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EDIÇÃO NÚMERO ZERO

A SIRENE

PARA NÃO ESQUECER


EDITORIAL A passagem do rejeito da barragem de Fundão, propriedade da Samarco/Vale/BHP, pelos distritos de Mariana, deixou várias consequências, entre elas a pulverização das famílias dos atingidos pelos diferentes bairros da sede municipal. Essa dispersão apresentou-se, desde o princípio, como um desafio para essas pessoas, que precisam reestabelcer as suas relações a partir de um novo lugar e de uma nova realidade. A mudança do espaço e das circunstâncias em que viviam trouxe a necessidade de repensar a própria maneira como se comunicavam, questão importante tanto para reconstruírem suas vidas quanto para se preparem para a luta pelos seus direitos. O quadro acima descrito é apenas um dentre os vários exemplos dramáticos resultantes de uma tragédia que contabiliza um efeito que, neste momento, atinge a Bacia do Rio Doce e parte da costa marítima do Espírito Santo. Melhorar a comunicação entre os atingidos de uma determinada localidade e entre todas as regiões afetadas pelo rejeito é um desafio a ser perseguido. Passados noventa dias, a tragédia não acabou. Entendendo dessa forma, consideramos fundamental a articulação da sociedade civil organizada, de voluntários e de instituições nessa empreitada.

O jornal A Sirene surge a partir dessa realidade, das necessidades que vemos como latentes. Nasce da união entre atingidos e os grupos de apoio #UmMinutoDeSirene, Arquidiocese de Mariana, ICSA/UFOP e NITRO. Essa primeira edição foi construída na expectativa de contribuir para a autonomia e o empoderamento de todos, através da livre circulação de informações e do fortalecimento das reinvindicações das comunidades atingidas. Entendemos, valorizamos e lutamos pela auto-organização dos atingidos. Por isso, todas as pautas foram determinadas por aqueles que se prontificaram a participar. O trabalho foi desenvolvido por equipes compostas por atingidos, jornalistas, fotógrafos e voluntários que trabalharam em conjunto. Todo o processo, desde a escolha das pautas até a finalização, foi proposto, acompanhado e validado pelos atingidos. A Sirene é um jornal feito pelos atingidos para os atingidos. Mais uma ferramenta de apoio para que a comunicação e a preservação das suas memórias se tornem seus patrimônios. Um convite a todos para não esquecer. #UmMinutoDeSirene

EXPEDIENTE Realização

Agradecimentos

Alexandre Mota, Ana Elisa Novais, Bruno Arita, Bruno Magalhães, Elias Souza, Leo Drumond, Lucas de Godoy, Luiza Geoffroy, Mônica dos Santos

Alessandra do Bento, Alexandre Felipe, Ana Amélia Quintão, Ana Beatriz Messias, Ana Clara Oliveira, Antônio Cabeção, Antônio Marcos (Marquinho), Arlinda de Paracatu, Arnaldo Arcanjo, Atila Coelho, Bar do Carlão, Bar da Sandra, Cláudia Alves, Darros Lanchonete, Dona Dirce, Dona Maria (Paracatu), Eliane Salgado, Elias Souza, Eliziene Messias, Fernanda Tropia, Filomeno da Silva, Gladismar Inácio, Gleison Souza, Gleixcilane Silva, Ingrid Souza, Iracema Oliveira, Jardel Souza, Juliana Oliveira, Keila Fialho, Kleverson Lima, Laila Nunes, Manoel Fialho (Branquinho), Marcelo Felício, Maria Aparecida Gomes, Maria das Graças Quintão, Maria Lúcia Alves, Mateus Oliveira, Maurício Inácio, Mônica dos Santos, Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB, Pablo Fialho, Padre Geraldo Martins, Pamela Sena, Paula Alves, Renata do Nascimento, Romeu de Oliveira, Rosilene Ferreira, Sandra Carvalho, Sebastião (Lico), Silvany Diniz, Simária Quintão, Sônia Xisto, Terezinha Marques, Terezinha Quintão, Thiago Alves, Vitor Hugo, Zezinho do Bento e Zezinho do Congado.

