AGOSTO 2014
ANO XI - Nº 136 Resende Costa - MG
www.jornaldaslajes.com.br contato@jornaldaslajes.com.br
Distribuição Gratuita
35ª Exposição Agropecuária agita a programação de julho em Resende Costa
Foto Emanuelle Ribeiro
Prefeitura exigirá cumprimento de lei que determina regras para loteamentos em Resende Costa Grandes nomes da MPB marcaram a programação do Inverno Cultural da UFSJ
Realizada entre os dias 16 e 20 de julho, a 35ª Exposição foi marcada por shows e também por mudanças estruturais no Parque do Campo. A festa atraiu, além do público resende-costense, pessoas de diversas cidades da região. PÁGINAS 07 e 14
O 27° Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) levou ao público artistas renomados da música popular brasileira, como Gilberto Gil, 14 Bis e João Bosco. O evento contou ainda com a realização de oficinas, exposições e palestras. PÁGINA 15
Falta de infraestrutura impede inauguração de rodoviária em Lagoa Dourada Concluído em agosto de 2010, o terminal rodoviário de Lagoa Dourada ainda permanece inutilizado. A Prefeitura Municipal informa que o embargo da obra pelo DETRAN ocorreu devido à falta de estrutura, como calçamento das rodovias, entrada e saída para os veículos. PÁGINA 08
Jogo aberto Construção de um novo loteamento na entrada da cidade
Resende Costa ainda não possui um Plano Diretor que oriente a atuação do poder público na construção em espaços urbano e rural.
Porém, desde 1993 está em vigor a Lei Municipal 2.080/93, que estabelece as exigências para a aprovação de projetos de loteamento. O
prefeito municipal Aurélio Suenes pretende “fazer cumprir esta lei”, a partir de agora. PÁGINA 12
Brasil perdeu a oportunidade de sediar evento que celebrou os 800 anos da língua portuguesa. É o que revela o pesquisador ítalo-hispano-luso-brasileiro Roberto Moreno, em entrevista concedida ao JL, em Lisboa. PÁGINA 05
2
Jornal das Lajes
E D I T O R I A L
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Meio Ambiente
ADRIANO VALÉRIO RESENDE
A falta de chuva na região Por uma cidade Sudeste
organizada
Crescimento desordenado, organização e infraestrutura de loteamentos são temas da reportagem especial desta edição do Jornal das Lajes. Um problema que antes era causa de preocupação somente nos grandes centros urbanos, o crescimento desordenado já começa a preocupar os gestores públicos de cidades de médio e pequeno porte. O que fazer para reorganizar uma cidade que ao longo de décadas vem crescendo sem nenhum planejamento? Basta andar pelas grandes cidades do Brasil para ver áreas que jamais poderiam ser ocupadas, e que hoje estão repletas de moradias sem qualquer infraestrutura, como pavimentação, esgoto, iluminação e água tratada. Num passado não tão distante, o fenômeno do êxodo rural e as migrações incharam as grandes cidades do país, que não estavam preparadas para receber tanta gente, em curto espaço de tempo. O resultado disso foi o surgimento de grandes favelas, além de ocupações de áreas públicas que deveriam ser destinadas para outros fins. Nessas áreas, hoje, dificilmente o estado se faz presente para cumprir sua obrigação de proporcionar aos cidadãos saúde, educação e segurança. Ao mesmo tempo em que as cidades foram se desenvolvendo, guetos de pobreza surgiram, excluindo milhares de pessoas das benesses da vida urbana. O crescimento desordenado das cidades é um problema crônico, difícil de ser resolvido, pelo menos em curto prazo. A falta de preparo e a negligência do poder público no passado tornaram o problema ainda mais grave. Se observarmos bem, veremos que são poucas as cidades, sobretudo as de pequeno porte, que contam com um Plano Diretor e, mesmo quando o têm, não fazem cumprir suas determinações. Afinal, contrariar interesses de empresários (loteadores e empreiteiros, por exemplo) que desejam explorar cada naco do já exaurido espaço urbano, muitas vezes não é um bom negócio para alguns administradores públicos, quase sempre de olhos na próxima eleição. O Plano Diretor é, por definição, um instrumento básico da política de desenvolvimento de um município. Sua principal finalidade é orientar a atuação do poder público e também da iniciativa privada na construção dos espaços urbano e rural, visando a assegurar melhores condições de vida para a população. A sua inexistência contribui também para que as cidades percam sua identidade. Vemos na região do Campo das Vertentes cidades históricas que perderam grande parte do seu patrimônio arquitetônico. Construções modernas em meio aos antigos casarios, torres de celulares e antenas de TV erguidas em locais que deveriam ser preservados são apenas alguns exemplos que vemos na maioria de nossas cidades. Em Resende Costa o pouco que sobrou do patrimônio arquitetônico do antigo Arraial da Lage se encontra no largo da Matriz, que será em breve Tombado pelo Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura. Apesar de o tombamento garantir a preservação do local, certamente as torres e antenas de comunicação que poluem visualmente o alto das lajes continuarão lá, assim como a famigerada caixa d’ água da Copasa no principal cartão-postal da cidade. Sem falar do Passinho do século 19, com sua fachada original escondida por um poste da Cemig e sufocado por imóveis construídos ao seu redor, sem qualquer critério. E ainda pior, no passado não muito remoto, o próprio poder público vendeu para particulares (não resende-costenses...), na calada da noite, metade de uma das principais praças da cidade... Não basta, porém, ter um Plano Diretor, é preciso coragem para executá-lo. Para se começar a pensar na organização de uma cidade, antes de tudo é necessária uma mudança de postura e de mentalidade. O cidadão precisa entender que o interesse coletivo deve prevalecer. E o poder público, por sua vez, dever ter coragem para contrariar os interesses individuais, a fim de atender ao interesse coletivo.
Jornal das Lajes Ltda
Editora-assistente: Emanuelle Ribeiro Diretor de redação: Rosalvo Pinto
E
X
P
E
D
I
N
Editor-chefe: André Eustáquio
E
T
E
Fundado em 22 de janeiro de 2008 Redação Rua Assis Resende, 95 - Centro (32) 3354-1323 - Resende Costa MG - CEP: 36.340-000
Editoração e Site: Atus Tecnologia e Comunicação Editora de Esporte: Emanuelle Ribeiro www.attcom.com.br Jornalista responsável: José Venâncio de Resende Registro Profissional: 10.894-SP
Impressão: FUMARC - Av. Francisco Sales, 540 Floresta - Belo Horizonte
Diretor Administrativo: Eustáquio Peluzi Chaves
Tiragem: 4000 exemplares
Diretor de Contabilidade: Antônio da Silva Ribeiro Neto
Circulação: Resende Costa, São João del-Rei e Lagoa Dourada
Os artigos assinados não refletem obrigatoriamente a opinião do jornal.
Nos últimos meses temos acompanhado na mídia algumas notícias envolvendo água, seja pela sua falta ou pelo excesso de chuva. Daí nos perguntamos: as interferências humanas no planeta têm realmente o poder de modificar intensamente os sistemas naturais? Como essas modificações afetam o nosso dia a dia? Vejamos a questão da água. Em partes da Amazônia e do Sul do país as chuvas intensas têm afetado a população das cidades e a agropecuária. Manaus está sofrendo esse ano com uma cheia no rio Negro. Em anos anteriores aconteceram outras cheias, ultrapassando inclusive o nível histórico das enchentes, o que causou sérios transtornos à população. No Sul do país as chuvas torrenciais desse ano têm prejudicado tanto as populações urbanas quanto as da zona rural. Na área urbana, a invasão das casas que estão próximas aos rios provoca perdas materiais (como móveis e utensílios domésticos) significativas. Nas áreas rurais ocorreram significativas perdas em algumas culturas, como milho, soja, cebola, tomate, fumo e até mesmo nas pastagens. A falta de água para abastecimento público em algumas cidades da região Sudeste já é uma realidade. O racionamento já está fazendo parte do dia a dia das pessoas. Talvez o sistema mais crítico seja o da região metropolitana de São Paulo (a Grande São Paulo). As barragens do chamado sistema Cantareira, formado por cinco reservatórios, é responsável pelo abastecimento de mais de nove milhões de pessoas. A
situação é tão grave que a Sabesp, a empresa de saneamento básico de São Paulo, já está utilizando a água do chamado volume morto, que está retida no fundo das barragens. A qualidade dessa água é questionável. O que resta é pedir a São Pedro por chuva. Além de São Paulo, a falta de água para abastecimento assombra as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Distrito Federal e Porto Alegre. O abastecimento do Rio de Janeiro depende diretamente das águas do rio Paraíba do Sul, cuja vazão vem diminuindo ao longo dos meses. Aliado a isso, como o rio tem várias nascentes no estado de São Paulo, há pretensões do governo paulista em bombear a água para ser utilizada no abastecimento da cidade de São Paulo. Na Grande Belo Horizonte o abastecimento público é realizado com captações em nascentes e em uma represa. Ainda não há propriamente a falta do precioso líquido, mas o sinal de alerta já está ligado. Outra questão séria é a falta de água para geração de energia hidrelétrica. Todos os reservatórios do centro-sul do Brasil estão com os níveis de água muito abaixo do esperado. Consequentemente, várias termoelétricas foram ligadas, o que é mais caro e poluente, provocando aumento no preço da energia elétrica. Felizmente em nossa Resende Costa a situação do abastecimento público não está caótica. A falta de água já foi um problema recorrente, ou seja, quando chegava o período
da seca a água que provém do córrego do Tijuco não era (e só ele ainda não é) suficiente para atender toda a população. A qualidade da água era outro problema que chegava junto com a estiagem e que preocupava (e ainda preocupa) os técnicos da COPASA. Atualmente, temos dois locais de captação de água para o sistema de abastecimento de Resende Costa: no córrego do Tijuco e no ribeirão Pinhão. Esse último localizado nas terras da antiga Fazenda da Lage. A montagem da captação no ribeirão Pinhão, realizada nos últimos anos, aumentou a oferta de água para a cidade. No entanto, não podemos pensar que em Resende Costa temos água à vontade, que podemos desperdiçar água. O uso racional dos recursos ambientais, e em especial da água, é um dos desafios do século XXI. Temos que pensar também na questão da degradação ambiental: desmatamento de beiras de cursos d’água e de nascentes, lançamento de esgoto sem tratamento e de lixo nos leitos dos rios, ocupação urbana em áreas de nascentes ou em mananciais. Isso parece distante de nossa realidade, mas basta pensar nas nossas antigas “fontes”, cujas águas eram utilizadas pela população há algumas décadas atrás. Pergunte a seus pais ou avós sobre isso, eles vão te contar. Você conhece algumas dessas “fontes”? A reabilitação ambiental dessas áreas é um dos desafios para os administradores, para a população de Resende Costa e especialmente para o IRIS.
Informe
Resende Costa celebrará a sua padroeira ANDRÉ EUSTÁQUIO
Com o tema “Senhora da Penha, feliz porque acreditou na Palavra do Senhor”, terá início no dia 23 de agosto a novena preparatória para a festa de Nossa Senhora da Penha, padroeira de Resende Costa. Antes, dia 22, acontecerão às 19h, na igreja matriz, santa missa e celebração penitencial. Diversos sacerdotes participarão da novena, presidindo a santa missa às 19h e refletindo sobre temas específicos da vida de Maria. As comunidades rurais, pastorais e movimentos da paróquia também estarão presentes nas celebrações.
O encerramento do novenário acontecerá no dia 31 de agosto com a coroação de Nossa Senhora. O dia 1º de setembro, feriado municipal, é dedicado à padroeira de Resende Costa. Durante todo o dia a comunidade estará em festa, homenageando a padroeira com missas, fogos de artifício e repique de sinos. Às 18h, acontecerá a missa festiva, presidida pelo bispo diocesano de São João del-Rei, dom Célio de Oliveira Goulart. Logo após a missa, procissão luminosa pelas ruas da cidade com a imagem de Nossa Senhora da Penha
de França. Durante todos os dias da novena e no dia maior da festa, haverá funcionamento de barracas e sonorização na Praça Mendes de Resende. Nos finais de semana estão previstos shows musicais.
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Informativo da Câmara
Política
O espaço informativo do Legislativo Municipal de Resende Costa tem como objetivo informar o cidadão sobre os projetos aprovados em plenário.
Confira alguns dos projetos de lei aprovados em julho de 2014 Projeto 88, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza a abertura de crédito e dá outras providências”. Visa o presente projeto de lei à necessária autorização legislativa para abrir, no corrente exercício financeiro, um crédito adicional especial no valor de R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais), com a finalidade de garantir recursos para a aquisição de um motor elétrico para o sistema de água do Distrito de Jacarandira. Projeto 89, de autoria do prefeito municipal: “Autoriza a desincorporação e alienação de bens do Município e dá outras providências”. O projeto de lei visa a obter autorização para alienar, através de procedimento licitatório, os bens
relacionados no artigo 1º do texto de lei, cujo rol é composto de dois tratores e um tanque de expansão. Projeto 90, de autoria do prefeito municipal: “Altera a Lei Municipal n.º 3.863, de 26 de junho de 2014 e dá outras providências”. Trata-se da necessária autorização legislativa para alteração do artigo 1º da lei municipal 3.863 de 26 de junho de 2014 que estabelece as regras de convênio para a realização da Exposição Agropecuária de Resende Costa de 2014. Projeto 92, de autoria do prefeito municipal: “Institui piso salarial profissional para os Agentes Comunitários de Saúde e Agentes Epidemiológicos e dá outras pro-
vidências” Trata-se de projeto de lei, cujo objetivo é estabelecer o piso salarial municipal dos Agentes Comunitários de Saúde e Agentes Epidemiológicos, em especial atenção às normas da Lei Federal 12.994 de 17 de junho de 2014. Maiores informações: www.camaraderesendecosta.mg.gov.br Venha participar das reuniões da Câmara Municipal de Resende Costa. É seu direito de cidadão participar dos assuntos de interesse do município. Praça Nossa Senhora de Fátima, S/N, Centro. Tel.: (32) 3354-1526
Cultura
Quadrilha de Nossa Senhora do Carmo é atração em Resende Costa
EMANUELLE RIBEIRO
Há oito anos, nascia em Resende Costa o grupo de quadrilha “Nossa Senhora do Carmo”. Atualmente, o grupo é conhecido na cidade e região pelas apresentações que realiza e soma muito para as festas de que participa. Ana Alice, Rosana e Vilma foram as fundadoras do grupo, que hoje conta com 40 membros formando 20 pares. Em julho de 2006, durante a festa de Nossa Senhora do Carmo na capela de São Judas Tadeu, no bairro Várzea, surgiu a ideia de promover uma atração diferente, surgindo então a Quadrilha de “Nossa Senhora do Carmo”. Com o sucesso da apresentação, o grupo resolveu se fortalecer e continuar. Na época, os membros ensaiavam no antigo clube do Miguel da Copasa: “Hoje, quando recebemos convite para alguma apresentação, os ensaios são realizados aos domingos no Centro Comunitário, ao lado da capela”, contou o membro e secretário Péterson Sousa. Desde a criação o grupo vem aumentando suas performances e ficando mais conhecido a cada ano: “Nos apresentamos em qualquer época, dependendo dos convites. A maioria das apresentações acontece em junho e julho, mas algumas festas são nos outros meses. Portanto, se nos convidarem em outros meses também dançamos”,
Quadrilha de Nossa Sonhora do Carmo surgiu em 2006
explicou Péterson. Ele contou ainda que a única contribuição pedida pelo grupo é o pagamento do motorista, visto que a Prefeitura Municipal cede o ônibus para as apresentações fora da cidade, e também o lanche para os participantes. Para Sildes Nascimento, outra participante, a quadrilha representa um pouco da cultura local e é uma arte que deve ser valorizada pela comunidade. “Para mim é uma diversão, gosto muito de participar, é cultura. Além de gostar, é uma distração, em que pode-
mos levar a alegria do grupo para outros lugares”, comentou. Atualmente, o grupo possui uma diretoria, composta pelos seguintes membros: presidente - Lucas; vice-presidente - Zé do Dico; secretário - Péterson; vice-secretária - Ednamar; tesoureira - Ana Alice; vice-tesoureira - Edna; fiscal - Caloi; produtora de evento - Ireí. Para quem deseja fazer parte da quadrilha de “Nossa Senhora do Carmo”, deve entrar em contato com Ireí, Zé do Dico ou a Ednamar (professora).
