03) na Rádio Resende FM. “O reconhecimento de uma marca (rótulo) pode dar uma rentabilidade financeira a quem está associado a este produto.” O comentário de Anabela foi inspirado na notícia do semanário Expresso (19/03) sobre o movimento “Marcas por Portugal”, liderado

por 21 personalidades, entre elas grandes empresários do país. Trata-se de valorizar ou fortalecer a marca Portugal no estrangeiro, ou seja, “vender” o “Made in Portugal” com maior valor agregado. Em relação a Resende, disse Anabela, “nós até estamos bem em termos de produção de uva, só que somos muito menos a engarrafar... E o que realmente dá vantagens financeiras é quem engarrafa”. O município vende “a granel, a preço baixo, a engarrafadores externos ao nosso concelho”, que depois podem voltar para vender nos restaurantes locais.

“E vendem a um preço mais alto.” Mesmo com um conjunto de despesas (embalagem, rolha, rótulo etc.), os engarrafadores conseguem ter rentabilidade muito alta, observou a vice-presidente da AER. “O que se nota é que a quantidade dos engarrafadores no concelho de Baião é crescente, enquanto em Resende não tem havido grandes alterações.” Para além das grandes superfícies (supermercados, por exemplo), Anabela apontou alternativas para escoar o produto de Resende. Ela citou como exemplos restaurantes,

“embora este não seja o momento para falar em restauração, mas isso vai passar, naturalmente”, feiras do vinho e canais na internet (“os sites permitem escoar muitos produtos”). Nota-se, cada vez mais, que os consumidores estão mais ávidos por produtos regionais, que valorizam a identidade local. “Por isso, um rótulo com história transmite a identidade de um produto, transmite aquilo que está dentro daquela garrafa, e os consumidores valorizam. Vamos criar a capacidade de exportar o produto final, o vinho”, concluiu a vice-presidente da AER.

Retalhos literários EVALDO BALBINO

Quando tinha 10 anos, estava na 4ª série e foi escolhida pela professora dona Dulce Mendes, no Grupo Escolar Assis Resende, para recitar um poema gracioso sobre uma galinha. Entrou no palco segurando uma galinha preta e todo mundo riu. E a preocupação dela, na época, não foi com a risada de todos, pois desenvoltura no palco ela foi criando. Seu medo, o verdadeiro medo, era o de que a ave, desconhecedora dessas coisas de poemas e teatro, cagasse nela e sujasse sua roupa tão bem-feita para o recital. Conta isso dando risadas de fazer acordar a vida. Aos 11 anos começou as aulas de canto com o seu Quinzinho na orquestra da cidade. Desde então nunca abandonou a música. E conta com alegria que foi Rainha do Rosário, quando o rei e a rainha tinham apelido de Riqueza. Ainda solteira, fazia teatro sob a direção do escritor Gentil Ursino Vale. Lembra-se muito bem da peça O homem que nasceu duas vezes (1938), de Oduvaldo Vianna. E ri muito quando se recorda do diretor Gentil ensinando gentil e pacientemente um dos atores que deveria falar tre-

chos em francês e tinha dificuldade. O diretor repetia incansavelmente “Entrez, monsieur!”, mas o que saía da boca do ator, sem biquinho, era uma língua outra, desconhecida. Nas lembranças refeitas agora, Filó diz com saudosismo das pessoas de que se lembra: o Gentil, o Quito Peluzi, o ator cômico José Ramos, o Prudêncio Gomes... E também de personagens como o Carrinho, o Caraco. E faz sem cerimônia um autoelogio, louvando sua memória, sua capacidade de decorar textos. De fato, o seu rememorar é laudável. Jogava vôlei com as colegas ao lado das lajes de cima, na área mais ou menos em frente ao solar onde funcionava e ainda funciona a CâmaraMunicipal. Tinha a função de levantadora porque não era das mais altas. As garotas usavam saia-calça, mesmo assim os rapazes mais afoitos deitavam-se nas lajes para ver se pegavam alguns lances dos corpos femininos. Há uma foto antiga do seu time, dez moças com seus uniformes esportivos posando para a eternidade. Na cena congelada no tempo, algumas estão sorrindo e outras, sérias. Diante delas a bola, posando

