

A SIRENE
PARA NÃO ESQUECER | Ano 10 - Edição nº 107- Maio de 2026 | Distribuição gratuita
REPASSES
BACIA DO RIO DOCE
Em Brasília, durante a 7ª Reunião Extraordinária do Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e do Litoral Capixaba, nos dias 23 e 24 de abril, foram aprovados os critérios de um importante avanço para a reparação: R$ 225 milhões para a chamada pública de projetos estruturantes, com lançamento previsto para maio.
Esse recurso integra o Fundo de Participação Social, uma conquista da luta organizada das pessoas atingidas em toda a Bacia do Rio Doce e no Litoral Capixaba.
A chamada pública será organizada em dois eixos principais. O primeiro é voltado ao fortalecimento institucional de organizações sociais, com ações para melhorar gestão, planejamento e governança. No segundo, busca-se apoiar iniciativas ligadas à economia popular, à resiliência climática e à autonomia de povos e comunidades tradicionais.
Na prática, isso significa investimento direto no fortalecimento das organizações locais, apoio a iniciativas de base e incentivo à reestruturação econômica dos territórios atingidos.
É uma conquista construída coletivamente e que fortalece a organização popular para seguir avançando em pautas fundamentais.

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Mariana - MG
OPINIÃO
Papo de cumadres
Garimpeiras, mães atingidas pela danação, não reconhecidas por nenhuma reparação.
Concebida e Clemilda estão com ideias diferentes sobre a repactuação.
Por Sérgio Papagaio
Cumadre Clemilda eu sou mãe de garimpeiru e neste disisperu num fui reconhecida ô vida.
Pois é minha amiga, eu também sou mãe de garimpeiru, e num tenhu du que queixá,
Ricibi du garimpu, porque sou comunidade tradicioná.
Ocê lá recebeu, eu cá num ganhei du garimpu nenhum tustão, mardita reparação.
Prestenção nu que eu vô te peuguntá, ocê recebeu nover ou quarquer outru valor a titulu de indenização finar?
Eu recebi u nover e achu que u pid também, mas du garimpu nenhum vintém.
Cê tá caduca? Num lembra nem u que recebeu, pois bem vou te expricá, quem recebeu quarqué valor a titulu de indenização finar eles da samalcu disseram que direitu du garimpu num vão pagar, mas cumpadre Hermínio e Papagaio estão lutanu pra tudu que for núcleo famiar dus garimpeiros podê pagá, ocê dexa de cê afobada, e espera lá, sua hora vai chegá.
Ô cumadre que bão que ocê intendi, e com toda paciência pôde me expricá pra eu num passa perrengue, ocê è intendida e fez eu sabe que num fui esquecida.
Foto: Criado com ia/silmara filgueiras


Intimidade definitiva














Nos reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu, duas mulheres vivem intimidades definitivas depois de terem selado compromissos imobiliários com a Samarco, responsável pelo desastre-crime de 5 de novembro de 2015.
Em 2017, o Jornal A SIRENE publicou, pela primeira vez, uma série de fotos em que mostramos móveis padronizados em casas provisórias. “Apesar da padronização imposta, ainda carregamos nossa identidade”, contou Antonio Geraldo Santos à época.
Anos depois, este ensaio fotográfico volta diferente. Dessa vez, trazemos as histórias de Andréia Sales e Glória Maria Gonçalves da Silva para mostrar a vida e certa estabilidade, seis anos depois de terem recebido as chaves de suas casas e comércio. Para elas, essa nova intimidade definitiva tem se manifestado ao voltarem a plantar e criar alguns animais em casa, pela sensação de que a vida caminha novamente, por poderem cuidar de si e de suas famílias, ao olharem para a mesma paisagem ainda que por outro ponto de vista, por criarem novos espaços de permanência e torná-los favoritos e também ao se reinventarem dentro das possibilidades.
Os desafios da readaptação das famílias nesses novos espaços se apresentam desde a entrega das primeiras chaves em Bento e Paracatu. O convívio das comunidades com o canteiro de obras da Fundação Renova e suas terceirizadas finalmente se encerrou, mas ainda restam marcas e uma nova versão de intimidades escolhidas para se tornarem definitivas. São muitos os desafios para pessoas que não tiveram intenção alguma de serem atingidas.
Por Andréia Sales e Glória Maria Gonçalves da Silva
Com o apoio de Silmara C. Alves Filgueiras
Fotos: Silmara Filgueiras
Foto: Davi Eustáquio