Vídeo

Impressão

#UmMinutoDeSirene e NITRO

Apoio

Arquidiocese de Mariana e ICSA/UFOP

Editores

Bruno Magalhães, Gustavo Nolasco e Leo Drumond

Repórteres

Ana Cristina Maia, Ana Elisa Novais, Bruno Arita, Claudia Pessoa, Edilaine Marques, Elias Souza, Elke Pena, Fernanda Tropia, Isabella Walter, Josiane Souza, Juçara Brittes, Kléverson Lima, Lucas de Godoy, Luiza Geoffroy, Maria das Graças Quintão, Marília Mesquita, Marinalva Salgado, Mônica dos Santos, Pablo Fialho, Silvany Diniz, Simária Quintão e Thiago Alves

Fotografia

Alexandre Mota, Bruno Arita, Bruno Magalhães, Gabriel Silva e Lucas de Godoy

Projeto Gráfico/Diagramação

Clarissa Castro, Ricardo Orlando e Silmara Filgueiras

Ilustração

Adelaide Dias, Isabella Walter e Maurício Inácio

E se fosse com você? Por DONA MARIA DO PARACATU E MARINALVA DO BENTO Com apoio do Alexandre Mota, Ana Elisa Novais, Juçara Brittes e Silvany Diniz

“O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. (...) Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever, por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar” “Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros” PAULO FREIRE

Dona Maria morava em Paracatu de Baixo, que era vizinho de Bento Rodrigues, onde morava Marinalva. Agora vizinhas em Mariana, elas conversam sobre esse difícil período de transição, em que a solidariedade tem sido vizinha do preconceito. Marinalva – A solidariedade com certeza é

muito maior. Ouvimos muitas críticas, mas a maior parte das pessoas está ajudando muito. Só um pedacinho está criticando.

D. Maria – No Centro de Convenções eu

ouvi uma pessoa dizendo: “chegou o povo vagabundo come quieto”. Mas nós não demos atenção, a gente estava precisando daquelas coisas. Só não voltei lá mais pra buscar nada.

Marinalva – Muitas vezes eu penso que es-

sas pessoas queriam estar no nosso lugar agora, que estamos lutando por nossos direitos e sim, vamos conquistá-los. Mas essas mesmas pessoas não conseguem se colocar no nosso lugar enquanto pessoas que perderam tudo e sofreram tudo que sofremos. É como se essas pessoas considerassem as conquistas dos nossos direitos como benefícios. Não temos benefícios, temos ressarcimento do que perdemos, pelo que passamos.

D. Maria – O que passei e o que estou passando é só Deus e N.Sra. Aparecida.

Marinalva – Os netos da gente, os pais da

gente, todo mundo tendo que correr da lama lá no Bento, isso só a gente passou. E perder isso é perder coisas que não vamos ter nunca mais.

D. Maria – Quando me disseram “a casa

caiu, temos que ir pra Mariana”, eu sabia que era só o começo, que eu ia sofrer mais. Já sofri muitos anos, passei fome, criei cinco filhos sozinha, mas aquele dia 5 novembro foi uma coisa que eu nunca mais vou esquecer na minha vida.

Marinalva – Aqui na rua, ninguém teve

preconceito não, todo mundo trata a gente bem, né, Dona Maria? O preconceito vem de quem não conhece e não quer conhecer nem a gente nem nossos problemas. Dizer que somos vagabundos porque estamos brigando e conquistando direitos e recebendo a solidariedade – que é da maioria – é desconhecer o que somos e o que temos passado. Só quero o que é meu por direito. Não quero mais nada além disso.

Sempre Editora e UFOP

Tiragem

2.000 exemplares

Contato

umminutodesirene@gmail.com htpp://somos-bento.webnode.com

A SIRENE

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QUEM FOI SUA SIRENE?

