Reconhecemos que nossa sociedade tem aderido, cada vez mais, a conteúdos produzidos por meio da Inteligência Artificial, mais conhecida como IA. Recentemente, as redes sociais passaram a indicar quais textos e imagens são elaborados a partir desse recurso. Nossa equipe de redação, atenta às tendências da tecnologia e à complexidade dessa discussão, tem acompanhado essa discussão e seus desdobramentos. Com isso, optamos por diferenciar os conteúdos que produzimos com ajuda de IA daqueles feitos com Inteligência Humana (IH). Dessa forma, o Jornal A SIRENE acompanha tendências da tecnologia, identifica como ela tem se apresentado para as pessoas e continua efetivando seu modo de comunicar, com responsabilidade, ética e criticidade.
POEMA
Boi do Dirceu
Mataram o boi do sô Dirceu (Bis)
Ê boi ê boi, mas quem è que te falô? (Bis)
Ê boi ê boi, foi Bilu que me conto (Bis)
Ê boi ê boi, mataram o boi do Dirceu
Ê boi ê boi, diga là quem é que foi? (Bis)
Eu não eu não, pergunta pru sô Adão (Bis)
Ê boi ê boi, foi u barru de fundão (Bis) (Bis)
Ê boi ê boi, ô meu Deus mas que diacho (Bis)
Foi na bera Du Gualaxu (Bis)
Ê boi ê boi, vô chamá u feiticeiro, vô chamá u feiticeiro, pra trazer u boi de vorta, ai ai ai, pra trazer u boi de vorta, ai, ai.
Ê boi ê boi, pra fazê essa façanha e acaba com essa agunia
Ê boi ê boi, chama u povo da fulia, chama u povo da fulia, Pra acabá com essa agunia (Bis)
Ê boi ê boi, pra cantá com alegria, u Alcides e u Osorio comandandu a canturia (Bis)
Vô cantá cume que foi (Bis)
Ê boi ê boi, feiticeru e rezadô (bis) deru vida à pru boi (Bis),
7 dia que morreu (bis)
U tar boi Du sô Dirceu (bis)
7 dia que morreu (bis)
Ê boi ê boi (bis)
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EXPEDIENTE
Realização:
Associação dos Atingidos pela Barragem de Fundão para Comunicação, Arte e Cultura e Transverso Comunicação.
Pesquisa para captação de recursos: Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio).
Conselho Editorial: Expedito Lucas da Silva (Caé), Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio), Silmara Candinho A. Filgueiras.
Editor-chefe: Sérgio Fábio do Carmo (Papagaio).
Jornalista Responsável: Silmara Candinho A. Filgueiras.
Reportagem e Fotografia:
Amanda de Paula, Ana Carolina Campos, Conceição de Pádua, Hermínio Amaro do Nascimento, Isaías Gabriel Franco, Jade Silva (jadear.te), Júlia Militão, Marcelo Rolim, Mariana Duarte, Máximo Martins, Paulo Vieira, Wan Campos.
Revisão: Elodia Lebourg.
Diagramação: Silmara Candinho A. Filgueiras.
Foto de capa: Júlia Militão/IH.
Agradecimentos e apoio institucional: ADUFOP - Associação dos Docentes da UFOP, Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF), Associação dos Garimpeiros Tradiconais de Acaiaca, Barra Longa e Mariana (ATI AGITA), Cáritas Brasileira Regional MG (ATI Mariana), ATI Cáritas Diocesana de Itabira nos Territórios 01 e 02, Centro Rosa Fortini (ATI).
Fontes de recursos: AGITA - Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce CNPJ 59.577.644/0001-90Avenida Marginal Sul, nº 195A, Centro Acaiaca/MG CEP 35.438-000 Inscrição Estadual e Municipal: Isento.
Por Sérgio Papagaio Nunha manhã comum de sol rasteiro lá no cume do morro ouvi um grito de socorro, sai correndo, o grito vinha da casa de cumadre Clemilda, quando cheguei lá ela tava dando o último suspiro, a morte levou Clemilda!... Antes que eu pudesse pensar, recebi uma mensagem no meu celular.