também para o retrato perfeito. No topo da escadaria na entrada do solar, algumas pessoas olhando as atletas. No meio da plateia, um homem usando um chapéu quase à Santos Dumont. Casou-se em 1955 aos 25 anos. “Essa idade, naquela época, era considerada meio avançada pra casamento”. De 1956 a 1967 teve 7 partos, sendo um dos rebentos natimorto. Mesmo com os filhos todos pequenos, quando ainda morava na Fazenda do Fumal, a dona Naná, mulher do seu Geraldo Chaves, fazia questão de que ela cantasse na Semana Santa e por isso lhe ofertou uma babá para cuidar dos seus filhos. Mas o marido não quis, dizendo que ele mesmo tomaria conta da prole. Passou momentos difíceis, mas soube resignar-se e ser resiliente nas horas certas. Sempre se preocupou com o estudo dos filhos. Costurava profissionalmente e foi desde cedo construindo sua independência. Chegou a dar aulas de costura. Passava dias em Belo Horizonte costurando para suas primas: com isso ajudava o marido a cuidar financeiramente da casa. Também revendia peças artesanais de Resende Costa em

outras paragens. Filomena é aquariana. Mulheres aquarianas são seres do seu tempo e de além dele. Embora herdeira de uma cultura interiorana com rígida moral, é moderna, atualizada, aberta a mudanças, pois aceita com tranquilidade, sem espantos, o que surge de novo na face da Terra. É alegre e se recusa a passar tristeza para as pessoas. Adora uma seresta, marchinhas de carnaval. E canta dançando. Eclética, participativa, sempre leitora e amante da comunicabilidade, sente-se jovem. Certa vez, uma das filhas lhe disse para acompanhar os grupos da terceira idade. “Gosto muito das minhas amigas sim,” – respondeu – “mas os jovens me rejuvenescem”. Na frente de sua casa não passa ninguém que ela não intercepte para conversar e saber de que família é e contar casos e mais casos. No recente 05 de fevereiro de 2021, Filomena completou seus 91 anos. Dois dias depois, gravaram um vídeo de umas poucas pessoas diante da sua casa fazendo-lhe seresta e o postaram no Facebook. Viva mais do que nunca, ela foi cantando com to-

Foto: Ângela Resende

Dona Filomena – Parte II

Dona Filomena na janela da sede do Coral e Orquestra Mater Dei. Paixão e dedicação à música

dos, porém do outro lado da cerca, sem sair de casa. Infelizmente estamos ainda em tempos de pandemia, mas isso não impediu o seu aniversário e o seu contentamento, mesmo que a distância. E no seu balançante canto e risonho corpo, escreve-se uma lição que não se esquece. Os ledos cantos da vida semeiam flores eternas.


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Informe Publicitário

Credi comemora 30 anos de agência pioneira no Cooperativismo mineiro Agência do Sicoob Credivertentes foi instalada em Mercês de Água Limpa, distrito de São Tiago, em 1991. Na época, rompeu barreiras, fez história e mudou vidas na comunidade O Sicoob Credivertentes tem hoje mais de 28 mil cooperados em um mapa de atuação crescente. Isso porque, além de agências físicas em 19 comunidades do Campo das Vertentes, a cooperativa está presente na capital mineira, Belo Horizonte; e em diferentes pontos do país via Conta Digital. Essa expansão em 35 anos de história, porém, só foi possível graças à coragem dos moradores de Mercês de Água Limpa, distrito de São Tiago. Há exatas três décadas, em 22 de março de 1991, a pequena comunidade recebeu o primeiro Ponto de Atendimento (PA) de uma cooperativa de crédito mineira. “Naquela época, a Legislação impedia que instituições como a nossa abrissem sucursais, filiais... Ou seja: só poderíamos ter uma agência na cidade-sede, sem alcançar outras populações. Foi preciso insistir e abrir as portas assim mesmo”, explica o membro-fundador e presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credivertentes, João Pinto de Oliveira. TRANSFORMAÇÃO A transgressão mudou vidas na comunidade. Uma delas, a da educadora aposentada Carlita Coelho. “Lembro como se fosse hoje do sentimento. Até então, nós acreditávamos que instituições financeiras não olhariam pra nós, gente simples. Que eram restritas à cidade grande, a pessoas de alto poder aquisitivo”, reflete. Com a chegada do Sicoob Credivertentes, porém, a percepção foi outra. “Nossa autoestima mudou porque fomos reconhecidos”, conta a professora Antônia Aparecida Marques. “Por muito tempo, precisamos percorrer estradas ruins e longas ou ficar horas em