PABLO “Quando chegou perto do portão da igreja, a caminhonete não podia subir mais. Carreguei minha avó e levei até perto do barranco, mas não consegui subir. Uns caras ajudaram. Ajudei a salvar outra idosa. Pedi o Wilson para ajudar. Ele cansou. Carreguei até o meio do mato, e aí o Jonas me ajudou”

Por EDiLAINE MARQUES, JOSEANE SOUZA, MARINALVA SALGADO E PABLO FIALHO Com apoio da Ana Elisa Novais, Elke Pena, Luiza Geoffroy E Silvany Diniz

SANDRA "Oi, pai! Quanta saudade! Estou te escrevendo para te contar o que aconteceu depois daquele 5 de novembro de 2015. A nossa vida nunca mais foi a mesma. Eu, a minha mãe e a minha irmã tivemos que reaprender a viver; tomar atitudes que era você quem sempre tomava. Começamos a crescer na marra e a entender o sentido da saudade. Nunca pensei que viveríamos isso tudo, parece surreal. Ainda não acreditamos. Você sempre batalhou pelo nosso conforto e bem estar. Sempre foi um marido, pai, filho, amigo exemplar. Sempre esteve ao nosso lado, nos momentos difíceis e nos felizes. Nos deu tanta força em 2015, um ano turbulento e difícil para a nossa família. Porém, nunca imaginaríamos que o mais difícil desse ano seria conviver com a sua falta, com a vontade de conversar com você, com a vontade de te ver mais uma vez. Espero que você esteja em paz. Seguimos aqui com uma imensa saudade e com a certeza de que um dia iremos nos reencontrar. Pai, para terminar, vou lhe dizer o que vivo dizendo com o meu coração: você é o nosso herói. Sim, você é!"

GLADISMAR “Eu estava na praça e ouvi o barulho da lama quebrando tudo. Corri em casa e tirei minha família. Subi na moto, tentei buscar o Mauricélio, mas o portão da casa estava trancado e nos perdemos. Quando fugia da lama, seu Marcolino caiu da caminhonete. Pensei: ou salvo ele ou me salvo. Nós dois estamos vivos”

TEREZINHA “Achei que era chuva de poeira. As casas já estavam todas caindo na praça. Voltei atrás, peguei meu telefone uma sacolinha com uma sombrinha, despedi do quarto da minha mãe. Segui para o mato”

De Sandra para seu pai, Daniel, funcionário da Integral, morto pela barragem da Samarco

SEU SEBASTIÃO “Minha sirene foi Deus. Vi a lama a cinco metros de onde estava; corri muito, se não corresse morreria. Salvei minha irmã de 70 anos, carreguei ela no colo”

ARNALDO “Acordei às 16 horas e ouvi o Gladismar gritando na praça. Ele foi a minha sirene. Depois disso salvei seis pessoas da lama”

SÔNIA “Minha sirene foi a gritaiada na praça, a afobação do povo. Não deu tempo de correr. Quando vi, a lama já estava na minha garagem. Eu, meu filho e meu sobrinho nadamos na lama grudenta em zig-zag, fugindo da correnteza, até chegar em um ponto firme”

MARCELO “Minha mãe morreu de susto. Caiu na lama morta. Não consegui salvar. Não consegui salvar ninguém. Já tinha essa tatuagem, mas agora reforcei” A SIRENE

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A menina que salvava livros Por ANA CLARA DE OLIVEIRA E MARINALVA SALGADO Com apoio do Alexandre Mota, Ana Elisa Novais e Silvany Diniz

Ana Clara tem sete anos. Crescia em Paracatu, quando veio a lama. Teve cinco minutos para salvar algo de toda sua vida que perderia. Escolheu salvar um livro.

Eu estava com minha mãe, quando soube que a barragem tinha estourado. Peguei o livro e mais algumas coisinhas e coloquei na mochila. Não deu tempo de salvar mais nada. Escolhi o livro que ganhei na escola. Nunca tinha ganhado um livro assim. Não queria perdê-lo. É a história de quatro meninos órfãos que, no final, encontram sua mãe. Gosto muito porque eles entram em uma casa assombrada, é bem legal. Queria ter salvado os livros da escola também, mas eles eram muito pesados pra carregar. Como eu ia subir o morro correndo com esses livros? No Centro de Convenções, recebi muitas histórias em quadrinhos e outros livros. Já li todos. Não escolhi brinquedos, prefiro livros. Gosto de poemas, tenho alguns livros de poesia aqui. Tenho sete anos, estudava em Paracatu e ainda não sei onde vamos estudar este ano. Mas vou continuar lendo, livro é sabedoria. Sabedoria, amor, fé, inteligência, isso ninguém tira da gente. Bem material depois a gente recupera.