3
BRUNO R. B. FLORENTINO*
O “novo” já nasce “velho” Com o fim da Copa do Mundo e a vergonhosa eliminação do Brasil, aos poucos, as eleições de 2014 começam a tomar o centro das atenções. Se há um ano a Presidenta Dilma Rousseff estava tranquila, segura, surfando em uma grande onda e com projeções de vencer a disputa no primeiro turno, hoje ela se depara com um cenário, no mínimo, incômodo e temido. Embora líder nas pesquisas (com 36% das intenções de voto), a possibilidade do segundo turno é cada vez mais concreta, pois Aécio Neves possui 20% e Eduardo Campos 8%, segundo a pesquisa Datafolha. Caso o segundo turno se concretize, a conjuntura é bastante complexa para o PT que pode ver sua estrela ser apagada por ambos os candidatos. A mesma pesquisa indica que, nesta situação, Dilma e Aécio estão em posição de empate técnico, com 44% e 40%, respectivamente. Mesmo um segundo turno contra Eduardo Campos seria delicado, pois Dilma tem 45% das intenções de voto contra 38% de Eduardo, uma diferença de apenas 7%. Dilma ainda enfrentará o desafio de reverter sua alta taxa de rejeição, que atualmente encontra-se na casa dos 35%. Trata-se de uma cifra nociva, pois, em 2010, ela era uma figura desconhecida e acabou embalada pelos altos índices de aprovação e popularidade do governo Lula. Hoje a situação é diferente. Dilma já é conhecida por 99% dos eleitores, o prestígio não se encontra mais no Planalto e a descrença no sistema político parece cada vez maior. De modo geral, os três candidatos terão que enfrentar a desconfiança que tomou conta dos eleitores: 74% desejam mudanças nos rumos do país. Este indicador, obviamente, irá atravessar toda a disputa eleitoral. Na verdade, já está presente nas estratégias de marketing e no discurso dos candidatos. Não é por acaso que o programa de governo de Dilma Rousseff adotou o slogan “Mais mudanças, mais futuro”; Aécio Neves está a frente da coligação “Muda Brasil”; e Eduardo Campos, além de intitular-se como a “novidade” desta disputa, divide com Marina Silva o slogan “Coragem pra mudar o Brasil”. Contudo, para além dos slogans e dos discursos, a pergunta é: algum
deles, efetivamente, trará novos ventos? Podemos confiar nisto? A conjuntura mostra que, para todos, esta será uma tarefa extensa, árdua, e, quiçá, impossível. Dilma Rousseff, que terá exatos 11 minutos e 48 segundos da propaganda eleitoral, aparenta não se incomodar de ter conseguido tanto tempo à custa de um verdadeiro loteamento de cargos e ministérios. Aécio Neves, que vê o seu precioso “choque de gestão” ser corroído pelas denúncias do caso apelidado de “Aécioporto”, terá que empenhar-se para convencer os eleitores que, apesar de ser o político mais “tradicional” de Minas Gerais, é capaz de responder aos anseios por algo “novo”, diferente. Eduardo Campos, que até ontem era um apoiador do governo federal, também é considerado um dos políticos mais tradicionais do nordeste. No passado, esforçou-se para evitar a CPI dos Correios (que resultou no escândalo do mensalão); apresentou uma lei contra o nepotismo, no entanto, além de empregar mais de 20 parentes, empenhou-se pessoalmente para conseguir nomear sua mãe, Ana Arraes, para o cargo de Ministra do Tribunal de Contas da União (TCU). Esta eleição, que tem tudo para ser uma das mais disputadas dos últimos anos, já apresenta contornos ocultos e controversos. Por um lado, os candidatos deverão resgatar a confiança dos brasileiros, admitir que compreenderam o recado das manifestações do ano passado, ter disposição para empreender as reformas necessárias e provar que são capazes de (re)colocar o Brasil na rota da ascensão ética e política. Do outro lado, os eleitores têm motivos de sobra para padecer na descrença, pois estão do outro lado do abismo que separa “eles” de “nós”. Isso porque quando se observa os três candidatos, com a intenção de aferir qual deles representa a mudança almejada, muitos se perguntam: algum deles, de fato, nos representa? É importante, neste momento, rompermos com a visão messiânica de que o “escolhido”, sozinho, será capaz de transformar o país, afinal, todos descendem de um “velho” sistema político – patrimonialista, verticalizado e contaminado.
*É psicólogo, assistente social, mestre em Psicologia Social pela UFSJ e Secretário Municipal de Assistência Social de Coronel Xavier Chaves/MG.
Classificados Vende-se um terreno na Chácara Palmares (Macaco) 26 X 90 m = 2.340 m2, com água e energia. Ótima localização e vista. Apenas 1 km fora da cidade. Tratar pelo telefone (32) 9102-4158
4
Jornal das Lajes
ANO XI Nยบ 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Jogo Aberto
5
JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE, DE LISBOA
Autor do projeto “800 anos da Língua Portuguesa”: Brasil perdeu grande oportunidade na Copa 2014 cientifica e histórica, podemos afirmar que quem fala o português entende 90% do espanhol, 50% do italiano e 30% do francês, sem qualquer dificuldade. A língua une - para já e a partir do espanhol – 800 milhões de pessoas em 30 países nos cinco continentes e, se acrescentarmos o italiano, ultrapassa os 900 milhões, superando o inglês e o mandarim, com a vantagem de o português possuir, além do aspecto quantitativo, também o qualitativo, o geopolítico e o geoeconômico, em simultâneo. Isto não é encontrado em nenhuma outra língua do planeta. Se você quiser mais detalhes, sugiro ver minha entrevista no link: http://www.youtube.com/watch?v=aisI7SEry4c
O
Roberto Moreno
Brasil perdeu grande oportunidade de realizar um megaevento de comemoração dos “8 séculos (800 anos) da Língua Portuguesa”, no dia 27 de Junho último, no primeiro intervalo da Copa do Mundo, com a presença do tenor espanhol Plácido Domingo. Desinteresse, miopia política e disputas de autoria foram alguns dos motivos. Nesta entrevista, o pesquisador ítalo-hispano-luso-brasileiro Roberto Moreno revela detalhes dos bastidores do evento que foi substituído por uma simples comemoração em Lisboa. Moreno é mestre em ciência da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com tese (de 1992) sobre o uso do vídeo na educação, saúde e segurança. Há 22 anos em Portugal, é presidente da Fundação Geolíngua e busca fundamentos científicos para sua tese de doutorado sobre a “língua do futuro” que acredita ser o “galego-luso-brasileiro” ou “geolíngua”. Como surgiu a ideia de realizar o evento sobre os oito séculos da língua portuguesa? Este evento é um apêndice de uma fundamentação científica para uma tese de doutoramento, que abordará a língua do futuro. E, neste âmbito, resolvi registar no dia 13 de Novembro de 2009, na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), a “Obra - 800 anos da Língua Portuguesa”, em nome próprio e como fundador e presidente da Fundação Geolíngua. Então, antes disso, você já tinha criado a Fundação?
A Fundação Geolíngua foi registrada no cartório de Portugal em Fevereiro de 2002 e na Guiné Bissau em 2004. Aliás, a Fundação nasceu em 11 de Setembro de 2001, horas antes do atentado contra as torres gêmeas em Nova York. Quando em 2009 encaminhei o pedido de registro autoral à Sociedade Portuguesa de Autores, citei a “feliz e oportuna coincidência” da Copa do Mundo de Futebol no Brasil com a data de 27 de Junho de 2014, quando se comemoram os 800 anos do primeiro documento régio, escrito em língua portuguesa, tendo como prova o testamento de D. Afonso II, terceiro rei de Portugal. A festividade máxima poderia realizar-se num dos estádios de futebol da Copa FIFA. Já imaginou um coro de “Parabéns à Língua Portuguesa”, com a participação do tenor Plácido Domingo e de outros artistas de destaque? E por que o tenor espanhol Plácido Domingo? Eu tive uma conversa pessoal com o tenor, quando ele esteve em Lisboa em 2012, após ter concedido uma entrevista à imprensa. Alem disso, há a feliz coincidência de que o português tem a sua origem no galego, portanto são línguas irmãs. Explique melhor... O português é - desde 1214, até os dias de hoje – a primeira língua do mundo, segundo dados apresentados pela Fundação Geolíngua. Entendemos sem dificuldade as línguas da Espanha (galego, castelhano, catalão...). Com base
E qual foi o passo seguinte? Fui convidado a apresentar o projeto à Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República, presidida pelo deputado José Ribeiro de Castro, que se interessou por este tema. Na audiência do dia 25 de Setembro de 2012, fiz uma breve apresentação deste projeto, cujo objetivo é a promoção da língua portuguesa e de todo o seu potencial. Minha proposta era, então, aproveitar o Mundial de Futebol que ocorreria no Brasil, em 2014, para a realização de um conjunto de atividades sócio-culturais, com vistas à difusão da língua portuguesa e do bilinguismo, contando, para tal, com o apoio dos Ministérios da Cultura dos oito países da CPLP (Comunidade dos Países da Língua Portuguesa). Fiz referência, inclusive, aos vários contatos já estabelecidos com a Sociedade Portuguesa de Autores, o tenor Plácido Domingo e os Ministérios e Secretarias de Estado da Cultura, entre outros. Então, o deputado Ribeiro de Castro encampou a ideia? E que providências ele tomou? No dia 18 de Novembro de 2012, ele entregou pessoalmente em Lisboa à ministra da Cultura do Brasil, Marta Suplicy, uma Carta sobre a comemoração dos 800 anos da Língua Portuguesa no dia 27 de Junho de 2014. A ideia era tornar o fato “um grande marco popular e de conhecimento e reconhecimento universais”. Citou o “ambicioso projeto” que encaminhei à Comissão de Educação, Ciência e Cultura, na condição de fundador e presidente da Fundação Geolíngua, de celebração dos oito séculos da Língua Portuguesa. E falou da ideia de aproveitar a coincidência com o Campeonato Mundial de Futebol no Brasil para a realização de um grandioso evento da Língua Portuguesa, no dia 27 de Junho, num dos estádios da Copa do Mundo, com a participação de artistas dos oito países da CPLP, bem como artistas interna-
cionais como o tenor Plácido Domingo. Informou à ministra que, no espírito de reunir uma grande convergência para a organização deste evento de confraternização multicultural e único a nível planetário, estava preparando o expediente a ser dirigido ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados, no Congresso do Brasil, ao Comitê Organizador da Copa do Mundo de Futebol, às Federações de Futebol do Brasil e de Portugal e também, de modo especial, ao governo brasileiro na pessoa da ministra. Concluiu dizendo que o envolvimento do Ministério da Cultura era, palavras dele, “absolutamente decisivo para a boa sequência deste projeto e o seu êxito, tal como, no Governo de Portugal, por parte do secretário de Estado da Cultura”, que testemunhou a conversa. E enviou as outras correspondências, conforme o prometido? Que eu tenha conhecimento, Ribeiro e Castro enviou Cartas ao deputado Romário, entre outros, como o presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado brasileiro, senador Cyro Miranda, que foi o único que respondeu. Na carta ao Senador, o deputado apresentou a mesma proposta entregue à ministra da Cultura do Brasil. Informou também que expediente semelhante estava sendo dirigido à Câmara dos Deputados (Presidente e Comissões de Educação e Cultura e do Turismo e Desporto) e ao Ministério da Cultura do Governo brasileiro, bem como à Secretaria de Estado da Cultura do Governo português e também ao Comitê Organizador da Copa do Mundo de Futebol e às Federações de Futebol do Brasil e de Portugal, tudo com conhecimento da Embaixada do Brasil em Lisboa. Prometeu ainda enviar, oportunamente, ao senador mais informações do projeto - seu desenvolvimento e seus fundamentos -, bem como da Fundação Geolíngua, autora da ideia. No final, pediu o apoio da Comissão e do próprio Senado brasileiro. E qual foi a resposta? Na resposta ao deputado, o senador Cyro Miranda manifestou interesse em apoiar o evento. Acrescentou outros motivos como a valorização da educação, da cultura, da economia criativa, do turismo e da economia local. E concluiu dizendo que aguardava mais informações. Você teve conhecimento de que o Senador recebeu as informações? Não tive qualquer conhecimento. Entretanto tentei falar com o Senador várias vezes, porém sem sucesso.
E por que o evento não aconteceu no Brasil, resumindo-se a uma simples comemoração aqui em Lisboa? Como se sabe, 27 de Junho foi o primeiro intervalo da Copa (neste dia, não houve jogo). Não sei porque Brasil e Portugal, países que respiram ar e futebol, deixaram de aproveitar a oportunidade para fazer alguma coisa pela língua portuguesa nesta data. Talvez, MIOPIA total dos governos luso-brasileiros em não perceberem o benefício do mediatismo planetário que uma Copa representa. E o que é e como surgiu o Movimento 2014? A minha ideia era criar o “Movimento Sociocultural 2014”, sem personalidade jurídica, para juntar pessoas em torno deste evento, que começaria com a celebração da língua portuguesa, no dia 27 de junho de 2014, no Mundial do Brasil. As festividades estender-se-iam até as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, onde na sua abertura contar-se-ia a História dos “8 Séculos da Língua Portuguesa e Galega”. E onde entra o Manifesto 2014? Este Manifesto ainda vai dar o que falar, com certeza absoluta, pois foi criado para não deixar passar em brancas nuvens esta data histórica. No mesmo dia (27 de Junho), enquanto acontecia uma solenidade oficial no Padrão dos Descobrimentos, em Belém, estava a decorrer um outro evento na Biblioteca Nacional, com o lançamento de uma moeda alusiva aos “8 Séculos”, de outra entidade que se apropriou deste projeto. Você se sente injustiçado ou prejudicado nas comemorações dos - 8 Séculos da Língua Portuguesa? Sim! Nada do que está a ser feito é o que eu estava a preparar, muito pelo contrário. Tudo o que está a ser divulgado sobre os Oito Séculos da Língua Portuguesa partiu de um trabalho seríssimo de investigação científica e de paixão pela Língua, que dará origem, junto com o Galego, à futura Geolíngua! A CPLP, o Instituto Camões, o Instituto Cervantes e os Governos Português, Espanhol e Brasileiro, entre outros, possuem um dossiê completo com as propostas de festividades e atividades socioculturais, com base no Evento Original que registrei em 2009. E o que você pretende fazer daqui pra frente? Neste âmbito, estou a preparar uma ação judicial contra as pessoas e entidades que estão a se aproveitar indevidamente desta obra registrada, deturpando o seu sentido.
