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Edicao 110

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ANO IX Nº 110 - JUNHO 2012 / RESENDE COSTA - MG

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1912 – 2012: Centenário de Resende Costa é celebrado com muita festa Regional

A política são-joanense é destaque nesta edição na série “Política Regional”. As tradições, partidos e lideranças que marcaram a trajetória política na terra de Tancredo Neves abrem reflexões para o futuro político da cidade.

Página 11

Resende Costa é assunto em jornais de Belo Horizonte No último mês, temas referentes à saúde pública de Resende Costa foram debatidos em dois jornais de grande circulação no estado. Confira nesta edição a análise que o JL traz a respeito dessas publicações. Leia também o editorial na página 2. Página 06

O monumento a José de Resende Costa, pai, foi construído na Praça Cônego Cardoso, onde também localiza-se sua antiga residência

No dia 2 de junho, Resende Costa comemorou 100 anos de emancipação política. O JL esteve presente na cobertura de todas as solenidades e traz uma edição especial: Reportagens, fotos e crônicas registram este momento histórico para Resende Costa. Páginas 04 e 05


2 Jornal das Lajes Editorial Reportagem sensacionalista não macula uma instituição séria e respeitada

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A semana que antecedeu as comemorações do centenário de emancipação política de Resende Costa, celebrado oficialmente no dia 2 de junho, foi marcada pela repercussão de uma reportagem sobre o Hospital Nossa Senhora do Rosário, publicada no dia 24 de maio nos jornais “O Tempo” e “Super Notícia”, ambos de Belo Horizonte e pertencentes ao mesmo grupo empresarial. A reportagem intitulada “Faltam médicos e estrutura” diz que “moradores denunciam precariedade do serviço público de saúde”. Devido à repercussão, durante as solenidades comemorativas do centenário o assunto saúde pública foi abordado por alguns políticos e também por outras pessoas que convivem e, sobretudo, conhecem o Hospital Nossa Senhora do Rosário, administrado pelas irmãs Camilianas desde 1953. Quem visita o hospital de Resende Costa logo se impressiona com a administração e com a infraestrutura exemplares. O trabalho incansável das irmãs Camilianas, ao longo do tempo, certamente foi fator decisivo para que a antiga Santa Casa se evoluísse para uma instituição de saúde moderna, bem equipada, respeitada e reconhecida como referência regional de bom atendimento. A reportagem publicada nos jornais “O Tempo” e “Super Notícia” teve caráter eminentemente sensacionalista, para não dizer irresponsável. No conforto da redação e munida apenas por um telefone, a jornalista Luciene Câmara tentou passar ao leitor uma situação caótica no Hospital Nossa Senhora do Rosário e, por conseguinte, da saúde pública em Resende Costa. Chama a atenção o fato de a jornalista ter conversado apenas com duas fontes e a partir delas generalizado suas denúncias. Faltou a ela visitar pessoalmente o hospital, conhecer suas dependências, seus administradores, como também saber deles o que de fato é real nas denúncias que recebera. Isto não se faz apenas por telefone. Afirmar que o serviço público de saúde em Resende Costa é precário demandaria um trabalho jornalístico sério e apurado. Apesar da repercussão da matéria, e não poderia ser diferente, pois ambos os jornais são de grande circulação no estado, a população de Resende Costa, na sua grande maioria, sabe da importância do hospital para a cidade e valoriza os serviços prestados. Problemas existem, e talvez o mais grave deles seja a dificuldade para contratar mais médicos que possam atender a grande demanda atual de pacientes. Dois médicos para atender a todos que procuram a emergência do hospital e o ambulatório, além dos outros atendimentos, é tarefa humanamente impossível. O Hospital Nossa Senhora do Rosário, que é uma entidade filantrópica privada, possui convênio com o SUS e, como todos os hospitais filantrópicos do Brasil, enfrenta problemas, principalmente com a falta de recursos financeiros. A jornalista de “O Tempo” se quisesse ampliar sua reportagem, tornando-a imparcial e menos sensacionalista, poderia ter investigado como o hospital de uma cidade do interior com pouco mais de 10.000 habitantes supera as dificuldades e atende, também, pacientes de algumas cidades da região com a mesma dedicação e profissionalismo dispensados aos resende-costenses. Enfim, faltou o básico do jornalismo: checar devidamente as informações. Ao comemorar o centenário, podemos, com muito orgulho, dizer que o Hospital Nossa Senhora do Rosário é uma das principais conquistas de Resende Costa. Padre Nelson, que lutou tenazmente para que as Filhas de São Camilo assumissem definitivamente o hospital, assim escreveu no Livro do Tombo da paróquia em 1986: “Neste corrente ano, tornou-se realidade um sonho que vínhamos acalentando desde 1954: a doação às irmãs da Congregação das Filhas de São Camilo de toda a Santa Casa desta cidade com seus imóveis...”. A luta do padre Nelson não foi em vão. Ele sabia o bem que estava fazendo a Resende Costa.

Jornal das Lajes Ltda

CNPJ: 09.323.470/0001-60 Redação Rua Assis Resende, 95 - Centro Editora-assistente: Emanuelle Ribeiro (32) 3354-1323 - Resende Costa - MG CEP: 36.340-000 Diretor de redação: Rosalvo Pinto Editoração: Rafael Alves Editora de Esporte: Emanuelle Ribeiro Impressão: FUMARC - Av. Francisco Sales, 540 Jornalista responsável: Floresta - Belo Horizonte José Venâncio de Resende Registro Profissional: 10.894-SP Tiragem: 3000 exemplares Diretor Administrativo: Circulação: Eustáquio Peluzi Chaves Resende Costa e São João del-Rei Diretor de Contabilidade: Os artigos assinados não refletem Antônio da Silva Ribeiro Neto obrigatoriamente a opinião do jornal. Editor-chefe: André Eustáquio

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Meio Ambiente

De quem é o novo Código Florestal

Foi sancionado no último dia 28 o novo Código Florestal, que regulamenta a exploração da terra e dos recursos florestais no país. Dilma vetou 12 artigos e processou 32 modificações no texto aprovado pelo Congresso. O Governo expediu uma medida provisória (MP), que recompõe o conteúdo dos artigos vetados e modificados. Essas alterações ainda retornam ao Congresso, conforme prevê a Constituição. Assim, a MP ainda pode sofrer alterações. O Brasil é um dos países com maior disponibilidade de recursos florestais, sendo um dos maiores repositórios de biodiversidade e de água doce do mundo. Em grande medida, são essas riquezas naturais que colocam o país numa posição de relevância em debates internacionais, como no caso das mudanças climáticas ou do uso de energias limpas. Além de garantir alimento e qualidade de vida para gerações futuras, gerir bem as preciosidades naturais do país significa preservar uma espécie de “capital ambiental” da nação, que internacionalmente se reverte em poder geopolítico. Isto é, natureza e soberania no Brasil são questões que devem ser pensadas de maneira integrada. O Código Florestal define o quanto precisa ser preservado de vegetação nativa em cada propriedade rural (reserva legal) e que tipo de local é considerado área de preservação permanente (APP), como é o caso de margens de rios e nascentes, de topos de morros e de manguezais. Um dos pontos

centrais da discussão acerca do novo código era a diminuição das matas ciliares (vegetação das margens dos rios). A proposta aprovada no congresso previa, para os cursos d’água de até 10 metros de largura, a diminuição da faixa mínima de mata ciliar de 30 para 15 metros. Essa alteração foi vetada, sendo mantido o antigo estatuto de APP, no qual as matas ciliares variam entre 30 e 500 metros, de acordo com a largura do rio. A novidade sancionada em relação à APP é que o pequeno produtor poderá fazer uso sustentável dessas áreas mediante cadastro específico. Quanto à reserva legal, a maioria das regras permanecem. O tamanho da reserva é estabelecido de acordo com o bioma em que se localiza a propriedade rural. Com relação à Amazônia, foi aprovada pelo congresso e sancionada pela presidência a possibilidade de diminuição da reserva legal de 80% para 50% da propriedade rural, caso a unidade federativa possua mais de 65% de sua área protegida e/ou terras indígenas em seu território. No caso de Resende Costa, não há alterações. A reserva legal em nosso bioma (Cerrado/Mata Atlântica) deve representar 20% de cada propriedade. Outra questão polêmica dizia respeito a uma possível anistia aos desmatadores, isto é, à extinção da obrigatoriedade de recomposição das áreas de APP em locais com atividade agrícola estabelecida. O texto aprovado no congresso transferia para os estados a definição

FERNANDO CHAVES

dos critérios de recomposição vegetal nas grandes propriedades, o que foi visto por ambientalistas como possível anistia. O artigo foi vetado e as regras fixadas nacionalmente, de acordo com o tamanho da propriedade, sendo mais flexível para as menores e mais rígida para as maiores. O novo Código Florestal com certeza não é o código dos ambientalistas. Ele faz concessões ao agronegócio e à expansão da fronteira agrícola. A possibilidade de alguns estados do bioma amazônico diminuírem o percentual de reserva legal em seus territórios é uma flexibilização que atende a uma parcela dos interesses ruralistas. Por outro lado, não queremos acreditar que o novo Código Florestal seja simplesmente o código do agronegócio. Alguns vetos foram fundamentais para conter o avanço do interesse econômico sobre as florestas, além de refletirem uma parte dos anseios sociais expressos nos movimentos pelo veto presidencial. O grande desafio do Estado continua: fazer cumprir a legislação. Se cumprido, o novo Código pode ser até mesmo uma referência internacional. Nosso país é o único no mundo a exigir a manutenção de reserva legal em propriedades privadas. Se a lei for cumprida, se o Estado se fizer presente... Aí sim, poderemos dizer que nosso Código Florestal não é o código dos ruralistas ou dos ambientalistas, mas sim o código da sociedade brasileira, democrático e eficiente.

Informe

COMUNICADO O Hospital Nossa Senhora do Rosário, entidade filantrópica, PRIVADA, conveniada com o SUS, vem ao público comunicar o seguinte:

SUS e Prefeitura Municipal, INICIANDO processo legalmente estudado de suspensão das atividades ambulatoriais e pronto socorro nesta entidade;

Em virtude das recentes publicações/comentários na internet, após publicação de determinado órgão de imprensa, está tomando algumas providências:

3 – Comunicar formalmente à comunidade e à gestão local, regional do SUS esta decisão;

1 – Interpelar judicialmente os referidos jornais pela publicação de matéria tendenciosa e difamatória acerca de nossa entidade e seus médicos; 2 – REVER o contrato de prestação de serviços com o

4 – Esclarecer que enquanto não conseguirmos mais profissionais para esta prestação de serviços, não estamos dispostos (Hospital e médicos) a passar por difamações, calúnias etc. Trabalhamos no limite de nossas possibilidades e acreditamos que a maioria ABSOLUTA da

população nos apóia. Estaremos sempre dispostos a discutir com a população e gestão do SUS tais questões. Por isso, a partir desta data (01 de junho), não atenderemos mais consultas eletivas, e, sim, dentro do nosso contrato celebrado do SUS e este hospital, que são casos de urgência/emergência.

