Jornal das Lajes www.jornaldaslajes.com.br
FUNDADO EM 2003 - RESENDE COSTA
ANO XIII
• FEVEREIRO 2017 • Nº166
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Corte de árvores nas ruas de Resende Costa divide opiniões Foto Prefeitura Municipal
11ª Corrida de São Vicente de Paulo reuniu 170 atletas em Resende Costa A novidade da edição deste ano da corrida, que já entrou para o calendário dos grandes eventos esportivos de Resende Costa, é que os 6km do trajeto foram percorridos durante a noite. PÁG 16
Carnaval 2017 em Resende Costa Prefeitura divulga programação oficial. “O carnaval deste ano em Resende Costa vem com a proposta de voltar ao mais tradicional possível”, diz Lucas Lara, chefe do Setor de Cultura da Prefeitura Municipal. PÁG 08
Infestação de insetos, raízes apodrecendo, chuvas fortes, risco para pedestres e veículos. Essas são algumas das justificativas usadas para o corte de árvores nas grandes cidades. Mas o que leva o órgão Municipal responsável pelo Meio Ambiente (CODEMA) autorizar sucessivos cortes de árvores na área urbana de Resende Costa? PÁG 04
Sabor e tradição
Árvores da rua Doutor Gervásio foram cortadas recentemente para estreitamento do canteiro central
Em 2016, a tradicional sorveteria Picolé do Amado, de São João del-Rei, completou 50 anos de história. A receita saborosa e refrescante que vem conquistando gerações de são-joanenses foi criada pelo saudoso Amado José Vieira. PÁG 11
PÁG. 2 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
EDITORIAL Por uma cidade mais arborizada
E
X
P
E
D
I
E
N
T
E
Muitos turistas que visitam Resende Costa se surpreendem – além do artesanato - com a beleza da cidade. Seus dois mirantes (as lajes de cima e a de baixo) desvelam horizontes arrebatadores, os traçados genuinamente mineiros de suas ruas, praças e largos conferem beleza peculiar à cidade que hoje possui população estimada de 11.525 habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Outro atributo conferido pelos visitantes a Resende Costa é a limpeza das ruas. De fato, diferentemente de muitas cidades onde há acúmulo de lixo nas ruas e em frente às residências, muros pichados e praças depredadas, em Resende Costa os logradouros públicos, com raríssimas exceções, são muito bem cuidados pelo serviço de limpeza urbana da prefeitura municipal. No entanto, ainda falta muito para que nossa cidade atinja um nível satisfatório de urbanização organizada. Andando pelas ruas da cidade, sobretudo pelos bairros mais afastados do centro como Dois de Junho (Boca Junior), Mendes e Loteamento do Zé Padeiro, podemos ver ruas já habitadas, sem no entanto contar com a infraestrutura básica exigida pela legislação que regulamenta o processo de loteamento. O prefeito municipal Aurélio Suenes, em seu primeiro mandato, assumiu o desafio de fazer cumprir a lei municipal 2.080/93, que dispõe sobre os requisitos necessários para aprovação de projeto de loteamento junto à prefeitura municipal. Apesar do endurecimento na aprovação dos projetos, os efeitos do processo desordenado de ocupação da cidade, num passado não tão distante, ainda são visíveis: inúmeras ruas esburacadas, sem calçamento e iluminação, além de falta de espaço para áreas de recreação e áreas verdes. Este último item desperta uma reflexão especial. Nas grandes cidades, parques e praças são espaços cada vez mais procurados pela população que deseja respirar ar puro, praticar atividade física, conviver e desfrutar da natureza, fugindo dos arranha céus, do asfalto quente e da poluição lançada pelos carros e indústrias. Atualmente, há um forte apelo (ONGs, ambientalistas, arquitetos, estudiosos do espaço urbano...) para que os centros urbanos sejam cada vez mais arborizados, no intuito de oferecer sombra e ar puro à população numa era em que os efeitos do aquecimento global vêm atingindo impiedosamente a natureza e o homem. Deveríamos nos sentir privilegiados por morarmos numa cidade onde ainda conseguimos ouvir os pássaros cantar o dia inteiro, o céu à noite nos apresenta as estrelas sem nenhuma neblina artificial e contaminada que possa atrapalhar a visão, enfim, deveríamos nos orgulhar por convivermos com a natureza dentro do espaço urbano. Mas, infelizmente, a urbanização mal planejada vem nos privando desse privilégio. Em Resende Costa, vamos caminhando na contramão do apelo que defende que tenhamos cada vez mais o espaço urbano arborizado. É preocupante a frequência com que árvores são cortadas na cidade com o objetivo de ganhar espaço para abertura ou alargamento de ruas. Inacreditável, ainda, quando ouvimos pessoas reclamarem “que as árvores sujam a porta da minha casa”, ou “causam sombras”, ou “atraem os morcegos”. Para essas pessoas as árvores incomodam, prejudicam, logo precisam ser cortadas. A atual situação em que se encontra a Capoeira Nossa Senhora da Penha, uma mata situada no coração da cidade, é exemplo da atitude depredatória dos resende-costenses (cidadãos e poder público) ao longo de décadas. As fontes de águas outrora cristalinas e límpidas estão poluídas e impróprias para consumo, sua área foi consideravelmente reduzida devido aos loteamentos, árvores nativas foram cortadas colocando em risco a fauna e a flora. E o mais grave: enquanto não se resolve o problema do saneamento básico, grande parte do esgoto da cidade e da água pluvial é lançada na Capoeira, que ainda recebe lixo e entulhos em seus arredores. Cidadãos e poder público precisam se conscientizar de que é vital preservarmos a natureza, especialmente a natureza que nos circunda. Ao invés de cortarmos árvores dentro da cidade, plantemos ainda mais. É muito melhor, e prazeroso, conviver com as folhas secas lançadas ao chão pela natureza do que respirar gás carbônico e sofrer com os efeitos danosos dos raios de sol, que chegam escaldante no topo da cidade das lajes.
Jornal das Lajes Ltda Diretor Presidente e editor-chefe: André Eustáquio Melo de Oliveira Diretor de Redação: Rosalvo Gonçalves Pinto Editora de Reportagens e editoraassistente: Emanuelle Resende Ribeiro Editor Regional: José Venâncio de Resende Diretoria executiva: Eustáquio Peluzi Chaves (administração) e Antônio da Silva Ribeiro Neto (contabilidade).
Redação: Rua Assis Resende, 95 Centro - Resende Costa, MG CEP 36.340-000 TEL(32)3354-1323 Editoração e Site: Rafael Alves Impressão: FUMARC Av. Francisco Sales, 540 - Floresta Belo Horizonte Tiragem: 4000 exemplares Circulação: Resende Costa, São João del-Rei e Lagoa Dourada
Conselho Editorial: André Eustáquio Melo de Oliveira, Emanuelle Resende Ribeiro, José Venâncio de Resende, Rosalvo Gonçalves Pinto, João Evangelista Magalhães e José Antônio Oliveira de Resende. Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.
Adriano Valério de Resende
Meio Ambiente
O lixo nas áreas públicas Lembro-me da primeira vez que cheguei ao Rio de Janeiro pela rodoviária. Eu nem acreditei que aquele era o Rio mostrado pela mídia e que é conhecido como Cidade Maravilhosa. Uma confusão de gente e de veículos, moradores de rua pelos cantos nas avenidas, vendedores ambulantes te parando, muita sujeira nas ruas, água podre na beira das calçadas, o cheiro forte da maresia vindo da área portuária, um córrego que virou esgoto a céu aberto. Era um lugar muito diferente da zona sul da cidade, como Ipanema e Copacabana, ou de outras cidades praianas, com suas belezas naturais e a organização rotineira para receber os turistas. Esse sim é o Rio que se mostra nas novelas e nas propagandas. A história se repete nas proximidades da rodoviária de Belo Horizonte: lixo espalhado pelas ruas, até sendo queimado em alguns locais, drogados nas esquinas, montes de pedras que são usados como fogão, o Ribeirão Arrudas que mais parece um esgoto a céu aberto etc. Falando especificamente da questão do lixo, os garis limpam cotidianamente os logradouros públicos e até caminhões-pipa jogam água nos lugares mais sujos, mas a sujeira insiste em prevalecer. Realmente, nossa sociedade ainda não aprendeu a conviver com resíduos e sobras do nosso dia a dia. Mas, curiosamente, a capital mineira foi construída na forma de
um xadrez, avenidas e ruas retas, formando quarteirões quadrados. Algumas ruas que começam perto da rodoviária acabam na zona sul. Aí percebermos a diferença. Na parte nobre, como nos bairros Lourdes e Savassi, a história é outra. As ruas estão sempre limpas e as pessoas bem vestidas. Tempos atrás, um morador de rua montou sua barraca numa praça, no coração da Savassi. O fato virou notícia de televisão. Segundo alguns moradores, isso é um absurdo, estava atrapalhando a boa convivência do local. Assim, percebe-se a organização das grandes cidades. Em alguns locais são permitidos certos convívios e movimentos. O centro que antes era local de residência das elites, o que ainda o é nas pequenas e médias cidades, se tornou moradia improvisada das pessoas que vivem nas ruas. Dessa forma, o poder público fecha os olhos e aceita, ou talvez seja obrigado a aceitar, práticas que desrespeitam as etiquetas da convivência social e do meio ambiente. Mas, o que nos interessa é afirmar que, certamente, a degradação socioambiental está associada à falta de informação/conhecimento e à pobreza. Com relação ao quesito lixo, nas cidades pequenas, a situação do centro é diferente. As pracinhas geralmente são limpas e bem cuidadas. Por Minas afora, nas cidades do interior, sempre há uma pracinha como referência do cen-
tro. Nossa região é exemplo disso. No caso de Resende Costa, muitas vezes, nem percebemos que as ruas do centro e de seu entorno estão limpas. Isso é fruto do trabalho invisível, feito por funcionários da Prefeitura, que todos os dias, durante a madrugada, varrem ruas e praças. Mesmo assim, andando pela cidade, ao longo do dia, facilmente se encontra resíduos jogados pela população: bitucas de cigarro, pedaços de papéis, todos os tipos de plástico (papel de bala, restos de embalagens etc.). Certa vez, questionando um cidadão que lançou um pedaço de embalagem ao chão, a resposta que obtive foi que, se não tiver o que limpar os garis vão perder o emprego. Recentemente, o IRIS contribuiu para a coleta do lixo gerado pelos transeuntes em nossa cidade. Confeccionamos e espalhamos pelo comércio várias lixeiras, feitas com bombonas devidamente pintadas. A Prefeitura, com verba do governo federal, também implantou várias lixeiras pela cidade. Mas isso só não basta, é preciso criar uma consciência coletiva sobre a questão socioambiental. Comportamentos básicos e simples devem ser incorporados em nossa rotina, como não danificar as plantas dos jardins; evitar cortar caminho pela grama; não agredir animais que foram abandonados ou estão transitando; colocar o lixo em lixeiras. Ou será que você joga papel ou resto de comida pelos cantos de sua casa?
E D I T A L - CONTRIBUIÇÃO SINDICAL RURAL - PESSOA FÍSICA - EXERCÍCIO DE 2017 A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA, em conjunto com as Federações Estaduais de Agricultura e os Sindicatos Rurais e/ou de Produtores Rurais com base no Decreto-lei nº 1.166, de 15 de abril de 1.971, que dispõe sobre a arrecadação da Contribuição Sindical Rural – CSR, em atendimento ao princípio da publicidade e ao espírito do que contém o art. 605 da CLT, vêm NOTIFICAR e CONVOCAR os produtores rurais, pessoas físicas, que possuem imóvel rural, com ou sem empregados e/ou empreendem, a qualquer título, atividade econômica rural, enquadrados como “Empresários” ou “Empregadores Rurais”, nos termos do artigo 1º, inciso II, alíneas “a”, “b” e “c” do citado Decreto-lei, para realizarem o pagamento das Guias de Recolhimento da Contribuição Sindical Rural, referente ao exercício de 2017, devida por força do Decreto-lei 1.166/71 e dos artigos 578 e seguintes da CLT. O recolhimento da CSR deverá ocorrer, impreterivelmente, até o dia 22 de maio de 2017, em qualquer estabelecimento integrante do sistema nacional de compensação bancária. A falta de recolhimento da Contribuição Sindical Rural – CSR, até a data do vencimento (22 de maio de 2017), constituirá o produtor rural em mora e o sujeitará ao pagamento de juros, multa e atualização monetária previstos no artigo 600 da CLT. As guias foram emitidas com base nas informações prestadas pelos contribuintes nas Declarações do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, repassadas à CNA pela Secretaria da Receita Federal do Brasil - SRFB, remetidas, por via postal, para os endereços indicados nas respectivas Declarações, com amparo no que estabelece o artigo 17 da Lei nº 9.393, de 19 de dezembro de 1.996, e o 8º Termo Aditivo do Convênio celebrado entre a CNA e a SRFB. Em caso de perda, de extravio ou de não recebimento da Guia de Recolhimento pela via postal, o contribuinte deverá solicitar a emissão da 2ª via, diretamente, à Federação da Agricultura do Estado onde tem domicílio, até 5 (cinco) dias úteis antes da data do vencimento, podendo optar, ainda, pela sua retirada, diretamente, pela internet, no site da CNA: www.cnabrasil.org.br. Eventual impugnação administrativa contra o lançamento e a cobrança da Contribuição Sindical Rural - CSR deverá ser encaminhada, por escrito, no prazo de 30 (trinta) dias, contado do recebimento da guia, para a sede da CNA, situada no SGAN Quadra 601, Módulo K, Edifício CNA, Brasília - Distrito Federal, Cep: 70.830-021 ou da Federação da Agricultura do seu Estado, podendo ainda, ser enviada via internet no site da CNA: cna@cna.org.br. O sistema sindical rural é composto pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil–CNA, pelas Federações Estaduais de Agricultura e/ou Pecuária e pelos Sindicatos Rurais e/ou de Produtores Rurais. Brasília,15 de fevereiro de 2017. João Martins da Silva Júnior Presidente da Confederação
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
INFORMATIVO DA CÂMARA MUNICIPAL
O espaço informativo do Legislativo Municipal de Resende Costa tem como objetivo informar o cidadão sobre os projetos aprovados em plenário
Artigo
Entre o muro e a ponte
Proposições – Janeiro/2017 Indicação nº 01/2017 Autor: Vereador Ângelo Márcio Resende Indicando que seja verificada a possibilidade de serem efetuados serviços de dedetização no cemitério público municipal. Assunto: Projeto de Lei nº 01/2017 Ementa: “Dá nome a prédio público de CENTRO COMUNITÁRIO MARIA DO BRECHÓ e dá outras providências”. Autor: Vereador Ângelo Márcio Resende RELATÓRIO: O projeto de lei nº 01/2017 tem a finalidade de denominar CENTRO COMUNITÁRIO MARIA DO BRECHÓ a sede da AMAT – Associação de Moradores e Amigos do Tijuco, situada à Rua Pau Brasil, no Bairro Tijuco. Assunto: Projeto de Lei nº 04/2017 Ementa: “Dispõe sobre o programa de coleta seletiva no âmbito do município de Resende Costa, autoriza a abertura de crédito especial e dá outras providências”. Autor: Prefeito Municipal RELATÓRIO: Trata-se o projeto de lei nº 04/2017 da necessária autorização legislativa para instituir o Programa Coleta Seletiva de Resíduos Sólidos no Município de Resende Costa, com a finalidade de inclusão social e econômica dos catadores.
