JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO
Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes – PUC-SP
ANO 19
N0 120 Maio/Junho 2019
E D I T O R I A L
PUC Pontifícia Universidade Católica DE SÃO PAULO PUC-SP
Falhamos
Maria Amalia Pie Abib Andery Reitora
O nosso objetivo está escancarado na nomenclatura do jornal: contrapor. Além de laboratorial, gostamos de pensar que produzimos e repercutirmos textos que informam. Temos total liberdade de expressão, nosso método de gestão é colaborativo e não dependemos de formas mercantis de financiamento. Somos contra hegemônicos! Mas, será? Falhamos, falhamos naquilo que é mais importante na nossa profissão: a natureza social, de finalidade pública, que exercemos com cada matéria publicada. Por mais que todas as últimas edições estejam recheadas de matérias questionando formas de dominação impostas pelas classes e instituições, nós, meros estudantes, enfrentamos dificuldades de conversar com o público que deve e necessita obter este tipo de informação; aqueles que são mais facilmente alienados, com pouco recurso e acesso para criar senso crítico. Redigimos com firulas – observe meu texto- tentamos ser acadêmicos, nos empenhamos em escrever e entregar matérias no prazo, mas fazemos pouco além disso. O número de tiragem do Contraponto não é pequeno, mas é provável que no grupo de leitores, tenham poucas – provavelmente inexistentes pessoas que sejam de algum bairro afastado, alguma comunidade carente, por mais que estas sejam personagens frequentes de nossas páginas. Estamos aqui batalhando pela democratização da palavra e da informação, mas ainda com certa ingenuidade e sem se importar com a abrangência do trabalho. Isso tem que mudar! O nosso objetivo tem que ser mais amplo: transformação da realidade, subverter a ordem estabelecida às custas da miséria, questionar e expor agentes do Estado que utilizam do seu cargo público para gerar déficits e questionar a grande elite do dinheiro. Tivemos a oportunidade de mostrar, acusar e apontar o dedo para mídias hegemônicas, denunciando o trabalho de desinformação em prol do capitalismo, totalmente antiético, que é feito desde que redações passaram a responder a uma empresa jornalística. Se nossos colegas, que trabalham nos grandes veículos, sejam eles antigos ou não, quando se dispõem a desenvolver notícias, que são repetidas a cada hora – se não a cada 10 minutos – em versões manipuladas, onde há até mesmo o desmantelamento de direitos garantidos pela Constituição de 88 – é porque em algum momento falhamos. O Contraponto continuará a produzir matérias de oposição, mas temos que refletir e pensar em quem queremos atingir, quem são as pessoas que precisam ler o que escrevemos aqui. Produzir por produzir já não pode ser uma questão, se somos jornalistas é porque, de alguma forma, queremos o posto de protagonista no mundo e isso só se faz saindo da redação.
Fernando Antonio de Almeida Vice-Reitor
Márcio Alves da Fonseca Pró-Reitor de Pós-Graduação Alexandra Fogli Serpa Geraldini Pró-Reitora de Graduação Marcia Flaire Pedroza Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Gestão Silas Guerriero Pró-Reitor de Educação Continuada Antonio Carlos Malheiros Pró-Reitor de Cultura e Relações Comunitárias Mariangela Belfiore Wanderley Chefe de Gabinete
Faculdade de FILOSOFIA, Comunicação, LETRAS e artes – faficla Angela Brambillia P. Lessa Diretora Cristiano Burmester Diretor Adjunto Valdir Mengardo Chefe do Departamento de Jornalismo Fabio Cypriano Coordenador do Curso de Jornalismo Endereço: Rua Monte Alegre, 984 Perdizes - CEP: 05014-901
EXPEDIENTE C o n t r a ponto Comitê Laboratorial Cristiano Burmester, Fabio Cypriano, José Arbex Jr., Maria Angela Di Sessa e Pollyana Ferrari Editora Responsável Anna Flávia Feldmann Ombudsman Victoria Azevedo
SUMÁRIO
Editor assistente Raul Vitor Editorias Ambiental: Vitória Martins Cidades: Sarah Catherine Camara de Seles Cultura: Matheus Lopes Quirino Internacional: Daniel Gateno Política: Giovanna Colossi
O renascer da comunicação presidencial
3
O legado da lava-jato e os limites da atuação judiciária
4
Cidade Linda: São Paulo é uma metrópole de contrastes
6
Suzano: violência celebrada pela mídia
8
A dupla devastação sobre o continente Africano
9
Fotografia Nádya Duarte
Crise política na Árgelia e no Sudão reascende debate sobre a Primavera Árabe
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Revisão Maria Clara Vieira, Raul Vitor, Vitor Hugo e Giovanna Colossi
Estudantes em luta pela educação
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Esquecidos pela sociedade
1 4 15
ensaio fotográfico
Os efeitos por trás do bife que você come
Modificação corporal traduz expressão e identidade
Ocupações culturais preenchem espaços ociosos de SP com arte 18
Arte censurada no Brasil: apenas razões comerciais?
19
A cultura fica
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poesia
Crônica
contra-ataque
17
O único homem que me restou 21 Entre gatos e gatos
22
O futebol também é delas
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Argentina volta ao mundial com foco no empoderamento das jogadoras
Foto da Capa: A revolução não será televisionada o golpe está sendo, por Nádya Duarte
PUC JM Desenvolvimento Criativo Ltda-ME Fone: 11 3679.7746
CONTRAPONTO é o jornal-laboratório do curso de Jornalismo da PUC-SP. Rua Monte Alegre 984 – Perdizes CEP 05.014-901 – São Paulo – SP Fone: 11 3670.8205
Número 120 – Maio/Junho de 2019
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Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
Lumen Graph Fone: 11 94708.5762
Maio/Junho 2019
ONTRAPONTO
O renascer da comunicação presidencial Por Julia Cachapuz, Luise Goulart e Raul Vitor
Frases prontas e simples foram fatores cruciais para a tomada de poder do atual governo
N
da população, ou dos cliques computadorizados. A simplicidade não é uma característica exclusiva do discurso bolsonarista, é também a marca dos veículos onde os mesmos são disparados. Hoje, fica claro que a conexão presidente/ massa, intermediada por lives exibidas gratuitamente via Facebook, “twittaços” feitos a partir de frases prontas, passíveis de serem reproduzidas por qualquer indivíduo da sociedade brasileira, foram fatores cruciais para a tomada de poder do atual presidente. As palavras de uma figura que deveria ser inalcançável se tornaram conversas simples de um churrasco, facilmente encontradas num grupo de Whatsapp, tocando numa ferida curiosa da cultura brasileira: o apreço pela figura familiar. Para a população pouco importou qual era o plano de governo de Jair Bolsonaro. Ninguém sabia quais eram as propostas para saúde ou educação. No entanto, todo o eleitorado sabia de cor e salteado quais eram as notícias falsas mais quentes publicadas pelo até então candidato à presidência, pois eram acessíveis. Para compreendermos a comunicação governamental atual de forma mais clara, o Contraponto realizou uma entrevista exclusiva com Carlos Brickmann, que comandou a assessoria de imprensa da campanha de Paulo Maluf à presidência da República, em 1989.
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© Montagem: Raul Vitor
ão é novidade que o Brasil está diante de um governo conservador, mas qual o objetivo desse novo comando político? Uma série de acontecimentos nos permite fazer essa análise. No final de março, por exemplo, ocorreu o 55ª aniversário do golpe militar e o presidente Bolsonaro sugeriu que essa data recebesse as devidas comemorações pelo Ministério da Defesa. O presidente defende que não houve ditadura no período do governo militar, e já homenageou o primeiro torturador reconhecido pela justiça de São Paulo, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Isso demonstra uma certa cegueira conservadora, que consiste em negar o passado histórico ditatorial brasileiro, caminhando, assim, para uma antidemocracia. Outro elemento de válida análise foi a assinatura de um decreto que proíbe o uso de pronomes de tratamento como “vossa excelência” dentro do Poder Executivo. Isso, de acordo com o Palácio do Planalto, tem como objetivo “promover a desburocratização no tratamento e de eliminar barreiras que criam distinção entre agentes públicos no âmbito do Poder Executivo”. Tal “desburocratização”, pode abrir brechas para que o Poder Executivo ganhe mais liberdade e, portanto, mais autonomia. O foco da comunicação utilizada pelo governo destaca determinados temas em detrimentos de outros, o que acaba refletindo seus interesses a partir de estratégias comunicativas. Por exemplo, militares do exército dispararam mais de 80 vezes num carro. Dentro do veículo, encontrava-se uma família da zona oeste do Rio de Janeiro. O músico Evaldo Rosa dos Santos morreu. O automóvel tinha como destino final um chá de bebê. Diante de um fato grave como esse, é esperada uma certa sensibilidade e preocupação por parte do presidente da república. Mas, nesse caso, enquanto a imprensa se mobilizou para noticiar o acontecido, Bolsonaro afirmou que o “Exército não matou ninguém”, demonstrando certo descaso com a violência militar, o que reforça o discurso de legitimação da impunidade do exército brasileiro. Mesmo que não seja possível afirmar precisamente qual o objetivo do governo, é inegável seu afeto pelo passado obscuro do país. Desta forma, a comunicação governamental reforça certos princípios conservadores, o que é perceptível também em suas ações. Nas mídias sociais, a família eleita pela maioria nacional encontra seus pilares fortificantes. “O que é golden shower?”. “Hoje tentam a todo custo nos explodir de dentro para fora!”. “A mamata de vocês vai acabar!”. “Fui informado de que um ator americano está me acusando de censurar seu filme no Brasil. Mentira! Tenho mais o que fazer. Boa noite a todos!”. Todas as frases reproduzidas foram retiradas das páginas oficiais do presidente e de seus filhos no Twitter e podem ser facilmente encontradas com apenas um toque nas telas touchscreen dos smartphones, que hoje estão nas mãos de boa parte
Bandeira do Brasil com ícone do WhatsApp
Bolsonaro X Twitter
Contraponto – O que mudou, no âmbito comunicacional, na forma de assessorar candidatos à presidência da República de 1989, até o atual governo? Carlos Brickmann – A rigor, nada. É importante fazer algumas coisas, que Bolsonaro não fez e deu certo durante a campanha, mas estão criando problemas para o Governo. Primeiro, centralizar a comunicação. A candidatura deve ter uma só voz. Dois porta-vozes, no máximo: o oficial e o próprio candidato. Mais do que isso haverá um ruído de comunicação, que tem força para ajudar o governo a perder tempo corrigindo problemas. Segundo, é preciso definir a posição do candidato. Deve ser real e apresentada de maneira que mostre que o candidato irá atender às reivindicações do eleitor. Mentir é errado: se a opinião pública é a favor da pena de morte e o candidato é contra, melhor dizer claramente que é contra e por que. Terceiro, forjar um bom relacionamento com a imprensa. É melhor dizer ao repórter que certos temas não serão comentados do que mentir. Ele tem que confiar na assessoria. O assessor atende o candidato, mas também os jornalistas. Quarto, é importante o contato direto do assessor com o candidato. Todos os dias, de preferência. CP – Desde antes de ser eleito, o atual governo tenta construir uma imagem pessoal, adotando figuras simbólicas, como por exemplo, a utilização destacada das cores verde e amarelo, além da criação do slogan: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Qual o objetivo comunicacional do governo ao adotar esses recursos simbólicos? Carlos Brickmann – Todos os candidatos têm seus símbolos. Até a Igreja tem seus símbolos. No caso, buscou-se um retorno às raízes religiosas, contrapondo-se à ideologia de gênero e outras coisas que podem assustar o eleitor. Por isso a menção à Deus. Ele força nos valores patrióticos, hino, bandeira, desfiles. Os adversários defendem fronteiras ideológicas, nós somos Brasil acima de tudo. Houve o exemplo de 2013, quando o povo saiu às ruas vestido de verde e amarelo. CP – É notável que o governo tenta se aproximar do seu eleitorado através das redes sociais e uma imagem simplista, um tanto paternalista, de Bolsonaro tem sido construída. Essa estratégia pode ser considerada um dos novos pilares da comunicação entre o presidente e a população? Carlos Brickmann – A ideia é que faltava a figura do “pai”, de alguém que se preocupasse com a população e não com regimes africanos e ditaduras sul-americanas. A imagem foi bem construída, já que Bolsonaro é mais ou menos isso - uma pessoa tosca. Acho que exageraram na foto do palácio, em que ele vestia chinelos e uma camisa do Porco – Palmeiras –. Na garagem da casa dele, atendendo o americano, foi perfeito.
ONTRAPONTO
O legado da lava-jato e os limites da atuação judiciária Por Thiago Silveira e Camila Barros
E
m cinco anos de operação, a Lava Jato executou 285 condenações, ganhou prêmios, reconhecimento internacional, sendo considerada a maior operação anticorrupção da história do país. Por outro lado, o destaque alcançado pela operação e seus executores é fator sintomático do fenômeno de populismo judicial, alimentado pela midiatização exacerbada de casos envolvendo figuras públicas e pela cultura da fomentação de escândalos políticos. Nesses cinco anos, a operação acumulou críticas e acusações de deturpação de elementos do direito, ao pular etapas importantes de execução de investigações, ou se aproveitar do clamor popular para executar ações de legitimidade discutível – como prisões preventivas, grampo telefônico e quebra de sigilo bancário. O Contraponto entrevistou Floriano de Azevedo Marques Neto, diretor da Faculdade de Direito da USP, que contou seu parecer sobre questões atuais do judiciário brasileiro:
Dois pontos de vista sobre o populismo judicial e midiatização de escândalos políticos recentes no Brasil
E
“Lava-Jato” tem pontos muito louváveis.
u creio que a atuação do que se chamou
Floriano de Azevedo Marques Neto – Eu acho que este é um processo comum e irreversível. A emergência do juiz, do promotor ou do servidor público da área da justiça, como um ator político é um processo sem volta, e ele tem um empurrão a partir do colapso total de nossa elite política fruto destes escândalos, isso é um dado inevitável. Se sua pergunta fosse, “isso é bom?” – eu diria que é algo natural. Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem constantemente esta migração de um profissional da área jurídica, como por exemplo, um procurador geral, que se torna um candidato a cargos importantes no cenário político americano. É muito comum que juízes e promotores tornem-se atores políticos. O que não é comum, é que não haja separação entre o juiz e o político. Contra a maioria dos críticos, eu acho absolutamente natural que o Ministro Sergio Moro tenha saído da Magistratura e ido ocupar um cargo político. Como é natural também que o Governador do Rio de Janeiro tenha sido eleito após sair da magistratura, e outros tantos, como o Ministro do Supremo Nelson Jobim, que era promotor. O congresso, se você for analisar têm vários ex-juízes e ex-promotores, isto é normal. O que eu acho anormal e patológico, é quando o juiz ou promotor, no exercício da sua função, exerça ao mesmo tempo uma função política, aí temos um desvio. Então, se ele interfere no debate público, e se ele atua como força política, isso é um risco para democracia. Sendo assim, eu não tenho nenhuma crítica à ida de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, acho natural, louvável e importante. Porém, eu acredito que
© Thiago Silveira
Contraponto – A ascensão política de Sergio Moro para Ministro da Justiça pode ser lida como caso isolado de intersecção entre o poder Judiciário e Executivo? Ou a guinada política de membros do judiciário é comum?
