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Edicao 139

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NOVEMBRO 2014

ANO XI - Nº 139 Resende Costa - MG

www.jornaldaslajes.com.br contato@jornaldaslajes.com.br

Distribuição Gratuita

Seca histórica atinge cidades da região das Vertentes Foto Emanuelle Ribeiro

Fé e cultura marcam mais uma edição da Festa do Rosário

A penúltima reportagem da série especial aborda as atividades do monsenhor Nélson como fundador, diretor e professor do Colégio Nossa Senhora da Penha, que marcaram indelevelmente seu nome à educação da comunidade resende-costense. PÁGINA 06

Entre os dias 6 e 9 de novembro a Paróquia de Nossa Senhora da Penha, de Resende Costa, realizou a Festa de Nossa Senhora do Rosário. O evento reuniu bandas de congado da região, preservando uma tradição que prestigia fé e cultura. PÁGINAS 07 E 15

Coleção Lageana lançará mais um livro em dezembro O livro Coalhadas e Rapaduras: estratégias de inserção social de músicos negros em São João delRei, do historiador Eduardo Lara Coelho, será lançado em Resende Costa no dia 7 de dezembro próximo. PÁGINA 14

Série especial: Centenário do nascimento do Monsenhor Nélson

O nível do Córrego do Tijuco baixou nos últimos meses, comprometendo a captação de água no manancial

A seca que assola Minas Gerais trouxe sérias consequências às cidades da região do Campo das Vertentes. Alguns rios e mananciais praticamente secaram e

grandes incêndios destruíram importantes parques ecológicos como o Complexo da Cachoeira da Zilda, um dos principais cartões-postais de Carrancas. Em

Resende Costa o manancial que abastece a cidade está muito abaixo da sua capacidade de fornecimento de água. PÁGINAS 12

Leia também nesta edição o relato dos efeitos da seca em Lagoa Dourada A Copasa chama a atenção para a necessidade do uso consciente da água, mesmo nos municípios nos quais o abastecimento tem sido normal, como na cidade de Lagoa Dourada. PÁGINA 08


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Jornal das Lajes

E D I T O R I A L

Um único povo, uma única nação

Desde a redemocratização em 1985 jamais se viu no Brasil uma eleição tão disputada como a de 2014, entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Também pela primeira vez as redes sociais serviram de palco para embates apaixonados entre militantes das duas coligações. No final do pleito, as urnas revelaram um eleitorado dividido e ao mesmo tempo consciente do seu papel. Nas redes sociais não há regras para postagens, por isso, muitas vezes esgotam-se os limites da sensatez, empobrecendo o verdadeiro propósito de um debate político, que deveria ser pautado pelo confronto de ideias e propostas. O tom agressivo dos militantes nas redes sociais reverberou-se nos debates entre os candidatos na televisão e na propaganda eleitoral gratuita. Foi, inclusive, necessário que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) retirasse do ar várias propagandas de Aécio e Dilma, considerando-as ofensivas. O tom ácido dos debates despertou o repúdio de muitos eleitores que esperavam uma discussão racional e, no mínimo, cordial entre os candidatos ao cargo máximo da República. Dilma e Aécio continuaram, no entanto, apimentando ainda mais o clima de hostilidade raivosa. Um tentando desconstruir o outro, sem escrúpulos. Até que despertaram para o óbvio. Na reta final da campanha havia ainda milhões de eleitores indecisos e sedentos por propostas concretas. A partir disso, as duas coligações, na quarta-feira anterior à eleição, selaram um acordo de paz. Prometeram que não haveria mais agressões nos últimos dois dias de propaganda eleitoral. Pena que os candidatos chegaram ao armistício faltando apenas dois dias para as eleições. Muito tempo perdido com agressões e ofensas que em nada contribuíram com o eleitor em sua decisão. Os números finais destas eleições mostraram que o eleitor brasileiro sabe votar, independentemente da escolha de cada um. As piadas no Facebook não orientaram o voto do brasileiro, serviram apenas como um incentivo a mais numa campanha apaixonada. De forma positiva, a participação em massa dos eleitores nas redes sociais revelou que os brasileiros desejam discutir abertamente o futuro do país. Em meio a uma enxurrada de postagens e compartilhamentos de opiniões que serviram apenas como piada eleitoral, pôde-se garimpar ideias interessantes, assim como avaliações e opiniões inteligentes. Dilma e Aécio tiveram votos em todo o Brasil. As regiões e os estados realmente se dividiram, mas não ratificando a opinião de mau gosto e, acima de tudo perigosa, ventilada após o resultado das urnas, ou seja, que o Brasil se dividiu entre ricos e pobres, inteligentes e ignorantes, nós e eles etc. Nada disso. O Brasil é único. Nestas eleições prevaleceu a vontade maior de um povo que se apresenta consciente sobre o seu papel de fortalecer a democracia no país. Num país democrático há clima e espaço suficientes para disputas partidárias apaixonadas, conforme vimos nestas eleições. Enfim, a presidente Dilma Rousseff foi reeleita para continuar conduzindo um país com enormes desafios a serem enfrentados, mas também com importantes conquistas, sobretudo sociais, a serem consolidadas. Contrariando a muitos pessimistas, afirmamos que é preciso acreditar sempre no Brasil, uma nação maravilhosa e essencialmente próspera, um povo acolhedor e cordial que saberá, com o findar destas eleições, descer do palanque eleitoral e sepultar o pernicioso discurso de divisão. Afinal, somos um único povo, uma única nação. Que estes quatro anos de mandato da presidente Dilma sejam de diálogo, de unidade e prosperidade para o nosso povo.

Jornal das Lajes Ltda

Editora-assistente: Emanuelle Ribeiro Diretor de redação: Rosalvo Pinto

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Editor-chefe: André Eustáquio

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Fundado em 22 de janeiro de 2008 Redação Rua Assis Resende, 95 - Centro (32) 3354-1323 - Resende Costa MG - CEP: 36.340-000

Editoração e Site: Atus Tecnologia e Comunicação Editora de Esporte: Emanuelle Ribeiro www.attcom.com.br Jornalista responsável: José Venâncio de Resende Registro Profissional: 10.894-SP

Impressão: FUMARC - Av. Francisco Sales, 540 Floresta - Belo Horizonte

Diretor Administrativo: Eustáquio Peluzi Chaves

Tiragem: 4000 exemplares

Diretor de Contabilidade: Antônio da Silva Ribeiro Neto

Circulação: Resende Costa, São João del-Rei e Lagoa Dourada

Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.

ANO XI Nº 139 - NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Meio Ambiente

Sem chuva, sem água, sem vida, sem nada

Certamente alguém já falou com você que a água doce do mundo é um recurso finito e que um dia iria acabar. Certamente, você já ouviu falar também que a temperatura do mundo tem mudado ano após ano e que já não dá mais para prever os períodos chuvosos, secos, quentes ou frios. Alguns falam que o mundo está mudando e outros falam que nós estamos mudando o mundo... O que você provavelmente nunca imaginou é que você estaria vivo, presenciando esses fenômenos acontecerem lentamente ao seu redor. E você? Está pronto para adaptar a sua vida à escassez de água? Conseguirá disciplinar suas atividades a fim de economizar este recurso para que seus filhos, netos e as próximas gerações possam viver harmoniosamente com a natureza? Quanto vale a água para você? A seca não passou! Continue economizando!

Em 2014, a forte estiagem atingiu também Resende Costa, onde o nível dos mananciais de abastecimento fora reduzido

consideravelmente. A Copasa e o IRIS pedem à população que leve esta informação a sério e que continue economizando para ajudar a prevenir possíveis problemas no abastecimento. Se a população não se conscientizar agora e continuar consumindo água potável de forma irracional, iremos enfrentar problemas ainda mais graves. Mesmo que volte a chover nos próximos dias, a falta de água é questão de tempo. Temos que assumir a responsabilidade de respeitar a água e usá-la de forma sustentável. Últimas chuvas não foram suficientes! Mesmo assim, população voltou a consumir mais

mou os índices normais de utilização da água: “Antes, no período da estiagem mais forte, mesmo com uma vazão menor, nós conseguíamos encher a caixa com mais facilidade que atualmente, o que mostra que a população deixou o consumo elevar novamente assim que vieram essas primeiras chuvas”, explicou. A importância de economizar sempre

Resende Costa não tem grande disponibilidade de água. Nosso solo é rochoso e absorve pouca água. Além disso, não possuímos um grande rio próximo da zona urbana. É fundamental usar a água com responsabilidade.

No período mais crítico da estiagem vivenciada em 2014, a água chegava ao reservatório de Resende Costa a uma vazão de 16 L/s, segundo a Copasa. Depois das chuvas das últimas semanas, a vazão foi temporariamente normalizada, atingindo 23 L/s. Segundo o encarregado de Sistema, Marcelo Lopes, no auge da seca a população baixou consideravelmente o consumo, mas já retoUse a água de forma sustentável - o futuro depende de cada um de nós. Veja algumas dicas:

O cenário ficou desolador no Córrego do Tejuco (um dos pontos de captação de água em Resende Costa). As chuvas que caíram no final do mês de outubro e no início de novembro melhoraram um pouco a situação, mas ficaram longe de reabastecer o córrego até os níveis normais

- A água usada na lavagem de roupas pode ser reutilizada na lavação de quintais e calçadas. - NUNCA jogue óleo na pia. Um litro de óleo pode contaminar uma grande quantidade de água no nosso subsolo. - Tome banhos curtos, suficientes para a higienização. - Vai lavar o seu carro? Use o balde no lugar da mangueira. - Só lave calçadas em caso de extrema necessidade.

Voz do Cidadão

Cidadã reclama de falta de postes de energia elétrica na Rua Faustino

“Em pleno século 21, moradores do final da Rua Faustino, bairro Boca Junior, zona urbana da cidade de Resende Costa, mantêm os lampiões acessos para combater a escuridão da noite. Acontece que no final da citada rua não foi instalado poste para distribuição de energia elétrica, deixando no escuro moradores e visitantes do local. Ressalta-se que na rua paralela a esta consta distribuição de energia elétrica, o que nos deixa ainda mais perplexos com o desleixo por parte da autoridade competente.

A prefeitura se nega a instalar os postes no local com o argumento de que não dispõe de recursos necessários para atender à demanda. É

uma vergonha!” Juliana Cristina das Graças


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ANO XI Nº 139 - NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Informativo da Câmara

Política

O espaço informativo do Legislativo Municipal de Resende Costa tem como objetivo informar o cidadão sobre os projetos aprovados em plenário.

Confira alguns dos projetos de lei aprovados em novembro de 2014 Projeto 116, de autoria do prefeito municipal: “Altera o inciso VII do art. 7º e o Art. 9º, caput da Lei municipal n.º 2.676, de 17 de junho de 2002 e dá outras providências”. A referida lei “Dispõe sobre a política municipal de atendimento aos direitos da criança e do adolescente e dá outras providências”. Projeto 117, de autoria do vereador Paulo César Daher Chaves: “Declarada de utilidade pública a Associação de Proteção e Defesa dos Animais do Município de Resende Costa”. Trata-se o referido projeto de lei da necessária autorização legislativa para declarar de utilidade pública municipal a Associação de Proteção e Defesa dos Animais do Município de Resende Costa (RC Animais), entidade sem fins lucrativos, com sede em Resende Costa, na Rua José Nicolau Filho, n.º 30, bairro Zé Padeiro. Reprovado o projeto de lei 118, de autoria do Vereador José Roberto Sousa: “Revoga a lei municipal 3.524, de 28 de setembro de 2011 e dá outras providências”. Dispõe o projeto de lei acima referido, quanto à necessária aprovação legislativa de projeto de lei que revoga a lei municipal n.º 3.524 de 2011 que “Dispõe sobre a proteção do Patrimônio Histórico

e Cultural do Município de Resende Costa, cria o Fundo Municipal de Patrimônio e Cultura e dá outras providências”, tendo em vista os vícios de iniciativa que a permeiam. Projeto 122, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza assinatura de convênio a ser firmado entre o Município de Resende Costa e a Banda de Congado São Benedito, para o repasse de recursos e dá outras providências”. Trata-se o projeto de lei, da necessária autorização para celebração de convênio entre o município de Resende Costa e a Banda de Congado São Benedito, com o fim específico de garantir recursos para as comemorações da Festa do Rosário. Projeto 123, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza a cessão temporária do Parque dos Trabalhadores Dr. Geraldo Magela de Resende para o Expedicionário Sport Club e dá outras providências”. Trata-se o projeto de lei em comento, da necessária autorização legislativa para a cessão temporária do Parque dos Trabalhadores Dr. Geraldo Magela de Resende para o Expedicionário Sport Club a fim de viabilizar a confraternização das associações esportivas.

Mais informações: www.camaraderesendecosta.mg.gov.br

Projeto 124, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza a assinatura de convênio a ser firmado entre o município de Resende Costa e a Associação Instituto Rio Santo Antônio, para a abertura de crédito especial, visando ao repasse de recursos e dá outras providências”. Trata-se o projeto de lei, da necessária autorização legislativa para celebração de convênio entre o município de Resende Costa e a Associação Instituto Rio Santo Antônio, com a finalidade de garantir recursos para o desenvolvimento de projeto de ação contra agentes e focos da dengue, através de limpeza de áreas e educação ambiental. Projeto 125, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza assinatura de convênio a ser firmado entre o Município de Resende Costa e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Resende Costa (APAE), e dá outras providências”. Trata-se o projeto de lei em comento, da necessária autorização legislativa para celebração de convênio entre o município de Resende Costa e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Resende Costa, com o fim especifico de garantir recursos para a manutenção das atividades da referida entidade conforme descrição contida no plano de trabalho.

Venha participar das reuniões da Câmara Municipal de Resende Costa. É seu direito de cidadão participar dos assuntos de interesse do município.

Praça Nossa Senhora de Fátima, S/N, Centro. Tel.: (32) 3354-1526

Prestação de contas e agradecimentos A Comissão da capela de Nossa Senhora da Conceição e o Movimento de Cursilho agradecem a todos os movimentos e pastorais que venderam as cartelas da Ação entre Amigos: Ao Afonso do Sítio São José pela sua doação do liquidificador para a capela; Ao Toninho do Nenego pela do-

ação do rádio; Ao Abel pela doação do ferro elétrico a vapor; Ao Pedro Batista pela doação da batedeira; Ao Zezinho pela doação dos relógios; Ao Edílson (Balu) pela doação do celular; Ao Fábio e Luciana pela doação da cafeteira;

Ao doador da sanduicheira; Ao Galhardo pela doação das tendas, pula-pula e TV de 32 polegadas; Ao Dino pela doação do pula-pula; E a todos que colaboraram. Tivemos um saldo positivo de 4.757,95 reais que está à disposição da capela, na paróquia.