Dr. Paulo Cézar Fortuna Dias – CRM: 9981 – Diretor Técnico Dr. Luiz Antônio Pinto – CRM: 16.690 – Diretor Clínico Ir. Amélia Herold – Diretora Administrativa


Jornal das Lajes

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Voz do Cidadão

Era só responder: sou ateu... “Uma pergunta que faz parte da anamnese e que consta em todos os livros de semiologia médica não deveria deixar tão indignada a senhora que, através do Jornal das Lajes (Ed. 109, Voz do Cidadão, p. 03) veio se manifestar. Desconhece, a dedicada mãe, que o Hospital Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa é uma entidade particular que presta serviço público e que, mesmo sendo uma fundação católica, respeita todas as seitas e religiões, cuidando sempre para que cada paciente receba, de acordo com suas convicções, a assistência espiritual que desejar, como por exemplo: uma bênção para um católico, a visita de um pastor para um evangélico, ou o direito de uma testemunha de Jeová de não receber transfusão sanguínea. Então, por que tamanha indignação? A partir de então, passa a questionar a falta de médico naquele momento (por volta das 2h da manhã), para avaliar a causa de uma febre que se manifestou por duas vezes durante o dia, e que só foi preocupá-la na madrugada, esquecendo-se que o único serviço de pronto atendimento regional é a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São João del-Rei. Ali, sim, seria identificada e talvez teria

iniciado o tratamento da amigdalite que provocara a febre e tanta preocupação causara à zelosa mamãe. Como entidade participante do sistema SUS, não dispomos de recursos que possam atrair novos profissionais, inclusive médicos especialistas para exercerem suas atividades em Resende Costa. Mesmo com repasses financeiros realizados pelo Poder Municipal não conseguimos ampliar nosso quadro de médicos. Denúncias vazias e sem identificação, usando nomes e situações não autorizadas pelas pessoas citadas são práticas jornalísticas irresponsáveis, como denunciar, sem o menor conhecimento de causa, óbito de paciente com intoxicação alcoólica grave, por receber glicose. Tais reportagens, irresponsáveis, geram oportunidade para que pessoas que não gostam do hospital, dos profissionais e dos serviços ali prestados, se escondam na incapacidade de identificação, com nomes falsos, pela internet, e façam comentários jocosos que demonstram inveja e frustração, pois a maioria da nossa população, e até de cidades vizinhas, reconhecem a utilidade dos serviços prestados, principalmente aos nossos irmãos de menos recursos, que não dispõem de convênios particulares

e que conhecem como é o atendimento SUS por este Brasil afora. Continuaremos prestando serviços ao nosso povo; lógico, com novas normas e regimes de funcionamento. E, para aqueles que não gostam e não precisam, existem UPAs e médicos particulares e conveniados que, com certeza, não deixarão de atender, mesmo que sejam simples amigdalites. Informamos que providências jurídicas estão sendo tomadas pela direção do hospital, no sentido de responsabilizar os autores de denúncias anônimas e vazias...” Diretoria técnica e administrativa do Hospital Nossa Senhora do Rosário de Resende Costa Nota da redação: Esclarecemos ao leitor que as “denúncias vazias e sem identificação....” acima mencionadas pela diretoria técnica e administrativa do Hospital Nossa Senhora do Rosário não foram veiculadas em nenhuma reportagem do Jornal das Lajes, tanto no impresso quanto na versão online. O JL zela pela qualidade das suas reportagens, procurando checar as informações passadas à redação, bem como ouvir as partes envolvidas em qualquer denúncia jornalística.

“Às irmãs Camilianas: Peço licença à Redação do Jornal das Lajes e aos leitores para me dirigir às reverendíssimas irmãs, Filhas de São /Camilo. Nasci em Resende Costa e, embora resida em Belo Horizonte, frequento regularmente minha amada cidade. Tenho 66 anos e era ainda criança quando festivamente esta terra recebeu as quatro primeiras irmãs Camilianas. Estava lá, na escadaria da Santa Casa, naquela tarde. De lá para cá, em mais de meio século, talvez atinja alguns milhares o número de resende-costenses ali nascidos. Desculpem-me o fato de citar apenas alguns nomes a título de exemplo. Sempre houve mãos dedicadas e competentes como as de irmã Inácia, irmã Paulina e irmã Ernestina para acolher um novo cidadão, independente de sua cor, religião ou classe social!. Dificilmente um resende-costense poderá afirmar que nunca teve um familiar atendido por este hospital limpíssimo, bem equipado e com uma equipe de trabalho tão bem preparada! Ou acolhido no Lar São Camilo, quando a família não teve condições de exercer esse cuidado.

Por esta jóia de hospital passaram várias superioras formadas em administração hospitalar ou enfermagem. São mulheres que deixaram suas famílias e suas terras para cuidar de pessoas que nem sequer conhecem. E o fazem com extrema dedicação, porque cultivam o carisma de seu fundador, São Camilo de Lélis e, sobretudo, seguem os passos de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo apenas acolhendo, curando, confortando... Portanto, caras irmãs, quero em nome de todos que um dia receberam qualquer forma de atendimento no Hospital Nossa Senhora do Rosário ou no Lar São Camilo de Lélis, para si ou um familiar seu, agradecer o seu carinho e pedir perdão pelas calúnias e difamações sofridas recentemente. Peço que estendam a toda a sua valorosa equipe as desculpas que lhe são devidas e a gratidão pelos excelentes serviços prestados a esta cidade em mais da metade de seus 100 anos de existência! Atenciosamente, Maria Lúcia Pinto Roman”


4 Jornal das Lajes

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Especial Centenário de Resende Costa

Resende-costenses homenageiam a centenária cidade O centenário de Resende Costa é um acontecimento que deve ser lembrado e comemorado por todos os resende-costenses. Ao longo de todos esses anos, muitos personagens fizeram história em nosso município. O Jornal das Lajes, há nove anos participando dessa história, conversou com algumas pessoas que representam setores e entidades da sociedade resende-costense sobre a importância desta data e sobre o monumento ao Inconfidente José de Resende Costa, o pai. Padre Eder Santos – pároco de Resende Costa: “Esta data é mais uma página para a história de Resende Costa. O monumento de José de Resende Costa é uma homenagem justa ao Inconfidente que iniciou o município. Muitos foram os representantes desse centenário e não podemos nos esquecer do Monsenhor Nelson, que durante 44 anos fez história aqui e junto a outras figuras importantes contribuiu para que Resende Costa celebrasse seus 100 anos”.

---------Rosalvo Pinto – representante da Amirco: “Esta comemoração é importante, significativa, simbólica para nós de Resende Costa, sobretudo por homenagear os inconfidentes José de Resende Costa Pai e Filho, que

nos deixaram dois importantes legados: a luta pela liberdade e, para nós resende-costenses, o nome de nossa cidade”.

---------Adriano Magalhães – secretário municipal de educação e cultura: “O monumento é um registro público de um homem importantíssimo para a história de Resende Costa e também de Minas e do Brasil, devido à sua participação na Inconfidência Mineira. A gente pode pensar num futuro quando temos memórias. É importante falar do constante desenvolvimento vivido pela cidade nos últimos 30 anos, com destaque para o turismo e o artesanato. Os 100 anos são um marco”.

---------Luís Cláudio dos Reis – presidente da Câmara Municipal: “É um marco importante para a cidade, tendo em vista que antes do movimento de emancipação política, muitas pessoas por aqui passaram e ajudaram a construir o nosso município. E nesse ano, comemorando o

centenário, ganhar o monumento homenageando um dos mártires da Inconfidência, Resende Costa reafirma sua identidade e participação no movimento de liberdade do nosso Brasil”.

---------Adilson Avelino – prefeito municipal: “Neste centenário, eu tenho o privilégio de inaugurar o monumento dessa figura ilustre na Praça Cônego Cardoso, onde teve início nossa cidade. Com certeza os ideais de José de Resende Costa nos trouxeram esse civismo, amor por Resende Costa que demonstramos hoje. Nesses 100 anos que Resende Costa caminha com suas próprias pernas, eu me sinto satisfeito com o desenvolvimento do município, com o trabalho e a inteligência do nosso povo”.

---------Cícero Chaves – presidente da Asseturc: “É gratificante saber que os resende-costenses, sempre que passarem pela Praça, vão poder ver esse monu-

mento, massificar na memória o que significou o capitão José de Resende Costa para o movimento dos conjurados e criar essa identidade, de que Resende Costa está inserida nesse contexto histórico da região. É importante também para o turismo, mas principalmente para o resende-costense conhecer melhor a história do nosso Inconfidente. José de Resende Costa, um homem que tinha capital e cultura”.

---------Ângelo Márcio – coordenador do MAC: “A importância do centenário está também no sentido de recordar, analisar tudo o que foi feito de bom e de ruim e tentar melhorar. Com relação à cultura e ao MAC, acredito que a maior necessidade é a aprovação de um calendário de eventos para não ficarmos restritos a datas comemorativas, como Carnaval, Semana Santa etc.”.

---------Flávio Henrique – presidente do Expedicionário: “Assim como nossa cidade se desen-

volveu muito nestes 100 anos, podemos dizer o mesmo do esporte. Onde antes se jogava bola num campo de terra, hoje temos vários ginásios, campos gramados e iluminados. Mas temos muito ainda que caminhar e lutar. O mais importante dos desenvolvimentos foi o da conscientização de que esporte e saúde caminham juntos”.

---------Cláudio Luís – presidente da Rádio Inconfidentes FM: “Neste período festivo e importante é importante se lembrar das muitas pessoas que deram sua contribuição para a manutenção e melhoria de nossa Resende Costa. Lembrar-se de todos? Tarefa muito difícil. Ousaria me lembrar de um apenas, o nosso saudoso padre Nelson. Sua história de vida misturou-se com o desenvolvimento da nossa cidade, pois foram 44 anos aqui vividos e que marcaram esse centenário. Suas atitudes e palavras foram determinantes para ajudar na moldagem e consolidação de nossos valores e de nossas mais fortes tradições culturais e sociais”.


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ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Especial Centenário de Resende Costa

ANDRÉ EUSTÁQUIO / EMANUELLE RIBEIRO

Centenário de Resende Costa foi comemorado com programação especial

Com o intuito de comemorar os 100 anos de emancipação política de Resende Costa, a Prefeitura Municipal elaborou uma programação especial. No dia 2 de junho, sábado, as festividades tiveram início logo cedo com a abertura oficial na praça Coronel Souza Maia, ou como muitos conhecem, praça do Rosário. “Celebrar o aniversário de Resende Costa nos faz recordar sempre que a cidade possui uma identidade cívica. Com certeza estamos subindo os mais altos degraus do desenvolvimento”, declarou o prefeito municipa,l Adilson Avelino de Resende. A cerimônia oficial de abertura foi emocionante, bem organizada e trouxe boas lembranças da Resende Costa de outrora. O secretário municipal de Educação, Adriano Magalhães, esteve à frente das organizações do evento e apresentou a solenidade na manhã do dia 2 de junho. “É uma felicidade imensa organizar as comemorações do centenário. Deixo meus agradecimentos aos colegas de trabalho e ao público. É uma exclusividade participar de um centenário, e quero dizer que fizemos todo o possível para que tudo acontecesse da melhor forma”, disse Adriano. Diversas autoridades civis, políticas e militares compareceram à cerimônia de abertura e prestaram suas homenagens ao município. O presidente da Câmara Municipal de Resende Costa, Luís Cláudio dos Reis, afirmou: “A gente sabe das dificuldades e das exigências para se conseguir a emancipação política de um município. Em 1912, um grupo de pessoas formou um movimento pela autonomia de Resende Costa e, 100 anos depois, poder participar dessa comemoração é muito gratificante”. As escolas do município foram destaque na manhã de sábado na praça Coronel Souza Maia, palco oficial das comemorações. No desfile organizado pelas escolas, os alunos contaram a história de Resende Costa, destacando a política, a educação, a saúde e as tradições da cidade. A APAE e os profissionais da saúde do município abriram o desfile, que se encerrou com o pelotão e a banda de música do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha do Exército Brasileiro, Regimento Ti-

radentes, de São João del-Rei.