Seu Filomeno me contou Por ELIAS Souza e FILOMENO DA SILVA Com apoio de Cláudia Pessoa, Marília Mesquita

Um dia, Seu Filomeno contou a história do Bento para o Elias. Elias procurou nos livro e viu que estava do mesmo jeito. Então, Elias escreveu... Bandeirantes em Mariana e Ouro Preto que não estavam satisfeito com seu líder, procuraram ir para outros locais. Desceram a Serra de Antônio Pereira, seguiram o rio Gualaxo até o entroncamento com o rio Gregário (no Tico Tico). Lá tiravam em torno de 250 a 300 oitavas de ouro e assim subiram mais acima no leito do rio onde formou o acampamento formado pelo líder Bento Rodrigues . Em 1697, nasceu o povoado formado pela imigração dos senhores donos de escravos, montando suas fazendas e marcando seus territórios. Um casal de fazendeiros chegou no Morro do Fraga, ali onde hoje se chama “Mina de Fábrica Nova”. Seus escravos começaram a fazer retirada de ouro, em quantidade até maior que a encontrada pelo bandeirante Bento. Os donos da fazenda, Seu Georvazio e Dona Olinda, não tiveram filhos e doaram seus terrenos para a Diocese de Mariana. A primeira capela foi construída em 1718, parecida com a igreja de Camargos, tendo suas estruturas maiores. Por forças da natureza, teve sua estrutura demolida em 1853 , então os habitantes constituíram a segunda capela dedicada a Nossa Senhora das Mercês em local diferente,no terreno cedido pelo antigo casal à Diocese de Mariana. A nova capela foi reconstruída com as madeiras da parte superior da fazenda onde depois foi bar da Sandra e com restos de madeiras que sobraram da igreja anterior. Em 1916 este terreno da Fazenda foi cedido a um garimpeiro cujo o nome ninguém sabe. Ele cedeu a Carlos Pinto (engenheiro e professor da Escola de Minas de Ouro Preto) que demarcou o terreno por inteiro como se fosse sua propriedade. Explorava as minas até encontrar o veio mais rico, pois era de seu interesse só descobrir as riquezas ali existentes. Não só o ouro e a bauxita, mas também a platina encontrada, em 1907, pelo Carlos Pinto, num riacho chamado Moysés, (ouro fino), deu fama ao Bento. Esta descoberta foi até noticiada na edição do jornal Minas Gerais. Bento Rodrigues teve até uma banda que se apresentava em toda data comemorativa, em nossas festas todas e também nas da igreja e de santos. Quando o prefeito de Mariana era Jadir Macedo, chegou luz elétrica a Bento Rodrigues. Depois veio o telefone. A extração do metal precioso em ouro fino, bauxita no Morro do Fraga, de cristal nas mediações e a plantação de eucaliptos deram trabalho ao povo do Bento. Então, a história do Bento é essa. Começou há 318 anos. Nem tinha barragem...

A SIRENE

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Nossas praças Por DONA MARIA DE PARACATU (poema) E MAURÍCIO INÁCIO (ilustração) Com o apoio do Bruno Magalhães e da Silmara Filgueiras

Cinco de novembro, numa quinta Onde tudo aconteceu A maior tragédia de Mariana Onde a batalha ocorreu

Vamos para o alto do morro A espera da água chegar Chegou somente lama, para Paracatu arrasar

Junto com a lama, nossa história se foi Paracatu, Bento Rodrigues nunca mais volta como foi

No arraial de Bento Rodrigues esta tragédia iniciou não ficou nenhuma casa Quando a barragem estourou

Da rua do Sapo até o Dadá Paracatu coberto de lama A comunidade pôs-se a chorar

Esta história triste chegou ao fim Você que está ouvindo essa mensagem É assim que tudo aconteceu

Na escola correram para avisar Os alunos precisavam se salvar O desespero tomou conta daquele lugar Mães desesperadas querendo seus filhos encontrar O helicóptero do bombeiro passou no campo a todos foi avisar "Pega seus documentos, cinco minutos para retirar"

Ao povo brasileiro, muito obrigado Povo bom de coração, Nunca vimos em Mariana toneladas de doação

Fica a moral da história De uma triste moradora que acaba de contar

Com tristeza no coração deixamos o nosso lugar onde criamos nossos filhos e a saudade vai ficar Paracatu, Bento Rodrigues na história ficará Se voltar para lá um dia Nunca mais o mesmo será

A SIRENE

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Que horas é a reunião ? Por NÓS DO BENTO Com apoio da Ana Elisa Novais, Elke Pena e Padre Geraldo Martins

A gente explica o tempo, os nomes, as palavras, as nossas lutas e as notícias que escreveram sobre nós. A gente fala. E do nosso jeito.