Assunto: Projeto de Lei nº 05/2017 Ementa: “Autoriza a abertura de crédito especial e dá outras providências” Autor: Prefeito Municipal RELATÓRIO: Visa o presente projeto de lei a necessária autorização legislativa para abrir, no corrente exercício financeiro, crédito especial no valor de R$ 2.600,00 para garantir recursos para custeio com o programa de combate às endemias, a ser firmado em parceria com a Secretaria de Estado de Administração Prisional. Assunto: Projeto de Lei nº 06/2017 Ementa: “Autoriza a abertura de crédito especial e dá outras providências” Autor: Prefeito Municipal RELATÓRIO: Visa o presente projeto de lei a necessária autorização legislativa para abrir, no corrente exercício financeiro, crédito especial no valor de R$ 7.800,00 para garantir recursos para manutenção de parceira com o sistema prisional da Comarca, com a finalidade de promover confecção de artefatos de cimento. Assunto: Projeto de Lei nº 08/2017 Ementa: “Autoriza a abertura de crédito especial e dá outras providências” Autor: Prefeito Municipal
Mais informações: www.camaraderesendecosta.mg.gov.br
RELATÓRIO: Visa o presente projeto de lei a necessária autorização legislativa para abrir, no corrente exercício financeiro, crédito especial no valor de R$ 270.000,00 para garantir recursos para custeio de um pá carregadeira equipada com retroescavadeira. Assunto: Projeto de Lei nº 09/2017 Ementa: “Autoriza a abertura de crédito especial e dá outras providências” Autor: Prefeito Municipal RELATÓRIO: Visa o presente projeto de lei a necessária autorização legislativa para abrir, no corrente exercício financeiro, crédito especial no valor de R$ 300.371,48 a fim de garantir recursos para realização de calçamento com bloquetes sextavados em ruas do município. Assunto: Projeto de Resolução nº 386/2016 Ementa: “Altera os Art. 57, §3º, e 61 do Regimento Interno da Câmara Municipal de Resende Costa”. Autor: Vereador Fábio Roberto Ferreira RELATÓRIO: Trata-se o Projeto de Resolução nº 386/2016, da alteração do artigo 57, §3º, e artigo 61 do Regimento Interno desta Casa Legislativa, com o objetivo de alterar o horário das reuniões ordinárias para 17 horas.
Venha participar das reuniões da Câmara Municipal de Resende Costa. É seu direito de cidadão participar dos assuntos de interesse do município.
Praça Nossa Senhora de Fátima, S/N, Centro. Tel.: (32) 3354-1526
• PÁG. 3
Guilherme Rezende*
Nos últimos dias de dezembro, um assunto foi recorrente em rodas de conversa: o desejo de despachar logo 2016. Para a maioria das pessoas, o ano teria sido terrível tanto no Brasil – corrupção, desemprego, surtos de doenças, instabilidade política, acidentes aéreos - como no resto do mundo- guerras, atentados terroristas, catástrofes naturais, acidentes, drama de refugiados. A expectativa popular mirava 2017 como uma espécie de bonança, de redenção. “Esse ano não vai ser igual aquele que passou”, como dizia uma antiga marchinha de carnaval, era uma esperança coletiva. O ano começou e o que se vê é que tudo não passa mesmo só de uma ilusão. Não apenas fatos que marcaram 2016 se repetem, mas um fantasma pavoroso surge: a exacerbação da intolerância. Sob o signo maldito do muro, concreto ou simbólico, o mundo parece retornar a uma era terrível. O muro com que Donald Trump pretende separar os Estados Unidos do México, o muro para apartar facções adversárias em presídio no Rio Grande do Norte, o muro virtual que do afastamento da Inglaterra da União Européia, a expansão das colônias de Israel em territórios palestinos, à revelia de decisão contrária do Conselho da ONU, a extirpação da beleza da arte de rua dos cinzentos muros das avenidas de São Paulo. Chega mesmo a dar saudade do pestilento 2016. A reaproximação dos Estados Unidos de Cuba, a suspensão de embargos ao Iran, o acordo de paz entre as FARC e o governo colombiano, a atitude corajosa de Angela Merkel em apoio à abertura de fronteiras para acolher refugiados. Isso sem falar da comovente expressão de fraternidade do povo colombiano à Chapecoense e aos brasileiros, que contaminou todo o mundo como uma memorável epidemia de solidariedade. Basta lembrarmos-nos de acontecimentos como esses, para tomarmos consciência de que 2016 não foi tão desastroso assim. Face à perspectiva de radicalização da intolerância, talvez 2017 se torne tão temível quanto 2016. Motivos para uma previsão pessimista não faltam. Nada mais compatível com esse espírito de intransigência do que a determinação de Trump: “America, first”. De
fato, o first não pressupõe o outro, o não americano (olha a discriminação de novo, como se America fosse apenas os Estados Unidos). Quer significar não América em primeiro lugar, mas uma condição de exclusividade: “America, only”. Esse comportamento, inspirado no “cada um por si”, “salve-se quem puder”, se espalha mundo a fora, numa apologia perigosa do egoísmo, do etnocentrismo. E olha que a situação pode se agravar com a eleição de políticos de ultra direita em outros países, mais factível na França, com Marie Le Pen. O que fazer para reagir contra essa onda nacionalista, que namora com o fascismo? Às pretensões reacionárias de Trump, a estrondosa manifestação de dois milhões de pessoas na marcha das mulheres em Washington, após a posse do novo presidente, soou como uma rajada alvissareira de defesa da tolerância. Em outras grandes cidades do mundo, multidões se reuniram nas praças públicas para afirmar essa mesma disposição, como um convite à resistência. Se há muros para conter e impedir o diálogo e a convivência entre diferentes, pontes são construídas para estabelecer e solidificar vínculos. Mas e o Brasil como fica nessa história? Em compasso de espera, o país passa por um período muito complicado. Economia estagnada, desemprego crescente, estados e municípios falidos, governo provisório sem credibilidade suficiente, dirigentes do poder executivo municipal eleitos com o discurso de aversão à prática política, ausência de novas lideranças emergentes. Pelo menos, porém, dispomos de uma oportunidade excepcional para reiniciar o país em bases mais consistentes. A operação Lava jato, sem os personalismos que a identifiquem, pode funcionar como uma ponte para viabilizar, mais do que uma fluente circulação de recursos públicos destinados aos interesses da população, até então retidos pelo muro da corrupção, a existência de um Brasil mais ético, justo e igualitário. Qualquer movimento para conter as táticas de exclusão só conseguirá se consolidar se, no plano das relações interpessoais cotidianas, tão afetadas por embates políticos nos últimos tempos, prevalecer o valor da dignidade humana e de toda espécie de vida na natureza como um princípio soberano. Essa missão, extensiva a todos que acreditam nessa utopia, pode se inspirar no lema “o paraíso são os outros”, idealizado pelo escritor angolano-português, Valter Hugo Mãe. Bem no polo oposto de quem considera, tal como Trump, que “o inferno são os outros”, expressão cunhada por Jean Paul Sartre, em contexto distinto. Que tal assumir que o contato com o outro, sobretudo o diferente, é a via mais fraterna e saudável para a sobrevivência da humanidade? *Jornalista, professor aposentado da UFSJ.
PÁG. 4 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Cidade
Emanuelle Ribeiro
Infestação de insetos, raízes apodrecendo, chuvas fortes, risco para pedestres e veículos. Essas são algumas das justificativas usadas para o corte de árvores nas grandes cidades. Mas o que leva o órgão Municipal responsável pelo Meio Ambiente a cortar árvores em Resende Costa? Nos últimos meses tem-se observado tais ações em algumas localidades, como no bairro Canela e na rua Doutor Gervásio. O órgão responsável por autorizar corte de árvores na área urbana é o Conselho de Desenvolvimento do Meio Ambiente (CODEMA): “Esta demanda parte sempre dos proprietários ou moradores que residem próximo às árvores”, esclarece o técnico do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e membro do CODEMA, Murton Moreira. Para que o serviço seja realizado, os interessados procuram a Secretaria Municipal de Agropecuária e Meio Ambiente, fazem um requerimento para poda ou corte e, então, o CODEMA marca uma vistoria com os membros do Conselho e emite reposta para o pedido. Emerson Gonzaga, membro da ONG Ambiental IRIS e secretário de Meio Ambiente de Lagoa Dourada, chama atenção para alguns cortes realizados recentemente: “Diversos pontos merecem destaque, como a antiga árvore na praça do Canela, na rua São João del-Rei, o conjunto arbórico nas ruas Bueno Brandão,
descendo a Casa de Cultura, e Doutor Gervásio, descendo o Posto de Saúde e, também, as árvores que compunham os canteiros na avenida Ministro Gabriel Passos, descendo para a região do asfalto, e na rua José Coelho, próximo à Igreja do Rosário. Árvores que cresceram junto com nossas praças e ruas, que embelezavam nossa paisagem e refrescavam o dia a dia da população”. “Na rua Doutor Gervásio tinha uma demanda dos moradores e foi optado pela substituição por plantas de porte menor, melhorando a iluminação da avenida. A árvore do Canela também foi uma demanda dos moradores do entorno, devido ao problema de raízes afetando residências e lojas, assim como para facilitar a abertura da nova avenida, que visa a desafogar o trânsito na entrada da cidade”, explica Murton. Segundo o prefeito municipal Aurélio Suenes, todos os cortes feitos até hoje foram motivados pelos próprios moradores, que se sentiam prejudicados com as árvores: “A grande maioria das árvores que existe nas ruas de Resende Costa não é de espécies indicadas para áreas urbanas. Isso ocasiona incômodos seja por causa das raízes que trincam as casas ou por causa das folhas que entopem as calhas. Outra situação que preocupa são as tempestades cada vez mais comuns e que geram riscos para quem mora próximo às árvores”. Para Emerson, muitas vezes os motivos apontados não são suficientes: “Muitos moradores solicitam o
corte de árvores sob justificativas insignificantes, do ponto de vista ambiental e social. Ora são folhas e galhos sujando os passeios e entupindo calhas, outras por simplesmente estarem tampando a fachada da casa. A importância de uma árvore e de uma cidade arborizada vai muito além de simples problemas individuais de moradores que alegam ser afetados”. O CODEMA alega que sempre que é autorizado o corte é orientada a substituição por outra árvore, o que muitas vezes não é atendido. Murton Moreira informa ainda que recentemente foram plantadas árvores no Centro Municipal de Educação Infantil Aquarela e repostas oito palmeiras na rua Doutor Gervásio. O prefeito Aurélio afirma que a intenção é mesmo repor as árvores cortadas, mas observando algumas questões: “O que pretendemos fazer é plantar árvores de pequeno porte em alguns locais. É importante levar em conta que nossa cidade possui calçadas estreitas, que não oferecem boas condições para desenvolver um projeto de arborização, mesmo sendo espécies de pequeno porte”. O represente do IRIS concorda que em algumas situações o corte é necessário, mas a reposição não deveria deixar de acontecer: “Devemos ter bom senso na hora de decidir sobre manter ou cortar uma árvore. E este bom senso tem que ser técnico! Cortar indiscriminadamente espécies pode render multas e, dependendo da espécie, pode ser considerado crime ambiental. Devemos nos atentar aos
Lei permite desconto no IPTU para pessoas que adotarem animais de rua em Resende Costa Aprovada em 6 de abril de 2016, a Lei nº 4.065 autoriza o Poder Executivo Municipal a conceder desconto no IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) aos cidadãos de Resende Costa que adotarem animais de rua. O projeto é fruto de parceria com a Associação RC Animais. Autor do texto, o vereador Lucas Paulo (PSD) dá mais detalhes: “A proposta era, primeiramente, causar repercussão sobre a situação dos animais de rua e gerar comoção para que a população se conscientize a respeito do abandono de animais e adote com responsabilidade. Além disso, queríamos aproximar Poder Público e Associação RC Animais, estreitando cada vez mais os laços entre essas entidades”. Pessoas interessadas em adotar um animal de rua em Resende Costa devem procurar a RC Animais e fazer o cadastro necessário. Será firmado Termo de Responsabilidade com
a Associação, autorizando a mesma a fiscalizar os bons tratos ao animal adotado. O benefício será concedido após seis meses da adoção. O desconto valerá para os próximos anos, enquanto o animal estiver sendo bem cuidado pelos donos. O artigo 3º da legislação dispõe o seguinte: “Para fins de manutenção do benefício previsto nesta Lei, o adotante deverá enviar à Associação de Proteção e Defesa dos Animais do Município de Resende Costa, a cada seis meses, documentação que comprove o bom cuidado do animal adotado, mantido em local seguro e em condições favoráveis à sua dignidade”. O texto destaca, ainda, que o desconto se extingue com a morte ou abandono do animal adotado. Está previsto em Lei, também, os deveres do Poder Executivo Municipal de realizar campanhas de conscientização pública sobre a importância da adoção de animais; mo-
nitorar e avaliar, caso necessário, o cumprimento dos bons tratos aos animais; manter o cadastro e o controle dos adotantes; orientar os adotantes em geral para os princípios da tutela responsável de animais, visando atender às suas necessidades físicas, psicológicas e ambientais. Além do incentivo à adoção, a Administração Municipal firmou convênios com a Associação RC Animais para a realização de mutirões de castração no município, que são realizados frequentemente. “Fora nossa preocupação com as condições em que vivem e os maus tratos aos animais, este é um problema de saúde pública que afeta quase todas as cidades. Mesmo com a crise financeira que os municípios vivem, acredito que devemos fazer o possível para solucionar o problema”, afirma o prefeito municipal Aurélio Suenes. E.R.
Foto Vanuza Resende
Árvores cortadas recentemente na cidade provocam indagações por parte da população
Canteiro central da rua Dr. Gervásio, no centro de Resende Costa
benefícios que as árvores trazem à nossa cidade. Além de embelezar, elas têm um importante papel no equilíbrio térmico, refrescando e colaborando com a redução da poluição sonora e do ar. Fornecem sombra, refúgio e alimento para as aves. Fixação de carbono, produção de oxigênio, proteção contra ventos, dentre outros inúmeros benefícios. Se mesmo assim for inevitável o corte, o poder público municipal pode optar por espécies de árvores já em idade intermediária com porte considerável. Uma árvore para atingir
tamanho adulto, dependendo da espécie, demora cerca de 15 a 20 anos, outras até mais”, sugere Emerson. Para Murton Moreira, Resende Costa necessita de mais árvores: “Em Resende Costa o plantio de árvores está longe do ideal, pois tem uma grande demanda de cortes e uma pequena demanda de plantio. Fato este já discutido pelos membros do CODEMA, no intuito de realizar projetos de arborização, aumentando assim as áreas verdes de Resende Costa”, conclui.