Desfile das escolas do município A Escola Municipal Conjurados Resende Costa trabalhou o tema “Cultura, esporte e lazer”. Professores e alunos usaram da criatividade para contar, passo a passo, a história de Resende Costa ao longo de um século. Exposição agropecuária, cinema, teatro e a religiosidade em Resende Costa foram apresentados pelos alunos do Conjurados. As manifestações folclóricas e populares também foram lembradas, como as folias de reis e congados, o esporte e a música. A escola também destacou os movimentos e associações culturais de ontem e de hoje. O Jornal das Lajes, que em abril último comemorou nove anos de existência, também foi homenageado pela Escola Conjurados. “O desfile fez com que a comunidade e os alunos pudessem conhecer mais a fundo a história de Resende Costa. Para os próximos anos, a gente espera mais estrutura na Educação para atendermos a demanda de alunos, uma vez que Resende Costa vem só crescendo”, disse Solange Lídia, diretora da Escola Municipal Conjurados. “Os Fundadores de Resende Costa” foi o tema da Escola Municipal Paula Assis, do povoado do Ribeirão de Santo Antônio. O desfile dos alunos foi aberto com a apresentação de fotografias das três fazendas que deram início à fundação do então Arraial da Lage: Fazenda dos Campos Gerais, Fazenda das Éguas e Fazenda da Laje. A escola destacou também a trajetória política de Resende Costa; cada prefeito, desde a emancipação em 1912 até hoje, teve seu rosto desenhado em grafite. A escola Paula Assis não deixou de homenagear os expedicionários resende-costenses, que lutaram na Segunda Guerra Mundial; o expedicionário José Mendonça de Resende, já falecido, recebeu homenagem especial: o bisneto Augusto vestiu a mesma farda com a qual o avô lutou nos campos de batalha na Itália. “A Escola Municipal Paula Assis é uma importante fonte de educação do município. Nesses 100 anos, em que a gente comemora o desenvolvimento da Educação, vemos que hoje para se concluir o curso fun-

Os profissionais da saúde abriram os desfiles das comemorações do centenário

damental não há dificuldades, o acesso à educação é muito mais fácil. Acredito que um investimento necessário seria a implantação de cursos técnicos, possibilitando a profissionalização dos alunos”, declarou Virgínia Daher, diretora da Escola Municipal Paula Assis. Já a Escola Estadual Assis Resende contou a “Trajetória da Educação em Nosso Município”. Faixas, cartazes e alunos devidamente caracterizados apresentaram personagens e acontecimentos que marcaram a educação no Brasil e em Resende Costa ao longo do século 20 e início do 21. Se analisarmos as conquistas de Resende Costa, desde 1912 até os dias de hoje, sem dúvida alguma a escola Assis Resende é uma das principais. A escola Assis Resende, apesar dos desafios atuais, especialmente a escassez de espaço físico para atender a grande demanda de alunos, é referência no ensino. Dentro das conquistas atuais, destaque para o satisfatório índice de aprovação dos seus alunos nos vestibulares e concursos Brasil afora. “Esta data simboliza a conquista do povo de Resende Costa. A nossa escola veio homenagear essa conquista, que passou pela Educação. Fizemos questão de representar todos que fizeram e ainda fazem parte da Educação”, contou Andrea Lima, diretora da Escola Estadual Assis Resende. Por fim, as escolas municipais dos povoados e a escola estadual do distrito de Jacarandira homenagearam a centenária Resende Costa, destacando os “Espaços Públicos de Convivência” e os Conselhos Comunitários.

O Verso e o Controverso

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JOÃO MAGALHÃES

Resende Costa centenária: versos de homenagem Na minha coluna, desta vez, só o verso, enquanto poema. O controverso aconteceria se o objetivo fosse analisar as qualidades poéticas ou não do soneto. Não é o caso. Numa pesquisa no maravilhoso Livro do Tombo da paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, escrito pelo Padre Nelson, casualmente, chamou-me a atenção um título: “Saudação a Resende Costa”. É a poesia que transcrevo para nossos leitores. Mira esta cidade serrana assentada sobre uma laje. Uma “urbe” construída num monte, não ficará escondida. Como Jerusalém e Diamantina sempre uma imagem Dum farol, como arco de paz constante acendida. * Palco ilustre de preclaros inconfidentes mineiros, Não de um, mas de dois, pai e filho juntamente, Hás de falar por todos os séculos dos pioneiros

Da liberdade tardia, que jamais esmaece justamente.

* Antes de ambos partirem para o longínquo degredo, Ouro debaixo dos botões a esposa lhes costurava. Deste modo fidelidade e coragem singular inspirava. * Resende Costa, aprumada para o alto te elevas! Teu povo, joelhos na laje, mãos para o céu sustenta. Como Moisés na batalha, a vitória no peito acalenta”. Até agora não conseguimos notícias do autor: Frei Gotardo Boom, OFM. Portanto, padre franciscano. Escreveu o soneto em Ritápolis, no dia 26 de outubro de 1968. O frei merece elogio. Dentro da forma difícil, pois, curta, fixa e travada do soneto clássico, transmitiu aspectos bem significativos de nossa cidade, com chave de ouro e tudo!

Homenagens e entrega da medalha José de Resende Costa Desde 2009, Prefeitura e Câmara Municipais homenageiam, no dia 2 junho, com a medalha Honra ao Mérito José de Resende Costa, pessoas que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento do município. Especialmente neste ano do centenário, todos os ex-prefeitos, vivos e falecidos, receberam a homenagem, são eles: Coronel Francisco Mendes de Resende, José Vilela da Costa Pinto, José Gabriel de Resende, Antônio de Sousa Maia Júnior, Geraldo Monteiro de Oliveira, Antônio de Resende, Milled Hannas, Adenor de Assis Coelho, Ocacyr Alves de Andrade, Aristides Coelho dos Santos, Camilo Lélis Resende Chaves, Luiz Antônio Pinto, José Rosário Silva e Gilberto José Pinto. Sebastião Pascoal da Silva Melo, Sebastião de Souza Lima, Maria de Lourdes Silva Teixeira, Maria Libânia de Resende, Pedro de Sousa Santos, Flávio Henrique Coelho, Antônio de Paula Pinto, José Coelho de Andrade, Gervásio Mendonça Chaves, Antenor Noé de Sousa foram indicados para receber a medalha José de Resende Costa. Além disso, receberam a medalha por terem completado 25 anos de serviço: Diniz José da Silva (auxiliar de serviços gerais), Mariléia Fátima Resende (professora) e Silvanda Maria Resende (professora, diretora e pedagoga).

Terezinha Mendes, filha do coronel Mendes, recebeu a homenagem das mãos do vereador Abel

Luiz Antônio Pinto, médico e prefeito do município na década de 1990 pelo PT, falou a respeito da homenagem e também da atual situação da saúde em Resende Costa: “Eu me sinto honrado pela homenagem e por ter dedicado parte da minha vida à administração da cidade [...] Saúde e Educação sempre foram os grandes desafios para qualquer município. Na Saúde, área que atuo, acho que a grande carência é a falta de recursos. O SUS remunera há 15 anos com o mesmo valor de uma consulta básica, ou seja, R$ 2,50, que o médico reparte com a entidade. Somos apenas dois residentes atendendo aqui e o principal desafio (já tivemos várias conquistas) é fixar mais profissionais. O deputado Reginaldo Lopes anunciou que o curso de Medicina da UFSJ, hoje em Divinópolis, também será ministrado em São João del-Rei e eu vi com

grande esperança para os próximos anos a solução para esse desafio. Mas acredito que a população reconhece os grandes benefícios que o Hospital e os profissionais da saúde prestam à comunidade”. Para encerrar as comemorações da manhã de sábado, a banda de música do 11º BI, sob a regência do maestro titular, o resende-costense tenente Noé, realizou apresentação musical inesquecível, digna das comemorações do centenário. O repertório eclético contemplou desde temas musicais clássicos do cinema até música sertaneja e samba. A banda do exército é sempre presença marcante em todas as ocasiões festivas em Resende Costa das quais participa. Neste ano especial, fechou com chave de ouro as solenidades cívicas do dia 2 de junho.


6 Jornal das Lajes

Um Olhar sobre Resende Costa

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG ANDRÉ EUSTÁQUIO

Monumento a José de Resende Costa (Pai): A cidade, no ano do centenário, homenageia seu filho herói

A estátua do Inconfidentes José de Resende Costa é um tributo definitivo ao herói que dá nome à cidade

No dia 1º. de junho, sexta-feira, foi inaugurado, no coração da praça Cônego Cardoso, o monumento ao inconfidente José de Resende Costa, o pai. O evento marcou o início das comemorações do centenário de Resende Costa e contou com a presença de autoridades municipais, políticos que representam a região, como o ex-deputado estadual Carlos Gomes (PT) e o deputado Federal Reginaldo Lopes (PT), além de representantes de diversos setores da sociedade resende-costense e populares que prestigiaram a solenidade. A estátua de José de Resende Costa foi esculpida em cimento pelo artista são-joanense “Miguel Santeiro”. O escultor se inspirou no resultado da reconstituição da face do Resende Costa, realizada por cientistas da Unicamp. Já o projeto do monumento teve a assinatura do arquiteto Fábio Silva, da cidade de Ritápolis. O movimento libertário setecentista conhecido como Inconfidência Mineira foi destacado em quase todos os discursos durante a solenidade. O professor Rosalvo Pinto, autor de um livro sobre os Inconfidentes José de Resende Costa (pai e filho), enfatizou a participação dos inconfidentes no movimento e as reuniões secretas que aconteceram no “Arraial da Lage”: “Na casa que se situa nes-

ta praça, ou na Fazenda dos Campos Gerais, aconteceram reuniões secretas, inclusive uma que marcou a adesão ao movimento daquele que seria o traidor, Joaquim Silvério dos Reis”. O secretário de Educação, Esporte, Cultura e Lazer, professor Adriano Magalhães, falou da importância do monumento para o registro definitivo da história de Resende Costa. Para o prefeito municipal, Adilson Avelino de Resende, “o monumento marca a identidade cívica de Resende Costa”. Já o deputado federal Reginaldo Lopes destacou “o sonho de liberdade”, marco do movimento. Durante a solenidade de inauguração, destaca-se a participação da banda de música Santa Cecília, que também está comemorando seu centenário neste ano. Sob a regência do maestro João Tomás Silvério, a banda executou o Hino Nacional Brasileiro e o Hino de Resende Costa. O ponto alto da inauguração foi justamente durante a execução do Hino de Resende Costa, quando o prefeito Adilson e o vice-prefeito João de Paiva Filho (Bita) descerraram a estátua do inconfidente. Uma efusiva queima de fogos marcou o momento histórico. A emoção era claramente vista no semblante e nos aplausos dos resende-costenses presentes na praça Cônego Cardoso. Sobre o Capitão José de Resende Costa, assim escreveu o professor Rosalvo Pinto, em artigo publicado na revista especial do centenário de Resende Costa: “O capitão José de Resende Costa, o pai, nasceu no Arraial dos Prados, atual Prados. Há controvérsias sobre o ano de seu nascimento. Pelos registros do seu batistério (foi batizado no dia 13 de junho de 1730 na matriz de Prados) e de alguns documentos dos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, teria

sido mesmo em 1730. Não se sabe ao certo quando ele teria vindo morar no “Arraial da Lage”, em sua fazenda chamada “Campos Gerais da Lage”. Terá sido, com certeza, antes de 1756 (quando ele tinha 35 anos), pois seu filho nasceu nesse ano, já no arraial, como ele mesmo o declarou nos autos do processo de sua condenação, no Rio de Janeiro, em 1791”. O monumento a José de Resende Costa, como bem destacou o secretário municipal Adriano Magalhães, registra definitivamente a importância dos dois inconfidentes, pai e filho, para a história de Resende Costa. Muitos resende-costenses, que nunca ouviram falar dos nossos conterrâneos heróis, a partir de agora, ao passar pela praça Cônego Cardoso, poderão certificar-se de quem foram e o que representaram para a cidade. “Os dois Resende Costa deixaram a seus conterrâneos dois preciosos legados: o exemplo do idealismo pela nobre causa da liberdade, com o risco de suas vidas, e o belo nome para nossa cidade, que completa neste ano 100 anos de emancipação”, concluiu Rosalvo Pinto. A não inclusão da estátua do José de Resende Costa (filho) no monumento, ao lado do seu pai, se deve ao fato de que seus restos mortais não foram encontrados até a presente data, em que pese o fato de que ele tenha sido enterrado em 1841 na igreja de São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro, bem mais perto de nós e 43 anos depois de seu pai, que foi enterrado na longínqua África. Como foi possível recompor os traços da face do pai – o único inconfidente a ter esse privilégio! -, julgou-se conveniente não fazer sua estátua, por enquanto, no aguardo de uma esperada descoberta dos restos mortais do filho.