Rompeu a barragem de Fundão

5 de Novembro de 2015

Vou sobreviver? Vamos morrer? Quem se salvou? Quem morreu? Por que bombeiros tão despreparados? Por que a TV chegou mais rápido que os bombeiros? Será que vou ficar aqui? Quanto colchão! Muita gente ajudando! Vamos para o hotel, menos mal.

Socorro aos atingidos Primeira noite na Arena Mariana

Por que não tinha sirene? Por que não nos avisaram? Foi feito um inven-

O dia seguinte

tário? Por que não assumiram o risco?

A ida para hotéis

6/11

Doações no Centro de Convenções

Quantas doações! Como isso vai ser distribuído? Como eu vou ter certeza do que vai ser meu? Como alguém doa roupa suja, velha e rasgada?

Manifestação das famílias dos desaparecidos e mortos

A empresa liga para nossa casa perguntando se temos notícias de nossos parentes desaparecidos. Como vamos participar? Quem vai dar notícia de nossos parentes e amigos? Sobre o que são essas reuniões? Será que vai haver consenso? Quais são os meus direitos? Quanta dúvida! Quanta incerteza! O promotor fala muito bem!

Primeiras reuniões com a Samarco Criação da comissão dos atingidos

Fomos avisados e temos ônibus. Parece que tudo está correndo bem e que a Samarco está cumprindo com suas obrigações.

21/12

Quem coordena? Quem pode ir? Onde vai ser hoje? Que horas? Quando vou pra minha nova casa? Será que só depois do carnaval? EM QUEM CONFIAR? Me chamam pra tanta coisa! Fui a uma reunião onde não tinha ninguém, e ainda achei que o guarda desconfiou de mim. Achei os movimentos muito extremistas.

Reuniões continuam...

2016

Culto Ecumênico

30 dias"

Um minuto de sirene "

Até quando vamos ficar aqui? Cadê meu amigo? Que comida ruim, fui reclamar piorou! E esse advogado? Quem mandou ele aqui? Por que esse tanto de gente querendo falar comigo? QUERO ir pra casa!

Quanto tempo não te vejo! Que bom te reencontrar! Como você está? Não fiquei sabendo ou não tenho certeza do que é. Por que uma sirene agora?

5/12

Onde vou morar? Será uma casa parecida com a minha? Minha mãe vai ficar perto de mim? Será um bairro tranquilo como o Bento? Por que eu não posso escolher minha própria casa?

Escolha das casas temporárias

Ampliação da comissão dos atingidos

Pra que uma nova comissão? O que está acontecendo? Quais os interesses dos candidatos da comissão? Será que eles vão realmente nos

ajudar?

Mudança dos hotéis

Ufa! Graças a Deus saímos do hotel! Quanto tempo vou

para as casas

ficar nesta casa? Será que tem alguém que eu conheço aqui perto?

Mais reuniões...

Teve reunião? Não fiquei sabendo! Quando será a próxima? Qual é a pauta da próxima reunião?

60 dias"

Um minuto de sirene "

5/01

Achei que o lugar seria apresentado. Essa tabela está bem confusa!

Proposta do "novo Bento" Reunião na Assembleia Legislativa

1 minuto de sirene

Um mapa do Bento antigo! Bacana! Fiquei frustrado. Quero saber quando isso será decidido.

Conseguimos a garantia de que as negociações

28/01

Viva!!! continuarão em Mariana.

05/02

...

Novo canal: lançamento do jornal ‘‘A Sirene - Para

não esquecer’’. A SIRENE

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JUNTOS somos fortes e queremos:

A gente explica agronegócio: 1.horta

2. plantação 3.pessoas que tinham suas vidas ligadas à agricultura, ou seja, que tiravam seu sustento através do seu trabalho.

atingidos: 1.

prejudicados pela lama 2. sofreu algum dano ou perda diretamente 3. pessoas que perderam tudo, ou seja, bens materiais, sonhos, vidas, liberdade 4. inocentes.

