A SIRENE
PARA NÃO ESQUECER | Ano 10 - Edição nº 109 - Setembro de 2026 | Distribuição gratuita
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A SIRENE PARA NÃO ESQUECER
Setembro de 2026 Mariana - MG
RECADO DA REDAÇÃO: Jornal A SIRENE - de olho na tecnologia Reconhecemos que nossa sociedade tem aderido, cada vez mais, a conteúdos produzidos por meio da Inteligência Artificial, mais conhecida como IA. Recentemente, as redes sociais passaram a indicar quais textos e imagens são elaborados a partir desse recurso. Nossa equipe de redação, atenta às tendências da tecnologia e à complexidade dessa discussão, tem acompanhado essa discussão e seus desdobramentos. Com isso, optamos por diferenciar os conteúdos que produzimos com ajuda de IA daqueles feitos com Inteligência Humana (IH). Dessa forma, o Jornal A SIRENE acompanha tendências da tecnologia, identifica como ela tem se apresentado para as pessoas e continua efetivando seu modo de comunicar, com responsabilidade, ética e criticidade.
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POEMA Tempos verbais
A mineração deixou barrocos a mineração deixará barracos. voltas, volutas, teatros, lama, rejeito, o caralho.
A mineração deixou barrocos a mineração deixará barracos. capitéis, pilastras e fontes dores, soluços, fechem as cortinas [ato falho]. Por: Isaías Gabriel Franco. Poeta, doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), mestre em História e bacharel em História e Filosofia pela mesma instituição. É autor dos livros Poeminhas de arruar (2021), Poemas limpos de amor (2022), Pedra viva (2023), Ainda somos humanos (2025) e Lume (2025). Os poemas a seguir foram selecionados dessas obras.
Pesquisa para captação de recursos: Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio). Conselho Editorial: Expedito Lucas da Silva (Caé), Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Silmara Candinho A. Filgueiras. Editor-chefe: Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio). Jornalista Responsável: Silmara Candinho A. Filgueiras. Reportagem e Fotografia: Adivane Terezinha Costa, Larissa Rabelo Nunes, Leandro Raggi, Líria Barros, Mariana Duarte, Pedro Henrique Caldas, Sérgio Papagaio, Silmara Candinho A. FIlgueiras, Tainara Torres, Wan Campos. Revisão: Elodia Lebourg.
A mineração deixou barrocos a mineração deixará barracos. anjos, torres ebúrneas pobres, fome, cascalho.
Realização: Associação dos Atingidos pela Barragem de Fundão para Comunicação, Arte e Cultura e Transverso Comunicação.
Diagramação: Silmara Candinho A. Filgueiras. AS CONTRIBUIÇÕES SERÃO FEITAS EM NOME DA ASSOCIAÇÃO DOS ATINGIDOS PELA BARRAGEM DE FUNDÃO PARA A COMUNICAÇÃO ARTE E CULTURA, QUE É A MANTENEDORA DO JORNAL.
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Foto de capa: Tainara Torres/IH. Agradecimentos e apoio institucional: ADUFOP - Associação dos Docentes da UFOP, Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF), Associação dos Garimpeiros Tradiconais de Acaiaca, Barra Longa e Mariana (ATI AGITA), Cáritas Brasileira Regional MG (ATI Mariana), ATI Cáritas Diocesana de Itabira nos Territórios 01 e 02, Centro Rosa Fortini (ATI). Fontes de recursos: AGITA - Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce CNPJ 59.577.644/0001-90 Avenida Marginal Sul, nº 195A, Centro Acaiaca/MG CEP 35.438-000 Inscrição Estadual e Municipal: Isento.