Saúde
Resende Costa não está incluída em área de risco de febre amarela Vanuza Resende
A população brasileira está assustada com o pior surto de febre amarela desde 1980, ano em que o Ministério da Saúde começou a registrar dados. Mais de 800 casos suspeitos já foram registrados no país este ano. Minas Gerais, o estado com o maior número de situações, confirmou mais de 100 casos, com mais de 50 mortes. Em Resende Costa, a procura pela vacina no Posto de Saúde aumentou. No entanto, a cidade não está localizada em área de risco e a grande maioria da população já está imune à doença, visto que foram realizadas campanhas de vacinação no período de 2000 a 2010. Além disso, após duas doses da vacina, que tem 95% de eficiência, não é necessário se preocupar mais com a vacinação. Desde 2015, o Ministério da Saúde afirma que duas doses são suficientes para imunização durante toda a vida, independente se tiver passado mais de dez anos,
como era recomendado até então. O Centro de Saúde de Resende Costa alerta que todas as pessoas maiores de nove meses de idade devem ser vacinadas. Para isso, é necessário levar o cartão de vacinas e, para agilizar o atendimento, o cartão do SUS. Quem planeja viajar para áreas consideradas de risco é importante se vacinar com dez dias de antecedência para garantir a imunização após a primeira aplicação. Por causar reações, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não recomenda a vacina para pessoas com doenças como lúpus, câncer e HIV, devido à baixa imunidade. Os maiores de 60 anos que nunca foram vacinados devem procurar orientações médicas antes de se vacinar. A vacina é oferecida durante todo o ano no Posto de Saúde de Resende Costa, localizado à Praça Marcos Reis, 60. Telefone para contato: 3354-1657. O horário de funcionamento é de 8h às 12h e de 13h às 15h.
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
Perfil
• PÁG. 5
José Venâncio de Resende
Por muito pouco, Adriano Geraldo Soares ficaria fora do carnaval de São João del-Rei deste ano. Na manhã de 24 de Dezembro, véspera do Natal, o baterista da ala dos tamborins da Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de São Geraldo jogava a tradicional pelada de fim de ano com os colegas da fábrica. Na sua vez de ocupar o gol, quebrou a mão ao tentar defender um chute forte. Na hora, Adriano não pensou em nada, era só dor. Mas tão logo passou a dor ele lembrou que os ensaios da escola estavam começando e o carnaval estava próximo. Além disso, quando apareceu com o braço engessado, os colegas disseram em tom de provocação: “Este ano, o carnaval já era!” “No dia em que quebrei a mão, fiquei na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) até as quatro horas da tarde”, recorda Adriano. “Eles só puseram uma faixa, mal colocada, e me encaminharam para engessar. Aí eu improvisei uma tala. Só fui atendido na terça-feira (27 de Dezembro).” Quando este repórter foi recebido por Adriano em sua casa, a previsão era de que o gesso fosse retirada no dia 7 de Fevereiro. “Dá pra eu ensair ainda uma semana e um pouquinho. Por enquanto, a gente vai
acompanhando o ensaio.” Adriano sabe das dificuldades com a mobilidade do braço e da mão logo depois de retirar o gesso. “Nos primeiros dias, o braço não vai ficar bom. Vou ter de improvisar aqui em casa. Por o samba pra rodar e ensaiar até o braço voltar ao normal.” Pelo menos, ele vai ter o incentivo do filho Arian, 15 anos, que desfilou a primeira vez em 2015 (ano passado não houve desfile de escolas de samba) e vai voltar à avenida este ano. “Desde pequenino ele já gostava de samba”, diz com satisfação o pai. Também Adriano, desde criança, já gostava de samba. Aos 10 anos, desfilou pela primeira vez na bateria da Girassol. “Em 1995, quando comecei a namorar com a Adriana, fui ao ensaio da São Geraldo. Já gostei da bateria, da euforia dos componentes… e já vi que era diferente.” A solução foi desfilar nas duas escolas. Acontece que, no sorteio de 1997, as duas escolas caíram no mesmo dia, uma seguida da outra, o que forçou Adriano a escolher. “Aí eu escolhi a Girassol porque tinha ensaiado mais tempo lá.” Em 2003, Adriano optou em definitivo pela escola de samba do bairro São Geraldo. “Fiquei empolgado porque o bairro todo estava focado na escola.” Fazia jus ao nome Unidos de São Geraldo.
Nos primeiros dois anos, Adriano foi comandado pelo mestre Marcelo que, por problemas de saúde, passou a “batuta” para o mestre Wilson, depois de prepará-lo para ser seu substituto. A bateria da São Geraldo tem tradição e fama. “As duas melhores baterias de todos os tempos são as da São Geraldo e dos Metralhas”, opina Adriano. A bateria, formada por 90 a 100 componentes, é dividida por instrumentos. A ala dos tamborins (cinco a seis carreiras de seis), da qual Adriano faz parte, geralmente desfila na frente da bateria. “Os mais ensaiados são escolhidos para a primeira fila. São aqueles que fazem parte da Bateria Show da Furiosa, que apresenta o ano inteiro em festas como casamentos e aniversários.” Adriano já foi campeão quatro vezes pela Unidos de São Geraldo. “Na maioria das vezes, quando não fomos campeões fomos vices.” Na vida profissional, Adriano é operador de stork (máquina de estampar tecido), desde 2006, na fábrica Sanjoanense. “Antes, trabalhei 10 anos na fábrica Brasil, que fechou.” É casado há 19 anos com Adriana Aparecida Oliveira Soares e tem dois filhos, Alan (10 anos) e Arian (15). Além da família, três são suas paixões: carnaval, futebol e pescaria. “Ensaio de carnaval pra mim é a mesma coisa que futebol.”
Foto José Venâncio
Adriano, baterista da escola de samba São Geraldo, e suas quatro paixões
Adriano Geraldo, baterista da Escola de Samba Unidos de São Geraldo
Adriano e o filho Arian
Nos finais de semana, Adriano gosta de pescar no Rio das Mortes e represas próximas. Quando a pesca
está proibida, frequenta os pesque-e-pagues da região. Sempre junto com a família.
PÁG. 6 • Jornal das Lajes
Regional
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
José Venâncio de Resende
O crescimento urbano no Campo das Vertentes está a exigir a adoção do conceito de microrregião metropolitana, que permita aplicar ações integradas nas diversas áreas de gestão pública de interesse comum. O resultado desta expansão é o entrelaçamento social e econômico de São João del-Rei e municípios adjacentes, no qual as atividades comuns impactam uns aos outros, enquadrando-os nas legislações estadual e federal que recomendam a criação de microrregião metropolitana. Um dos maiores defensores desta proposta é o líder comunitário Air de Souza Resende, da AMMAS del-Rei (Associação dos Movimentos Sociais, Moradores e Amigos de São João del-Rei). Para ele, a restrição à mobilidade urbana é um dos principais fatores a criar entraves ao desenvolvimento desses municípios, cujos resultados afetam toda a região. É o que acontece, por exemplo, quando cada Município de uma microrregião metropolitana faz a sua própria concorrência para a contratação de empresa de transporte coletivo urbano ou o Estado não observa a legislação pertinente. As consequências são enormes prejuízos à população, em termos de tempo e dinheiro. Por isso, Air defende “um planejamento sério” que possibilite a existência de linhas de coletivos urbanos, interligando diversos bairros de São João del-Rei, Tiradentes e Prados, como Colônia do Marçal, César de Pina, Águas Santas e Bichinho, e ainda as cidades de Santa Cruz de Minas, Coronel Xavier Chaves e Ritápolis. “Aceitando usuários durante o itinerário, nenhuma linha seria deficitária, oferecendo melhores alternativas de locomoção.” Águas Santas Enquadra-se nesta proposta a ligação por transporte público coletivo de passageiros entre a sede de Tiradentes e seus bairros César de Pina e Águas Santas. “Os dois bairros tiradentinos estão altamente absorvidos, social e economicamente, por São João del-Rei.” O fato é que, para ir a Tiradentes, o cidadão, residente em (ou oriundo de) César de Pina ou Águas Santas que não tiver condução própria, terá de usar transporte público - concorrência realizada pelo governo do Estado – até São João del-Rei. Então, terá de apanhar outra condução via Santa Cruz de Minas ou via BR 265, escolhendo entre duas empresas diferentes, também submetidas a concorrência estadual. O ônibus coletivo interurbano que faz o transporte César de Pina - Águas Santas - São João del-Rei transita até o centro de São João del-Rei, demonstrando que a empresa contratada pelo Estado executa serviço urbano de transporte público coletivo, pondera Air. “O mesmo acontece com a empresa
Foto cedida por José Antônio Ávila
Líder comunitário defende criação de microrregião metropolitana de SJDR
Estação de César de Pina, em Tiradentes
que faz o transporte coletivo entre Santa Cruz de Minas e São João del Rei! Esta empresa só transporta passageiros que partem daquela cidade, ou se dirigem até ela!” Através de liminar judicial, a empresa concessionária - licitada pelo Estado - atua na área urbana de São João del-Rei, estendendo o trajeto até o bairro do Tijuco. Só que não pode aceitar usuários para itinerários intermediários dentro da cidade, mas tão-somente os que vêm de (ou se dirigem a) Santa Cruz de Minas. Outro exemplo é o de Vitoriano Veloso, mais conhecido como Bichinho, distrito de Prados. Ao percorrer o itinerário de São João del-Rei-Santa Cruz-Tiradentes-Prados, Air descobriu que há transporte diário (segunda a sexta-feira), por ônibus interurbano, entre Tiradentes e Bichinho. Porém, o transporte municipal entre a sede do município pradense e o Bichinho restringe-se a apenas um horário semanal (somente à sexta-feira). “A estrada entre Prados e Bichinho tem 6 quilômegtros não pavimentados e os outros 5 km asfaltados por ser parte da rodovia entre Prados e Dores de Campos.” As distorções não param por aí, segundo relata Air. “Sabe-se que mais de mil pessoas de Ritápolis trabalham em São João del-Rei, Tiradentes e Santa Cruz de Minas. Também é expressivo o número de pessoas de Coronel Xavier Chaves que exercem atividades nessas cidades.” E as soluções continuam insuficientes. Air lembra o caso da Planam, contratada para fazer um Plano Municipal de Mobilidade Urbana para São João del-Rei. “Fossem considerados os municípios limítrofes, a empresa teria chegado à conclusão que a concorrência deveria obedecer ao determinado pelo artigo 17 da Lei Federal 12.587.
Não se pode falar de omissão porque eu alertei a empresa na audiência de lançamento dos estudos, a única realizada no teatro do Colégio Nossa Senhora das Dores.” O Plano não foi apresentado em audiência pública nem discutido no Conselho Municipal de Trânsito. Por outro lado, o órgão estadual responsável pela concorrência continua a ignorar o que estabelece o parágrafo único do artigo 17 da Lei Federal 12.587*: “Os Estados poderão delegar aos Municípios a organização e a prestação de serviços de transporte público coletivo intermunicipal de caráter urbano, desde que constituído consórcio público ou convênio de cooperação para tal fim”. Na hipótese de haver legislação estadual sobre o assunto, deve sempre prevalecer a lei federal. Região metropolitana Além da mobilidade urbana, Air aponta outras áreas que exigem gestão conjunta dos municípios com interesses e atividades congêneres: saúde, meio ambiente, educação, turismo e lazer. Por isso, ele defende a criação da microrregião metropolitana e a implantação de um plano de desenvolvimento regional, abrangendo os municípios de São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e Prados. A alocação de recursos do Estado no orçamento da microrregião metropolitana beneficiaria aproximadamente 130 mil habitantes, assinala. Air toma como base a legislação estadual, a começar pela Emenda Constitucional nº 65 (de 25/11/2004)**, que alterou os artigos 42 a 50 da Constituição do Estado de Minas Gerais. O referido artigo 42 diz: “O Estado poderá instituir mediante Lei complementar, região metropolitana, aglomerados
urbanos e microrregião, constituídas por agrupamentos de Municípios limítrofes, para integrar o planejamento, a organização e a execução de funções públicas de interesse comum”. No que tange ao enquadramento na legislação federal, a Lei Federal 13.089 (de 12/01/2015)*** que institui o Estatuto da Metrópole – considera, no inciso I do artigo 2º: “aglomerado urbano, unidade territorial urbana constituída pelo agrupamento de 2 (dois) ou mais Municípios limítrofes, caracterizada por complementaridade funcional e integração das dinâmicas geográficas, ambientais, políticas e econômicas”. Na 4ª Conferência das Cidades de São João del-Rei, realizada em 25 de maio de 2013, foi aprovada moção de autoria de Air, referenciada ao prefeito para que ele levasse à Comissão de Assuntos Municipais, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a proposta de criação de microrregião metropolitana com base no artigo 42 da Constituição Estadual de Minas Gerais. No ano seguinte, Air de Souza Resende enviou sugestão à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de criação da microrregião metropolitana, que não apenas a considerou viável - colocou-a à disposição de algum parlamentar que quisesse apresentar o projeto de lei – como também divulgou a ideia - publicada no jornal Estado de Minas (13/04/2014, página 9). Em 2015, a AMMAS del-REI apresentou a proposta de criação da microrregião metropolitana de São João del-Rei no Fórum Regional do Governo do Estado, realizado em Barbacena. *Política Nacional de Mobilidade Urbana: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20112014/2012/lei/l12587.htm
Estação ferroviária de César de Pina transformada em escombros Depois de viver tempos áureos, a estação de César de Pina – do ramal ferroviário que ligava a Estação de Chagas Dória/ Bairro Matosinhos (São João del-Rei) ao Balneário de Águas Santas (distrito do Município de Tiradentes ¬ MG) – está reduzida a escombros. A construção deste trecho ferroviário começou em 1910, com inauguração em 1911 e desativação em 1966. A estação de César de Pina, inaugurada em 1923 inicialmente com o nome de Chacrinha, era uma das várias paradas no trajeto de cerca de 11 km, que tinha início em Chagas Dória. A estação foi rebatizada com o nome atual em homenagem ao engenheiro Augusto César de Pina. Parte de um trecho ferroviário que viveu época de grande movimentação de trens de cargas e passageiros, a estação de César de Pina está completamente abandonada. Até quando? (fonte: www.patriamineira. com.br).