Cumadre Consebida minha amiga de uma vida, não fique triste nem desanime, a molte num é u fim, estou aqui chegando nu céu.
Deus ave Maria, minha fia, cumé que isso foi acontecê com cê? Cê tá cumé, muié?
Tô numa alegria sem fim, logo que entrei nu céu ouvi uma música de um anju cadete, sabe quem era? Era seu Filomeno com seu clarinete, e de uma forma tão bacana, seu Zezinho de Paracatu acompanhava na sanfona.
Mulher de Deus, estou tão feliz por você, que dei até vontade de morrer. Quem mais tá aí com cê?
Tem um coral com dezenove anjos sujos de rejeito, contando uma música perto de um anjinho que só viu a luz quando o céu foi seu berço.
Estou tão admirada, e nu fundo contente, por saber que da Terra foram embora antes do combinado, mas Jesus no céu os tenha abraçado.
É cumadi muita gente tem medu da molte, mas para os justos ela é uma cuia de solte.
Comu assim que morrê é solte?
Cumadi eu encontrei mamãe e minhas tia, sua mãe e madrinha Catarina.
Papagaio tá aqui Du meu lado, só eu e ele tamu consiquinu lê as mensage que ocê manda, ele tá perguntando de Dorinha de Bilu e de Doca lá de Paracatu? São amigus que ele num pôde se dispidi.
Diga a ele que Doca, seu Alexandre, disse pra quando ele vier pru céu, pra trazer as balinha dele, e Dorinha tá sentada Du ladu de Maria Papagaio, sua mãe, e que de cá, elas mandam dizer que aqui no céu, ele tem três mães, ela e as duas Marias.
Óia que benção então! Nois quando morre fazendo o bem, mês que nossas mães já tenham murridu também, nois nu céu acaba ganhando mais uma mãe, que daí sempre nus vijiô aqui.
Comu eu disse cumadi, a molte num é u fim, pra quem dele nunca duvidô, e sim u começou de uma luz na companhia dele, Jesus.
A pois eu tava é sónhandu, mas acordei tranquila, como quem recebe um biete de uma nova vida.
Foto: silmara filgueiras/ia
Mapa dos silenciamentosmorte e ressurreição de minas
Por Isaías Gabriel Franco
O mar que era de Minas secou, tiraram as ondas dos morros, onde eu tinha os sentimentos mais fortes que as ligas exportadas por dólares sujos de sangue. O morro onde nasci valia mais que o minério tirado de lá. Não bastasse isso, tiraram-me as casas plantadas nas encostas dos rios, cheias de lembranças multiplicadas por mil em cada cômodo, que também valiam por si mesmos, toda a matéria-prima do amor. O esplendor dos metais me tirou filhas, bens e sossego, calou no monturo de lama com o vexame mais sombrio as vozes mais lindas que eu queria suspensas no horizonte azul do meu céu. Tudo vale, o vale devastado? Não.
Queremos tudo dignificado, gente, bichos e passado, por isso viveremos. Uma voz soterrada não se cala nunca, por isso, mesmo encobertas, elas, ecoando, ficarão. Para que a esperança desça e suba sobre pedras e escombros e entoada seja a canção da justiça. Ressoando tão grande, ela romperá infinda bem maior que o mundo inteiro. Então, o mar de Minas, de novo, se encherá.
Isaías Gabriel Franco é poeta, doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), mestre em História e bacharel em História e Filosofia pela mesma instituição. É autor dos livros Poeminhas de arruar (2021), Poemas limpos de amor (2022), Pedra viva (2023), Ainda somos humanos (2025) e Lume (2025). Os poemas publicados nesta edição foram selecionados dessas obras.
Foto: Arquivo pessoal jadear.te/ih
Refazendo a costura
Artista de Mariana pinta cena em mural na Casa Rio Doce. O local, inaugurado no dia 22 de junho de 2026, é uma Unidade Territorial do Médio Rio Doce, da Gerência Extraordinária de Reparação do Rio Doce, para atendimento à população.