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OPINIÃO
Papo de cumadres: Onde está seu irmão? Em Gênesis, quando Caim matou Abel, a primeira pergunta de Deus para Caim foi a seguinte: onde está seu irmão? E Caim respondeu não sei, acaso sou guarda do meu irmão? Por Sérgio Papagaio
Clemilda minha fia de Deus, eu tava lendu a bíblia e tive uma iluminação, li a paute que Caim matou seu irmão, mas Deus lhe fez uma indagação ondé que tá seu irmão? Isso mexeu no fundo Du meu coração. Ah! Concebida, tô intendu a sua situação, mas me explique pra eu ter mais noção. Clemilda do meu coração, penso eu que todos os dias que nois acordá deveríamos pra nós mesma peuguntá, onde está nossos irmão? Continua que já tô pegando a noção. Onde está nossos irmão, será que tá cumenu, tem uma casa pra abrigar Du sol, Du friu, um fugão pra prepara a alimentação e se tem o que ponhá nus panelão, uma geladeira pra guadá a alimentação, uma cama pra descansar a caucaça para que nu outro dia possa começar de novo quando Deus lhe der a graça Concebida meus olhio tão cheios d'água eu num lembro de nenhum dia que me assunta, ter feito essa peuguntá, agente veve dentro de nois mesma, esquecendou deste povo tão sufridu dus que sofreram com quase 11 anos Du rompimento, mas também de cada irmão sem alento que nas ruas dorme um sono Duidu, eles também são atingidos. E que são tantas barragem e tantas barreiras que nos torna atingidos, tantos muros que nus impede de ver os outro, que além dos que nus rodeia, sejam irmão ou irmã, cume que tá nossos irmão no Irã, qual será o destino na Palestina, e os nossos irmãos na Rússia e na Ucrânia? São tantas guerras pelo mundo e nois ainda num vencemos uma batalha nu nosso coração, onde está nossos irmão?
Foto: Sérgio Papagaio/IH
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Alerta falso gera pânico nas comunidades atingidas pelo Sistema Minas-Rio Comunidades atingidas pelo Sistema Minas-Rio da Anglo American, de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim, se reuniram em manifestação após mais um toque indevido da sirene, ocorrido no dia 13 de agosto. Por Silmara Candinho A. Filgueiras
“Agora vem o tempo das águas. Quem vai dormir? O que a gente vai saber na hora que a sirene vai tocar? Será que vai ser verdade?” Darcília Pires de Sena, quilombola de Passa Sete A manifestação (18) fechou a MG-010, principal estrada utilizada pela Anglo American, e as comunidades listaram 26 pontos de reivindicações que foram endereçados à mineradora, ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), ao Ministério Público Federal (MPF), ao Governo de Minas e às prefeituras. “Esta ação visa denunciar o continuado processo de opressão, violação sistemática de direitos fundamentais e degradação das condições de vida a que fomos submetidos nos municípios de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim. Repudiamos a conivência institucional e a omissão dos órgãos públicos de fiscalização e controle que, ao longo de mais de 15 anos, têm falhado em proteger nossas vidas, nossas águas e nossos territórios tradicionais frente ao avanço desmedido do projeto minerário. Não aceitamos mais o silenciamento, a coerção e a convivência forçada com o pavor constante de um rompimento de barragem. Exigimos o cumprimento imediato e integral da legislação vigente - em especial a Constituição Federal, a Convenção 169 da OIT, a Política Estadual dos Atingidos por Barragens (PEAB) e a Lei Mar de Lama Nunca Mais”, ressalta trecho do Manifesto de Paralisação da MG-010, que também foi assinado pela Federação das Comunidades Quilom-
bolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) e pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Entre as reivindicações, as comunidades solicitam auditoria independente sobre a integridade da barragem de rejeitos; esclarecimentos públicos sobre as causas dos constantes acionamentos de sirenes na Zona de Autossalvamento (ZAS); atendimentos de urgência médica e psicológica nas comunidades da ZAS; fornecimento contínuo de água potável em todas as comunidades atingidas; consulta livre, prévia e informada às comunidades quilombolas; aceleração das obras dos reassentamentos coletivos; livre opção de reassentamento para área rural ou urbana; equiparação dos direitos da comunidade de Gondó ao Plano de Reassentamento da ZAS; revisão de condicionantes ambientais
pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM) ; respeito às diretrizes pactuadas no Plano da ZAS; dentre outras. As tratativas foram iniciadas com as pautas urgentes, na reunião do dia 21, com a Anglo American e o MP. Alguns pontos foram acordados com a mineradora, como garantia de não interrupção das negociações para o reassentamento; respeito à consulta livre, prévia e informada às comunidades quilombolas; respeito às diretrizes do Plano de Reassentamento; garantia da construção de equipamentos públicos no reassentamento; e verificação da eficiência de convênios firmados com as prefeituras para atendimento das comunidades atingidas. A mineradora se comprometeu a levar outras respostas na próxima reunião, agendada para o dia 11 de setembro.