DEIVIDSON COSTA

filas pra receber pagamentos, fazer um depósito. Com a cooperativa, tudo ficou pertinho de casa”, completa. “Pertinho” mesmo. Antes daquele março de 1991, qualquer serviço desses demandava viagens de pelo menos 25km. COOPERAÇÃO O casal de comerciantes Catarina e José dos Santos concorda. E podem dizer que levaram a “proximidade” a outro nível. No final dos anos 1990, eles cederam um cômodo para que a então Cooperativa de Crédito Rural

Campos das Vertentes pudesse continuar funcionando. “Tínhamos o espaço e sabíamos que seria melhor para a instituição. Nós acreditávamos nela desde o início. Sabíamos que valeria a pena”, diz ele. Para dona Catarina, havia ainda outro detalhe: “O ‘Zezinho’ saía pra roça bem cedo e eu ficava no distrito cuidando do nosso armazém, bem ao lado de onde a cooperativa passou a funcionar”, explica. Os colaboradores do Ponto de Atendimento, então, passaram a ser companhia para ela e o neto, João Carlos do Nascimento Jú-

nior. “Jamais imaginei que um dia faria parte da cooperativa, daquela equipe”, diz ele com um sorriso. Hoje, aliás, João Carlos é gerente do PA e coleciona histórias de Cooperação. “Nossa missão é promover Justiça Financeira e acho que ela acontece todos os dias. Temos associados que conseguiram recursos pra alavancar a propriedade rural; que conquistaram o sonho do imóvel próprio; que abriram um negócio. É isso que nos motiva a batalhar por mais 30 anos”, garante.

Transparência: Credi realiza nova assembleia totalmente virtual Evento via SicoobMoob teve participantes em 19 comunidades do Campo das Vertentes O Sicoob Credivertentes promoveu em 24 de março, sua 36a Assembleia Geral Ordinária (AGO), a segunda completamente online da sua história. Com isso, numa live ocorrida para 495 cadastrados no aplicativo Moob, cooperados de toda a região puderam acompanhar sem sair de casa, em tempo real, a apresentação de resultados, números, desempenhos e expectativas da instituição. Tudo com interação aberta, espaço para dúvidas e respostas. Ao mesmo tempo, 161 delegados puderam votar, também via internet, pautas importantes em nome das comunidades que representam. O presidente do Conselho de Administração na Credi, João Pinto de Oliveira, coordenou a mesa e abriu as atividades: “Em tempos tão desafiantes, buscamos zelar ainda mais pelo bem-estar da instituição e de cada um que a compõe. Para tanto contamos com a contribuição de nossos milhares de

cooperados, de nossas centenas de delegados e das comunidades onde estamos. União sempre foi a palavra-chave”. Já nosso diretor executivo-financeiro, Luiz Henrique Garcia, falou sobre o que nos norteia. “Gostamos de frisar em todas as nossas reuniões, todos os nossos encontros: nosso Propósito é conectar pessoas para promover Justiça Financeira e prosperidade. Por isso trabalhamos todos os dias, há 35 anos. E é por isso que estamos aqui, neste momento, falando a cada um de vocês”, disse. O MOOB No Sicoob, mais de 88% das transações financeiras já acontecem via aplicativos. Isso quer dizer que os mais de 5 milhões de cooperados em todo o país reconhecem a tecnologia como aliada confiável e prática no dia a dia. Desde 2020, no entanto, essa co-

nexão vai muito além com o Moob, app que funciona como plataforma de informações, negócios e encontros virtuais. Foi com ele que o Sicoob Credivertentes promoveu, no último mês de junho, sua primeira AGO virtual. Uma forma de expan-

dir o alcance de sua comunicação e transparência enquanto se adaptava, também, às normas sanitárias de prevenção à COVID-19. O Moob está disponível para download gratuito no Google Play e na App Store.