6
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Centenário de nascimento do monsenhor Nélson POR ANDRÉ EUSTÁQUIO, EMANUELLE RIBEIRO E JOÃO MAGALHÃES
A missão de um homem da Igreja
Para compreender as atitudes e o trabalho do monsenhor Nélson enquanto pároco de Resende Costa, antes de qualquer coisa é necessário contextualizar e compreender as ideias reinantes na Igreja e na sociedade da época. Enquanto sacerdote e pároco, ele jamais transigiu os ensinamentos e as normas promulgadas pelos seus superiores hierárquicos. Mesmo discordando de algum ponto, valeram sempre a obediência e a ortodoxia: “Roma locuta, causa finita”, ou seja, não se contesta o que Roma determina. Monsenhor Nélson era conservador por natureza. A educação obtida de seus pais na infância, especialmente de sua mãe, e a observância incondicional da moral católica da época foram reforçadas pela formação conservadora recebida no Seminário da Arquidiocese de Mariana. Aliás, Mariana pouco aderiu ao movimento renovador da Ação Católica, fomentado pelo papa Pio XI, na década de 1920. A Ação Católica tinha e ainda tem por objetivo a formação de líderes católicos leigos que evangelizem em seu ambiente de trabalho, de estudo e de família. É a dupla missão, esperada por Pio XI, das Universidades Pontifícias (PUCs), ou seja, excelência na formação profissional, substanciosa e atualizada educação teológica voltada para a ação. Uma Igreja monárquica, ciosa e defensora implacável de sua hegemonia religiosa, moral e social, com um poder solidificado, há séculos, sobre a sociedade, sobretudo a ocidental, encontra em Nélson - pessoa centralizadora, metódica, minuciosa, intransigente, mas, ao mesmo tempo, dotada de muito talento didático e administrativo, além de enorme capacidade de trabalho - seu representante ideal. É evidente que tudo isso ganha ainda mais força quando Nélson é investido da sacralidade sacerdotal. Para ele pouco interessava a carreira ou o proveito material. Importava, sim, a Igreja e sua doutrina de fé e moral. É, portanto, no cumprimento à risca desta representatividade que suas virtudes e defeitos se revelam.
Sua missão consistiu em realizar o que as autoridades eclesiásticas exigiam de seus vigários nas paróquias: a observância dos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, a prática dos Sete Sacramentos, com ênfase em Confissão e Comunhão, que todo bom católico sabia de cor, o zelo e aumento do patrimônio paroquial. A par disso, a Caridade, virtude maior, que levava a Igreja a criar e manter obras assistenciais, algumas de fundamental importância até hoje, como as santas casas, os asilos, os orfanatos e as irmandades de caridade. Como forma de “balancete religioso anual”, monsenhor Nélson registrou no final de cada Livro de Tombo da paróquia todo o movimento de comunhões, confissões, casamentos etc. Um bom exemplo é a descrição que ele faz da tão divulgada prática das nove primeiras sextas-feiras, isto é, quem comungasse em nove primeiras sextas-feiras seguidas de cada mês do ano corrente, sem interrupção, teria uma espécie de garantia de não ir para o inferno. Monsenhor Nélson era intransigente quanto ao cronograma de atendimento de confissões, estabelecido por ele: “No confessionário não aceitamos nenhuma explicação de pessoas da sede quando teimam em confessar-se. Apesar dos avisos, doze por ano, dados ao povo desde 1944, sobre esse horário de confissões, ainda encontramos pessoas que dizem ignorar este horário”, relatou no Livro de Tombo. No dia reservado para confissões dos moradores da zona rural, quando ele via alguém da cidade esperando na fila, não titubeava: saía do confessionário e o excluía. Sobre a distribuição de comunhões e o horário das celebrações, assim determinou: “Comunhões às 4:30 da madrugada, 6h em ponto missa, sem comunhões no princípio, só meio.” Como, na época, entre comunhão e missa, a comunhão tinha precedência, durante a semana, distribuía-se a comunhão também antes da missa para aquelas pessoas que tinham de ir cedo para o trabalho.
O pároco estabeleceu um cronograma das primeiras sextas-feiras especialmente para as capelas da zona rural: “Para manter elevado na paróquia o termômetro eucarístico, atendemos na primeira sexta-feira uma capela das mais distantes onde em média mais de 300 pessoas se confessam e fazem sua novena de primeira sexta-feira. Como se vê, a primeira sexta-feira, tal como essa em Resende Costa, exige que o sacerdote seja esperto e tenha saúde. Damos conta sozinho de todo esse movimento”. Quem conviveu com Monsenhor Nélson confirma o seu zelo sacerdotal para com a Igreja e o seu rebanho. “O que ele ensinou, ele viveu na prática” e seu zelo “em fazer com que os fiéis vivessem bem sua fé, não só crendo, mas temendo a Deus e vivendo conforme a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fossem cristãos não só de nome, mas de fato. Era rígido no cumprimento de seus deveres de pastor zeloso, e, proporcionando aos fiéis todos os meios necessários para sua santificação e salvação eterna”, testemunhou o resende-costense monsenhor José Hugo de Resende Maia, que foi vigário paroquial do monsenhor Nélson durante cinco anos.
Guardião da fé católica Monsenhor Nélson foi rígido defensor do doutrinário católico em Resende Costa, durante seu longo paroquiato de 44 anos. Suas práticas (homilias) nas missas e nos demais ritos, frequentemente eram aulas de catecismo para adultos. Agenor Gomes, que foi seu aluno no ginásio Nossa Senhora da Penha, testemunha que ele gastava parte do tempo das aulas de Geografia para explicar tópicos da teologia. E que estes conteúdos, surpreendentemente, chegaram a ser pedidos em provas para nota. A rigidez e o radicalismo não raro o conduziram a comportamentos hoje inadmissíveis. Na época, tais condutas já eram também criticáveis. O princípio republicano da liberdade religiosa esteve ausente do seu ministério e o ecumenismo, ou seja, o diálogo inter-religioso, só apareceu em seu universo pessoal, após as renovadoras proposições do Concílio Vaticano II (19621965). Marcou história em Resende Costa a “cruzada” que monsenhor Nélson comandou para expulsar os evangélicos que tentaram se estabelecer na cidade. Verdadeira defesa de território. Este ato, que
Monsenhor Nelson foi um defensor e propagador da doutrina de fé e moral da Igreja.
será objeto de um artigo específico na próxima edição do JL, causou estupor até na mídia da época.
Guardião da moral e dos costumes A moral adotada pelas religiões cristãs de controlar e/ou reprimir os prazeres corporais, ou seja, os “prazeres da carne”, em benefício da alma alicerça-se na moral sexual agostiniana, para a qual o sexo não se justifica enquanto somente realização humana. O sexo, para Agostinho, é um mal necessário para garantir a reprodução humana. Sendo assim, ele é parte inerente à vida, mas, em si, é um mal. O princípio agostiniano exige que a mulher seja vigiada, às vezes até reprimida, para não tentar o homem. Para que não seja uma Eva levando Adão ao pecado Enquanto guardião desta moral, o comportamento do monsenhor nos recintos sagrados - igreja e adros, capelas e terreiro próximo – como também nas cerimônias, sempre fora extremado, gerava medo e até revolta em algumas pessoas. Um casal de namorados meio “aquecido” no adro era “convidado” pelo enérgico padre a se retirar do local. Se não o fizesse, era retirado no muque! Na cidade ainda há testemunhos de pessoas que se lembram de algumas ocasiões em que monsenhor Nélson jogou água pela janela, ou por baixo da porta da sacristia da matriz, em namorados sentados nos degraus ou encostados nas paredes. Mulheres com braços desnudos, roupas decotadas, saias que ele julgava curtas, eram censuradas, até publicamente, excluídas da mesa da comunhão e afastadas da participação de cerimônias, por exemplo, madrinhas de batismo ou de casamento. Quando monsenhor Nélson apoiou a projeção de filmes no Salão Paroquial, era comum vê-lo ao lado do projetor e com um papelão escurecia a tela nas cenas que considerava “indecentes”. Este comportamento se estendia para os eventos profanos e por ele considerados fontes caudalosas de pecado, como: carnaval, bailes e peças teatrais. Como nestes casos ele não tinha poder de mando, agia
através da coerção moral junto às autoridades: prefeito, juiz, promotor e líderes católicos influentes, além das exortações nos cultos. “[O] vice, José da Conceição Valle promoveu baile de gala no teatro municipal, apesar de nossos esforços contra, com Jazz de Belo Horizonte etc., e grandes gastos. Procedeu com muita dignidade o prefeito que não compareceu e nem permitiu que saísse um centavo dos cofres da prefeitura para esse esbanjamento”, escreveu o monsenhor no Livro de Tombo, quando da posse do prefeito Miled Hannas em 1959. Mais impressionante ainda foi a proibição do baile de gala de formatura da primeira turma do Ginásio Nossa Senhora da Penha. Agenor Gomes, um dos três rapazes formandos, explica o episódio: “Só que para as alunas acabou a festa de formatura aí mesmo, no Salão Paroquial. Um baile de gala praticamente organizado pelas alunas foi abruptamente proibido, esse é o termo, pelo Cônego Nélson Rodrigues Ferreira”. O conhecido e saudoso Antônio Resende “quebrou o galho dos moços”, promovendo um baile para eles em sua casa, mas as moças, que tinham preparado seus trajes de gala, foram para suas casas, decepcionadas. Monsenhor Nélson não foi, porém, um conservador fechado, encarcerado pelos conceitos recebidos. Pessoalmente, não inovava. Ele trabalhou sempre pela qualificação do status quo. Porém, tal postura não o impedia de atualizar-se. Durante sua vida, esteve sempre atento às novas publicações de livros, frequentou cursos sobre inovações ou renovações, desde que estes não confrontassem dogmas, nem princípios morais pétreos para o catolicismo da época. Ele jamais foi refratário às revolucionárias mudanças litúrgicas e pastorais votadas pelo Concílio Vaticano II. Quando o Episcopado Brasileiro as recomendou, monsenhor Nélson tratou logo de adotá-las, educando os fiéis a recebê-las. Após o Concílio, uma progressiva “desradicalização” foi percebida em seus atos. O rígido monsenhor torna-se um pouco mais tolerante, porém mantendo sempre os princípios inabaláveis da moral e da doutrina católica.
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Aconteceu
EMANUELLE RIBEIRO Fotos Emanuelle Ribeiro
35ª Expô Agropecuária de Resende Costa
De 16 a 20 de julho, Resende Costa foi palco de sua 35ª Exposição Agropecuária. No Parque de Exposições, o público acompanhou atrações como Luan Santana, João Lucas & Marcelo e Cléber Oliveira, além de participar de atividades agropecuárias. O JL mais uma vez registrou os principais momentos da festa!
Sebastião e Rosângela Gouveia celebram 40 anos de casamento no Santuário de Aparecida No dia 13 de julho, Sebastião e Rosângela Gouveia completaram 40 anos de casamento. A comemoração foi especial. O casal se reuniu com os filhos, netos, noras, genros e amigos no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, onde participou da celebração da santa missa e ainda recebeu a bênção especial do bispo auxiliar de Aparecida, dom Darci Nicioli. O JL deseja muitas felicidades ao casal.
7
Família Gouveia reunida no Santuário de Aparecida. Na foto presença do bispo Dom Darci Nicioli
8
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Lagoa Dourada
21° Exposição Agropecuária Terminal rodoviário de Lagoa Dourada aguarda de Lagoa Dourada Aconteceu, entre os dias 30 de julho e 03 de agosto, a tradicional Exposição Agropecuária de Lagoa Dourada. Em sua 21° edição, o evento anual mais aguardado pelos moradores do município, contou com grandes atrações, como a dupla sertaneja Victor e Leo, os sertanejos Humberto e Ronaldo e a cantora Naiara Azevedo. Além das atrações musicais, os já consa-
grados torneio leiteiro, desfile de carros de boi e rodeio profissional completaram a festa. No dia 30 de julho, quarta-feira, houve a abertura da festa e do rodeio profissional e show de Denis e Renan. Na quinta-feira, 31 de julho, após o rodeio, foi a vez de Naiara Azevedo animar a exposição e em seguida Carlinhos Rocha. As atrações da sexta-feira,
NAYANA CARVALHO 01 de agosto, ficaram por conta da dupla Victor e Leo e da Banda Liryus. No sábado, 02 de agosto, Humberto e Ronaldo e a banda XR9 agitaram o público. E para encerrar a 21° Exposição Agropecuária de Lagoa Dourada no dia 03 de agosto, domingo, show com Márcio e Heleno e final do rodeio. O JL acompanhou e fez seus registros da festa!