Floriano de Azevedo Marques Neto, diretor da Faculdade de Direito da USP interferir em alguns momentos, como ele interferiu no jogo político, realizando a abertura de algumas informações de uma delação premiada, nas vésperas da eleição, ainda que por cautela, nenhum ilícito tenha sido praticado, ainda sim, deveria ter sido evitado, já que o juiz necessita ter uma preocupação redobrada de não se tornar ator político. CP – Em relação aos útlimos cinco anos de Lava Jato quais foram os principais pontos positivos e negativos da atuação da operação? FM – Eu creio que a atuação do que se chamou “Lava-Jato” tem pontos muito louváveis. Primeiro, foi algo possível devido ao foco que foi dado e pela ação da magistratura e do Ministério Público de destacar profissionais para apurar um caso único com muitas ramificações. Eu acho que a Lava Jato nos deixa uma lição positiva de eficiência, engajamento dos promotores e juízes no desbaratamento de vínculos criminosos. Ela nos lega uma mensagem importante de como manejar o mecanismo das delações, que eu acho que tem bastante abuso, mas que foi importante, mostrando uma característica de desbaratamento de conexões muito importante. Já o legado negativo da Lava Jato, eu resumiria a uma coisa – a filosofia de que se podem relativizar garantias constitucionais com base em um fim louvável. Garantias não se negociam, garantias não se Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
flexibilizam, e aí, eu posso colocar dentro deste rótulo de flexibilização de garantias: o abuso das prisões cautelares, uma certa posição absolutamente desatenta a alguns princípios do devido processo. O próprio contexto da condenação eficaz em 2º instância, um certo “draconianismo” na fixação de penas que manda as favas o princípio da proporcionalidade, vazamentos seletivos, uma interconexão com a imprensa que é altamente perigosa, um esforço de comunicação fora da institucionalidade, como comunicações pessoais pelas redes que conspurcam a isenção do juiz ou do promotor na sua atuação, alguns abusos e algumas exorbitâncias no grau dos envolvidos. Tudo isso são pontos que nós vamos precisar revisitar. Agora, se o saldo é positivo ou negativo, eu diria que é muito cedo para dizer.
Prisão política e clamor público Atualmente grandes eventos envolvendo figuras políticas importantes levantaram a discussão sobre os limites da atuação judiciária. Em março de 2019, o Ex-presidente Michel Temer foi preso preventivamente pela 13º fase da operação Lava Jato. O decreto, foi fortemente criticado por não haver, no caso em questão, perigo eminente para ordem social ou econômica que justificasse Maio/Junho 2019
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Vitral do Largo São Francisco
A
Constituição no artigo 5º, inciso 52, diz que “ninguém será
culpado até o trânsito em © Reprodução
julgado de sentença penal condenatória.”
Lucas Paglia
prisão preventiva. Devido à impopularidade do governo Temer, a prisão do Ex-presidente foi comemorada por setores da direita e da esquerda, e contou com forte repercussão midiática. Novamente, foi colocada em cheque a boa fé dos executores do caso. Anteriormente, em abril de 2018, o Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi preso após segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro. A condenação antes do trânsito em julgado, determinada pelo juiz Sergio Moro, dividiu opiniões de juristas à favor e contra a medida, mas teve forte apoio popular de setores da direita brasileira. Mais tarde, no mesmo ano, Lula foi proibido de concorrer às eleições para a presidência devido à Lei da Ficha Limpa. Com a posterior nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, a narrativa de que a prisão do ex-presidente teve caráter político, se tornou mais forte e lúcida.
Lucas Paglia – Eu acredito que sim. As decisões, que envolvem figuras públicas, como a citada anteriormente, atendem, em regra, a um clamor público. Não é possível negar, que existem argumentos e fatos jurídicos que dão lastro para essas decisões, mas como o direito é uma matéria interpretativa existem pessoas que possuem convicções criadas pela família, ou até mesmo influenciadas por onde você estudou, que dão viés para interpretar a lei de um lado ou de outro. Não necessariamente, estamos falando em lados opostos, que vão por caminhos diferentes, mas que podem convergir no final. Creio que, se houverem fundamentos jurídicos que caibam duas ou três interpretações, sem dúvida nenhum clamor público influenciaria nas decisões.
Em entrevista ao Contraponto, o advogado Lucas Paglia explica os pontos polêmicos do caso. Contraponto –- Em sua opinião, decisões judiciais, ao envolverem figuras públicas, como a do ex-presidente Lula, são influenciadas pelo clamor popular para condenação ou absolvição do réu?
LP – O ponto principal é a análise concreta da constituição. A Constituição no artigo 5º, inciso 52, diz que “ninguém será culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.” Para mim, é muito claro, mas temos que analisar historicamente a Constituição de 1988 de um período pós Ditadura Militar, onde a violação e o abuso de poder comportavam um dos principais problemas naquela época.
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CP – De acordo com a Constituição Federal de 1988, não há possibilidade de prisões em 2º instância. Desta forma, como você analisa o caso da condenação do ex-presidente Lula?
A Constituição de 1988 veio para colocar um basta. Ou seja, temos que entender que esta Constituição tem trinta anos, e temos que saber que há trinta anos era importante ter um inciso, uma descrição clara, de qual momento poderia prender alguém no Brasil. Sendo assim, em minha opinião, o caso da condenação do ex-presidente Lula, é ilegal. O Lula deveria estar respondendo em liberdade, porque ainda existem recursos a serem analisados, a serem julgados. Abro um pequeno parêntese aqui: se a nossa Constituição, nosso Código Civil, nosso Código Penal, permitem recursos em demasiado, que são protelatórios, ou seja, recursos que atrasam propositalmente, deveríamos então mudar os códigos, deveria se propor uma alteração dos mesmos, como já tentaram, e fizeram. Mas a questão é a Constituição acima deles. A partir do momento que ainda temos uma Constituição vigente, interpretar faz parte, mas altera-la não faz. Para concluir, a prisão do ex-presidente é ilegal e viola a Constituição brasileira. Creio, que nesse caso, existem alguns ativismos políticos que fazem a gente querer acelerar o processo – e não estou discutindo aqui culpa, se deveria ou não ser preso, mas deveria se respeitar o fim do julgamento.
ONTRAPONTO
Cidade Linda: São Paulo é uma metrópole de contrastes
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m um ranking de concentração de renda mundial com 140 países, o Brasil ocupa o 10° lugar, de acordo com relatório anual realizado pela Oxfam Brasil, de 2017: “A distância que nos une”. Essa desigualdade pode ser facilmente representada pelos contrastes entre os bairros da cidade de São Paulo. As diferenças entre Perdizes e Itaquera demonstram isso. Os dois estão próximos da região periférica da capital, nas zonas Oeste e Leste, respectivamente. Perdizes: o bairro misto com universitários e terceira idade “Gosto muito do bairro! Aqui tem tudo perto, muitos lugares pra comer, algumas lojinhas etc. A única coisa que odeio é que é cheio de colina. É um saco e dá preguiça de ir de um lugar ao outro.”, conta, rindo, Roberta Domingues, 22 anos, estudante de jornalismo da PUCSP. Bairro nobre da Zona Oeste de São Paulo, Perdizes possui uma paisagem arborizada e residencial, combinada com o oferecimento de serviços voltados à classe média alta. A Pontifícia Universidade de São Paulo, onde Roberta estuda, é um dos pontos de atração para muitos moradores, que são estudantes da Universidade. Por conta disso, os rostos jovens se misturam aos residentes da terceira idade. De acordo com o SP Demográfico de 2014, da SEADE (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados), a idade média, em anos, da população do bairro era de 41 anos. Considerando que a longevidade é de 81, é possível chegar à conclusão de que as diferenças de faixa etária são significativas. Giancarlo Bueno, 21 anos, que atualmente trabalha como assistente em um escritório de advocacia, acredita que o bairro “é muito bom, por conta de ser bem familiar e ter tudo perto: farmácia, padaria, escola, faculdade…”. Comenta que vive lá desde que nasceu, e que é excelente. “Acho que algumas coisas o prefeito tinha que arrumar aqui na região, como, por exemplo, as ruas. Tem muito buraco e acaba prejudicando o transporte. A questão das árvores também tem que ser revista, porque na região há muitas antigas, inclusive com risco de queda. Precisamos de uma “manutenção” nessa parte”, conclui Giancarlo. Para Roberta, “as ruas não estão nas melhores condições, as calçadas não têm nenhuma acessibilidade para cadeirantes, e faltam postes de luz em vários pontos”. Mencionou também a necessidade de praças, por serem pontos verdes menores em relação ao Parque da Água Branca. Disse que é um bairro arborizado, mas que derrubaram muitas árvores por risco de queda, o que acabou diminuindo. “Por ser um bairro nobre, acho que Perdizes está muito bem cuidado e sempre recebe atenção da prefeitura. O principal mesmo seria investir na obra do metrô, que está parada faz anos! Colocar mais luzes e arrumar as calçadas”. Ambos os entrevistados utilizam o Hospital Samaritano, que é particular, quando precisam de serviços de saúde. Apesar de se encontrar no bairro
Enquanto Perdizes possui um dos metros quadrados mais caros de SP, Itaquera encara baixa infraestrutura e descaso do poder público chamada Cidade Líder I, que atende às pessoas da região. No ano passado, o então prefeito João Dória (PSDB) anunciou a reestruturação dos serviços de saúde. A notícia causou aflição entre os moradores da Zona Leste de São Paulo, principalmente de bairros vizinhos à Itaquera, como São Miguel Paulista. Tal polêmica, segundo o ex-prefeito, girava em torno do fechamento de mais de 100 UBS e Assistência Médica Ambulatorial (AMA) em troca de ampliar o atendimento com equipes de saúde da família. Embora o episódio tenha causado grande alvoroço entre os habitantes daquela região, a medida proposta por Dória entrou em vigor e houve a fusão entre UBS e AMA. Embora Dória tenha prometido aumentar a equipe médica ao diminuir o número de postos, a situação é de condições insalubres. Dona Everalda, 78 anos, espera pacientemente na fila de atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde). Ela chega com dezenas de outros usuários da saúde pública. Na Unidade Básica de Saúde (UBS) Cidade Líder I essa situação já se tornou diária. Esperar mais de dois meses para uma consulta com o médico clínico geral já virou rotina. Dona Everalda afirma que está há mais de três meses na fila de espera para a consulta com um especialista: “O clínico geral é bom, demora, mas é bom. O problema é que ele não pode resolver nada, apenas encaminha para o especialista. A partir daí, é só torcer e rezar para aparecer uma vaga logo, mas nunca aparece”. Dados retirados do Mapa da Desigualdade de No mesmo corredor no 2018 e da plataforma online da Prefeitura de qual os idosos e enfermos esSão Paulo peram por atendimento, não param de chegar grupos de pais carregando seus filhos para Higienópolis, é colado em Perdizes, em uma traves- colocarem as vacinas em dia. Alguns desses bebês sa da Av. Pacaembu, e possui uma distância de 15 não possuem nem um ano completo e já são obrigados a enfrentar filas extensas para tomar minutos da PUC-SP, pelo transporte público. aquilo que lhes é garantido por lei. Por outro lado, há Mateus Rocha, 28, Itaquera: muito além de uma torcida nascido e crescido em Itaquera e um fã declarado alvinegra O entorno do grande e conhecido bairro de do bairro. Atualmente trabalhando em uma das Itaquera se entrelaça a distintas regiões de forma regiões mais sofisticados da capital, a Berrini, como que todos os bairros adjacentes se tornem um só. Analista Pleno em uma empresa de grande porte, Na divisa entre Itaquera e um bairro menor, o Ci- afirma que por mais que ache outros bairros lindade Líder, há uma Unidade Básica de Saúde (UBS) dos, nunca cogitou em sair da Zona Leste. © Reprodução
Por Natasha Meneguelli e Letícia Assis
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Corinthiano apaixonado, Rocha, que se casou há 2 anos, tratou logo de comprar uma casa próxima ao estádio. “Eu vivi a minha vida inteira aqui, meus amigos estão aqui, minha família está aqui. Agora que casei e minha esposa veio morar comigo, minha vida está aqui. O Corinthians está aqui do lado. Não tem porque eu querer sair. Em dia de jogo eu posso ir a pé. Isso é muito melhor do que sonhei”. Os extremos da cidade se conectam diariamente. A diferença entre o tratamento dado pela prefeitura é nítida. A maioria das pessoas que vivem nesses bairros esquecidos pelos órgãos públicos precisam conviver com essas contradições o dia todo. Enquanto dormem em bairros simples, trabalham e geram riquezas durante o dia em bairros nobres.
Mapa da Desigualdade de São Paulo
Direito à cidade O Contraponto entrevistou o professor João Evangelista de Souza Lima Neto, 55 anos, geógrafo que leciona na PUC há 12 anos. Conversamos a respeito do direito à cidade e sobre a estrutura oferecida pela capital paulista.