Artigo

FERNANDO CHAVES*

Resende Costa nas páginas dos jornais Super Notícia e O Tempo

Há algumas semanas o serviço hospitalar de Resende Costa foi pauta dos jornais Super Notícia e O Tempo de Belo Horizonte. As matérias, lamentavelmente, foram desleais com nossa cidade. Como a repórter sequer veio a Resende Costa, optando por fazer a apuração à distância, suas conclusões sobre o Hospital Nossa Senhora do Rosário foram equivocadas. As publicações repercutiram, especialmente a do Super Notícia. Iniciou-se um grande debate em Resende Costa. De um lado, os cidadãos fazem questionamentos quanto ao número de médicos que atendem na cidade e quanto à qualidade do atendimento prestado. Do outro, hospital e prefeitura argumentam que se empenham para contratar outros profissionais, mas que têm dificuldades frente à escassez de médicos em todo o Brasil, e frente às limitações orçamentárias do município. Segundo a prefeitura, foram realizados recentemente dois concursos públicos para a contratação de médico, e neles o único profissional inscrito não foi aprovado. Não vou avaliar a fundo os serviços de saúde de Resende Costa, até porque não tenho conhecimento para isso. Pretendo apenas, como estudante de Jornalismo da UFSJ, tecer alguns comentários sobre a apuração jornalística feita pela repórter Luciene Câmara. O Super Notícia pertence ao mesmo grupo empresarial do jornal O Tempo. Ambos são publicados pela Sempre Editora, o que explica a abordagem do assunto pelos dois jornais. As duas matérias foram produzidas pela mesma jornalista, que trabalha simultaneamente para O Tempo e o Super Notícia. O que se vê nas matérias é um exemplo representativo do que é a imprensa mineira: pouco profissional e tendenciosa. Vejam que curioso: foram destaque nas reportagens os supostos atendimentos médicos por telefone. No entanto, a própria repórter não se incomodou de exercer a sua atividade profissional por telefone. O bom jornalista sabe que matérias envolvendo denúncias, renome de profissionais e instituições, devem ser apuradas pessoalmente. Essas matérias devem ter teor investigativo, e não teor declaratório, com base apenas em fontes.

A escassez de profissionais de que fala a jornalista é inquestionável. Infelizmente, a falta de médicos é um fato antigo, não só em Resende Costa. Mas, quanto à instituição hospitalar, a avaliação da jornalista foi insensata. O Hospital Nossa Senhora do Rosário é referência regional, chegando a auxiliar cidades vizinhas como Lagoa Dourada, Prados, Entre Rios de Minas e até mesmo São João del-Rei. Se a jornalista tivesse visitado nossa cidade e examinado as reais condições do hospital, não cometeria a insensatez de colocar no título de uma das matérias que “falta estrutura” na saúde pública de Resende Costa, nem teria ressaltado a “precariedade dos serviços de saúde” da cidade, como o fez. As duas matérias pouco contribuem para um debate sobre os reais problemas do SUS. Não houve a preocupação de contextualizar o problema da falta de médicos, que é um drama vivido no interior do país. Uma coisa é debater problemas buscando entendê-los efetivamente, para apontar soluções. Outra é usar as dificuldades dramáticas da saúde pública brasileira para ganhar audiência. A repórter não cumpriu os princípios consagrados do jornalismo. Usou poucas fontes, não visitou o lugar pessoalmente e sequer respeitou o direito de sigilo de um dos denunciantes, que teve injustamente seu nome publicado no texto. Não surpreende uma apuração sem critérios em um jornal como o Super Notícia. Quanto ao jornal O Tempo, que é mais conceituado, é lamentável saber que tem se degenerado. Esse tipo de jornalismo não contribui com nossa cidade. Não virão a Resende Costa propor saídas efetivas para os nossos problemas. Dificilmente se interessariam pelo nosso artesanato, pelo nosso centenário, ou pelas qualidades do nosso povo. Estão interessados no infortúnio e no extravagante. Seu maior objetivo é a audiência. Querem nos usar para ganhar dinheiro. Para mim, esse tipo de mídia não é bem-vindo à Resende Costa. *Estudante de Jornalismo da UFSJ e colunista do Jornal das Lajes


Jornal das Lajes

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Aconteceu

7

EMANUELLE RIBEIRO

Resende-costenses ganharam uma semana de eventos no centenário As comemorações do centenário percorreram toda a primeira semana de junho e o público curtiu apresentações variadas, desde o sertanejo, passando pela viola e pagode, até o rock. No dia máximo da festa, dois de junho, a Praça do Rosário recebeu grande quantidade de pessoas, fãs de Chico Lobo e Tianastácia. A apresentação do violeiro Chico contou com a participação do músico resende-costense Max Lara e os dois viram todos na Praça dançarem ao som da viola. “É uma honra fazer parte do centenário. No meu início de carreira eu vinha muito à cidade, tenho muitos amigos aqui. Seguindo carreira, viajando por todo o Brasil e também pelo exterior, poder voltar nesta data marcante e fazer este belo show, com toda essa estrutura, é um orgulho. Que Resende Costa possa crescer sempre”, disse

Chico. O show da banda Tianastácia também foi espetacular e fez jus ao centenário. Os músicos mandaram super bem. Em entrevista com um dos vocalistas, o Podé, ele disse que a banda está gravando um novo disco que será lançado em breve e deixou o seu recado: “Poder dividir com as pessoas daqui uma data tão importante que é o aniversário de 100 anos de Resende Costa, fazendo o que a gente mais ama, é um grande prazer”. Além disso, os resende-costenses puderam apreciar as bandas locais, com as apresentações do MAC (Movimento Arena Cultural), e observar o surgimento de grandes talentos no nosso município. Outros shows, como os de Billy The Kid, projeto “VivaViola 60 cordas em movimento”, Quebraê e Juninho Mattos fizeram parte do nosso centenário.

Ao som da viola, Chico Lobo encantou a plateia presente na Praça do Rosário

Dia das Mães premiado

O Supermercado Sobrado

realizou, no dia 13 de maio, sorteio em comemoração ao Dia das Mães. Os ganhadores foram Terezinha de Jesus Resende e Claret Mendonça. Parabéns aos vencedores!

Terezinha de Jesus Resende

Claret Mendonça

Os repórteres Cássio Almeida e Emanuelle Ribeiro conversaram com os integrantes da banda Tianastácia antes do show


8 Jornal das Lajes A Teia do Mundo

JOSÉ ANTÔNIO*

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Contemplando as palavras

Resende Costa:

Numa tarde de quarta-feira Meu jantar com uma amiga foi interrompido por um telefonema. Afastei o garfo da boca e aproximei o telefone do ouvido. - Claro... com prazer. Eu vou... quarta-feira eu posso... sim... Era a professora Gagaça me convidando para falar a seus alunos sobre o meu ofício da crônica, lá no Assis Resende. Falar o quê? Muita coisa minha eu deixo por escrito. É só ler. Mas queriam a presença do cronista, a voz do cronista, o cheiro do cronista, os gestos do cronista. Queriam o corpo do cronista. Aí é que estava o problema: o corpo. Quando escrevo, coloco o meu corpo nas palavras. À medida que avanço pelas linhas, meu corpo acompanha emprestando coisas que são dele: lágrimas, suor, desejo, calor, olhar, voz... e o toque da minha mão sobre o papel. Não sei escrever sem a carona do meu corpo. E agora eu teria que levar o meu corpo sem a escrita. Isso aleijaria a minha expressividade. – Sabe, Zé, eles querem ver o autor de perto, ver que o escritor não é de outro mundo... Mas acontece que eu sou de outro mundo. Ouço vozes de bocas que não estão perto de mim, vejo cenas que já se vestiram de jamais, sinto coisas já velhas conhecidas e que destilam mistérios... É maluco, mas é assim. Cheguei ao Assis Resende no meio da tarde de uma quarta-feira. Olhos adolescentes me devoravam com uma curiosidade ansiosa. Fui recebido com honras que não mereço e vi, ao longo das paredes, minhas crônicas afixadas. Vi também um varal com as páginas de um livro meu. Aquilo tudo me fez sentir algo molhado e quente forçando minhas pálpebras de

dentro para fora. Uma aluna e um aluno leram duas crônicas minhas e outra menina cantou ao violão. Saudades das minhas madrugadas sem manhãs, serestas nas lajes... – Agora, o nosso convidado vai falar! Todos em silêncio, esperando que o cronista falasse alguma coisa que valesse a pena. E o meu corpo ali... mas cadê a escrita? Resolvi, então, falar em forma de crônica. E a palestra foi uma crônica oral. Meu corpo acompanhou os movimentos do meu dizer e experimentei a vertigem das frases e dos silêncios que em mim caíam e se levantavam. A garotada também emprestou seu corpo ao meu texto, e vi lágrimas furtivas, sorrisos de canto de boca, gargalhadas honestas, olhares entre si e vozes que faziam perguntas. No fim, ainda usaram as mãos para baterem uma na outra e me entregaram um aplauso. Aplaudi junto, pois eles foram co-autores do que ali construí. Pedi o violão e cantei uma última canção, deixando meus olhos caírem em olhos que fugiam dos meus e em olhos que recebiam com doçura o meu olhar. – Nós queremos lhe dar um presente. Não poderia ser outra coisa: uma caneta. Fui embora carregando dentro de mim umas doses de alegria quieta. O tempo passou e a caneta ficou guardada até hoje, pois foi hoje que a tirei do estojo e fiz essa crônica. E é hoje, ontem, amanhã e sempre que cada rosto que me ouviu ficará afixado ao longo dos corredores do meu íntimo.

__________________________________________________________________ *JOSÉ ANTÔNIO OLIVEIRA DE RESENDE é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. e-mail: jresende@mgconecta.com.br

REGINA COELHO

PERÍODO Até 1935 1935-1946 1945 1945 1945 1946 1946 1946-1947 1947-1950 1951-1954 1955-1958 1959-1962 1963-1966 1967-1970 1971-1972 1973-1974 1975-1976 1977-1982 1983-1988 1989-1992 1993-1996 1997-2000 2001-2004 2005-2008 2009-2012

1912 – 2012

PREFEITO Francisco Mendes de Resende José Vilela da Costa Pinto Pedro Muzzi do Espírito Santo Padre Nelson Rodrigues Ferreira José Vilela da Costa Pinto Alcindo Resende Sebastião Lara José Gabriel de Resende Antônio de Souza Maia Júnior Geraldo Monteiro de Oliveira - 1º mandato Antônio (Honório) de Resende - 1º mandato Miled Hannas Adenor de Assis Coelho Antônio (Honório) de Resende - 2º mandato Ocacyr Alves de Andrade - 1º mandato Geraldo Monteiro de Oliveira - 2º mandato (incompleto) Aristides Coelho dos Santos - (posse do vice) Ocacyr Alves de Andrade - 2º mandato Gilberto José Pinto - 1º mandato Camilo Lélis de Resende Chaves Luiz Antônio Pinto José Rosário Silva Gilberto José Pinto - 2º mandato Gilberto José Pinto - 3º mandato Adilson Avelino de Resende