Por Jadear.te
Artista e moradora de Mariana
“Cheguei até a Anater por meio da indicação da Suelen Anacleto, produtora cultural de Mariana. Ela havia acompanhado meu primeiro trabalho em mural, realizado em abril para o Instituto Cultural do Bairro Santo Antônio (ICUSA), e, quando recebeu da Anater o pedido de indicação de um artista muralista, acreditou no meu trabalho e indicou o meu nome. Pouco depois, a equipe entrou em contato comigo, conheceu meu portfólio e me convidou para desenvolver o mural, que acabou sendo o meu terceiro trabalho como muralista.
O curioso é que, na noite anterior à visita ao escritório, tive um sonho muito nítido, que hoje é justamente a imagem pintada no mural. Embora esse sonho estivesse muito vivo na minha memória, achei que ele estava em um campo muito simbólico e talvez não dialogasse com o que a Anater estivesse buscando. Por isso, apresentei uma outra proposta, que não foi aprovada, porque ainda não era o que eles procuravam.
Quando recebi o retorno da equipe da Anater para alinhar nova proposta, resolvi contar sobre esse sonho.
Nele, uma mulher com aspecto de anciã bordava uma colcha de fuxicos muito colorida. Essa colcha se estendia pelo rio e entrava na bateia de um garimpeiro que a amparava dentro da água. Era como se a bateia não tivesse fundo e a colcha ganhasse vida, entrando nela de forma mágica. A colcha se integrava ao rio e a cena era muito viva e harmônica.
Fiquei muito feliz quando a equipe aprovou e acolheu a história e me senti abençoada por poder transformar aquele sonho em pintura. A partir dali, fui acrescentando outros elementos para compor a narrativa, como um sol em espiral, o gado bem sutil ao fundo e outros detalhes que ajudassem a compor a paisagem e reforçar a ideia de esperança e de refazer a costura da vida.
Importa dizer que esse mural é uma grande honra na minha trajetória e representa um marco muito especial na minha vida.
Fui trabalhadora do processo de reparação através da ATI Cáritas, entre 2018 e 2019, logo no início do processo de cadastramento e, depois de concluir a graduação, retornei à ATI e sempre fui recebida pelas comunidades com
carinho e generosidade. Sou profundamente grata por todo o aprendizado que recebi nesse processo.
Em 2025, encerrei meu ciclo na ATI e resolvi me dedicar a retornar à arte e costura, que sempre estiveram conectadas às minhas origens.
Minha prática profissional sempre foi marcada pela dedicação e pelo comprometimento com a luta das pessoas que foram atingidas e acredito que essa imagem nasceu justamente do afeto e da relação que construí com as comunidades ao longo desses anos.
Apesar de todo o contexto doloroso vivido por todo o Rio Doce, a arte do mural buscou despertar esperança, cuidado e a possibilidade de tecer novos caminhos.
Sigo desejando e trabalhando para que as demandas das pessoas que foram atingidas sejam devidamente ouvidas e acolhidas e que haja reparação justa.”
O que representa a certificação de comunidades quilombolas
Por Ana Carolina Campos e Conceição de Pádua Com o apoio de Marcelo Rolim/ATI Cáritas Diocesana de Itabira
As comunidades quilombolas de Fazenda do Pena, em São Domingos do Prata (Rio Casca e Adjacências), e do Celeste, em Marliéria (Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento), tiveram suas declarações de autodefinição como remanescentes de quilombos certificadas de acordo com as Portarias n.º 133 e 163 da Fundação Cultural Palmares (FCP), órgão vinculado ao Ministério da Cultura, do governo federal.