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BRUNO R. B. FLORENTINO*

O PT é tetra! No dia 26 de outubro os brasileiros foram às urnas para o segundo turno mais aguardado (e emocionante) da história pós-redemocratização. Com 54,3 milhões de votos, Dilma Rousseff (PT) foi reeleita Presidente da República. Aécio Neves (PSDB) obteve 50,9 milhões de votos. Sendo a menor diferença de votos dos últimos anos, o resultado final mostrou que ambos saíram fragilizados ao protagonizar a disputa mais acirrada e infrutífera dos últimos anos. O que se viu, às vésperas da eleição, foi que as paixões ideológicas levaram o psiquismo de muitos eleitores e militantes a um estado de alucinação coletiva, onde pontes foram destruídas e amizades foram rompidas a troco de nada. Lamentavelmente, ambos os presidenciáveis contribuíram para criar a falsa compreensão de que a complexidade social, cultural, de classe, econômica e política está reduzida a um “nós contra eles”, o que apenas contribui para incitar o ódio de classe. Aécio Neves, que passou de coadjuvante à protagonista em apenas um mês, por um lado, é o candidato tucano mais bem votado numa disputa de 2° turno; mas, por outro lado, carregará a amarga lembrança de ter sido duplamente derrotado em seu reduto eleitoral. A primeira, referente ao governo estadual, terá impactos diretos em sua trajetória política, pois os principais nomes do PSDB de Minas Gerais serão desacomodados e, assim, sua base de sustentação estará relativamente desarticulada nos próximos anos, dificultando uma próxima postulação à presidência da república. Sobre a segunda derrota de Aécio, referente à presidência da república, vale relembrar que, no início da corrida presidencial, ele garantiu que iria

destroçar qualquer adversário em solo mineiro, algo com 70% ou mais dos votos válidos. Todavia, as urnas não fizeram de suas palavras uma profecia e os mineiros, atualmente, demonstram maior inclinação ao Partido dos Trabalhadores. A vitória de Dilma, por sua vez, também representa a vitória do PT, que com o próximo mandato completará 16 anos à frente de uma gigantesca potência mundial. Desde a volta da democracia, no Brasil, nenhuma outra força política alcançou este feito. Entretanto, Dilma Rousseff sabe muito bem que as nuvens não são feitas de algodão e que, logo no primeiro ano de governo, deverá enfrentar tempos difíceis. Isto porque o horizonte apresenta alguns desafios que estão por vir: a retomada do crescimento com redução da inflação; o realinhamento dos preços da energia elétrica e da gasolina; a realização das reformas – fiscal, previdenciária e política – prometidas durante a campanha; o enfrentamento das denúncias de corrupção na Petrobrás; o investimento em infraestrutura e melhoria nos serviços públicos, com ênfase na saúde; além de outros eteceteras e diversos gargalos que impedem um avanço qualitativo do Brasil. Outro grande desafio que a Presidente Dilma terá que lidar, com extrema habilidade política, que não é exatamente o seu ponto forte, será governar um país ávido por mudanças, ao lado de um Congresso sedento por benesses. De todo modo, devemos desejar boa sorte ao novo governo de Dilma Rousseff. Desejamos, também, que a mesma adentre o território do diálogo e tenha a desenvoltura necessária para governar uma democracia complexa como a do Brasil.

*É psicólogo, assistente social, mestre em Psicologia Social pela UFSJ e Secretário Municipal de Assistência Social de Coronel Xavier Chaves/MG.


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Escola Conjurados comemora 50 anos de existência

Foto EMEI

Educação

EMANUELLE RIBEIRO

Breve histórico Para relembrar um pouco da história do Grupo Escolar, a diretora Rose Daher e a vice-diretora Luciana Cardoso prepararam um histórico com passagens importantes durante esses anos: “A Escola Municipal “Conjurados Resende Costa” era integrante da Rede Estadual de Ensino e foi nucleada e municipalizada em 02 de fevereiro de 1998, de acordo com a Resolução 9112/98 da Secretaria Estadual de Educação, assumindo seu atual nome.

O terreno que a escola ocupa foi doado pela Prefeitura Municipal de Resende Costa conforme a escritura lavrada em cartório, registrada no livro de notas 16ª, folhas 22 e 23. Sua construção iniciou-se em 16 de março de 1963 e sua inauguração se deu em 1998, quando foi nucleada e municipalizada pelo prefeito José Rosário Silva. A Escola foi fundada com a intenção de atender aos alunos excedentes da Escola Estadual “Assis Resende”. Em acordo com a Resolução 2048/76, a Escola passou a ministrar o ensino de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, absorvendo as quatro séries do 1º grau da Escola da Comunidade Nossa Senhora da Penha. Em 25 de junho de 2001 foram inauguradas as instalações do novo prédio que compõe a escola. Atualmente, a Escola Conjurados atende aos alunos da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental”. Ao longo dos anos, a escola passou por várias mudanças, acontecidas visando à melhora do ensino: “Muitos avanços ocorreram na escola, além das melhorias no espaço físico. No que se refere à qualidade e melhoria do ensino é possível destacar vários investimentos oferecidos aos professores, dentre eles o PRO Letramento, PROINFO e o PACTO, ao qual recentemente o município aderiu, com o objetivo de alfabetizar as crianças na idade certa”, afirmou Marli Resende.

Comemorando Os 50 anos de excelência no ensino de Resende Costa foram comemorados com muitas brincadeiras, apresentações, histórias e passeios. Uma das atividades preparadas pela escola foi o passeio de trem com alunos do 5º ano: eles embarcaram no trem (Maria Fumaça) em São João del-Rei e foram até Tiradentes. Todos se divertiram bastante. Além disso, outras turmas também foram a São João del-Rei para assistirem a apresentações teatrais e ao filme infantil “Frozen” no cinema. A escola dividiu as atividades comemorativas em diversos dias e houve também a divisão dos professores e turmas em grupos para concorrerem às provas de uma grande gincana promovida pela diretoria. Arrecadação de material para a confecção de um bolo de aniversário para a escola e também de alimentos e roupas para doação, exposições, apresentações teatrais e musicais, campeonatos de queimada e futebol, dentre outras tarefas fizeram parte da gincana. Assim, a escola aproveitou e comemorou ainda o Dia das Crianças com uma programação bastante agradável. Os professores também ficaram muito empolgados com a celebração da data e se emocionaram com as homenagens do Dia dos Professores. Foram organizadas mensagens e apresentações para demonstrar o carinho pelos mestres da Escola Conjurados. Houve ainda uma grande surpresa para

Pintura de rosto foi uma das atividades comemorativas dos 50 anos da Escola Conjurados

Foto Escola Conjurados

No dia 1º. de outubro último, a Escola Municipal “Conjurados Resende Costa” comemorou 50 anos de existência. A data foi celebrada com muita festa pelos alunos e funcionários da instituição de ensino. Diversas atividades marcaram as comemorações na escola, que festejou ainda o Dia das Crianças e dos Professores com homenagens mais do que merecidas. “É uma vida inteira de muita luta, dificuldades, dedicação e desafios que enfrentamos com a ajuda de toda a equipe escolar”, declarou a secretária municipal de educação Silvanda Resende. A professora Marli Resende, há 12 anos no Conjurados, falou da importância da Escola: “A Escola Conjurados tem um papel fundamental na vida da comunidade. Ela é a base, sendo responsável pela formação inicial dos diversos profissionais que atuam tanto no município como em outras localidades”.

Turma do 5º ano da Escola Conjurados durante passeio na Maria Fumaça

todos: a realização do Arquivo Confidencial, com declarações de amigos e familiares para os professores. O aniversário de 50 anos, sem dúvidas, é tido como uma vitória para os professores: “A Escola Conjurados começou bem pequena, com apenas quatro salas de aula. Vê-la chegar aos 50 anos

crescendo e melhorando a cada dia é motivo de orgulho para todos. Uma data tão importante não poderia deixar de ser comemorada juntamente com pessoas que já passaram por aqui e dedicaram boa parte de suas vidas ajudando a construir a história desta escola”, concluiu a educadora Marli.


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História passada a limpo: brasileiros pesquisam mais na Torre do Tombo em Lisboa

Foto José Venâncio

Cultura

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JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE, DE LISBOA

Os livros “A hidra de sete bocas” (Coleção Lajeana), de Francisco Eduardo Pinto, e “Travessias Inquisitoriais das Minas Gerais aos cárceres do Santo Ofício…” (Fino Traço Editora), de um grupo de autores, são exemplos recentes de publicações que utilizaram como fontes de pesquisas o Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa. Este arquivo reúne milhares de documentos sobre a história de Portugal, parte deles sobre os 285 anos de funcionamento do Tribunal do Santo Ofício, entre 1536 e 1821. Numa visita à Torre do Tombo, este repórter teve a rara oportunidade de conhecer valiosos originais guardados na “Casa Forte”, como uma espécie de antigo “diário oficial” bilíngue do Reino (latim e português), o Tratado das Tordesilhas, a carta de Pêro Vaz de Caminha, um dos oito volumes de uma bíblia do século 15 - presente de casamento ao rei D. Manuel - e mapas e atlas magnificamente ilustrados (convergência da cartografia náutica portuguesa e da antiga arte da iluminura) da época dos descobrimentos. Quando a monarquia se instalou definitivamente em Lisboa, documentos históricos (livros dos tombos, documentos reais, de administração do Reino etc.) passaram a ser guardados na Torre Albarrã do Castelo São Jorge (mais conhecida por Torre do Tombo). Com o terremoto em 1755, a torre ruiu. A documentação foi recuperada e, em 1757, transferida para o Mosteiro

de São Bento (atual Palácio de São Bento onde funciona a Assembléia Nacional). No século 19, com a extinção das ordens religiosas, os bens e o acervo da Inquisição foram incorporados pelo Estado, tendo sido os documentos enviados para a Torre do Tombo. Com a inauguração do novo edifício em 1990, a documentação foi transferida para a atual sede da Torre do Tombo. Interesse dos brasileiros A partir dos anos 1960 e 1970, aumentou muito o interesse dos pesquisadores preocupados em compreender o Brasil dos primeiros séculos através das fontes do Santo Ofício, diz Angelo Adriano Faria de Assis no artigo “A Torá nos caminhos do ouro: cristãos novos e criptojudeus em Minas”. Ele é um dos autores do livro Travessias inquisitoriais das Minas Gerais aos cárceres do Santo Ofício: diálogos e trânsitos religiosos no império luso-brasileiro (sécs. XV-XVIII), Fino Traço Editora, Belo Horizonte, 2013, organizado por Júnia Ferreira Furtado e Maria Leônia Chaves de Resende. Hoje, um novo olhar sobre a história do Brasil já é possível, a partir de consultas a documentos relativos à Inquisição portuguesa, como confissões, denúncias, correspondências, negociações com a Igreja e a Coroa, cadernos do promotor, livros de visitações, listas de Autos da Fé, regimentos do Santo Ofício e milhares de processos movidos contra

Sala de leituras da Torre do Tombo utilizada pelos pesquisadores

os réus (judeus cristãos-novos, por exemplo) pelo “braço da Misericórdia e Justiça”, de acordo com Angelo Assis. “Em linhas gerais, estes trabalhos abordam a presença e atuação inquisitorial na América portuguesa a partir dos indivíduos denunciados e dos que procuravam demonstrar boa vontade com o tribunal ao confessar seus erros ou delatar terceiros”, explica o autor. “E aqueles que mais preencheram as páginas inquisitoriais foram as principais vítimas da Inquisição portuguesa – os cristãos-novos, insistentemente acusados durante as visitações iniciais ao Brasil.” Torre do Tombo A documentação (fontes históricas primárias) do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) é relevante para a história mundial, principalmente para os países de língua oficial portuguesa, diz José Maria Furtado, chefe da Divisão de Sistemas de Informação, Estatística e Qualidade da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). “A Unesco classificou como patrimônio Memória do Mundo bens arquivísticos do ANTT como a Carta de Pêro Vaz de Caminha (2005), o Tratado de Tordesilhas (2007) e, ainda, a coleção Corpo Cronológico (cerca de 82 mil documentos)”, disponíveis em http://antt.dglab. gov.pt/exposicoes-virtuais-2/ registo-da-memoria-da-mundo/. “Os originais dos documentos mais antigos do acervo do ANTT remontam ao século IX.” José Furtado considera difícil quantificar o número de documentos existentes. “A contagem do acervo à guarda do Arquivo mede-se em metros lineares de documentação. Os cerca de 100.000 metros (100 kms) de documentação existentes no ANTT correspondem a 1.513 fundos e coleções.” Desse total, “encontram-se disponibilizados em linha, na Base Digitarq do ANTT, cerca de 146.676 documentos, com representação digital associada a registos

Prédio atual da Torre do Tombo em Lisboa

descritivos, que correspondem a cerca de 6.238.031 de imagens”. Além do ANTT, a rede DGLAB de Arquivos compreende os Arquivos Distritais e o Centro Português de Fotografia. Estas unidades descentralizadas reúnem cerca de 325.018 documentos com representação digital associada a registos descritivos, o que corresponde a 8,02 milhões de imagens digitalizadas. “No total, a rede DGLAB de Arquivos possui 471.694 documentos com representação digital associada a registos descritivos, que representam 14.254.896 de imagens disponíveis online.” Em termos relativos, apenas cerca de 0,6% do acervo documental do ANTT se encontra digitalizado, informa José Furtado. Nos últimos cinco anos, cerca de 17,2 mil leitores presenciais (a maioria pesquisadores) consultaram, anualmente, os documentos do ANTT. Foram 58.967 documentos consultados em média por ano. “Importa referir que o incremento do número de acessos via online tem implicado diminuição de número de leitores presenciais nas salas de leitura do ANTT, mas, por outro lado, promovido um maior aumento e democratização de acesso à informação”, diz José Furtado. Cerca de 124,8 mil documentos foram consultados online (Google Analytics), o que correspondem a 2,539 milhões de visualizações de páginas online (Google Analytics). O maior interesse pela Torre do Tombo nas últimas décadas, por parte de pesquisadores brasileiros, deve-se, fundamentalmente, à “partilha de uma língua e história comuns”, observa José Furtado. “Nesta última década, tem-se verificado um incremento do número de investigadores brasileiros graças ao desenvolvimento econômico do Brasil e aos programas de investigação suportados por bolsas promovidas pelo Estado brasileiro.”