o ponto de partida para funcionamento Concluído em agosto de 2010, o terminal rodoviário de Lagoa Dourada, localizado na região central da cidade, permanece inutilizado. Diante do impasse, a Prefeitura Municipal declarou que o embargo da obra pelo DETRAN ocorreu devido à falta de estrutura nas estradas de rodagem dos veículos. A construção da rodoviária teve seu projeto aprovado em agosto de 2007 dando início a execução em meados do ano seguinte pela Consill - Construtora Irmãos Lara Ltda. Em meio a prazos prorrogados, foram gastos aproximadamente 215 mil reais até sua conclusão em agosto de 2010. De acordo com o engenheiro responsável do governo atual, Adriano Barreto Pinto, o problema que vem impedindo a inauguração se deu pela necessidade de adequações, como calçamento das rodovias, entrada e saída para os veículos, falta de eletricidade e depredações decorrentes da falta de segurança em torno da obra. Para Joice Aparecida de Paula, moradora do povoado Bela Vista e usuária diária de transporte coletivo, a ausência de um terminal rodoviário ativo implica na falta de garantia de vagas aos passageiros, que não têm outra escolha a não ser comprar sua passagem no momento do embarque e muitas vezes o número de vagas são escassas. Crislaine Viviane da Rocha acrescenta que a estrutura também seria eficaz para garantir segurança aos passageiros, principalmente no embarque, quando a maioria aguarda o transporte em rodovias movimentadas. Por outro
ANA CAROLINA RESENDE GOMES lado, ambas apontam como desvantagem o aumento nos preços da passagem devido às taxas rodoviárias. O proprietário da empresa ML Informática, localizada em frente à parada de ônibus da BR 383, que corta a região central de Lagoa Dourada, Maxsuel Leonardo de Resende apontou as vantagens e desvantagens de haver um ponto de ônibus localizado bem em frente à sua loja: “Os passageiros esperam pelo ônibus em frente à fachada da loja, isso causa certa insegurança e ainda dificulta a visão das pessoas do interior do estabelecimento. Já o lado positivo está relacionado diretamente às vendas de peças e acessórios, bem como no uso dos computadores pelos passageiros enquanto aguardam pela condução”. Maxsuel admite que possa haver mudança no movimento de clientes quando a rodoviária começar a funcionar, porém, “não seria um valor significativo”, acrescenta o comerciante. Prefeito desde 2008, Antônio Carlos Chaves de Resende, mais conhecido como Antônio Mangá, esclareceu que apesar das dificuldades encontradas para contratar profissionais de obra, iniciou-se o calçamento da estrada de acesso ao terminal no dia 26 de junho. Em princípio, o terminal contará com apenas uma entrada e saída dos veículos no loteamento particular, finalizado no início deste ano. Para ele, quando inaugurada, “a obra irá funcionar, principalmente no quesito de organização e segurança para os usuários do próprio município”. Foto Ana Carolina Resende Gomes
Terminal Rodoviário de Lagoa Dourada encontra-se inutilizado e sem previsão de inauguração
Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
A Teia do Mundo
JOSÉ ANTÔNIO*
A Copa do Pica-Pau Amarelo Pôr do sol de trombeta... Assim a boneca Emília chamou o ocaso todo avermelhado. O sol tocava trombeta, convocando todos os vermelhos e ouros do mundo para comparecerem ao crepúsculo. A nossa seleção também teve o seu pôr do sol. Só que foi pôr do sol de vuvuzela. Os vermelhos compareceram no rosto envergonhado da nação e os ouros (euros!) no bolso nos nobres atletas nobres. O pica-pau abriu a porteira do sítio do sorriso amarelo e as figuras do Lobato povoaram a seleção. O aventureiro Pedrinho era a nossa comissão técnica. Bem no estilo do Pedrinho: enfrentar o perigo com material rústico. O Pedrinho armou o time e foi enfrentar a onça com a tática suicida de um esquema aberto. E o que aconteceu com as caçadas do Pedrinho? Onça upon a time... um time! Sabe a Narizinho? A coitada não tem função quase nenhuma no sítio. Se o nome dela fosse Orelhinha, Coxinha ou Boquinha, não faria diferença alguma. Pois a Narizinho jogou no nosso ataque. Sem função e deslocada, quase não acertava o gol. Pudera, ela não enxergava um palmo além do seu próprio narizinho. O Marquês de Rabicó foi escalado pra goleiro. O leitãozinho guloso só em dois jogos conseguiu engolir 10 gols!!! A zaga se dividiu em duas Emílias. Todas as duas com a cabeleira desgrenhada, arrogantes e inconsequentes. Fizeram bobagem e falaram bobagem. Uma das Emílias declarou que queria dar alegria ao povo sofrido do Brasil. Ora, Emília, então venha jogar aqui. Alegria... o povo sofrido do Brasil vai ter alegria quando ganhar o salário que a Emília ganha pra bater bola na Europa.
Gol não engorda, gol não mata a fome, gol não paga escola nem professor nem hospital. Gol enriquece e alimenta somente o goleador... desde que não seja gol contra, não é mesmo, outra Emília? Será que o Monteiro Lobato tem algum roteiro para explicar o vexame? Quem é que vai explicar a patacoada da seleção? Os atletas do pica-pau amarelo é que não vão. Tiraram fotos com tietes fúteis, posaram para anúncios publicitários, brincaram mais que treinaram... Basta colocar uma frase imbecil no twitter e lascar fora. Banana pro Brasil! O povo, coitado, mais uma vez com a bolinha vermelha no nariz: vota em mentiroso, assiste sempre à mesma novela, acredita em brasileiro quem já se esqueceu do Brasil e chama de celebridade quem tem somente a bunda pra mostrar. E o povo ainda pinta a cara pra ver no picadeiro do estádio a sua desgraça que faz rir. Pintar a cara e depois chorar em cima da própria pintura... Típico! Ridi, pagliaccio!... Já estão falando em eliminatórias pra Copa da Rússia. E todo mundo já se ouriçou novamente. A ingenuidade já começou a convocar a nação. Parece que todo mundo vai acreditar outra vez. Ingenuidade por ingenuidade... Não sei, talvez fosse melhor, para montar a nossa seleção, mobilizar mais gente da literatura e das artes, e não apenas o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Vai aí uma sugestão de onze ingênuos universais. Olha só que time: Dom Quixote, Cândido, Epaminondas, Brancaleone, Policarpo Quaresma, o Bobo da Corte, Chapeuzinho Vermelho, Pateta, Pedro Bó, o Gordo e o Magro. O técnico pode ser o Mané. Quem sabe resolve?
*JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. e-mail: jresende@mgconecta.com.br
Contemplando as Palavras
9
REGINA COELHO
Turistas estrangeiros à vista De uns tempos para cá, impulsionado pelo crescimento do artesanato têxtil local, o turismo em Resende Costa ganhou força. Até então conhecido restritamente como a terra dos inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho) ou a cidade assentada sobre rochas, de onde se vê em certo ponto da Laje belo pôr do sol, o município entrou na rota dos que viajam a passeio pela região do Campo das Vertentes. Principal porta de entrada da cidade, a Avenida Alfredo Penido, que os resende-costenses costumam chamar de Asfalto ou Rua do artesanato, é um corredor por onde circulam geralmente os turistas que Resende Costa recebe, atraídos, é claro, pela grande variedade de produtos expostos nas lojas concentradas no local, à espera dos compradores em potencial. E de onde vem essa gente? Logicamente, das mais variadas partes do estado e de outros estados brasileiros também. Dos que vêm do exterior, de acordo com o anunciado na edição passada, a coluna passa a tratar agora, sem qualquer pretensão de produzir uma análise mais aprofundada sobre o assunto. Conversas aqui e ali com o pessoal que mantém contato profissional com os nossos visitantes renderam informações interessantes e depoimentos como o do artesão Luís Cláudio. Segundo ele, Resende Costa já recebe turistas estrangeiros, mesmo antes de todo o movimento com relação à preparação para a Copa. “Já tive a oportunidade de presenciar a visita de franceses, argentinos, ingleses e portugueses. Quando estive à frente da Associação dos Artesãos, chegamos a efetuar vendas também para o Canadá e a Itália. Recentemente, recebemos um casal de americanos interessados na comercialização de artesanato”, afirma.
Considerando a origem desses turistas, o resultado de nossa breve pesquisa revelou a predominância de americanos (dos Estados Unidos) e de sul-americanos (principalmente do Chile e da Argentina) visitando Resende Costa, na maioria das vezes, viajando em grupos menores de amigos ou em família. Curiosamente, no dia da entrevista para esta matéria com as funcionárias Bianca Lombelo, Greicy Camila Resende e Thaís Bento de Andrade, que trabalham na DCorações Artesanato, a loja havia atendido três turistas espanholas acompanhadas de uma brasileira. No mesmo dia, 23 de julho próximo passado, a vendedora Adriana Coronel registrou a presença de um senhor japonês (que mora no Japão) na Oficina de Pijamas. Ela lembra que, acompanhado do filho (que vive em São Paulo) e sem falar português, o homem era só sorrisos, fotografando tudo. Aliás, quando perguntados sobre como acontece a comunicação deles com os brasileiros, as respostas dos entrevistados não variam muito. Para Ermelinda Amaral, que trabalha como caixa na Churrascaria Ramona, “sempre tem um intérprete ou amigo que fala a nossa língua e faz o intercâmbio”. Esse comentário é confirmado pelas meninas da DCorações Artesanato, acrescentando ainda que acontece também de eles só olharem os produtos, vendo eles mesmos os preços e conversando entre si. Já Adriana afirma que “muitos falam um pouco de português e que pelo menos o básico eles dão conta de perguntar e manejam bem o nosso dinheiro”. Luís Cláudio reforça ainda que, na maioria das vezes, esses visitantes chegam aqui através de agências de turismo, e elas disponibilizam profissionais para acompanhá-los, ou seja, são guias que atuam também como intérpretes. E como é do conhecimento
quase geral dos resende-costenses, esses e os turistas brasileiros que visitam nossa cidade saem, em grande parte, de Tiradentes e São João Del Rei, onde normalmente se hospedam e recebem indicação sobre o lugar, chegando a Resende Costa já informados sobre o nosso artesanato. No pacote, estão as cidades da região que oferecem outros atrativos para essas pessoas, garantem nossos entrevistados. Exemplo disso é o caso contado por Eurides Lopes Ferreira, garçom da Churrascaria Ramona, que atendeu um casal chileno e seus três filhos. Conforme relato do Eurides, o homem trabalha em uma multinacional, tendo sido transferido para Belo Horizonte. Quando chegou a Resende Costa, a família já havia passado por Tiradentes. Nossos colaboradores na produção desta matéria observam que esses turistas vindos muitas vezes de tão longe são educados e curiosos, querendo saber o que é cada produto do artesanato e qual a utilidade de cada um. Simpáticos, eles sorriem quando não conseguem se comunicar com palavras ou gestos. Aliás, esse parece ser o perfil bem típico do turista, acrescido de outras características que não vêm ao caso agora. Uma constatação final merece nossa reflexão. O turismo em Resende Costa vem se confundindo com o artesanato. Em outras palavras, muita gente que nos visita fica restrita à área das lojas do Asfalto sem andar pela cidade e conhecê-la de fato, o que é uma pena. Por que isso acontece? Em pauta, a vocação turística do município como um todo. P.S.: Agradecimentos às pessoas citadas na matéria. E ao Heliando (garçom da Churrascaria Ramona), à Silvânia Machado (artesã) e à Solange e ao Iraci, proprietários do Irassol – Restaurante e Pousada.
10 Jornal das Lajes Causos e Cousas
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
ROSALVO PINTO
História da história de Resende Costa
A preservação da memória da vida do ser humano e do seu habitat é considerada por filósofos, historiadores, sociólogos, psicólogos etc. como fator importante, diria mais, inerente à vida dos humanos. Expressões como “Povo que não tem história não tem alma” e muitas outras semelhantes confirmam a importância da ligação entre o passado e o presente. Daí a atração pelas biografias e pela história de nossas cidades, estados e de nossa nação. Em especial nossas cidades, que amamos, porque nos viu nascer, crescer e amadurecer para a vida. Trazer para o presente a memória do passado de nossas cidades é uma tarefa difícil. Vamos conhecer um pouco do que temos em matéria de história referente à nossa Resende Costa. Minhas considerações são restritas ao que eu conheço. Até a década de 80 e inícios da década de 90 temos notícia de duas tentativas referentes à história de nossa cidade, porém, de naturezas diferentes. A primeira, escrita por um não resende-costense, o professor José Augusto de Rezende, o primeiro diretor do “Grupo Assis Resende”, em 1920. Seu opúsculo, singelo, apresenta-se com a estrutura de um tradicional livro de história. Esse livrinho desapareceu por muitos anos. Tinha-se notícia de que havia apenas um exemplar na Prefeitura, em estado crítico de conservação. A Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa (amiRCo) se empenhou para sua restauração e o publicou, em 2010, em edição fac-símile, constituindo-se no volume número 1 da Coleção Lageana. Seu título, um pouco grande, como se fazia no passado: Livro de Pallidas Reminiscências da antiga Lage – Villa de Rezende Costa.
A segunda, não estruturada em forma de obra histórica, é constituída por uma série de informações, em forma de contos e crônicas, publicadas em seis livros pelo resende-costense Gentil Ursino Vale. O seu grande amor por Resende Costa (embora tenha vivido grande parte de sua vida em Divinópolis, onde faleceu) o levou a incluir nessas seis obras muitas referências históricas a Resende Costa, e a sua gente, através de textos esparsos, abrangendo apenas o espaço de tempo referente a sua vida. São os seguintes livros: Confidências do Agreste (1982); Escavações no Tempo (1984); Ecos de Ontem (1989); Clara Fonte (1990); Visões Perdidas (1991) e Estrelas Cadentes (1993). Esses livros têm aproximadamente 40 “minibiografias” de pessoas características e populares da cidade. Na sua lista, obviamente, não poderia faltar as figuras da dupla Carrinho & Caraco... Outra obra tendo como tema Resende Costa veio a lume em 2010, também publicada pela amiRCo e patrocinada pelo Fundo Estadual de Cultura (FEC). Na verdade, embora tenha como tema aspectos históricos da cidade e da zona rural, não foi estruturada como uma obra sistematicamente histórica: trata-se de uma produção sui generis. Curiosamente, é uma obra escrita a 46 mãos. O alentado livro de 608 páginas cumpre seu objetivo de lançar Um olhar sobre Resende Costa, o seu título, e tem uma riqueza de informações oriundas de textos publicados pelos seus 46 autores no Jornal das Lajes, em suas edições de 2003 a 2007. Entretanto, Resende Costa merecia uma obra mais alentada, estruturalmente mais definida e, o mais importante, que apresentasse uma pesquisa mais profunda sobre os primórdios de sua existência. E, de repente,
miraculosamente aparece agora, em 2014, a obra Memórias do Antigo Arraial de Nossa Senhora da Penha de França da Lage, atual Cidade de Resende Costa, desde os Proêmios de sua Existência, até os Dias Presentes, de autoria do resende-costense José Maria da Conceição Chaves (Juca Chaves). Logo acima eu falava dos “primórdios de sua existência” e o Juca havia preferido o termo “proêmios”, sinônimo do meu. O Juca terá sido um campeão em criar um título tão grande, mas esse título é revelador da grandeza de seu trabalho sobre a história de sua terra natal. Juca também tinha um grande amor pela sua cidade. Foi o grande sonho de sua vida escrever a sua história. Pesquisou, revirou arquivos públicos, buscou informações com outras pessoas até ter o seu livro pronto. Dadas às suas duras condições financeiras, não pôde publicá-lo. Apelou para a prefeitura de Resende Costa e para órgãos do Estado e não conseguiu. Continuou por muito tempo pesquisando e anotando informações nas margens do livro e faleceu (1978) sem ver o seu sonho realizado. Décadas depois ficamos sabendo, através do Tonico do Cartório, da existência daquele trabalho. Dados o interesse do mesmo para Resende Costa e a sua qualidade, a amiRCo se ofereceu para publicá-lo, o que foi possível com a anuência e a colaboração de seus herdeiros, bem com o patrocínio do Fundo Estadual de Cultura (FEC). Assim, o dia 9 de agosto deste ano vai ficar marcado com o lançamento póstumo de um precioso trabalho. Até que enfim nossa cidade recebe um grande presente para a recuperação e a preservação de sua história. História que remonta à longínqua Inconfidência Mineira (capítulo inicial do livro) e se encerra na década de 1970 com seu falecimento.