“A certificação atesta formalmente a autodefinição das comunidades, reconhecendo sua trajetória histórica própria, sua ancestralidade negra e sua relação com o território e consolidando a obrigatoriedade do Estado de promover a defesa dos territórios e modos de vida dessas comunidades. Ela abre caminhos para a inserção dessas comunidades quilombolas em políticas públicas focadas em povos e comunidades tradicionais, o que inclui, por exemplo, o acesso à regularização fundiária, o fomento à agricultura familiar (com priorização da produção das comunidades no PRONAF e PAA para fornecimento de alimentos), além de políticas específicas de saúde, assistência social e educação”, destacou Ana Carolina Campos, gerente jurídica de reparação na ATI Cáritas Diocesana de Itabira.
A FCP é o órgão responsável pela proteção e preservação do patrimônio cultural afrobrasileiro e seus processos de certificação de comunidades quilombolas, com respeito aos princípios de autoatribuição dos povos, conforme estabelecido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
“Eu fiquei felicíssima com essa notícia [da certificação], porque era o meu sonho e da minha família receber essa autoidentificação. Minha sobrinha foi a primeira a falar comigo: ‘oh, tia, tenta fazer a autoidentificação da comunidade’. Aí, eu comecei a perguntar para as pessoas, a entrevistar as pessoas que já viveram na comunidade ou que já morou aqui e foi embora. Eu descobri que meu avô tinha vindo de um quilombo e comprou essa terra aqui. É um legado pra eternidade. Já contei pra todo mundo [da comunidade]” , disse Conceição de Pádua, moradora da comunidade quilombola Fazenda do Pena, em São Domingos do Prata.
Comunidades quilombolas lutam por reconhecimento e acesso às medidas de reparação previstas no Acordo de Repactuação
A ausência de reconhecimento das comunidades quilombolas prejudica seu acesso às ações de reparação previstas no Acordo de Repactuação. Originalmente, a FCP não fez parte da Repactuação, contudo, em 2025, a partir da demanda das pessoas atingidas de Rio Casca e Adjacências e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento, a ATI solicitou à FCP o acompanhamento e o diálogo permanentes sobre as ações de reparação junto às comunidades quilombolas dos territórios assessorados. Além disso, encaminhou ofício ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e ao Ministério Público Federal (MPF) para informar a situação das comunidades tradicionais desses territórios, com diagnóstico levantado em atividades participativas em cada localidade.
“Seguiremos assessorando essas comunidades, especialmente na elaboração dos seus Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada, instrumentos importantes na defesa dos territórios tradicionais, e na elaboração de projetos que visem ao fortalecimento cultural e produtivo dos quilombos e na consolidação da presença das comunidades quilombolas em espaços voltados ao acompanhamento das ações da reparação”, complementou Ana Carolina.
Por meio de cartografias, comunidades iniciam a elaboração de seus Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada.
Fotos: Júlia Militão/IH
Quando a luta abre caminhos
Por Sérgio Papagaio e Hermínio Amaro do Nascimento Com o apoio de Silmara Candinho A. Filgueiras
“Cada conquista tem sido muito importante, pois, desde 2015, a gente lutava para conseguir assessoria técnica, daí a gente conseguiu a AGITA. O edital para escrita de projetos veio para a ATI apoiar a comunidade na elaboração das propostas e fortalecer outras formas de contribuição. Além disso, a possibilidade de distribuir tarefas com o apoio técnico e das comunidades tem aliviado demandas.” Hermínio Amaro do Nascimento, morador atingido de Acaiaca, presidente da Associação de Garimpeiros e diretor de Articulação Territorial da Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce (AGITA)
A luta histórica dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce, liderada por Hermínio Amaro e Sérgio Papagaio, é uma trajetória construída ao longo dos anos e que, agora, encontra novas possibilidades, com a atuação da AGITA. Formada por garimpeiros tradicionais e por uma equipe técnica especializada em diversas áreas do conhecimento, a AGITA é uma das Assessorias Técnicas Independentes (ATIs) que vêm construindo, junto às comunidades, estratégias para ampliar a inclusão, fortalecer a participação popular e facilitar o acesso às ações de reparação.