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Fotos: Larissa Rabelo Nunes - Comunicação do MAM/ih
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Falta de controle do Sistema de Emergência Um novo inquérito foi aberto pelo MPMG para investigar a funcionalidade e segurança do sistema de emergência da Anglo American. A falha ocorrida no sistema da mineradora no último dia 13 foi a quarta na região (a primeira ocorreu em janeiro de 2020, a segunda em março de 2025 e a terceira em fevereiro deste ano). O alarme falso do dia 13 causou pânico e desespero nas famílias da ZAS da barragem de rejeitos, em áreas rurais de Alvorada de Minas e de Conceição do Mato Dentro. À noite, elas deixaram suas casas e se deslocaram, com crianças e idosos, em direção aos pontos de encontro nas comunidades, onde permaneceram até às 22 horas. A Anglo American propôs indenizar as pessoas atingidas pelos toques indevidos do seu sistema, como fez pelo acionamento ocorrido em 2020. “Dinheiro não cobre a nossa tristeza. O que cobre nossas vidas é ter um reassentamento digno, uma moradia digna pra gente viver com a família, para que os filhos cresçam com a possibilidade de vivência. Ninguém está dormindo mais. Agora vem o tempo das águas. Quem vai dormir? O que a gente vai saber na hora que a sirene tocar? Será que vai ser verdade?”, desabafou Dona Darcília Pires de Sena, moradora da comunidade quilombola Passa Sete. “Quando teve o acionamento da sirene em fevereiro, a mineradora disse que isso não iria acontecer novamente. E, no dia 13 de agosto, foi aquele pânico. Saímos todos correndo, pessoal do Córrego do Saraiva e do Jassém, para os pontos de encontro. O ponto de encontro do Saraiva é péssimo, porque não tem luz e todos nós fomos obrigados a sair e ir para um lugar sem luz e só poeira, crianças chorando porque não tinham tomado banho e nem jantado, e não foi ninguém lá da empresa para falar um ‘oi’ com a gente. As falhas estão sendo constantes e quem está sofrendo somos nós, nossas crianças estão ficando perturbadas, pais e mães não têm estômago para dormir, acordamos de madrugada com as crianças dizendo que estão com medo”, contou Maria das Dores Alves, moradora da comunidade quilombola Córrego do Saraiva.
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Quem se preocupa com a nossa insegurança alimentar?
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Fotos: Pedro Henrique Caldas e Tainara Torres/IH
Por ATI Cáritas Diocesana de Itabira
Desde o dia 5 de novembro de 2015, as dúvidas sobre a qualidade da água e do solo dos territórios atingidos seguem conflitando com os passos da reparação. Para quase tudo há um prazo, exceto para a busca por respostas a questões que ainda nos tocam, como: para quem vive dessa terra, o que fazer? Nas fotos, produzidas a partir do cotidiano de pessoas atingidas dos territórios de Rio Casca e Adjacências e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento, apontamos para a necessidade de ainda refletirmos, quase 11 anos após o rompimento da barragem de Fundão, sobre a infinidade dos danos causados à saúde, aos modos de vida e à vivência das pessoas atingidas. O que muda para quem caminha na terra desse chão?
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Seis meses de trabalho e construção coletiva A Assessoria Técnica Independente dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce (ATI AGITA) completou seis meses de trabalho nos territórios atingidos em Mariana, Acaiaca e Barra Longa. Aqui, aproveitamos para fazer o primeiro repasse semestral das atividades realizadas pela ATI para a comunidade garimpeira, com a reunião e a sistematização do conjunto de ações desenvolvidas desde o início deste ano. Por Leandro Raggi Com o apoio de Silmara Candinho A. Filgueiras
No começo, uma parte importante do trabalho foi firmar a ATI de pé: formar a equipe, organizar a sede e os pontos de apoio, adquirir ferramentas de trabalho e criar as condições necessárias para atender os garimpeiros e as garimpeiras que recebemos nos territórios. Enquanto essa estrutura era montada, o trabalho junto à comunidade já estava acontecendo.