Perfil de um trabalhador
Em homenagem ao Dia do Trabalhador, trouxemos a história de Davi Eustáquio Teixeira, “barralonguense de corpo e alma”, como ele se apresenta com orgulho. Por meio de seu relato, conhecemos um pouco do que é ser um homem negro e garimpeiro, cuja trajetória de vida tem semelhança a de com outros trabalhadores e trabalhadoras que vivem do sustento das roças e dos rios. São pessoas que ainda atravessam gerações sob influência da mineração comercial em grande escala e que sofrem com danos sociais e ambientais.
Por Davi Eustáquio Teixeira
Com o apoio de Silmara Candinho A. Filgueiras
“Estudei no Colégio Antônio Lanna, em Barra Longa, fiz o ginásio e, em seguida, o magistério. Passei por grandes dificuldades para acessar o colégio, por morar na zona rural, há 10 quilômetros de distância… Tinha que vir de cavalo, eu e um irmão. Chegávamos em casa por volta de meia-noite e, na época, chovia muito. No dia a dia, tinha que pular bem cedinho para cuidar dos afazeres em casa.
Passou isso tudo e eu formei. Consegui um emprego no Instituto Brasileiro Geográfico e Estatística (IBGE), no qual não pude
Trabalhadores do garimpo tradicional
permanecer por motivo do meu pai ter adoecido. Como ele faleceu, tive que assumir as obrigações em casa, na roça. Daí fui para o garimpo, onde vim conhecer dinheiro, porque, o que ganhávamos em um mês, às vezes, no garimpo, chegamos a ganhar em apenas um dia. No garimpo, consegui estudar um bocado de filhos e ainda tem um bocado para formar.
Nas minhas andanças, encontrei ouro e também problemas. Enfrentei muita barreira com o racismo, discriminação dos brancos que achavam que o negro não tinha lugar na sociedade.
A partir da exploração em busca de ouro na região de Mariana e Ouro Preto, ocorreram transformações que movimentaram a economia das pequenas vilas e comunidades. A necessidade do dinheiro passou a ser cotidiana. O ofício, reconhecido como prática tradicional das comunidades, passou a ser um complemento de renda para famílias que não conseguiam se sustentar somente pela roça por diversos motivos, entre eles, a espera pela colheita, perdas e condições climáticas. Em relação à mineração tradicional ou com uso de máquinas, o garimpo tradicional traz, como características, o conhecimento sobre a terra, os rios e a habilidade manual de coletar o necessário para complementar a sobrevivência de uma família.
Foto: Silmara Filgueiras