Um dos resultados desse processo de mobilização é a Chamada Pública n.º 001/2026, do Edital Rio Doce Participativo e Comunitário, que abre novas possibilidades para a reparação e o desenvolvimento socioeconômico dos territórios atingidos. De acordo com a convocação, serão destinados recursos financeiros à seleção de projetos vol-
tados à reparação e ao desenvolvimento socioeconômico das comunidades da Bacia do Rio Doce e do Litoral Norte capixaba, atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, envolvendo 49 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Mais do que o lançamento de um edital, essa conquista representa o reconhecimento da organização e da luta dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce. Também fortalece o reconhecimento de comunidades que, durante muito tempo, tiveram seus saberes, sua cultura e suas formas tradicionais de trabalho invisibilizadas.
“Para conseguirmos o que queremos, é preciso foco e fé. Isso nós temos de sobra.” Sérgio Papagaio, morador atingido de Barra Longa, coordenador para assuntos institucionais da AGITA e tesoureiro da Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce
FOTOS: COMUNICAÇÃO E MOBILIZAÇÃO AGITA/IH
ANEXO 6
O Anexo 6 do Acordo do Rio Doce estabelece diretrizes para garantir a participação das pessoas e comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão no acompanhamento do processo de reparação. Entre suas previsões, estão o direito à informação clara, à promoção de espaços de diálogo e ao fortalecimento do trabalho das ATIs.
O documento também prevê a criação do Fundo de Participação Social, com recursos destinados a projetos escolhidos pelas próprias comunidades para fortalecer a geração de renda, a cultura, o meio ambiente e os modos de vida nos territórios atingidos.
De acordo com o Anexo 6, a proposta é que as comunidades atingidas de Minas Gerais e do Espírito Santo participem das decisões sobre a aplicação desses recursos por meio do Conselho Federal de Participação Social.
Saiba mais:
ACESSE O CONTEÚDO COMPLETO EM:
Onde o rio Doce é pertencimento
Comunidades tradicionais seguem lutando para preservar um modo de vida que nasceu nas águas do rio Doce.
Por Centro Rosa Fortini - Assessoria Técnica Independente dos Atingidos de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó
Dia 4 de novembro de 2015. Nesta data ainda havia o rio saudável, ou melhor, os rios Gualaxo, Carmo e Doce.
Eram neles que famílias inteiras encontravam sustento, construíam memórias e mantinham viva uma tradição passada de geração em geração. Nas margens dos rios Doce e do Carmo, em Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e na comunidade de Chopotó (Ponte Nova), a faiscação nunca foi apenas um trabalho. Era uma forma de ensinar os mais novos, de viver o lazer e de saber onde a água escondia pequenas partículas de ouro, peixes e histórias.
A relação dessas comunidades com o rio foi construída ao longo de décadas. Era esse conhecimento, transmitido entre pais, filhos e netos, que mantinha viva uma tradição profundamente ligada à identidade desses territórios.
Mas, no dia 5 de novembro de 2015, essa história foi interrompida.
Para os faiscadores e as faiscadoras, o impacto não significou apenas o fim de uma atividade econômica. Significou a perda do rio que sempre garantiu trabalho, alimento e pertencimento. O fim do sustento, do lazer e de parte da cultura.
Quase 11 anos depois, o tempo passou, mas a sensação de insegurança permanece. Os rejeitos deixados continuam alimentando dúvidas sobre as condições ambientais do rio. Até hoje, cerca de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos permanecem no lago da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, em Candonga.
E essa luta começou a ganhar um novo capítulo com o Acordo de Repactuação.
O Anexo 3 do acordo estabelece medidas voltadas à reparação dessas comunidades e prevê recursos para a contratação de Assessorias Técnicas Independentes (ATI) para povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. A medida reforça o trabalho realizado pela ATI Centro Rosa Fortini no território de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó, desde maio de 2024, que se torna, também, a ATI das comunidades tradicionais de faiscadores e faiscadoras.
Mais importante do que os recursos previstos é a forma como essas decisões deverão acontecer. No primeiro semestre de 2026, essa etapa começou a sair do papel.