João Evangelista – A segregação espacial em grande escala tem sido marca do padrão de formação das nossas cidades, onde as residências das elites tendem a se concentrar, geralmente, em apenas um setor da cidade, e os grupos mais pobres ocupam as periferias mais afastadas e pior equipadas. Trabalhadores foram excluídos do mercado imobiliário privado e, frequentemente, buscaram formas alternativas de moradia. Trata-se do “produtivo excluído”, resultado dos baixos salários. A moradia tem sido predominantemente, nas metrópoles, obtida por meio de expedientes de subsistência. Os trabalhadores, de todos os setores e não somente da indústria, é que moram longe do emprego e dos serviços que a cidade oferece. E isso não é uma opção deles. O trabalhador, via de regra, não ganha o suficiente para comprar uma casa no mercado formal. Quanto mais infraestrutura urbana (melhorias) se produz, mais elevado é o preço da terra urbanizada e mais evidente a expulsão dos trabalhadores para áreas menos “urbanizadas”. As pessoas de menor poder aquisitivo vão sendo expulsas das áreas que se valorizam. A gentrificação é o melhor exemplo disso. CP – Quanto aos dados públicos sobre os investimentos feitos pelo governo nos bairros de SP, as informações acessíveis são poucas, quase nulas. O que isso mostra a respeito do Governo? JE – Para que a participação da sociedade civil ocorra é fundamental o acesso à informação. As iniciativas que buscam facilitar o este acesso contribuem para a participação da sociedade civil na gestão democrática da cidade. Mas nem todos os governantes têm interesse nesta participação da sociedade civil. Frequentemente, a transparência dos atos da gestão pública fica apenas no discurso.
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Contraponto – Em média, um paulistano demora duas horas para se deslocar de sua casa até o trabalho. Por que as indústrias ficam tão distantes dos bairros residenciais da classe trabalhadora?
Ranking dos dez melhores e dez piores bairros segundo o Mapa da Desiguladade
de, que se caracteriza pela gestão democrática e participativa; pelo cumprimento da função social da cidade; pela garantia da justiça social e de condições dignas a todos os habitantes; pela subordinação da propriedade à função social e pelas sanções aos proprietários nos casos de não cumprimento da função social. CP – O que foi o Movimento Nacional pela Reforma Urbana? JE – O Movimento Nacional pela Reforma Urbana foi criado para articular a participação popular em todo o Brasil no processo da Constituinte de 1988. Ele foi formado por um grupo heterogêneo, cujos participantes atuavam em diferentes e complementares temáticas do campo urbano. Reuniu-se uma série de organizações da sociedade civil, movimentos, entidades de profissionais, organizações nãogovernamentais, sindicatos. Entre eles a Federação Nacional dos Arquitetos, Federação Nacional dos Engenheiros, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), Articulação Nacional do Solo Urbano (ANSUR), Movimento dos Favelados, Associação dos Mutuários, Instituto dos Arquitetos, Federação das Associações dos Moradores do Rio de Janeiro (FAMERJ), Pastorais, movimentos sociais de luta pela moradia, entre outros.
JE – A Reforma Urbana é extremamente necessária. Ela se consolida na luta pelo direito à cida-
CP – A crescente intervenção do Estado e o agravamento das carências em contraste com as expectativas criadas vieram a originar novas polarizações sociais e uma nova forma de politização dos conflitos e de resistência das classes populares, enquanto classes urbanas – os movimentos sociais urbanos. Qual a importância desses movimentos para um melhor investimento do Governo, visando os bairros mais carentes?
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CP – É possível e necessária uma Reforma Urbana? Quais seriam os pontos principais que deveriam ser abordados?
JE – Os movimentos sociais dos anos 1970/1980, no Brasil, contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas, para a conquista de vários direitos sociais, que foram inscritos na nova Constituição Federal de 1989. Em seguida, a ação política dos movimentos sociais urbanos concentrou-se na luta pelo reconhecimento e garantia de direitos sociais, com ênfase no direito à cidade. Atualmente, os movimentos sociais tematizam e redefinem a esfera pública, realizam parcerias com outras entidades da sociedade civil e política, têm grande poder de controle social e constroem modelos de inovações sociais. Ou seja, além de fiscalizarem e cobrarem dos governantes o cumprimento da legislação, desenvolvem ações em que colocam em prática as propostas que defendem para uma cidade para todos. A citar, os conjuntos habitacionais construídos pelo MTST, como o “Minha Casa, Minha Vida”. CP – Em uma cidade tão grande e tão populosa como São Paulo, há algum modo de organizar a cidade de modo que ela seja adequada a todas as classes sociais, ou isso é apenas uma utopia? JE – As conquistas obtidas pelos movimentos sociais urbanos em todo o mundo demonstram que é possível repensar e reorganizar cidades tão grandes e populosas como São Paulo. O Direito à Cidade é uma utopia pela qual vale a pena sonhar pois, como Boaventura Santos aponta, ele representa a “oposição da imaginação ao que existe, em nome de algo radicalmente melhor que a humanidade tem direito de desejar e pelo qual vale a pena lutar”. O que importa na utopia é justamente o que não é utópico, que é o processo de sua busca.
ONTRAPONTO
Suzano: violência celebrada pela mídia Por Beatriz Aguiar, Beatriz Magalhães Girão e Letícia Galatro
Ataque à escola no interior de São Paulo reacende debate sobre como retratar episódios brutais nos veículos de comunicação
início de 2019 foi marcado pela violência, quando dois ex-alunos abriram fogo na Escola Estadual Professor Raul Brasil, matando cinco estudantes e duas funcionárias, na cidade de Suzano, em São Paulo. O acontecimento trouxe o debate de diversos temas, entre eles a cobertura da mídia. A cobertura sobre Suzano foi intensa: com atualizações a cada hora. Nenhum detalhe foi poupado do público, nem um vídeo da ação violenta, nem o nome do site de batepapo que supostamente influenciou a dupla. Os grandes veículos, como G1 e O Estado de S. Paulo aderiram a tal cobertura, e poucos, geralmente meios menores em tamanho e influência como The Intercept Brasil, nadaram contra a maré. Por que essa midiatização toda? E por que ela deu certo? Como diz Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, sua obra de 1967, “toda a vida das sociedades, nas quais reinam as condições modernas de produção, se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos”. Vivemos de entretenimento e esse entretenimento não é qualitativo, e sim quantitativo. Queremos mais e mais de uma mercadoria que nega nossa humanidade enquanto reforça nossos status de consumidor alienado. Essa sociedade espetacularizada, da era da TV e da internet, é imagética. A imagem é um veículo bem mais eficiente que a palavra: essa não exige nenhuma educação e, como diz o dito popular, “uma imagem vale por mil palavras”. A imagem imortaliza, cria peças sobressalentes nossas que sobreviverão a nossa morte. Por isso, segundo o jornalista e filósofo Gunther Anders, gostamos tanto delas. Porém, num ambiente saturado, elas perdem o significado. Susan Sontag não poderia definir melhor em seu livro Diante da Dor dos Outros: “Uma imagem tem sua força drenada pela maneira como é usada, pelos lugares onde é vista e pela frequência com que é vista”. Esse é um dos motivos pelos quais a violência perdeu seu impacto na sociedade atual. Outro fato é a naturalização e glamourização da violência midiática. “A violência urbana passa a ser “companheira” da juventude atual. (...) Como se a violência tivesse tornado, mais que uma prática, uma alegoria social”, define Magno Medeiros em Cultura Midiática, Cultura da Violência e Cidadania. A cultura da informação imediata acaba provocando superficialidade, e o não-aprofundamento dos fatos resulta em simplesmente uma confirmação do senso comum. No caso de Suzano, a mídia focou nos atiradores, em seus métodos, em seus passos, ao invés de focar nas vítimas ou nos heróis que responderam ao ataque. Em entrevista à BBC Brasil, Jaclyn Schildkraut, autora do livro Tiroteios em massa: Mídia, Mitos e Realidades sobre o caso de Columbine – atentado à escola nos Estados Unidos ocorrido no fim dos anos 90 diz que o episódio pode ter inspirado os atiradores de Suzano.
© G1 - Francisco Kleison: arquivo pessoal
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toda a vida das
Grafite feito no muro da escola Raul Brasil em homenagem às vítimas de Suzano
sociedades, nas quais
reinam as condições modernas de produção, se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos”
(Guy Debord)
Em entrevista para o Contraponto, Mariana Filippini Cacciacarro, especialista em terapia familiar e presidente da Anexa-Nufac – Associação de alunos, egressos e colaboradores do Núcleo de Família e Comunidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ao falar sobre o caso de Suzano chama a atenção para a concepção dos seguintes efeitos: “É importante, nesses casos, considerar que essas imagens e divulgações podem ter um impacto negativo e aumentar os índices de tentativas e suicídios. A exposição em massa de imagens e comentários pode gerar o efeito Werther, em que os índices aumentam, principalmente quando a pessoa tem acesso aos meios letais, que tem ligação com esse suicídio especificamente. Em contrapartida, há o efeito Papageno, que pode auxiliar na prevenção dos suicídios se a notícia for divulgada com o objetivo de levar informações e esclarecimentos à população”. Mariana ainda ressalta que segundo a Organização Mundial de Saúde por meio do documento “Prevenção de Suicídio: Um Manual Para Profissionais da Mídia”, algumas das instruções para o que não fazer ao relatar um caso de suicídio na mídia incluem “Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas. Não informar detalhes específicos
do método utilizado. Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso”. No caso de Suzano a mídia não seguiu nenhuma das recomendações. O público não precisa ver tudo. Existem conteúdos que não deveriam ser exibidos. É necessário que a mídia tenha mais tato ao lidar com situações de violência, para que a brutalidade não seja naturalizada e vire parte do cotidiano. Entender o que realmente é de interesse público é essencial, pois a mídia molda a sociedade, selecionando o que é considerável de ser apresentado e analisado, assim o público acaba sendo um reflexo midiático. Quem não possui acesso direto àquela realidade assume que o discurso homogêneo e tendencioso da mídia é o real. Assim, se temos corriqueiramente imagens de ataques, destaques a assassinos e uma violência constante sendo apresentada ao público, não podemos esperar nada menos que um revérbero das atitudes por parte da população. A mídia deve se conscientizar e relembrar seu papel, já que, nas palavras de Pierre Bourdieu, “As palavras fazem coisas, criam fantasias, medos, fobias ou, simplesmente, representações falsas”.
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Maio/Junho 2019
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A dupla devastação sobre o continente africano Por Maria Clara Vieira, Anna Baisi e Rafael Oliva
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Além de ser historicamente esquecida pelos grandes meios, região é alvo de estereótipos e notícias negativas
los. Na contramão, reportagens sobre a África, no geral, acabam reforçando o estereótipo de um continente estagnado em seus problemas históricos. “É um continente com uma heterogeneidade enorme. São muitos países, muitos idiomas. Há uma confluência e diversidade de culturas, porém sempre simplificadas, reduzidas aos estereótipos, à imagem que o senso comum tem daquele lugar. Então, a gente acaba não sabendo nada da riqueza cultural da África. As expressões artísticas, que até têm uma ressonância em outros países do mundo, como o blues do Mali, o jazz da Etiópia. Praticamente nada sobre isso chega para a gente”, aponta Diogo. Para o entrevistado, as tragédias que acontecem na África, mesmo sendo o que mais repercute sobre o local, são tratadas de forma problemática e, até mesmo, antiética pela mídia. Dessa forma, o jornalismo acaba faltando com um de seus maiores princípios, que é o de promover um noticiário plural, e uma visão de mundo em sua complexidade e diversidade. “Seria, teoricamente, a ideia de dar voz a quem não tem, de esclarecer e iluminar”, lamenta o professor. Diogo acredita que as reportagens sobre a África só reproduzem estereótipos e fazem muito pouco para quebrar os estigmas sobre
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© Reprodução: Siphiwe Sibeko/Reuters
o início do ano, o ciclone Idai devastou três países africanos. Moçambique, Malawi e Zimbábue sofreram com a fúria da natureza. A última divulgação dos três governos apontou para quase mil o número de mortos. No total, mais de dois milhões de pessoas foram afetadas pelo Idai e 1,85 milhão delas apenas em Moçambique. A ONU (Organização das Nações Unidas) descreveu o ciclone como “uma das mais mortíferas tempestades já registradas no hemisfério sul”. A organização está mobilizando a população mundial a fim de arrecadar fundos para uma assistência de emergência. Apesar do esforço por parte da sociedade, como de Organizações não governamentais – ONGs, a tragédia africana não gerou tanto impacto internacional. As redes sociais tiveram grande contribuição para, não apenas disseminar o ocorrido, como, também, pedir ajuda humanitária. Porém, as grandes mídias divulgaram pouco acerca do assunto. Em entrevista ao Contraponto, o professor Diogo de Hollanda, que leciona a disciplina de Fundamentos Éticos na Prática Jornalística, na PUC-SP, apontou para o esquecimento midiático no continente africano e, por consequência, pouca comoção popular em eventos como o ciclone. Diogo realçou que, apesar da falta de recursos nas redações, consequência de uma crise no mercado jornalístico, o principal entrave para coberturas na África é o desinteresse midiático. “É uma cobertura escassa e estereotipada. Quase todas as notícias sobre a África são negativas. Mesmo quando o continente passa por momentos de prosperidade econômica, como os que têm sido verificados nos últimos anos em vários países, [a mídia] não quebra com a ideia de um continente irremediavelmente afundado na tragédia. Quase todas as notícias não fazem mais do que reforçar isso”, diz. Além de historicamente ser esquecido pela grande mídia, o continente africano é plano para notícias negativas. Com frequência, são abordados temas como pobreza, epidemias e conflitos étnicos. Questões políticas e econômicas são deixadas de lado, ou são tratadas de maneira superficial. “É como se a África, para o senso comum, fosse uma espécie de navio à deriva, lotada de pessoas doentes, se devorando mutuamente e afundando num mar ignoto. Como se não houvesse o que fazer, e como se fossem naturais notícias como as de um ciclone, por mais raro que ocorra na África. O cardápio de notícias do continente africano, é sempre este: epidemias, guerras civis, imigrações. Mesmo problemas que são mundiais, como corrupção e desgovernos, na África, parecem ter linhas mais fortes”, ressalta Diogo. Reafirmando essa premissa, é possível perceber uma diferença na divulgação de matérias sobre acontecimentos no continente europeu ou nos Estados Unidos. Episódios que acontecem nesses lugares ganham grande espaço na mídia, principalmente se for com a intenção de enaltecê-
Ciclone Idai destrói cidade de Moçambique
as populações marginalizadas, periféricas, e, no plano geopolítico, os africanos seriam o maior exemplo. “É uma cobertura que estigmatiza o continente e os próprios africanos. Na Europa, esse recurso de apontar um inimigo dentro da sociedade, uma ameaça, aquele agente capaz de causar violência e instabilidade, é algo recorrente. Hoje, no Brasil, por exemplo, é o traficante de drogas, o morador da periferia, o negro. Na Europa, é o africano, o imigrante, e, nos últimos anos, o muçulmano, sem dúvidas, já é tido como terrorista”, acrescenta. O ciclone Idai não se trata apenas de uma grande tempestade e suas consequências, mas também, do impacto e das reflexões que ele causa no papel midiático. A imprensa tem uma forte influência ao escolher a importância do que deve ser mostrado ou não, por isso, quando a mídia escolhe abordar discursos recorrentes como acontecimentos comuns da Europa ou da América do Norte, e deixa de lado assuntos dramáticos e importantes como esse, perpetua-se uma ideia criada há muito tempo. Ou seja, as construções de temas como o imperialismo e o neocolonialismo se conservam e a visão do leitor discorre, somente, para um único ponto de vista.
