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julho 2011
jornal experimental do curso de jornalismo da ufes
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Escola
Curta
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Museu Ombudsman 22
Lutador 03
Saindo do óbvio Conhecer é ampliar nossas referências. Mesmo sem perceber, quem começa a fazer jornalismo tende a reproduzir formatos e abordagens com os quais mais teve contato ao longo da vida. Porém, quanto maior o repertório do jornalista, mais ricas suas possibilidades. Foi isso o que buscaram as repórteres da reportagem de capa. Já acostumadas a ler matérias sobre escolas e sala de aula na imprensa diária, elas se surpreenderam com uma reportagem sobre o mesmo tema na Piauí, revista de circulação nacional. Gostaram tanto que a matéria acabou servindo-lhes de inspiração. As discussões em sala de aula foram o ponto de partida para a entrevista pingue-pongue. Em meio a exercícios de autocrítica, recorremos diversas vezes a colunas de ombudsmans de jornais nacionais. Elas nos possibilitam uma reflexão sobre nosso próprio trabalho, já que os erros da imprensa mundo afora são recorrentes. Apesar de importante, são raros os veículos que contratam este profissional, o que o torna
pouco conhecido entre os leitores e até mesmo jornalistas. Para entender melhor por que isso acontece, entrevistamos a ombudsman da Folha de São Paulo, que foi o primeiro jornal brasileiro a instituir o cargo. Nosso perfil foi produzido por um aluno do primeiro período, fruto de uma entrevista coletiva realizada em sala de aula. Como forma de incentivo aos recém-ingressos no mundo do jornalismo, escolhemos a melhor matéria dentre todas feitas pelos 26 alunos da turma. A foto do lutador foi tirada por duas alunas da disciplina Fotojornalismo, do terceiro período. Na edição anterior produzimos uma versão para tablet do Primeira Mão. Tivemos, inclusive, a participação da turma de publicidade. Diferente do que prevíamos, não conseguimos uma forma de distribui-lo. Mas o resultado desse trabalho pode ser visto no Universo Ufes (http://universoufes.com/?p=2328).
Uma causa de todos
tarifa, mas agora também contra a repressão e a violência. Pararam o trânsito. Passou no jornal. O coro aumentou.
››› Francine Leite
Desde que comecei a estudar e a me encantar com a História, acompanho a mobilização de quem se propõe ir às ruas clamar por algo. As manifestações durante o Regime Militar e as “Diretas Já” sempre me chamaram atenção. Na adolescência, cheguei a ler três vezes “Revolução em mim”, um romance de Marcia Kupstas que se passa nessa época. Pensava: Caramba! Essas pessoas estão lutando por um ideal, que coisa bonita. Eram estudantes.
ente
Em junho de 2011, tive novamente essa sensação. Mas de outro ângulo, o participativo. Não como os “caras pintadas”, pois quem leva a cara pintada é marcado. Marcado como baderneiro, “à toa”, estudante. Não faço parte de organizações, nem sou ligada ao Movimento
ag
Estudantil (alguém que acompanhou os jornais sabe o que é Movimento Estudantil?), mas acompanho a mobilização. Este junho foi marcado por protestos pelo Passe Livre - a não cobrança de tarifa de ônibus aos estudantes. Numa quinta-feira, um pequeno grupo parou a cidade logo de manhã. Eram jovens que queriam dialogar com o governo. Tiveram como resposta a truculência policial. No dia seguinte foi diferente. Cerca de quatro mil pessoas foram às ruas protestar: novamente contra o aumento da
Mas muitos dos que acompanharam pela tevê pareciam não entender o real motivo daqueles protestos. “Os estudantes são um bando de desocupados que acham que vão mudar o mundo”. Manifestações não param o trânsito e causam horas de congestionamento à toa. Se eles estão ali é para serem vistos. Chamar atenção não é apenas querer sair nos jornais ou ter foto para colocar na sua rede social. É fazer um convite, bater na porta, dizer alô. É dizer que o passe livre tem tudo a ver com educação e violência não deveria ter a ver com poder. O ônibus não está caro nem apertado? A atuação da polícia é satisfatória? O dinheiro é distribuído de forma justa? Está tudo bem? São os estudantes que têm tempo para começar a lutar por causas que são coletivas. Será tão difícil perceber isso?