Com o aceite do Anexo 3, após consulta prévia, livre e informada às comunidades faiscadoras, realizada no mês de abril, na cidade de Rio Doce, cerca de três mil faisca-
dores e faiscadoras aprovaram o modelo de reparação proposto no acordo judicial.
A decisão representa algo que vai além da aprovação de um documento, porque estabelece as regras para que as próprias pessoas atingidas participem das escolhas sobre os caminhos da reparação, sobre como as informações deverão chegar às comunidades e de que maneira elas poderão se manifestar antes da implementação das ações previstas.
Ainda há um longo caminho entre o que está previsto no papel e aquilo que chegará efetivamente às comunidades. Mas, para quem vive às margens do rio Doce, a esperança está na possibilidade de preservar uma tradição que atravessou gerações, resistiu à lama e continua existindo na memória de quem aprendeu que o rio é muito mais do que um lugar de trabalho. É parte da própria identidade.
Momento da votação para aprovação do Anexo 3
FILHA DO RIO TRANSFORMA MEMÓRIA EM CINEMA
Em meio às discussões sobre reparação, um curta-metragem ajuda a preservar a memória.
Produzido pelo Centro Rosa Fortini em parceria com a produtora Arepa, o filme Filha do rio marca os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão e homenageia as comunidades tradicionais de faiscadores e pescadores de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Chopotó.
Narrada pelo olhar de uma menina de 10 anos, a obra apresenta as relações de pertencimento, ancestralidade e afeto construídas às margens do rio Doce.
No fim de 2025, o curta-metragem foi reproduzido em comunidades tradicionais, escolas e espaços públicos dos três municípios
assistidos pela ATI Centro Rosa Fortini. Para o segundo semestre de 2026, o filme está inscrito em vários festivais de cinema do país.
O filme recorda o desastre e, principalmente, valoriza a cultura dessas comunidades e convida o público a refletir sobre aquilo que permanece vivo mesmo depois da lama.
ACESSE O CONTEÚDO COMPLETO EM:
Foto: Mariana Duarte/IH
Fotos: Divulgação Centro Rosa Fortini/IH
Foto: Paulo Vieira/IH
CABF entrega ofício à ministra do MDA e cobra transparência na reparação da Bacia do Rio Doce
Documento foi apresentado durante o evento Rio + Doce Rural, realizado em Mariana
No dia 22 de Junho de 2026, a cidade de Mariana recebeu o evento Rio + Doce Rural, promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), para apresentar ações e projetos voltados à retomada econômica das áreas rurais atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Participaram do encontro representantes do Poder público, movimentos sociais e comunidades atingidas. Estiveram presentes a Ministra Fernanda Machiaveli e a Presidenta da Agência Nacional de Assistência
Técnica e Extensão Rural, Loroana Santana. Durante o evento, Mônica dos Santos, representante da Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão (CABF), entregou um ofício à Ministra cobrando respostas, transparência e efetividade nas ações previstas pelo Novo Acordo da Bacia do Rio Doce.
A entrega do documento foi precedida de visita realizada no domingo (21), quando a carta ofício também foi apresentada à assessora da Ministra, Fabiana Martins Zamora, no território de origem em Bento Rodrigues.
“As propostas apresentadas não dizem respeito apenas à Repactuação, mas também às políticas públicas que podem e devem ser direcionadas aos territórios atingidos. Nesse documento há um conjunto de medidas capazes de produzir mudanças reais e significativas em nossas vidas.” - Mônica dos Santos, Conselheira Federal de Mariana-MG. Principais cobranças da CABF
No ofício, a Comissão pede detalhamentos sobre os programas voltados aos agricul-
Por Cáritas MG | ATI Mariana
Foto: Amanda de Paula/IH
tores familiares, à retomada econômica dos territórios atingidos e à garantia dos direitos das comunidades tradicionais e quilombolas. O documento também questiona prazos, recursos e estratégias para garantir que as medidas previstas no Novo Acordo sejam realmente implementadas e cheguem às famílias atingidas.