ANO XVIII Nº 216 - ABRIL 2021

Regional

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Coronel Xavier Chaves: o despertar para a “noção de igualdade” em Vila Fátima Foto: José Venâncio

JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

A comunidade negra da antiga Vila Fátima está mais consciente do seu valor, não tem mais vergonha de morar no bairro nem da sua cor, diz o líder comunitário Roberto Carlos, mais conhecido por Beto. “O COSNEC (Grupo Consciência Negra de Coronel Xavier Chaves) despertou no nosso povo a noção de igualdade.” Em termos de educação, as crianças da Vila Fátima estão plenamente integradas nas escolas municipal (crianças são transportadas de ônibus) e estadual. Quanto aos adultos, poucos ainda trabalham na roça, muitos jovens frequentam faculdade e outros já atuam em suas áreas profissionais. “Muitos que moravam fora estão retornando para o bairro, como aposentados ou como empreendedores”, conta Beto. Segundo Beto, a Vila Fátima surgiu em terras ocupadas pelos ex-escravos do Coronel Francisco Xavier Chaves e do Quilombo Dom Silvério. O Quilombo Dom Silvério surgiu em 1838 com o nome “desairoso” de “Comunidade do Porqueiro”, que pertencia ao senhor José Antônio Rodrigues. Ainda no século XIX, dois grupos de negros se juntaram nessas terras, que serviam de passagem para os negros do quilombo e de moradia para os escravos da Fazenda do Mosquito. O nome do quilombo foi uma homenagem ao bispo de Mariana, Dom Silvério, “grande defensor dos negros”, que, em 1911, visitou a comunidade. FILHO DO BAIRRO Beto nasceu na Vila Fátima

Sede do Cosnec no bairro Vila Fátima

em 1966 e viveu toda a infância no bairro. Com 17 anos, mudou-se para São Paulo, onde morou cerca de um ano, retornando à origem. “Era um dos bairros mais sofridos da cidade, onde morava a classe pobre. Não tinha luz, não tinha água nem calçamento nem saneamento básico. A assistência à saúde era precária.” A maioria dos moradores fazia trabalho braçal em fazendas da região. As crianças tinham de estudar no centro da cidade, mas não tinham calçado, roupa nem material escolar, relata Beto. Há cerca de 30 anos, primeiro chegou a energia elétrica, depois a água e, gradativamente, a infraestrutura. Mas a mudança em Vila Fátima não foi apenas física e material. Em 1988, Beto promoveu a primeira reunião com os moradores do bairro para discutir a importância da consciência negra.

O líder comunitário Roberto Carlos, o Beto

“Assim, foi plantada a primeira semente do nosso movimento.” CAPOEIRA E TEATRO O primeiro trabalho social na comunidade foi a criação do grupo de capoeira. “Com o mesmo grupo, iniciamos o trabalho de teatro. Era uma maneira de falar do negro, de conscientizar.” Eram peças sobre o negro, apresentadas no salão paroquial para a população. “A reação foi muito boa desde o início”, comemora Beto. Uma nova fase foi inaugurada com o COSNEC, em 28 de junho de 2009, no bairro Vila Fátima. O grupo surgiu a partir da realidade de que os afrodescendentes representam mais de 50% da população do município. Apesar de não ser reconhecida oficialmente como comunidade tradicional, a população do bairro Vila Fátima é praticamente toda afrodescendente. “O objetivo do COSNEC era trabalhar o resgate com o tripé: parte social, parte cultural e religião”, resume Beto. Na parte social, foram realizadas atividades, como cursos de costura (35 profissionais formados) e a fábrica de vassouras (a matéria-prima eram garrafas PET), em parceria com o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). A ideia era proporcionar complemento de renda para os moradores do bairro, explica Beto. A fábrica chegou a empregar 20 a 30 pessoas, funcionando num galpão fornecido pela prefeitura. Atualmente, está desativada por falta de local. CULTURA E RELIGIÃO Na parte cultural, o foco foi o resgate da verdadeira história do bairro, acrescenta Beto. “Os moradores antigos estavam morrendo e a história morrendo junto. Então criamos um grupo para documentar esses relatos.” Foram resgatados vários tipos de dança, como a dança do bate-paus que os negros do bairro praticavam. “Quando eu era