em Ana Eli sa Bass i, Ange Ramos li dos A , Drie njos, C li Volpon Marche arlos S i, Fern sine, F cherrer Edição anda r , Cássia a n cine Le Bernard e Diagr Batista ite, Laio ina, Lu , Fern amação c A a M a s Schu Desteff n n g e d e d a li e ir dos An os, Lua ani, Ma ina, Lu jo n r iz a s ia V , a o D Novais, Carlos Luiza D lponi, alla Boulan Scherre Naiara Laio M amiani, ger, M Gomes r, Cáss edeiros arcelle Schuina Marian Sérgio , ia Ram , Luana R a , ochana Rangel, M G o a r m ia os, Drie es, Má n Canal, S D a Tamiris a G lla Ber o m y li r e a s a V , b ie nardina T rina do a ira, Vict m P Primeir ir r o is fessora , Lucas s Santo Vieira. orhugo a s , A M m Orienta ão Daniela orim. O Prime Caniçali dora ira Mão é um jo caráter rnal lab O experim rientad oratório ental p or da d Comun , produ elos alu icação Luciano iagram z id n o o S em s do 6º ocial – F r iz Espírito ação z era Jornalis período Santo. m d o o , da Un Av. Fer c T u Goiabe ir r s a o gem de nando iversida iras | Vit Ferrari, de Fede ória - ES CEP 290 514, ral do 1.000 exe Gráfica 75-910 mplare s G email: ráfica U jornal1m niversit ao@gm ária ail.com Primeira Mão Julho 2011
Expedi 2
Report
Artigo
Um leão por dia lutador capixaba Erick Silva estreará no UFC, maior campeonato de MMA do mundo. Sua luta com o americano Mike Swick é tão aguardada que os ingressos para o evento se esgotaram em uma hora.
O atraso do atleta, ocasionado pelo trânsito matinal, foi suficiente para instalar um certo nervosismo nos futuros jornalistas. Nesse meio tempo, eles aproveitaram para trocar informações sobre o entrevistado, na tentativa de melhor compreender o UFC, abreviação para Ultimate Fighting Championship. Erick Silva, capixaba, natural de Vila Velha, é a mais nova promessa brasileira no campeonato. Seu histórico como lutador passeia por diferentes modalidades das artes marciais, como o jiu-jitsu, muay thai e boxe. O contrato com o UFC só foi possível após sua vitória na categoria meio-médio no Jungle Fight, maior campeonato de Mixed Martial Arts (MMA, o antigo Vale-Tudo) da América Latina.
››› Thiago Sobrinho
No dia 27 de agosto, o
A entrevista se inicia como nos ringues: apreensiva e calculada. Os discursos de Erick parecem ter sido impecavelmente elaborados. Afinal, agora sua exposição como atleta passa a ser maior por conta do UFC, que será realizado no dia 27 de agosto no Rio de Janeiro, quando enfrentará o americano Mike Swick. Questionado sobre sua expectativa em relação ao campeonato, Erick diz ter de “matar um leão por dia”. E o lutador terá de se submeter a esta condição por mais duas vezes, já que seu contrato é de três lutas. Se perder duas delas, ele terá de percorrer novamente o árduo caminho até chegar ao estimado contrato. Acompanhado de seu treinador, Daniel Mendes, Erick se mostra confiante. Como um porto seguro, Daniel fica ao seu lado auxiliando-o a responder as questões mais técnicas, referentes sobretudo à parte física do competidor. Numa de suas intervenções, Daniel discorre sobre a rotina de treinamento do lutador e coloca em questão o desgastante trabalho que antecede as competições. Numa espécie de malabarismo fisiológico, o atleta diminui seu peso até o limite de sua categoria, 77 kg. Mas no dia seguinte, como uma estratégia “fraudulenta” - o que Erick e Daniel afirmam ser prática comum nos campeonatos - o competidor retoma seu peso ideal, que no caso de Erick é 87 kg. São 10 kg em apenas um dia. Consciente da importância do UFC no mundo das artes marciais, Erick sabe que estará passando por uma grande provação no próximo mês. Ele conta com o apoio da torcida e diz que, apesar de muitos confundirem o esporte com um mero espetáculo televisivo, nunca pensou em mudar seu estilo de luta apenas para satisfazer os fãs. Assim, com grande autonomia, Erick Silva se prepara para sua primeira apresentação, como disse no início da entrevista, tendo de “matar um leão por dia”. Expressão oportunamente utilizada para representar todo seu esforço nos treinamentos e campeonatos.
rimeira Mão Julho 2011 e T haiana G omes FPotografia E sther R adaelli
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Uma história escondida Importante patrimônio histórico do Estado, o Museu Solar Monjardim está aberto para visitas. Mas não é o que parece.
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Primeira Mão
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››› Laio Medeiros e Mariana Gomes
Portões fechados, corrente e cadeado. Quem olha de longe, muitas vezes não arrisca se aproximar. Mas basta perguntar ao guarda que fica na entrada para descobrir que o Museu Solar Monjardim está, sim, aberto a visitações.