Além do ANTT, a DGLAB engloba ainda os seguintes arquivos: o Centro Português de Fotografia e os arquivos distritais do Porto; de Aveiro; de Beja; de Bragança; de Castelo Branco; de Évora; de Faro; da Guarda; de Leiria; de Portalegre; de Santarém; e de Setúbal. O conjunto dos acervos documentais constituintes do ANTT, bem como parte dos documentos digitalizados, pode ser consultado gratuitamente em http://digitarq.arquivos.pt/ Cristãos novos em Minas O Brasil, cujo início efetivo do processo de colonização coincidiu com o momento de instauração da Inquisição em Portugal, rapidamente se transformaria num dos destinos preferidos dos judeus cristãos-novos, segundo Angelo de Assis. A procura pelo ouro levou para as Minas cristãos-novos da Bahia e de outras regiões do Nordeste, bem como de São Paulo, Espírito Santo, do Rio de Janeiro e de outras partes do vasto império português. “Atuavam não apenas na exploração mineral, mas também no seu entorno, com o suprimento de mantimentos, produtos, ferramentas e carências outras… Trabalhavam como médicos, advogados, professores, eram artesãos, homens de negócio e comerciantes, proporcionavam crédito, traficavam escravos e animais para transporte e lida, criavam gado, porcos, galinhas e demais animálias para consumo, desenvolviam lavouras de subsistência onde produziam mandioca, feijão, arroz, milho, cana-de-açúcar, hortaliças e outros alimentos; contribuíram na criação daquilo que viria a transformar-se na tradicional e renomada culinária e doçaria mineiras.” Assim, contribuíram para erguer-se, “nas Minas, uma sociedade de múltiplas características…”, assinala Angelo de Assis.


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ANO XI Nº 139 - NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Centenário de nascimento do monsenhor Nélson POR ANDRÉ EUSTÁQUIO, EMANUELLE RIBEIRO E JOÃO MAGALHÃES

O professor que escrevia com os dedos

A

atuação do monsenhor Nélson Rodrigues Ferreira em Resende Costa não se limitou apenas ao pastoreio do rebanho da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França. A presença forte e atuante do vigário é registrada na política, nas obras sociais, no desenvolvimento urbano e na educação da cidade. Conforme vimos no início desta série especial, padre Nélson cultivou desde criança o apreço pela Igreja e pela intelectualidade. Ainda menino sentiu forte o chamado ao sacerdócio. Dona Mariquinhas, sua mãe e mestra, soube conduzir os passos do filho no caminho da fé e da boa educação. Padre Nélson assumiu a Paróquia de Nossa Senhora da Penha com trinta anos de idade, após exercer, durante cinco anos, o ministério sacerdotal na Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, como vigário coadjutor. O jovem padre trouxe para Resende Costa, em 1944, experiência sacerdotal e sólida formação intelectual adquirida durante longos anos de estudo no renomado Seminário Arquidiocesano São José, em Mariana. Na pequena Resende Costa da década de 1940 poucas pessoas tinham o privilégio de após alfabetizadas continuarem seus estudos. As famílias que dispunham de boas condições financeiras geralmente enviavam seus filhos para estudar em São João del-Rei em colégios particulares, como: Ginásio Santo Antônio e Colégio Nossa Senhora das Dores. Outra opção era os seminários católicos – neste caso, somente para os meninos. No final da década de 1950, começa a surgir em Resende Costa um movimento que prometia revolucionar a educação na cidade, oferecendo oportunidade de estudo sobretudo para quem não tinha condições financeiras de estudar em outras cidades. Em 1959, padre Nélson se junta a um grupo de professores e outros cidadãos resende-costenses e fundam a CNEG (Campanha Nacional de Educandários Gratuitos). A CNEG, depois chamada CNEC (Campanha Nacional de Educandários da Comunidade), era o setor administrativo responsável pela parte patronal e financeira do Ginásio Nossa Senhora da Penha, fundado em 1960. Padre Nélson foi eleito no dia 15 de maio de 1959 o primeiro diretor do setor local da CNEG. Na década de 1940, ou seja, 20 anos antes da criação da CNEG, o professor Geraldo Sebastião Chaves, de saudosa

Monsenhor Nélson, professores e alunos do Ginásio Nossa Senhora da Penha. Destaque para a presença do jogador de futebol Tostão, paraninfo da turma.

memória, criara um internato em Resende Costa, no qual estudaram alunos da cidade e de outras adjacentes. Desde esta época, Geraldo Chaves e seu irmão Helvécio Chaves já nutriam o sonho de se criar um curso ginasial na cidade. “O Geraldo Chaves foi o precursor do ensino em Resende Costa”, afirma o advogado Agenor Gomes, ex-aluno, um dos fundadores da CNEG e professor do Ginásio Nossa Senhora da Penha. O modelo de ensino gratuito veio da cidade vizinha de Passa Tempo. No início, o ginásio funcionou no Grupo Escolar Assis Resende que, diga-se, encontrava-se em péssimas condições. No interior do Grupo, várias escoras de madeira sustentavam o telhado e algumas paredes. No início da década de 1970, o Nossa Senhora da Penha passou a funcionar onde hoje se encontra a Prefeitura Municipal, ficando lá até o encerramento de suas atividades, no dia 4 de março de 1986, já com o nome de Escola da Comunidade Nossa Senhora da Penha. O primeiro diretor do educandário foi Adriano Chaves da Fonseca. Depois vieram Abel Chaves de Mendonça, padre Nélson Rodrigues Ferreira e, por último, Geraldo Élson da Silva.

O rigoroso professor Ao longo de sua carreira enquanto professor da CNEC, padre Nélson lecionou Geografia, História, Ciência e Religião. “A Religião não fazia parte do cronograma da Campanha, mas mesmo assim o padre Nélson queria impô-la, ferindo os princípios da Campanha. Ele dividia a aula de quarenta minutos entre Geografia e Religião, e cobrava Religião na

prova de Geografia”, recorda-se o ex-aluno Agenor Gomes. Sua ex-aluna, a professora e colunista do JL, Regina Coelho, se recorda com carinho das aulas do antigo mestre: “Guardo de suas aulas as melhores lembranças. Uma delas me remete ao caminho que ele fazia até chegar à sala de aula. Passando pelos corredores do Colégio, ele procurava evitar contato físico mais próximo com alunos porventura ali reunidos”. Tal como em uma celebração litúrgica, na escola padre Nélson seguia rigorosamente um ritual. “O ritual de toda aula começava infalivelmente com a procura pelos toquinhos de giz desprezados pelos outros professores e aproveitados por ele. Achávamos graça naquilo, é claro, disfarçando nosso riso”, recorda-se Regina. O ritual do padre Nélson provocava os cochichos entre os alunos, evidentemente que de forma discreta para não despertar a ira do rigoroso professor. “Quando ele começava a escrever no quadro era um cochicho só, aliás, coisa bem típica de uma turma de alunos. No nosso caso, a brincadeira consistia em dizer que era impossível haver algum pedaço de giz em sua mão, dado o tamanho minúsculo do mesmo, e que nosso professor escrevia literalmente só com os dedos”, conta a ex-aluna. Apesar de rigoroso e, por isso, às vezes temido por alguns alunos, padre Nélson tornou-se em Resende Costa modelo de professor culto e competente. “As aulas dele eram fora de série. Explicava de maneira muito clara”, diz Agenor. “Ele desenhava mapas à mão livre com boa precisão, uma habilidade que muito nos impressionava usada como ilustração em suas aulas de His-

tória”, diz Regina. Para o 2º Grau padre Nélson lecionou também Filosofia. Segundo Regina Coelho, “ele não perdia a oportunidade de demonstrar sua admiração por Santo Agostinho, cuja vida gostava de nos contar, citando a conversão dele à fé católica”. Porém, alguns temas polêmicos da história da Igreja eram tratados por padre Nélson de forma, digamos, não tanto aprofundada: “Todos estávamos esperando que ele falasse da Inquisição. Quando chegou nessa parte, ele explicou superficialmente. Falou muito rápido. Ele preferiu se omitir”, diz Agenor. O professor padre Nélson era também rigoroso nas avaliações, conforme conta sua ex-aluna Regina: “Em dias de prova, tínhamos de levar uma folha de papel almaço. Nela, antes de escrever as questões que ele ditava, deveríamos fazer, sob sua orientação, uma determinada margem seguindo a seguinte instrução: folha na vertical dobrada ao meio e redobrada a primeira metade, sendo um quarto dela o correspondente à margem”. Nomeado diretor do Ginásio Nossa Senhora da Penha em meados da década de 1960, padre Nélson acumulou o cargo com o de professor até 25 de agosto de 1977, quando se aposentou. No início da CNEC, os professores e diretores trabalhavam sem receber salário: “Trabalhei com o padre Nélson por algum tempo sem receber nada. Como diretor, ele administrou o Colégio muito bem. Não havia pagamento de salário, as pessoas recebiam gratificação”, explica Agenor Gomes.

O baile de formatura O rigor do padre professor

foi experimentado pelos formandos da primeira turma do Ginásio Nossa Senhora da Penha no dia 15 de dezembro de 1963. Fim de ano e de curso. Entusiasmadas, as alunas chegaram a mandar fazer os vestidos para serem usados naquela que tinha tudo para ser uma noite especial. A expectativa era grande para o baile de formatura do Ginásio, até o professor padre Nélson “melar a festa”. “Padre Nélson não permitiu o baile, ele acabou com a festa. E ainda disse: vamos começar por Resende Costa, e acabar com esses bailes comemorativos de formatura”, lembra-se Agenor Gomes, que foi aluno da primeira turma do Ginásio Nossa Senhora da Penha. As alunas ficaram, obviamente, frustradas com o cancelamento do baile. Já os meninos, nem tanto: “O Bié do Lindolfo (Gabriel Caetano da Silva) organizou o baile dos meninos. Éramos poucos, mas nós tivemos a nossa festa”, diz Agenor. O baile dos meninos aconteceu na casa do dentista Antônio de Resende e foi abrilhantado por músicos da cidade. Os familiares dos alunos participaram do baile, que teve até valsa no final. O já Cônego Nélson, nesta ocasião, ainda não era diretor do Ginásio, porém, enquanto professor e vigário da cidade tinha, como ninguém, autoridade moral e prestígio suficientes para cancelar um baile de formatura. E assim o fez. “O que o padre Nélson falava, as pessoas obedeciam. Ninguém contestou”, destaca Agenor Gomes.

A biblioteca da Casa Paroquial Uma das maiores dificuldades dos alunos do Nossa Senhora da Penha era encontrar livros disponíveis para pesquisar e fazer tarefas passadas pelos professores. A salvação da maioria era a biblioteca da Casa Paroquial. Até hoje muitas pessoas na cidade se recordam das inúmeras vezes em que foram recebidas pelo padre Nélson no escritório paroquial a fim de consultarem seus livros, tais como: enciclopédias, livros de Ciência e de História. Mesmo com seu jeito austero, na maioria das vezes distante, padre Nélson marcou a vida de muitas pessoas que conviveram com ele, de modo especial na sala de aula. Enquanto educador será para sempre lembrado por sua inteligência e vasta cultura. “Cidadão generoso ao oferecer sua biblioteca na Casa Paroquial para as pesquisas escolares dos que o procuravam, educador culto, simples, ameno e tradicional, padre Nélson tem seu nome definitivamente associado à Educação em Resende Costa”, conclui sua ex-aluna Regina Coelho.


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Aconteceu

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EMANUELLE RIBEIRO

Festa do Rosário reúne elementos tradicionais da cultura afro-brasileira Fotos Emanuelle Ribeiro

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ma festa alegre. Esta é a melhor definição para a Festa do Rosário, realizada todos os anos em Resende Costa. Em 2014, de 6 a 9 de novembro, o evento reuniu mais uma vez pessoas de todas as idades e gostos. A festa é uma manifestação tradicionalmente religiosa, que reúne elementos de fé e cultura, como os congados - uma demonstração de elementos da cultura africana presentes nas comemorações de Nossa Senhora do Rosário. Danças, músicas e barraquinhas marcaram novamente as celebrações, acompanhadas por várias pessoas no Largo do Rosário. Confiram como foi a participação popular na festa, registrada pelo JL!

A dupla Ladinho e Osvaldo se apresentou na noite de sábado

Batista Maia, locutor da Rádio Inconfidentes FM

Barraquinhas com diversos produtos abrilhantaram a Festa do Rosário


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São João del-Rei

Lagoa Dourada

Damae realiza campanha para evitar consumo irresponsável de água

Copasa pede colaboração da população de Lagoa Dourada no uso da água

JULIA BENATTI

novembro e dezembro, provavelmente nós vamos ter muitos problemas no ano que vem”. A campanha serviu como um alerta à população que, segundo Gastão, gasta quase duas vezes e meia o que a Organização Municipal de Saúde recomenda: “O que está segurando a cidade hoje são os poços artesianos que furamos no ano passado (...), mas continuamos em alerta”. As regiões mais altas da cidade já estão em racionamento, segundo o diretor: “As partes mais altas estão sendo atendidas poucas vezes e em alguns dias ficam com pouca ou sem água, mas não é constantemente que acontece”. Ele ainda aconselha que, no caso de falta de água, a pessoa deve ligar para o Damae para que seja verificado se há algum problema operacional e que, em caso de urgência, seja encaminhado um caminhão-pipa. Além da sensibilização da população para o problema da falta de água, a campanha

Foto João Marcos El Yark

Teve início em outubro a campanha “Toda Gota Conta”, realizada pelo Damae (Departamento Autônomo Municipal de Água e Esgoto de São João del-Rei) e pela Prefeitura Municipal de São João del-Rei, que visa à conscientização da população sobre o desperdício de água. Apesar das chuvas que ocorreram no final do mês de outubro, a cidade ainda está em estado de alerta e algumas regiões correm risco de ficar sem água. As chuvas que ocorreram no final de outubro não foram suficientes para amenizar a situação dos mananciais, portanto ainda é possível que a cidade tenha que entrar em racionamento. Para que os mananciais sejam recarregados é necessário que a chuva ocorra em periodicidades menores e a melhoria só deve ser percebida em meados de dezembro. Gustavo Gastão, diretor do Damae, afirma que a situação está alarmante: “Se não chover adequadamente nos meses de

A campanha Toda Gota Conta prevê a conscientização da população. Foto Divulgação

também prega a fiscalização feita por todos. Caso presencie desperdício recomenda-se que entre em contato com o Damae para que seja feita uma vistoria e o problema seja resolvido. Existem muitas formas de poupar água: não lave calçadas e passeios utilizando a mangueira; evite banhos demorados e feche a torneira enquanto escova os dentes; lave o carro com balde ou em um lava-jato; só use a máquina de lavar quando esta estiver cheia; fique sempre atento para vazamentos.