Reconstrução do Rio Doce é uma conquista dos atingidos
A reconstrução do Rio Doce é uma conquista dos atingidos e atingidas. É com essa premissa que o Novo Acordo do Rio Doce está sendo implementado pela Gerência Extraordinária de Reparação (Gerex) do Rio Doce, vinculada à Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), desde junho de 2025.
Sob responsabilidade do MDA, está previsto o investimento de R$ 4,8 bilhões para ações no meio rural, para serem executados em 20 anos pela Anater, por meio da Gerex do Rio Doce. Essa reparação já começou. Há 10 meses, o MDA e a Anater lançaram o Programa de Transferência de Renda Rural (PTR Rural). Seus impactos já são sentidos pelas famílias e pelos municípios. Até abril de 2026, foram pagos R$ 338,65 milhões a 14.326 agricultores familiares de 40 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo.
O PTR foi apenas o início do trabalho. O MDA e a Anater vão colaborar para a reconstrução da Bacia do Rio Doce, sem deixar ninguém para trás. Essa é a determinação do presidente Lula.
A contratação das Assessorias Técnicas Independentes (ATIs) está a todo vapor e as consultas aos povos e comunidades tradicionais atingidos também. A Consulta Prévia, Livre e Informada é um direito previsto no Novo Acordo do Rio Doce, que assegura, às populações tradicionais, voz ativa na definição das medidas de reparação.
A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (IPEAD) foi contratada, pela Anater/ MDA, para o trabalho com os garimpeiros e faiscadores do Alto do Rio Doce. A consulta foi ampla, transparente e em diálogo direto
com as comunidades que vivem em comunidades ao longo dos rios, em Mariana, Acaiaca, Barra Longa, Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Ponte Nova.
Passada a primeira etapa de reparação, a Gerex se volta para os programas de retomada econômica para agricultores familiares, assentados da reforma agrária e comunidades tradicionais. São ações integradas de regularização fundiária, recuperação de solo, assistência técnica, acesso a crédito, comercialização, regularidade ambiental. Todas elas articuladas a um projeto de desenvolvimento rural para a bacia, que enxerga as pessoas e pensa o território para que o Rio Doce siga seu curso rumo à reconstrução.
Nas próximas edições de A SIRENE vamos detalhar cada uma das ações de retomada econômica. Vamos usar esse espaço do jornal como um canal de comunicação com pessoas de comunidades atingidas.
Por Adriana Aranha, gerente extraordinária de Reparação do Rio Doce da Anater/MDA
Saiba mais sobre o PTR RURAL no site Gov.br - Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar




Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce
A luta dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce resultou em uma conquista inédita para a classe trabalhadora do garimpo. Essa luta está sendo travada há mais de 10 anos pela classe dos trabalhadores do garimpo, descendentes dos fundadores do estado das Minas Gerais, contra os gigantes da mineração, Samarco, Vale e BHP.
Em Barra Longa, Acaiaca e Mariana, as famílias que tinham e ainda têm o garimpo como atividade que compõe a renda familiar conquistaram uma vitória inédita. O reconhecimento como Garimpeiros Tradicionais e a criação de uma Assessoria Técnica Independente (ATI) híbrida - na qual trabalhadores e pessoas atingidas desempenham cargos multidisciplinares e de gestão - foi um passo importante na Repactuação.
A seguir, as fotos compartilhadas por Hermínio Amaro do Nascimento, garimpeiro e diretor de Articulação Territorial da Associação dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce (AGITA), mostram como era o trabalho às margens do rio do Carmo. Conhecido como Engenho Podre, o local concentrava trabalhadores em busca de renda para ajudar em casa. Por Hermínio Amaro do Nascimento e Sérgio Papagaio
Resultado: uma vitória merecida dessa classe tão sofrida, pois, há mais de 300 anos, seus antepassados foram usados como máquina motriz no garimpo de Mariana e Ouro Preto. Naquela época, Ouro Preto e Mariana, pertencentes à Coroa Portuguesa, tinham a Igreja como aliada. Seres “não humanos” seguravam a Bíblia com uma mão e a chibata com a outra. Hoje, Igreja renovada e com a bênção do Nosso Senhor Jesus Cristo, sob a piedosa coordenação do papa Leão XIV, pedimos a bênção de nos guiar sempre no caminho da fé.
Saímos da condição de escravos, acoitados também pela Lei Áurea que os libertou para uma nova escravidão e os abandonou às margens da sociedade e dos rios Carmo e Gualaxo do Norte, sem escola, sem trabalho, sem a mínima condição humana. Só lhes restaram o garimpo para sobrevivência, que perdurou até o fatídico 5 de novembro de 2015, quando houve o rompimento da barragem da Samarco, que contaminou mais de 80% da área de garimpo.
O início da luta por reparação resultou no reconhecimento da classe pela repactuação dentro do Anexo 3, com possibilidades de acessar, também, os Anexos 5 e 6. Essa vitória é apenas uma batalha vencida dessa guerra sem fim.