Muitos moradores vizinhos ao museu têm curiosidade de conhecê-lo ou levar os filhos para brincar lá, mas os portões sempre fechados desestimulam. Flávio Henrique Fiorentini, 46 anos, morador do bairro desde criança, contou que frequentava o museu antigamente, mas agora enfrenta dificuldades. “Eu tenho vontade de levar o meu filho para fazer uma visita, mas sempre que tento, descubro que está fechado”. Ao saber que o Solar estava aberto, ficou surpreso. A mesma reação teve o aposentado Hélio Santos da Silva, que agora planeja levar o neto para um passeio. A diretora do museu, Sonia Maria de Aguiar Pantigoso, explicou que “os portões fechados podem representar uma atitude antipática perante a sociedade, mas o objetivo na verdade é preservar o patrimônio histórico que pertence a todos e cuidar da segurança daqueles que visitam o Solar”. Ela conta que esse procedimento só foi adotado no final de 2007, após um assalto em que houve troca de tiros. Para Sonia, a segurança do museu é um assunto que tem sido difícil de administrar devido ao número limitado de seguranças. “A área do museu totaliza 20.700m², e há apenas três vigilantes para tomar conta de todo o local. As câmeras de videomonitoramento poderiam auxiliar, mas a instalação pode danificar a estrutura do prédio, que data do século XVIII”, explica. As normas de segurança do museu são feitas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que aconselha a instalação de detector de metais e catracas na entrada dos museus. Após alguns roubos que aconteceram no Rio de Janeiro e São Paulo, o instituto pediu que a segurança fosse reforçada. A falta de estrutura, porém, não permite que ocorram melhoras na segurança do Solar Monjardim. Questionada sobre a necessidade de uma placa para informar às pessoas sobre o funcionamento do museu, Sonia respondeu que “existe uma guarita com um vigilante logo na entrada. Quem está realmente interessado em fazer a visita pode se aproximar e perguntar. A pessoa será autorizada a entrar sem problemas”. Aqueles que conseguem atravessar o controverso portão encontram um lugar tranquilo, com grande variedade de vegetação, um bom espaço para ler um livro ou até mesmo fazer um piquenique.
O museu está aberto de terça a sexta-feira, das 10h às 16h30. Grupos devem agendar a visita. Av. Paulino Müller, Jucutuquara. Telefone: (27) 3323-6609
O visitante tem também a oportunidade de conhecer o único prédio com arquitetura rural na cidade de Vitória, que abriga um acervo constituído por obras de arte sacra e reconstitui a residência de uma família abastada do século XIX. O museu Solar Monjardim faz parte da nossa história. Mas o fato de ele parecer sempre fechado, com corrente e cadeado, dificulta que os jovens tenham acesso a uma parte importante do passado do Espírito Santo. fotografia
Mariana Gomes
Primeira Mão
Julho 2011
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Um curta ao acaso Um curta ao acaso
grafia
A história da produção de um curta com orçamento reduzido
››› Fernanda Marchesine e Luana Dalla Bernardina
Um fim de tarde na Praça do Papa foi o cenário escolhido pela diretora Cristiane Reis para a gravação da cena 11 do curta-metragem “Acaso”. A duração da cena será de três segundos, mas o tempo gasto nas filmagens foi de 30 minutos. O combinado era que todos os participantes da equipe chegassem às 16h30. Mas já eram 17h e apenas quatro dos seis integrantes estavam no local. Os presentes analisavam o espaço para decidir onde seriam filmados os takes da cena. Ricardo Dobrovosky, que no curta é o personagem principal Ruan, deveria atravessar a rua, ir até o ponto de ônibus e embarcar em um Transcol.
A ideia › O grupo de estudantes que está produzindo o curta-metragem faz o curso de Rádio e TV no Centro Estadual de Educação Técnica Vasco Coutinho, em Vila Velha. Eles estão no último semestre e escolheram o curta como trabalho de conclusão de curso. O ator se posiciona então no local indicado pelo diretor de fotografia e cinegrafista, Waldemar Teixeira, conhecido como “Pingo”. Todos os envolvidos ficam ansiosos acompanhando de perto a tomada. Mas Ricardo tropeça ao atravessar em direção ao ponto e a gravação tem que ser repetida. Na segunda tentativa o áudio não fica bom e Ricardo volta novamente ao ponto inicial. Com a paciência de quem já está acostumado a gravar a mesma cena várias vezes, ele repete tudo pela terceira vez e finalmente comemora com o grupo o sucesso da filmagem. A segunda tomada é gravada no ponto de ônibus da praça. Ele se posiciona em pé à espera do coletivo e a equipe fica atrás com a câmera ligada e com o microfone sendo segurado por Wagner Correia, responsável pelo áudio. Após 10 minutos de espera, com todos os equipamentos ligados, um ônibus municipal para no ponto e Ricardo finge entrar, para que os responsáveis pela edição tentem utilizar a cena no curta. Não satisfeitos, eles permanecem a postos esperando um Transcol. Eis que surge um depois de quase 15 minutos. Ricardo embarca no coletivo lotado, salta no próximo ponto e volta andando. A equipe vibra pela ótima cena que conseguir. “Esse foi um dia atípico, todas as cenas deram certo”, Wagner comenta entre risos.