Por NÓS ATINGIDOS Com apoio dO THIAGO ALVES E MÔNICA DOS SANTOS

Escolher o local e o modelo da nossa casa. Não tem que ser padrão. Uma área grande que possibilite a construção da casa, o cultivo dos pomares, criação de pequenos animais e outras atividades, pensada com muita atenção e participação das famílias atingidas. Acompanhar todo o processo de construção, assessorados por profissionais de diversas áreas, indicados por nós de forma autônoma. Junto com esses profissionais, queremos ter poder de proposição e veto. É nosso direito não deixar que consultorias que não conheciam o Bento façam tudo sozinhas. Quem conhece o Bento, nos mínimos detalhes, somos nós. A garantia da construção de espaços coletivos, como praças, igrejas e cemitério. E nessa construção, novos espaços podem ser propostos por nós. A Nova Bento nunca será como a anterior, mas poderá ser um ótimo lugar se formos protagonistas nas decisões sobre todos os detalhes, de forma autônoma e organizada. Este é um direito.

barragem: 1.sensação de perigo 2. bomba 3. pesadelo de várias comunidades brasileiras por várias décadas 4. irresponsabilidade.

bento: 1. paraíso;

!

nossa vida 2. o nosso mundo, o nosso maior sonho e esperamos que seja o nosso presente 3. vítima.

bônus/verba de assistência:

1 obrigação 2. não precisamos de verbas assistenciais, precisamos

sim de ressarcimento do que nos foi tirado de maneira brutal e cruel’’.

direito: 1. ter uma casa, um lugar 2. correto 3. o que queremos que seja cumprido justamente 4. justiça. identidade: 1. união 2. identificação 3. perdemos. memória: 1. saudade

2. coisas passadas 3. o que nos restou da nossa vida, da nossa comunidade, ou seja, o que foi soterrado pela lama 4. momentos felizes com meu pai.

mineração: 1. emprego 2. retirada de metais 3. o que veio depois que já estávamos instalados e tranquilos, retirando o nosso sossego e a nossa vida 4. uma atividade que, se não for correta, pode acabar com a vida de inocentes.

notícia/imprensa:

informação, aproveitando da situação para elevar o nível de audiência sem pensar em quem foi atingido 3. algumas verdades, algumas mentiras, porém, foi de muita validade e está sendo, não deixando que a gente fique no esquecimento, nós achamos de muita importância 4 algumas manipuladoras e oportunistas e outras a favor da verdade e da realidade’’.

reconstrução: 1.

esperança de ter todos juntos 2. recuperar o que a gente tinha 3. é o que queremos o mais rápido possível 4. um desafio que é reconstruir a vida sem meu pai.

rejeito/lama: 1.

poluição 2. sobra não aproveitada, barro 3. monstro criado pela mineração que nos levou à ruína total, ou seja, destruiu toda a nossa casa 4 .trauma’’.

2. representar o grupo: promotor, a comissão e, depois da reunião na assembleia, a união do grupo 3. estamos tendo através do doutor Guilherme, com ministério público; minha família, advogados e pessoas com boa vontade que se sensibilizaram com nossa luta’’.

solidariedade: 1.

surpresa 2. o que foi feito pelo povo brasileiro para nos ajudar, e o que agradeceremos sempre.

tóxico: 1. que mata;

faz mal à saúde 2 .coisa ruim que destrói vidas, principalmente o meio ambiente 3. poluição.

tragédia:

1. perdas, destruição, não devia ter acontecido isso 2. morte, coisas inesperadas 3. o fim de nossa história, um caos total, um sonho interrompido 4. dor.

representação: 1.

1. promotor, segurança / distorção e manipulação 2. organização do grupo A SIRENE

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Ser celebridade da desgraça

Viver tem sido uma barra...