ONTRAPONTO
Crise política na Argélia e no Sudão reacende debate sobre a Primavera Árabe Por Daniel Gateno, João Pedro Coelho e Laura Barbosa
Manifestações populares levaram à queda de governos nos países árabes, relembrando o movimento de 2011, que foi impulsionado por lideranças jovens nas redes sociais
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Manifestantes protestam pela saída do presidente Abdelaziz Bouteflika em Argel, Argélia
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crise política instaurada na Argélia levou à renúncia do presidente Abdelaziz Bouteflika, que estava no poder desde 1999. Bouteflika demonstrou interesse em concorrer pela quinta vez às eleições presidenciais argelinas, que ocorreriam em abril deste ano. O ex-presidente sofreu um derrame no ano de 2013 e não fez aparições públicas desde então. Bouteflika tem 82 anos e governava um país de 42 milhões de habitantes, dos quais 54% tem menos de 30 anos de idade. Além disso, 25% dessa população jovem está desempregada, em uma economia instável, que sofreu com a queda dos preços do petróleo. Após o derrame de Bouteflika, uma grande parte da população acusou o irmão caçula do ex-governante, Said, de encabeçar a presidência com apoio da elite econômica do país. Parlamentares da FLN (Frente Libertadora Nacional) romperam laços com Bouteflika, que ficou sem apoio político. Para complicar a situação de Bouteflika, uma onda gigantesca de manifestações populares assolou a capital Argel e diversas outras cidades do país. Segundo o Jornalista Jamil Chade (correspondente internacional baseado em Zurique), em entrevista exclusiva ao Contraponto, a crise argelina se intensificou com os problemas de saúde do ex-presidente. “Ele passava mais tempo em Genebra do que em Argel por conta de suas inúmeras dificuldades médicas depois do derrame e sofreu um enfraquecimento político dentro do próprio governo”, disse Jamil. Após a renúncia de Bouteflika, um presidente interino, que anunciou um período de transição e convocou eleições presidenciais na Argélia para o mês de julho, foi nomeado. Abdelkader Bensalah é o presidente do senado (chamado de Conselho da Nação na Argélia) e também é considerado aliado de Bouteflika. Por isso, mesmo que a nomeação de Bensalah esteja dentro da constituição, os manifestantes não querem no topo do governo alguém que tenha ligações com o ex-presidente. O fenômeno chamado de “primavera árabe” que derrubou diversos governantes de países árabes em 2011, a partir de inúmeras manifestações populares impulsionadas pelas redes sociais não derrubou Bouteflika, apesar da crescente insatisfação com seu governo na época. O medo e a memória recente da guerra civil, pela qual a Argélia passou nos anos 90, gerou precaução nos manifestantes. Segundo Chade, o governo de Bouteflika parou os protestos de 2011 com repressão e instaurou o medo de uma nova guerra civil. “O governo conseguiu frear as manifestações populares de 2011 usando um sistema baseado no medo de uma nova guerra, a população é relativamente jovem e muitos eram crianças durante a guerra civil de 92, que resultou na morte de 200 mil pessoas”, acrescentou o jornalista.
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A ira dos manifestantes se volta contra todo o clã de Abdelaziz Bouteflika, considerado extremamente corrupto e praticante da chamada “velha política”. Em 2012, um escândalo de corrupção se tornou público dentro da empresa argelina de gás e petróleo Sonatrach, seu CEO e outros funcionários foram presos. A companhia era protegida e aliada do governo de Bouteflika. O exército foi a instituição que pediu ao sistema judiciário a abertura de um inquérito contra empresa e, apesar de seu passado antidemocrático, não é malvisto pelos manifestantes. Contudo, os protestos visam buscar uma alternativa democrática e não militar para um recomeço na Argélia. Em entrevista à agência
Reuters, o estudante argelino Nabil Arrachi, de 25 anos, mostrou-se satisfeito com a defesa da transparência na política argelina feita pelo exército, mas fez algumas ressalvas. ”Estamos felizes pelo Exército estar pedindo a acusação de pessoas corruptas. Mas isso não fará com que abandonemos nossas demandas”, disse Nabil. De acordo com análise do jornalista tunisiano Lamine Ghanmi, que é especializado em norte da África no site The Arab Weekly, o apoio dos militares será importante para o futuro do país. “O exército se tornou uma das instituições mais respeitadas pelos argelinos e eles irão apoiar o candidato apontado pelo exército embora queiram uma transição de governo democrática”.
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Maio/Junho 2019
A guerra civil na Argélia
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As eleições presidenciais de 1991 estavam polarizadas em uma disputa política intensa entre a Frente de Libertação Nacional (FLN) e a Frente Islâmica da Salvação (FIS). Com medo da derrota e com o apoio dos militares, a FLN cancelou as eleições daquele ano, alegando uma tentativa de salvar a democracia. A FIS, iniciou uma guerra contra o governo e seus partidários. Diversos grupos rebeldes foram criados oriundos da FIS, como o Movimento Islâmico Armado (MIA) e o Grupo Islâmico Armado (GIA). Estes grupos lutaram entre si e contra o governo, iniciando uma das eras mais sangrentas da história da Argélia. Estima-se que 200 mil pessoas morreram durante o conflito. Após a eleição de Abdelaziz Bouteflika, em 1999, a guerra estremeceu e os grupos guerrilheiros foram extintos após forte investida militar do governo. Bouteflika foi considerado o presidente que conseguiu atingir a paz na Argélia depois de anos de conflito.
A Ditadura no Sudão O Sudão, também vem passando por uma crise nos últimos tempos. A onda de manifestações culminou com a queda e prisão do presidente, Omar al-Bashir, que ficou no poder por 30 anos. O ex-presidente, é acusado de crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade na região de Darfur, pela Corte Internacional Criminal (ICC, sigla em inglês). Após a deposição do presidente, o poder foi assumido por uma junta militar. Porém, a forte pressão das ruas fez com que o chefe do governo de transição também deixasse o cargo. Mesmo com o presidente deposto, os protestos continuam com força. A população foi às ruas de Cartum, capital do país, para denunciar as mortes e repressões ocorridas após a saída de Omar e exigir que o governo seja assumido por um civil. De acordo com a France Presse, a entidade que organiza os protestos, Associação de Profissionais Sudaneses, que luta por um governo civil, quer levar o ex-presidente e seus Serviços de Segurança à Justiça. Desde 1956, ano em que ocorreu a independência do Sudão, diversos golpes militares ocorreram e líderes autoritários assumiram o poder. Contudo, os militares também já intervieram, entre 1964 e 1985, para apoiar as demandas da população que foi às ruas. Os protestos começaram em dezembro do ano passado, em Atbara, cidade localizada no nordeste do país. O governo tentou evitar a falta de pão no país, porém fez com que os preços aumentassem, o que gerou uma revolta na população, que foi duramente reprimida nas ruas. Desde 2011, após separação da parte sul do país, o petróleo ficou escasso e a inflação Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
chegou a 70%, o que tornou o Sudão um dos países mais pobres do mundo. Grande parte dos manifestantes culpam Bashir pela cisão do país e pela colocação do Sudão na lista de países que patrocinam o terrorismo. Por essas e outras, o Sudão sofreu bloqueios econômicos e comerciais dos Estados Unidos, em 1997, logo após o país ter abrigado o grande inimigo do Tio Sam, Osama Bin Laden. Em 2017, essas sanções foram encerradas. Bashir tentou criar relações mais amigáveis com os EUA, na área de segurança. O Sudão enviou tropas para sustar uma aliança árabe ao Iêmen, liderada por sauditas, no objetivo de diminuir a influência iraniana no país. A primavera tardia Os atuais protestos no Sudão e na Argélia têm relação com a Primavera Árabe. Assim como nas manifestações de 2011, a população desses dois países pede o fim de governos longos e autoritários. Na Argélia, Bouteflika permaneceu por 20 anos, enquanto Bashir ficou 30, no Sudão. A semelhança é tamanha, que os protestos têm sido chamados de 2ª Primavera Árabe. O contexto político de ambos os países foi a principal diferença entre as suas duas ondas de revolta, separadas por um intervalo de oito anos marcado pela continuidade da ditadura. Em 2011, durante a primeira onda da Primavera, as manifestações nos dois territórios foram repreendidas e pouco mudou. Os argelinos conseguiram o aumento dos salários e o fim do estado de emergência que vigorava desde o início da Guerra Civil no país, mas não tiveram força para mudar o governo. No Sudão, os protestos, que tiveram início com a alta dos preços dos combustíveis e Maio/Junho 2019
dos alimentos, resultaram na prisão dos manifestantes. Agora, com os governos enfraquecidos e a forte crise social, os argelinos e sudaneses conseguiram o que não tinham no início da década. No início de abril, Bouteflika renunciou depois de perder o apoio do exército, enquanto Bashir sofreu um golpe de Estado. O cenário é similar ao dos Estados que, em 2011, tiveram seus ditadores depostos. A partir da queda de Zine El-Abidine Ben Ali, na Tunísia, a população do Egito, Líbia, Iêmen e Síria foi às ruas pedir por mudanças nos regimes que já lhes era imposto desde o século passado. Apesar de conquistarem o primeiro objetivo, os protestantes, com exceção dos tunisianos, não conseguiram levar a democracia para o mundo árabe. O vácuo de poder causado pela queda dos ditadores gerou diferentes cenários. O Egito teve uma breve experiência democrática com as eleições de Mohammed Morsi, após a deposição de Hosni Mubarak, mas, em 2013, com novos protestos contra o governo, as Forças Armadas tomaram o poder com Abdel Fattah al-Sisi. Enquanto isso, na Líbia, no Iêmen e na Síria, a queda dos governos levou ao início de guerras civis e a liberdade de expressão pedida nunca foi alcançada. O reflexo sobre os rumos da Primavera Árabe é importante para os manifestantes em 2019. Assim como nos países marcados por fortes tensões em 2011, as Forças Armadas têm forte influência na Argélia e no Sudão e podem impedir sua democratização. Isso ficou claro com a mudança de postura do Exército com o decorrer das manifestações contra Bashir e com a pressão do chefe do Estado-Maior do Exército, Ahmed Gaid Salah, para a renúncia de Bouteflika, em tentativas de ganhar popularidade nas ruas. As Forças-Armadas sudanesas apoiavam Bashir no início dos protestos em dezembro, mas com a falha na tentativa de repressão e a continuidade das reivindicações pelas ruas, o Exército se voltou contra o ex-ditador e líder do golpe militar de 1989. A relação de Gaid Salah e Bouteflika é parecida. O ex-governante da Argélia também foi apoiado pelo general durante seus vinte anos no poder, principalmente após o derrame sofrido em 2013, quando o chefe do Estado-Maior apoiou publicamente sua quarta candidatura seguida à presidência. Assim como ocorreu com Bashir, o exército argelino, representado por Salah, traiu Bouteflika como forma de agradar o povo. A aproximação dos militares com os manifestantes, é um retrato da tentativa da instituição de permanecer no poder, como ocorreu no Egito. “Ativistas egípcios exilados e perseguidos pelo governo de Sisi alertam os manifestantes argelinos e sudaneses sobre o risco de confiar no exército para realizar a transição”, afirma Jamil Chade, ao relacionar os protestos de Argel e Cartum ao golpe militar egípcio, em 2013. Enquanto o Sudão caminha para um cenário mais próximo ao visto em Cairo, com uma forte crise econômica e a presença das Forças Armadas no governo por no mínimo dois anos, a Argélia parece ter, no alerta egípcio e na sua própria experiência de 92, motivos para impedir a ascensão do exército e se espelhar na Tunísia para realizar sua transição democrática.
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ensaio fotográfico
Estudantes em luta pela educaçã
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m São Paulo estudantes, professores e trabalhadores da área de educação ocuparam as ruas da cidade contra o corte de verbas nas universidades e institutos federais realizado pelo governo Bolsonaro.
© Julia Capachuz
© Julia Capachuz
© Julia Capachuz
Imagens selecionadas e registradas pelas alunas Sthefane Mattos e Julia Cachapuz
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Esquecidos pela sociedade Por Sarah Catherine Camara de Seles
Processo de retirada de moradores de rua da marginalidade conta basicamente com apoio de ONGs
harles, sem ter para onde ir, mora com sua família na praça do metrô Ana Rosa. Em um barraco minúsculo, improvisado com lona, vivem ele, a mulher, quatro filhas e uma sobrinha, além de sua ex-mulher, Vanessa, que é a mãe das meninas. Segundo estimativas da prefeitura, a situação de Charles se assemelha com a de pelo menos 20.000 pessoas que vivem nas ruas da cidade de São Paulo. São apenas ajudados quando voluntários levam alimentos e doações de roupas para Charles e as crianças. A vulnerabilidade e a incerteza são predominantes no dia a dia deles. Julia e Yasmin, duas filhas de Charles, disseram que dependem de “marmitex” doados para se alimentar e que cozinham na lenha, quando recebem alimentos não perecíveis. O espaço em que vivem é aberto e a casa é feita de plástico, quando chove, o pouco que tem é destruído pela água. Sem um lar, não há lugar seguro. Eles têm que buscar o que comer e correm o risco de serem roubados, fazem suas necessidades em lugares não apropriados e na maioria das vezes é impossível tomar banho. Sem uma casa fixa é muito difícil conseguir viver regularmente. Existem alguns programas governamentais que buscam auxilia-los. Como o programa de Braços Abertos (DBA), que tem como objetivo profissionalizar moradores de rua, para que possam se reerguer. No entanto, mesmo que tenham uma profissão e certo auxílio, não recebem moradia, sendo extremamente difícil conseguir um emprego registrado sem comprovante de residência. Inúmeros outros programas usam do mesmo estilo de tratamento. A iniciativa de ajudar moradores de rua, parte também de organizações sem fins lucrativos (ONG’s), como o Arsenal da Esperança, que funciona na mesma linha de raciocínio do DBA. A ONG oferece cursos profissionalizantes, reconhecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), para os 250 acolhidos, que moram na casa durante aproximadamente seis meses. Por dia, 1.200 homens, em média, passam a noite no local, recebem produtos de higiene e alimentação. O Programa Braços Abertos e a ONG Arsenal da Esperança são abrigos tradicionais da cidade, que também conta com outros centros de acolhimento, mas que juntos, não são suficientes para atender as milhares de pessoas em situação de rua na capital paulista. Os abrigos regulares não são práticos e não geram bons resultados a medida que o tempo passa, tendo em vista que acolhem os moradores de rua por tempo limitado. A partir do momento que eles saem das instituições, não tem nenhum tipo de acompanhamento e, por vezes, voltam para suas antigas rotinas. Na maioria das vezes, os acolhidos não conseguem cumprir a imposição de regras rígidas de horários e comportamentos, uma vez que leva tempo para converter velhos hábitos. Pensando nisso, novas políticas foram implementadas colocando moradia em primeiro lu-
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© Fotos: Sarah Catherine Camara de Seles
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ucesso como o
RUAS, demonstrou a
necessidade de abranger projetos para que exmoradores de ruas também tenham acesso à
cultura, educação e arte, de forma que possam ter desenvolvimento pessoal.