Crônicas do Cotidiano
RAFAEL CHAVES
Doido de pedra Se há uma coisa que eu acho interessante é a total impossibilidade de um assunto se esgotar. O surgimento da loucura humana deve ter sido quando, encontrando-se sozinho e isolado, um homem (ou mais provavelmente, uma mulher, porque as mulheres dificilmente ficam sem falar...) começou a conversar consigo próprio, em voz alta. E como não chegasse a nenhum denominador comum, continuou falando e falando até que o encontraram neste solilóquio. - Este é doido de atirar pedra! – disseram. Engraçado que, observem, atirava palavras e não pedras. As pedras, essas vieram com a loucura coletiva. Quando pelo menos dois se reuniam e um já não se entendia mais com outro com palavras, vieram as pedras, e depois as flechas, e depois as balas, e depois os mísseis: insanidade geral. Bom, mas este assunto começou em razão de, nessa época de inverno, os amigos se encontrarem mais amiúde, para conversar sobre cavalo. É a época das exposições, das cavalgadas... Pode parecer que a conversa é sempre a mesma, mas não é. Certo é que entre uma conversa e outra eu vendi uma potra. Uma potra maravilhosa, muito boa mesmo, que encantava a todos que a viam. Potra alazã, frente alta, marchadeira no último! Eu já havia dito que a potra era inegociável, mas a oferta foi boa e eu andei consultando um e outro sobre o negócio. - Óia, coisa de sereno, sei não... Esse primeiro conselho feriu meus brios de morte. A potra que eu endeusara deixa-
ra o olimpo e, num passe de mágica, vagueava ao deusdará, desprotegida, ao relento, pelos campos. Fui ter com ela no outro dia, bem cedinho. Custei a encontrá-la galopando entre a neblina fria. “Vai que tropica”, gelei. - Coisa que pisca o ôio e bate coração, sei não... “Ai, meu Deus, que isso!”, exclamei comigo mesmo. De ferido de morte, o meu orgulho de possuir aquela potra agora dava seu último suspiro. E morria de vez, para ser enterrado, antes que fosse tarde. Antes que o sereno molhasse todo o pelo, antes que o olho parasse de piscar, antes que o coração parasse de bater. Um aviso, nessa situação, era muito, e dois então! Vendi a potra. Dias depois encontrei um companheiro e contei a ele o caso. - Meu amigo – disse ele, dando-me um tapinha nas costas –, lá na nossa terra a gente diz que cavalo bão é cavalo no bolso. A potrinha que embalou meus sonhos estava, agora, no bolso. Apalpei o bolso e pensei comigo mesmo que tinha feito o que devia ser feito. E resolvi que ela não era mesmo para ser minha, assim pela coisa do destino, pela coisa do sereno (que podia querer se vingar, se eu o contrariasse). Ela ia brilhar noutros cantos, debaixo de outros mantos. Disso eu tinha certeza. E, absorto, andava pela rua, até que me dei conta de que conversava sozinho, em voz alta, comigo mesmo. Se alguém me viu e ouviu nesse dia, mais que nunca, deve ter deduzido que eu sou doido de atirar pedra!
Jornal das Lajes 11
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Retalhos Literários
EVALDO BALBINO
O tecelão se (nos) tecendo Meu aniversário é no dia 24 de maio, mês das noivas, do casamento. Acho que é por isso que escrevo tanto sobre amor, erotismo e Deus. Afinal tudo isso tem ares de eternidade, de algo perene, de união. Nascer em maio é desmaiar-se de amores, é ouvir rumores, cânticos de Maria, novenas de maio. Em maio eu desmaio sempre, de amor. Deus é erótico. E nós, à sua imagem e semelhança, também o somos. Ele é tão erótico que deseja sempre nos desposar no deserto. E tem ciúmes de nós. Não aceita de jeito nenhum que busquemos outro que não ele. É exclusivista e passional. É amante possessivo. Aliás, todos os deuses são assim, proprietários. Não conheço um sequer, nas grandes religiões monoteístas e também nas politeístas, que não seja nem um pouco ciumento. Todo senhor, mesmo aceitando compartilhar seu servo com outros senhores, faz isso meio desgostoso. Por isso nos damos tão bem com ele, o nosso Deus. Numa relação tensa e agradável, nos sentimos também seus proprietários. No espelho de Narciso nos contemplamos, possuidor e possuídos, e nos misturamos. Nascemos para Deus porque almejamos a eternidade. Também escrevo sobre a morte o tempo todo. Não há como não pensar nela. E ela, certamente, sempre está pensando em nós, amando-nos de soslaio com seus olhos escuros de um brilho sem luz. Ela fica nos espreitando e desejando nossos corpos. Quer-nos inteiros no seu seio de amante fácil, mesmo que atomizados na terra. Ela nos ama tanto que quer nos destruir e fazer com que sejamos simplesmente nada. Seu mais íntimo desejo é nos confundir consigo. Falar de Deus e da morte é
uma coisa só – é falar de amor. Um ato contínuo de contrição, um olhar pasmado sobre o que não entendemos. E não entender é tudo o que nos resta, com espasmos de espera e adoração. Não há teologia que nos salve com sua ciência, mas o sentir da fé nos consola, nos faz ovelhas tresmalhadas se reencontrando e se enroscando em apriscos terrenos. Além de ter nascido em maio, nasci também na zona das Vertentes. Mas já me disseram que “zona” é uma palavra muito feia. Para mim, nenhuma palavra é feia. Inclusive adoro os execráveis “palavrões”! Os abomináveis e forçadamente exilados de nossa língua, mas que no seio dela mesmo existem. Matreiros, com olhos de gula e fome, os ditos palavrões acenam para mim, piscam os olhos, me seduzem. Podem me dizer “Região das Vertentes”, “Campo das vertentes”, e tudo sempre será a zona mesma da nossa vida e não outra. Nesta zona nascemos, a da vida. Nela também crescemos e morremos. Neste mundo múltiplo e maravilhoso. E quando nos sentimos perdidos perante a reverberação dos estilhaços de tudo, basta pensarmos na beleza da existência. Na engrenagem que nos leva não sabemos para onde, mas que é puro movimento. É vida pura. Sempre é difícil a gente se definir, como aparentemente estou tentando fazer nesta crônica. Aliás, qualquer definição é impraticável. Posso apenas dizer que sou um ser que tenta compreender a si mesmo e aos outros, que busca entender o mundo e tudo o que nele existe, a vida existente e suposta. E que tenta fazer isso através das palavras, do revolvimento delas. Por isso escrevo, por isso dispo o que quer que seja e me dispo. O mundo despido se nos entrega em plena nudez. E escrevendo eu vou
lutando, sempre e cada vez mais. É como se escrever fosse um modo de lutar contra a morte. E lutar contra a morte, neste caso, não é apenas sonhar com a eternidade, o que já é muito. Lutar contra a morte, escrevendo, é também lutar contra o silêncio do não entendimento, da planura vaga e vã. Escrever, então, é produzir rumores, é exorcizar ausências, para fugir da solidão e do silêncio. Escrever é fugir do nada. E fugindo do nada, vou narrando vidas (a minha própria também), sempre reinventadas. Vou tecendo colchas de palavras, para com elas esconder-me do frio do esquecimento. Pois esquecer desaquece. E o calor da memória se faz necessário para corpos tão sequiosos de pulsação e vigor como os nossos. Nascemos para ser eternos. E para não morrer, vou traçando biografias, desdobrando-me em várias faces, umas bonitas e outras feias, e por isso sempre humanas e divinas. Feitos à imagem e semelhança de Deus, como ele somos terríveis e belos. Toda representação carrega isso, essas dubiedades. Nossos discursos padecem do contraditório. Dou graças a Deus por tanta imperfeição, pois assim nos movemos, aos trancos e barrancos, para a plenitude. Movemos-nos enquanto existe vida. Não me defino, eu sei; mas me escrevo. Vou gerando no útero das palavras a mim mesmo. E o meu retrato, com traços de fingimento e verdade, é o retrato de todos nós, os que sobrevivemos dia após dia. Grávido de tudo e de mim mesmo, portanto prenho sempre de indagações, eu me crio e me destruo constantemente. Sou Penélope. A antiga e sempre Penélope com sua tessitura.
Gastronomia
CLÁUDIO RUAS
Foi sem querer querendo O prazo de entrega desse artigo já vinha rompendo e eu ainda meio em dúvida do que iria assuntar. Escrever, assim como cozinhar, costuma depender muito de inspiração e do que temos em nossa volta naquele momento. Olhando a despensa de casa outro dia, vi que tava bom de fazer uma comida meio mexicana (abacate, tomate, milho...). Aí, peguei um livro do assunto, com um pouco de história e tudo mais, e comecei a salivar e matutar uma coisa: o tanto que nossa gastronomia mineira parece com a deles, bem mais do que imaginamos. No final das contas, fizemos uma janta mexicana de lamber os beiços e ainda decidi antecipar esse assunto “México” aqui na nossa prosa. Foi sem querer querendo. História e gastronomia andam, comem e dormem juntas, e o caso mexicano é parecido com o brasileiro, em especial o mineiro: interessante mistura da culinária local com a da colônia europeia que veio depois. No caso deles, os espanhóis, vizinhos de cerca dos portugueses. Ambos trouxeram muita coisa interessante de comer (especiarias do oriente, carnes variadas, doces, destilados, técnicas importantes etc.). Talvez pra compensar as doenças, a pólvora e a ganância que também trouxeram. O milho é o alimento símbolo do México. É com ele que fazem as tortilhas, espécie de panqueca mais grossa, usada como “colher, prato e pão”, pra se comer várias coisas (refogados de carne, verduras, queijos, feijão). Por aqui também não vivemos sem ele, principalmente na sua forma esplendorosa do angu. Outra similaridade que chama a atenção é a presença do refogado de alho e cebola como base de muitos preparos, ensopados ou chapeados. Tomate e pimentão então, nem se fala. São originalmente de lá. O porco também grita muito nos chiqueiros mexicanos, tal como nos mineiros. E se aqui adoramos o tutu de feijão, lá o negócio deles é o “feijão refrito”, espécie de tutu, porém sem farinha. Ele engrossa somente com o fogo mesmo. E o melhor: eles não têm o preconceito que temos de comer esse feijão de várias outras formas, como na tortilha ou no pão, como se fosse um patê. (delícia de patê, não?!) No norte do México, como no
norte de Minas, tem calor e gado. E sua carne de sol, seu queijo, seu coentro e seu cacto palma, que também vira sopa ou dá fruto, tipo nossa “saborosa”. Falando em fruta, manga e goiaba por lá também não faltam. Nem urucum, carne acebolada e frango ensopado. Tudo com pimenta, outro símbolo mexicano – e mineiro. Diz que lá servem pimenta até no carrinho de picolé, e parece que é verdade mesmo. Outro ícone dos nossos irmãos americanos, além do chocolate (nascido por lá) é o abacate, cujo nome teria origem – acreditem – no testículo dos deuses, pelo formato da fruta e pelos seus “poderes”. Só que ao contrário de nós - que infelizmente só comemos o abacate com açúcar (ou na deliciosa vitamina) - eles o comem salgado, geralmente amassado e misturado com cebola, tomate, limão, azeite, pimenta e cheiro verde. É a famosa “guacamole”, boa pra qualquer hora, como no sanduíche, tira-gosto com torrada ou até no churrasco, como o nosso vinagrete, muito usado por eles e chamado de “pico de gallo”. E a bebida típica? Tequila lá, cachaça aqui. Ambos destilados rústicos, o nosso de cana, o deles de agave, um tipo de cacto. Mas na minha opinião nossa cachaça dá de dez nas tequilas servidas aqui no Brasil. A culinária mexicana ganhou o mundo muito mais que a brasileira, graças também à influência do seu vizinho Estados Unidos com seu modelo fast food. Porém, é um país bem tradicionalista e ligado às suas origens, muito interessantes por sinal. Lá é a terra das antigas civilizações maia e asteca, de povo esperto, trabalhador e que via e tratava a terra como sua verdadeira mãe. Gente sábia e que manjava muito de engenharia, astronomia e de agricultura, mesmo naquele tempo tão antigo. Acho que as semelhanças não ficam só lá na cozinha. No lado cultural, geralmente, nota-se que o mexicano é um povo caloroso, de religiosidade católica forte e loucos por futebol. Na música, ainda tem seus violeiros de chapelão de palha na cabeça, os “mariachis”. É muita coisa parecida, bonita e familiar. E olha que só viajei até lá através dos livros, fotos, tevê e também do meu ídolo mexicano, o “Chaves do oito”. Acabei me apaixonando de vez pelo país. E foi sem querer querendo.
12 Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Especial
Projetos de loteamento deverão, a partir de agora, cumprir as exigências da Lei Municipal 2.080/93 Fotos Emanuelle Ribeiro
O
Loteamento do Zé Padeiro foi criado sem infraestrutura básica prevista em lei
que destaca o problema da invasão de propriedade alheia, que é identificado principalmente nas divisas: “Aquela famosa ‘cerca colocada no local errado’, dando prejuízo de 20 ou 30 cm ao lote do vizinho”. Localizado abaixo do Bela Vista, o bairro Mendes é um exemplo de loteamento aprovado pela prefeitura sem a observância da infraestrutura exigida pela lei. “O bairro Mendes tem apenas a infraestrutura parcial: água e luz. Falta pavimentação, meio-fio, esgoto e drenagem pluvial”, explica o prefeito Aurélio. Outro exemplo na cidade é o bairro Nossa Senhora da Penha, também chamado de loteamento do Zé Padeiro. Os primeiros moradores que adquiriram lotes no bairro sofreram com a falta de energia elétrica e pavimentação. Alguns, no início, tiveram que fazer ligações clandestinas, ou “gatos” como são popularmente chamadas essa ligações, para obterem energia elétrica em suas residências. A aquisição de lotes em locais sem infraestrutura acaba levando os proprietários a baterem na porta da prefeitura reivindicando melhorias que deveriam ter sido exigidas do loteador durante a apresentação do projeto. “É comum as pessoas virem aqui para cobrar da prefeitura a construção de calçamento, meio-fio e iluminação, quando na verdade, por lei, trata-se de obrigação do loteador”, esclarece Aurélio. “O loteador esquece que se ele investir em infraestrutura, o seu imóvel tende a se valorizar ainda mais”, diz o prefeito. Eduardo aconselha quanto aos loteamentos: “O proprietário de uma gleba deve procurar um profissional especializado para se responsabilizar por este loteamento. Este, em observância às leis nacionais e municipais, irá elaborar os projetos necessários, dentro dos trâmites legais e seguindo as diretrizes que beneficiarão tanto o município, quanto o empreendedor, e aprovará os projetos na Prefeitura Municipal juntamente com os servidores públicos responsáveis por esses processos”.