**Emenda Constitucional nº 65 (de 25/11/2004): http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ emendas/emc/emc65.htm ***Lei Federal 13.089 (de 12/01/2015) - Estatuto da Metrópole: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/ L13089.htm
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
• PÁG. 7
AconteceU
Padre Fernando Salomão celebrou jubileu de prata sacerdotal André Eustáquio
Há 25 anos, precisamente no dia 8 de fevereiro de 1992, o resende-costense Fernando Salomão Resende se prostrava no presbitério da igreja matriz de Nossa Senhora da Penha para receber o sacramento da Ordem do Presbiterado. 25 anos depois, padre Fernando voltou ao mesmo local para celebrar e agradecer a Deus e a Virgem da Penha por seu jubileu de prata sacerdotal. Em clima de júbilo, a Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França recebeu, na noite do dia 8 de fevereiro além dos paroquianos, familiares e amigos do sacerdote, centenas de visitantes vindos de diversas paróquias da Diocese de São João del-Rei, onde padre Fernando exerceu seu ministério. A solene celebração eucarística foi presidida pelo padre Fernando, concelebrada por diversos sacerdotes da Diocese de São João e pelo bispo emérito da Diocese, dom Waldemar Chaves de Araú-
jo, que pregou a homilia. O grupo “Ministério da Música Rios de Água Viva”, da Paróquia de Santo Antônio de Pádua de Itutinga, abrilhantou a celebração. Em sua homilia, dom Waldemar exaltou o ministério sacerdotal fundamentando-se na vida e no testemunho de três grandes pilares do cristianismo: o apóstolo Paulo, Santo Agostinho e São João Maria Vianney. Este último, padroeiro dos sacerdotes. Ministério Padre Fernando Salomão exerceu grande parte do seu sacerdócio na Paróquia de Santo Antônio de Pádua, em Itutinga (MG), onde chegou no dia 3 de janeiro de 1993 após ter sido vigário paroquial nas paróquias de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação, em Andrelândia, e São Sebastião, em Lavras. Os 22 anos de trabalho em Itutinga marcaram profundamente a vida e o ministério do sacerdote: “Passei praticamente esses 25 anos de sacerdócio em
Itutinga. Posso dizer que foi lá que aprendi a ser padre. Por isso, tenho um carinho muito grande e especial pela Paróquia de Santo Antônio de Pádua. Foi um período muito bom em minha vida e em meu ministério”, diz padre Fernando. O sacerdote deixou a paróquia de Itutinga no dia 2 de fevereiro de 2015. Nos últimos dois anos, foi vigário paroquial durante seis meses na Paróquia de São Sebastião de Lavras e, por último, trabalhou na Paróquia de Sant’ Ana do Barroso, em Barroso (MG). Aos 58 anos de idade, padre Fernando iniciará nova missão a partir do dia 18 de fevereiro. Após obter autorização do bispo diocesano de São João del-Rei, dom Célio de Oliveira Goulart, o sacerdote fará uma experiência missionária na Igreja Maronita em São Paulo. “Descobri que alguns antepassados da minha família foram religiosos da Igreja Maronita (um patriarca, cinco bispos e mais de 50 padres)”, conta padre Fernando, que possui ascen-
dência libanesa - seus avós maternos vieram do Líbano para o Brasil, no final do século XIX. “Daí vêm as minhas raízes com a Igreja Maronita”, esclarece. Adaptar-se a uma nova realidade cultural e religiosa traz novos desafios ao padre Fernando. “Aí é que está (risos). A gente não sabe direito o que vai acontecer. O rito, por exemplo, é totalmente diferente do nosso. O rito maronita permite que celebremos em qualquer idioma, mas a consagração só pode ser feita em aramaico, língua que Jesus falou, e a fórmula deve ser cantada”, explica o sacerdote. Questionado sobre por que decidiu aproximar-se somente agora da Igreja Maronita, padre Fernando afirma: “Porque foi agora que surgiu a oportunidade. Descobri que sou Maronita e me adaptei ao rito latino porque a Igreja Maronita não dá assistência aqui”. Mestre e amigo Quando recorda-se dos mo-
mentos especiais de sua vida, padre Fernando não se esquece daquele a quem se refere como “mestre e amigo”, o saudoso ex-pároco de Resende Costa, monsenhor Nélson Rodrigues Ferreira (1914-1988). “Em 1982, estudei latim com o monsenhor Nélson. Na casa paroquial, lia com ele a Bíblia Sagrada durante o café da manhã”, lembra-se padre Fernando. Foi monsenhor Nélson quem preparou e enviou, em 1983, o jovem Fernando Salomão ao Seminário Arquidiocesano Santo Antônio, de Juiz de Fora, onde obteve a formação sacerdotal em filosofia e teologia. “Eu me inspiro sempre nele. O ser padre e o meu jeito de ser têm como grande inspiração e referência o monsenhor Nélson”, revela. No final da entrevista ao JL, padre Fernando aproveitou para agradecer “a Deus, aos meus pais e familiares e, especialmente, a dom Célio que me liberou para fazer essa experiência missionária”.
Fotos André Eustáquio
Diversos sacerdotes concelebraram a missa em ação de graças pelo Jubileu de Prata Sacerdotal do pe. Fernando
Sacerdotes da Diocese concelebraram com padre Fernando
Padre Fernando recebeu dos fieis a imagem de Nossa Senhora da Penha
Familiares, amigos e paroquianos do padre Fernando participaram da missa em ação de graças
Padre Dirceu Medeiros, vigário geral da Diocese, leu mensagem de dom Célio
Padre Fernando entrega a eucaristia ao seu irmão Miguel
Padre Fernando durante a consagração
Dom Waldemar Chaves, bispo emérito de São João, pregou a homilia
PÁG. 8 • JORNAL DAS LAJES
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
CArnAVAL
Carnaval 2017 acontece de 17 a 28 de fevereiro
Baile de Máscaras no Teatro Municipal é a principal novidade desta edição
O produtor rural Adilson Gouveia traz informações sobre a raça de gado Girolando:
“
EMANUELLE RIbEIRO
Com o slogan “Tradição mesmo é cair na folia!”, a Prefeitura Municipal já divulgou a programação do Carnaval 2017 em Resende Costa. A festa será realizada entre os dias 17 e 28 de fevereiro, com uma novidade para esta edição: “O Carnaval deste ano em Resende Costa vem com a proposta de voltar ao mais tradicional possível. Pensamos em manter apenas os blocos que sempre estiveram presentes na história carnavalesca de nossa cidade. Mas com uma nova ‘roupagem’ sugerida pela Comissão de Carnaval nomeada pelo prefeito municipal. Optamos pela não realização dos blocos no domingo e segunda-feira que antecedem ao Carnaval, fazendo assim uma pausa na programação, que contará com um ‘Esquenta’, com o tradicional Pré-Carnaval e com a realização dos dias oficiais, como de costume. A proposta de retornarmos ao tradicional envolve, inclusive, a realização do ‘Baile no Clube’, que será realizado no Teatro Municipal especialmente para o público mais velho. Sabemos que agradar a todos é impossível, mas faremos da melhor forma, conciliando uma bela festa e a realização de maneira economicamente viável”, afirma o chefe do Setor de Cultura da Prefeitura Municipal, Lucas Lara. Confira a programação:
Vc no JL
ESqUENTA 17 de fevereiro (sexta-feira): bLOCO SERRA dO URUbU. 18h – Saída do bairro Nova Resende; 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Até às 2h – Som com DJ na Avenida Alfredo Penido. 18 de fevereiro (sábado): bLOCO dO RIFUGO. 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Até às 2h – Som com DJ na Avenida Alfredo Penido. PRé-CARNAVAL 21 de fevereiro (terça-feira): bLOCO dO RETALhO. 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Na chegada à aveni-
da Gonçalves Pinto: Concurso Melhor Fantasia com premiação. 22 de fevereiro (quarta-feira): bLOCO dOS MENdIGOS. 18h – Saída do bairro Tijuco; 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Na chegada à avenida Gonçalves Pinto: Concurso Melhor Fantasia com premiação. 23 de fevereiro (quinta-feira): bLOCO dO PIJAMA. 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Na chegada à avenida Gonçalves Pinto: Concurso Melhor Fantasia com premiação. 24 de fevereiro (sexta-feira): bLOCO dAS dOMéS-
Gostaria de participar desta seção do Jornal das Lajes falando de algo que está presente no meu dia a dia. Como produtor rural, residente no povoado do Cajuru, decidi falar sobre minha área e, por isso, apresento informações que podem interessar outros colegas do setor e, também, quem queira conhecer mais sobre o assunto. Falo, então, sobre uma raça de gado que nasceu em pastos brasileiros e que está se expandindo cada vez mais: Girolando. Ela se originou do cruzamento do Gir com o Holandês, herdando do primeiro a facilidade de adaptação e a rusticidade e do segundo a grande capacidade de produção leiteira. A Girolando, a cada dia que passa, está se mostrando mais produtiva: do total de litros de leite produzido hoje no Brasil, 80% já pertence a essa raça. Para os criadores, é uma raça que eu indico bastante. O gado que está adaptado ao nosso clima e nos gera uma riqueza enorme: o leite, alimento fundamental e indispensável a nossas mesas em qualquer fase da vida. Girolando, uma paixão de resultados! Para quem se interessa por mais informações, pode acessar o site www. girolando.com.br
”
VC NO JL: Entre em contato com a gente e indique algum livro, filme, série, programa de TV, jogo, CD, site, enfim, algo que você goste e que queira compartilhar com outras pessoas.
TICAS. 19h – Concentração na Praça do Rosário; 20h – Saída do Bloco; Na chegada à avenida Gonçalves Pinto: Concurso Melhor Fantasia com premiação; Até às 4h – Sonorização. dIAS OFICIAIS 25 de fevereiro (sábado): 15h às 18h30 – Matinê; 16h – Aulão de Zumba na Avenida; 20h30 às 4h – Sonorização com DJ. 26 de fevereiro (domingo):
15h às 18h30 – Matinê; 16h – Aulão de Zumba na Avenida; 20h30 às 4h – Sonorização com DJ. 27 de fevereiro (segunda-feira): 15h às 18h30 – Matinê; 21h – Carnaval Retrô - Baile de Máscaras no Teatro Municipal; 20h30 às 4h – Sonorização com DJ na Avenida. 28 de fevereiro (terça-feira): 15h às 18h30 – Matinê; 20h30 às 2h – Sonorização com DJ na Avenida.
Teatro
Atenção amantes da arte de representar! Está saindo do forno mais um espetáculo da Cia. de Teatro Embaixadores da Arte ANdRé EUSTÁqUIO
A Cia. de Teatro Embaixadores da Arte vai estrear em março um novo espetáculo em Resende Costa, fruto do módu-
lo dois da oficina de formação de atores. O espetáculo terá a direção de Abel Júnior e Ezequiel Santos. “O espetáculo ainda não tem nome definido, pois o processo ainda se encon-
tra em etapa de finalização”, informou Abel. A oficina de atores teve início em novembro do ano passado e o espetáculo que estreará em março coroará o projeto.
“O texto é uma adaptação livre de quatro textos e promete ser ‘uma comédia pra morrer de rir’”, diz Abel, que revela que a escolha de uma comédia atende aos pedidos “dos amantes
da companhia que sempre solicitam comédia”. O espetáculo ficará dois meses em cartaz em Resende Costa e depois entrará em turnê pelas cidades vizinhas.
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
José Antônio*
Regina Coelho
A Teia do Mundo
Contemplando as Palavras
Sedução Havia tempos que eu desejava uma aproximação. Mesmo nessa correria louca de cidade grande, sempre a percebi. No meio de buzinas, asfalto, prédios e neon... ela sempre lá. No mesmo lugar: bonita e austera. A curiosidade em conhecê-la me atiçava, mas seu porte imponente me intimidava. Além disso, eu precisava de um motivo plausível para chegar até ela. Até que um dia eu ganhei coragem. – Pois não, senhor! Um sujeito elegantemente vestido com um terno preto me recebeu na mais requintada formalidade. – Olhe, amigo – retruquei – eu apenas queria conhecer a casa de velório. Dizem que é a mais chique do país. Todos os dias passo aqui em frente e hoje eu decidi ver como é. O sujeito esboçou um sorriso acolhedor, porém discreto. E começou a fazer as honrarias da casa fúnebre. Enquanto adentrávamos o recinto, eu disse que tinha morado um tempo ali no bairro, que aquele local era um campinho, que eu estava impressionado com o luxo da casa... – Aqui é a sala de convivência! Era um cômodo confortável, com sofás grandes, mesinhas de centro, bebidas, cafezinho, quitutes, música ambiente, TV por assinatura e internet liberada com senha e tudo. Velório é chato e cansativo. Porém, o conforto da sala colocava a chatice na sola. Soube de gente que foi pro velório e parou antes na tal da sala. Conversou, comeu, bebeu, viu TV, arrumou namoro pela
• PÁG. 9
Tempos de Anunciação internet e foi embora sem nem mesmo saber se o morto estava deitado de costas ou de lado. O cara do terno preto ainda me mostrou os banheiros, a cozinha, fraldário e uma outra sala lá no fundo, com uma mesa de sinuca. Um luxo só. – Nossa missão é que a separação do ente querido não seja tão desgastante. Nem quis perguntar o preço daquilo. Não quero que minha partida seja desgastante nem gastante. Por fim, ele me mostrou uma outra sala. Era central, mais espaçosa, arejada, com banquetas estofadas, ar condicionado e flores. Era a sala do velório. Até esqueci que ali tinha que ter sala pra isso! Ele falou sussurrando: – Há um corpo aí para o velório. Morte por acidente. Os familiares estão chegando. Entrei na sala e me aproximei daquele defunto granfino e solitário. Era uma mulher. Coisas estranhas sempre me perseguem. Ao olhar aquele corpo, um frio me bambeou as articulações: eu conhecia aquela mulher. Tinha sido minha namorada num passado já distante, naquele bairro mesmo. Conferi o nome. Era ela. Reencontro na tangente de dois planos intransponíveis. A casa com as janelas e portas abertas, lar das coisas findas... a mulher com os olhos fechados, aconchego morto de lembranças infindas. Acho que a sedução é o drama sofrido entre o nunca e o ainda. Ontem eu passei em frente à casa. Austera, bonita e imponente. Desviei os olhos. Certas seduções são muito malucas. Malucas mesmo.
*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. E-mail: jresende@mgconecta.com.br
Dona Anunciação tornou-se uma figura lendária em Resende Costa e deixou muitas saudades. Em 1992, o Lar São Camilo passou a ser a sua nova casa.
Eu me lembro bem. Na rodoviária de São João aguardando o ônibus que me traria de volta a Resende Costa, avistei em frente ao Supermercado Monte Rey a Anunciação gritando meu nome a plenos pulmões para me perguntar em seguida, com uma certa apreensão, se tinha havido reunião na Delegacia de Ensino. Ao fazer aquilo, ela dava a entender que poderiam não ter lhe avisado sobre o encontro. Disse-lhe então que estava ali por outras razões, tranquilizando-a. Minha “colega de trabalho” abriu um sorriso aliviado. Isso mesmo! Anunciação era professora, diretora, inspetora, delegada, juíza, promotora... O que ela quisesse ser. Por muito tempo, ela desfilou sua figura simpática pelas ruas de sua cidade. Sua, sim, pois mandava em tudo por aqui. Em suas visitas à E. Conjurados para “conferir” se estavam em ordem as coisas por lá, a festa dos alunos estava garantida com a sua alegria. Sem atrapalhar o andamento das aulas, passava pelo corredor, dava uma espiadinha pelas salas, puxava uma conversa rápida e divertida com a meninada e ia embora feliz. E assim prosseguia, passando também pela Minas Caixa (extinta em 1991) e pelo Cartório do Tonico, lugares onde era recebida como “autoridade” que era, assinando e carimbando papéis. E assim acontecia pelos lugares por onde ia. Querida pelos adultos e pela criançada, havia, porém, em al-
gumas pessoas uma vontade incontrolável de provocá-la com certas brincadeiras de mau gosto como quando, por exemplo, a chamavam de Maria Fumaça, Ponte Preta, coisas desse tipo. Ela ficava brava, fora de si e retribuía as provocações com xingamentos tão fortes que pareciam lhe saltar do pescoço as veias. Mas, certa vez, presenciei uma cena, no mínimo, digna de análise. Vítima constante de uma certa turma de meninos que jogavam bola diariamente na rua e não a deixavam em paz, ela reagiu de forma surpreendente ao perceber que eles, naquele dia, entretidos na brincadeira, não deram por sua presença. “Ô, menino, cê não tá vendo eu aqui, não?”, indagou a Anunciação a um deles. Em 1992, o Lar São Camilo passou a ser sua nova casa. Brincalhona, ela só se irritava mesmo, como já foi dito, se insistiam em tratá-la pelos apelidos, que detestava. Aí, ameaçava chamar o “seu Inácio Polícia”. É o que diz a cuidadora de idosos Cida M. Lima, 54, há 17 anos no Lar, escolhida como sua madrinha de consagração em pedido da Anunciação ao padre Claudir. História interessante sobre essa marcante criatura ouvi do Dr. Donizetti (juiz de direito da comarca de Resende Costa). Era sua primeira ida, a trabalho, ao Lar São Camilo. Recebido pela Irmã Judith, teve a oportunidade de ser apresentado à D. Maria (como se refere a ela), que cantou para ele uma música em latim.