Neste junho de 2012, o centenário de emancipação política de Resende Costa, como não poderia deixar de ser, é pauta quase inevitável. Optei por fazer uma abordagem despretensiosa ligada às pessoas cujos nomes constam na relação acima na condição de prefeitos e vice-prefeitos por esses cem anos. A análise crítica sobre cada momento histórico fica a cargo dos especialistas no assunto ou estudiosos da história do município. Fico com particularidades que julguei interessantes, especialmente aquelas relacionadas à educação e à cultura. Possíveis imprecisões em datas e nomes bem como omissão de fatos se devem à escassez de fontes fidedignas e à limitação normal de espaço no Jornal das Lajes. Diante do exposto, mãos à obra. Considerando os dois primeiros mandatários, é possível observar o longo período de permanência deles no poder, especialmente o do coronel Mendes. Eleito inicialmente presidente da primeira Câmara Municipal, tornou-se, na prática, chefe do Executivo. Entre seus incontáveis feitos, destaque para a criação do Grupo Escolar Assis Resende (hoje Escola Estadual Assis Resende), da Biblioteca Pública Municipal e a edificação do Teatro Municipal, que fez de Resende Costa, à época, um dos poucos municípios mineiros a abrigar um teatro. Sucessor e homem de confiança de Mendes Resende, doutor Costa Pinto cumpriu dois mandatos (nomeado e eleito) e

foi um verdadeiro mecenas. Com o patrocínio da municipalidade, possibilitou a vinda de inúmeras e qualificadas companhias artísticas à cidade. É oportuno assinalar ainda a fundação do Grêmio Literário, espaço instalado nos “Quatro Cantos” (hoje o imóvel é propriedade do Luizinho Chaves) e a movimentação de alguns valorosos grupos teatrais como fatos importantes no contexto cultural das primeiras décadas do século XX. Em relação aos anos 40, louve-se o idealismo de alguns resende-costenses para a criação de alguns jornais: “O Papagaio”, “A Araponga” (sugestivos os nomes, não?) e “O Resende Costa”, periódicos altamente literários, portanto, distantes da linha convencional de jornais. Destaco também o Cine Santa Teresa, empreendimento arrojado para a época, instalado no prédio do Teatro Municipal, cenário de anteriores exibições cinematográficas. Com a ditadura do Estado Novo (1937-1945), os prefeitos (nova designação para os governantes municipais) passaram a ser nomeados pelos interventores dos estados. 1945 foi um ano politicamente tenso para Resende Costa. Em 24 de novembro de 45, assumiu o poder doutor Pedro Muzzi (primeiro juiz municipal). Sobre esse momento de indefinição constitucional assim se expressou o Padre Nelson, que chegou a tomar posse como prefeito de Resende Costa: “Verificando-se pouco depois que os snrs. Juízes, por serem

VICE Olíndio Argamin de Freitas Antônio da Silva Barbosa José Augusto dos Reis José da Conceição Vale José Benedito de Sousa Plestes de Oliveira Resende José Celso da Silva Aristides Coelho dos Santos Marcos de Oliveira Neto Aquim Coelho de Resende José Asterak Moreira João de Paiva Filho Silvério Nivaldo de Assis Antônio Aparecido de Sousa Paulo César Fortuna Dias João de Paiva Filho

Juízes Eleitorais, não podiam ser prefeitos, foi o Vigário da Paróquia, não sem muita relutância nossa, indicado para responder pelo expediente da Prefeitura até o dia 3 de Dezembro. Devido à permanência do tempo, não houve consultas ao Snr Arcebispo, mas sim, ao Rev.mo Forânea, que concordou aceitássemos a indicação. Fomos empossado como Prefeito no dia 28 de Novembro. Passadas as eleições de 2 de Dezembro, passamos a Prefeitura ao Snr. Prefeito Dr. Costa Pinto, no dia 3 de Dezembro às 12 horas”. (Livro do Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Penha). Com a renúncia do Dr. Costa Pinto em 14 de junho de 1945, foi nomeado prefeito, Alcindo Resende, então secretário da Prefeitura e que permaneceu no cargo até novembro de 1946, retirando-se voluntariamente. Ato contínuo, em reunião presidida pelo Padre Nelson no Teatro Municipal, às 19 horas do dia 1º de novembro de 1946, foi indicado o nome do Dr. Sebastião Lara (médico), por maioria dos votos, para ocupar a cadeira de chefe do executivo municipal. No que diz respeito à permanência do senhor José Gabriel de Resende como prefeito, dona Aparecida (filha dele, esposa do Élcio Maia) me revelou que, por pressão de um grupo de correligionários liderados por Tancredo Neves, o pai se viu obrigado a aceitar aquele encargo até 1947. (A matéria continua em julho.)


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Retalhos Literários

EVALDO BALBINO

Relembranças II (Continuação de crônica iniciada na edição 109, maio/2012)

Tempos depois, quando meu pai comprou lá em casa uma geladeira de segunda mão, eu já era adolescente, mas não hesitei em me esbaldar nos chup-chups. Quase me matava de tanto Q-suco congelado. Era de groselha, de limão, de laranja, de morango, de tudo. Até mesmo de pêssego, que era meio sem graça. Eu gostava mesmo era do de uva. A língua ficava vermelha e, mesmo já sendo um cavalão, ficava junto com a meninada mostrando a língua vermelha, fazendo caretas esquisitas, e rindo de tanta vida que se vivia. Lembro-me de que certa feita, quando eu estava na quinta série em 1988, a professora Fatinha deu um trabalho de Português. O meu grupo tinha que teatralizar o texto bíblico “O bom samaritano”. E eu, todo feliz por já ser andarilho pelas bíblias, ofereci-me para compor o elenco e ser a vítima socorrida pelo samaritano benfeitor. A discussão foi grande para decidirmos nos ensaios como daríamos um efeito mais real à violência que os salteadores infligiram ao pobre rapaz. Então tive uma ideia, brilhantíssima – disseram. No momento em que eu tomasse um soco na boca, de mentirinha é claro, morderia num saquinho de chup-chup feito de uva, um saquinho bem pequeno, e assim deixaria o líquido vermelho escorrer pela boca sofrida, ultrajada. Como minha personagem não teria que falar nada, pois havia sempre um narrador nos bastidores contando tudo, não me seria difícil encenar com o saquinho de suco de

uva na boca, bem escondidinho. No dia da apresentação da peça, só Deus sabe como sofri. Pouco antes da aula de Português, uma cantineira da escola fez o Q-suco para o nosso grupo, mas se esqueceu de colocar açúcar. Colocou muito pó e pouca água, para dar efeito mesmo de sangue, bem pastoso. Entretanto nada de açúcar ela pôs, nem uma pitada sequer. Na hora em que tomei o murro, simultaneamente mordi no saquinho. O líquido amargo e horrendo, aquele sangue espesso de dar medo em qualquer pobre coitado, desceu mais pela minha garganta do que para o queixo. Era um sangue alarmante, digno de um filme de terror, desses que são vermelhos até na capa dos DVDs, que são rubros até mesmo nos cartazes. Desses filmes que, quando os vemos, saímos do cinema encharcados de suor e sangue. Não me chamem de exagerado, por favor! É que minha garganta doeu tanto, o amargor me sufocou de tal modo, que não encontro aqui outra descrição melhor. Além disso, a arte tem suas vantagens, e uma delas é permitir os exageros. Continuo, então, com as minhas demasias. O sangue que escorria pela minha boca, e que também eu engolia, era aquele tipo de sangue que faria inveja a um Freddy Krueger ou a um Jason Voorhees. Doía minha goela, e já que a cena era muito séria e ao mesmo tempo jocosa pelo que eu passava, citemos aqui aqueles filmes horrorosos aos que não faltam sangrias. O sangue que me escorria era digno de uma cena, por

Polícia

exemplo, de um Jogos Mortais, de um O Massacre da Serra Elétrica, de Viagem Maldita, dos Jogos Sangrentos, ou de A Casa de Cera. Digno até mesmo de um Exorcista – o início. Com aquela mulher endemoniada, que mais parecia um vampiro sequioso de sangue e mostrando uma língua obscena, o filme até nos causa risos. E se não causei risos no dia da apresentação do trabalho de Português, foi porque segurei firme. Fiquei ali, deitado no chão, esforçando-me para não tossir, praticamente engasgado. Fiquei aturando aquele amargor, e torcendo para que o maldito bom samaritano me pegasse logo pelos braços e me socorresse daquele sofrimento realíssimo, daquele suplício que não terminava. Deu vontade até de mudar o bendito texto, encurtá-lo. Já não me interessava mais ficar ali deitado, padecido, e ouvindo um monólogo cristão de um samaritano tão bonzinho assim. Ora essa!! Ele não estava sofrendo como eu, aquele atorzinho! Não estava comendo um saco de sal, ou melhor, bebendo um saquinho de Q-suco sem açúcar, como eu estava. Eu queria brilhar como ator, não queria? Além disso, me tinham dito que minha ideia era brilhante. Ora, o que brilhou de fato foi minha cabeça, pois saí da peça vendo estrelas, tonto, sufocado por tanto sangue artificial. Mas, como dizem, não desci do salto, continuei desempenhando o papel de quem está sofrendo. Não foi difícil, pois estava mesmo.

Implantação da Patrulha Rural: mais um esforço para garantir a segurança no campo

O planejamento e a execução das diversas atividades da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), em sua grande maioria, teve como foco principal a atuação no ambiente urbano. Porém, o crescimento econômico aliado ao trabalho diuturno do homem do campo propiciou que houvesse melhoria na qualidade de vida e aquisição de bens, atraindo os olhares de pessoas com o intuito de delinquir. Assim como em centros urbanos, a Polícia Militar precisa agir com cientificidade nas áreas rurais. Segundo o Tenente Klaudir Machado, comandante do 3º Pelotão da Polícia Militar, a primeira ação é conhecer as pessoas, cientificá-las sobre a importância da parceria entre a comunidade rural e a PMMG na busca pela prevenção. Outro fator de grande relevância é a coleta de informações envolvendo pessoas ou veículos suspeitos. Tal medida visa ajudar na repressão qualificada aos crimes que ocorrem em sítios e fazendas de Minas Gerais. Aliadas a estas duas ações estão as técnicas de geoprocessamento, apon-

tando as áreas rurais com maior incidência criminal: “O objetivo é utilizar os métodos modernos de detecção e mensuração da criminalidade, conhecendo os delitos mais comuns levados a efeito no campo para neutralizar as ações delitivas”, declara o comandante da PM. Neste prisma, foi lançado, no dia 29 de maio último, mais um projeto voltado para a segurança do cidadão no campo, trata-se do “Policiamento em zona rural”. Esta nova estratégia busca trazer tranquilidade àqueles que estão, num primeiro momento, isolados de outros vizinhos, ora em lavouras, ora em pastagens, deixando suas residências desguarnecidas. A Patrulha Rural irá beneficiar três municípios que compõem a área de atuação do 3º Pelotão da Polícia Militar: a zona rural de Resende Costa, de Coronel Xavier Chaves e de Lagoa Dourada. “Esta aproximação resultará na formação de um elo entre os policiais e a comunidade do campo e estabelecerá nas pessoas visitadas uma sensação de segurança pela presença ostensiva da Polícia Militar”, diz Klau-

Programa Policiamento na Zona Rural foi lançado no fim de maio

dir.

Os objetivos desta nova modalidade de patrulhamento são devolver aos moradores rurais a tranquilidade pública, fomentar a coleta de dados e intensificar o trabalho de abordagem às pessoas em atitude suspeita, circulando tanto a pé ou em veículo nas localidades rurais, visando inibir a vontade de delinquir do cidadão infrator e combater o plantio ou o tráfico de drogas, aumentando ainda mais a confiança da população rural no serviço prestado pela Policia Militar. “A PMMG está fazendo a sua parte. Participe, receba e conheça nossos policiais”, conclui o Tenente. Para qualquer outra informação ou denúncia, utilize os números 190 da PMMG ou 181 para denúncias anônimas.

Gastronomia

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CLÁUDIO RUAS

“Nesta edição especial de aniversário de 100 anos da nossa Resende Costa, a gastronomia não poderia ficar de fora. Mas, para isso, decidi “passar a colher” para uma pessoa muito mais gabaritada pra tratar dessa história, a minha querida Tia Lucinha, a Lucinha do Góes. Além de grande cozinheira e referência para mim, ela é uma enciclopédia viva da cozinha e será sempre muito bem-vinda neste nosso espaço!”