Problemas urbanos Um dos maiores problemas de Resende Costa no que diz respeito à infraestrutura urbana é relacionado ao esgoto, conforme aponta o prefeito municipal: “Posso dizer sem dúvida que o grande passivo de Resende Costa é primeiro, o esgoto, segundo, a pavimentação, terceiro, a iluminação pública e drenagem pluvial”. O crescimento desordenado da cidade ao longo dos anos já começa a apresentar problemas difíceis de serem solucionados em curto prazo. “A cidade foi crescendo sem infraestrutura. Temos hoje uma quantidade imensa de fossas e a rede de esgoto ainda é um desafio”, disse Aurélio, que chama atenção para a viabilidade econômica da instalação completa da rede de esgoto na cidade: “A Copasa levaria muitos anos para recuperar o investimento realizado na implantação da rede de esgoto. Se ela fosse uma empresa totalmente particular não realizaria a obra, mas sendo do Estado, ela se preocupa com o social e com a qualidade de vida das pessoas”. Quando os loteadores não cumprem as determinações da lei, acontece uma transferência de obrigações prejudicial à cidade e ao interesse coletivo. É o que disse o prefeito Aurélio: “Temos hoje que gastar milhões para arrumar a cidade, fazendo e refazendo calçamentos, reformando e construindo praças, investindo em iluminação pública etc. O município precisa ter recursos para isso, e, acaba tendo que investir em loteamentos particulares”. A prefeitura dispõe de uma estrutura fixa para produzir bloquetes, que conta com mão de obra e maquinário. Os bloquetes são utilizados na pavimentação de ruas e loteamentos: “Estamos o tempo todo corrigindo erros e problemas do passado”, disse o prefeito. A administração municipal atual não pretende afrouxar na exigência do cumprimento da lei 2.080: “Estamos apenas fazendo cumprir a lei. Espero que os próximos prefeitos
Barrosenses integram a seleção mineira de rugby RHONAN MOREIRA NETO “Há um ano atrás, não havia rugby em Barroso e hoje temos quatro de nossos jovens na Seleção Mineira”. A frase é de Luciano Nascimento, treinador e responsável pelo projeto Barroso Rugby. E a felicidade do dirigente do esporte na cidade tem motivo: Gabriel Adão e Luiz Otávio (categoria M17, para jogadores com limite de idade de 17 anos) e Clayton Liandro e Estevão Nascimento (M19, para atletas até 19 anos de idade) foram convocados para a seleção mineira de rugby e integram o grupo pela primeira vez. Os atletas barrosenses estiveram em Belo Horizonte dos dias 17 a 19 de julho, participando de treinamentos e de um amistoso, depois de serem escolhidos em uma seletiva no mês de junho. Ao garantirem a vaga, os jovens deram aos demais participantes do Barroso Rugby, os chamados “Pumas”, cerca de 160 jovens, a esperança de que sonhos difíceis podem ser alcançados. Agora eles se preparam para disputar o Campeonato Brasileiro de Rugby Union Juvenil. A primeira partida da fase de grupos será no dia 30 de agosto, contra a seleção do Rio de Janeiro e, em seguida, os mineiros pegam a se-
leção paulista, no dia 27 de setembro. Luciano Nascimento destaca que, apesar do apoio que recebe da Secretaria de Esportes de Barroso, da Academia Saúde & Movimento e da Igreja Presbiteriana, ainda há algumas despesas que são pagas pelos próprios atletas: “Para esses jogos, devemos arcar com as passagens, já que o horário da condução que temos na Prefeitura é muito cedo e é ruim para os atletas irem para Belo Horizonte e ficarem o dia inteiro esperando para se encontrar com os demais atletas do Estado, treinar, jogar à tarde”. O treinador dos Pumas ainda revelou que, como treinador, procurou dar conselhos aos convocados. “Pedi a eles que permaneçam firmes e inabaláveis, que se divirtam, que vivam os valores do rugby, que deem exemplo e sejam exemplo e que tenham bom comportamento dentro e fora de campo”, comentou, declarando ser grato por fazer parte da história do rugby mineiro, já que são 21 equipes integrando a Federação Mineira de Rugby. “Com 21 equipes, ter quatro atletas na seleção é uma honra”, finalizou Luciano. Foto Barroso Rugby
crescimento desordenado de grande parte das cidades do Brasil é muitas vezes fruto da inobservância de leis que regulamentam a infraestrutura de loteamentos e, principalmente, da falta de um plano diretor. “Este não é um problema pontual, ocorre na maioria das cidades brasileiras, porém bastante preocupante. Faltam políticas urbanas municipais para organizar a situação”, afirmou o arquiteto Eduardo Henrique. Resende Costa ainda não possui plano diretor e a maioria dos lotes é vendida em lugares sem infraestrutura básica, causando transtornos aos compradores e ao poder público, que a partir de agora pretende exigir o cumprimento da Lei Municipal 2.080/93, que dispõe sobre os requisitos necessários para a aprovação de um projeto de loteamento. O passo inicial para o loteador requerer junto à prefeitura a aprovação de um projeto de loteamento é apresentar uma planta garantindo a infraestrutura exigida pela lei municipal. “O proprietário do terreno a ser loteado vem até a prefeitura para cumprir a primeira etapa, ou seja, ele propõe a aprovação do projeto de loteamento. A lei 2.080 exige que o projeto apresente os traçados das ruas, praças e a infraestrutura de pavimentação, como água, esgoto e iluminação”, disse o prefeito Aurélio Suenes, que pretende “fazer cumprir a lei”. “O problema é que essa lei nunca foi cumprida. Não me lembro de nenhum loteamento em Resende Costa que tenha cumprido as exigências da lei municipal 2.080”, frisou o prefeito. Além da infraestrutura básica, o projeto precisa garantir 35 por cento de reserva institucional que, por lei, deve ser utilizada pela prefeitura para construção de áreas de recreação no loteamento. O arquiteto Eduardo Henrique enumerou as principais consequências do crescimento desordenado das cidades e a ocupação de áreas não propícias a edificações, como várzeas, morros, encostas e mangues. “Estas áreas além de gerarem edificações de risco, com pouca segurança estrutural, acabam ficando sem infraestrutura urbana (calçamento, esgoto, abastecimento de água, iluminação e coleta de lixo) e sem equipamentos urbanos importantes próximos, como escolas, hospitais, postos de saúde etc.”, explicou o profissional, que citou também a ocupação de áreas de preservação ambiental, causando desequilíbrio ambiental e desmatamento, destruição e/ou descaracterização do patrimônio histórico, ocupação de espaços públicos e de outros, como calçadas, praças, vias públicas e invasão de privacidade. “Principal exemplo: janelas em divisas”, acrescentou Eduardo,
EMANUELLE RIBEIRO / ANDRÉ EUSTÁQUIO
Regional
Os atletas barrosenses Clayton, Gabriel, Estevão e Luiz Otávio no período dos testes para a Seleção Mineira de Rugby, em Belo Horizonte
também façam isso, para que a cidade aos poucos vá se organizando e, com isso, sobrem recursos para serem investidos em outras coisas”, conclui Aurélio Suenes. Quando o assunto é construção, a solução para impedir a desordem, de acordo com o arquiteto Eduardo Henrique, seria a criação de políticas urba-
nas como: Plano Diretor, Código de Obras e lei de uso e ocupação do solo municipal, além de fiscalização atuante e enérgica. Enquanto não existem esses projetos, quem está pensando em construir “deve procurar um profissional especializado para elaboração dos projetos essenciais e direcionamento correto da obra”, completou Eduardo.
Rua sem pavimentação é um dos problemas de vários loteamentos em Resende Costa, como o bairro Mendes
Jornal das Lajes 13
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Gente que fez e faz a história
Trilha Sonora
Padre Raimundo Inácio da Silva (1954-2014)
O sacerdote que elegeu como missão cultivar e propagar a simplicidade ANDRÉ EUSTÁQUIO Na tarde do dia 22 de julho último, o sino da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa dobrou fúnebre, anunciando para toda a cidade o falecimento do padre Raimundo Inácio da Silva, aos 60 anos de idade. Após longa batalha contra um câncer na próstata, padre Raimundo faleceu no Hospital Nossa Senhora do Rosário. O religioso contou, em seus últimos dias, com os cuidados das irmãs Filhas de São Camilo. Natural de São João del-Rei, padre Raimundo realizou seus estudos filosóficos e teológicos no Seminário Arquidiocesano São José, em Mariana, e foi ordenado sacerdote no dia 7 de dezembro de 1986, em São João del-Rei. Antes, porém, de ingressar no seminário, padre Raimundo foi militar, chegando à patente de Cabo do Exército. Sua passagem por Resende Costa foi marcante. No início do seu sacerdócio, na década de 1980, foi nomeado vigário paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França pelo então bispo da Diocese de São João del-Rei, dom Antônio Carlos Mesquita (19232005). O jovem sacerdote auxiliou o pároco monsenhor Nélson Rodrigues Ferreira nos trabalhos pastorais e, desde então, iniciou uma profunda relação de amizade com a população de Resende Costa. Nos tempos de vigário paroquial do monsenhor Nélson era comum ver o padre Raimundo liderando o time dos coroinhas da paróquia no campo do Expedicionário. Aliás, esse time foi criado por ele. Amante do futebol, padre Raimundo não só treinava os coroinhas, mas jogava também. De acordo com alguns jogadores da época, o padre “não fugia de nenhuma dividida”. Mas a sua missão sacerdotal ganhou mesmo destaque nos trabalhos com a pastoral afro-brasileira. Padre Raimundo encontrou nas congadas e ternos o seu espaço de
evangelização. Nas festas do Rosário ele era o líder, o animador, o incentivador. Aparecia sempre paramentado com os trajes típicos da cultura afro, como o equeté, aquele gorrinho que se usa sobre a cabeça. Padre Raimundo não somente celebrava as missas e organizava a procissão de Nossa Senhora do Rosário. Ele se integrava aos congados, tocava tambores e puxava os cânticos de louvores à Virgem protetora dos negros. Durante as homilias, fazia sempre questão de apresentar aos fiéis a cultura afro, destacando o triste período da escravidão dos negros no Brasil. A sua atuação pastoral confirmou o papel libertador e unificador da religião para as diversas culturas. Nos últimos seis anos, aproximadamente, padre Raimundo trabalhou no distrito de Jacarandira como vigário paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Penha. O pároco, padre Éder Santos, comentou o falecimento do padre Raimundo e destacou seu trabalho pastoral nas comunidades: “É uma perda muito grande. Quando um padre morre a Igreja inteira fica de luto. Certamente toda a comunidade já teve a oportunidade de conhecê-lo há mais tempo, quando ele foi vigário do monsenhor Nélson. Ele fez muitíssimas amizades, principalmente na Festa do Rosário, a qual fazia questão de celebrar. Ele vai deixar marcas e um legado muito bonito. Que ele descanse em paz”. O bispo diocesano dom Célio de Oliveira Goulart lamentou a morte do padre Raimundo e falou também sobre a doença que o vitimou: “Ele sempre foi um padre acessível e presente não apenas em Resende Costa, mas na região. Lamentamos a doença do padre Raimundo, foi tudo muito rápido. Em novembro (de 2013) ele fez a cirurgia, que tratou com a radioterapia e depois constatou-se a metástase, o câncer se espalhou para outros
Padre Raimundo foi um dos expoentes da Pastoral Afro-brasileira
órgãos. Ele nos deixa ainda jovem, tendo completado 60 anos em junho”. O vigário-geral da Diocese de São João del-Rei padre Dirceu de Oliveira Medeiros destacou a grande popularidade, que foi uma das marcas do ministério sacerdotal do padre Raimundo: “Posso falar com propriedade, porque fui coroinha do padre Raimundo. Ele passou por minha paróquia natal quando eu era adolescente e tive a oportunidade de conviver um pouco com ele. A característica dele era a alegria e a descontração, ou seja, uma pessoa popular que sabia se inserir nos meios populares. Lembro-me de um fato marcante na vida dele: quando completaram os 100 anos da abolição da escravatura ele promoveu em Barroso um campeonato de futebol com os negros. Uma pessoa sempre muito antenada com a comunidade e era muito estimado pelo povo. Importante ressaltar seu trabalho junto à consciência negra. Nós louvamos a Deus pelo seu trabalho pastoral, pelo seu ministério nas diversas comunidades onde atuou. Agora ele está contemplando a face de Deus”. Em Resende Costa Padre Raimundo Inácio iniciou e concluiu seu ministério sacerdotal. Não só aqui, mas em todas as comunidades onde atuou, ele deixou um legado importante para a Igreja e para o povo: a simplicidade.
Assine o Jornal das Lajes Assinando o JL, você estará colaborando para a consolidação de um projeto jornalístico diferente, que já é referência na região do Campo das Vertentes, pois é reconhecido como um periódico que, além da notícia, leva ao leitor informações referentes aos mais variados temas de interesse da cidade e da região.
Perseguindo o objetivo de expandir sua cobertura jornalística na região das Vertentes, o JL ampliou sua tiragem para 4000 exemplares e o número de páginas para 16, Faça uma assinatura anual do JL e colabore com esse projeto de valorização e divulgação da nossa cultura! Local: R$ 40,00.
Fora de Resende Costa: R$ 80,00 Contato pelos telefones: (32) 3354-1323; (32) 3354-1705; (31) 3281-4467. Jornal das Lajes: DEZ ANOS de jornalismo comprometido com Resende Costa e região.
RENATO RUAS PINTO
Partidas precoces A p ó s escrever nas últimas edições sobre coisas novas, é hora de revisitar os clássicos. Afinal, nossas vitrolas não conseguem ficar sem eles. Aliás, muitas vezes somos saudosistas em excesso e esquecemos o novo. Certos artistas, porém, se tornam clássicos por bons motivos e nada como o teste do tempo para separar o que é realmente bom das modas passageiras. Dessa vez gostaria de escrever sobre dois grandes guitarristas que se foram muito jovens, mas cujas obras venceram a barreira do tempo: Duane Allman e Stevie Ray Vaughan (SRV). Dois talentos incríveis que infelizmente não puderam produzir mais, pois se encantaram muito novos. Duane Allman foi um guitarrista que despontou muito jovem e logo se tornou um requisitado músico de estúdio. Em 1969, com apenas 23 anos, Duane e seu irmão Gregg formaram o grupo Allman Brothers Band e lançaram o primeiro disco, “The Allman Brothers Band”. Em seguida veio “Idlewild South” e o reconhecimento com o grande sucesso comercial do grupo, o disco “At Fillmore East”, gravado ao vivo na lendária casa de shows nova-iorquina. Pouco depois desse disco Duane viria a falecer em um acidente de moto, com apenas 24 anos. Pouco tempo, mas o suficiente para conquistar vários admiradores com sua guitarra blues. Entre eles ninguém menos que Eric Clapton, que o convidou para dividir as guitarras no histórico álbum “Layla and Assorted Love Songs”, um dos melhores discos de rock-blues de todos os tempos. A banda Allman Brothers merece grande crédito por ser uma das precursoras do estilo conhecido como o “Southern Rock” – o rock sulista – que mistura o rock com o country (aliás, os irmãos Allman são de Nashville, capital da música country). A Allman Brothers ainda acrescentava grandes doses de blues. Os três discos da Allman Brothers com Duane e “Layla” são audições obrigatórias para os fãs de rock e blues e a guitarra de Duane com certeza fez por merecer seu lugar no panteão do rock. Stevie Ray Vaughan tam-
bém se foi jovem, com apenas 36 anos e um histórico de apenas 6 discos (dois póstumos), sendo um com o irmão Jimmy Vaughan e os demais com sua banda, a “Double Trouble”. Após passar por diversas bandas, obteve reconhecimento com o Double Trouble que, após conquistarem um certo sucesso no Texas, foram convidados para participar do famoso festival de jazz de Montreaux em 1982 em uma noite dedicada ao blues. A apresentação chocou parte da plateia que, acostumada com o jazz e suas sutilezas, levou uma pancada da sua guitarra enérgica e algumas vaias vieram. O festival, porém, rendeu contatos para SRV e a oportunidade de lançar o seu primeiro álbum, “Texas Flood”, de 1983. A partir daí SRV ganharia notoriedade rapidamente ao resgatar nos anos 1980 o blues. Por isso é reconhecido como um dos responsáveis pelo renascimento do estilo que se deu naquela década. Stevie conseguia conjugar uma voz na medida com uma técnica de guitarra impecável. Sua guitarra carrega uma sonoridade crua e traz para o blues a força do rock. Em 1990 foi vítima de um acidente de helicóptero após um show. De legado deixou excelentes discos dos quais destaco “Texas Flood” e “In Step”. Excelente pedida pra ouvir um blues potente e com uma guitarra incendiária. Faltou falar de um que também se foi jovem, pouco antes de completar 28 anos. Talvez o maior de todos os tempos e, com certeza, a maior personificação da guitarra rock: Jimi Hendrix. Hendrix, porém, merece o espaço desta coluna inteiro só pra ele. Em comum, todos têm a guitarra como elemento vital, quase uma extensão do corpo e através dela deixaram suas marcas em uma passagem breve por esse plano de vida. As marcas mais notáveis, aliás, ficaram nos sulcos dos LPs que nos encantam até hoje. Fica sempre a dúvida de como seria se não tivessem partido tão jovens. O que estariam produzindo? Continuariam fiéis ao blues ou se renderiam a algo mais pop para tocarem nas rádios e na grande mídia? Bem, para as lendas essas questões mundanas são de certa forma irrelevantes.