gar no processo de retirada de moradores de rua da marginalidade, como housing first (primeiro a habitação). Inicialmente implantado em países desenvolvidos, o projeto oferece não só moradia, mas dignidade e oportunidade para eles. O projeto RUAS (Ronda Urbana de Amigos Solidários) foi o primeiro movimento a realizar housing first na América Latina. Através de moradia fixa, acompanhamento profissional a longo prazo, as pessoas em situação de rua conseguem se reestabelecer melhor do que da maneira regular. A partir de um lar seguro, as pessoas são instruídas a, aos poucos, mudarem o estilo de vida que levavam na rua. Após se adaptarem ao novo local, começam a procurar por contratação no mercado de trabalho. A casa é essencial nesse processo, visto que para diversas situações é obrigatória a apresentação de comprovantes de residência. Suas necessidades básicas são atendidas e dessa maneira os indivíduos conseguem se reestabelecer na sociedade. Os resultados positivos do RUAS são elevados em comparação aos abrigos regulares,
com 80% das pessoas atendidas, permanecendo abrigadas após dois anos do processo, ao contrário das abordagens tradicionais, nas quais apenas 20% não voltam para as ruas. Sucesso como o RUAS, demonstrou a necessidade de abranger projetos para que exmoradores de ruas também tenham acesso à cultura, educação e arte, de forma que possam ter desenvolvimento pessoal. A arte desempenha um grande papel nisso e para que os moradores de rua possam usufruir dela, existe o Centro de Inclusão pela Arte, Cultura, Trabalho e Educação (CISARTE). O centro promove oficinas e atividades relacionadas à informação e a todo tipo de arte, as quais auxiliam na melhora psicológica e física. O housing first não diminui a necessidade e a importância de outras iniciativas como, por exemplo, o Projeto Olhe. Esse consiste no primeiro banco de currículo de moradores de rua, que coloca em evidência, não só o talento deles, mas também os auxilia a conseguirem um emprego.
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Os efeitos por trás do bife que você come Por Vitória Martins e Gabriella Lopes
O longo caminho da informação sobre a produção de carne e suas consequências na devastação da natureza
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Sobre o desmatamento Um estudo da organização ambiental Imazon, constatou que áreas verdes e protegidas da Amazônia tiveram um aumento de 22% de desmatamento. Chegando a desmatar 200 mil campos de futebol nos últimos dez meses, sendo equivalente a cerca de 1.185.000.000 árvores derrubadas entre agosto de 2017 a julho de 2018. O gado não apenas tem uma grande parcela de culpa para o aquecimento global, mas também é um dos principais gastos de recursos e degradação ambiental, usando 45% das terras no mundo. No cenário brasileiro, o jornal Amazônia publicou em 2016, que 80% das terras foram desmatadas. A região já perdeu 20% da cobertura original, em longo prazo com variação de temperatura e consequente ameaça à vida animal, a porcentagem pode aumentar de 20% a 30% da floresta. Em fevereiro de 2014, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou o Plano Mais Pecuária, com o objetivo de aumentar de forma sustentável a produtividade e a competitividade da pecuária bovina de leite e de corte, tendo um prazo de até dez anos. Suas metas deverão ser atingidas até 2024. De acordo com a proposta, a taxa de lotação passaria dos atuais 1,3 animais por hectares para 2,6. Para crescerem juntos sem brigas, os machos têm seus chifres eliminados geneticamente ou por meio de ferro em brasa, soda cáustica e serrote. Inclusive, são castrados por meio de injeção química ou com alicate e facas, segundo a revista Mundo Estranho. Uma reportagem de 2015 reproduzida pelo The Guardian alegou que “o destino de animais cultivados industrialmente é uma das questões mais éticas do nosso tempo. Dezenas de milhões de seres sencientes, cada um com sensações e emoções complexas, vivem e morrem em uma linha de produção”.
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esgoto que desaba no mar, as queimadas causadas com cigarros acesos jogados no mato, o número de carros na rua, a poluição das indústrias e até o desperdício de água em banhos demorados. Esses são alguns dos motivos incentivadores da deterioração do planeta, contudo, a indústria da carne é um grande fator para contribuição dessa degradação. Mas poucas pessoas já ouviram sobre esse assunto e, as que ouviram, acreditam ser apenas uma lenda. A ONU, em 29 de novembro de 2006, publicou um evidente relatório online sobre os impactos causados da industrialização do gado. O estudo constatou o uso de 30% da superfície total da terra para pastagens, e mais 33% destinados a ração. As florestas são desmatadas para criar novas pastagens, propulsores do desmatamento, especialmente na América Latina, onde, por exemplo, cerca de 70% das florestas antigas da Amazônia foram destinadas ao pastoreio”. Por outro lado, “comer 100 gramas de carne todos os dias significa emitir 99 quilos de CO2 em um ano”. Esse foi um dos tópicos discutidos na revista Mundo Estranho impressa em agosto de 2018. Em menor abundância na atmosfera, o gás metano (CH4) é 21 vezes mais detentor dos raios solares na Terra do que o gás carbônico. Apesar da indústria da carne não ser o maior emissor do famoso CO2 no mundo, ela é uma importante culpada para a emissão de outros gases muito mais prejudiciais ao meio ambiente, como o CH4. Segundo o site Believe Earth, uma tonelada de metano equivale à 21 toneladas de dióxido de carbono, mostrando-se um gás extremamente prejudicial. Acontece que o gado é o maior produtor de metano do mundo. De acordo com uma matéria da Super Interessante, os bovinos e outros ruminantes são responsáveis por 90% da produção desse gás. Curiosamente, a produção dos gases estufas causados pelo gado, provém principalmente do mal tratamento dado ao esterco e também da fermentação no estômago do animal, sendo quase uma espécie de arroto. No relatório lançado pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2018, foi trazida a questão de como é feito o tratamento dos excrementos do rebanho da produção de carne bovina no Brasil. As indústrias que criam seus animais em confinamento descartam seus dejetos em lagoas, charcos e tanques de tratamentos. Quando jogados diretamente no solo são decompostos por bactérias produzindo grande quantidade de CH4 e óxido nitroso, que possui um potencial de aquecimento 296 vezes maior que o CO2.
A ração do rebanho Como já dito acima, o desmatamento causado pela soja é alarmante, contudo, o assunto tratado neste tópico é outro. A Sociedade Vegetariana Brasileira, em 2007, apontou que, para um grupo de 6,5 bilhões de pessoas, é necessário para sua sobrevivência seis quadrilhões de calorias por ano. Na época, a produção mundial de grãos era de 1,86 bilhões de toneladas por ano, que consistia cerca de sete quadrilhões e meio de calorias. Mesmo com este excedente na produção de grãos no cenário apontado uma em cada seis pessoas passava fome. A produção da soja em 2016 e 2017 consistiu em 113,92 milhões de toneladas, equivalente a 33,89 milhões de hectares, conforme os dados da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Incoerentemente, segundo a agência das Organizações das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, a fome mundial desde 2015 vem aumentando principalmente em países subdesenvolvidos, como os da América Latina. O Brasil, em 2014, saiu do Mapa da Fome realizado pela Organização das Nações Unidas devido ao número de pessoas que ingeriam menos calorias do que o necessário ter diminuído de 5% para 3% no País. Entretanto, pesquisas preocupantes voltaram a assombrar a história do Brasil, quando em 2017, o Grupo de Trabalho da Sociedade Civil lançou o relatório Desenvolvimento Sustentável, dizendo que ainda há chances de voltarmos ao Mapa da Fome da ONU. Soja A soja é um produto com diversas funcionalidades, desde a alimentação até a produção de cosméticos, sua função é bastante diversificada, entretanto, não se pode dizer o mesmo sobre a sua utilização.
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Segundo a Embrapa, o país é o segundo maior produtor de soja do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos. E para onde vai toda essa soja enquanto há 5,2 milhões de pessoas passando fome na nação? A Uol, em seu segmento Rural Centro, conta que 80% da produção nacional deste grão é vendido como ração de animais da pecuária industrial para que eles possam engordar rápido e assim suprir o mercado consumidor. A produção de carne e suas consequências na sociedade não passam de uma lenda urbana criada para quebrar o conforto de uma cultura tão enraizada. A devastação causada pela produção da soja é feita para um processo simples: alimentar o boi e, consequentemente, alimentar o ser humano. Contudo, essa proteína é um produto caro que apenas a classe média ou alta pode comprar e aqueles que realmente passam fome se vêem obrigados a fazer uma dieta vegetariana com pouca diversidade de nutrientes para conseguir sobreviver.
A quantidade de mercúrio no peixe pode ser prejudicial a saúde
A água que você não vê. Os litros de água gastos no dia a dia dos indivíduos
© Crédio na imagem
© Informações do Jornal Folha de São Paulo. Produção da tabela: Gabriella Lopes
Água Tomar banhos longos, escovar os dentes de torneira aberta, usar mangueira para limpar a calçada, são ações que contribuem para o desperdício de água do mundo. Todavia, mais da metade da água do planeta não é gasta pela população, mas sim pela agropecuária. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO),
mostra que o gasto doméstico de água no mundo corresponde somente a 8%, enquanto o da agropecuária é responsável por 70%. O instituto Ecoação escreveu “A água que você não vê. O consumo de água na produção de alimentos”, uma matéria contando sobre a quantidade de água usada na produção de alguns alimentos. Para apenas um quilo de carne bovina são utilizados 17.100 litros. Nota-se, todavia, que a água não é usada exclusivamente para hidratar o rebanho como a maioria pensa, mas é essencialmente atribuída à irrigação usada na produção de soja que depois é servida como ração aos animais. Segundo o site da EOS, empresa especialista em desenvolvimento de soluções para empresas de saneamento básico, a FAO observou que 60% da água utilizada para diferentes tipos de irrigação é perdida em fenômenos como a evaporação. Ainda consta que se 10% desse desperdício fosse poupado, poderia abastecer o dobro da população. Esta é uma das críticas dos movimentos veganistas e ambientalistas atuais. A maior parte da água potável é destinada para suprimento da indústria da carne, enquanto, segundo as últimas informações da ONU, o mundo possui 4,5 milhões de indivíduos sem água potável para viver. Assim, se a produção de carne fosse diminuída, consequentemente a água gasta também seria. Dessa forma, as pessoas que precisam aderir soluções desesperadas para sanar suas necessida-
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des hídricas, e que também acabam contaminando os lençóis freáticos e bacias hidrográficas por causa disso, poderiam utilizar da água que antes seria gasta com a proteína animal. Saúde x Informação Em entrevista ao Contraponto, Renata Morita, vegana há 3 anos, comentou como começou com seu ativismo: “A partir do momento que eu comecei a me informar sobre o veganismo e vegetarianismo, eu passei a preencher lacunas sobre informações para outras pessoas e percebi que tinha um impacto na vida delas, que iam mudando de opinião e até mesmo o jeito de viver. É algo natural, quando se tem o poder da informação você quer passar isso para frente e quando menos espera você é um ativista intencionalmente”. Uma pesquisa online realizada no início do semestre pelo Contraponto foi composta por um público-alvo jovem, de pessoas entre 18 e 29 anos e revelou que 51,6% dos entrevistados não sabiam sobre a maior parte dos grãos serem destinados para a alimentação dos gados. Mesmo assim, segundo os dados coletados, 44,4% das pessoas afirmam não terem vontade de diminuir ou parar com o consumo de carne. Neste sentido, o conhecimento sobre todo o processo industrial sobre a carne é ainda pequeno. Para Renata “as pessoas vão perder o desinteresse quando elas pararem e começarem a se informar”. A ativista também adverte que “em uma questão de fatos, a pessoa pode até falar que legumes, verduras e grãos têm agrotóxicos. E elas estão certas, porém, principalmente no Brasil, são usados agrotóxicos em sua maioria bioacumulativos e solúveis. Animais de abate são alimentados com grãos que possuem alta quantidade de agrotóxico, em consequência a carne tende a ter uma grande taxa”. Em 2017, o Ministério da Saúde advertiu a população brasileira sobre a quantidade de carne que se deve ser consumida. Segundo eles, o certo é comer entre 300 a 500 gramas de carne por semana, o equivalente a um bife de 71 gramas por dia. Comer carne bovina, de acordo o MS, aumenta as chances de se ter câncer, além de outras doenças como as cardíacas devido à alta concentração de gordura. Apesar de as carnes de frango e peixe possuírem menos gordura, ainda não se é recomendado comê-las em excesso. A revista Mundo Estranho conta que, entre as seis e oito semanas de vida, os frangos passam a receber doses altas de antibiótico para que cresçam rápido, contribuindo para o desenvolvimento de vírus e bactérias mais resistentes, que podem ser muito prejudiciais ou até letais aos seres humanos. Já os peixes possuem metais pesados porque as indústrias descartam seus resíduos nos mares, como por exemplo o mércurio, que pode trazer problemas para o sistema nervoso, digestivo e imunológico. A maioria dos brasileiros, todavia, consome muita carne por dia. Em média, 1000 gramas a mais do que o recomendado pelo MS. Na pesquisa feita pelo CP, 78,5% das pessoas responderam que comiam mais de duas a três vezes carne por dia. Já, ao final, quando foi perguntado aos entrevistados se sabiam sobre a quantidade de proteína animal que o Ministério Saúde recomenda consumir, cerca de 72% nem sabia dessa informação.