Entre os pontos defendidos pela CABF estão:
• segurança fundiária para famílias ameaçadas por desapropriações;
• apoio à recuperação dos solos degradados;
• regularização da agricultura familiar;
• fortalecimento das políticas públicas para os atingidos;
• manutenção da Assessoria Técnica Independente (ATI) durante todo o período de execução dos programas de reparação.
“Se a proposta de reparação prevê um horizonte de 20 anos, é justo e necessário que a Assessoria Técnica seja garantida pelo mesmo período.” - Mônica dos Santos, Conselheira Federal de Mariana-MG.
Anúncios do Governo Federal Durante o evento, a ministra Fernanda Machiaveli apresentou as ações do Programa Rio + Doce Rural, que prevê investimentos para fortalecer a economia das comunidades rurais da Bacia do Rio Doce.
Segundo o governo, o plano inclui:
• regularização fundiária e ambiental;
• recuperação de solos;
• ampliação do acesso à internet no campo;
• fortalecimento da agroindustrialização;
• geração de renda;
• apoio às famílias atingidas pelo desastre.
O evento marcou mais um momento de diálogo entre o Governo Federal e as comunidades atingidas, enquanto a CABF reforçou a necessidade de que a reparação aconteça com participação popular, acompanhamento técnico e garantia efetiva de direitos.
Fotos: Comunicação ATI Mariana/IH
O oco do brilho
Por Isaías Gabriel Franco
A cidade vai sendo vestida por uma mortalha de pó, o tempo que rói o tempo anda depressa, correndo, deitando férreas e dolosas cinzas por sob altares, volutas, Atlas, anjos, profetas e gente.
“O tempo está quente demais!” – diz a senhora na rua. “É só a mina” – justifica a outra a respeito da triste chuva marrom.
Expelindo a morte em partículas mínimas por ninharias de reais, o trambolhão nas lavras vai devorando o mundo, deixando das Minas as cascas gerais.
A cultura “Redpill” da extração e a falsa consciência da Matrix colonial
Em sua coluna para o jornal Folha de S. Paulo (02/04/2026), Djamila Ribeiro fala sobre a cultura “Redpill” e afirma que, hoje, a frustração de muitos jovens é capturada por grupos na internet que destilam ódio contra mulheres. Esse ataque não é um caso isolado, é um negócio organizado. Como diz a escritora bell hooks, o machismo pode ser a atitude de um homem, mas o patriarcado é a engrenagem que move toda a sociedade.
Esse modelo, herdado do Norte Global para extrair riquezas do Sul à custa de sangue, é reproduzido nas universidades. Alunos focam em conteúdos de interesse das instituições, enquanto professores investem dinheiro público para preparar profissionais para um mercado no qual a diferença entre homens e mulheres domina os meios de produção. De um lado, a frustração da “machosfera”, uma cultura universitária hostil e puramente masculina, forma técnicos que ignoram o crime ambiental, pois veem a vida apenas como recurso, enquanto as alunas ouvem que Engenharia não é seu lugar profissional. Dessa forma, não é ensinado, aos alunos, ouvir as mulheres. É uma lógica de extração máxima da natureza que usa a violência para lucrar.
Sempre que avançamos em gênero, o sistema tenta nos puxar de volta ao passado, aos moldes de Ford, anulando as reflexões operárias (trabalhadores). É o “looping” (ciclo sem fim) de Charles Chaplin, mostrado em Tempos modernos (1936), em que só se produz, não se busca refletir sobre o que é feito. Busca-se resgatar o trabalhador que opera no automático, endividado, focado em sustentar
um lar no qual a mulher trabalha de graça, em casa. Hoje, influenciadores vendem cursos patrocinados por apostas virtuais (BETs) e oferecem a ilusão de enriquecimento rápido para quem vive com medo do desemprego. Ironicamente, os “Redpills” dizem sair da Matrix, mas lutam para manter o modelo alienado de produção e a superioridade colonial. Como questionava o educador Paulo Freire: “como teremos uma ‘Pedagogia do Oprimido’ com opressores entre nós?”. Presenciamos o momento mais viril do biopoder, com homens reivindicando o “direito de morte”. Nossos engenheiros parecem dispostos a trocar a lama de barragens por sangue. A brutalidade do patriarcado está no cotidiano; está na “Redpill” da hematita. Quando o sistema decide “passar a boiada”, atropela corpos femininos, ignora o racismo ambiental e enterra Bento Rodrigues e Para-
catu de Baixo sob a lama. Precisamos de uma educação transformadora que impeça nossos alunos de desejarem ser opressores. É urgente ensinar a conviver com a diferença sem dominação. Na extração desenfreada, o sistema mata as mulheres e a Mãe Terra. Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, sem reparação, continuam “vermelhas” de lama.