Comida festeira

MARIA LÚCIA PINTO

Nossa amada cidade está apagando velinhas – cem! Estivemos conversando sobre os comes e bebes das festas oficiais quando nossa gente não andava pelo mundo vendo as modas como andam hoje. Até as palavras foram trocadas. Não se fala mais em banquete como antigamente. Os almoços de confraternização de hoje acontecem em locais apropriados, com cardápio variado, filmagens, decoração segundo a exigência da data, cerimonial e tudo mais. Como teriam sido os festejos em 1912, quando o Arraial da Lage se tornou cidade? Com certeza, após os discursos, missa solene e foguetes, aconteceu um lauto banquete para as autoridades presentes. Onde terá sido? Nos meus tempos de criança todos os comes e bebes das festas e recepções aconteciam no Grupo Escolar Assis Resende. Fotos bem mais antigas do que eu, como as da visita a Resende Costa do Presidente do Estado, o doutor Antônio Carlos, podem comprovar o que eu digo. Havia na cidade senhoras conhecedoras das etiquetas em vigor, cozinheiras experts em banquetes e ainda outros especialistas, como o Tio Alfredo, que sempre era encarregado de preparar a estrela da festa, a leitoa! O cardápio não variava muito, mas deveria ter um sabor incrível. Crianças ficavam de fora, mas observavam tudo. E melhor ainda, estavam sempre atentas às conversas dos adultos sobre os sucessos e insucessos do evento. Voltando ao cardápio, os pratos eram servidos todos bem exibidos, sobre mesas armadas em cavaletes no salão nobre da escola. O vasilhame vinha das casas mais abastadas: travessas, terrinas, compoteiras belíssimas, licoreiras etc. No centro da mesa um quarteto indispensável: macarronada, tutu de feijão, frango frito e a leitoa. Arroz e farofa eram meros coadjuvantes. Não se falava muito em salada naquele tempo. O visual da mesa coberta por toalhas brancas, louças elegantes e guardanapos dobrados em forma de pássaro ou flor eram belíssimo! A leitoa, rainha da festa, era bem pururucada e aparecia enfeitada com olhos de azeitona, pãozinho na boca, docemente reclinada num leito de farofa de miúdos cheirando a salsa. Sempre tenho pena delas assim, mas brilhavam tanto e cheiravam tão bem! A farofa era amarelinha, feita de farinha de milho e úmida da gordura do bichinho. Os franguinhos, esses eram gloriosos! Fritos também, inteiros, dourados e recendendo a pimenta do reino! Todos bem caipiras mesmo, criados com milho, suculentos e saborosos. A macarronada, versão brasileira das massas italianas, nunca faltava nas mesas festivas, seja em recepções ou nas casas. O molho era bem vermelhinho com

tomate, cebolas e principalmente a massa de tomate. A iguaria vinha sempre fartamente salpicada de queijo Minas curado, salsa e cebolinha. O tutu de feijão merece um parágrafo inteirinho só para ele. Feito em banha de porco, farto, brilhante, enfeitado e guarnecido com pedaços generosos de linguiça, molho de tomate e cebola e rodelas de ovos cozidos, parecia palheta de pintor! Satisfeitos com a comilança, certamente regada a “vinho de mesa”, como se dizia na época em que não havia fartura de refrigerantes nem geladeira para esfriar a cerveja. As travessas mexidas eram rapidamente removidas para dar lugar à sobremesa. Essa sim, era digna de um banquete! Ao lado de um delicioso queijo fresco, a policromia das compoteiras exibia os doces de frutas em calda, doce de coco de colher com gemas bem amarelinhas, doce de leite mole e o insubstituível arroz doce salpicado de canela. Mas, desta vez, a estrela era o pudim. Antes das latas de leite condensado era feito à base de ovos, aos quais se juntava queijo ou coco, e vinha boiando na calda de caramelo. E, para aquecer os discursos, antes vinham as licoreiras com seus néctares: licor de leite, de abacaxi, de maracujá, de anis. Essa era realmente a bebida de antigamente, oferecida às visitas, nos nascimentos, casamentos e em toda ocasião festiva, para desespero da criançada que não podia sequer provar. Me perguntem como soube disso tudo. Em criança, acompanhava minha madrinha, a Sá Donana, requintada dona de casa e hábil organizadora de festas, esposa de um dos nossos ex-prefeitos, o senhor Antonio de Souza Maia Júnior, mais conhecido como Nico de Souza. Mais tarde, como professora, eu era convidada a servir. Aliás, fazia parte das nossas funções de professoras servir à mesa as autoridades civis, militares e religiosas em visita à cidade. Para o grande público, na festa de 1912, deve ter acontecido mais ou menos o que era comum nas posses dos prefeitos. Dezenas de garrotes eram abatidos e a carne assada em churrasquinhos. Os mais espertos se fartavam, chegavam até a pescar as varetas pelos buracos da garagem da prefeitura antiga. Os menos espertos, depois dos discursos corriam para saciar a fome em casa mesmo. A bebedeira era certa, e para muitos, a festa terminava na cadeia. Mas havia sempre banda de música, foguetes e aquele ar gostoso de festa do interior, com as moças nos seus melhores vestidos e os rapazes as admirando. Eram tempos inocentes do footing na avenida e dos “flertes”. Quanta saudade!


10 Jornal das Lajes Causos & Cousas

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG ROSALVO PINTO

Resende Costa centenária

O termo “centenária” certamente será o mais usado neste resto de 2012 em Resende Costa. Quando São Paulo comemorou seus 400 anos (1554/1954), o músico e sambista Waldir Azevedo compôs o dobrado “São Paulo Quatrocentão”. Foi um sucesso. Quase virou o “hino municipal” de São Paulo e conquistou o Brasil. Fico pensando se nós, resende-costenses, não poderíamos variar e criar também a “Resende Costa centona”. Ficaria mais charmoso e mais popular do que “centenária”, termo elegante e erudito. A marca dos cem anos me faz pensar em muitas coisas curiosas sobre nossa cidade. Vou ruminando algumas. Voltando às origens do povoado primitivo, no século 18, fico imaginando quem teria por primeiro galgado essa enorme pedra. Obviamente, terá sido algum índio da tribo cataguás, que habitava essas paragens. Mas índio não gosta de pedra, gosta mais é de mato e de rios. Pode ter sido algum português, talvez um paulista ou mesmo um mineiro. Imagino esse alguém no topo desse colosso de pedra, sem casas e sem árvores, donde se podia descortinar uma visão de 360 graus. Quem terá tido a feliz ideia de começar a morar sobre esta pedra? Terá sido o capitão José de Resende Costa e sua família? Teria ele ido primeiro para a Fazenda dos Campos Gerais? Não sabemos. O fato é que foi naturalmente nascendo um pequeno povoado. Tudo no mundo tem que ter um nome e logo deve ter aparecido o “Arraial da Lage”. Não poderia haver nome mais apropriado e bonito. O mais intrigante é pensar que nossos ancestrais resolveram criar um arraial no topo de uma imensa pedra, a 1.140 metros de altura. O costume mais generalizado sempre foi escolher

um local possivelmente plano, às margens de córregos ou rios. Na verdade, o problema da água não era tão problema assim, pois, miraculosamente, ao redor da pedra brotavam cinco pequenas minas ou fontes. Os futuros moradores é que fizeram o grande favor de acabar com elas. Décadas atrás elas eram chamadas de fonte “da chácara”, “da mina”, “dos cavalos”, “do João de Deus” (cachoeira) e “da ilha” (que ilha seria essa, que acabou virando “ia”, “a fonte da ia”?). É sabido que os portugueses trouxeram para o Brasil a religião católica. Então, a primeira coisa que apareceu por aqui teria sido uma cruz ou um cruzeiro, bem no topo da pedra. E logo depois, uma capelinha. É claro que essa capelinha não poderia ter um nome, um santo (ou santa) padroeiro melhor e mais significativo do que “Capela de Nossa Senhora da Penha”. “Penha” é, segundo os dicionaristas, “grande massa de rocha isolada e saliente, penhasco, penedo etc.”. Entretanto, algum conhecedor da França terá sugerido acrescentar o “de França”, referente a alguma igreja ou devoção também situada em um penhasco naquele país. Ou mesmo, a primeira imagem teria sido trazida da França. Enfim, o “de França”, por um desses motivos, terá vindo parar no antigo arraial. Esse nome parece ter caído em desuso por muito tempo, tendo voltado a ser usado mais recentemente. Isso não aconteceu, por exemplo, com a Penha, da cidade de Vitória, no Espírito Santo. Quem não conhece a beleza daquela penha? Quem vai a Vitória e não sobe ao Convento da Penha não conhece Vitória. O nome da cidade, Vitória, se deve ao episódio da defesa quando da tentativa de invasão pelos holandeses. E aquele penhasco foi um dos baluartes dessa defesa. Tal como em nossa cidade, a penha é motivo de orgulho para os capixabas. Lá

é o Convento da Penha, aqui a matriz de Nossa Senhora da Penha. Entretanto, o Arraial da Lage teve também seus problemas, em função de sua localização. O nosso primeiro historiador, o professor José Augusto de Rezende (nascido na antiga Conceição da Barra), relata-nos em seu opúsculo publicado em 1920, o fato de que “no centro do arraial cruzavam duas estradas: uma ia do norte ao sul da Província; outra, do Rio a Goyaz. À margem desta última estrada, próximo e dentro do antigo arraial, havia ranchos (abrigos para transeuntes), tavernas. Nessas tavernas havia accumulo de gentes de costumes péssimos e de maus instintos; uns eram do próprio logar, outros de fora, cuja gente reunidas em as casas de tavernas, fasiam algazarras etc.” Se, por um lado, passar pelo arraial era mais penoso, pela sua altitude, por outro, favorecia a segurança das mercadorias que transitavam por essa região. Além disso, o professor nos lembra que “nos tempos primitivos do povoamento do solo brasileiro e mineiro, davam preferência aos logares mais elevados que menos favoreciam aos ataques dos inimigos”. Relata-nos também o professor um fato pouco conhecido, que engrandece a figura do nosso inconfidente José de Resende Costa, o filho. “Em função do culto religioso, da instrução e dos pobres, o inconfidente José de Rezende Costa Filho deixou uma serie de apólices, com as quaes mantinham no logar, um Capellão, e uma escola para os pobres”. E termino ainda com as belas palavras do professor José Augusto, referindo-se ao arraial: “um logar tão alto, cuja bellesa natural é innegavel, porque o horizonte é vasto e o clima salubérrimo”.

Crônicas do Cotidiano

RAFAEL CHAVES

De quando a guerra chegou a Resende Costa

Getúlio ressuscitou e vestiu seu melhor e mais conservado uniforme militar e, empertigado, bateu continência para si próprio diante do espelho. Enxergou-se um Mussolini, quase um Hitler. Chegou a se arrepiar ao imaginar o povo nas ruas clamando por ele. A lembrança de que precisava de dinheiro dos americanos para construir a siderúrgica e uma rajada de vento frio daquele agosto de 1942 entrando pela janela, ameaçando desarranjar-lhe os escassos cabelos, trouxeram-no à realidade. Além do mais, havia aquela história dos afundamentos dos navios. Enfim, convencido pelas pressões, declarou guerra à Itália e à Alemanha. Resende Costa recebeu a notícia pela voz eloquente e carismática de Getúlio, que falou pelo rádio ao “seu” povo no programa “A Hora do Brasil”. Affonso recebeu a notícia com inquietação. Olhou para o filho, José Eloy, que cochilava no canto da sala, e pressentiu que ele seria convocado para a guerra. No ano seguinte, a sua previsão tornou-se realidade e José Eloy foi praticar tiros de carabina no 11º Batalhão de Infantaria, em São João del-Rei. No dia em que ele partiu, sua mãe, lacrimosa, mandou Affonso afixar na porta de sua casa o cartão “SALVE A F.E.B. – DAQUI PARTIU UM EXPEDICIONÁRIO”. Mais de dois anos depois do anúncio da declaração de guerra, num dia de primavera sem flores, o Sargento Onofre Lara, seguido de Waldemiro, Osmar e Cyro, subiram a rampa do navio General Meigs, que os levaria à Itália. O Sargento virou-se para trás do alto da rampa, mas não conseguiu distinguir os outros companheiros de Resende Costa no meio do mar de capacetes que tomavam conta do porto. Lá atrás, quase no fim da fila de soldados, os “Chicos” Francisco Campos e Francisco Resende riscaram um fósforo e acenderam, quase ao mesmo tempo, um cigarro Camel. Baforaram juntos círculos e colunas de fumaça enquanto caminhavam. Distraídos pelos desenhos que formavam, pareciam querer esquecer o porquê de estarem embarcando naquele navio. Quando se ajeitou na prateleira de cima do beliche dentro do navio, fazendo da mochila um travesseiro, Vicente suava em bicas. O navio lhe parecia um forno. Sentiu saudades do vento fresco de Resende Costa e resmungou qualquer coisa para os colegas Paulo Henrique e Wadih que, no meio de tanto burburinho, nada entenderam. E entenderam menos ainda quando desembarcaram na Itália, sob um frio paralisante, que eles jamais haviam sentido. Logo depois de seus batismos de fogo em Monte Castello, o Cabo Jair convocou seus comandados para a missa que Frei Orlando já havia anunciado, tocando o sino pelo acampamento e que começaria em poucos minutos. Délio fez um em nome do pai e do filho e do espírito santo amém e levantou-se. Antonio Argamim ajeitou o fuzil no ombro e enfiou a mão no bornal procurando alcançar pelo tato a foto de sua amada. Elci terminou de calçar as meias de lã e