14 Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
35ª Exposição Agropecuária
35ª Exposição Agropecuária movimenta Resende Costa e provoca discussões A 35ª Exposição Agropecuária de Resende Costa, realizada entre os dias 16 e 20 de julho, foi marcada por shows e também por mudanças estruturais realizadas no Parque de Exposições. O evento teve início na quarta-feira, 16, com a saída da Cavalgada Bolivar de Andrade do sítio do João Dias. Diversos cavaleiros participaram da cavalgada, que chegou a Resende Costa na tarde de quinta-feira, 17. No mesmo dia, à noite, aconteceu a abertura oficial da festa. Neste ano, o rodeio ganhou novo espaço. A arena móvel foi montada na parte de cima do parque. Já na parte de baixo, onde antes ficava a arena, foram realizados os shows. De acordo com o prefeito municipal, Aurélio Suenes, o espaço foi ampliado no intuito de oferecer mais conforto ao público. “Faço uma avaliação positiva da festa. Estou satisfeito com o fechamento, principalmente pelas mudanças feitas, pelo menos é o que tenho ouvido das pessoas. O espaço maior deu mais liberdade para as pessoas se movimentarem e também pudemos investir num espaço melhor para a exposição de produtos voltados para o homem do campo”, disse o prefeito. O engenheiro agrônomo Toninho Pinto opinou sobre as mudanças: “Tem muita coisa para melhorar [na festa] há muito tempo, não somente nesta gestão municipal. As modificações bem sucedidas se fazem necessárias. A acessibilidade deste ano foi um ponto forte. O acesso fácil, organizado e sem filas se destacou entre as mudanças efetuadas no Parque do Campo este ano”. Toda mudança no início gera insatisfações, aprovações e reprovações. No Parque do Campo não foi diferente, com a transferência do espaço de shows. Visualmente foi difícil para o público resende-costense se acostumar com o palco fora do seu lugar tradicional, com os bares vazios e as pessoas um tanto quanto perdidas no centro da antiga arena. Antes do início dos shows a maioria das pessoas transitava apertada na parte de cima do parque. Os organizadores da festa ganharam espaço para receber um público maior, mas a plateia, de certa forma, perdeu em conforto. Iluminação fraca e infraestrutura precária no entorno das poucas barracas foram pontos negativos que poderão ser reavaliados para os próximos anos. Ouviu-se de muitas pessoas que a tradicional exposição perdeu sua característica familiar, abrindo-se para se tornar um megaevento. Luan Santana Apresentado como a principal atração da festa, Luan Santana atraiu um grande público ao Parque do Campo na noite de sexta-feira, 18. Os fãs do astro sertanejo começaram a chegar cedo ao parque em busca de um lugar próximo ao palco. Alguns deles tiveram a opor-
Fotos Emanuelle Ribeiro
ANDRÉ EUSTÁQUIO/EMANUELLE RIBEIRO
A 35ª Exposição Agropecuária foi também marcada por mudanças estruturais no Parque do Campo
tunidade de entrar no camarim e abraçar o ídolo. Cartazes, faixas e vários outros materiais espalhados pelo parque reverenciavam o cantor. Grande nome em evidência no cenário do sertanejo universitário nacional, Luan criou grandes expectativas no público, mas quando subiu ao palco deixou a desejar. Show bem produzido, mas faltou sintonia entre artista e fãs. O público ouviu grandes sucessos do cantor, mas, para a grande maioria, restou uma sensação de frustração. A cada ano, ressurge o debate sobre a contratação de shows de grande porte, que demandam altos investimentos financeiros. Desde a municipalização do Parque do Campo, as sucessivas administrações municipais têm investido alto na contratação de artistas renomados e bandas famosas, como Leonardo, Biquíni Cavadão, Paralamas do Sucesso, Titãs, Daniel, entre outros. Para arcar com as despesas é necessário, no entanto, cobrar bilheteria, o que tem causado insatisfação em algumas pessoas e provocado a discussão se é conveniente investir dinheiro público em eventos populares de grande porte. A organização da festa argumenta que para garantir ao evento um nível elevado é preciso cobrar ingressos e trazer “shows de peso”, do contrário a festa perde público e poderá entrar em declínio. Em entrevista à Rádio Inconfidentes, o prefeito Aurélio destacou o retorno que a Exposição Agropecuária traz para Resende Costa: “Uma festa de qualidade traz visibilidade à cidade e proporciona um retorno positivo para o turismo”. Toninho Pinto questiona a qualidade dos shows deste ano e pondera a opção por artistas caros: “Não é preciso ser inteligente para perceber que shows do porte de Luan Santana não satisfazem à maioria e muito menos à minoria que trocaria este por quatro ou cinco shows do mesmo gêne-
ro. Percebe-se um descaso com o público e com os músicos, não oferecendo condições para que o segundo show não ocorra, como foi visto na sexta-feira logo após o show principal. A escolha dos artistas também deve ser direcionada ao público mais adulto e mais idoso e pensar que, uma festa orçada em “tantos” mil poderia também beneficiar melhor o dono da festa, o produtor rural”. No sábado foi a vez da dupla João Lucas e Marcelo subir ao palco, apresentando um repertório eclético, que mesclou o sertanejo atual com o tradicional modão. O público aprovou o show e elogiou ainda a simpatia dos cantores, que após a apresentação receberam muitas pessoas no camarim. O resende-costense Fábio Belo elogiou a festa: “Achei muito bacana, foi legal demais. A estrutura montada foi fantástica, principalmente no sábado, que pra mim foi o melhor dia da festa. Todos os dois shows muito animados”. Concurso leiteiro, rodeio e concurso de marcha. A 35ª Exposição teve sua pro-
gramação voltada ainda mais para o setor rural, de acordo com o prefeito Aurélio: “Reservamos o espaço de cima do parque para atividades voltadas ao homem do campo. Tivemos estandes, demonstração de produtos e a exposição de máquinas para os produtores e fazendeiros conhecerem as novidades que existem para o seu negócio. A festa é para o homem do campo”. Para o engenheiro agrônomo ainda falta mais investimento: “Outro ponto de consideração positiva seria a criação de estandes de empresas, porém o local precisa ser mais bem estudado para não inutilizar a área mais nobre do espaço. O maquinário agrícola, distante da nossa realidade produtiva, e os veículos poderiam ser expostos em outros locais como o gramado logo abaixo dos banheiros. E os produtores rurais regionais poderiam ser convidados a apresentar um pouco do que produzem em estandes estrategicamente localizados no parque”, sugere Toninho Pinto. O criador Adilson Gouveia foi o vencedor do Torneio Leiteiro e tomou o tradicional banho de leite. Sua vaca, Brasiliana, produziu 196 litros e 555 gramas de leite. “O
O criador Adilson Gouveia foi o vencedor do Torneio Leiteiro
concurso é uma maneira de a gente divulgar o gado. A vaca deu cerca de 65 quilos e meio e teve um pico no último dia, com mais de 46 quilos. Estou começando agora, então fiquei feliz, pois é uma forma de divulgar para o comércio. Inclusive, o concurso já está me abrindo outras portas: minha vaca vai agora para uma transferência de embrião”, declarou Adilson. Toninho reivindica melhor organização para a realização do torneio leiteiro, no intuito de atrair mais expositores: “Os produtores rurais deveriam ser recrutados antecipadamente via sistema de assistencialismo mais convincente. Nota-se que são sempre os mesmos “guerreiros” que sustentam a festa sem subsídios e incentivos significativos que justifiquem suas presenças no Torneio Leiteiro, na exposição de animais e movimentos relacionados ao Clube do Cavalo. Fazer com que uma vaca alcance um pico de lactação exatamente no período da festa ou um cavalo se apresente saudável e forte à pista de um concurso de marchas e morfologia é desafio à parte. O número de expositores vem diminuindo ao longo dos anos e algo precisa ser repensado para que ele participe mais efetivamente da festa, que é dele”. O leilão das barracas despertou questionamentos. Neste ano, a prefeitura lançou um edital de concorrência global para terceirizar de uma só vez todas as barracas da Exposição, diferentemente dos anos anteriores. O prefeito Aurélio falou da intenção do novo formato do leilão e reconheceu que é preciso readequá-lo para os próximos anos: “O objetivo foi organizar melhor a entrada do dinheiro no caixa da prefeitura, o que realmente foi um ponto positivo. Por outro lado, tenho que reconhecer alguns pontos fracos que devemos corrigir para o próximo ano. Esse formato favorece a centralização e no final o resultado não é o melhor para todas as partes. Para dar melhores oportunidades aos barraqueiros de Resende Costa, em 2015 a intenção é fazer a venda dos espaços divididos em lotes como era no passado”. Aurélio falou também sobre os gastos da festa: “Do ponto de vista financeiro ficamos satisfeitos em falar que foi uma grande festa e que teve um dos menores gastos da região. Fizemos o fechamento e nossa festa está entre as que vão gastar menos, porque conseguimos equilibrar os gastos. Há exposição agropecuária gastando 350, 400 mil e Resende Cosa fechou em menos de 250 mil reais. Coronel Xavier Chaves fez uma festa questionada na própria cidade e gastou 160 mil reais. Muito positivo, nosso povo merece e a prefeitura municipal procura investir em entretenimento”, concluiu. Confiram a matéria sobre a 35ª Exposição Agropecuária de Resende Costa na TV JL Online. Acesse o canal do Jornal das Lajes no Youtube.
Jornal das Lajes 15
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Inverno Cultural
Grandes shows foram destaque no Inverno Cultural da UFSJ
O Verso e o Controverso
Camilo de Lellis: 4º centenário de morte (Parte I) Trajetória da conversão
TAMIRES TRIBST Fotos Eduardo Carazza
O
Gilberto Gil e Otto em suas apresentações no Inverno Cultural
27° Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) contemplou diversas atrações e foi marcado por shows de grandes artistas. Durante os quinze dias de festival, 19 de julho a 2 de agosto, o público são-joanense pôde saudar diversas bandas e cantores que fizeram parte das várias atrações do evento. No segundo dia do festival o grupo 14 Bis trouxe para o Palco Inverno Cultural, na Avenida Leite de Castro, seus grandes sucessos de trinta anos de carreira e trabalhos mais recentes. A banda que já tocou na cidade mais de vinte vezes lotou a plateia composta por um púbico variado e encerrou o primeiro final de semana do evento. Antes da sua apresentação, o 14 Bis realizou uma palestra no Anfiteatro do Campus Santo Antônio e contou diversos fatos e aspectos da trajetória da banda. Os músicos também explicaram como foram feitas as principais músicas de toda sua discografia, como foram compostas e a participação de cada um dos integrantes no processo. No dia 21, José Miguel Wisnik, misturou música e poesia no Teatro Municipal de São João del-Rei. Em quase duas horas de show, além de um bate papo, o músico com seu espetáculo “Veneno remédio, futebol e canção” trouxe questionamentos sobre a relação entre a cultura brasileira, música e futebol. O terceiro dia de Inverno Cultural foi marcado por uma apresentação de duo de violões. Os músicos e professores da UFSJ e UFMG, respectivamente, Guilherme Vincens e Michel Maciel fizeram uma homenagem ao violonista Frederico Grassano, que faleceu
precocemente aos 34 anos de idade quando sofreu um infarto em uma partida de futebol. Ao longo da apresentação os violonistas contaram um pouco da trajetória de Frederico, agradando ao público no Teatro Municipal. A quinta-feira trouxe o cantor pernambucano Otto com músicas do seu quinto disco solo The Moon 1111. A fina garoa que caía sob a cidade e ganhou força durante o show não desanimou o público que lotou a plateia do Palco Inverno Cultural. Os percussionistas fizeram um espetáculo à parte e em entrevista o cantor contou que seu gosto pela percussão vem das batidas do folclore do agreste: “Eu era um cara que não parava de bater desde pequeno (...) percussão sempre foi uma coisa latente na minha vida.”. Após o show, o músico conversou e e foi fotografado por fãs que fizeram fila para se aproximar do cantor. Sábado 26, contou com a presença de Gilberto Gil que, assim como Otto, tocou no Palco Inverno Cultural. A chuva que caiu durante todo o dia e parou na noite, não desanimou as pessoas a comparecerem ao evento. Antes da apresentação, o músico fez uma passagem de som e contou que a importância de eventos gratuitos é a presença eclética de grupos variados e camadas sociais. O Palco Futebol dos Pés à Cabeça, no Largo Tamandaré, foi cenário da apresentação de João Bosco no domingo, 27. O cantor que está completando 40 anos de carreira tocou grandes músicas de seu repertório. A cantora Tiê apresentou, no Teatro Municipal no dia 31, canções de seus dois discos autorais e interpretou músicas de outros cantores. A artista também conversou bastante com o público, foi
JOÃO MAGALHÃES
fotografada com os fãs e disponibilizou venda de discos ao final do show. Após a apresentação de Tiê, a cantora e pianista Selmma Carvalho, de Nova Lima, levou ao Largo Tamandaré músicas de sua autoria presentes em seus quatros discos. Em entrevista ela ressaltou a dificuldade de ser um artista independe no Brasil e que o Inverno Cultural é importante para proporcionar ao público apresentações de diversos artistas que não estão presentes nas rádios e TV. O grupo de samba de São João del-Rei, Corda e Caçamba, conhecido pelas apresentações do Samba na Praça, tocou no Palco Futebol dos Pés à Cabeça no dia primeiro de Agosto. O show foi antecedido pelo Velha Guarda, vindo de Belo Horizonte, com seu repertório de sambas. Um dos organizadores do Samba na Praça e componente da produção do Corda e Caçamba, Thiago Bracarense, conta que esse é o terceiro ano em que o grupo se apresentou no Inverno Cultural: “Tocar no Inverno Cultural é sempre um prazer e uma responsabilidade muito grande, é um show diferente por conta do clima que toma conta da cidade nesses dias de festival”. Quem compareceu ao Largo Tamandaré pôde ouvir músicas de Noel Rosa, Cartola, João Nogueira e sambas regionais de Jota Dangelo e Chacal. O show de encerramento do 27° Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) foi feito pelo grupo Raimundos no Palco Inverno Cultural. Com muito rock e experiência que se estende desde os anos 80 a banda apresentou seu show que tinha o mesmo nome de seu último álbum: “Cantigas de Roda”.