criança, a dança era com sanfona. Hoje, nós a colocamos no estilo afro, com atabaque”, conta Beto. Na parte religiosa, foi resgatada a matriz africana, principalmente a missa inculturada, cujos atos são encenados com rituais africanos. Beto destaca o apoio do padre Raimundo Inácio, já falecido, que “realmente deu toda a força. Toda Festa do Rosário, ele convidava o grupo para participar dessa missa.” Além da missa inculturada, na Festa do Rosário há apresentações de congado, inclusive com a participação de grupos de outros municípios. “A comunidade de Vila Fátima preserva suas tradições e costumes, mantendo viva a pujança de sua banda de congado, grupo de capoeira e folia de reis, além de outras atividades apoiadas pelo COSNEC”, resume Beto. LEGISLAÇÃO Uma importante viragem no movimento foi a legalização que abriu o caminho para a captação de recursos e a realização de parcerias com a prefeitura, o CRAS e a UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei), assinala Beto. Do seguinte conjunto de leis, a primeira é a Lei 881 (de 02/10/2009), aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pelo então prefeito Helder Sávio Silva, que instituiu como feriado municipal o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro. Outra lei importante foi a de número 925 (de 25/10/2010), também aprovada na administração de Helder Silva, que declarou de utilidade pública o COSNEC. A partir dessa legislação, foi criada a Semana da Consciência Negra, que acontece entre os dias 15 e 20 de novembro. “A legislação facilitou o repasse de recursos públicos para as despesas com palestrantes, transporte, apresentações de grupos folclóricos e shows”, explica Beto. Também permitiu a captação de recursos para a aquisição de

máquinas de costura industriais do projeto “Profissão e renda”, bem como para o repasse de recursos indicados pela Câmara Municipal. No caso da fábrica de vassouras PET, a legalização foi importante para elaborar o projeto que permitiu a aquisição de equipamentos e máquinas com recursos fornecidos pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). SEDE E ORGANIZAÇÃO A sede do COSNEC, denominada “Centro Afrodescendentes”, na Rua João XXIII de Vila Fátima, é local para atividades como reuniões, cursos e ensaios. Ali já houve cursos de culinária (rosquinhas, broas, pamonha etc.) e de fabricação de bonecas negras de pano. A pandemia adiou por algum tempo o plano de um grande projeto social destinado exclusivamente a crianças do bairro, conta Beto. A ideia é trabalhar com música, dança e folclore (congado e folia de reis). Um novo reforço ao trabalho na comunidade negra é a Lei 1244, aprovada em 3 de junho de 2019 pela Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito Fúvio Olímpio de Oliveira Pinto, que cria o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR) e o Fundo Municipal da Promoção da Igualdade Racial (FUMPIR). Vinculado à Secretaria de Assistência Social, o COMPIR é um “órgão colegiado de caráter permanente, consultivo, normativo, deliberativo, avaliador, propositivo e fiscalizador, encarregado de assessorar o Poder Público Municipal em assuntos referentes ao estudo de políticas que visem à promoção da igualdade racial.” O Conselho é composto de oito membros, com respectivos suplentes. Ou seja: quatro da administração municipal e quatro da sociedade civil (COSNEC, Folclore Afrodescendentes, Comunidade Afrodescendentes do Bairro Vila Fátima e Afrodescendentes da Zona Rural). O FUMPIR tem a função de captar e repassar recursos financeiros destinados à política de atendimento e aos programas de promoção, proteção e inclusão da comunidade negra e de outros grupos étnico-raciais. A captação e a aplicação são vinculadas às decisões do COMPIR. As receitas do FUMPIR são provenientes de recursos de órgãos federais e estaduais vinculados à Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial; transferências do município; doações do setor privado, pessoas físicas e jurídicas; rendimentos eventuais (inclusive de aplicações financeiras) e acordos e convênios.