o capuz. Sebastião e Gilberto seguiram logo atrás do Cabo. E sob uma tempestade de neve, batendo seus queixos de frio, rezaram naquele dia mais que todos os outros dias do resto de suas vidas. A batalha de Montese estava no seu auge. José Mendonça ajeitou-se como pôde no fox hole que ele e João Baptista haviam escavado nos dias que antecederam àquele grande dia de batalha. De vez em quando se levantava no buraco e atirava na direção dos inimigos. Rapidamente, quando isso era possível, lambuzava o dedo na lata de ração de carne com ovos e levava à boca para saciar a fome. Depois bebia um gole d’água de seu cantil. Os tiros zuniam sobre sua cabeça. Explosões ensurdecedoras aconteciam de tempos em tempos. Granadas detonadas espalhavam estilhaços por todos os lados. E assim se seguiram horas até que certa quietude tomou conta de tudo. José Mendonça animou-se a levantar do buraco e viu que a tropa tinha alcançado a linha inimiga, vencendo definitivamente aquela batalha. Ao sair do buraco, meio zonzo ainda, passou ao lado de três corpos ensanguentados e inanimados no chão. Mais tarde soube que estavam mortos e que um deles era o de Baêta, um seu conhecido, lá de Entre Rios de Minas. José Mendonça por quanto tempo viveu jamais esqueceu duas datas: o dia em que se alistou no exército como voluntário para a guerra e desse 15 de abril de 1945. Em 2 de maio de 1945, O General Mascarenhas de Morais, comandante da FEB, comunicou ao Presidente Getúlio sobre as vitórias nos combates de Montese-Zocca-Marano di Panaro- Collecchio e Fornovo. Três dias depois enviou o seguinte telegrama ao Presidente Getúlio Vargas: “Com encerramento dia dois corrente campanha do teatro operações da Itália vg com fulminante e integral vitoria armas aliadas vg em cujo âmbito forças brasileiras tiveram desempenho à altura da confiança que lhes foi outorgada pela nação sinto-me orgulhoso tê-las comandado em tão transcendentes circunstâncias pt...”. A igreja de Nossa Senhora da Penha de França estava repleta naquele domingo de julho de 1945. Padre Nelson anunciara uma missa em homenagem aos “pracinhas” que lutaram na II Grande Guerra e em sufrágio das almas daqueles que tombaram na luta pela liberdade e democracia. Em cortejo e sob aplausos efusivos da população que lotava o largo em frente da igreja, os pracinhas de Resende Costa alcançaram o adro da igreja. Antônio Guedes, antes de adentrar na igreja, ainda esfregou sua Medalha de Guerra na lapela do paletó, aumentando-lhe o brilho. E sob um silêncio respeitoso, chegaram ao lugar de honra que lhes fora reservado perto do altar. Depois daquela missa, depois que batizaram a rua que levava ao campo de futebol e o próprio estádio com o nome de “Expedicionários”, muito pouco se ouviu sobre os “pracinhas”... Ficção baseada em fatos reais. Os nomes são os dos expedicionários de Resende Costa, segundo artigo de Ana Paula de Mendonça Resende (JL, 9ª edição).


Jornal das Lajes

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Política Regional

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JOSÉ VENÂNCIO DE RESENDE

Cenários da política são-joanense com ou sem Nivaldo Andrade Dois cenários para a política são-joanense nas próximas eleições municipais, com e sem a presença do atual prefeito. Se Nivaldo Andrade for candidato à reeleição, é grande a possibilidade de coligação com o PSDB sob as bençãos do senador Aécio Neves e do governador Antonio Anastasia. Muda tudo se o prefeito ficar impossibilitado de concorrer por eventual condenação em julgamento de ação por improbidade administrativa no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Neste caso, o “campo ficaria aberto para novas lideranças”, observa o médico e presidente de honra do diretório municipal do PSDB Euclides Garcia de Lima Filho, doutor Tidinho. Especula-se inclusive que o deputado estadual Rômulo Viegas poderia ser candidato. Confirmado na disputa já está o pré-candidato do PT, o ex-reitor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) Helvécio Luiz Reis, de acordo com o presidente do diretório municipal, Leo Silveira. Outro candidato certo é Adenor Simões, presidente local do PSB. Breve histórico – Nos períodos republicanos, entre presidentes da Câmara e prefeitos, destacaram-se nomes como Joaquim Domingos Leite de Castro, Augusto das Chagas Viegas, Basílio de Magalhães, José do Nascimento Teixeira, Tancredo de Almeida Neves, Antonio das Chagas Viegas, Nelson José Lombardi, Milton de Resende Viegas, Lourival Gonçalves de Andrade (Zé Menino), Cid de Castro Valério, Octavio de Almeida Neves e Rômulo Antônio Viegas. Basílio de Magalhães - repórter do jornal republicano “Pátria Mineira”, no início do século 19, primórdios da “política democrática liberal” – foi grande inspirador de Tancredo Neves, segundo doutor Tidinho. Os aspectos centrais do pensamento político de Tancredo Neves foram elaborados nos anos 1930 e 40, segundo o professor de filosofia José Maurício de Carvalho da UFSJ. “A estas ideias ele foi fiel até o fim da vida, quando foi eleito Presidente da República”. É no nascimento da República Nova, nos anos 30, “que se forma o pensamento político de inspiração liberal, católico, republicano e democrático desenvolvido por Tancredo Neves nas décadas seguintes”. PSD e UDN - Doutor Tidinho começou, ainda jovem, a participar de política na década de 1940. O seu pai, o também médico Euclides Garcia de Lima, já era secretário do Partido Social Democrático (PSD) em São João del-Rei. Dois partidos predominavam na época: o PSD, liderado por Augusto Viegas - que logo percebeu o potencial de Tancredo Neves para a vida pública e o convidou a deixar a Promotoria - e a União Democrática Nacional (UDN)

ele aponta Aécio Neves e Reginaldo Lopes como as duas outras lideranças “que devem ser respeitadas”. E lembra que o PSB está na base de apoio tanto do governo federal quanto do estadual, o que facilita coligações. O professor José Maurício de Carvalho identifica no PT - não no PSDB - “o papel social-democrata de Tancredo”. Doutor Tidinho admite que o PT cresceu muito sob a liderança do deputado Reginaldo Lopes, mas lembra que o pré-candidato Helvécio Reis “jamais participou de movimento político em São João del-Rei”. O PT é o partido mais organizado da cidade, diz o presidente do diretório municipal do PT, Leo Silveira, “e o que representa o perfil do povo sanjoanense”. Silveira afirma que é “consciência corrente” dentro do partido de que “não podemos escolher nosso adversário e estamos preparados para enfrentar os cenários mais difíceis possíveis, e em ambos vemos com clareza a real possibilidade de vitória”. Vista da ponte da cadeia e da prefeitura municipal de São João del-Rei

cujas principais lideranças eram Mateus Salomé e Gabriel de Rezende Passos. Um terceiro partido, o Partido Republicano (PR), era liderado por Cristóvão Braga. Esses três partidos mantinham a tradição política são-joanense, que extrapolava as fronteiras municipais, observa doutor Tidinho. “Inspirado nela, São João del-Rei tornou-se polo referencial de política salutar, ideológica, sempre voltada para o bem comum”. Nesse sentido, destaca doutor Tidinho, “os políticos não eram inimigos, mas sim adversários. E não existia a famigerada corrupção porque os políticos lutavam por ideais”. Alguns desses políticos eram empresários, principalmente do setor de tecelagem, como José do Nascimento Teixeira, João Lombardi, João Hallack e Agenor Simões Coelho. Tancredo Neves foi presidente da Fiação e Tecelagem São João Ltda., fundada em 1946. Partidos sem ideologia - Doutor Tidinho recorda dos comícios – não existiam showmícios – nos quais “o ideário político era difundido através de belíssimos oradores que encantavam multidões com a sua oratória”. Famílias tradicionais começaram a participar da política, dividindo-se basicamente entre os dois principais partidos. Nas fileiras do PSD, alinhavam-se famílias como Lombardi, Viegas, Baccarini, Hallack, Garcia de Lima e Neves. Na trincheira da UDN, aninharam-se as famílias Mateus Salomé, Nascimento Teixeira e Simões Coelho, entre outras. Com a ditadura militar, houve migração natural do PSD para o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e da UDN para a Aliança Renovadora

Nacional (ARENA) e suas sublegendas. Nessa migração, houve defecções do MDB rumo à ARENA, “provavelmente temendo cassações ou em busca de benesses”. A chapa Octavio de Almeida Neves e doutor Tidinho (vice), por exemplo, foi eleita em 1976, ao derrotar três candidatos em sublegendas da ARENA. O slogan era “3 contra 1 e o povo contra os 3”. Com o fim do bipartidarismo, a legislação eleitoral estimulou a proliferação de pequenos partidos, “pessoas que mudam de partido simplesmente em busca de vitória”, critica doutor Tidinho. “A ideologia está relegada ao segundo plano, nesta altura do campeonato”. Em 1988, doutor Tidinho participou de reunião em Belo Horizonte, coordenada pelo então deputado Pimenta da Veiga, para a fundação do PSDB. Ele foi indicado para coordenar a criação do partido em São João del-Rei, cujo grupo foi integrado por Milton Viegas, Diomedes Garcia de Lima, Roberto Veloso, Francisco de Barros e Afonso Nogueira. A primeira reunião foi no consultório do médico. A família Neves permaneceu no PMDB e Aécio Neves juntou-se ao novo partido em 1989. A essa altura, as famílias tradicionais de modo geral já abandonavam a política são-joanense. “Aquele ritual de famílias na política já estava acabando”, resume doutor Tidinho. “As grandes lideranças ideológicas perderam o entusiasmo, os partidos perderam muito do seu potencial, a cidade ficou entregue a lideranças individuais”. Exemplo disso é o prefeito Nivaldo Andrade, para quem partido (no caso o PMDB) não importa. “O partido é ele, o poder é ele”, sintetiza doutor Tidinho.