SEBRAE e Prefeitura oferecem curso de capacitação O laboratório orientou gestores culturais e prevê a criação de uma organização em rede em São João del-Rei Aconteceu entre os dias 27 a 30 de outubro o “Laboratório Sóciocriativo de São João del-Rei”. A oficina foi realizada com o apoio da Prefeitura Municipal de São João del-Rei e contou com a presença do consultor do SEBRAE, André Martinez. O curso é uma capacitação para os gestores culturais que buscam identificar as fragilidades internas das instituições, organização em rede, fomentação de atividades e suporte para projetos. Segundo Ulisses Passarelli, superintendente de cultura, a oficina “é

uma capacitação para as instituições aprenderem a caminhar com as próprias pernas”. O objetivo do laboratório é formar um grupo de pessoas, em São João del-Rei, que seja indutor de uma economia criativa e que semeie um ideal de organização das instituições. O número de vagas foi de 20 a 40 participantes, mas Ulisses afirma que o quantitativo não é tão importante: “Está bem representado, não só em quantidade, mas as pessoas que estão participando são realmente lideranças na área cultural, pessoas ligadas

NAYANA CARVALHO

à gestão de instituições”. A ideia partiu do SEBRAE, que oferece uma série de cursos, e a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer juntou-se a ele para oferecer gratuitamente o projeto, que ocorreu no Centro de Referência Musicológica José Maria Neves (CEREM). Passarelli complementa: “A secretaria tem que estar aberta a receber essas parcerias (...) e correr atrás dessas instituições que podem trazer benefícios para a coletividade.” J.B.

O longo período de seca que atinge algumas regiões de Minas Gerais vem servindo de alerta para o resto do estado. Mesmo nos municípios onde o abastecimento de água tem sido normal, como na cidade de Lagoa Dourada, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) vem chamando a atenção da sociedade para a necessidade do uso consciente da água. De acordo com uma nota expedida pela Copasa, o fornecimento de água acontece regularmente em Lagoa Dourada, porém enquanto o período de chuva não vem para ficar, a companhia pede a colaboração dos moradores contra o desperdício de água. O ano de 2014 vem marcando uma das piores secas da história da região Sudeste. De acordo com boletim divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais, a falta de chuva fez com que 170 municípios decretassem situação de emergência no estado desde o início do ano. Os transtornos causados pela estiagem são visíveis. A nascente do Rio São Francisco, que fica no norte do estado mineiro e é um dos rios mais importantes do país, ficou completamente seca. Outra preocupação são os focos de incêndio. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 2014, o número de focos de incêndio já chega a 10.646 em Minas Gerais. Mas o que mais tem preocupado a sociedade é a falta de água nas residências. Em Lagoa Dourada o fornecimento de água é feito por meio de poços artesianos após receberem o devido tratamento da Estação de Tratamento de Água (EAT) Dom Pedro. Segundo a Copasa não há riscos de desabastecimento na cidade. Entretanto, a companhia enfatiza que mesmo com o abastecimento continuando normal, a

população deve ser prudente ao utilizar a água, evitando o desperdício durante este período de estiagem para que não haja problemas futuros. Como aponta a Copasa, atitudes simples podem fazer uma grande diferença na economia e no bolso, entre elas: lavar o carro com balde de água no lugar da mangueira; deixar a torneira fechada enquanto se escovam os dentes; tomar banhos rápidos, suficientes para a higiene corporal; molhar plantas com regador e não lavar o passeio com água tratada. Tais medidas são de prevenção e o uso consciente da água é importante em qualquer estação do ano. Ainda de acordo com a nota, a Copasa reitera não ter autoridade para fiscalizar e atuar em situações de desperdício, ou seja, a companhia não pode aplicar multa no caso de mau uso da água. Assim, conta com a cooperação de toda a comunidade para o consumo consciente. Preocupada com a estiagem a dona de casa Sônia Fonseca conta qual atitude toma para evitar o desperdício: “Eu sempre procurei economizar água, além de chamar a atenção de todos da minha casa contra o desperdício. Costumo economizar no dia-a-dia. Por exemplo, a água que uso para lavar as roupas sempre reutilizo para lavar a calçada, o banheiro e limpar o chão da casa”. A estiagem também preocupa os agricultores da cidade, que têm como principal atividade a agronegócio. Como explica o produtor Fernando Melo, por enquanto não houve problemas graves, as plantações estão sendo feitas com cautela e ninguém está sem trabalhar por causa da seca. Mas ele acredita que se a falta de chuva continuar por muito tempo as lavouras poderão ter grandes prejuízos.


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A Teia do Mundo

JOSÉ ANTÔNIO*

Primeira vez Madrugada alta de uma quinta-feira sem ninguém nas ruas. Na esquina do Beco do Galo, um cachorro dormia enquanto eu subia sozinho o Largo do Rosário. Já nos Quatro Cantos, desci a Rua do Teatro e fui parar lá embaixo, no portão do cemitério. Em cima do muro, um gato assentado me olhava atento. Sombras confusas, ainda mais terríveis na prata do luar. Grilos cricrilavam, fazendo contraponto com a quietude dos túmulos. Ouvi o piado surdo e tímido de uma coruja. Não gostei, pois em algumas tragédias o piado da coruja é aviso de mau agouro. De repente, uma voz grave me falou quase sussurrando: – Perdido por aqui, bacana? Não era piada nem piado e eu fiquei arrepiado, pois estava sendo surrupiado. – É assalto, bacana! Vai me passando tudo aí. – Eu não preciso ficar com as mãos pra cima?! – É mesmo, esqueci. Mãos pra cima! É assalto! Se mexer, eu atiro. – Atira?! – É mesmo, esqueci. Tá aqui a arma. Não complica que eu tô nervoso. É a primeira vez que eu tô assaltando alguém. Achei melhor não perguntar se ele não tinha se esquecido de colocar bala no revólver. Assaltante de primeira viagem costuma fazer passageiro de última viagem. Procurei ser didático: – Olhe, amigo, eu também nunca fui assaltado. A gente pode aprender junto. Posso dar uns toques. – Ninguém vai tocar nada, bacana! E fala baixo, entendeu? O cara falava mexendo muito o revólver. Aquilo podia disparar. A sorte é que ele apontava

mais para o cemitério do que para mim. Vi uma caveira de mãos pra cima. Era a sombra de um arbusto seco. Enquanto o larápio debutava no crime levando o meu relógio, eu ia conversando com ele. Contou que era de Resende Costa e tinha se mudado pra São Paulo. Não deu certo lá, ficou devendo todo mundo e estava precisando de muita grana. Antes de ir embora, ainda perguntou: – E aí, bacana? Eu tenho futuro como ladrão? – Posso dar umas dicas? Na semana seguinte, fiquei sabendo que ele tinha sido preso no Rio de Janeiro, lá no Maracanã, naquele jogo do Brasil contra o Chile, em que o goleiro Rojas se cortou com um estilete fingindo que fora atingido por um rojão. Ano esquisito aquele 1989. No primeiro dia do ano, um punhado de gente acabou morrendo no naufrágio do Bateau Mouche... o Brasil elegeu o Collor e acabou dando no que deu... no jogo contra o Chile, o Brasil acabou classificado para a Copa, o Rojas acabou banido do futebol e a moça que jogou o foguete no campo acabou pelada na Playboy... e minha inocente caminhada acabou virando vernissage de assaltante trapalhão... Tudo o que é acaba virando coisa que a gente não espera. Assim é a vida, assim é a morte. Até as dicas que dei pro ladrão acabaram virando outra coisa pra ele. Quais foram as dicas? Elas colocariam qualquer ladrão na cadeia. Porém, se eu divulgar, também vou acabar pelado na Playboy. É melhor ficar quieto. Igual àquele gato que estava assentado no muro do cemitério.

*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. e-mail: jresende@mgconecta.com.br

Contemplando as Palavras

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REGINA COELHO

Para lembrar Cecília

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte do meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno (...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento da minha personalidade. (...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão.” O texto autobiográfico acima é de Cecília Meireles (7/11/1901 – 9/11/1964), menina criada pela avó materna (açoriana), por ser a única sobrevivente em uma família de quatro filhos. Ao concluir o curso primário em 1910, na Escola Estácio de Sá (Rio), a aluna Cecília recebeu de Olavo Bilac, então inspetor escolar do Distrito Federal (à época, o Rio de Janeiro), medalha de ouro por ter feito todo o curso com “distinção e louvor”. Na mesma ocasião, começou a estudar poesia, tendo publicado seu primeiro livro, Espectros (um conjunto de sonetos simbolistas), em 1919, aos dezoito anos. Diplomando-se professora, passou a exercer o magistério em escolas primárias públicas da antiga capital do país. Paralelamente, começou a escrever na imprensa carioca, tendo atuação destacada como jornalista, com publicações diárias, principalmente sobre problemas ligados à educação, área à qual sempre se manteve ligada, aposentando-se em

1951 como diretora de escola. A propósito, deve-se a ela a criação da primeira biblioteca infantil do Brasil. Mulher de múltiplos talentos, Cecília realizou inúmeras viagens aos Estados Unidos, à Europa, à Ásia e à África fazendo conferências sobre folclore, educação e literatura, em cujos estudos se especializou. Gostava de dizer que não era turista, e sim viajante – pelo desejo de “morar em cada coisa e descer à origem de tudo”. Trabalhou também como produtora e redatora de programas culturais na Rádio Ministério da Educação (Rio). E lecionou nas Universidades do Distrito Federal (hoje UFRJ) e do Texas (EUA). Premiada como poeta e tradutora, recebeu inúmeras honrarias no Brasil e no exterior. Artista da palavra por excelência, teve grande parte de sua obra traduzida para várias línguas e musicada por gente como Chico Buarque, que usou trechos do Romanceiro da Inconfidência (romanceiro: narrativa rimada), recriação poética sobre a Inconfidência Mineira, para compor o tema da peça Os inconfidentes, com direção de Flávio Rangel. Outro “parceiro” de Cecília Meireles é Fagner, que musicou Canteiros e Motivos. Este último poema integra o livro Viagem, com o qual, segundo Mário de Andrade, ela passaria a se firmar entre os maiores poetas nacionais. Ressalte-se que, por essa obra, a concessão pela Academia Brasileira de Letras do Prêmio de Poesia Olavo Bilac à Cecília rendeu-lhe críticas de alguns modernistas, entre eles do próprio Mário, por acharem que ela havia se curvado ao conservadorismo (que eles atacavam) da ABL. Coisa de quem não perdoava o fato de ela nunca ter feito parte da vertente mais radical do Modernismo. Mas o elogio de Mário de Andrade à poeta Cecília Meireles é definitivo. Definitiva também é sua

presença na memória afetiva de gerações de leitores através de seu sempre lembrado Ou isto ou aquilo, poema que dá nome ao livro publicado pela primeira vez em 1964, com sucessivas publicações para o encantamento de crianças e adultos. Reconhecer Cecília Meireles, no entanto, simplesmente como autora de obra infantil (sem desmerecer os pequeninos, muito pelo contrário) não faz justiça a tudo o que ela representa para o país como escritora, pensadora e cidadã. Hoje, passados exatos cinquenta anos de sua morte, entidade com a qual manteve “uma tal intimidade” precoce, é importante lembrar Cecília, a alta qualidade de sua obra literária e algumas belas palavras nascidas de sua mente brilhante. “Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira.” “Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens. Não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo.” “Se você errou, peça desculpas... É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?” “Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.” PS: Dedico o presente e coincidentemente apropriado artigo ao Evaldo, meu ex-aluno, hoje colega e amigo querido, por mais uma significativa conquista em sua corajosa e bem sucedida trajetória literária – a indicação de seu nome como um dos três finalistas ao 1º Prêmio Saraiva de Literatura – categoria Romance, com o livro Os fios de Ícaro. Méritos ao agora também romancista, um talento de Resende Costa a serviço de nossas letras.


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ANO XI Nº 139 -NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Causos e Cousas

ROSALVO PINTO

De Resende Costa a São José dos Campos (SP) N e s t a 139ª. edição do JL eu decolo de Resende Costa para pousar na cidade paulista de São José dos Campos. Vou visitar uma das minhas paixões que nasceu e mora lá. É jovem, inteligente, bonita e está festejando seus 45 anos. Teve e continua tendo muitos filhos, um dos quais vai nascer em princípios de Dezembro. E por esses dias ficou grávida novamente. É muito conhecida no Brasil e no mundo inteiro. Chama-se Embraer. Todos nós seres humanos temos nossas paixões. Quem mais, quem menos. Algumas intrínsecas à nossa própria vida, como nossas famílias, a religião, a nossa terra natal e outras complementares, como as artes, a ciência, os esportes, o trabalho etc. Nessa categoria, costumo dizer que tenho três: a música, a linguística (os estudos da linguagem) e a aeronáutica. Pois bem, o motivo de minha viagem é justamente para compartilhar com meus leitores essa última paixão. Acredito que a grande maioria

dos brasileiros conhece a Embraer, a Empresa Brasileira de Aeronáutica. Ela nasceu em 1965 no âmbito do Ministério da Aeronáutica, mais especificamente no CTA (Centro Técnico Aeroespacial), sediado em São José dos Campos, com o objetivo inicial de produzir aeronaves para a FAB (Força Aérea Brasileira). Os pioneiros dessa ideia foram corajosos, pois trata-se de um empreendimento de alta tecnologia, dominada por poucos empreendedores em poucos países. O primeiro filhote da Embraer nasceu em 1968 e foi batizado com o nome de “Bandeirante”. O nome foi simbólico: os seus idealizadores foram mesmo verdadeiros bandeirantes. E o Bandeirante está vivinho até hoje. E vieram muitos e muitos filhos. Por sorte, a Embraer foi privatizada em 1994. Infelizmente, conhecemos nosso país: tudo o que cai nas mãos dos governos... já sabemos o que pode acontecer... Com a privatização, a Embraer deslanchou, a ponto de tornar-se, num curto espaço de tempo, a terceira ou quarta maior indústria aeronáutica do mundo. Hoje as aeronaves pro-

duzidas pela Embraer, sobretudo as comerciais (transporte de passageiros) e as executivas (jatinhos particulares) voam por todos os continentes e, curiosamente, com forte presença nos Estados Unidos, o maior produtor de aviões do mundo. Mas vamos ao próximo filhote. Vai ser um parto difícil, pois será o maior de todos até hoje. Já tem nome: KC-390. É uma aeronave de carga de grande porte. O projeto foi desenvolvido, inicialmente, para a fabricação de 28 unidades para a FAB. Os famosos cargueiros da FAB, os Lockheed C-130 - Hércules, quadrimotores a hélice, já estão velhinhos, com seus quase 40 anos de uso. O KC-390 já vem com dois potentes motores (turbinas a jato), com dispositivos para reabastecimento de outras aeronaves em voo e com o que há de mais moderno em aviônicos atualmente. Medidas: envergadura (de uma ponta a outra das asas): 35,05m; comprimento: 35,20m; altura: 11,84m e velocidade máxima: 870 km/h. O parto está previsto para inícios de dezembro, dia do primeiro voo. Mas como a

Embraer é muito fértil, já está prenhe de outro filho. Outra história. O Brasil tem uma das mais fracas forças aéreas do mundo: velhos caças americanos (F-5E/F) e franceses (Mirage 2000). Os F-5 americanos passaram por uma “modernização”, feita pela Embraer, e os franceses foram aposentados no ano passado. Em 2001, no governo FHC, a FAB conseguiu emplacar um projeto de aquisição de caças modernos, o chamado “Projeto F-X”. Coisas do Brasil, só depois de 8 anos o Ministério da Defesa escolheu três concorrentes: o F-18 E/F (da Boeing americana), o Rafale (da Dassault francesa) e o Gripen NG (da Saab sueca). No ano seguinte (2009), o ex-presidente Lula, ao receber a visita do presidente Sarkozy, em cerimônia militar no 7 de setembro, informou, prematuramente, que o Brasil iria optar pelos caças franceses. Os militares não gostaram e em fins do ano passado escolheram o caça Gripen NG (New generation) e, às pressas, na sexta-feira do último debate eleitoral, assinaram o contrato com a Saab sueca, com medo

de o(a) futuro(a) presidente voltar atrás. O contrato prevê a fabricação de 36 caças, no valor de U$ 5,4 bilhões (13 R$ bilhões), com direito à transferência de tecnologia. Parte dos caças será produzida na Saab e parte, na Embraer. São produtos de alta tecnologia, caríssimos e de fabricação demorada: o primeiro caça só ficará pronto em 2019 e o último em 2024. Engenheiros da Embraer irão para a Suécia, para dar início ao processo de transferência tecnológica. Assim a Embraer passa a fazer parte do seletíssimo grupo que detém a tecnologia de produção de caças de última geração. Minha paixão pela aeronáutica passou, via DNA, para meu filho mais velho, o Renato. Acabou formando-se engenheiro aeronáutico pela UFMG, a segunda escola de engenharia do Brasil a oferecer esse curso no Brasil, através do Centro de Estudos Aeronáuticos (CEA). A primeira foi o ITA/CTA, do Ministério da Aeronáutica. O Renato há 16 anos trabalha na Embraer e, neste momento, faz parte da equipe de produção do KC-390, no setor militar da empresa.