- MG




Mariana
Fotos tiradas no Engenho Podre, uma das áreas de garimpo na região de Acaiaca, MG.
Fotos: Hermínio Amaro/Arquivo Pessoal
Água e energia com soberania, distribuição da riqueza a controle popular
O capitalismo, das suas origens aos dias de hoje, se baseia na exploração da força de trabalho e na busca ilimitada por lucros. O imperialismo constitui a fase na qual o capitalismo monopolista, altamente concentrado e centralizado, busca expandir violentamente os domínios do grande capital, seja pela exportação, mundo afora, de capitais produtivos e financeiros, seja, também, pela busca incessante de recursos naturais, de matérias-primas, de força de trabalho barata e de mercados consumidores de mercadorias em diversas partes do mundo.
Importa chamar a atenção, nessa conjuntura marcada pela escalada das violências imperialistas, para o fato de que uma das formas fundamentais de acumulação de capital, dos primórdios do capitalismo aos seus modelos atuais, consiste na expropriação violenta dos meios de subsistência e dos meios de produção de camponeses, agricultores e, na América Latina e no Brasil, dos povos originários, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, da classe trabalhadora em geral.
No Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, os rompimentos criminosos das barragens de Fundão, da Samarco (Vale e BHP), em Mariana, em 2015, e da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, em 2019, tanto mataram centenas de trabalhadoras e trabalhadores, quanto destruíram milhares de vidas, de comunidades inteiras, em processos violentos de destituição de meios de produção, de meios de subsis-
tência, de territórios, de modos de vida. Há, ainda, outras inúmeras barragens e situações de alto risco para as populações e cidades da região, seja por suas estruturas gigantescas, como é o caso da barragem Casa de Pedra, em Congonhas, uma das maiores barragens em área urbana do mundo, seja por situações como as dos chamados “extravasamentos” de rejeitos de minérios que ocorreram neste início de ano no mesmo município.
Nessa conjuntura, mais do que nunca, são imprescindíveis as lutas aguerridas e organizadas das pessoas e das populações atingidas, dos movimentos sociais, como o MAB e o MAM, dos sindicatos combativos, das Assessorias Técnicas Independentes, de frentes de luta como a FLAMA, de setores progressistas da universidade e da Igreja, quer dizer,
das diversas organizações e instituições que representam, reúnem e encaminham para a luta os interesses do povo trabalhador das cidades e do campo.
Um exemplo são as lutas do MAB, o Movimento dos Atingidos por Barragens, que tem contribuído com protagonismo em várias pautas de defesa e organização das populações atingidas por barragens de rejeitos de mineração na nossa região. Entre essas pautas, o movimento está articulando e fortalecendo, na atual conjuntura, as demandas por avanços na implementação da PNAB, a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens, de 2023, que prevê, em seu texto, a criação de órgão gestor, fundo de financiamento e controle popular dos mecanismos e processos reparatórios e
Fotos: Nívea Magno/MAB


de defesa de direitos das populações atingidas. Entre esses mecanismos, a PNAB prevê a criação de comitê local, de composição tripartite, com representações da sociedade civil, do poder público, às expensas e custas dos empreendedores.
Se é verdade que as lutas por direitos no âmbito do Estado têm se mostrado árduas e, em muitos casos, limitadas, até pela natureza de classe do Estado (burguês) no capitalismo, por outro lado, diante dos poderes econômicos e políticos gigantescos das mineradoras, diante das inúmeras violências praticadas pelo extrativismo minerário capitalista contra a natureza, o território e a vida humana, a formação e o fortalecimento de instâncias e organizações populares, de luta, como ilustrado aqui pelo MAB, nas guerras de guerrilhas cotidianas da sociedade civil, burguesa, o acúmulo de forças nessas instâncias tem se mostrado potente não só para limitar os avanços do capital, mas também para alcançar vitórias e avançar na direção de outro modelo de mineração, nos termos e palavras de ordem e de luta do MAB: “água, território, mulher e energia não são mercadorias”.
Por Aline Soares, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens em Congonhas/MG e Marlon Garcia da Silva, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e conselheiro representante da Associação dos Docentes da UFOP no Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas (ICSA)
Encontro Nacional do MAB em Congonhas, no dia 14 de março de 2026. “PNAB. Água limpa, moradia e saúde: essa é a vida que queremos
Trajetórias invisibilizadas: vidas, vozes e resistências de Tumiritinga e Galiléia