Ao todo, foram realizadas 18 atividades, incluindo assembleias, reuniões, rodas de conversa e atendimentos individuais, para explicar e tirar dúvidas sobre o Novo Acordo de Reparação, ajuda necessária para a comunidade participar das decisões que dizem respeito aos seus direitos. Essas atividades mobilizaram um total de 2.900 participações de pessoas atingidas, distribuídas entre diferentes formatos de encontro e diálogo nos três municípios. Um dos principais trabalhos do semestre foi o acompanhamento da elaboração de projetos comunitários, previsto no Anexo 6 do Novo Acordo. A equipe da ATI AGITA percorreu os territórios, conversou com associações e grupos para ajudar a transformar ideias em propostas de trabalho, com apoio na apresentação e organização de documen-
Fotos: Arquivo Ati AGITA/IH
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tos necessários. Dessa forma, projetos pensados pela própria comunidade foram enviados para disputar os recursos financeiros do Edital Rio Doce, destinados à reparação. Outra frente de trabalho importante foram as rodas de conversa com as pessoas atingidas sobre o Anexo 3 e o Valor de Apoio Familiar (VAF), ações que se relacionam diretamente ao processo de Consulta Livre, Prévia e Informada, em que povos e comunidades tradicionais participam e decidem coletivamente. A ATI acompanhou e orientou as famílias garimpeiras sobre seus direitos, apoiou a atualização de informações, identificou pendências e mediou o diálogo entre os garimpeiros e as instituições que monitoram o trabalho. Além disso, contribuiu para que a comunidade pudesse compreender as etapas da consulta, para garantir que as decisões fossem embasadas em informações por meio da apresentação, da participação na votação e do respeito ao direito de escolha das pessoas atingidas. Nesses primeiros meses, a ATI AGITA também buscou exercer a comunicação popular como algo que está no centro de sua atuação. Informações com termos técnicos e termos considerados difíceis foram reajustadas para uma linguagem que proporciona melhor compreensão. A ATI acredita que, para participar de verdade, é preciso que cada pessoa compreenda as informações divulgadas, o que está sendo conversado e decidido em reuniões e assembleias. A participação dos garimpeiros e das garimpeiras é, também, fundamental para fluir a comunicação popular em reuniões, a partir de perguntas e do compartilhamento de ideias. Dessa forma, é possível construir o processo com a participação de todos e todas. Esse primeiro semestre contabiliza muito trabalho para estruturar a ATI AGITA e fazer a informação chegar até a comunidade de forma clara e acessível. Nos próximos meses, a previsão é que a ATI continue acompanhando de perto os processos de reparação, levando informação, orientação e apoio técnico aos garimpeiros e às garimpeiras, para que possam conhecer seus direitos e participar das decisões.
O gráfico ao lado contabiliza as atividades desenvolvidas pela ATI AGITA durante o primeiro semestre de 2026.
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Pessoas atingidas participam de curso sobre Farmácia Caseira Em julho, pessoas atingidas de Gesteira, Antônio Pereira, Amarantina, Santo Antônio do Leite, Capanema, Botafogo, Ouro Preto (sede), Mariana e São Tomé das Letras participaram do curso “Farmácia Caseira – Cultivo Agroecológico e Preparações Botânicas”, com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento do território como lugar de cura e de resistência contra a mineração predatória. Com o público bem definido, a proposta foi colocar em prática parte do parte do módulo “Saúde e Mineração”, componente de um curso mais abrangente, realizado à distância e intitulado “Educação, Cultura e Gestão das Águas em Comunidades”, coordenado pela professora Adivane Costa, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com o apoio do Ministério Público Federal (MPF), a partir do Programa Participa Minas e da Pró-Reitoria de Extensão/ UFOP. Conduzido por Vera Fróes, historiadora e pesquisadora de plantas medicinais, os participantes trocaram conhecimentos sobre identificação das espécies, plantio e manejo de plantas medicinais, vivência com óleos essenciais e preparações botânicas, em que todos aprenderam e prepararam seu remédio caseiro, de forma segura e consciente. Foi uma oportunidade única de mostrar o cultivo de uma farmácia viva, com base nos conceitos da Agroecologia, além de uma experiência de conexão com a natureza, fortalecimento da autonomia no cuidado com a saúde e valorização dos saberes tradicionais. O conhecimento adquirido poderá ser aplicado em casa, em quintais produtivos, hortas comunitárias e em iniciativas de promoção da saúde, de modo a fortalecer a resistência de mulheres que lutam diariamente pelos seus territórios constantemente ameaçados pelas atividades da mineração predatória. Por: Adivane Terezinha Costa (representante do Conselho da ADUFOP, professora do Departamento de Geologia/UFOP e coordenadora da cátedra UNESCO Água, Mulher e Desenvolvimento)