No dia 14 de julho último, na igreja matriz de Nossa Senhora da Penha de França, em Resende Costa, foi presenciando a concorrida cerimônia religiosa, comemorativa do quarto centenário de morte de São Camilo de Lellis, com participação da Pastoral da Saúde de muitas paróquias da diocese, que senti a necessidade de apresentar ao leitor uma face pouco divulgada da pessoa do santo e, por conseguinte, sua atuação: o pioneirismo na humanização hospitalar. Como escreve o padre Augusto Mezzomo, meu coirmão de capelania hospitalar, nos anos de camiliano: “É realmente surpreendente que um homem ‘iletrado’, como se dizia, tenha conseguido fixar normas, orientações tão objetivas para a assistência aos doentes, a gestão dos hospitais e da saúde pública, que são válidas ainda hoje. As escolas de enfermagem mais modernas repetem o que ele prescreveu e viveu há quatro séculos” (Humanização hospitalar - fundamentos antropológicos e teológicos). Camilo de Lellis é capítulo obrigatório no estudo da História da enfermagem, da medicina e da saúde pública, justiça, aliás, feita a ele por Giorgio Cosmacini, médico e professor de História da Ciência e História da Medicina na Universidade Vita-Salute San Raffaele de Milão, Itália, em seu livro Camillo de Lellis: Il Santo dei Malati, Editori Laterza, 2003, traduzido, neste ano em comemoração ao quarto centenário da morte do santo, livro cujo nome em português adotamos como título desta matéria. Conforme seu primeiro biógrafo, o padre Sanzio Cicatelli (1570-1627) que conviveu com ele de 1589 até o falecimento, Camilo, “morreu no dia 14 de julho de 1614, às nove da noite aproximadamente, no dia de São Boaventura. Contava 64 anos, um mês e vinte dias de vida, quarenta anos após a sua conversão a Deus, 28 anos após a aprovação da Congregação por Sisto V e 23 após a constituição da Ordem [Padres Camilianos] pelo Papa Gregório XIV”. (Sanzio Cicatelli: “Vida do Pe. Camilo de Lellis” SP) Padre Cicatelli começa seu livro relatando o nascimento do nosso santo. “Camilo de Lellis, pai e fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos nasceu na Itália, em Buquianico, lugarejo da província de Abruzzo, no Reino de Nápoles, diocese de Quieti, cujos povos guerreiros antigamente levavam o nome de sanitas. Nasceu no dia 25 de maio de 1550, ano santo e primeiro do pontificado de Júlio III, quando era soberano das duas Sicílias o Imperador Carlos V”. Os pais, João de Lellis e Camila de Compellis tiveram dois filhos. O primeiro, José, morreu criança; Camilo nasceu bem mais tarde e foi um espanto, pois sua mãe tinha mais de 50 anos. Aos 13 ou 14 anos, perde a mãe. Em 1558, resolve “seguir seu
pai pelo mundo, em uma milícia”. Seu pai foi sempre um oficial militar (capitão), a vida toda a serviço das tropas que o convocavam. Em viagem para Veneza, onde se engajariam nas tropas que iam lutar contra os turcos, pai e filho adoecem. Já idoso (mais de 60 anos), o pai morre. Camilo sara, mas pouco depois, aparece-lhe uma ferida no pé, alastrando-se depois pela perna, que jamais se curou; melhorava, mas voltava sempre. Só largou dele com a morte. Que doença seria? O biógrafo médico, Giorgio Cosmacini, opina, baseando-se no laudo anatomopatológico do exame feito nos ossos de suas pernas em 1966: “das duas, uma: ou uma osteomielite que de aguda se tornou crônica, ou uma úlcera vascular venosa que tornou porta de infecção e de contaminação supurativa dos ossos da região”. Esta chaga o levará ao Hospital dos Incuráveis, São Tiago, de Roma. “Depois de uma estada de quase dez meses, inicialmente como paciente e hospitalizado, depois como convalescente e servente é ‘dispensado do hospital’, embora ainda não curado, expulso pela falta de cumprimento do regulamento hospitalar. ‘Camilo era de pouca paciência’ e ‘inclinado aos jogos de carta, a ponto de sair várias vezes do hospital para ir’ à margem do rio Tibre para jogar com os barqueiros de Ripetta”, escreve Cosmacini. Com a orfandade total, a vida de Camilo é um descalabro. Se antes já era, como o retrata Giovanni Papini, “fantasioso, libertino, bizarro”, entrando na vida militar, pois, com a ferida temporariamente sarada foi admitido, então... Continua Cosmacini: “Na soldadesca, a indisciplina abre caminho para a embriaguez, o jogo de azar (vício seu, até a conversão) os contatos carnais passíveis de trocas em contaminações venéreas (...). Bargellini, em sua obra Santi come uomini o descreverá ‘grande, vigoroso, violento’: é o perfil de um jovem homem que ‘brinca com a vida, para depois jogar o dinheiro nas tavernas, nas mesas de vinho ou nos acampamentos, sob os tambores revirados’”. Durante o período da soldadesca, a chaga se agrava e o corta definitivamente da vida militar. E é neste vai e vem no hospital São Tiago, nosocômio dos incuráveis, tratando-se e ao mesmo tempo cuidando dos doentes, trabalhando na rouparia etc., mantendo contato com religiosos e padres, sobretudo os frades franciscanos, que vem a mudança radical de vida e assim se dá a conversão, em 1575. Daí em diante a vida de Camilo se resume em batalhar, dia e noite, para o cuidado integral dos enfermos. Há que se melhorar, há que se reformar, há que se inovar tudo em prol da vida do doente, como veremos na segunda parte deste artigo. Nisso é um profeta que antecede aos tempos. Um precursor. Pertence ao quadro dos grandes benfeitores da humanidade.
16 Jornal das Lajes
ANO XI Nº 136 - AGOSTO DE 2014 / RESENDE COSTA - MG
Giro Esportivo
CÁSSIO ALMEIDA
30º Torneio de Futsal de Inverno é realizado em Resende Costa
No último dia 26 de julho, chegou ao fim mais um Torneio de Futsal de Inverno de Resende Costa. Em sua trigésima edição, o campeonato proporcionou a disputa de 94 jogos, em que foram marcados 792 gols - uma média de 8,4 gols por partida. As disputas aconteceram no tradicional Ginásio Poliesportivo Monsenhor Nelson e contou mais uma vez com a participação significativa do público. Esta edição do torneio contou com grande número de atletas inscritos - foram aproximadamente 500 jogadores em busca de uma das oito taças colocadas em disputa: Sub-9, Sub-11, Sub-13, Sub-15, Feminino, Veterano, Taça de Prata e Taça de Ouro. E quem conseguiu levar para a casa uma dessas taças, com certeza saiu satisfeito. Não houve uma categoria em que os times que chegaram às finais não estivessem
bem preparados para a disputa. Nas categorias infantis os jogos pareciam estar sendo disputados por adultos, tamanho o entrosamento e disciplina tática colocados em quadra pelos garotos das equipes do São José e Galaxy. Quem assistiu aos jogos dos pequenos atletas pode confirmar que o futsal de Resende Costa reserva ótimos jogadores para as futuras disputas. Na categoria Sub-15, uma equipe que leva o nome de um dos mais tradicionais times de Resende Costa, o Íbis, ficou com o título. Em uma final muito disputada contra a equipe do Borussia, o Íbis fez valer o nome e com um gol nos últimos segundos virou o jogo (3x2) e levou o troféu para a casa. Entre os veteranos, a final ficou por conta de uma das maiores rivalidades de Resende Costa, Expedicionário e Boca Júnior. E os experientes jogadores fi-
zeram um jogo bonito de se ver. O placar foi a prova disso: no apito final, 6x5 para o Expedicionário. Mas o que mais surpreendeu o público foi a disputa da categoria Feminino. Com um futebol de fazer inveja a muitos marmanjos, as meninas da UFSJ venceram a equipe da Fênix e levaram o título, provando que o futebol feminino evoluiu muito nos últimos anos. A equipe da Fênix também demonstrou ótimo futebol, deixando a impressão de que o título agora é só questão de tempo. Já na categoria Prata, a disputa ficou por conta de duas equipes relativamente jovens. Depois de passar pelas semifinais por placares apertados (Os Furões 4x3 Hadouken e Vasp’s 6x5 Matsubara) a equipe Os Furões, que vinha “beliscando” o título nos últimos anos, ficou com um dos troféus mais
Fotos Cássio Almeida
Os Malas conquistaram a Taça de Ouro após jejum de muitos anos de uma equipe resende-costense
Em final inédita na Taça de Prata, Os Furões foram campeões em 2014
Regional
Aconteceu em São João del-Rei audiência pública sobre transporte coletivo TAMIRES TRIBST A Prefeitura de São João del-Rei, através da secretaria de governo, realizou, no dia 30 de julho, uma audiência pública sobre a nova licitação do transporte coletivo da cidade. O evento ocorreu no teatro do colégio Nossa Senhora das Dores e é previsto no artigo 39 da lei n° 8666, que determina: “o processo licitatório será iniciado, obrigatoriamente, com uma audiência pública concedida pela autoridade responsável”. Estavam presentes o secretário municipal de governo e representante do prefeito Helvécio, Leonardo Silveira, a presidente da Comissão Temporária de Transporte, vereadora Vera do Polivalente e representantes da empresa Planum Planejamento e Consultoria Urbana responsável por apresentar um novo projeto de trânsito e transporte público em São João del-Rei. Representando a participação popular estavam, além de alguns cidadãos, a Brigadas Populares de São João del Rei, a União Municipal de Estudantes Secundaristas (UMES) e o Diretório Acadêmico Estudantil do Instituto Presidente Tancredo de Almeida Neves (DCE IPTAN). No decorrer da sua declaração, a vereadora Vera ressaltou que a audiência poderia ter contemplado um maior número de pessoas, principal-
mente usuários, porém, o público não foi tão grande como ela esperava. Assim como Leonardo Silveira, ela também destacou o fato de que pela primeira vez em uma administração é realizada uma audiência desse tipo na cidade. “Fico satisfeita de ver pela primeira vez isso acontecer (...) porque antes não acontecia, era na calada da noite que se fazia licitação.” Após a fala das autoridades, a população pôde fazer questionamentos e reclamações sobre o assunto. Cada pessoa teve o direito a três minutos. Em diversas vezes foi questionada a possibilidade de haver a gratuidade do transporte e o meio passe integral para os estudantes, pois, atualmente, só pagam meia tarifa em determinados horários. Em resposta o diretor técnico da empresa Planum, Luiz Wagner Balieiro, disse: “tarifa nada mais é do que o custo do transporte dividido pela quantidade de passageiros pagantes. No momento em que eu reduzo essa quantidade de passageiros a tarifa automaticamente é maior. No momento em que tenha meio passe ou algum tipo de gratuidade alguém tem que pagar.”. Uma das pessoas que participou das falas da população perguntou se na nova licitação haverá abertura para a criação de uma linha de ônibus entre
os campi da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Luiz Wagner respondeu que o critério de julgamento da nova licitação será a melhor proposta técnica com menor tarifa. A lei n° 8666 também determina que para iniciar um processo licitatório é necessário a elaboração de um projeto base, que foi apresentado pela empresa Planum durante a audiência. A apresentação feita pela empresa teve embasamento no trabalho e pesquisa realizada na semana do dia 20 de maio último. O projeto constituiu em levantamentos, diagnósticos e pesquisas de opinião realizadas nas ruas da cidade, que duraram três dias. Segundo divulgação no site da Prefeitura, todas as propostas e questionamentos levantados pelo público foram registrados em ata e gravados em vídeo e áudio. Também foi informado que os relatórios feitos pela Planum serão disponibilizados em breve. O processo da nova licitação está em andamento desde junho de 2013, quando, após manifestações contra o aumento da tarifa, a Prefeitura de São João anunciou o fim do processo licitatório da Viação Presidente. A empresa continuará operando na cidade até o final do processo e poderá concorrer para continuar na função e manutenção do transporte coletivo na cidade.
cobiçados pelos jogadores de Resende Costa, ao vencer a equipe do Vasp´s na grande final por 5x0. Ano que vem, segundo o regulamento, as duas equipes deverão disputar a difícil Taça de Ouro, mas pelo bom futebol que apresentaram este ano, têm tudo para representar muito bem a nossa cidade. Falando em Taça de Ouro, depois de muito tempo o troféu voltou para as mãos de uma equipe de Resende Costa. A proeza ficou por conta da equipe dos Malas, que venceu a Taça de Prata em 2013. Com alguns reforços vindos de Conselheiro Lafaiete, a equipe resendeCATEGORIA
-costense bateu o forte time do Rosário, de Tiradentes. O placar foi apertado (6x5) e quem teve a oportunidade de assistir ao jogo não vai esquecer tão cedo. Os destaques foram os atletas Lalado (Malas) e Dener (Rosário). Lalado, além de mostrar categoria, chegou a incrível marca de 22 gols. Já Dener, não fez tantos gols, mas mostrou um futebol que encantou os fãs do bom futsal. Depois de tantos jogos e disputas por títulos, o Torneio de Inverno mostra que tem lugar cativo no calendário de Resende Costa. CAMPEÃO/VICE
OURO
MALAS 6 X 5 ROSÁRIO
PRATA
OS FURÕES 5 X 0 VASP´S
FEMININO
UFSJ 4 X 1 FÊNIX
VETERANO
EXPEDICIONÁRIOS 4 X 3 BOCA JÚNIOR
SUB-15
ÍBIS 3 X 2 BORUSSIA
SUB-13
SÃO JOSÉ 5 X 4 GALAXY
SUB-11
SÃO JOSÉ 4 X 2 GALAXY
SUB-9
REAL 6 X 5 GALAXY
Série “Campeões brasileiros”
E o Vasco é o grande campeão de 1989! A equipe cruzmaltina repetiu o feito de 1974 e conquistou o seu segundo título nacional. A partida decisiva foi contra o São Paulo e o clube carioca venceu por 1x0. O Vasco disputou 19 jogos, vencendo nove, perdendo dois e empatando oito deles. Foram 27 gols pró e 16 contra. Túlio, do Goiás, foi o artilheiro com 11 gols e também foi considerado a revelação de 89. O craque daquele campeonato foi o vascaíno Bebeto. O Gigante da Colina conquistou o bicampeonato brasileiro com Acácio, Luis Carlos Winck, Quiñonez, Marco Aurélio, Mazinho, Zé do Carmo, Marco Antônio Boiadeiro, Bismarck, Sorato, Bebeto e Tato (William). Técnico: Nelsinho Rosa. Para a competição de 1989 foi
mantida a ideia do ano anterior, de descenso de quatro clubes e acesso de apenas dois, o que deixaria o campeonato de 1990 com o número considerado ideal de 20 clubes. O mico de 89 também ficou no Rio de Janeiro, mas com o Flamengo. A mídia fez grande alarde com a chegada de Borghi (campeão mundial com a Argentina em 1986) ao Fla, mas depois de apenas seis jogos e nenhum gol, o atacante se despediu do Rubro-Negro e voltou ao seu país. O ano marcou ainda a caída da ditadura no Brasil. Pela primeira vez, desde 1960, houve eleições diretas no país e Fernando Collor de Mello foi eleito presidente da República, sucedendo José Sarney, que ficou no cargo por cinco anos após a morte de Tancredo Neves.