Imagino que tenha sido o canto da Verônica, que acompanha bonito ritual da Sexta-Feira Santa. Conversa vai, conversa vem. “E a senhora gosta daqui?”, ele pergunta. “Não”, responde ela. Constrangimento, ao que a “cantora” emenda: “A comida daqui não tem sal”. Alívio geral, explicações da Superiora sobre os cuidados com a saúde dos moradores da Casa e a promessa dele de enviar para sua nova conhecida um doce de leite. Promessa esquecida. Passados uns dois anos, por dever do cargo, ele voltou ao Lar e quis rever a D. Maria. Ao lhe perguntarem se ela se lembrava dele, a resposta foi direta: “É aquele que me prometeu um doce e não me deu”. Depois dessa, doce mandado. Promessa cumprida. Maria Anunciação de Jesus nos deixou no último dia 20. Lúcida o tempo todo, cega há um bom tempo, boa saúde. “Mas já conversava bem fraquinho”, afirma Jhennifer, 21, técnica em enfermagem do LSC, parecendo explicar a inevitabilidade de sua partida. Tranquilamente, aos 90, quase 91 anos, de acordo com os registros do Lar mostrados por Josielle Chagas, 23, recepcionista. Controversa idade – mais de 100 anos? Dizem. Isso não importa. Parafraseando Manuel Bandeira, com seu singelo poema Irene no céu, imagino Anunciação entrando no céu: - Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: Entra, Anunciação. Você não precisa pedir licença.
PÁG. 10 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
João Magalhães
O Verso e o Controverso
Renato Ruas Pinto
Trilha Sonora
Os simbolismos do corpo humano na As pedras que ainda rolam e lançam bons discos Bíblia: a boca – parte 4 Para a Bíblia, a boca compõe-se de lábios, língua, dentes e palato. Em virtude da multifuncionalidade dos componentes da boca humana, a ela está ligada uma vasta gama de símbolos, que vai do desprezo à mais alta apreciação: O sorriso, o beijo, os provérbios e aforismos, o justo e injusto falar, o discurso correto e oportuno, o silêncio, a mudez, a maldição, o vitupério etc. O sorriso. Comumente, não é um sorrir afável e sim uma expressão de júbilo pela vitória sobre um inimigo, ou até uma satisfação pelo mal alheio (Sl 52,8). O próprio Deus tem semelhante atitude: “O que habita nos céus ri, o Senhor se diverte à custa deles [nações e reis amotinados]. E depois lhes fala com ira, confundindo-os com seu furor” (Sl 2,4.5. 9). E Jesus: “Bem-aventurados vós que agora chorais [pela opressão dos ricos], porque haveis de rir [pela mudança de situação: os ricos que riam, agora choram]” (Lc 6,21.25). O beijo. “A Bíblia hebraica fala com mais carinho da boca que beija. “O belíssimo poema “Cântico dos Cânticos” assim começa: “Beija-me com beijos de tua boca”! O beijo pode ser acompanhado também pelo choro: “Jacó deu um beijo em Raquel e depois caiu em soluços” (Gn 29,11). Lc 7,38: “Então ficando por detrás [uma mulher], aos pés dele, chorava; e com lágrimas começou a banhar-lhe os pés, a enxugá-los com os cabelos, a cobri-los de beijos e ungi-los com o perfume”. O beijo de saudação como em Gn 29,13: “ Labão correu a seu encontro [de Jacó], apertou-o em seus braços, cobriu-o de beijos”. O beijo de despedida: At 20,37: “E lançando-se ao pescoço de Paulo, beijavam-no, veementemente aflitos, sobretudo pela palavra que dissera: que não mais haveriam de ver sua face”; Gn 4,48: “E José os [netos] fez aproximar-se dele [Jacó], que os beijou e os apertou entre os braços”. Há também o beijo formal, com o qual as autoridades expressam a recíproca lealdade, o beijo fraterno oficial (2Sm 14,33) ou o beijo ritual, por ocasião da unção (1Sm 10,1) que expressa a transmissão do poder e o selo de legitimidade. No Egito, a lealdade entre a casa do faraó e o Templo podia ser expressa por meio de um beijo entre um deus e o rei. Quanto a Yaveh, no entanto, quando muito, é considerado conveniente apenas
Egito, reinado Sesóstris I (1971-1930 a.C) Abraço e beijo de saudação, expressando íntima ligação e lealdade entre o rei e o deus Ptah.
o beijar seus pés (Sl 2,11), mesmo porque, para os profetas judeus, beijar uma imagem de culto é algo horrível: “Seres humanos beijam bezerros!!” (Os 13,2). E como compensação ao beijo da traição como o de Judas, a bela metáfora do salmo 85,11: “Justiça e Paz se beijam”. A boca sensata. Símbolo do conselho, do provérbio sábio, do aforismo, da purificação ou da profanação. Eclo 22,27: “Quem me colocará um guarda na boca e sobre os lábios o selo da sagacidade, para que eu não caia por sua falta e minha língua não me arruíne”? Pr 15,4: “Uma língua reconfortante é uma árvore de vida, mas, se nela há perversão, esmaga o espírito”. Mt 15,10: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim, o torna impuro”. A boca muda. Símbolo de opressão. A mudez é vista como obra do demônio. Lucas,11,14: “Quando o demônio saiu, o mudo falou e as multidões ficaram admiradas”. Diz Isaias 35,6, que no tempo da salvação a língua dos mundos se destravará e eles canta-
rão alegres canções. No Egito, era pavorosa, a ideia de ficarem mudos no mundo dos mortos. Assim, atribuía-se grande significado ao ritual de abertura da boca que os sacerdotes faziam na múmia. A boca dominadora. A língua como instrumento de dominação, prepotência e orgulho. Exemplo é a torre de Babel (Gn 11), que seria uma reação ao rei assírio Sargon II que visava alcançar um domínio universal por meio da uniformização da língua. A boca da união. A felicidade pelo mútuo entender-se de línguas diferentes, simbolizada pelo milagre das línguas em Pentecostes (At 2,1-13) e pela assembleia das nações na visão do Apocalipse (7,9): “Depois disso, eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão”. (Fonte principal: Schroer e Staubli: “Simbolismo do corpo na Bíblia”).
O fim do ano passado viu o lançamento de mais um álbum dos veteranos, mas ainda enérgicos, Rolling Stones. Um disco despretensioso, mas ainda assim com qualidade para mostrar que os Stones não se tornaram clássicos por sorte (muito menos pela beleza, se me permitem a brincadeira). Eles se confundem com a história do rock e contribuíram muito para a popularização desse estilo. E já nos seus setenta anos (exceto o guitarrista Ron Wood, que chega lá este ano), ainda protagonizam performances grandiosas e quentes como pode ser visto no show em Cuba no ano passado, que virou um documentário (“Havana Moon”, que já está sendo mostrado no canal Bis da TV a cabo). Mas um currículo notável não é salvo-conduto para se produzir qualquer coisa. Pelo contrário, há sempre uma pressão grande por parte de público e crítica (os últimos em especial) para não deixar a qualidade cair, e, definitivamente, eles passaram longe de decepcionar. Os Rolling Stones vieram com “Blue & Lonesome”, um disco que traz somente gravações de outros artistas, sem faixas com a tradicional assinatura “Jagger/Richards”. Mas não sem um motivo, já que resolveram fazer um mergulho no estilo e artistas que foram sua maior influência: o blues e seus heróis como Howlin’ Wolf, Little Walter e Willie Dixon. Foi o gosto comum pelo blues que aproximou Mick Jagger e Keith Richards: no primeiro instante para compartilhar discos e depois para tocar juntos. E o nome da banda vem do título de uma canção de um dos grandes mestres, Muddy Waters. Grandes devotos do blues, os Stones sempre registraram em seus álbuns clássicos como “Love in Vain”, de Robert Johnson, ou “Little Red Rooster”, de Willie Dixon. E ao falar dessa última música, é preciso abrir um parêntese para a grande contribuição dos Stones ao estilo, ao dá-lo visibilidade e praticamente promover o seu renascimento em sua própria terra, os EUA. No fim dos anos 50 e começo dos 60 o blues andava em baixa nos EUA, mas florescia
no outro lado do Atlântico, na Inglaterra de Jagger, Richards, Eric Clapton e John Mayall. Endeusados por esses artistas, nomes como Muddy Waters ou Howlin’ Wolf passavam dificuldades, perdendo vendas para o rock que havia conquistado a juventude. A redescoberta pelos ingleses fez com que o estilo viajasse de volta para os EUA e desse a justa projeção aos artistas que fazem parte da gênese do rock. Os Stones puseram “Little Red Rooster” no topo da parada britânica em 1964 ajudando a dar destaque para o blues eletrificado no melhor estilo de Chicago e da lendária Chess Records (gravadora sobre a qual já escrevi nessa coluna). Em suas primeiras turnês nos EUA, os Stones fizeram questão de convidar os mestres para suas aparições na TV, além de registrar algumas faixas no estúdio da Chess. Com todo esse histórico e autoridade, os Stones apresentam um disco que é um tributo aos seus mestres e passa longe de ser uma imitação barata ou “mais do mesmo”. A gaita de Mick Jagger é competente e autêntica e faz frente a gaitistas de profissão. E seus vocais são precisos e sem grandes afetações, pecado que Jagger tem cometido recentemente. Aqui ele soa simples e direto como um autêntico blues exige. As guitarras de Ron Wood e Keith Richards têm sua devida proeminência, já que a base do disco é enxuta, com apenas alguns teclados e percussão somados ao quarteto mais o baixista Darryl Jones. A bateria de Charlie Watts, como sempre, é segura e irretocável. E para fechar com chave de ouro, ainda há a participação mais que especial de outro mestre do blues, Eric Clapton, que aparece em duas faixas com uma sonoridade que faz lembrar seu início de carreira na banda de John Mayall, quando era um purista do estilo. Enfim, quem gosta de blues não pode perder esse disco, que faz um belo resgate da sonoridade eletrificada da escola de Chicago. E quem gosta de Stones, mas não conhece suas origens, é perfeito para entender a banda e quais foram suas verdadeiras influências.
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
Cultura
• PÁG. 11
O sabor da infância Picolé do Amado celebra 50 anos, história e tradição se misturam em um único doce melhores, mas igual, nunca. Ele aprendeu a fabricar as receitas com 12 anos, e quando a sorveteria passou para seu nome, começou a criar novos sabores. O doce representa a vida de Dalmir. “Pra mim isso é tudo. Eu adoro fazer picolé, sinto prazer nisso. E trabalhar onde meu pai esteve é um conforto.” Dificuldade todos passam, e com o Picolé do Amado não foi diferente. A família era muito pobre quando começou o negócio. Dalmir tem mais seis irmãos, e foi difícil para Amado criar todos eles em uma época que o Brasil passava por uma série de crises econômicas. O atual dono dos picolés agradece a Deus pela sorveteria ter dado tão certo na cidade, e que agora tenha virado uma tradição.
TEXTO/VAN: Beatriz Estima
Em 2016 a tradicional sorveteria Picolé do Amado completou 50 anos de história, trazendo muito mais que a refrescância dos seus sabores, um gostinho de infância. Dalmir Vieira, atual dono do estabelecimento, é um senhor de meia idade, carismático e atencioso. Todos os dias ele vai até a sorveteria fabricar os picolés, tirando o doce da própria fruta, tudo artesanalmente. Dalmir é filho e herdeiro do Amado José Vieira, o precursor dos picolés. “Eu sempre trabalhei aqui. Comecei com 9 anos vendendo picolé na rua. Depois meu pai precisou de ajuda e passei a trabalhar aqui dentro”, explica Dalmir. A história da sorveteria é singela e emocionante. Nos anos 1960, Amado Vieira passou a ter problemas financeiros após a queda de rendimento de seu estabelecimento, um bar na rede ferroviária de São João del-Rei. Com as contas no vermelho, Amado se viu forçado a trocar de emprego e mudar de ramo. Comprou uma bicicletaria e passou a consertar e alugar bicicletas na cidade. Em 1966, um senhor apareceu no estabelecimento pedindo para o ‘seu’ Amado consertar uma máquina de picolé. “Meu pai fez um orçamento do quanto ia ficar o conserto.
Seu Amado, precursor dos picolés
Rotina de Trabalho
O senhor se assustou com o preço e não quis mais, porém ele não conseguia levar a máquina de volta, então fez um negócio com meu pai”, relata Dalmir. Reformando a máquina, Amado fez alguns picolés para testes e passou a oferecer aos clientes da bicicletaria. “O pessoal experimentava os picolés e gostava. Voltavam no outro dia querendo mais. E assim foi ficando, a venda de picolé foi aumentando, até que meu pai se sentiu obrigado a parar o ramo de bicicleta para fazer só picolé. Eu tinha 9 anos”, lembra. Com 12 anos, Dalmir já fabricava os picolés junto com seu pai. Na época do exército, assim que ele foi se alistar, Amado pediu para o liberarem, pois precisava de toda
a ajuda possível para seguir com as vendas na sorveteria. Para uma criança, ver seu pai fabricando picolés era um sonho. Dalmir vivia esse paraíso; um doce de infância que virou negócio de família, e hoje é o seu sustento. A tradição começou a partir daí. Os clientes da bicicletaria do Amado divulgavam os picolés da melhor forma que podiam: o famoso ‘boca a boca’. “Todo mundo dizia, ‘ vai lá no Amado chupar picolé’ e assim o pessoal começava a vir. E o conserto de bicicletas começou a ter mais cara de sorveteria”, diz Dalmir. As pessoas da região, vizinhos, amigos, conheciam os picolés, conheciam o Amado. Logo, a sorveteria passou a se tornar um
ponto indispensável de se conhecer ao ir para São João del-Rei. O Picolé do Amado virou ponto turístico. Segundo Dalmir, o que faz esse doce ser tão tradicional em São João foi ter mantido a qualidade durante o passar do tempo, não perdendo o sabor tão específico do picolé após cinco décadas. “O picolé sempre foi a mesma coisa em 50 anos. A pessoa que chupou o picolé aqui 30 anos atrás, volta compra o doce e diz ‘Nossa, igualzinho o tempo que chupava esse picolé quando criança’ então tem essa ligação”. As receitas são únicas, criadas justamente pela família Vieira, da qual Dalmir se orgulha muito. Para ele, pode haver picolés piores ou
O Picolé do Amado se encontra na rua José Leite de Andrade, em São João del-Rei, aberto das 11h da manhã às 21h. Renata Vieira, filha de Dalmir, abre a sorveteria e começa a fabricar os picolés de manhã, todos os dias. Renata tem 25 anos e estuda Administração na UFSJ. É herdeira e a única, além de Dalmir, a fabricar os picolés. Nas vendas, quem ajuda é o namorado de Renata, Renato Elisei Menezes, estudante de Engenharia Mecânica. A interação com os clientes, saber as opiniões sobre o produto, contar até mesmo do dia a dia, aproxima os funcionários dos compradores, criando um ambiente saudável e harmonioso. A fabricação acontece todos os dias, artesanalmente e 100% natural. Renata e Dalmir tiram o doce da própria fruta e montam suas receitas. Nos dias pouco movimentados é dedicado maior tempo para a fabricação, sem necessidade de acelerar o processo de produção. Enquanto nos demais dias, é preciso aumentar o ritmo, sem deixar de perder a qualidade. O Picolé do Amado é um dos lugares que fazem parte da história de São João del Rei. São 50 anos deixando a vida dos são-joanenses mais doces, levando em cada picolé o sabor da infância.