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Modificação corporal traduz expressão e identidade
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odificar-se está muito além do masoquismo. Os ventos que sopram tal ideia não contemplam sua complexidade. Os padrões cristalizados pelo decorrer da história não mensuram mais a complexidade do individuo pós-moderno. A necessidade de identificar sua unicidade, de transcender o ideal do ser funcional (funcionário) imposto pelo capitalismo leva parcela da sociedade a lutar por sua liberdade de expressão. Exteriorizar o universo que está contido em cada um de nós é essencial para o avanço intelectual das sociedades futuras. Thiago Angel, professor de história da escola estadual Américo Marco Antônio e ativista do movimento em prol das modificações corporais, fala para o Contraponto um pouco sobre questões do “ser modificado.” Seu corpo quebra o estereótipo do professor. Todas as suas tatuagens, piercings e alargadores remetem a um ideal arcaico e tradicional de um vândalo ou qualquer coisa do tipo. Porém, como vemos diariamente identidades antes marginalizadas vêm ganhando espaço no meio social e até mesmo no mercado de trabalho, e para isso acontecer rotineiramente esperamos ver cada dia mais professores como Thiago nas escolas pelo mundo. Contraponto – Qual sua percepção sobre mercado de trabalho e as pessoas com modificações corporais? Thiago Angel – Vivemos um momento hoje onde é visivelmente perceptível que as pessoas com modificações corporais estão acessando lugares que antes eram impensáveis, em diferentes setores, funções e cargos. Então começamos a ver essa multidão ocupando postos diversos. No entanto, temos que problematizar que estamos bem distantes do cenário ideal. Falo isso, pois muitas empresas ainda excluem funcionários e funcionárias ou obrigam que essas pessoas escondam suas modificações, sendo comum que usem uma roupa que as encubra, uma fita para colocar por cima e um band-aid também. Percebo que é uma prática muito violenta, mas é o mundo em que vivemos, as empresas têm a mentalidade muito atrasada, muito descolada do nosso tempo e fora da perspectiva da inclusão. Gosto de citar o Manifesto Freak, para procurar entender porque aceitamos que o mercado formal de trabalho ainda exclua essas pessoas por conta dos seus corpos e subjetividades. Outro ponto que gosto de citar é que os indivíduos que possuem modificações corporais são apenas mais um grupo que sofre com esse sistema violento do mercado de trabalho e da sociedade como um todo, porque é algo que foi historicamente excluído e eu faço parte dessa estatística de exclusão, e por pensar de forma interseccional eu encontro eco com diferente grupos. Temos que pensar que pessoas obesas, pessoas negras, pessoas da periferia, LGBTQI+, pessoas com deficiência e indígenas são grupos de pessoas que foram, por muito tempo, exclusos do mercado de trabalho e ainda hoje encontram algumas barreiras, então temos que continuar Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
Em meio ao presente retrocesso sobre a liberdade e o livre-arbítrio, tendência gera atrito necessário para frear o tradicionalismo
tencionando. E, nesse contexto, é sempre bom frisar a sigla T do LGBTQI+, já que as pessoas trans são um grupo que sofre um processo de desumanização gigantesco e dentro desse processo está a dificuldade, na verdade a impossibilidade de acessar o mercado de trabalho. É a negação da dignidade de um ser humano, que começa por aí e segue em outros segmentos da sociedade, então temos que continuar problematizando para que seja realizado algum avanço. CP – Como você enxerga a questão da identidade moderna e sua complexidade? TA – As identidades sempre foram complexas e agora começamos a entender a complexidade dessa identidade, o que é maravilhoso, pois vamos descobrindo muitas formas de ser e existir. Muitas vezes, não é nem encontrar a forma e, sim nomes, encontrar grupos e isso é fenomenal, é poderoso. Porém, percebo que estamos vivendo um momento histórico mundial de muito retrocesso, conservadorismo, autoritarismo e então algumas coisas que já haviam sido resolvidas lá atrás retornam com muita força e como um tabu, muitas vezes, anacrônico, e é isso que tem sido visto. São grupos conservadores que têm assumido o poder ao redor do mundo e junto com essas pessoas vem a reconstrução de tabus sobre coisas que não deveríamos estar enfrentando de novo. O corpo, nesse âmbito, se tona novamente um tabu gigantesco e passa pelo processo violento de controle, de proibição. Então pensamos hoje nessas discussões no Brasil, principalmente sobre ideologia de gênero, kit gay, e essas coisas todas são uma clara tentativa de controle de corpos. CP – Como você percebe as modificações e seus significados? Formas de expressão ou uma questão que transcende o ser em si? TA – Eu percebo as modificações corporais como um dos maiores legados da história humana, ela
sempre existiu e sempre vai existir. É poderosíssima, pois se transforma ao longo do tempo e supera o próprio tempo e espaço, modifica e ao mesmo tempo é transformada no nosso presente e a gente percebe o quão complexa é porque afeta e motiva pessoas por diferentes razões. Não temos como definir se é um único grupo ou uma única tribo, é sempre uma diversidade pulsante que se dá por vias do corpo e da subjetividade. CP – Como o governo Bolsonaro interfere no movimento das pessoas com modificações corporais e seus possíveis reflexos? TA – O governo atual não afeta só as pessoas com modificação corporal, mas a toda população do país, quiçá do mundo. Falo isso por todos os efeitos danosos que vimos nesses seis meses incompletos, onde já ocorreram coisas trágicas. É um completo deserto de propostas para melhorar as coisas aqui, além de muitos delírios e teorias da conspiração. Um ponto necessário de se entender é que é um governo altamente reacionário e conservador onde a diversidade não tem espaço. Esse é o sistema que está imposto hoje, do discurso que venceu e é assim que está. Então, se as pessoas com modificações corporais sugerem algum tipo de quebra na normatividade e propõem diversidade, diante de um governo que nega tudo isso e combate essas práticas de forma muito bruta e violenta, a gente tem um problema muito sério. E ao mesmo tempo, é triste, pois muitas pessoas que possuem modificações não fazem essa ação e apoiam o atual governo, e dão um grande tiro no pé agindo assim. Temos que continuar resistindo e produzindo conhecimento e informação sobre o que somos, como somos e dessa forma nós conseguimos sobreviver a essa fase que vai passar, obviamente com algumas sequelas, mas vai passar, assim espero. Todavia, com um governo que combate fortemente a cultura e as modificações corporais nesse âmbito, precisamos de mais filmes, livros e matérias sobre isso.
Thiago Angel, ativista do movimento de modificações corporais e professor da rede estadual de São Paulo
© Thiago Angel
Por Guilherme Dias e João Victor Capricho
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Ocupações culturais preenchem espaços ociosos de SP com arte O
© Larissa Teixeira
artigo 5º da Constituição Federal estabelece, que toda propriedade deve estar condicionada a uma função social. Segundo o Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há cerca de 6 milhões de imóveis desocupados há décadas no Brasil. Só em 2018, a Secretaria Municipal de Habitação notificou cerca de 1385 imóveis ociosos na cidade de São Paulo. Mesmo em condições precárias, essas construções atraem milhares de famílias e artistas que precisam de um ambiente para morar ou promover atividades. Os coletivos de cultura ocupam e ressignificam esses espaços, o que possibilita uma gestão democrática pela própria comunidade. A arte vai muito além de museus e galerias badaladas. Está também nas ruas e em instalações sem infraestrutura adequada, como nas ocupações culturais. A escassez de projetos culturais pelo poder público, principalmente nas periferias, o difícil acesso da população de baixa renda e a grande quantidade de espaços vazios, tornou necessária a reivindicação de centros de cultura, locais em que acontecem diversos eventos que favorecem o trabalho de muitos artistas e promovem lazer para as regiões em que estão. Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Cultura na Cidade 2019”, da Rede Nossa São Paulo e do Ibope Inteligência, 28% dos paulistanos não frequentaram nenhuma atividade cultural da cidade no último ano. Esse grupo é composto principalmente por pessoas menos escolarizadas, pretas e pardas, de baixa renda e da zona leste. O estudo também mostrou, que os fatores que mais incentivam a participação em atividades culturais, são o preço e a proximidade da casa. Thalita Duarte, integrante do Grupo Pandora de Teatro, comenta que quando atuou em uma peça, no bairro de Perus, zona norte de São Paulo, uma moradora contou: “É a primeira peça de teatro que eu assisti na vida, e olha que eu só assisti porque está na porta da minha casa, se não, nem isso eu faria”. Além de eventos e programas culturais terem um valor alto, os que não cobram entrada não são de fato gratuitos, a passagem e o tempo de locomoção desses moradores até o centro, são itens que desestimulam a busca por novas formas de entretenimento e conhecimento. Ainda que as ocupações culturais estejam se disseminando pela cidade, principalmente, em espaços que estavam ociosos, é frequente a tentativa de reintegração de posse desses locais. O Centro Cultural Ouvidor 63, por exemplo, vivencia tal situação. Fundado em maio de 2014,
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Palcos de diversas manifestações artísticas, as ocupações promovem lazer nos territórios em que atuam, mesmo sem estarem regulamentadas pelo poder público tos culturais na região. Gustavo explica, que o nome foi escolhido para referenciar alguém realmente ligado com o local: “Quem foi Ermelino Matarazzo? Por que essas pessoas que estão nos nomes das ruas, nos equipamentos, são sempre as de elite?”, ele questiona. O grupo começou a utilizar o prédio, em 2014. Desde então houve cobranças por diálogo com o poder público, tentativa de reintegração de posse e interdição do prédio, em 2017. Atualmente, a Secretaria de Cultura passou a arcar com despesas como água e luz, mas a regularização do prédio e a gestão Ocupação Cultural Mateus Santos fica compartilhada do poder público em Ermelino Matarazzo com a equipe da ocupação ainda não aconteceu. “É um prédio de três andares, que dá pra fazer muita coisa, se tivéssemos uma reforma”, complementa Gustavo. Apesar de dificuldades financeiras e com a divulgação do que acontecerá na ocupação, praticamente todos os dias há atividades voltadas para literatura, teatro, cinema, música, dança, entre outros. A Ocupação Cultural Mateus Santos e a Ocupação Artística Canhoba, integram o Bloco das Ocupações – iniciativa que busca atender as especificidades de cada espaço e criar um projeto de lei que Exposição ZL 100 Registro na Ocupação regularize e dê possibilidade para Cultural Mateus Santos que novas ocupações apareçam em São Paulo. Ao todo são mais de 20 ocupações pela cidade. A Ocupação Artística Cano centro de São Paulo, o grupo gerencia o local nhoba fica em Perus, na zona oeste da cidade e e afirma ocupar um prédio que estava vazio há surgiu no ano de 2016 “da necessidade que não só o Grupo Pandora de Teatro, mas também de cerca de 30 anos. outros coletivos artísticos do bairro de ocupar espaços públicos que estavam ociosos”, afirma Ocupações pela cidade As ocupações culturais utilizam diversas Thalita Duarte, integrante do grupo artístico. Thalita conta que a ocupação teve apoio manifestações artísticas como instrumento de transformação social. Atividades como saraus, popular desde o início e nenhuma tentativa de reinexposições, coletivos, apresentações de dança, tegração de posse. Por outro lado, o contato com o poder público ainda não teve o retorno esperado: música, circo, entre outras, são realizadas. Na esquina das avenidas Paranaguá e Mi- “Como a obra não chegou a ser finalizada não tem lene Elias, em Ermelino Matarazzo, zona leste de instalação de água e luz no local e não há o relógio. São Paulo, está localizada a Ocupação Cultural Ou seja, a gente não consegue pedir enquanto a prefeitura não regularizar o espaço”, explica. Mateus Santos. Em 2019, o grupo foi contemplado pela “Mateus Santos foi um professor de arte que desenvolveu muitos trabalhos aqui em Erme- lei de Fomento à Cultura na Periferia e irá translino e formou muitos artistas no bairro desde a formar o local na primeira escola de teatro do década de 80”, conta Gustavo Soares, que atua bairro. A ideia é mantê-lo aberto para outros coletivos realizarem diversas atividades, como na gestão do espaço. O homenageado também ensinava pin- iniciativas de cinema e teatro. tura e já contestava a ausência de equipamen© Larissa Teixeira
Por Larissa Teixeira, Maria Paula de Sá e Raphaela Campano
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Arte censurada no Brasil: apenas razões comerciais? Por Daniel Gateno, Giulia Pezarim e Luíse Goulart
A luta por visibilidade no País que não quer debater questões LGBTQI+
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a lógica da audiência não é algo controlável: “o filme sobre o Edir Macedo teve péssimos números de bilheteria, mesmo que ele seja um homem poderoso, com uma Igreja por trás, enquanto existem filmes que tratam da temática LGBTQI+, que tem ótimas audiências porque são vistos por certos nichos de pessoas”. Entretanto, o país continua, de fato, em descaso com a comunidade LGBTQI+ e evita abordar seriamente temas como sexualidade. Faz sentido pensar que uma parcela significativa da sociedade brasileira não demonstra interesse em financiar um tipo de conteúdo, que não lhes é considerado relevante, criando uma cultura que censura, mesmo que não explicitamente. O ator Kevin McHale, conhecido por sua atuação na série “Glee”, afirma que “Bolsonaro é uma ameaça às vidas LGBTQI+”, acusando o mesmo de censurar Boy Erased. Garrard Conley, autor do livro que inspirou o filme, considera seu cancelamento no Brasil como um ato de censura. Já o presidente responde a essa polêmica assegurando que “tem mais o que fazer”. Filmes com a temática de minoria são um lembrete necessário da importância sobre o assunto. Se não há representação midiática, o debate não é incentivado, criando uma situação de silenciamento. Há também casos nacionais de um conservadorismo explícito: a visita da filósofa americana Judith Butler, 63, em 2017, foi marcada por protestos. Chamada de bruxa e tendo sua imagem queimada, a autora do livro Problemas de gênero – Feminismo e subversão da identidade, foi alvo de polêmica no SESC Pompéia, em São Paulo durante uma palestra. “Ela é a personificação da
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© Nelson Almeida/AFP
ão é difícil associar a censura ao conservadorismo. Esse foi o caso de Boy Erased. O filme, que seria distribuído pela Universal Pictures, teve seu lançamento cancelado no Brasil, em 2019, por “razões comerciais” segundo a empresa. A premissa do longa é debater a homofobia: o protagonista, um jovem gay americano, é enviado por sua família a um programa religioso que promete curar sua orientação sexual. Ainda que as razões para a não exibição do longa sejam comerciais, é curioso que tal questão tenha surgido em um país, que debatia a própria “Cura Gay”, há pouco tempo. Vale lembrar, que em 2011, o deputado federal do PSDB de Goiás, João Campos, protocolou na Câmara dos Deputados um PDC (Projeto de Decreto Legislativo), para suspender uma resolução do Conselho Federal de Psicologia. Tal resolução, de 1999, proíbe que “os profissionais da área fizessem parte de quaisquer tipos de terapias que tenham o objetivo de alterar a orientação sexual de qualquer pessoa” (Jusbrasil, 2016). O documentário “This Film Is Not Rated Yet”, discute a censura na Associação de Cinema Americana. O longa mostra que o julgamento se dá muitas vezes em função de princípios morais. Tal tipo de juízo, acaba girando em torno de preconceitos já enraizados na própria sociedade. Sendo assim, as “razões comerciais” que determinam lançamentos ou indicações de faixa etária não são tão simples quanto parecem, partindo de um conservadorismo da própria distribuidora ou da falta de um público culturalmente disposto a assistir algo que vá contra seus princípios, já conservadores. A seleção do público que poderá ou não ter acesso ao conteúdo cinematográfico pode acabar prejudicando a intenção de direcionamento pensada pelo próprio cineasta. O filme criado para atingir determinada audiência pode perde-la por conta do órgão de censura. Assim, o mesmo público pré-selecionado intencionalmente acaba sendo proibido de ver o filme. Tal situação ocorreu com o filme “Boys don’t cry”, de Kimberly Peirce. O longa foi classificado inicialmente como ‘NC-17’ (sem crianças abaixo de 17 anos), mas depois foi reclassificado para ‘R’ (restrito), impedindo o público alvo de assistir ao projeto sem a companhia de um maior de idade. Para o jornalista e crítico de arte Fabio Cypriano, o padrão dos Estados Unidos para falar sobre gênero e sexualidade é muito restrito: “Nos EUA há muito moralismo mesmo nos filmes de temática homossexual, não tem quase nenhuma nudez, pois existe um código de comportamento do corpo”. Contudo, Cypriano chamou a atenção para a produção norte-americana nesta área: “existe uma série na Netflix chamada ‘Atypical’, que fala sobre um autista homossexual, um nicho pequeno e interessante, e esta produção é de lá, ou seja, existem trabalhos legais também”. O jornalista traz esperança: acredita que não há uma censura cinematográfica no Brasil, e
As bruxas queimadas vivas eram mulheres cujas crenças não se enquadravam nos dogmas aceitos pela Igreja Católica
ideologia de gênero, uma falsa acadêmica que defende uma falsa ideologia” afirmou a hoteleira Celene de Carvalho, em meio às manifestações que contaram com diversas organizações da direita brasileira e gritos de apoio ao então deputado federal Jair Bolsonaro. Uma das bandeiras políticas defendidas pelo agora presidente desde sua época no congresso foi o combate a chamada “ideologia de gênero” em todos os âmbitos – principalmente na educação e na cultura. O conservadorismo, defendido por Bolsonaro, fez com que uma onda de protestos pedindo o cancelamento de diversos eventos e exposições sobre o tema pairasse sobre o Brasil nos últimos anos. Em 2017 a mostra “Queermuseu”, que retratava diversas temáticas sobre orientação sexual e identidade de gênero foi proibida de ser exposta no MAR (Museu de Arte do Rio) pelo prefeito do Estado, Marcelo Crivella. Por meio de um financiamento coletivo a exposição voltou à cidade em 2018. “Acho que a sociedade se deu conta de que a democracia, mais o direito à arte e à cultura não são perenes, e que era preciso empreender uma luta para que esses direitos fossem garantidos”, afirmou o curador Gaudêncio Fidélis. A resistência de um público cada vez mais diverso e aberto permitiu que em abril deste ano, meses após o cancelamento de Boy Erased, o filme O mau exemplo de Cameron Post fosse lançado, no Brasil. O filme trata da questão da “Cura Gay” sob a perspectiva de uma jovem lésbica. A luta por visibilidade em um País conservador continua, desta vez em tom de esperança.