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Expedicionários elege nova diretoria com representantes de diferentes modalidades esportivas VANUZA RESENDE

O Expedicionários Sport Club elegeu sua nova diretoria com mandato previsto até janeiro de 2025. A chapa única, que tomou posse neste ano, tem como novidade a composição. Ao invés de contar somente com representantes do futebol, a nova diretoria do ESC contará com membros que atuam em outras modalidades esportivas. De acordo com os diretores, o objetivo é dar maior visibilidade ao clube. Paulo Ricardo (futebol) foi eleito o presidente, ao lado de Luiz Nei Resende (corrida de rua), vice-presidente, e do tesoureiro Jonas Henrique Pinto (motocross). A diretoria ainda conta com Adriano Valério Gomes, vice-te-

soureiro; Edésio de Lara Melo, secretário; Adílio Geraldo da Silva, vice-secretário; Mauro Fernando de Lima, diretor de esportes amadores; Ivânia Aparecida de Oliveira Silva, 2ª diretora de esportes amadores; Otávio Ribeiro da Silva, 1º diretor social; Lucivania Aparecida da Costa, 2ª diretora social; Gabriel Alves Resende, vice-presidente de futebol; Cássio Augusto de Sousa Almeida, vice presidente de futsal. O conselho fiscal ficou formado pelos seguintes membros: Marildo Wilmer da Silva Reis, Denis Sávio Silva, Antônio Orlâmpio dos Santos, Márcio Valério de Oliveira e Ronaldo José da Silva. O novo presidente do Expedicionários, Paulo Ricardo, fala sobre a composição da diretoria

eleita: “Trouxemos para a diretoria praticantes de todas as modalidades esportivas: futsal, futebol, ciclismo, corrida de rua, artes marciais, motocross, caminhadas, dança e voleibol”. Mesmo com as atividades esportivas paralisadas devido à pandemia da Covid-19, Paulo destaca três projetos iniciais para o mandato. “Queremos continuar o trabalho de infraestrutura do campo, com a construção da lavanderia, da sala de troféus e sauna. Outro objetivo é a revitalização do programa de sócios do clube. Por fim, a ampliação da escolinha de futebol do clube.” Para a ampliação da escolinha de futebol do ESC, será criado o projeto social “Moleque de Ouro, Craque da Vida”. Paulo Ricardo explica a ideia. “Temos uma meta

de atingir 250 crianças e adolescentes, entre 7 e 17 anos. O projeto deve ser realizado em dois espaços: o Campo do Expedicionários e o Campo do Tijuco. Será uma parceria entre o clube, o poder público e a AMAT (Associação de Moradores do bairro Tijuco), além da Assistência Social. Será disponibilizado todo o material para a prática de esportes a fim de que sejam contemplados os meninos que estejam em famílias cadastradas no NIS.” De acordo com Paulo, o lançamento do projeto acontecerá quando as atividades esportivas estiverem novamente liberadas. “De início, vamos contar com dois recursos: uma emenda parlamentar e um repasse da Secretaria de Assistência Social”, explica o pre-

Foto: Arquivo Jornal das Lajes

ESPORTE

Paulo Ricado (2º da dir. para esq.) é novo presidente do Expedicionários

sidente. Ainda segundo ele, para participar do projeto, os garotos devem estar cadastrados na escolinha do Expedicionários, no CRAS e também matriculados na escola. “A intenção é unir garotos na prática esportiva, lado a lado com a educação. Pensamos em aprimorar e levar o projeto para o vôlei, futsal, basquete e artes marciais”, completa Paulo Ricardo.