PÁG. 12 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Cidades
Viagens
Calçada portuguesa, em Lisboa (Portugal) e em São João del-Rei Quem caminha pelo centro de São João del-Rei depara-se com vários espaços (passeios e praças) cobertos com a famosa calçada portuguesa. Mas com certeza nem de longe repetem a qualidade e a riqueza de motivos das calçadas portuguesas em Lisboa e no interior de Portugal. A calçada portuguesa foi implantada em São João del-Rei na primeira gestão do prefeito Nivaldo Andrade (1993-1996). Segundo fontes da prefeitura, as pedrinhas foram trazidas do município mineiro de Luminárias, a pouco mais de 100 quilômetros de São João. A obra teria sido realizada por várias pequenas empreiteiras. Algumas calçadas trazem nomes de empresas e entidades. Isto pode ter contribuído para uma certa diferenciação na qualidade dos serviços, de acordo com o maior ou menor interesse manifestado por parte da empresa beneficiada. Passados cerca de 20 anos, o que resta na maior parte dos espaços ocupados pelas calçadas portuguesas são passeios com pisos irregulares, espaços vazios entre as pedrinhas mal colocadas, buracos causados por pedrinhas soltas e remendos com massa de cimento. Entre as principais reclamações, estão torções no pé, dificuldade de uso de saltos por parte das mulheres e de cadeiras de roda por parte de pessoas com deficiência, além do incômodo da presença de poças d´água em dias de chuva. Segundo a arquiteta Branca Gameiro Neves, da Câmara Municipal de Lisboa, a exemplo de São João del-Rei, muitas cidades do Brasil têm calçadas portuguesas e padrões próprios. Mas nem sempre a execução segue as técnicas tradicionais. “Em São Paulo, por exemplo, existem calçadas bem executadas.” Uma das deficiências no Brasil é a falta de mão-de-obra especializada, que poderia ser suprida com cursos de formação de calceteiros. Em Portugal, este tipo de calçada está com a cotação em alta. No canteiro de obras em que Lisboa se transformou em 2016 (mais espaço para pedestres, passeios mais confortáveis, mais ciclovias, mais áreas verdes, maior segurança rodoviária, mais estacionamentos etc.) e deve continuar este ano, sempre há espaço para a implantação da calçada portuguesa.
Emanuelle Ribeiro / Luana Assis Foto José Venâncio
José Venâncio de Resende
Pretende viajar para o exterior? Fique atento a algumas informações
Calçada portuguesa em São João del Rei, na Rua Sebastiao Sete
Mar Largo, na praça do Rossio, uma das mais antigas de Lisboa
Além disso, uma petição on-line para elevar a calçada portuguesa a patrimônio imaterial da humanidade já conseguiu quase sete mil assinaturas, mais do que o suficiente para tramitar na Assembleia da República de Portugal. A iniciativa foi do calceteiro Fernando Pereira Correia* que lançou a petição no início de outubro, depois de ter apresentado a proposta ao parlamento, numa audiência na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. Selo de qualidade Para Branca Neves, depois de legislar sobre o assunto a Assembleia da República deve encaminhar a petição à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A intenção desta iniciativa é valorizar a calçada portuguesa e estimular a reciclagem e a formação de novos
calceteiros. “A classificação como patrimônio da humanidade chamaria a atenção para a importância da calçada portuguesa e das suas técnicas de execução. Permitiria preservar o que existe e, quando houver intervenção, deve ser no sentido de aperfeiçoar a sua forma de execução e de inovar com novos padrões.” A classificação funcionaria como um selo de qualidade que, além de valorizar a calçada portuguesa, ajudaria a obter financiamento e apoio de fundos europeus, acrescenta Branca. Uma decisão favorável nesse sentido viria num momento mais que oportuno, já que Lisboa foi escolhida como a capital ibero-americana da cultura em 2017. Branca Neves interessou-se pela calçada portuguesa quando, há cerca de 12 anos, trabalhou para a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa, fundada no
Para quem está planejando um passeio para o exterior, existem muitas ações que podem fazer a diferença e evitar transtornos que poderiam transformar a sua viagem em um pesadelo. Fazer uma pesquisa sobre documentos necessários e, até mesmo, sobre as leis do país de destino é muito importante. Viajar para o exterior é um sonho para muitos, mas, para evitar que a experiência se transforme em pesadelo, é importante pesquisar muito antes de tomar decisões. Definir roteiros, conhecer o idioma falado no local de destino e outras informações fazem a diferença. O diretor da Globalvisa Assessoria Internacional, Fábio Stockler, explica os primeiros passos para uma viagem sem transtornos: “O primeiro passo é olhar o que o destino exige do viajante em termos de documentos, porque pode haver necessidade de visto e também algo relativo à vacina, por exemplo”. Se para viajar sozinho ou com outros adultos é fundamental muita pesquisa, quando o passeio envolve crianças e adolescentes a intenção deve ser redobrada, como destaca Fábio: “Os menores de idade sempre precisarão de autorização dos pais ou responsáveis. Há um equívoco, pois há opção de colocar no passaporte de um menor que ele pode viajar sozinho, porém o que determina a entrada de uma pessoa em outro país é a lei do país. O Oficial de Fronteira é quem vai permitir ou não. Quanto à viagem aos Estados Unidos, por exemplo, recentemente tive-
início dos anos 1970 para formar profissionais nesta arte. A arquiteta já elaborou um livro sobre a calçada portuguesa em Lisboa (2013), que pretende lançar para o público, e desenvolve o projeto “Portugal Tires”, que reúne diversos produtos da calçada portuguesa em azulejo. Seu objetivo é produzir motivos de calçadas artísticas fotografadas em azulejos pintados a mão. Origem A calçada portuguesa surgiu em
mos o caso de uma modelo de 16 anos, que tinha constado no passaporte que podia viajar desacompanhada, mas foi barrada chegando lá, pois lá isso não tem valor algum. A pessoa consegue embarcar no Brasil, mas isso não indica que ela entrará no país destino”. Para países onde é exigido visto, os viajantes podem contar com a ajuda de profissionais para conseguir o documento. Para viajar a países da América do Sul é necessário apenas a apresentação do Documento de Identidade. Passaporte Tirar o passaporte é o primeiro passo para uma viagem internacional a qualquer outro país fora da América do Sul. Obter o documento, que é emitido pela Polícia Federal, é simples e pode ser feito sem grandes despesas. É necessário comparecer a um posto da Polícia Federal por duas vezes: uma para tirar as digitais e fazer a foto e outra para retirar o passaporte pronto. São necessárias as seguintes ações: reunir a documentação necessária (Documento de Identidade, Título de Eleitor, CPF, Documento que comprove quitação com o serviço militar obrigatório para os homens, Certificado de Naturalização para os naturalizados e, caso esse não seja seu primeiro passaporte, levar o documento anterior); preencher um formulário de solicitação disponível no site da Polícia Federal; pagar a taxa de emissão; agendar a data de atendimento; comparecer ao posto da Polícia Federal com a documentação exigida, o comprovante de pagamento da taxa e o protocolo da solicitação; Retirar seu passaporte.
Lisboa em meados do século XIX, quando o motivo “Mar Largo” foi escolhido para pavimentar o tradicional Largo do Rossio, na parte antiga da cidade. Desde então, o trabalho dos mestres calceteiros ganhou o país de norte a sul, embelezando praças e ruas de cidades e vilas. Ao mesmo tempo, disseminou-se pelo mundo, principalmente nos locais onde a influência portuguesa chegou e se faz sentir. *http://fernandocorreia.com/
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Economia & Negócios
Jornal das Lajes
• PÁG. 13
EXCLUSIVO: São João del-Rei tem a segunda maior poupança por habitante de Minas Gerais me parece ser uma característica do são-joanense contemporâneo. Seus antepassados acumularam o ouro que o colonizador não levou, e que financiou um ciclo de prosperidade de uma economia mercantil e industrial. Em 1860, instalou-se aqui uma das primeiras instituições particulares de crédito no Brasil – a Casa Bancária Custódio de Almeida Magalhães.” Segundo o economista, “a frugalidade continua presente no perfil do são-joanense, que, no passado, escondia o leite dos fiscais da receita e o ouro das autoridades portuguesas. A forte religiosidade ainda presente no dia-a-dia reforça esse comportamento comedido no trato das finanças”.
José Venâncio de Resende
São João del-Rei ocupa a segunda posição em Minas Gerais na poupança por habitante entre 67 municípios com mais de 50 mil habitantes. Em 2015, a poupança média do são-joanense foi de R$ 6.674, calculada a partir da divisão da poupança total municipal (R$ 599,6 mil) pela população (89.832 habitantes). São João del-Rei só foi superado por Belo Horizonte, que lidera no Estado com poupança de R$ 6.836 por habitante (poupança total de R$ 17,18 milhões dividida pela população de 2.513.451 habitantes. Os valores da poupança municipal são fornecidos pelo Banco Central – que supervisiona as instituições financeiras do País - ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que por sua vez estima a população municipal. O cálculo da poupança média das cidades com população superior a 50 mil habitantes foi elaborado pelo economista Aluizio Antônio de Barros, professor aposentado da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). “Faz tempo que ouvimos dizer que as agências bancárias são-joanenses registram números elevados de depósitos em caderneta de poupança – ´os maiores do Estado´. Inicialmente descartei a informação, atribuindo-a ao amor desmedido do são-joanense por sua terra natal, sempre se vangloriando de ´fatos´ notáveis de difícil comprovação. Até que um dia me debrucei sobre as estatísticas no banco de dados do IBGE e verifiquei São João del-Rei entre os quatro maiores municípios de MG em poupança por habitante…” O primeiro cálculo de Aluizio Barros foi para os 40 municípios mineiros com população superior a 70 mil habitantes, utilizando as estatísticas de 2010. Naquela época, Viçosa apareceu na liderança com R$ 3.685, seguida de Juiz de Fora (R$ 3.651), Itajubá (R$ 3.544) e São João del-Rei (R$ 3.503). Os cálculos não incluíam Belo Horizonte, a capital do Estado. Os 10 maiores Ao revisitar as fontes de dados do IBGE para atualizar os dados da pesquisa, Aluizio Barros descobriu que “os resultados continuam surpreendentes. Excluindo a capital do Estado, São João del-Rei lidera nas estatísticas de poupança por habitante com R$ 6.674, seguida de Viçosa (R$ 6.541), Barbacena (R$ 5.670) e Conselheiro Lafaiete (R$ 5.431)”.
Aluizio Barros, economista e professor aposentado da UFSJ
Viçosa tem uma poupança total de R$ 509,3 mil e população estimada em 77.863 habitantes. A poupança de Barbacena soma R$ 770,1 mil para um total de 135.829 habitantes. Já a população de Conselheiro Lafaiete (126.420 habitantes) amealhou uma poupança total de 686,6 mil. Na sequência, aparecem os municípios de Ponte Nova, com R$ 5.382/habitante (poupança de 323,9 mil e população de 60.188 pessoas); Lavras, com média de 5.303 (poupança de R$ 536,7 mil e população de 101.208 habitantes); Juiz de Fora, com média de R$ 5.225 (poupança de R$ 2,9 milhões e população de 559.636 habitantes); Itajubá, com R$5.097/ habitante (poupança de R$ 492 mil e população de 96.523 pessoas); e Ouro Preto, com média de R$ 4.816 (poupança total de R$ 358,13 mil e população de 74.356 habitantes). Entre os 67 municípios pesquisados por Aluizio Barros, 33% (um terço) da variação da poupança é explicada pela renda per capita. “Excluindo Belo Horizonte e Nova Lima, o coeficiente sobe para 40%. Nova Lima lidera em renda per capita porque é cidade dormitório de população de alta renda de BH, que tem conta bancária em BH e declara renda ao censo do IBGE em Nova Lima.” O economista enfatiza que “a renda é uma variável importante para explicar níveis de poupança da população, pois explica 33% a 40%. Os outros 66,6% da poupança
são explicados por outros fatores históricos, culturais e socioeconômicos”. Microrregião das Vertentes Na microrregião dos Campos das Vertentes, com sede em São João del-Rei, num segundo patamar aparecem Barroso, com poupança média de R$ 3.890 (poupança de R$ 80,9 mil e população de 20.790 habitantes); Resende Costa, com R$ 3.826 por habitante (poupança municipal de R$ 44,1 mil e população de 11.525); e Piedade do Rio Grande, com média de R$ 3.173 (Poupança de R$ 14,92 mil e população de 4.703 habitantes). Em outra faixa logo abaixo, aparecem Tiradentes, com R$ 2.816/habitante (poupança total de R$ 21,75 mil e 7.726 habitantes); São Tiago, com média de R$ 2.640 (poupança de R$ 19,16 mil e 11.046 habitantes); Lagoa Dourada, com média de R$ 2.263 (R$ 29,4 mil de poupança e 12.999 habitantes); Carrancas, com R$ 1.992/habitante (R$ 8,2 mil de poupança municipal e população de 4.103 pessoas); e São Vicente de Minas, com média de R$ 1.922 (poupança municipal de R$ 14,6 mil e população de 7.614 habitantes). Na faixa com poupança média mais baixa, encontram-se Madre de Deus de Minas, com média de R$ 1.420 (poupança de R$ 7,3 mil e população de 5.139 pessoas) e Nazareno, com média de R$ 1,415 (poupança de 12,1 mil e 8.532 ha-
bitantes). Para os outros municípios da microrregião dos Campos das Vertentes, não existem informações disponíveis sobre o valor total da poupança no site do IBGE. Possível explicação Retomando a explicação para os 67 municípios pesquisados, Aluizio Barros assinala que os altos valores da poupança (renda não consumida em bens e serviços) de São João del-Rei e Viçosa poderiam ser explicados pelo rendimento das pessoas (representado pelo Produto Interno Bruto-PIB ou renda per capita). “Seria a presença de universidades federais? A Universidade Federal de Viçosa, por exemplo, tem enorme importância na limitada economia do município onde se situa. Pode ser que seus funcionários com altos salários expliquem o montante de poupança na cidade”, observa Aluizio Barros. Além disso, o economista lembra que existem outras formas de poupar, além da caderneta de poupança, a preferida do brasileiro. “As estatísticas municipais do IBGE mostram apenas duas: poupança e depósitos a prazo. Uma sugestão de pesquisa poderia ser investigar o ranking dos municípios num conceito maior de poupança, incluindo os depósitos a prazo.” Um terceiro fator a explicar a poupança por habitante nos municípios podem ser características culturais e históricas específicas, assinala Aluizio Barros. “A parcimônia
Importância de poupar Aluizio Barros aproveita para falar sobre a importância do ato de poupar. “O senso comum recomenda a poupança como o caminho virtuoso e legal para a acumulação de riqueza patrimonial. Se gastamos tudo o que ganhamos, não acumulamos patrimônio. Além da posse de bens físicos (casas, carros etc.), o patrimônio aparece modernamente na propriedade de ativos financeiros como caderneta de poupança, ações, títulos, etc.” Segundo o professor, o ato de poupar, seja para acumular patrimônio, seja para adiar o consumo, é perfeitamente racional para uma pessoa. Mas seria isso bom para a economia? A pessoa que poupa não estaria prejudicando a economia ao “não fazer circular o dinheiro”? “Depende de onde você aplicou sua poupança, responde Aluizio Barros. “Se você comprou um ativo físico (terreno), a economia não melhorou nem piorou. Mas se você aplicou na caderneta de poupança, seu dinheiro pode ficar lá acumulando rendimentos na agência bancária, que, simultaneamente pode emprestar para alguém que queira construir uma casa. A intermediação financeira tem essa função de servir tanto a poupadores, quanto aos investidores, que necessitam de recursos.” Por isso, as poupanças financeiras no município não são prejudiciais, e frequentemente constituem capital para financiar as oportunidades de produção e consumo, conclui Aluzio Barros. “A palavra oportunidade é chave para entender uma economia com capitais, mas sem dinamismo. Isto porque pode estar faltando o outro lado do ato de poupar, que é o ato de investir nas oportunidades de produção ou consumo. Nas economias dinâmicas, essas oportunidades aparecem ou são criadas.”