Por MARIA DAS GRAÇAS SANTOS, MÔNICA DOS SANTOS E SIMÁRIA QUINTÃO Com apoio da Juçara Brittes

“Meu primeiro contato com a mídia foi quando ainda estava no meio da lama, lutando para socorrer as pessoas” “Estavam fazendo o trabalho deles” “No céu, outra tempestade, só que de helicópteros da Globo, SBT, Record. Nenhum nos ajudou” “Estou com birra de jornalista” “Por que nos fazem perder tempo, reviver coisas tão dolorosas se já sabem as respostas que querem?” “Surpresa, desconforto, gratidão e medo de jornalista” “Às vezes, pedem para fazer uma cara triste para as fotos e aproveitam quando choramos” “Eles só publicam o que querem” “Se não levarem a notícia do jeito que foram mandados, perdem o emprego”

Por NÓS DE BARRA LONGA Com apoio da Marília Mesquita e Bruno Arita

Barra Longa é um canteiro de obras. Há três meses, do rio veio lama. Há três meses, o rio é de lama e os 6. 143 habitantes vivem, diariamente, o rompimento da barragem de Fundão.

Se passou em outros lugares, em Barra Longa, a lama ficou. “Você vai escrever o que eu falar, né?!”

Desconfiado. Josué Augusto Martins, presidente do Esporte Clube Barralonguense, sente a perda do lazer.

“Todos os dias, pelo menos 200 pessoas iam no clube. Durante o dia era usado para Educação Física pela escola. Os idosos usavam quarta, quinta e sexta-feira. Tinha capoeira, eram 80 meninos. E mais 138 meninos no time”. O campo não possui estimativa de reparo.

“Eles ficam pra rua, jogando baralho, conversando. O que eles tinham era o campo”. Olhar tímido, angústia nas palavras. Simone é a neta que vê a avó sem amparo e a mãe que vê a filha adoecer. Nos acordos feitos, era para receber uma cesta a cada 15 dias, e o cartão-auxilio.

"Disseram que a avó não tem direito ao cartão, ninguém entendeu o porquê. E quando ela vai buscar a cesta, maltratam ela”.

“O que incomoda é ser celebridade da desgraça”

As máquinas, a lama, a poeira e o cheiro são os mesmos de 90 dias atrás. É o que justifica antialérgico, pomada e hidratantes.

“Quem devia ter chegado tão rápido quanto eles eram os bombeiros, que demoraram e desistiram das buscas por volta das dez da noite”

“Minha menina tem um ano e dois meses. Está com alergia. Passa a mão nos bracinhos dela e parece uma lixa. Ela só fica coçando”.

“Eles nos levam a expor coisas desnecessárias”

Mulher de fé.

“Eles têm muito poder, que prejudica e às vezes ajuda” “Só quando a Globo pediu autorização para a equipe do Profissão Repórter, e eles resolveram nos levar, é que pudemos ver o tamanho da desgraça”

“É a fé em Deus que faz a gente viver”. No Morro Vermelho, a margem do rio aproxima das casas à medida que o barranco cede. “Se for pra sair daqui, eu saio".

Com a chuva que deu esses dias, a lama veio toda e encostou nas bordas do rio. Cada dia que passa fica pior.

"Os funcionários da Samarco falaram que agora que abaixou o nível vão tirar aquela lama toda, mas eles já tinham tirado e agora voltou tudo, em dobro”.


O que queremos do velho no

Novo Bento? Por MARIA DAS GRAÇAS QUINTÃO, MÔNICA DOS SANTOS E SIMÁRIA QUINTÃO Com apoio da Ana Cristina Maia, Isabela Walter, Lucas de Godoy e Luiza Geoffroy

Para

• Elias: o ranca na quadra

• Cabeção: as serenatas • Maria Lúcia: a escada de pedra • Paulinha: o pé de esponjeira

• Ana Beatriz: a brincadeira na rua • Maurício: as cachoeiras • Xandim: a vida livre

• Cláudia: os vizinhos • Dona Dirce: as igrejas • Vítor: o

cascalho

• Maria: o banco de pedra da praça • Ana Amélia: o baú de palha • Mônica: o cemitério

Para todos • o direito de escolha • estar perto do Bento • a paisagem

• Simária: a praça

• o respeito à nossa história

• Weverton: o lambari frito

• o nosso modo de vida

Jornal A Sirene - Ed. 0 (fevereiro)  
Jornal A Sirene - Ed. 0 (fevereiro)  
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