Crônicas do Cotidiano

RAFAEL CHAVES

O velho e o mar (Parte III - o fim) O mar e o céu; o azul e o azul. Ora na crista, ora no vale das ondas. Um vai-e-vem tranquilo e reconfortante, depois de passado o susto. A vida lhe pareceu assim, entre altos e baixos, reflexiva. O esforço de puxar a rede e um bagre e outra vez puxar a rede e uma pescada. As coisas iam acontecendo naturalmente, como se ele, o velho turista desavisado, soubesse o que fazer para ajudar Adailton, o pescador, a pescar. De vez em quando Adailton o corrigia “puxa prá esse lado”, “não tão depressa”, ou lhe agradecia “isso, assim está bom”. - Está vendo essa vasilha aí debaixo de seu banco? – perguntou Adailton. Era uma vasilha de plástico, de cinco litros mais ou menos, com empunhadura, tampada no gargalo e com o fundo cortado, aberto. Ele olhou por baixo do banco para alcançar a vasilha e sentiu que a água lhe batia pela metade da canela. Adailton tinha se esquecido de arrolhar o tampo

no casco do barco e a água veio, aos poucos, invadindo o barco. - Esvazia o barco! – mandou Adailton, enquanto se mantinha ocupado com a rede. Ele começou a retirar a água do barco com a vasilha num ritmo frenético e urgente, temeroso de o barco ir a pique. Viu-se fazendo companhia aos náufragos do Titanic. Enchia a vasilha com a água de dentro do barco e a esvaziava no mar, desesperadamente. A visão intermitente do barco e do mar começou a lhe anuviar as vistas e ele se sentiu tonto. Conferiu no relógio e viu que passava das três da tarde e ele estava ali somente com o café da manhã. Sentiu-se débil e pensou em se deitar no barco. Desistiu da ideia. “Não, não posso passar mal, não posso!”, pensou, tentando superar-se, para não mostrar a Adailton sua fragilidade. Diminuiu um pouco o ritmo, mas conseguiu esvaziar o barco. Adailton tinha conseguido uns bagres e umas pescadas, uns dez peixes mais ou menos. Depois de recolhidos os peixes, baixaram as redes ao mar para que esperassem por outros peixes até o dia se-

guinte. Ele se sentiu aliviado com o final da empreitada, até porque Adailton lhe dissera que estava terminando e que já já poderiam voltar. Entretanto, quando pensava que regressavam, Adailton apontou em outra direção e ordenou que ele acelerasse o motor. E foram novamente entrando mar adentro em direção ao encontro do que, soube mais tarde, era um espinel que Adailton mantinha no mar. No espinel havia uns anzóis vazios de isca, outros ainda iscados, mais um ou dois bagres ou pescada, não se lembrava mais a quantidade, e um xaréu de uns cinco a sete quilos. Adailton parece ter ficado satisfeito com o resultado do xaréu. Depois de recolhidos os peixes, Adailton cortou uns pedaços dos bagres que havia pescado e os fez de isca, soltando o espinel de volta ao mar. Finalmente, Adailton apontou numa direção e mandou que ele fosse a todo vapor. O barco seguiu a toda velocidade, novamente aos solavancos, voando nos vales das ondas e dando bofetadas na água. Ele seguiu confiante, como se fosse um velho acostumado ao mar. Aos poucos enxer-

gou ao longe, mas cada vez mais nítidas, as pontas dos coqueiros de terra firme. Antes que chegassem à arrebentação, Adailton retomou o leme do barco. Ultrapassar a arrebentação era coisa para gente experiente. E aos poucos entraram pela barra do Rio Itapicuru. Pelo Rio Itapicuru, Adailton seguiu até um ponto onde deixaram o barco. Dali o levou a pé até Cavalo Russo, uma atração do lugar. Cavalo Russo era uma duna alta, de areia fina e branca e que se estendia até um riacho de água doce e escura. Das dunas se podia escorregar até o riacho. Ali ele se banhou por longos minutos, achando graça no nome do lugar que, irremediavelmente, o remetia aos seus cavalos, lá nos rincões de sua terra, Resende Costa. Depois fizeram um passeio rio acima, em meio aos igarapés, até alcançarem uma construção luxuosa à beira do rio. Era a sede de uma fazenda que um português havia adquirido recentemente. Adailton mostrou a casa demonstrando-se consternado, como se não aprovasse a vinda de estrangeiros para o lugar.

Antes que chegassem a Siribinha, ele pensou em comprar um peixe de Adailton. Queria também pedir que Adailton fizesse o peixe em sua casa, para que comessem juntos no jantar. Enquanto ele matutava como fazer isso, Adailton por si próprio o convidou e ele não se fez de rogado. Terminados os passeios, retornam ao píer na margem do rio, em Siribinha, onde Buja os esperava. Talvez estivesse ali para saber do passeio do qual seria ele o condutor, ou para saber do resultado da pesca. Seguiram, ele e Buja, até o povoado, levando em um saco os peixes resultado da pescaria. Adailton seguiu para sua casa para adiantar o jantar. Escurecia quando ele chegou à casa de Adailton, guiado por Seu Valter. Lá o esperavam Adailton, sua esposa, Carine e Emanuel, seu filhinho. Mais tarde chegaram Seu João e Dona Dia, pais de Carine. A vida se mostrava na sua plenitude, essência e razão. Carpe diem. Ainda naquela noite, em Sítio do Conde, deitado na cama da pousada, ele agradeceu à vida a possibilidade de ter vivido aquele dia.


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Retalhos Literários

EVALDO BALBINO

A contemplativa ação da poesia A poesia requer uma contemplação inteligente, um sentido apurado das palavras e do poder que elas têm no mundo. Assim, como crítico e como poeta, estabeleço um tipo de namoro com as palavras. Um namoro cheio de estranhamentos. Pois a linguagem poética também pode adquirir essa função de choque. É quando você tem de parar de ver as palavras em seu sentido diário e comunicativo para, num ato amoroso com elas, debruçar-se sobre seus corpos verbais e ver neles outras possibilidades, outros usos, outros sentidos. A poesia, como sempre, é o que me tira do sufoco da vida contemporânea, me ensinando, inclusive, a encarar mais esse sufoco. Devemos ler poemas sem pressa. Cada poema merece nossa atenção. Só compreendemos a poesia se mergulhamos nela, se sentimos cada palavra falando conosco. Um poema deve ser lido com amor, com vagar, num ato lento e demorado. Digo a todos os poetas, àqueles que escrevem por necessidade psíquica e espiritual, que persistam na escrita e na publicação dela. Escrever literatura, escrever poesia, é remar contra a corrente, mas é remando que vamos ganhando força e maturidade. Porque escrever é conhecer-se e conhecer os outros. Camões já lamentava sobre a surdez do mundo para com a poesia, mas não deixou de poetar por isso. Também digo a todos os que leem poesia, que vale a pena fazer isso. Lendo, não passamos a vida à toa, como nos disse certa vez Manuel Bandeira. Quando terminei meu curso de Letras, ganhei da minha ex-professora Re-

gina Coelho uma terna e rica lembrança: as poesias completas de Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Um título assim, tão alto, só pode é fazer brilhar nossa vida. Brilhar como brilhou a poesia desse maravilhoso franciscano nas letras brasileiras. De uma capa azul a ponto de dar paz, o volume que ganhei da minha ex-professora traz o belo título encimado pelo nome do autor. E mais acima, no topo mesmo da capa da brochura, uma grande estrela, num brilho opaco, mas imenso, iluminando todo o livro e a minha vida. Transcrevo aqui o que me escreveu em dedicatória a minha mestra: “‘Passei a vida à toa, à toa...’. Bandeira que nos perdoe, mas sentir a poesia é passar pela vida plenamente, não é mesmo, Evaldo? A você uma lembrança de quem muito lhe quer bem”. Passar pela poesia não é ato vão. Passando por ela, fugimos dos vãos da existência. Caminhamos de braços abertos, e não cruzados. Abertos como os de Cristo em seu sangue derramando, abertos para que a vida aconteça com plenitude, a ponto de vencer a própria morte. Contemplar não é ficar parado. Contemplar é amar com ação, pois queremos o movimento puro. Cantar TE-DEUM nos faz um gado no alto da colina, mais próximos das nuvens, voando com elas. Ficamos mais próximos de Deus, andando sobre montanhas. Contemplar, pela poesia, é ver Santa Teresa d’Ávila sendo perfurada por um anjo em forma corporal, seta de fogo devassando-lhe as entranhas amorosas. Contemplar é ver Teresa em sua alcova escrevendo enquanto uma luz

desce sobre sua cabeça, seu corpo levitando de palavras, e as sinuosas e barrocas linhas se compondo. Contemplar é também ver Teresa, já envelhecendo, no entanto firme no propósito de fazer aquilo que só homens faziam. Sobre muares, atravessando a Espanha, cortando o frio das madrugadas, batendo palma para Deus e para Cristo, fundando conventos e os administrando. Contemplar é ser Marta e Maria. É poético ler isto, em São Lucas: “E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe pois que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”. Mas também é poético ver obras acontecendo, ver as mãos se movimentando, não apenas em louvor num altar. Amo as mãos em movimento para a vida, antes que venham a parar definitivamente, colocadas sobre um peito frio e dormidas. E as amarei depois também, lá nos sítios onde se esconderem e onde ficarão brancas, magras, porém levando consigo memórias dos gestos que fizeram, das sensações de outras mãos que seguraram e lhes ficaram na memória digital da existência.

Gastronomia

CLÁUDIO RUAS

Doce mel Abelha fazendo mel, vale o tempo que não voou, já dizia Beto Guedes na sua bela música “Amor de Índio”, reverenciando o trabalho mais que sagrado das abelhinhas, nessa que talvez seja a transformação mais rica e doce que a natureza é capaz de fazer. Só de imaginar que uma única abelha chega a “beijar” mais de trinta mil flores por dia, dá para dimensionar a complexidade da produção do mel, que se resume da seguinte forma: a abelha sai campeando atrás do néctar e do pólen das flores. Enquanto vai dando as beiçadas, ela guarda o néctar numa espécie de embornal, onde vai reagindo com enzimas. Chegando em casa ele é depositado nos favos, vindo a perder água, até virar mel. A colméia parece uma fábrica organizada – e meio machista! Tem a rainha, a chefe do pedaço, as operárias trabalhadeiras (fêmeas) e os zangões (machos), que só querem saber de paquerar. As estruturas físicas contam com sofisticada proteção de cera e resina, que controla a entrada de inimigos, temperatura e umidade. Vários são os tipos de mel, desde os mais claros e delicados, até os mais escuros e intensos, esses últimos mais nutritivos. Suas características dependem principalmente da florada. Seria como o tempero do mel, já que cada planta tem seu gosto. Outro fator é o tipo de abelha. A maioria do mel brasileiro é proveniente das abelhas européias e das nervosas africanas ou africanizadas (cruzamento das duas), que foram trazidas para cá em função da alta produtividade. Já as nativas do Brasil - e das Américas - costumam ser mais tranquilas, não dão ferroadas e são mais fáceis de lidar com elas. Como as da família das melíponas, silvestres, caso da jandaíra, das bandas da floresta amazônica ou do nordeste. Outra que vem ganhando fama, principalmente na gastronomia, é a jataí. Também produz mel de altíssima qualidade, tem propriedades medicinais diferenciadas, porém, produz menos quantidade do que as que têm ferrão. Entretanto, o preço do litro pode custar muitas vezes mais. Mel cristalizado não é mau sinal. É bom. Indica que ele é puro e ainda tem garantida sua

longevidade. Basta levá-lo em banho-maria depois. Armazená-lo em vasilha de boca larga facilita seu uso, pois permite que seja retirado com colher, mesmo solidificado. No Brasil o mel ainda é muito usado devido aos seus incontáveis fins medicinais, porém, nos esquecemos de que ele também é um ótimo remédio na cozinha, um ingrediente e tanto. A começar pelo fato de que é o grande substituto do açúcar, cada dia mais vilão da nossa saúde. O mel adoça deliciosamente os sucos, vitaminas e o abacate amassado. Entra bem na preparação de bolos, biscoitos e pães, além de dar um toque especial em molhos agridoces. Mesmo quem não gosta de colocar nada adocicado nas comidas salgadas, vai se encantar ao experimentar dar uma discreta pincelada de mel numa peça de costelinha de porco, antes de assá-la. Aproveite também para assar uma cabeça de alho inteira e com casca, até ficar macia. Depois corte uma tampa, tempere com pimenta do reino e uma gotinha de mel em cima de cada dente. Fica sensacional! Do mel ainda se faz uma bebida alcoólica dos tempos medievais, o Hidromel, fermentada a partir da sua simples mistura com água. É muito bacana, dita como afrodisíaca (batizou a “lua-de-mel”) e volta a ser mais difundida atualmente. O manejo humano na produção do mel – e seus irmãos própolis e cera - é uma atividade que vem crescendo, inclusive na nossa região. Além do lado financeiro, ainda se têm vantagens ambientais: diminuição da derrubada de árvores para extração das colméias naturais e estímulo da polinização das plantas da região. Parte do que assuntei nessa nossa prosa aprendi com o Vadinho do Nenêgo dos Pintos, que sabia lidar muito bem com as abelhas e chegou a me fornecer mel de excelente qualidade. Infelizmente veio a falecer recentemente, mais uma vítima do nosso trânsito, que também faz seus estragos nas pacatas estradas de terra. Mas como a vida é igual a uma colméia com seus ciclos, enquanto uns se vão, outros chegam. E no meu caso, um alguém muito especial, desde já muito amada e ora homenageada, minha filha Mel. Nosso doce mel.