PÁG. 14 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Edésio de Lara Melo*
Economia & Negócios
De olho na cidade
Agronegócio na microrregião dos Campos das Vertentes
Plantei uma árvore ram sendo cortadas para dar lugar ao alargamento de vias públicas ou porque estavam incomodando aqueles que se sentiam “ameaçados” por elas. Certamente, andamos na contramão, em desacordo com todas as recomendações que nos chegam de especialistas, que indicam a necessidade premente de mais árvores para garantirmos o equilíbrio ecológico, preservação de nascentes e qualidade do clima. Mas, o descaso, a falta de interesse e a força dos machados e motosserras falam mais alto. Em Resende Costa, e isto é senso comum, corta-se árvore com muita facilidade e até sem motivo, sem que seja plantada outra, mesmo que em outro lugar, como contrapartida. Mas, voltemos ao que me levou a escrever este texto. Enquanto plantava a pequena muda, fui sendo abordado por pessoas que passavam pela rua e comentavam: “ih, essa planta não vai durar muito” ou, “os meninos da escola vão arrancá-la”. “Que bobagem você plantar árvore aqui, os carros vão passar sobre ela” e “o povo não tem cuidado, alguém vai arrancar essa muda e sumir com ela”. Confesso que fiquei surpreso com essas manifestações, o que me deixou um pouco contrariado, mas, não desanimado. Pacientemente, respondia: “não tem problema se ela for quebrada, arrancada ou jogada fora, eu planto outra”. Por fim, escutei de uma pessoa muito próxima a mim, que disse: “você, antes de plantar árvore na rua deveria pedir autorização à prefeitura; há normas para esse tipo de ação. Ninguém pode sair plantando árvores sem que algum órgão competente se manifeste”. No dia seguinte, dirigi-me então à prefeitura municipal atrás de informações. Ao chegar, me encontrei com o vice-prefeito, em final de mandato, que me apresentou a secretária municipal de Meio Ambiente que atua também como secretária do prefeito. Ao relatar
o que me levava até ela, ouvi da mesma: “curioso, você é a primeira pessoa que nos traz uma questão como essa e eu te digo que desconheço qualquer norma interna da prefeitura municipal sobre o assunto”. Lembremo-nos de que grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e tantas outras, têm normas rígidas sobre o assunto, com penalidades para aqueles que as desrespeitam. Nesse momento, nós três chegamos à conclusão de que seria oportuna a criação de uma lei municipal que ordenasse tanto a poda ou corte de árvores, quanto o seu plantio. Precisamos, urgentemente, trabalhar no sentido. Certo dia, enquanto aguava a pequena e frágil muda de quaresmeira, um rapaz que caminhava pela rua disse: “se todo mundo fizesse isso essa rua ia ficar mais linda”. Nesse momento, tive a certeza de que minha ação estava certa, que encontrou, em pelo menos uma pessoa, o reconhecimento, o elogio, ou melhor, o apoio necessário para seguir adiante. Mas, o que ocorreu foi o que menos desejava. Passados trinta dias a tela protetora da pequena muda sofreu dois ataques: uma de um motoqueiro e outra de um caminhoneiro que jogou seu carro sobre ela. E, para completar o feito, alguém se incumbiu de levar a pequena quaresmeira. Será que a frase “lugar de árvore é no mato” dita por um político da cidade deve prevalecer? Dedico este texto às irmãs Stela Vale e Coraci Vale e a tantos outros que plantaram e cuidam de árvores diante de suas residências, deixando as ruas menos áridas e mais belas. *Professor Adjunto e chefe do Departamento de Música da UFOP, Presidente da Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa/MG – AMIRCO.
Milho, cana e soja são os principais produtos agrícolas da microrregião dos Campos das Vertentes, com sede em São João del-Rei, cujo volume total (inclui outros produtos) somou 387,8 mil toneladas em 2015, de acordo com dados municipais divulgados recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A microrregião é também produtora destacada de leite (219 milhões de litros em 2015) e de ovos (782 mil dúzias). As informações, consolidadas pelo JL, referem-se aos 17 municípios filiados à Associação dos Municípios da Microrregião dos Campos das Vertentes (AMVER). São produtos que se integram perfeitamente. Milho, cana e soja são utilizados na alimentação principalmente do gado leiteiro e das aves. É importante ressaltar que a agropecuária tem papel dinâmico e agregador na economia da região, assim como na do Brasil, porque multiplica os negócios e gera renda e empregos. A agropecuária está acoplada aos setores industrial, de serviços e comercial, formando o chamado agronegócio. Destacam-se indústrias de equipamentos e máquinas agrícolas, rações, adubos, defensivos, vacinas e de alimentos, entre outras. Na área de serviços, são importantes os segmentos de transporte, financeiro e de consultorias, entre outros. O comércio tanto atacadista quanto varejista abrange os setores industriais
citados acima (supermercados, concessionárias de veículos, lojas de insumos agrícolas etc.) . O agronegócio brasileiro é um dos mais eficientes do mundo, graças ao empreendedorismo de seus agricultores e à adoção de novas tecnologias, fruto de investimentos em pesquisa científica e tecnológica. Outros destaques regionais O rebanho bovino da microrregião dos Campos das Vertentes é estimado pelo IBGE (números de 2015) em 251,55 mil cabeças. Já o plantel de aves soma 253,25 mil cabeças. A quantidade de suínos está em torno de 37,56 mil cabeças, enquanto a de equinos é de 9,74 mil cabeças. O milho é o principal produto regional, com volume colhido de 175,9 mil toneladas. Na segunda posição, aparece a cana-de-açúcar, com 86,23 mil toneladas. A soja está em terceiro lugar, com 36,4 mil toneladas. Destacam-se ainda o feijão (23,6 mil toneladas) e o trigo (23,4 mil toneladas). Mais detalhes podem ser encontrados no site do Jornal das Lajes: -Produção agrícola da microrregião das Vertentes atinge 387,8 mil toneladas (https:// www.jornaldaslajes.com.br/integra/economia/2084) e -Produção de leite é de 219 milhões de litros na microrregião das Vertentes com sede em SJDR ( https://www.jornaldaslajes.com. br/integra/economia/2104) Foto Emanuelle Ribeiro
Plantei uma árvore em frente à minha casa entre o Natal e o Réveillon de 2016. Rente ao passeio abri uma cova, não muito profunda, para receber a pequena muda de quaresmeira que me foi ofertada pelo Davi, funcionário da prefeitura municipal de Resende Costa. A Tibouchina granulosa, seu nome científico, é uma planta brasileira, própria da Mata Atlântica. Ela quando floresce nos oferece lindas flores de cor roxa. Há outra variedade dela que dá flores cor de rosa, mas, particularmente, prefiro a roxa. A quaresmeira recebeu esse nome exatamente por florescer entre os meses de janeiro e abril, período da quaresma e que antecede a Semana Santa. Durante a quaresma ela nos revela seu encanto, sendo possível encontrá-la com facilidade em todo o país. Avalio que o meu gosto por ela tenha relação estreita com o período quaresmal, que aprecio muito. Considero oportuno o momento, pois, nos próximos meses, as quaresmeiras nos encherão os olhos com sua beleza, seu encanto. Resende Costa, noutra época, já foi bem mais arborizada. Se não havia tantas árvores nas ruas, era fácil encontrá-las nos enormes quintais das casas dos resende-costenses. Na maioria deles era comum encontrar laranjeiras, goiabeiras, mangueiras, abacateiros, jabuticabeiras, limoeiros, jatobás, bananeiras, enfim, uma variedade de plantas que, além dos seus frutos, ajudavam a embelezar e a tornar o clima do lugar mais ameno. Lamentavelmente, com o crescimento da cidade e a construção de novos imóveis nesses espaços, o que vimos em Resende Costa foi um decréscimo assustador de árvores plantadas nos quintais e em vias públicas. Os enormes quintais, ou hortas, como costumamos chamar, deram lugar a construções de novos imóveis e a conseqüente supressão das árvores que possuíam. Nas praças e ruas, as árvores fo-
José Venâncio de Resende
Leite, importante atividade da região.
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Jornal das Lajes
Evaldo Balbino
Cláudio Ruas
Retalhos literários
Gastronomia
Mata virgem no fundo da vida Lu e Tila eram duas irmãs fazendo suas mágicas no fundo da horta, que era um valezinho bem mais para baixo do nível da casa paterna. Entre bananeiras, um pé de jabuticaba, piteiras, pés de ora-pro-nobis e taioba, elas fizeram sua casinha com telhado de varetas cruzadas sob folhas secas e capim. As paredes eram lonas pretas, retesadas por paus fincados no chão e presas na base com pedras para que o vento não fizesse traquinagens. Os utensílios e móveis que tinham, sem nenhuma ajuda de ninguém adulto, eram simples e dadivosos. Os bancos e as prateleiras eram tijolos e madeiras sobejados de construções. As toalhas e os guardanapos, retalhos velhos não aproveitados no tear. A mesa da cozinha, uma pedra de mármore já um pouco carcomida de que o pai se desfizera e que ficou elegante sobre os tijolos regulares. As vasilhas eram sobras da cozinha da mãe. Televisão e geladeira não tinham: quase ninguém possuía esses confortos, daí elas não se preocuparem com isso. Para cama, bem no canto do barraquinho, sacos trançadinhos estendidos sobre folhas de bananeira. Sobre os sacos, ásperos para corpinhos cansados, colchas velhas de retalho que também eram restolho muito aproveitável do enxoval da mãe. Todo santo dia, vinham afazeres infindáveis. A vassoura não parava nunca. Varria e levantava poeira, que o chão era de terra mesmo. E depois a luta das meninas para remover o pó dos móveis. Não queriam, porque não
queriam de jeito nenhum, que alguém chegasse ali e escrevesse desaforos sobre a mobília, como aqueles que elas viam nos fuscas pelas ruas. Um “Lave-me por favor!” que era mais um deboche direcionado ao dono do veículo do que um pedido de socorro do pobre e sujo carrinho. Além do mais, sujeira não é bonito, pensavam consigo as irmãs trabalhadeiras. Lenço na cabeça, espanavam tudo, e tudo limpavam com esmero exemplar. Aquele era o mundo delas, bem melhor, longe dos mandos do pai e das cobranças da mãe. Ajudavam sim no tear, nos afazeres da casa, na varredura do passeio em frente da casa. Até as marmitas faziam para o pai comer lá na lavoura, que plantar e colher para ajudar no sustento de quatro pessoas não era nada fácil. Ajudar sim, porque os dois teares também contribuíam em sua faina com as despesas da família. A mãe num tear, sempre. E as duas irmãs se revezando em outro para não cansarem tanto, pois tinham que estudar, ajudar em casa e ainda cuidar de sua verdadeira morada, a que ficava lá nos fundos entre as ramas de ora-pro-nobis e os pés de taioba. Os gastos eram volumosos. Três mulheres e um homem; e as duas filhas eram boas de garfo, sim senhor! Auxiliavam em tudo. Quando tinham trégua, porém, lá iam cuidar da sua casinha, a de verdade, na mata virgem no fundo da vida. Nesse lar aconchegante (porque somente delas), poucos amigos entravam. Eram escassos os agraciados, os
convidados por tão boas anfitriãs. A irmã de Lino era sempre um dos obsequiados por Lu e Tila. Ia lá muitas vezes, e voltava deslumbrada, contando detalhes daquela vida verdadeira, daquela vivência de se invejar. Tempos depois, Lino entrou lá uma vez com a sua irmã. E da casinha guardou uma doce visão. As donas serviram afáveis e doces saborosas, colhidas ali mesmo na hora avançada da tarde. Tomaram uma limonada depois, para refrescar o calor e amenizar o doce que ficara impregnado nas bocas ávidas de vida. O menino gostou tanto da visita, que depois disso mandou para as duas irmãs uma geladeira (um invólucro de vidro transparente que encontrara no barranco de lixo perto de sua casa e que era uma belezura). As amigas lhe ficaram muito gratas. Depois de lavada a geladeira, nunca deixavam de depositar nela água fria filtrada lá na cozinha da mãe. Mas Lino se deslumbrou mesmo, quando lá na casa esteve, foi com os pés de ora-pro-nobis, as silenciosas e grandes ramas que ficavam ao redor do ranchinho. Eram cercas vivas orando pela proteção da casinha das amigas. Com suas flores brancas de miolo alaranjado, os arbustos deram ao menino uma sensação boa de paz, alegria e proteção. Ofertaram-lhe, naquele mundinho imenso das amigas, a fabulação importante e necessária nesta vida.