Fotos: Líria Barros - Liderança da comunidade de Botafogo/ih
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Por: Adivane Terezinha Costa (representante do Conselho da ADUFOP, professora do Departamento de Geologia/UFOP e coordenadora da cátedra UNESCO Água, Mulher e Desenvolvimento)
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6ª reunião do CFPS debate demandas das pessoas atingidas e ações da reparação Por: Cáritas Diocesana de Itabira e Governador Valadares
Foto: Wan Campos/Cáritas ATI Mariana/IH
Entre os dias 29 e 31 de julho, o Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e Litoral Norte Capixaba (CFPS) realizou sua 6ª reunião ordinária, em Colatina-ES. O encontro reuniu pessoas atingidas e representantes do Governo Federal para discutir ações de reparação e demandas dos territórios. A reunião começou com o Turno de Diálogo Aberto, espaço de fala das pessoas atingidas. Entre os principais temas, estavam a insegurança hídrica, problemas de saúde, contaminação dos peixes, endividamento, assistência social e o funcionamento dos programas. A qualidade da água também foi debatida: o governo informou que estão sendo realizadas análises técnicas e reconheceu
a necessidade de ampliar a transparência na divulgação dos dados. Outro tema foi a destinação dos rejeitos da Usina Hidrelétrica de Candonga. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apresentou o processo de estudos que irá orientar a decisão sobre a retirada, ou não, dos rejeitos. A previsão atual é de que uma decisão seja tomada até 2030, mas esse prazo pode ser antecipado. Outros repasses: As pessoas atingidas questionaram o processo e reforçaram que os impactos dos re-
jeitos não estão restritos a Candonga, mas atingem toda a Bacia do Rio Doce. No terceiro dia do encontro, foi aprovada a criação da Comissão Temática de Saúde, com participação do governo e da sociedade civil. Também foram discutidas as formações de novas comissões para conversar sobre os programas de Agricultura e o Programa de Transferência de Renda (PTR). O Conselho ainda debateu os critérios de acesso ao PTR e aos programas de retomada econômica. Para os conselheiros, é necessário garantir que as regras não acabem excluindo justamente quem precisa da reparação.
A próxima reunião do CFPS acontecerá nos dias 9, 10 e 11 de setembro, em Mariana-MG
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Foto: Sérgio Papagaio/IH
21 de julho: Dia Nacional do Garimpeiro
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No município de Rio Doce, Santana do Deserto preserva Jubileu de quase três séculos Por Assessoria Técnica Independente Rosa Fortini
Na comunidade Santana do Deserto, em Rio Doce, a passagem dos anos não apagou uma tradição iniciada há quase três séculos: o Jubileu de Sant’Ana. A cada ano, a celebração renova uma história construída entre fé, convivência comunitária e memória. Para moradores e romeiros, a festa representa um vínculo com as próprias origens e um momento de reencontro. Mais do que missas, procissões e momentos de oração, o Jubileu é formado por gestos. A chegada da imagem de Sant’Ana ao Santuário, as caminhadas, o levantamento do mastro, as bênçãos e os encontros entre famílias compõem um ritual coletivo em que a fé se mistura à vida cotidiana. A devoção também ganha significado especial por sua relação com a família. Na tradição católica, Sant’Ana e São Joaquim são
os pais de Maria e, portanto, avós de Jesus Cristo. A celebração, que termina no dia 26 de julho, reforça a transmissão de costumes entre gerações. Esse sentimento de pertencimento está presente na experiência de quem participa do Jubileu ao longo dos anos. Para Camila Ribeiro, moradora da comunidade Santana do Deserto, a festa representa uma herança compartilhada entre avós, pais e filhos. “É bonito ver como os costumes são passados de geração em geração, dos avós para os pais e dos pais para os filhos. Cada família carrega suas histórias e lembranças desse momento. Ao participar do Jubileu, renovamos nossa fé, nossa devoção e o sentimento de pertencimento à nossa comunidade”, explica a jovem.
Uma tradição feita por muitas mãos A história do Jubileu de Sant’Ana do Deserto também se estende para além dos limites da própria comunidade. A participação de localidades vizinhas demonstra como a celebração foi construindo, ao longo das décadas, uma rede de colaboração e pertencimento. Um exemplo é a relação mantida com a comunidade do Jorge. Segundo relatos, desde 1971, a comunidade participa ativamente da celebração, ao contribuir com alimentos e outros gestos de acolhimento aos religiosos e visitantes. “Somos comunidades irmãs. Essa festa é muito importante para nós, católicos”, explica Geraldo de Campos (Dadinho), morador da comunidade do Jorge.