Papo de Esportes VANUZA RESENDE

A continuidade do futebol brasileiro, sem público e no pior momento da pandemia No dia 24 de fevereiro de 2021, os árbitros apitaram pela última vez os jogos do Campeonato Brasileiro de 2020. E não deu tempo de tomar muito fôlego para que novos apitos começassem no país, desta vez pelos estaduais. Em Minas, apenas três dias depois, seis times entravam em campo para disputar o Mineiro. Um dia depois, rodada completa com outros três jogos. Sem torcida nos estágios, as partidas passaram a ser todas transmitidas via web, pelo canal da Federação Mineira de Futebol. Além, claro, das rádios que mostram a força das transmissões no futebol. Enquanto os times anunciam mais reforços, vendem camisas, trocam de técnicos, uma vez que as primeiras rodadas foram um fiasco, a bola rola. Porém, só depois de um minuto de silêncio em respeito às vítimas da Covid-19. Milhares delas! Se a arquibancada é silenciosa, a dor do luto ecoa

por todos os cantos do país, que bate recordes atrás de recordes nas mortes pela doença que começou a vitimar também os mais jovens, enquanto os mais velhos se agarram às doses de esperança que chegam de forma fracionada. As vacinas começam a entrar em campo. Já é possível ouvir um sussurro de comemoração, mas ainda falta muito. Menos de 20% do placar foi construído e o tempo corre, muitas partidas são interrompidas antes de se poder comemorar a vitória. As decisões são tomadas em curto intervalo de tempo, entre uma partida e outra. Suspender ou não o futebol? Quem costuma ser tachado de doido faz um discurso de quem está lúcido, acompanhando o calendário do futebol brasileiro. Antes da partida contra o Athletic Club pelo Campeonato Mineiro, o treinador Lisca, do América, falou sobre a situação sanitária do país. O técnico disse

que perdeu amigos para a doença e questionou a CBF pela definição de datas da Copa do Brasil, com equipes viajando para estados diferentes em meio à crise de saúde. “Não tem lugar nos hospitais. [...] Não é hora mais. É hora de segurar a vida”, disse o treinador. A suspensão dos campeonatos divide opiniões. Se Lisca pediu a paralisação, no Sul Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, disse ser favorável à continuidade do futebol no Brasil, argumentando que o esporte é um motivo para as pessoas ficarem em casa assistindo às partidas. Renato também afirmou: “Não pode parar tudo no Brasil, daqui a pouco a pessoa não sai de casa, mas está morrendo de fome.” Aqui fora, nesta altura do campeonato, os jogos não oficiais já foram suspensos, não se veem mais as tradicionais peladas nos bairros das cidades. Em meio à

saudade de jogar bola, ouve-se no noticiário que a bola de outro estado virá para cá. Os turistas já são aconselhados a deixar para experimentar o pão de queijo e o doce de leite em um momento mais oportuno, mas a Federação Paulista está interessada em outro cardápio e tem fome de bola. A insanidade é barrada. Dias depois, a publicação de um estudo que mostra que a incidência de casos de Covid-19 em atletas que disputaram campeonatos de futebol no estado de São Paulo supera o montante de qualquer liga do planeta em 2020. De acordo com o estudo da USP, os números do futebol paulista são similares à taxa de incidência de profissionais da Saúde que atuam na linha de frente contra o coronavírus. O número varia entre 9,9% e 24,4%, segundo a revista científica The Lancet Global Health. Em meio à pior onda da pandemia, as partidas esportivas

em Minas são suspensas. Pelo menos enquanto durar o período mais crítico da pandemia. A fase não passou, mas os jogos de futebol voltaram. Segundo as autoridades, protocolos estão sendo seguidos, pelo menos dentro de campo. Fora das quatro linhas, as notícias são as piores possíveis. Uma sociedade inteira perdendo de goleada. Como amante dos esportes, eu queria descrever os estádios cheios de vida, escrever sobre as contratações que não deram certo e rasgar elogios para as que deram. Mas competições combinam com o grito do torcedor e, nesses tempos de pandemia, por mais que eu me esforce, os únicos gritos que eu consigo perceber são por socorro. E aí, meus amigos, é difícil descrever um gol bonito depois de se lembrar do placar que vem sendo construído aqui fora.


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