No final do ano passado, foi lançado o documentário Trajetórias invisibilizadas: vidas, vozes e resistências de Tumiritinga e Galiléia. Dividido em dois episódios, revela histórias silenciadas e os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em 2015. Gravada nos dois municípios, a produção traz depoimentos de agricultores, ribeirinhos, mulheres e pescadores.
Por Centro Agroecológico Tamanduá - Assessoria Técnica Independente do Território 5 da bacia do Rio Doce
O primeiro episódio, “Água turva, memória viva”, mostra os efeitos da contaminação do Rio Doce na vida das comunidades, com a perda da qualidade da água, que impactou o sustento, a saúde e a identidade local. O segundo episódio, “Indenizar não é reparar”, denuncia falhas no processo de reparação, as dificuldades de cadastro, de indenização e a falta de reconhecimento dos danos. A produção destaca, especialmente, as vivências das mulheres atingidas.



Produzido pelo Centro Agroecológico Tamanduá - Assessoria Técnica Independente (CAT/ATI) do Território 5, a série registra resistências e trajetórias. É um chamado à reflexão sobre justiça, reparação e o direito à reconstrução dos territórios.
Para assistir ao documentário, acesse o canal do CAT no YouTube ou o código a seguir:









Fotos de Ana Miranda e Wan Campos
Felipe Godoi

O que significa estar no caminho da lama
Da janela de casa, é possível ver muito além do que a paisagem de fora entrega: lá também está o desejo de uma rotina na qual o termo “atingido(a)” não seja tão familiar, em que tomar da água, plantar, colher e se alimentar não seja motivo de medo, em que sonhos, festejos e tradições não sejam interrompidos. Lá fora, persiste a vontade de uma vida exatamente como ela era, na qual a distância entre os poços artesianos, as casas e o rio, hoje atingido, seria mero acaso.
Para aquelas pessoas que vivem nos territórios distantes do epicentro do rompimento da barragem de Fundão, como as de Rio Casca e Adjacências (Território 01) e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento (Território 02), o que une não é somente a insegurança, a invisibilidade e a busca por direitos, mas, sobretudo, o quanto os danos causados pela mineração alcançam, de forma severa e irreparável, o cotidiano de qualquer ser que esteja no curso das águas atingidas pelo rejeito de minério.
Por Dalva Morais,Felipe Godoi, João Eleutério Maria de Fátima das Neves e Marizete Gomes
Com o apoio da ATI Cáritas Diocesana de Itabira nos Territórios 01 (Rio Casca e Adjacências) e 02 (Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento)


“Eles falam que o Rio Doce daqui é muito longe para poder causar isso na água, mas, se você vê de buraco que tem no córrego e o tanto que afundou, aqui nunca teve esse trem não. Esse trem quebrou demais, você não acha poço de pescar nem tomar banho. Era poço mais alto que um homem, tinha que ter cuidado para tomar banho, porque era perigoso. Tocava moinho a água aqui, agora a água não serve nem pra tomar. E se você tomar banho nela, dá um problemazinho na pele, não sabe se é sujeira, se é ferrugem. Se, um dia, a gente descobrir, é bom, porque a gente tá bebendo.”
Dalva Morais, comunidade de Limeira (Marliéria-MG)
“Eu tinha de tudo, tudo eu plantava: cebola, alface, couve… Eu ainda tenho, mas não é tanto igual eu tinha. A gente plantava, dava pros outros, vendia. Eu vendia muita coisinha na rua. Hoje, não, vai cada vez mais minguando. Servia pra pagar uma conta de luz, pra fazer uma compra. Muitas vezes, eu fazia compras com o dinheiro das verduras e, hoje, acabou”. Marizete Gomes, comunidade da Biboca (São José do Goiabal-MG)
“O que mais sinto saudade aqui da minha comunidade é dos visitantes, das pessoas que vinham na comunidade nos visitar, dos parentes, dos amigos, até mesmo das pessoas que a
Foto: Tainara Torres
Foto: Tainara Torres
Dalva Morais
Mariana - MG
Foto: Pedro Henrique Caldas
Marizete Gomes