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Especial

Seca histórica motiva discussão sobre o uso consciente dos recursos hídricos A seca que assola a região Sudeste do Brasil trouxe sérias consequências também para cidades pequenas. A imprensa vem noticiando o drama da cidade de São Paulo devido ao baixo volume de água no Sistema Cantareira, um dos principais reservatórios responsáveis pelo abastecimento da capital paulistana. Em Minas Gerais, a represa de Furnas, considerada o “o mar de Minas”, está se transformando num grande deserto. Enquanto a quantidade esperada de chuva não vem, campanhas de conscientização são promovidas com o objetivo de economizar o precioso líquido. A falta de chuvas é considerado o fator principal para a seca histórica na região Sudeste. Em Minas Gerais, aos poucos muitas paisagens foram sendo modificadas: cachoeiras e rios secaram e grandes incêndios destruíram importantes parques ecológicos como o Complexo da Cachoeira da Zilda, um dos principais cartões-postais de Carrancas, na região do Campo das Vertentes. Nos últimos meses o abastecimento de água em algumas cidades da região das Vertentes começou a causar preocupação aos moradores. Em Resende Costa o manancial que abastece a cidade está muito abaixo da sua capacidade de fornecimento de água. Portanto, para evitar um possível racionamento a Copasa, empresa responsável pelo tratamento e abastecimento de água na cidade, iniciou em outubro uma campanha de conscientização da população, no intuito de estimular a economia e evitar o desperdício de água. Através de um boletim enviado

Fotos Marcelo

ANDRÉ EUSTÁQUIO/EMANUELLE RIBEIRO

Captação Córrego do Tejuco. A vazão de água baixou consideravelmente no manancial

à imprensa local, a Copasa informou sobre a situação em Resende Costa. “A Copasa informa que o longo período de estiagem e a falta de chuvas vêm reduzindo o nível do Córrego do Tijuco, manancial que abastece a cidade de Resende Costa, e provocando intermitências no abastecimento de água de alguns bairros. Diante disso, a Copasa está executando manobras operacionais com o objetivo de garantir a distribuição em toda a cidade, incluindo as partes altas”. O longo período de estiagem teve como consequência a queda dos níveis dos mananciais, que acabaram provocando intermitências no abastecimento de água em alguns pontos da cidade de Resende

Nos últimos meses a Copasa iniciou a captação de água no Córrego Vassouras

Captação Córrego Tejuco

Costa. A Copasa informou que com a baixa do nível do Córrego do Tijuco, a empresa teve que realizar a captação de água no Córrego Vassouras, onde os níveis de água estão dentro da sua normalidade, pelo menos por enquanto. Apesar de Minas Gerais ser um estado rico em recursos hídricos, os efeitos da seca, que neste ano bateou recordes, estão motivando as pessoas a mudarem sua forma de lidar com a água. A partir de agora é preciso seguir à risca o seguinte mandamento: preservar para garantir que o bem natural não falte no futuro. Efeitos da seca em Resende Costa A seca dos últimos meses repercutiu diretamente no cotidiano dos moradores de Resende Costa. Quem tem o hábito de lavar a calçada com água tratada teve que aposentar a mangueira por tempo indeterminado e passar a usar o velho amigo balde. Nada de lavar carro com mangueiras. A Copasa dá outras dicas que, se seguidas, fazem toda a diferença, ajudando a evitar o desperdício de água: deixar a torneira fechada enquanto escova os dentes, tomar banhos rápidos, suficientes para a higiene corporal e aguar plantas com regador. O secretário de Obras da Prefeitura Municipal de Resende Costa, Adelmar Aarão, destacou a escassez de chuvas como a principal causa dos problemas de abastecimento de água na cidade. O secretário chamou a atenção para o fato de Resende Costa não ter um grande rio que passe perto da cidade, de onde poderia captar água. Diante disso, ele apresenta uma sugestão para minimizar o problema do abastecimento de água, especialmente em situações de emergência: “Uma solução para Resende Costa seria a construção de uma represa para o armazenamento de água. Esta represa poderia ser utilizada nas situações de emergência, como nesta seca atípica”. De acordo com Adelmar, os povoados da zona rural do municí-

pio não sofreram com a escassez de água, pois a grande maioria deles possui poços artesianos. Mas a situação demandou cuidados especiais em alguns lugares: “Em Jacarandira a prefeitura teve que construir uma rede de 1.400 metros para o abastecimento do distrito, que agora possui dois pontos de captação”, informou Adelmar. O povoado do Barracão foi o único no município onde, pela primeira vez, faltou água. “Diferentemente do que muita gente pensa, em Resende Costa, temos pouco volume de água e as nascentes do entorno da cidade estão poluídas. É preciso recuperar essas nascentes, revitalizá-las”, diz Adelmar sobre a situação em que se encontram as nascentes de água localizadas no entorno da cidade. Todas elas, no passado, foram utilizadas como fontes de água potável. Hoje, todas estão poluídas pelo esgoto doméstico e condenadas ao desaparecimento. Outra medida importante, e que não deve ser seguida somente na temporada da seca, é o uso racional da água: “Nos povoados da zona rural, onde a população não paga pela água utilizada, o desperdício chega a ser grande. Muita gente acha que pelo fato de não pagar, pode gastar água à vontade. O pessoal precisa colaborar não somente durante a seca, mas o ano inteiro e passar a usar a água de maneira consciente”, diz Adelmar. O estímulo ao uso consciente da água faz parte das ações estratégicas que a Copasa desenvolve, sobretudo no que se refere à preservação ambiental. Segundo a empresa o objetivo é promover a continuidade da qualidade do serviço de abastecimento nas cidades onde ela opera. A Copasa explica que a economia de água chega ao consumidor através da fatura mensal. “Quanto menor for o consumo, menor também será o valor da conta. Há muitos anos a Copasa adota uma política tarifária que promove o consumo consciente. Isto já é uma realidade”, ressalta, em nota, a empresa. Adelmar destaca a colaboração da população de Resende Costa durante o período mais crítico da seca: “Tivemos poucos problemas, inclusive com queimadas. Aconteceram

alguns incêndios criminosos nos arredores da cidade, mas que não tiveram ligação direta com a seca. Se a população não tivesse colaborado a situação teria sido pior”, conclui o secretário. É preciso rezar As previsões mais pessimistas dizem que as primeiras chuvas não serão suficientes para reverter os efeitos da seca nos mananciais dos principais rios e recompor os reservatórios que abastecem as grandes cidades de Minas Gerais. Segundo Ruibran dos Reis, meteorologista do Instituto Climatempo, o maior volume de chuvas será em dezembro, com previsão de 30% a mais que a média para o período no Noroeste, Zona da Mata e Região Central do estado. Em janeiro, as regiões Oeste, Sul e Triângulo Mineiro terão 15% a mais do que a média de chuva. De acordo com o meteorologista “para recuperar o baixo nível dos rios e represas seriam necessárias três estações chuvosas. No próximo ano, fevereiro e março serão de pouca chuva, a exemplo do que ocorreu este ano.” A Copasa conta com as chuvas constantes para o reabastecimento dos mananciais. “É necessário um período de chuvas constantes. As mesmas são aguardadas para os próximos dias, de acordo com as previsões meteorológicas”. O homem ainda não descobriu um jeito de fazer chover, pelo menos em abundância. De acordo com especialistas, o planeta já começa a sofrer os efeitos do aquecimento global causado sobretudo pela interferência brutal do homem na natureza. A falta de chuvas em algumas regiões é, entre outros fenômenos climáticos, resultado deste aquecimento. Portanto, preservar a natureza e usar conscientemente os recursos hídricos são ações que estão em nossas mãos. Quanto a fazer chover, só nos resta rezar para que São Pedro faça a sua parte.

Fonte: Jornal Estado de Minas.

Comunicação do Lajes Clube O “LAJES CLUBE” voltou. Sua reativação é um fato consumado. Para inteirar-se dessa auspiciosa notícia, para a qual já fica convidado, deverá o sócio procurar o escritório, situado à Rua Assis Resende, nº 51, no centro de Resende Costa, de segunda à sexta-feira, das 09h às 12h. Nesse endereço, obterá o sócio do “LAJES CLUBE” todas as indispensáveis orientações,a respeito de seus direitos e obrigações, atinentes ao futuro da agremiação. Dado e passado na cidade de Resende Costa, MG, no dia 04 de novembro de 2014. a) João Bosco Coelho P/diretoria


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Trilha Sonora

Internacional

Eça de Queirós na família Resende e os Resende na obra de Eça Fotos José Venâncio

JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE, DE LISBOA O filme “Os Maias”, de João Botelho, que entrou em cartaz em Setembro nos cinemas de Lisboa, despertou o interesse pelo clássico de Eça de Queirós. As vendas do romance aumentaram 48% na cadeia de lojas Fnac, apenas entre 1º de setembro e 15 de Outubro, em comparação com o mesmo período de 2013, segundo a imprensa portuguesa. Os heróis do livro são avô e neto (Afonso da Maia e Carlos da Maia) cujas vidas se dividem entre a Casa do Ramalhete, em Lisboa, na rua das Janelas Verdes, e a Quinta de Santa Olávia, no Douro. O que liga este livro a outros romances de Eça de Queirós é a presença da cidade de Resende*, na opinião do padre e escritor Joaquim Correia Duarte. Resende, no norte de Portugal, foi palco de três das mais conhecidas obras de Eça de Queirós: a Casa do Paço (Quinta de Santa Olávia), para “Os Maias”; Feirão, para “ O Crime do Padre Amaro”; e S. Cipriano e a sua Casa da Torre para “A Ilustre Casa de Ramires”. “Caminhavam então junto à ponte da Portela, onde os campos se alargam, e da estrada se avista Vila-Clara, que a lua branqueava toda, desde o Convento de Santa Teresa, rente ao chafariz, até ao muro do novo cemitério, no alto, com os seus finos ciprestes. Para o fundo do vale, clara também no lugar, era a igrejinha de Craquede, Santa Maria de Craquede, resto do antigo mosteiro em que ainda jaziam, nos seus rudes túmulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires afonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava na sombra” (Eça de Queirós, em A Ilustre Casa de Ramires). Vila Clara é a cidade de Resende. Santa Maria de Craquede é Santa Maria de Cárquere, do antigo Mosteiro de mesmo nome. O romance - que se passa na zona de Resende – pode-se dizer que é uma homenagem de Eça de Queiroz à terra natal e à família de sua mulher Emília. De família nobre, Emília de Castro Pamplona era a mulher com quem o escritor Eça de Queirós se casaria em1886, na cidade do Porto. O roteiro que inspirou Eça de Queirós ao escrever A Ilustre Casa de Ramires tem início na estação ferroviária Tormes-Arego, na li-

Antigo Mosteiro de Cárquere

nha do rio Douro, segundo Laura de Castro**. O percurso conduz à margem esquerda do rio através da ponte de Mosteirô, junto à estação, e tem como destino diferentes locais do concelho de Resende, terminando em Lamego. O cenário é a geografia e a paisagem de Resende, na margem oposta a Santa Cruz do Douro. Com base em estudos anteriores, Laura considera possível, ao visitante, “percorrer e, essencialmente, sentir o espaço daquela obra de Eça de Queiroz…”. Apesar do acesso difícil, “é viável percorrer uma zona vasta que vai de Cinfães a Resende, com passagem pela zona de Ramires e de Cárquere, até à cidade de Lamego”. Ficção e história: A aldeia de Ramires, próximo do rio Cabrum (“num cabeço ermo da serra”), a ponte romântica da Lagadiça – “em pedra e de um só arco” onde o personagem central Gonçalo Mendes Ramires identifica o brasão da família – e, perto, a Casa e Torre da Lagadiça são lugares que inspiraram o escritor, de acordo com Laura. De Ramires, a travessia do rio Cabrum leva a Santa Maria de Cárquere, o correspondente ao topônimo literário de Craquede. “É um lugar da maior importância para o romance e pleno de ressonâncias históricas, tendo uma grandiosidade que, de fato, não corresponde ao estado atual do monumento”, resume Laura Os Ramires da ficção coincidem com os Ramires históricos, descendentes de D. Ramires II, rei de Leão. Seu bisneto D. Rausendo fundou, para si e seus descendentes, a grande Quinta do Paço. Se-

Estátua de Eça de Queiroz no Solar Condes de Resende

gundo o padre e escritor Joaquim Correia Duarte, esta Quinta pertenceu a D. Egas Moniz de Ribadouro, cujo bisavô – Egas Moniz, o Gasco - fora casado com Dordia Ermiges, irmã de D. Rausendo. D. Egas Moniz recebeu, entre 1128 e 1146, a grande “Honra de Resende”, instituída pelo rei D. Afonso Henriques, que esteve até há poucos anos na posse dos descendentes do Conde de Resende. Em finais do século XV, a Quinta do Paço passou para os Castros-Condes de Resende. Seis quilômetros acima da Casa do Paço - já na encosta da Serra do Montemuro – está o Mosteiro de Cárquere onde, no romance, está o panteão dos Ramires. Convento e igreja de Santa Maria de Cárquere, com fachada dos séculos XV/XVI, são separados por uma torre dos séculos XII/XIII. A igreja apresenta uma nave de estilo manuelino e capela-mor gótica. Cárquere guarda os túmulos dos descendentes de D. Egas Moniz, na Capela funerária, construção medieval do século XII anexa à igreja. É um pequeno espaço retangular, com quatro túmulos em pedra rudemente talhada. Na parede, numa das lápides, lê-se “Aqui jaz Vasco Martins de Resende, do conselho de El-Rei D. Afonso IV, regedor de sua justiça na comarca dentre Douro e Minho”. Descendência: Emília era filha de D. Antônio Benedicto Castro - 4º Conde de Resende e almirante de Portugal – e de Maria Balbina Pamplona Carneiro Rangel Velloso Barreto de Miranda e Figueiroa. O pai de Emília era bisneto de D. Antônio José de Castro, almirante de Portugal, que em 10 de Junho de 1754 recebeu o primeiro título de Conde de Resende. Por ironia do destino, seu filho D. José Luís de Castro - o 2º Conde de Resende era o vice-rei do Brasil na época em que foram julgados e condenados os inconfidentes mineiros, entre eles os José de Resende Costa (pai e filho) (veja a íntegra em www. jornaldaslajes.com.br). * “Resende na Vida e na Obra de Eça de Queiroz . Conferência na Escola Secundária de Resende, em 1996, publicada pela Câmara Municipal. **Viajar com Eça de Queiroz… Os caminhos da literatura”, Delegacia Regional da Cultura do Norte, Ministério da Cultura, Portugal.