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A cultura fica Por Camilo Mota e Maurício de Souza
Audiência pública reúne representantes da produção cultural e artística em resposta ao decreto que prevê cortes orçamentários à Cultura em SP
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Ocupação Artística Canhoba está situada em Perus
rios, a Rede de Educadores em Museus do Brasil, a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários e Instituições (FEBAB) repudiaram a ação e o descaso com a área e descumprimento, por parte do governo, do direito ao acesso à cultura. Vale lembrar que preservar não só as heranças culturais e memórias da nação, como também proporcionar atividades que garantem a integridade e o incentivo à coletividade, traz benefícios para o combate a violência e, consequentemente, interfere nas desigualdades sociais. A audiência foi marcada pelo apelo dos presentes que entoavam “A Cultura não é mercadoria, abaixo à baixaria”, e foi encerrada com a participação de Aruê Para’i Miri, descendente indígena, estudante e filha de professores da rede estadual de ensino, que declamou o seguinte poema, de sua autoria, expressando sua indignação: O papel em branco Os muros cinzas Música, o que é música? E poesia o que ela diria? E o Museu... Vish Esse eu jamais iria. Por que o que aconteceu? Nunca viu uma pintura a óleo? O único que eu conheço é o da cozinha Mas e nos livros de artes? O que é arte? Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
A Ocupação Canhoba é gerida pelo Grupo Pandora de Teatro
© Reprodução: Facebook Ocupação Artística Canhoba
Bancada da audiência pública realizada no auditório Paulo Kobayashi da ALESP
© Larissa Teixeira
m busca da revogação do decreto que prevê cortes na Cultura, representantes da área artística do Estado de São Paulo compareceram à audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) para debater sobre o assunto. Idealizada pelo Deputado Carlos Giannazi (PSOL-SP), a audiência aconteceu no mês de abril e todas as suas pautas giraram em torno do decreto 64078 (21/01/2019) assinado pelo atual governador João Dória (PSDB-SP), que prevê cortes orçamentários em vários setores, com maior impacto na área cultural, reduzindo em 22,95% – equivalente a 148,5 milhões de reais – o orçamento anual destinado à Cultura. Nos últimos dez anos de suscetíveis governos tucanos, gradativos e incessantes cortes reduziram drasticamente os valores destinados ao setor da cultura. Entre 2010 e 2011, o dinheiro investido na área representava 0,63% do total arrecadado pelo Estado. Já em 2019, com os cortes dos governos anteriores e o atual decreto, apenas 0,35% - aproximadamente 498,7 milhões de reais será destinado à área. Presentes na audiência estavam artistas, representantes de movimentos culturais, pais, estudantes, professores e cidadãos que se mobilizaram em protesto ao corte da verba destinada à pasta em todo o Estado. Dentre eles, o professor e músico Murilo Muraah, atuante nas Fábricas de cultura da cidade, que colocou em pauta a questão educacional e também da credibilidade da cultura, que, para ele, tem papel fundamental na formação do cidadão e não pode ser descartada, mas que sofre com a falta de investimento por parte das empresas, que não enxergam credibilidade, e nem retorno financeiro na arte. O deputado Carlos Giannazi presidiu a audiência e ao ser questionado sobre quais meios o legislativo dispõe para revogar tais decretos, comentou haver três principais. Segundo ele, é possível apresentar outro PDL (Projeto de Decreto Legislativo), algo que ele já fez e que está em tramitação na Assembleia; acionar o Ministério Público Estadual com pedido de ação civil contra o governador - medida também já tomada – e convocar o secretário de Cultura, Sérgio Sá Leitão, para se pronunciar na ALESP a respeito da decisão. Sobre o decreto em questão, o governador João Dória (PSDB-SP) diz que foi uma ação necessária devido à necessidade de “contingenciamento do orçamento do governo por conta de um déficit de 10.5 bilhões que herdamos da última gestão”. Em resposta às últimas manifestações, Dória voltou atrás dizendo: “Não é verdade que vamos cortar serviços e programas da pasta, nem fechar espaços culturais, nada será fechado e nenhum programa será interrompido”, afirmou. “As atividades culturais e criativas são marcas registradas do nosso Estado e contribuem para o desenvolvimento social e econômico de São Paulo”. Instituições representativas do setor cultural tais como o Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais, a Rede Brasileira de Coleções e Museus Universitá-
© Camilo Mota
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E os livros de história? A censura de 64 na música? Nunca ouvi falar. Você sabe interpretar imagens? Só as da TV. Você já foi a um teatro pelo menos? Meu primo foi! Mas é muito caro Se eu for, não terei o pão para comer. Já tocou algum instrumento? Só aqueles da fábrica de cimento. Como é a sua vida sem arte? Já disse que não sei o que é. Só sei que já fez parte e na vida se tornou uma linda mulher. Uma linda mulher? SIM! Grande, forte e lindíssima. Mas um dia ela saiu da minha vida. E saiu tão rápido que não pôde nem se tornar minha favorita. Mas a arte está em todos os lugares. Não mais na minha casa...não mais na minha escola. Ela é muito cara... Agora só vejo muros cinzas, Papéis em branco, Música, só aquela da TV Gravuras...não sei nem o que dizer Então você não tem cultura! Já disse...tenho que garantir o pão para comer.
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POESIA
POESIA - POESIA - POESIA - POESIA O único homem que me restou Saudade é concepção restrição intuição renovação evolução construção imaginação obrigação revolução São tantas coisas que nem mesmo 100 ou mais palavras descrevem a saudade
A lembrança do colo e do abraço Da pergunta e da resposta Coisa que só nós sabemos E deixamos terminar esse dia Continuou o pensamento O sentido Mas a palavra se foi As conversas não têm fim Elas terminam em palavras e as palavras são levadas com a vida com o tempo com o sentimento Tens sentido? Me agarro a saudade A saudade de te ter do meu lado A saudade de te conhecer A saudade que eu ainda não sei O único homem que me restou e eu mal conheci
Corda
Te transformar em palavras te deixa pequeno para o que você é para mim Te reduzir a coisas faz perder o sentido Então, prefiro você dentro de mim Pois te sinto e te vivo No campo de centeio No melhor devaneio Ou naquele passeio que saboreio a falta de ti O vazio que levo comigo é a saudade de você? Ou você é a minha parte mais inteira? Da forma que foi Vazio ou não Faz bem ter você aqui Sentir e viver é muito mais do que saber e isso basta Pois você foi o único homem que me restou Anna Baisi
Liga perfeita, Feixe de fibras, Trançadas. É uma união de materiais distintos, De nylon a linho, De algodão a sisal, Que trabalha dia e noite em inúmeras coisas, De esporte a suporte. Corda que puxa, Corda que força, Corda que sustenta. Nó fateixa ou volta redonda, Barbante que não me solta, Garantia de casa e volta. Mas corda também sufoca. Que prende em meu pescoço e Aos poucos me sufoca. Pensa que me ajuda, Mas também não sabe E me afunda. Corda que na medida que é balso americano, É nó de forca. Corda que me puxa, É a mesma que me mata. Julia Cachapuz
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Entre gatos e gatos CRÔNICA
Por: Matheus Lopes Quirino
Para quem troca a aurora pelo crepúsculo, principalmente, os gatos são companheiros de boemia Embora existam exceções – das quais boas partes têm a ver com alergias, cães e falta de espaço –, escritores costumam ter em casa um ou outro bichano como companheiro de espaço. Sob os olhos de quantos gatos não foram gestadas obras primorosas desta nossa última flor do Lascio, inculta e bela? O estigma de azar que o Lalau acredita está mais para um sex-appeal que acomete o escritor... Elegantes e bem-ajambrados em seus smokings naturais, eles passeiam por calhas, terraços, marquises, alpendres, orlas e demais vicissitudes urbanas ou rurais. E para quem troca a aurora pelo crepúsculo, principalmente, os gatos são companheiros de habitué. Gatunos ou não, há quem diga, principalmente no meio das artes, é o véu da noite cair e, ressurgindo da boemia – quando há –, eles dão as caras, patas e bigodes. * © Reprodução: Agathe Singer
Requisito básico para cronista é andar pela cidade. E, desta feita, compreende-se ao cerne da identidade de um destes escribas notívagos calhar a encontrar, quando não esbarrar, com tais criaturas noite adentro. Boas companhias, ao contrário do que a Inquisição maculou dos gatos, muito antes os Persas acreditavam nos sortilégios que os animaizinhos traziam. E, não à toa, o mais famoso deste povo, ainda hoje, é justamente um gato. Bípedes ou quadrúpedes, os gatos causam um bem danado ao coração de seus donos & agregados. Dia desses conversava com meu amigo Mathias, companheiro de “dupla sertaneja”, e, justamente, havia comentado sobre a farra dos gatos pretos, da superstição e tudo mais. Assim como o cronista, ele acredita na boa energia destes quadrúpedes. E bom bípede que é, naquela noite, blackout, seu elevador parou em um andar do edifício Broadway: no final do corredor, imponente, havia um gato preto, impávido, a postos. O elevador subiu, o gato sumiu, Mathias sorriu, e azar do Lalau.
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atos pretos dão sorte, isso sim. Provarei hoje, num ronronar crônico que seguirá depois deste ponto. Foi só o cronista trocar o papel de parede do Iphone que o mesmo se espatifou no chão. E com a cara e a tela trincadas, fui ao encontro de um dos cupinchas do café de quintafeira, ao caso, pois o grupinho mantém um papo de primeira, às quintas em uma padaria da Bela Vista. Cético, Lalau chegou dizendo “É esse seu gato preto azarado aí da foto”. Dei-me por desentendido, e perguntei ao companheiro, de mau gosto, o porquê do azar. Ele, fastidioso, respondeu “Porque dá”. “Você também dá”, pensei, mas não disse. Dando azar ou não, gatos pretos dividem opiniões. E não é de hoje. A crendice nasceu justo na Idade das Trevas, naquele período em que os felinos eram afeiçoados a pequenas criaturas malignas, habitantes de terreiros de bruxaria, emissários do próprio mal. E entre inquisições, fogueiras e clavas, foi no século XV que o papa Inocêncio VII incluiu oficialmente os bichanos na lista de hereges à fé cristã. Perseguidos no metiê da Santa Sé, os gatos, astutamente, assim debandaram a outras freguesias. Na literatura, a exemplo, Edgard Allan Poe domesticou tal fera diabólica. E não foi só o corvo, símbolo singular do autor das Histórias Extraordinárias, que o assombrava. No conto “O gato preto”, foi Pluto – o anti-Disney – quem se deu mal... mas entrou para antologia. Da paleta Pantone, Capote, Hemingway e Cortázar mantinham em suas moradas caixas de areia. E daqui dos trópicos, Ferreira Gullar, Fernando Sabino, Machado de Assis e grande elenco imortalizaram algumas dessas criaturas de quatro patas nas páginas de jornais.