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A memória que resiste ao tempo Em um território marcado por profundas transformações sociais e ambientais nas últimas décadas, como a construção de uma usina hidrelétrica e o rompimento da barragem de Fundão, tradições como o Jubileu assumem um papel importante na preservação da memória e do sentimento de pertencimento. A celebração ajuda a preservar a história de quem vive nesse território, de quem partiu e daqueles que continuam retornando para reencontrar lugares, afetos e costumes que atravessam gerações. Manter essa tradição viva também significa preservar os espaços e as condições que permitem à comunidade continuar celebrando sua fé. A importância da celebração também é reconhecida oficialmente. A Festa de Sant’Ana
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possui registro municipal como bem cultural imaterial, reconhecimento que reforça seu valor histórico e cultural para a comunidade e para o município de Rio Doce. Fotos: Mariana Duarte/ Centro Rosa Fortini/IH
EDITORIAL O Jornal A SIRENE abre este editorial prestando solidariedade aos sobreviventes, familiares e amigos das vítimas do deslizamento e das enchentes nas regiões do Tibete e Nepal, em agosto deste ano. Este foi mais um evento traumático vivido pela humanidade, com a morte de pessoas e os prejuízos ambientais, sociais e patrimoniais que escancaram as fragilidades do mundo em que vivemos. Inevitavelmente, o sofrimento vivido pelas pessoas no outro lado do mundo nos faz pensar nos rompimentos de Fundão e Brumadinho, desastres com causas diferentes daquela, mas com aspectos em comum, sobretudo a insegurança e a vulnerabilidade de determinados grupos sociais. Aqui no Brasil, ao longo de mais de 10 anos, acompanhamos o desenrolar de cenários pós-rompimento de barragens, nos quais as responsabilidades e mitigações dos danos têm girado em torno de algo que, de fato, aconteceu, porém, com o avanço das mudanças climáticas, é urgente que governos, iniciativa privada e sociedade em geral estabeleçam medidas de prevenção e respostas rápidas aos desastres, cada vez mais recorrentes. É sempre importante reafirmar que não estamos mais considerando fatos isolados. Devemos encarar que os sucessivos terremotos, tempestades, queimadas e rompimentos de barragens, entre outros eventos catastróficos, estão dando sinais de que nossa casa, o planeta Terra, não vai bem. Trouxemos, nesta edição, informações sobre uma manifestação organizada em Conceição do Mato Dentro, na qual moradores atingidos pelas atividades da Anglo American reivindicaram direitos e cobraram seriedade da mineradora diante da recorrência no acionamento “acidental” da sirene. Vítimas do próprio sistema de segurança, pessoas e comunidades que moram próximas e abaixo da barragem de rejeitos do projeto Minas-Rio chamaram a atenção para suas próprias vidas, em solidariedade e em memória ao sofrimento vivido por comunidades vulneráveis às atividades que modificam estruturalmente a convivência nos territórios. Desde 2015 até hoje, acontecimentos como esse apontam para a necessidade de levar a sério medidas de segurança, prevenção de acidentes e mudança de atitudes em atividades empresariais que influenciam, direta ou indiretamente, a permanência e a sobrevivência das pessoas em seus territórios. Vivemos em um mundo diferente, no qual não há mais espaço para investir em ações somente depois que algo grave acontece. É necessário criar alternativas que sustentem, com dignidade, as vidas humanas e não humanas, que sejam acessadas durante eventos climáticos e em outras situações críticas, e que evitem que grandes desastres se tornem cada vez mais comuns. Nesta edição 109, mostramos, ainda, como pessoas e comunidades estão envolvidas em medidas de restabelecimento e reconstrução de suas vidas após episódios traumáticos. Com isso, notamos que a participação popular e o reencontro com práticas ancestrais e tradicionais têm sido fundamentais para resgatar uma outra linha do tempo, na qual vulnerabilidade, falta de segurança, insegurança alimentar e ambiental, medo e ansiedade não eram provocados, mas evitados. Também aproveitamos esta edição para apresentar um balanço dos seis primeiros meses de atividades da ATI AGITA e para contar sobre a realização de oficinas de manipulação e criação de farmácia caseira, a partir dos estudos em agroecologia e das plantas medicinais. Por fim, abordamos o que tem acontecido em reuniões que discutem a reparação e demandas das pessoas atingidas por Fundão. A cada edição, nosso jornal reafirma seu lugar ao lado das pessoas atingidas por esse desastre e por comunidades que sofrem com os impactos negativos da mineração, em busca de reparação justa e integral, bem como de um mundo melhor.