Jogo político - Em caso de disputar a reeleição, Nivaldo espera apoio do PSDB, segundo reportagem do jornal “Ora Pro Nobis” (edição 04, Ano 01, nov./dez. de 2011) do curso de Comunicação Social da UFSJ. O prefeito ainda é um candidato muito forte em São João del-Rei, admite doutor Tidinho. Mas, lembra, a maioria do diretório tucano prefere candidato próprio, “nem todo mundo aceita com bons olhos essa coligação”. O presidente do diretório municipal do PSDB, Ivan Augusto Assunção, confirma a possibilidade de acordo com Nivaldo, para evitar o risco de vitória do PT na terra do senador Aécio Neves, pré-candidato à presidência da república. “Seria “desagradável”. Oficialmente, os tucanos são-joanenses têm três pré-candidatos: o empresário da construção civil e da contabilidade Renato Luiz Baccarini Filho, neto de Luiz Baccarini (Construtora Baccarini) e sobrinho de José Luiz Baccarini; o economista Aloísio de Barros, professor aposentado da UFSJ e o jovem Altamiro Gonçalves, que desenvolve trabalhos na área social, com apoio de Aécio Neves e do governador Anastasia. “Vamos ver qual deles se viabiliza, com possibilidades de vitória”. Assunção diz que um acordo com Nivaldo deve ter via dupla: tanto tucanos poderiam apoiar o candidato do PMDB quanto ser apoiado por ele. Mas doutor Tidinho sente falta mesmo é do “grande maestro Tancredo Neves” que, nestes momentos, mantinha a “orquestra afinada” do alto da sua autoridade. Eventual condenação do atual prefeito com base na lei da ficha limpa poderia mudar o rumo das alianças, diz Adenor Simões. Além de Nivaldo,

Desafios - O PSB de Simões quer respostas para a perda, ao longo do tempo, do valor da história são-joanense, das infinitas riquezas presentes em seu patrimônio e cultura. “Em cada canto, há sinais de descaso”. João Afonso, presidente da Associação Comercial de São João del-Rei, aponta o desafio de criar uma “identidade econômica” para a cidade, como, por exemplo, Ubá (polo moveleiro), Nova Serrana (polo calçadista) e Resende Costa (artesanato do tear), “para que politicamente e estruturalmente direcionasse o seu crescimento”. São João e região têm potencial, história, artesanato, turismo, cultura, indústria, mineração, religião e comércio, “mas nada bem trabalhado ou explorado”, diz. “Não conseguimos resolver problemas básicos de saneamento, segurança, educação, saúde e lixo, dentre outros”. Saúde, transporte público (“caro e de baixa qualidade”), drogas e estrutura urbana (“não comporta mais a realidade da cidade”) são problemas emergentes que não podem esperar, de acordo com Silveira (PT). “Estes são alguns exemplos estruturais que não excluem os outros, como os de cunho social como emprego, educação e principalmente a inclusão social”. Para Ivan Assunção (PSDB), grande desafio é a reestruturação administrativa da prefeitura. Faltou às últimas gestões, explica ele, mentalidade e vontade política de promover uma revolução administrativa no município. Ele acredita que é preciso modernizar a gestão pública, para atrair investimentos e melhorar os serviços prestados. (a íntegra deste texto está disponível em www.jornaldaslajes.com.br).


12 Jornal das Lajes

ANO IX Nº 110 - JUNHO DE 2012 / RESENDE COSTA - MG

Giro Esportivo

EMANUELLE RIBEIRO

Expedicionário recebe Seleção Mineira de Master

Ainda comemorando o Centenário de Resende Costa, o estádio Expedicionário recebeu no último dia 9 a Seleção Mineira de Master. Os craques profissionais do futebol mineiro enfrentaram a Seleção Resende-costense. Eu estive acompanhando este jogo de perto, fazendo a cobertura para o JL e também para a Rádio Inconfidentes, na companhia dos amigos Toninho Ribeiro e Cássio Almeida. Apesar das más condições do gramado, as duas seleções fizeram bom jogo e valeu o espetáculo, mesmo com a derrota da nossa seleção por 5x0. A torcida lotou o campo e relembrou os bons tempos de Paulo Isidoro, Célio Lúcio, Luizinho, Careca, Paulo Roberto Prestes, Everton, Cleber, Bruno e companhia. Logo no início, a Seleção Mineira

criava boas oportunidades e se fazia presente no campo de ataque, mantendo a posse de bola. Os resende-costenses marcavam bem e chegavam com perigo nos contra-ataques. Como grande destaque do primeiro tempo, o goleiro Reginaldo fechou o gol, impedindo que o adversário abrisse o placar em diversos momentos. O gol saiu após cobrança de pênalti, com Sérgio Araujo batendo no lado direito do arqueiro resende-costense. Com essa mínima vantagem no placar, a Seleção Mineira foi para o intervalo. Em entrevista, o zagueiro Luizinho destacou a qualidade da equipe local e disse que o nosso ataque deu trabalho. Os atletas da Seleção Resende-costense, Omar e Reginaldo, frisaram a tranquilidade, passes certos e mais finalizações como estratégia para a etapa complementar. Mas a Seleção Mineira voltou inspirada, pressionando muito e jogando ofensivamente. As metas da nossa se-

leção foram adotadas pelo adversário, que tocava bem, jogava com desenvoltura e passou a finalizar mais. E com toda a pressão, os resende-costenses cediam espaços, facilitando para os veteranos do futebol profissional. Nas arquibancadas, a torcida viu os ídolos ampliarem o placar e o árbitro encerrar o amistoso, quando o placar apontava 5x0. A Seleção Resende-costense tentou e principalmente na primeira etapa, conseguiu suportar a pressão e até levar perigo ao gol adversário, mas não foi dessa vez. A Seleção de Master acumula mais uma vitória. Esta partida fica marcada na história do esporte resende-costense e soma para o resgate do nosso futebol de campo que, como destacou Flávio Henrique, presidente do Expedicionário, tem tudo para crescer e voltar a ser destaque na região. Foi gratificante também ver os avanços na estrutura do estádio. Parabenizo a nova direto-

Foto: Paris Foto e Video/Jurandi

Jogadores das Seleções Mineira e Resende-costense promovem espetáculo no Expedicionário

ria, a Prefeitura Municipal e a Seleção Resende-costense pelo jogo e espero que os estádios Expedicionário e Boca Juniors possam ser palcos de grandes jogos, revelando craques da terra. Reginaldo, Roberto, Lambada, Ni-

Cultura

cinho, Guna, Ladinho, Nivaldo, Bruno, Flávio, Gláucio, Pururuca, Piazza, Chá Preto, Marquinho, Toinzinho, Lourenço, Ernesto, Omar, Celso, Lúcio, Ademir e Tiãozinho defenderam as cores de Resende Costa.

ELAINE A. MARTINS

Lançamento do 3º livro da Coleção Lageana, Móbiles de areia, de Evaldo Balbino, também brindará o centenário de Resende Costa

Compartilhando as celebrações dos 100 anos da cidade, a Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa (AMIRCO) lançará o 3º volume da Coleção Lageana, Móbiles de areia, livro de estreia no gênero “prosa” do resende-costense Evaldo Balbino. Das 33 crônicas que compõem a obra, quatro são inéditas. As outras foram publicadas na coluna “Retalhos Literários” do JL e em antologias. A publicação tem o patrocínio do Fundo Estadual de Cultura (FEC 2010) e o evento, que conta com o apoio da Câmara e Prefeitura Municipal, acontecerá dia 22, sexta-feira, às 20h, no Centro Pastoral Paroquial (CPP), em Resende Costa, com entrada franca. O livro será vendido ao preço módico de R$10,00. Conversando com o autor Evaldo Balbino viveu no povoado do Ribeirão de Santo Antônio até os seis anos, quando se mudou com a família para a cidade. Começou a escrever aos 15 e aos 17 já publicava seus trabalhos via concursos. Desde 1995 reside em Belo Horizonte, onde é professor de Língua Portuguesa da UFMG. Publicou os premiados livros de poesias Moinho (2006) e Filhos da

pedra (2012), este a ser lançado em breve. Além de sua produção literária, Evaldo tem artigos de crítica em revistas acadêmicas e é considerado um dos especialistas nos estudos da obra de Adélia Prado. Em uma breve conversa, Balbino nos fala sobre o ofício literário, a crônica e o seu Móbiles de areia. A sua formação escolar é voltada para o mundo das letras e da literatura. Haveria um entrelugar entre o crítico e o escritor? Fazer literatura tem que ser resultado de ler literatura. Muitas vezes alunos meus, de Letras, diziam que adoravam escrever e não gostavam de ler. Isso, para mim, é impossível. Eu só escrevo a escrita dos outros. Em outras palavras, e tentando dizer disso que é tão difícil de ser dito, eu reescrevo o que outros já disseram. Reescrevo a meu modo. Nada nasce do nada. Não existe geração espontânea. Quanto aos meus dois papéis, o de crítico e o de escritor, penso que um trabalho suplementa o outro. Uso aqui o conceito de suplemento de Derrida. Não falo de complemento. Complementar é acrescentar algo a um todo, contribuindo para sua constituição. Já suplementar é trazer algo a mais que desestabiliza o suposto todo já existente. Assim, ao fazer literatura, vou para além das amarras que o crítico que existe em mim mesmo me coloca. Não quero dizer que escrevo sem aparatos críticos. Todo poeta, todo escritor, tem aparatos críticos. E tem isso porque é leitor. Leitor aberto, amplo, e não preso apenas a textos teóricos. O problema, a meu ver, é quando o artista se prende muito a uma formação acadêmica e

acaba por fazer uma arte somente para iniciados. Ou seja, temos aí escritores escrevendo apenas para seus pares. O aparato crítico, que paulatinamente adquiro, me ajuda a escrever literatura, mas a literatura não deve, na minha humilde opinião, estar a serviço da crítica. É ela, a crítica, quem deve buscar a literatura e se produzir a partir dela. A crônica, como a entendemos hoje, requer um exercício que, no seu caso, é mensal, como colunista do JL. Como começou e é a sua relação com esse gênero literário? Sempre tive medo de praticar a crônica. Como ainda tenho medo de escrever, por exemplo, uma peça de teatro. Imagine você, colocar personagens em ação sem a fala tagarela de um narrador? Eu sou escravo dos narradores, os que falam, os que contam, os que erigem mundos. Não consigo trilhar a literatura sem eles. E eu tinha medo de tentar a escrita de uma crônica, e sair tudo, menos uma crônica. Vê-se que eu estava, nesse tempo, preso a uma rigidez desnecessária. Comecei a praticar a crônica – esse gênero tão fluido como todos os gêneros –, e comecei a fazê-lo mais sistematicamente (em média uma por mês), a partir de 2009, quando me tornei colunista do Jornal das Lajes. Escrever crônicas tem sido para mim um grande exercício, uma lenta aprendizagem no terreno da prosa, um acurado e paulatino caminhar nos meandros das construções de narradores, espaços e personagens. Tenho aprendido muito com tudo isso. O que o leitor encontrará eu seu Móbiles de areia? Espero que encontre, antes de

Enduro das Lajes Confira em www.jornaldaslajes.com.br a matéria sobre o 14º Enduro das Lajes, escrita pelo repórter Cassio Almeida.

tudo, poesia e prazer. Poesia, porque sem ela não há criação literária. E sem arte não há prazer. Falo aqui de prazer, mas não no sentido de uma autoajuda, de um texto lindo, que me leva às alturas, que me tira os pés do chão, para além da realidade. Muito antes pelo contrário: falo do prazer de abrirmos os olhos, de encararmos a vida, as dores, as alegrias, os problemas e as flores. A literatura nos dá um chão para pisar, mas um chão desestabilizado, cheio de espinhos. Pois, para mim, toda literatura – toda boa literatura – é realista e, como tal, nos arranca para a realidade e nos faz, de certo modo, sofrer. Falo, então, aqui, de gozo, no sentido usado por Barthes. E não de um prazer como puro passatempo. Gozar a/na literatura é estar antenado com a vida e com tudo o que lhe diz respeito. Hoje você vive em um grande centro. O que significa publicar um livro na sua cidade natal por uma editora não comercial? Publicar meus livros em minha cidade natal foi, é e sempre será minha

maior e primeira meta. Independentemente de onde for a editora, sempre farei questão de lançar meus livros em Resende Costa. Tenho carinho pela cidade. Um carinho retorcido, muitos poderão dizer. Mas esse meu jeito meio enviesado não é por mal. É meu jeito de ser e de estar antenado com o mundo, com suas virtudes e com seus problemas, e também com minhas virtudes e com meus problemas. Não somos perfeitos, não é verdade? A meu modo, eu amo Resende Costa. Falemos agora da AMIRCO. Não me preocupa publicar por uma editora não comercial. Todo escritor, que de fato escreve por necessidade psíquico-espiritual e que tem nas palavras o seu ar, é vítima do mercado. O mercado é forte, impávido, insensível. E nem sempre, sabemos, o que está “bombando” no mercado ou na mídia é o que há de melhor. Primo pela qualidade. Como já dizia Paulo Leminski, é melhor ser lido muitas vezes por poucos do que poucas vezes por muitos.


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