RENATO RUAS PINTO

A Nata No final de outubro último, o grande baixista, cantor e compositor Jack Bruce encantou-se aos 71 anos. Bruce foi um dos baixistas que mais marcou e influenciou o rock e não posso me furtar de prestar uma pequena homenagem a esse músico e ao legendário trio que consagrou não só ele, mas também o guitarrista Eric Clapton e o baterista Ginger Baker: o The Cream. Em meados dos anos 1960, quando Londres fervia de novidades musicais e o rock inglês dominava o mundo, os três músicos já eram reconhecidos no meio artístico, mas ainda não desfrutavam de grande sucesso comercial. Eric Clapton havia passado por um grupo que começava a despontar, os Yardbirds, porém, achava que estavam tomando um caminho excessivamente comercial e saiu do grupo em 1965. Naquele momento Clapton estava totalmente devotado ao blues e foi para uma das bandas que ajudava a difundir o estilo na Inglaterra, a John Mayall & The Bluesbrakers. Eric Clapton começou a ser reconhecido como grande guitarrista e nesse período apareceram nos muros de Londres a famosa inscrição “Clapton is God” (Clapton é Deus). Jack Bruce já havia tocado em diversos grupos de blues e jazz e tocou com Clapton por um breve período nos Bluesbrakers. Antes, Bruce foi companheiro de Ginger Baker em alguns grupos conhecidos na cena inglesa. Curiosamente, já era conhecida a rivalidade entre os dois e havia várias histórias de brigas, inclusive agressões em pleno palco. Apesar desse potencial para problemas – que de fato determinou o fim do grupo – Bruce e Baker convidaram Clapton e o convenceram a formar o The Cream, com uma proposta de ser um grupo de rock e blues, porém, com uma pegada de peso para os padrões da época em termos de distorções e da base rítmica densa. O nome, que significa “A Nata”, é uma alusão nada modesta ao virtuosismo dos três músicos, que sabiam do que eram capazes. O grupo estreou em 1966 com o álbum “Fresh Cream”. Logo chamaram atenção por vários motivos: o já citado virtuosismo dos músicos, que se entregavam a longos improvisos em suas apresentações,

o peso das bases e das distorções em suas composições ou releituras de clássicos do blues e, finalmente, o fato de ser um trio, formação pouco usual no rock naqueles tempos. Com somente três músicos em cena é preciso muita competência e entrosamento para se preencher os espaços, especialmente ao vivo, o que não foi problema para os três. Eric Clapton é até hoje conhecido como um dos maiores guitarristas de rock e blues e teve uma carreira de sucesso. Baker e Bruce não se tornaram tão conhecidos do grande público, mas são constantemente lembrados por músicos e fãs como uns dos maiores instrumentistas do rock. Jack Bruce é, em minha opinião, um dos baixistas mais importantes do estilo, pois, junto com Paul McCartney, ajudou a dar voz própria ao contrabaixo, instrumento até então mais usado para marcar harmonia e ritmo. É impressionante como o baixo de Bruce complementa e dialoga com a guitarra de Clapton. O Cream viria a gravar em estúdio somente mais três álbuns: “Disraeli Gears”, “Wheels of Fire” e “Goodbye”. Recomendo particularmente “Disraeli Gears”, um disco inspirado, e “Wheels of Fire”, que contém algumas faixas ao vivo onde se tem a noção da força do grupo. Apenas quatro anos após a formação, o grupo sucumbiu aos problemas internos e brigas entre Bruce e Baker. Tiveram um breve retorno para alguns shows em Nova Iorque e Londres em 2005, que resultaram na gravação de um ótimo CD e DVD. O tempo e problemas de saúde não foram suficientes para superar a grandeza desses artistas. Foi uma curta duração, mas o suficiente para marcar o rock. O peso das suas músicas com certeza abriu o caminho para o Hard Rock e Heavy Metal. Além disso, o formato em trio inspirou até o mesmo Jimi Hendrix, que logo depois fundou o seu, o Experience. E essa é uma das belezas da música: tempo e longevidade não são necessariamente documento. Competência e originalidade são o que fazem uma banda entrar para a história. (Não deixem de curtir dicas na página do Trilha Sonora: https://www.facebook.com/ TrilhaSonoraBR)


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Amirco

Historiador da UFSJ lança livro sobre músicos negros no século XIX e sobre a tradição musical de São João del-Rei

ELAINE MARTINS

Coalhadas e Rapaduras eram os apelidos que os membros das orquestras são-joanenses se atribuíam de maneira jocosa: Os “Coalhadas” seriam os da Orquestra Ribeiro Bastos e os “Rapaduras”, os da Lyra Sanjoanense. Esse foi o mote para o título do livro do historiador da UFSJ, Eduardo Lara Coelho: Coalhadas e Rapaduras: estratégias de inserção social de músicos negros em São João del-Rei (amiRCo, 2014, 274 p.), publicado pela Coleção Lageana

O Livro Fruto da pesquisa de mestrado desenvolvida pelo historiador no Programa de Pós-Graduação em História da UFSJ, o livro divide-se em quatro capítulos – “Mobilidade social e música”, “A importância da música na sociedade são-joanense do XIX”, “As escolas Coalhada e Rapadura” e “Compositores e prestígio” – fundamentados por um rico repertório de fontes: registros de memorialistas locais, acervos das orquestras, dos arquivos cartoriais da Comarca do Rio das Mortes e dos arquivos das irmandades e de jornais da cidade, por exemplo. De acordo com o autor, o livro poderá despertar o interesse do historiador ao musicólogo, passando por músicos profissionais e amadores e pelo público de maneira mais geral, pois ele procura desvendar questões da sociedade são-joanense, mas de forma a espelhar a realidade mineira e brasileira do século XIX e

Evaldo Balbino vence prêmios literários e terá romance publicado pela Editora Saraiva Com o romance inédito Os fios de Ícaro, o poeta e escritor mineiro Evaldo Balbino fará a sua estreia nesse gênero literário. Isso porque ele foi um dos vencedores do Prêmio Saraiva de Literatura. O anúncio aconteceu em cerimônia na noite de 4 de novembro, no Teatro do Instituto Tomie Ohttake, em São Paulo. Os Fios de Ícaro conquistou o terceiro lugar da categoria romance do certame literário, que teve mais de 3.500 inscritos. O primeiro lugar ficou com Olhos de cobra, de Andreia Leite e o segundo com A travessia do Rio Japeju, de Mauro Maciel. As obras finalistas, divulgadas previamente em 15 de outubro, foram avaliadas por nomes referências no universo dos livros, considerando-se critérios de originalidade, criatividade e características técnicas do gênero. O Romance De acordo com Evaldo Balbino, o seu primeiro romance tem muita poesia, muita linguagem carregada de imagens poéticas e

de significados, cruzando fatos históricos do Brasil e do mundo ocidental. “A obra coloca em cena um narrador na terceira idade que, rememorando seu passado, centra-se no ano de 1978, às vésperas do processo de abertura política da ditadura brasileira”, diz. A conquista significa mais projeção ao trabalho do escritor, com uma repercussão em nível nacional através da Saraiva. “A luta do escritor não é só com palavras, como diria Drummond, mas também com todo o mundo da não visibilidade que rodeia o seu trabalho. Conseguir um lugar no mercado editorial não é fácil”, declara. Os Fios de Ícaro será publicado nos formatos de livro impresso e digital pela centenária Editora Saraiva, que também fará a comercialização da obra em sua rede de lojas. O lançamento está previsto para o início de 2015. Dobradinha Além da indicação para o Prêmio Saraiva de Literatura, Evaldo

a maneira como essa sociedade, escravista por excelência, tratava a música como uma atividade distintiva. “Os músicos da Ribeiro Bastos e da Lyra Sanjoanense, em sua maioria negros, e, portanto, egressos de alguma forma do cativeiro, tentavam uma maneira de se inserir e, por que não dizer, ascender socialmente nesta sociedade hierarquizada, fazendo do domínio das técnicas musicais um capital simbólico diferencial”, explica.

negras se especializavam em formar músicos para determinadas corporações, fazendo do ofício uma distinção social”, revela o historiador.

Balbino conquistou em outubro o primeiro lugar do Prêmio Humberto de Campos, do Concurso Internacional 2014 da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), com o já publicado livro de contos Amores Oblíquos (7Letras, 2013), também vencedor do Prêmio Nacional Braskem de Literatura da Academia de Letras da Bahia em 2013. A premiação ocorreu dia 24, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Além da Medalha Harry Laus (concedida ao grande vencedor da categoria conto), o escritor foi condecorado com diploma e medalha de ouro. Ao currículo literário do Evaldo Balbino, que também é colunista do JL, se soma o livro de contos de poesias Moinho (Scriptum, 2006), 3º lugar no Prêmio Edital Estímulo às Artes, da Fundação Clóvis Salgado; o livro de poesias Filhos da Pedra (Nelpa, 2012), Menção Honrosa no Prêmio Cidade do Recife, e o livro de crônicas Móbiles de Areia (amiRCo, 2012). E.M.

Recomendação Afonso Alencastro Graça Filho, professor e pró-reitor da UFSJ, recomenda a publicação e considera a obra fundamental sobre a história da música em São João del-Rei e região das Vertentes, “trazendo informações inéditas e preciosas de como se instituiu e se perpetuou uma das mais importantes tradições culturais da região, mantendo-se uma longa linhagem musical até nossos dias”. Segundo Afonso Alencastro, que também assina o prefácio da edição, o tema do músico negro nas Minas Gerais, caro ao pioneirismo do pesquisador alemão

e naturalizado uruguaio, Francisco Curt Lange, nunca foi sistematizado com o fornecimento das trajetórias profissionais e dos laços familiares que agregaram muitos desses fabulosos músicos, tampouco problematizado como estratégia de ascensão e distinção para negros e mulatos naquela sociedade escravocrata. “O livro resgata ainda nomes como a família Brasiel, a família Miranda, o maestro mulato José Marcos Castilho, o renomado compositor e padre José Maria Xavier, o maestro Martiniano Ribeiro Bastos, o genial Presciliano Silva e o curioso tropeiro que também era um talentoso maestro negro, João Francisco da Matta, que tangia sua arte pelas estradas até ser conhecido na Corte,” afirma.

Lançamento O livro Coalhadas e Rapaduras: estratégias de inserção social de músicos negros em São João del-Rei, de Eduardo Lara Coelho, é o sexto volume da Coleção Lageana e será lançado na noite de 7 de dezembro, domingo, em Resende Costa, cidade do autor. Em breve, um segundo lançamento deverá acontecer em São João del-Rei.

Fotos Editora Saraiva

Foto Arquivo Pessoal O historiador Eduardo Lara Coelho, que terá seu livro lançado em Resende Costa no dia 7 de dezembro próximo

com a chancela da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais através do Fundo Estadual de Cultura. Uma das duas explicações para os apelidos seria a cor da pele dos músicos das orquestras. “Essa versão é pouco confiável, visto que os dois grupos eram majoritariamente compostos por negros e que eles tocavam para instituições de brancos, pardos e negros. A outra versão se relaciona ao fato de que a sede da Ribeiro Bastos seria próxima de uma fábrica de queijos. Daí os integrantes da Lyra chamarem os da Ribeiro de Coalhadas, e esses, para não ficarem por baixo, chamaram os da Lyra de Rapaduras”, explica o historiador. O interesse de Eduardo Lara Coelho, porém, não se limita à mera fundamentação das alcunhas. Ele sustenta que a relação dos Coalhadas e dos Rapaduras com a música praticada em São João del-Rei é total no passado e no presente. “Desde o século XVIII, há uma demanda por música orquestrada na cidade e a constituição dos grupos musicais se dá por negros, em grande maioria forros. O interessante foi perceber que algumas famílias

Evaldo Balbino, autor de Os Fios de Ícaro, Andreia Leite, autora de Olhos de cobra, e Mauro Maciel, autor de A travessia do Rio Japeju

Evaldo Balbino pousa para foto com o troféu do Prêmio Saraiva de Literatura ao lado a irmã Aline Tamires


Jornal das Lajes 15

ANO XI Nº 139 - NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Religião

O Verso e o Controverso

Fé e cultura popular se entrelaçam

Um grande humanista dos anos de chumbo: Sobral Pinto, o advogado do Brasil

A tradicional Festa do Rosário em Resende Costa contou neste ano com a participação de bandas de congado de diversas cidades da região ANDRÉ EUSTÁQUIO ao interior da igreja entoando cantos típicos de devoção. Às 13 horas aconteceu a apresentação das bandas e às 15 horas, missa campal com a participação dos congados.

Foto Divulgação

Quando a fé e a cultura popular se entrelaçam surge uma das mais belas manifestações do espírito humano: a religiosidade. A festa de Nossa Senhora do Rosário, que aconteceu em Resende Costa entre os dias 6 a 9 de novembro, é uma das maiores representações da religiosidade popular do Brasil. Os devotos de Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa começaram a se preparar para a celebração da festa no dia 6 de novembro, quando deu-se início o tríduo preparatório, com a celebração da santa missa na igreja do Rosário. Mantendo-se uma tradição popular, a rua do Rosário ficou repleta de barraquinhas durante toda a semana que antecedeu a festa. Centenas de pessoas transitaram no estreito corredor formado entre as fileiras de barracas de roupas, objetos eletrônicos, brinquedos etc. Quem, portanto, aproveitou a festa para ir às compras, voltou para a casa com a sacola cheia. No sábado, 8, à noite, uma banda de congado de Resende Costa realizou no adro da igreja o tradicional levantamento dos mastros que representam a Virgem do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito. No domingo, 9, dia maior da festa, chegaram cedo a Resende Costa bandas de congado dos povoados do Cajuru, Restinga, Ribeirão e de cidades da região, como Dores de Campos, Passa Tempo, Coronel Xavier Chaves, Conselheiro Lafaiete, Congonhas, entre outras. Os congados iniciaram suas homenagens a Nossa Senhora logo após a missa das 10 horas. Conforme iam chegando à Praça Coronel Souza Maia, se dirigiam

Devoção A festa de Nossa Senhora do Rosário foi instituída pelo Papa Pio V em 1571, quando celebrou-se a vitória dos cristãos na batalha naval de Lepanto. De acordo com a tradição católica, nesta batalha os cristãos católicos, em meio à recitação do Rosário, resistiram aos ataques dos turcos otomanos vencendo-os em combate. Atualmente, a celebração convida os católicos a meditarem os Mistérios de Cristo através da recitação do Rosário. Desde os séculos 15 e 16, os negros já se congregavam nas irmandades de Nossa Senhora do Rosário em Portugal. No Brasil a devoção foi trazida pelos primeiros escravos e, ao longo do tempo, a festa foi adquirindo características próprias, absorvendo tradições e costumes típicos de cada região. A Festa de Nossa Senhora do Rosário é considerada um importante elemento na integração do negro junto à sociedade brasileira e constitui uma das mais belas expressões da cultura religiosa e popular de nosso país, especialmente de Minas Gerais.