Por Máximo Martins, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) - Departamento de Engenharia de Produção, Administração e Economia
No livro Pedagogia do oprimido, Paulo Freire define essa prática descolonizadora que busca superar o opressor, por meio da promoção de consciência crítica e justiça social inclusiva a partir da libertação mútua e dialógica.
Foto: Máximo Martins/IA
EDITORIAL
“Já reparou como os minérios são essenciais para o futuro?”
Recentemente, a mineradora Vale passou a publicar conteúdos que provocam a reflexão das pessoas ao mostrarem imagens dos produtos finais da mineração. No vídeo, uma narração conduz o espectador por cenas comuns do dia a dia, enquanto aparecem imagens que mostram onde o minério e outros materiais estão presentes: na construção civil; em telas, computadores e outros equipamentos eletrônicos; em utensílios domésticos; e também como matéria-prima para tecnologias como a Inteligência Artificial, que, segundo a empresa, depende do cobre, entre outros exemplos. A Vale mostra que a mineração está no briquete, “uma inovação que ajuda a reduzir as emissões de carbono no planeta”, e também em outros produtos que fazem parte do cotidiano, ainda que, para isso, a mineradora explore terras antes ocupadas por comunidades - hoje cada vez menos povoadas ou simplesmente expulsas de seus territórios. O conteúdo da mineradora leva o público a uma possível resposta para a pergunta inicial: “já reparou como os minérios são essenciais para o futuro?”.
O Jornal A SIRENE deseja reformular a pergunta para mostrar uma das perspectivas que o vídeo nos induz a pensar: já reparou como os minérios são essenciais? Afinal, esse “futuro” já está sendo vivido, ao passo que a tecnologia faz parte do cotidiano das pessoas. Talvez, para a Vale, seja fundamental minerar para atender as demandas do mercado. Dessa forma, nos perguntamos: os minérios são essenciais, mas a que custo? Sabemos que pessoas, comunidades e meio ambiente continuam convivendo com o acúmulo dos danos causados pela mineração. Estamos diante de uma conta que não fecha. Se a intenção do vídeo foi dividir a responsabilidade entre pessoas que consomem os produtos da mineração, a narrativa apresentada parece injusta, pois a indústria e esse modelo econômico criaram essa relação de dependência. Enquanto isso, existem pessoas e comunidades que fazem cobranças por mitigação e recebem, como retorno, descaso e morosidade.
Na contramão desse discurso esvaziado, a edição 108 do Jornal A SIRENE enfoca a realidade das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão. Trouxemos informações que mostram como organizações, comunidades e pessoas atingidas têm desenvolvido ações coletivas para reconstruir e readaptar suas condições de vida. Aqui, você verá como as narrativas estão sendo construídas nos territórios, cada um a seu modo, principalmente quando se fala em reconhecimento de traços culturais e tradicionalidades. Como resultado disso, há a validação legal por parte do governo, a criação de espaços para diálogo com as pessoas atingidas e outras medidas que buscam dar apoio para a geração de emprego e renda. Mostramos o quanto são essenciais, para o futuro, as ações que têm se desdobrado com a participação comunitária, em que o fundamental passa a ser a retomada das condições de vida interrompidas após o início desse traumático desastre, em 2015.