Rosalvo Pinto
Causos e Cousas
O Brasil não conhece o Brasil... “Polícia mata e fez caçada”. Está no caderno “Gerais” do Estado de Minas do dia 3 passado, pg. 14. Uma quadrilha de 10 pretendeu explodir o Banco do Brasil no centro da cidade de Mata Verde (2.600 habitantes), no Norte de Minas. Desta vez os bandidos quebraram a cara, ou melhor, foram fuzilados pela polícia. Três escapuliram. Foram recebidos por 40 policiais. Agora as quadrilhas – com bandidos do Paraná, São Paulo e Minas – não querem apenas as caixas eletrônicas. Já sabem explodir os cofres internos. Cidade pacata, no interior de Minas, um absurdo. (Estou hoje deixando de lado nossa Resende Costa, o sempre e querido Arraial da Laje dos “causos e cousas”. Volto-me para o Brasil. Sei lá se poderia dizer que é querido, mas... vamos lá. Dois anos atrás foi a vez da cidade de Itamonte, agora no Sul, 14.200 habitantes. Foram 10 mortos, 9 ban-
didos e um professor da cidade. São tantos os problemas, as misérias, as doenças, as ladroagens (entre pessoas e no âmbito do próprio governo), a carnificina das rodovias, as sujeiras das cidade todas pichadas. Enfim, nem damos conta de enumerar e enxergar. Quem se lembrava da chacina de Itamonte? Por esses muitos anos, há muitas novidades (tristes, claro). Porém nada funciona neste país, até as praias. A Folha de São Paulo fez, no ano passado, um levantamento das praias do Brasil. Um desastre, acreditem se quiserem. Resultado: “3 em 10 praias brasileiras são impróprias para banho”, (Folha, 05/02/2017, caderno “Cotidiano”, pg. 1). E imaginem: é nas regiões metropolitanas que estão a maioria das piores praias. Nem precisa dizer qual a pior: aquela que se dizia ser o cartão de visitas do Brasil... Esse é o retrato minúsculo e vergonhoso do Brasil, que não conhece o Brasil. Estou tomando o título e a
frase do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Jessé Souza. Estava iluminado quando proferiu essa sentença: “O Brasil não conhece o Brasil, só faz de conta que conhece, o que é muito pior”, Como já não bastava, este ano começou com o problema dos presídios. Parece que foi programado. Um horror!. Pior para o Brasil, que se espalhou essa vergonhosa carnificina pelo mundo todo. Enquanto isso, a Holanda tinha 7 presídios e foram todos fechados. Um deles até virou hotel de luxo de 5 estrelas... Dizem, melhor, cantamos que o Brasil está eternamente em berço esplêndido. Parece piada. Outros dizem que o Brasil dá um passo adiante e dois atrás. É uma realidade. Enquanto estou escrevendo estou vendo um estado que, de repente, deixou de ser um estado bonito, tranquilo e laborioso. De repente, mais de 100 assassinados em seis dias, enquanto há uma depredação por todos os lados, ou
• PÁG. 15
Iogurte Sou capaz de apostar que grande parte dos brasileiros pensa logo no iogurte como aquele vendido no supermercado, no potinho, sabor morango, coisa de criança. Ou então naqueles outros mais “modernos”, que ajudam as mulheres a irem ao banheiro. Opções não faltam, mas é justamente atrás dessa prateleira de diversidade que se escondem dois problemas: primeiro, a perda do interesse sobre o versátil iogurte natural, tradicional, sem adição de açúcar ou sabor. Segundo, o esquecimento do quão fácil e barato é fazer o próprio iogurte em casa Assim como deve ter ocorrido com o queijo, a descoberta do iogurte possivelmente foi coisa do acaso. Lá pelos 10.000 a.C., ao transportar o leite naquela caloria braba do Oriente Médio, nas bandas da Turquia, perceberam que ele se alterava, ficava mais consistente e ácido. Viram que era gostoso e funcionava como remédio para o estômago. Caiu no gosto popular e chegava a ser vendido até em farmácias posteriormente. O iogurte traz uma gama de benefícios para nosso corpo, como o decorrente da sua alta concentração de cálcio. Recompõe e melhora a flora intestinal, facilitando a digestão e resolvendo problemas estomacais. Suas proteínas se digerem mais facilmente que as do leite, já que parte da gordura é consumida na fermentação pelas bactérias. Tem ainda a lactose diminuída, o que auxilia os intolerantes a ela. Mas o consumo de iogurte da forma convencional brasileira, normalmente industrializado, adoçado, modificado e coisa e tal, traz também prejuízos. Tanto para a saúde, quanto para o paladar e para o bolso. Na medida em que é processado, inevitavelmente recebe ingredientes maléficos, conservantes, aromatizantes e tantos outros “antes”. A indústria aproveitou também para deixar doce o iogurte, condicionando e viciando nosso paladar. Por fim, como ocorre com tantos outros produtos industrializados, nos esquecemos de que fazer um iogurte em casa é tarefa gastronômica das mais fáceis e baratas (veja a receita ao final). E, graças à sua pureza, ainda nos fornece um
produto bem mais versátil do que o doce e saborizado do supermercado. Ao olhar para fora das nossas divisas de costumes, devemos enxergar que outros povos utilizam o iogurte natural, sem açúcar, de várias outras formas. Como num molho para salada, sanduíche ou carnes, misturado com azeite, limão, hortelã e sal, como fazem os gregos. Ou em um frango ensopado, com curry, açafrão e cheiro verde, como fazem os indianos. Ou então como item da marinada/tempero da carne do churrasco, como fazem os marroquinos, normalmente com carneiro. No nosso caso, vai muito bem na carne de porco assada, dando um visual interessante e conferindo maciez e equilíbrio de sabor com a gordura, graças à acidez que possui. O iogurte também entra bem na nossa cozinha tradicional, como numa broa de fubá ou, simplesmente, como substituto menos calórico do creme de leite e do leite condensado em sobremesas, ou da maionese no salpicão. Pode ainda ser deliciosamente adoçado com mel ou melado de cana (ao invés do pobre açúcar branco), e batido ou misturado com frutas frescas, como uma manga do quintal. Com um iogurte natural caseiro em mãos, é você mesmo quem dita as regras. Se liberta. Libertas quae sera tamen.
melhor, uma guerra civil, a ponto de ser necessária a convocação do Exército Federal. Como sair deste inferno, fome, miséria, ladrões de todos os tipos, falta de dinheiro para tudo (escolas, hospitais, infra-estrutura)? Sabemos que a raiz de tudo isso é a desigualdade social. Não adianta somente colocar a comida na boca do pobre, porque ele vai continuar pobre. A única solução é aquela que é decantada por todos os governantes, mas jamais cumprida, desde o dia no qual o Brasil tornou-se uma República. O pior é que se um governo decidisse resolver este problema, a sociedade brasileira só vai ver os resultados uns
20 ou 30 anos depois. A nossa geração já está perdida. Já nos dizia o saudoso Darcy Ribeiro (que bem podíamos chamar de “O arauto da educação”): “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. É o que já estamos vendo hoje. Fico por aqui. Sempre fui professor, mas infelizmente sou daqueles que, tal como São João Batista, ando por aí pregando no deserto. Entretanto, se algum governante decidir abraçar para valer um projeto de educação, não se esqueça de antes promover uma ampla estruturação do nosso falido e vergonhoso sistema político.
Como fazer iogurte natural Aqueça um litro de leite integral e desligue o fogo antes de levantar fervura (se for leite de roça é necessário ferver três vezes). O leite precisa esfriar até uma temperatura certa, que é a aquela em que você consegue colocar e permanecer com o dedo dentro sem se queimar. Ou então entre 42 e 45ºC, caso tenha um termômetro culinário. Quando chegar nesse ponto exato, despeje o leite numa vasilha e misture um copinho de iogurte natural integral (de preferência não adoçado). Tampe e guarde dentro de uma caixa térmica/ isopor ou forno desligado. Entre 6 e 8 horas ele estará pronto. Leve para a geladeira e não esqueça de reservar um copinho, para usar de isca na próxima vez. E depois faça as contas da economia.
PÁG. 16 • Jornal das Lajes
ANO XIII Nº 166 - FEVEREIRO 2017
Esporte
Rômulo costa
Nutrição em pauta Primeiro fim de semana de fevereiro foi marcado por corrida rústica em Consistência e persistência: Resende Costa
o segredo para a mudança
Emanuelle Ribeiro
Realizada no dia 4 de fevereiro, a 11ª Corrida de São Vicente de Paulo reuniu 170 corredores em Resende Costa, em um percurso de mais de 6km. A novidade desta edição foi o fato de o evento ter acontecido no período da noite. Além disso, a corrida foi solidária, com parte do valor das inscrições doada para uma pessoa assistida pela SSVP. “Quatro atletas da Equipe Novo Amanhecer subiram ao pódio no Geral Masculino. Destaque para Leonardo Teixeira, 15 anos, que venceu a corrida, e Vivian Daher, que terminou na segunda colocação no Geral Feminino. Todos estão de parabéns”, declarou um dos organizadores, Luiz Nei Resende. No Geral Feminino, além da resende-costense Vivian em segundo, Erika Maria José Vieira terminou em primeiro, Alanis Barbara Rodrigues Araújo Melo em terceiro, Flavia Alves Moreira Sinergia em quarto e Auana Roberta Rodrigues Araújo Melo foi a quinta. No Masculino, Leonardo Emanuel Teixeira ganhou a prova, seguido de Anderson Batista Lisboa, Josué Pedochi de Andrade, Luiz Nei Resende e José Antônio da Silva Resende.
Equipe Novo Amanhecer
Pódio Masculino Geral da 11ª Corrida de São Vicente
Uso de anabolizantes para fins estéticos pode ser perigoso Em busca do desenvolvimento da musculatura do corpo, muitas pessoas, principalmente jovens, apelam para o uso de anabolizantes, aliado a atividades físicas. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), um em cada 16 adolescentes no país já utilizou esteroides, hormônio que compõe o produto de crescimento. O uso de anabolizantes, apesar de ser uma alternativa fácil e rápida para aumentar a musculatura, oferece riscos à saúde. Segundo o nutricionista esportivo Magno Luiz de Miranda, as pessoas estão buscando essas substâncias para fins estéticos, mas seu uso é justificado em situações específicas e deve ser feito sob prescrição e acompanhamento médico: “As pessoas estão buscando um corpo perfeito com muita massa muscular, pouca gordura, querendo
aproveitar o embalo das redes sociais, e vários profissionais vêm ganhando espaço com a prescrição desses medicamentos para fins estéticos. Não há uma dose segura para tomar hormônio para esses fins. Mas para reposição hormonal já tem suas indicações e é seguro em função de um quadro clínico já instalado e controlado pelo médico. Somente o médico é capacitado para prescrição de hormônios”. Segundo o profissional, as pessoas tomam esses medicamentos para acelerar o ganho de massa, perder gordura com facilidade, ganho de força, aumento de rendimento em esporte de competição, dentre outras justificativas, mas há efeitos colaterais: “Surgimento de acnes na pele, elevação da pressão arterial, risco de trombose, infertilidade nos homens principalmente, além de problemas cardíacos e
danos para o fígado”. Magno explica ainda que outras substâncias são mais aconselháveis e seguras, como os suplementos alimentares: “Dentro da categoria suplementos, têm-se algumas linhas de produtos diferentes: termogênicos, vendidos como queimadores de gordura; pré-treino, estimulantes para serem tomados antes do treino; proteicos, que ajudam no ganho de massa muscular; baixo carboidrato para dar energia e melhorar rendimento em algum esporte; dentre outros. Assim, dentro dessa categoria, deve ser definido qual o tipo de suplemento a ser tomado para o objetivo em questão”. Para quem quer ganhar massa muscular, mudanças na alimentação também são indicadas: “É preciso um aporte calórico ajustado com o gasto energético do indivíduo. O plano ali-
Com a chegada do verão e a proximidade do Carnaval, muitas pessoas tendem a buscar alternativas milagrosas com o propósito de conquistar rápida modificação corporal para o verão. Algumas querem emagrecer, outras ganhar massa muscular. No entanto, nenhuma delas se propõe a realizar uma reeducação alimentar (dieta) e exercício físico intenso e regular com o objetivo de melhorar a saúde e consequentemente obter uma transformação do seu físico. Às vezes, algumas pessoas ficam iludidas e depositam demasiada confiança em estratégias de emagrecimento milagrosas, pois são resistentes à mudanças em seu estilo de vida ou não possuem boa orientação para que o objetivo seja conquistado. Atualmente, vivemos em uma época em que ser “fitness” é a grande modinha. Não que isso seja negativo, mas o ruim é que a informação muitas vezes é passada de maneira errada ou por quem não possui conhecimento sobre o assunto. O tempo todo somos bombardeados por fotos de modelos e blogueiras famosas fazendo propaganda de algum produto, mostrando o seu corpo e ensinando a ter o mesmo estilo de vida. Isso, porém, causa uma visão um pouco distorcida de como as coisas são de fato e no final das contas acaba atrapalhando e confundindo a cabeça das pessoas que estão sendo expostas a essas informações. Muitas pessoas infelizmente ainda não possuem discernimento e bom senso necessários para compreender que não é um produto ou uma refeição especificamente que irá trazer o resultado que desejam. A maioria das fotos de modelos nas redes sociais sofre alterações através de programas de computador (fotoshop) e filtros, com o intuito de retirar as imperfeições e desta-
car apenas o que há de mais belo (e perfeito) em seus corpos. Há que se destacar ainda que essas mesmas pessoas possuem uma rotina de atividade física, alimentação saudável e tratamentos estéticos há bastante tempo. Ninguém transforma o seu corpo da noite para o dia. A mudança ocorre em meses ou anos de dedicação e muito comprometimento. Se você não teve comprometimento com uma boa alimentação e era sedentário durante grande parte da sua vida, como pode querer que seu físico se transforme em poucos dias ou meses? O seu estado atual não é fruto de dias ou poucos meses de desleixo, mas sim de uma vida inteira em que não deu importância à alimentação e atividade física. Pense bem sobre isso e reflita para que consiga atingir seus objetivos com cautela e paciência, sem fazer uso de medidas restritivas e que prometem resultados em curto espaço de tempo, pois sua saúde e seu dinheiro estão em jogo. Se você deseja modificar seu físico, emagrecendo ou ganhando massa muscular, o melhor a fazer é buscar orientação profissional. Tenha persistência e consistência com a atividade física e opte por uma alimentação saudável. Com o decorrer do tempo os resultados aparecerão. Sabia que você pode estar gastando seu dinheiro com produtos, suplementos e recursos que não te levarão a lugar algum? Portanto, lembre-se primeiramente de fazer o básico: readequar a alimentação e praticar atividade física corretamente, na intensidade adequada. Siga essa dica e não coloque em risco a sua dedicação e a sua saúde.
mentar precisa de uma boa quantidade de carboidrato, nem em excesso nem em falta; um valor proteico adequado, geralmente 12 gramas por quilo de peso; gorduras vegetais, da linha ômega 9, ômega 3, ômega 6, que vem das castanhas, do azeite, do abacate. Se a pessoa come menos do que ela gasta de energia, ela vai ter perda de massa muscular. Se ela come similar ao gasto energético, a tendência é manter o peso e se ela consome mais do que ela gasta,
ela terá mais chances de aumentar sua massa muscular”, explica Magno Luiz. Profissionais alertam que anabolizantes não devem ser usados para fins estéticos. Segundo o Conselho Federal de Medicina, eles só devem ser receitados para casos graves de doenças em que não há produção de hormônio ou que causam enfraquecimento, como casos avançados de HIV ou que ocorrem no envelhecimento. E.R.
*Acadêmico de Nutrição – UFMG e colunista do site do Jornal das Lajes.