Ausência A Festa do Rosário de 2014 não teve o mesmo brilho dos ou-

A ausência do Padre Raimundo Inácio, falecido em julho último, foi sentida pelos congadeiros e devotos de Nossa Senhora

tros anos devido à ausência do padre Raimundo Inácio da Silva, que faleceu no dia 23 de julho último. Padre Raimundo foi o grande entusiasta, organizador e líder dos congadeiros. Ele se tornou durante longos anos o cerimonialista da festa do Rosário de Resende Costa e também de outras cidades da região que mantêm esta tradição. Padre Raimundo foi um ardoroso missionário defensor e propagador da cultura afro. Durante as celebrações da Festa do Rosário ele realizava uma verdadeira catequese cultural, ensinando aos fiéis a devoção a Nossa Senhora do Rosário. A sua ausência foi sentida por todos os congadeiros e devotos da Virgem do Rosário. Fontes: Canção Nova e Irmandade dos Homens Pretos. Foto André Eustáquio

Participaram da festa Bandas de Congado de Resende Costa e de diversas cidades da região

Neste ano de cinquentenário – bodas de chumbo! – do golpe militar de 1964, a homenagem vai para os humanistas. Como já escrevi ao abordar o grande humanista Dom Paulo Evaristo Arns, minha admiração sempre foi e será para quem subordina todos seus valores ao valor supremo: o ser humano. O destaque deste mês é o grande Heráclito Fontoura Sobral Pinto, (Barbacena,1893 –Rio de Janeiro,1991). Para alegria dos perseguidos e desamparados, advogou até os 96 anos! Em minha avaliação, o maior advogado que o país já teve, até hoje. Sempre viu na advocacia uma missão, um sentido para sua vida, muito mais que uma profissão. “Sou advogado, vou morrer advogado porque minhas ideias não morrem”. Como escreveu o jornalista Nicolau da Rocha Cavalcanti: “como católico praticante (ia à missa e comungava todos os dias) não abria mão da ortodoxia, mas não fez de sua fé uma viseira nem a transformou numa ideologia que estreitasse sua visão de mundo”. A prova disso é a defesa que fez dos líderes comunistas, Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, na ditadura Vargas. Ficou famoso nos tribunais quando invocou o decreto de proteção aos animais na defesa de Harry Berger, um ser humano de quase dois metros, apodrecendo num vão de escada de 60 centímetros e um ano sem tomar banho! Exigiu a aplicação aos prisioneiros dos artigos 1º e 3º do decreto-lei 2.4645 de proteção aos animais, fato inusitado nos tribunais: “Todos os animais existentes no país são tutelados do Estado”... “Manter animais em lugares anti-higiênicos ou que lhes impeçam a respiração, o movimento e o descanso, ou os privem de ar e luz...”: multa e prisão. E daí para diante, o que vale é a pessoa. É o ser humano com seus direitos essenciais. É a liberdade, a democracia, a justiça que o movem à defesa desde ilustres como Kubitschek, Arraes, Carlos Lacerda (que o chamava “um homem de absolutos”) até o mais ignoto injustiçado. Seu escritório no Rio de Janeiro “seria aquele onde qualquer pessoa, independentemente de seu viés ideológico, poderia obter auxílio na luta pelo respeito aos direitos humanos” (N. R. Cavalcanti). Sua pessoa e seus interesses materiais sempre vieram em segundo lugar. Recusou o cargo mais cobiçado da Magistratura, ministro do Supremo Tribunal Federal, oferecido por Juscelino em reconhecimento a sua luta pela legalidade de sua posse, alegando que fez isso por princípios e não por interesses pessoais. O documentário, feito pela neta, Paula Fiuza: “Sobral, o homem que não tinha preço” confirma o que seu biógrafo escreve:

JOÃO MAGALHÃES

“Sobral não ligava para o dinheiro e, segundo depoimento unânime dos que o conheceram, na verdade ligava menos do que devia” (Márcio Scalercio: Heráclito Fontoura Sobral Pinto: Toda liberdade é Íngreme). “Nunca foi condição para ser cliente dele, ter meios econômicos para pagar os seus serviços” (N. R. Cavalcanti). Não consigo omitir a surpresa e emoção que tive ao ler os capítulos finais de Memórias do Cárcere, obra póstuma de Graciliano Ramos, outra grande admiração minha, pela literatura, caráter, teor humano e coerência. Após descrever a surpresa e a desconfiança que teve quando sua mulher impôs-lhe assinar uma procuração para Sobral defendê-lo, o velho “Graça” escreve: “Dias depois, chamaram-me à secretaria. Aí se apresentou um cidadão magro, de meia altura, rosto enérgico, boca forte, olhos terrivelmente agudos. Sobral Pinto. Inquietou-me vê-lo perder tempo em visita a um preso vagabundo, refugo da colônia correcional: imaginara que apenas redigisse ou mandasse redigir uma petição de habeas corpus... Começou interrogar-me. Era o primeiro interrogatório a que me submetiam... - Ora, doutor, para que tantas minúcias? Como é que o senhor vai preparar a defesa se não existe acusação?...Não há processo. - Dê graças a Deus, replicou o homem sagaz, espetando-me com olhar duro de gavião. Por que é que o senhor está preso? - Nunca me disseram nada. - São uns idiotas. Dê graças a Deus. Se eu fosse chefe de polícia, o senhor estaria aqui regularmente, com processo. - Muito bem. Onde é que o senhor ia achar matéria para isso, doutor? - Nos seus romances, homem. Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo... - Que diabo! O estudo razoável dos meus sertanejos mudava-se em dinamite. O duro juízo do legista esfriou-me. - Está bem. Não tinha pensado nisso. Realmente pensava no prejuízo que me forçavam a causar ao paradoxo vivo ali sentando em frente de mim. Não havia dinheiro nem para os selos. Por que tirar da cadeia um pobre como eu? Sobral Pinto me fez outras visitas. Palavra aqui, palavra ali notei que ele era pobre também. E por isso queria libertar-me. As nossas ideias discrepavam. Coisas sem importância. Sobral Pinto, homem de caridade perfeita, queria tirar da cadeia um bicho inútil, na minha opinião, um filho de Deus, na opinião dele”. Este foi Sobral Pinto. Não pode ser esquecido!


16 Jornal das Lajes

ANO XI Nº 139 - NOVEMBRO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG

Giro Esportivo

EMANUELLE RIBEIRO

Foi realizada no dia 12 de outubro último em Resende Costa a 6ª. Corrida das Lajes. Este ano o evento bateu o recorde de atletas participantes, com 150 inscritos. 125 maratonistas percorreram os oito quilômetros da categoria Adulto, enquanto 25 crianças participaram da categoria Infantil, percurso de um quilômetro. O percurso foi feito todo no asfalto, com grande participação do público acompanhando os corredores. Os vencedores na categoria Masculino foram Reinaldo Daniel (Tiradentes), Valdir Marcos (Barbacena), Jaksom Domingos (Tiradentes), Luciano da Silva (Barbacena) e Edimar Faria (São Gonçalo do Pará). Já na categoria Feminino as primeiras colocadas foram Joelma Santos (Conselheiro Lafaiete), Magda Aparecida (São João del-Rei), Patrícia Bessa (São João del-Rei), Rafaela Silveira (São João del-Rei) e Marlene Aparecida (Conselheiro Lafaiete). Na classificação dos maratonistas resende-costenses os melhores colocados foram Reginaldo Resende, Mauro Fernando e Agnaldo Rodrigues. No modo Infantil Masculino, Leonardo Emanuel, Robert Maurício e Kelvyn Cristian formaram o pódio, enquanto no Infantil Feminino as primeiras foram Emili Soares, Paula Caroline e Lilian Monik. Todos os par-

ticipantes receberam medalhas e houve ainda premiação por faixa etária. Luiz Nei Resende, um dos organizadores, ficou satisfeito com o resultado: “Os corredores elogiaram muito as corridas que realizamos aqui em Resende Costa, disseram que estão entre as melhores da região das Vertentes. Agradecemos a todos os 150 atletas presentes neste evento e também aos nossos patrocinadores”. A maratona em Resende Costa Acompanhando o esporte em Resende Costa, posso afirmar que o principal representante da maratona hoje na cidade é Luiz Nei Resende. Além de treinar duro e participar de diversas corridas, o atleta está à frente da organização dos eventos que ocorrem aqui. O resende-costense iniciou no esporte há cinco anos e não conseguiu mais parar de correr: “Comecei a correr porque sempre gostei de esporte. No começo foi por causa do convite de um amigo, mas depois me apaixonei pela corrida”, disse. Luiz Nei levou o esporte a sério e começou a correr em competições, já tendo participado de inúmeras maratonas: “É provável que já tenha corrido mais de 160 provas. No começo não conseguia correr lá na frente, mas com os treinamentos já venci nove corridas no geral, além de ter conseguido vários pódios entre os Foto Divulgação

A equipe Novo Amanhacer incentiva crianças na prática de esportes

cinco primeiros colocados”. Para alcançar os resultados positivos, Luiz Nei tem que treinar muito: “Meu treinamento hoje é forte, corro quase todos os dias. Cada dia um treino diferente: duas vezes por semana faço treino de velocidade com tiros com intervalo de descanso e duas vezes por semana faço treino de resistência. São treinos longos entre 15 e 25 quilômetros. No domingo sempre estou em alguma competição. Calculo que corro em média de 50 a 60 quilômetros por semana”, declarou o esportista. Luiz Nei destacou que conseguiu muitos benefícios através da maratona, como melhor saúde e disposição, além de amizades: “Fiz muitos amigos ao longo desses anos. Já corri em muitas cidades: São João del-Rei, Barbacena, Dores de Campos, Barroso, Conselheiro Lafaiete, Mariana, Divinópolis, Juiz de Fora, Teresópolis, Itatiaia, Extrema, São Bento do Sapucaí, Belo Horizonte, Lavras, dentre outras muitas cidades. Tenho corrido muito em montanhas, como no Campeonato Carioca de Montanha e na Copa Paulista”. A agenda de corridas de Luiz Nei está sempre repleta de compromissos. O próximo será em 15 de novembro na Corrida Noturna de Ouro Preto, percurso de 13 quilômetros. Já no dia 23 de novembro, o resende-costense percorrerá 17 quilômetros na maratona de São Thomé das Letras. Atualmente, existe em Resende Costa uma equipe para os corredores locais, denominada ‘Equipe Novo Amanhecer’, que tem recebido novos atletas, conforme explicou Luiz Nei: “Temos hoje uma equipe grande com nomes como Carlos Eduardo, Luiz Miguel, Agnaldo, Edvaldo, Jader, Reginaldo, Mauro, Luiz Eduardo, Luís Carlos, João, Gilson, dentre vários outros que estão começando, como os meninos Leonardo e Kelvyn. A corrida em Resende Costa está crescendo muito”. O maratonista Luiz Nei re-

Foto e situação do mês

No último dia 9 de novembro uma forte chuva caiu sobre Resende Costa, causando transtornos à população. Árvores, telhados e carros foram atingidos. As imagens registradas por moradores traduzem os acontecimentos do domingo chuvoso.

velou ainda que está planejando cerca de quatro corridas para Resende Costa no ano de 2015. “Vamos tentar melhorar ainda mais no próximo ano, colocando a cronometragem de chip, camisetas e premiação melhor. Nosso agradecimento a todos que ajudam na organização das corridas aqui, porque não é fácil sem a colaboração dessas pessoas e também, novamente, a todos que patrocinam”, concluiu. Em nome do JL, parabenizo Luiz Nei pelo esforço e por representar-nos tão bem através do esporte. Também demonstramos nosso apoio a todos os demais atletas, empenhados em crescer no esporte.

Foto Arquivo Pessoal

6ª. Corrida das Lajes bate recorde de atletas participantes

O atleta resende-costense Luiz Nei já participou de mais de 160 corridas

Série “Campeões brasileiros” O São Paulo é campeão novamente em 1991! Mais uma vez, a final foi disputada entre dois clubes de São Paulo. O Bragantino foi o adversário do São Paulo, que venceu o jogo de dia por 1x0 e empatou na volta em 0x0. Uma curiosidade sobre essa final: o jogo em Bragança Paulista teve o menor público entre as decisões de campeonatos brasileiros até hoje, recebendo pouco mais de 12 mil espectadores. O São Paulo conquistou o tricampeonato vencendo 12 dos 23 jogos disputados, perdendo quatro e empatando sete. Marcou 28 gols e sofreu 15. O artilheiro do campeonato foi Paulinho Mclaren, do Santos, com 15 gols. O são-paulino Raí, irmão caçula de Sócrates, foi o craque de 91, enquanto a revelação foi o atacante Dener, da Portuguesa. O São Paulo de Telê Santana levantou a taça com Zetti, Cafu, Antônio Carlos, Ricardo Rocha, Leonardo, Flávio (Ronaldão), Bernardo, Raí, Müller, Macedo e Elivélton. Pela quarta vez consecutiva, foi mantido o sistema de acesso e descenso recomendado pela Fifa. Pela primeira vez desde a criação do campeonato, dois certames seguidos tiveram

o número considerado ideal de clubes participantes: 20. Foi também a fórmula mais simples da história do campeonato até então. Tudo indicava que, finalmente, o Campeonato Brasileiro de Futebol havia chegado à sua maturidade institucional. Mas a queda do Grêmio para a Série B acabou provocando uma “virada de mesa” entre 1992 e 1993. O Galo terminou a competição bem na fita, em 4º lugar. Já o cruzeiro amargou a 16ª colocação. O mico ficou no Rio Grande do Sul: o Grêmio manteve a base do ano anterior, que chegou às semifinais. Porém, nada deu certo. Nas nove partidas que disputou fora de casa, perdeu todas. A campanha ainda teve uma derrota, seis empates e três vitórias em Porto Alegre, que levaram o Tricolor Gaúcho ao rebaixamento. 1991 foi ainda ano de visitas ao Brasil: em abril, o príncipe Charles e a princesa Diana chegaram ao país. Já em agosto, foi a vez do líder sul-africano Nelson Mandela. E, em outubro, o papa João Paulo II passou 11 dias em solo nacional, ajudando instituições carentes.


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