Foto: Pedro Henrique Caldas
Foto: Júlia Militão

gente não conhecia e que vinham pra consumir do nosso peixe, pra fazer novas amizades. É disso que sinto saudade. A comunidade, hoje, tá vazia e triste.”
Maria de Fátima Neves, Lagoa das Palmeiras (São José do Goiabal-MG)
“Deu muita mudança do rompimento pra cá. Uma pessoa que tava indo lá no rio pra dar uma pescada, isso acabou. Algum ainda tá indo, né? De teimoso. Mas mudou muito a relação com a pescada, de passeio lá no rio. Aí acabou. Pra cá acabou.”
João Eleutério, comunidade da Biboca (São José do Goiabal-MG)
“Põe o pé no caminho e vem aqui, que eu vou andar com vocês onde a lama passou, pra vocês verem que a lama teve aqui, o desastre que teve aqui e, até hoje, estamos atingidos, esquecidos, parados no tempo.”
Felipe Godoi, comunidade de Ponta do Tomazinho (Timóteo-MG)
Foto: Miguel Araujo

Elaboração de Protocolos de Consulta
No dia 14 de março deste ano, a ATI Cáritas Diocesana de Itabira realizou oficinas para a elaboração dos Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada com as comunidades quilombolas que não tiveram seus direitos reconhecidos como Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) no Acordo de Repactuação. A elaboração do documento, com base no contexto histórico e na realidade das comunidades, se destaca como uma forma de busca por seus direitos.
João Eleutério
Maria de Fátima Neves

EDITORIAL
A SIRENE chega à edição 107 trazendo a luta dos garimpeiros tradicionais, classe composta por núcleos familiares e comunidades inteiras que recorrem ao garimpo como estratégia de sobrevivência, especialmente quando as roças não geram sustento o suficiente para pagar contas e alimentar.
Do modo tradicional à mineração industrial, a diferença se dá pelos impactos sociais, econômicos e culturais que são vividos até hoje. Quem são os garimpeiros atingidos de Ouro Preto, Mariana, Acaiaca, Barra Longa e do restante da Bacia do Rio Doce que ainda vivem à sombra dessas consequências? Em que nível a reparação alcança essas pessoas?
O Jornal A SIRENE celebra as parcerias estabelecidas nos últimos meses. São pessoas e instituições comprometidas com a reparação e que nos ajudam a manter a história das comunidades atingidas: PARA NÃO ESQUECER. Como exemplo, trouxemos, em especial, o reconhecimento dos Garimpeiros Tradicionais do Alto Rio Doce como classe tradicional. Daí, nasceu a Assessoria Técnica dos Garimpeiros de Acaiaca, Barra Longa e Mariana, a AGITA. Nesta edição, você vai conhecer narrativas que dão início a uma série de matérias sobre a consolidação da ATI dos garimpeiros, formato pioneiro que aproxima mais esse grupo tradicional atingido dos espaços de decisão, com garantia de representação coletiva.
Por fim, o caminho da reparação tem se desenhado com o Novo Acordo Rio Doce, que define regras e estratégias que têm resultado em novos rumos, assim como os desafios e conquistas das comunidades e pessoas atingidas. Nesta e nas próximas edições, publicaremos matérias que contribuem para refletirmos a respeito da importância do trabalho nos garimpos tradicionais, bem como para conhecermos melhor quem são os homens e as mulheres que se dedicam a esse ofício na região.