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* Todos os caminhos levam ao Rio Enquanto isso, dia desses na cidade carioca, eu e mesmo amigo do percalço no elevador, acima, pela Av. Atlântica caminhávamos e conversávamos novamente sobre o teor um tanto místico dos felinos. Embicados com a Nossa Senhora (de Copacabana) rumo ao café daquele horário, no meio do caminho havia uma livraria – diria, talvez, Drummond, tomando seu bronze eterno no Posto 6. Copabooks. E enquanto o Mathias se esbaldava nos romances gatunos e policiais da “nova” J.K Rowling, eu fui a fundo nas estantes. Literalmente. Pois, de canto, havia uma pilha de livros surrados, claramente de outra safra daquela sobrevivente de rua que vende livros novos em folha. Dos exemplares amontoados, eis que saltou à vista Gato preto em campo de neve, do Érico Veríssimo. “Leve”, sugeriu o amigo. Imediatamente, acatei. O universo tinha algo a dizer. E com precinho camarada, pois bem levei o catatau. Todos os caminhos levam a Roma, diria Woody Allen. Todos os caminhos levam aos gatos... diz este cronista. * Cama de gato Os participantes do grupo “Bola pra frente” reuniram-se no apartamento em Botafogo para uma bacanal, dessas em que não há hora para acabar. Na esbórnia, longe de casa, observava uma samambaia, moribundo, quando Marcel, aos prantos, trocou as bolas do que lá coubera a ser tratado por uma face pálida e ranger de dentes ruidoso. Todos ali, esperando a festa seguir, então levaram gato do universo. Ao telefone, uma amiga do Marcel acabava de presenciar um suicídio involuntário: o gato da moça havia espatifado na calçada, tendo ele saído do oitavo andar do prédio. Por certo, achou que era pássaro... A coisa ficou preta. Só restou lamentar, mas antes da lamúria final, perguntei a cor do bichano. Adivinhem? E todos fomos embora, na paz de Nossa Senhora de Copacabana.
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ONTRAPONTO
ma garotinha e seus amigos brincando de bola na rua, improvisando aquele “famoso campo de criança, em que as traves eram as sandálias”. Quando atinge certa idade, a pequena menina entra em uma escola de futebol e, o que era apenas uma brincadeira da infância, passa a moldar um sonho de vida. A menina, já garota, começa então a disputar pequenos campeonatos e aspirar a entrada no esporte profissional. Essa pequena parte da história de Dayane Maria De Carvalho, hoje com 21 anos, também é a história compartilhada por muitas garotas que jogam ou pretendem jogar futebol profissionalmente. Se a jornada de um menino que deseja ser jogador de futebol não é fácil, para uma menina, que tem o mesmo sonho, será ainda mais difícil. Isso porque, a sociedade diz que futebol não é coisa de mulher. Este pensamento machista, também está presente nos investimentos realizados pelos times, onde as categorias masculinas recebem valores absurdamente mais altos que as categorias femininas. Day é goleira. Ela conta que sempre jogava na linha, mas certo dia atendeu o pedido de seu vizinho que falava para ela “pegar no gol”, e então foi se apaixonando pela posição. Com 15 anos entrou no time Bahia de Santo Antônio, que na época se chamava Futebol Feminino de Guanambi, onde está até hoje. No início do ano, ela participou da colônia do Esporte Clube Bahia Lusaca, evento em que as potenciais jogadoras ficam uma semana com o time e são avaliadas. Day foi chamada a participar mais uma vez, para que fosse melhor avaliada, e então receber a resposta sobre a entrada no profissional. Este ano veio carregado de mudanças para a modalidade. A criação do Brasileirão Sub-18 é um dos avanços, sendo a primeira competição de base do futebol feminino organizada pela CBF. Outra mudança é a obrigatoriedade de equipes da Série A do Brasileirão terem equipes femininas, o que aumentou a proporção do Campeonato Brasileiro Feminino, passando de 16, para 36 equipes. “Surgirão novas ‘Martas’ e novas ‘Formigas’”, diz Day. A oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino acontecerá entre junho e julho deste ano, na França. Pela primeira vez, será transmitida em canal aberto, a emissora Globo transmitirá apenas os jogos da seleção brasileira, enquanto a SporTV transmitirá todos os jogos. As novidades não param por aí, também será pioneiro, nesta edição, os uniformes adaptados ao corpo feminino, não replicados da seleção masculina e desenvolvidos pela Nike. Atualmente, a FIFA – Federação Internacional de Futebol comemora o recorde de vendas de ingressos, com mais de 720 mil já vendidos. “Eu creio sim, que temos chances de ganhar, basta jogar o futebol simples, o futebol brasileiro”, comenta a goleira. Visibilidade Feminina Inciativas de apoio ao futebol feminino ganharam destaque neste ano. O clipe da música Camisa 10, de Diomedes Chinaski, causa uma quebra de expectativa ao usar planos fechados de itens que aludem ao futebol, o filme leva o espectador a imaginar que o personagem em cena seja um garoto, dada a ainda presente visão do Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
Iniciativas promovem mudanças sociais e incentivam a entrada de mulheres no esporte
© Acervo pessoal
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O futebol também é delas
Bahia de Santo Antonio e a goleira Day (primeira à direita)
futebol como um esporte masculino. A presença de um mictório contribui ainda mais para essa idealização. Então, pouco antes da música iniciar, é realizado um movimento de câmera de baixo para cima, revelando a personagem feminina. Vandinubia Dantas Silva, diz que o vídeo reproduz parte da realidade vivida no futebol feminino. Ela, que também é goleira, comenta sobre o preconceito já sofrido no esporte, foi chamada de “macaco” quando jogava Chapecó SC. Casos como esse não são incomuns, e diante disso há iniciativas que promovem visibilidade e respeito na modalidade, veja algumas a seguir: HQ Minas da Várzea O veículo jornalístico Agência Mural produziu uma HQ sobre futebol feminino. “O livro-reportagem conta as histórias de times de várzea femininos do extremo sul da cidade de São Paulo, que jogam no entorno da aldeia indígena do povo Guarani Mbya e de Vargem Grande. As jogadoras encontram além da dificuldade natural do esporte amador, uma ainda maior, o preconceito e o machismo em campo e fora dele.” Mapa do futebol feminino O coletivo Joga Mina criou um mapa, que pode ser acessado através do site oficial, indicando os times femininos espalhados pelas regiões do país. O objetivo foi auxiliar meninas a encontrarem times que possam fazer parte. Com o mapa basta clicar no Estado desejado para ver os times disponíveis, até agora são 83 times cadastrados. Segundo o site, “o Joga Miga é um projeto que organiza treinos e campeonatos de futebol feminino. Pretendemos desenvolver a prática do futebol para mulheres com qualidade, independente do nível de conhecimento. O projeto não tem fins lucrativos e acredita em valores acessíveis de mensalidade para popularizar a modalidade.” 1x0 Feminino O canal 1x0 Feminino é comandado por Luana Maluf, possui cerca de 150.000 inscritos e tem 74 vídeos disponíveis. Em suas produções ela comenta criticamente sobre o cenário do futebol masculino Maio/Junho 2019
© Acervo pessoal
Por Beatriz Oliveira
Goleira Vandinubia profissional. Na descrição do canal há a seguinte afirmação: “Disseram que futebol não era pra menina. Disseram que a gente não entendia nada. Disseram tanto que agora é nossa vez de dizer.” Nike A marca Nike criou algumas iniciativas para fomentar o crescimento do esporte. Uma delas é o Nike Futebol Clube, uma plataforma idealizada pela ex-treinadora da Seleção Emily Lima. Segundo o site “o objetivo é facilitar a prática do futebol por mulheres. Emily desenvolveu uma metodologia e, ao lado da marca, que oferecerá treinos gratuitos em São Paulo. Uma vez por semana, 84 mulheres treinarão no campo do Parque do Ibirapuera, em duas sessões. Uma vez por mês, o treino ocorrerá no Estádio do Pacaembu.” Outro aliado do futebol feminino, criado pela empresa, é o Nike Premier Club, a maior competição sub 17 do mundo, que passará a incluir a categoria feminina. O Brasil foi o primeiro país a realizar essa inclusão, com a copinha que aconteceu no mês de maio e teve oito times competindo no Centro de Treinamento do Corinthians.
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ONTRAPONTO
Contra-ataque
Argentina volta ao mundial com foco no empoderamento das jogadoras
Por Henrique Sales Barros e Augusto Oliveira
Seleção sul-americana busca apagar seu histórico negativo em Copas doze anos depois da sua última participação
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No mês de março o presidente da AFA, Claudio Tapia, anunciou o lançamento da Liga Profissional de Futebol Feminino para a próxima temporada, que contará com os atuais dezesseis clubes do campeonato amador. O mandatário da entidade máxima do futebol argentino também confirmou o repasse de 120 mil pesos (cerca de R$ 10,5 mil em valores cotados no dia do anúncio) mensais para cada clube arcar com o salário de no mínimo oito atletas. No dia 12 de abril o San Lorenzo se tornou o primeiro clube argentino a firmar contratos profissionais com jogadoras de futebol. Foram quinze as atletas que fizeram parte desse momento histórico, sendo uma delas justamente Macarena Sánchez. Nada mais simbólico do que ela, a mulher que se tornou a voz de diversas jogadoras que recebiam baixos salários e não tinham estrutura para treinar, ser a pioneira na assinatura de um contrato profissional.
Futebol profissional para elas Em janeiro desse ano Macarena Sánchez foi comunicada por seu clube, o UAI Urquiza, que não faria mais parte dos planos do treinador e que seria desligada da equipe. A jogadora saiu com uma mão na frente e outra atrás: como não tinha um contrato com o Furgonero, ficou sem receber qualquer indenização. Maca foi dispensada só depois da janela de inscrição de jogadoras já ter se encerrado, ou seja, ela não poderia jogar por nenhum clube argentino até o início do próximo campeonato, que só deve começar em meados de agosto ou setembro. Tendo em vista sua situação, a jogadora resolveu entrar na justiça não só contra seu ex-clube como também contra a AFA para ser teu vínculo reconhecido com o Furgonero, onde atuava desde 2012. Maca passou a dar entrevistas para rádios, redes de televisão e jornais do mundo todo, dando visibilidade para uma luta antiga das jogadoras argentinas. Em fevereiro ela postou em seu Twitter uma ameaça de morte que recebeu via Instagram. “Maca, há muitas pessoas irritadas por conta de suas denúncias. Há muito dinheiro por sua cabeça. Você vai morrer em breve”, dizia a pessoa. Mas ao invés de uma fatalidade, suas denúncias e reclames resultaram em medidas concretas rumo a profissionalização do futebol feminino. Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP
© Juano Tesone/Clarín
tem o poder de decisão do que fazer com seu corpo”, disse a atleta. O projeto de lei que legalizaria o aborto na Argentina foi rejeitado pelo Senado na madrugada de 9 de agosto do ano passado, três meses e um dia antes daquele jogo contra o Panamá em Sarandí. Como a proposta que permitiria a interrupção da gravidez durante as primeiras quatorze semanas de gestação não foi aprovada na casa, a lei da década de 1920 se manteve: com exceção dos casos onde há risco à vida da gestante ou onde houve estupro, a prática pode render até quatro anos de prisão tanto para o médico quanto para a mãe.
Jovem torcedora com seu lenço verde durante a partida contra o Panamá
© Lucía Merle
Azul, branco e lenços verdes O Estádio Júlio Humberto Grondona, em Sarandí, presenciou uma noite mágica naquele 8 de novembro de 2018. A Argentina goleou o Panamá por 4 a 0 no jogo de ida da repescagem para a Copa do Mundo e praticamente garantiu-se no torneio. No jogo de volta, na Cidade do Panamá, o empate em 1 a 1 confirmou o passaporte rumo à França. Enquanto as argentinas passeavam em campo, nas arquibancadas os gritos se dividiam entre apoios ao selecionado, críticas à AFA - Associação de Futebol Argentino e cânticos feministas diversos. A torcida, de maioria feminina, fez do estádio do Arsenal de Sarandí um lugar de resistência das lutas feministas, com destaque para uma em especial que tem como símbolo os lenços verdes, um acessório que estava em todas as partes da tribuna. Os lenços verdes são o grande símbolo da campanha em prol da legalização do aborto na Argentina. Naquela noite de novembro eles faziam parte da vestimenta das mulheres tanto quanto a camisa azul e branca da seleção: eram erguidos no alto quando eram entoados cânticos feministas e também estavam amarrados no punho das torcedoras. No apito afinal, em meio a comemoração nas arquibancadas e no campo depois da grande vitória, uma das jogadoras ficou inseparável de um desses lenços verdes e o exibiu diversas vezes para as câmeras. Quem protagonizou tal cena foi Yael Oviedo, atacante de 26 anos que atualmente joga no Rayo Vallecano, da Espanha. Declaradamente feminista, Oviedo falou com O Contra-Ataque sobre como ocorreu aquele momento: “Foi uma loucura este dia na ‘cancha’ do Arsenal. Foi algo incrível para todas nós e um sonho que se cumpriu. Eu estava tirando fotos com as pessoas na arquibancada e uma menina me disse “Tome, tome isto!”. Eu peguei sem saber o que era e, quando fui ver, era o lenço [símbolo da campanha] do aborto. Eu estou a favor da causa porque creio que as mulheres
Yael Oviedo, a última da direita, segura um lenço verde enquanto comemora com as companheiras
© Juano Tesone/Clarín
Argentina inicia em junho sua caminhada na Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França. A conquista da vaga só veio depois da repescagem, quando superaram a seleção do Panamá por 5 a 1 no placar agregado. Essa vai ser apenas a terceira participação das argentinas em Mundiais, sendo que as outras duas foram nas edições de 2003, nos EUA, e de 2007, na China. Tendo a Copa América de 2006 como único título expressivo em sua história e estando atrás de 18 das 24 seleções presentes no Mundial no ranking da FIFA (Federação Internacional de Futebol, na sigla em português), a Argentina chega em terras francesas longe do favoritismo, mas se destacando por algo que vai além das quatro linhas e dos noventa minutos de jogo: a luta pelos direitos das mulheres, sejam elas jogadoras ou não.
Macarena Sánchez assinando seu contrato com o San Lorenzo Maio/Junho 2019