Fulano de tal
Em sete minutos, divididos em 28 cenas, eles pretendem contar um dia da vida de Ruan – um agente imobiliário desempregado – e Luísa – uma tatuadora. Os dois não se conhecem, mas cruzam-se durante o dia e são apresentados em uma festa à noite. Mesmo assim, não conseguem ficar juntos. O terceiro e último personagem é Cristian, um amigo em comum dos dois. “É aquela velha história de Vitória: eu, você e um amigo”, comenta Cristiane. Processo de Produção › A ideia de fazer um curta partiu de Waldemar Teixeira, o Pingo. Junto com a diretora Cristiane e mais quatro pessoas, eles decidiram o estilo de filmagem e começaram a escrever o roteiro. A escolha das locações exigiu tempo, já que o grupo não tinha dinheiro para locar cenários. Havia uma grande preocupação com a luz e o enquadramento necessários para manter a uniformidade do trabalho. Em alguns dos locais foram necessárias duas semanas para observação da luz ambiente e requerimento de autorizações para filmar. “Depender de outras pessoas quando você não está pagando é muito difícil”, desabafa Cristiane. As cenas foram gravadas em cinco locações: na Praia da Costa, em uma imobiliária de Vila Velha, na Praça do Papa, em fotografia
Marianna Schmidt
uma boate na Praia do Canto e no Centro de Vitória. Cristiane conta que para gravar na Praia da Costa, por exemplo, a equipe teve que chegar às 4h30 da manhã para conseguir a luz ideal. Os atores do curta foram selecionados em testes de elenco. Os três primeiros não deram certo: os candidatos marcavam, mas não compareciam. Após finalmente conseguirem um ator para o papel principal, eles começaram a busca por uma atriz. Encontraram uma garota que julgavam perfeita para o papel. Mas ela também nunca aparecia nos testes. Eis que no primeiro dia de gravação, o ator Ricardo levou a namorada dele, Mariana Gomes. O grupo gostou dela e a convidou para o papel. Ela aceitou. Após finalmente conseguir cenários e atores, o grupo comprou o figurino e partiu para a gravação do curta, que durou cerca de um mês. Terminadas as filmagens, começou então a etapa de edição do vídeo, que durou até a última semana de junho. Pedras no Caminho › Os dias “típicos” desse grupo de estudantes são cansativos e cheios de preocupações. Além das cenas terem que ser gravadas diversas vezes – seja por falha dos atores ou dos equipamentos – outros imprevistos atrapalhavam as filmagens.
A gravação que acompanhamos, por exemplo, foi remarcada no dia anterior porque as cenas seriam feitas na casa de um amigo do grupo, que viajou de última hora. Cristiane teve então que encontrar outra casa, onde regravou as cenas que já haviam sido feitas na casa do amigo e concluiu as filmagens. Logo no segundo dia de gravação, eles sofreram um outro imprevisto: a câmera de Pingo, que seria utilizada em todo o curta, quebrou. Por sorte, Ricardo possuía uma câmera fotográfica que filma em alta resolução. Assim, eles adaptaram a câmera em um suporte e a utilizaram como filmadora. Mas o que já havia sido gravado teve que ser refeito, pois as câmeras apresentaram diferenças na gradação das cores. Os cenários, como já foi dito, deram muito trabalho. As seis cenas em que o personagem Ruan procurava emprego tiveram que ser gravadas em um único lugar. Eles conseguiram a autorização do diretor de uma imobiliária de Vila Velha para gravar no local. Mas quando chegaram lá, foram vetados pelo dono. Cristiane conta que esse tipo de situação era comum e ainda outros imprevistos pegavam a equipe de surpresa. “Certo dia, a Mariana passou mal e desmaiou durante a gravação. O grupo entrou em pânico, pois não a conhecíamos direito e não sabíamos como agir”. Em outro dia, o grupo teria que montar a festa na qual Ruan e Luísa se conhecem. A equipe confirmou a presença de 60 figurantes, todos amigos e conhecidos - que não receberiam nada pela atuação. Mas o dono do estabelecimento cedido para a filmagem teve problemas pessoais e remarcou para uma semana mais tarde. Apenas 10 pessoas conseguiram estar presentes no novo dia e horário agendados. Pingo teve que recorrer a planos fechados - juntou todos em um espaço pequeno para conseguir o efeito de lotação. Orçamento › O Vasco Coutinho, onde estudam, não disponibiliza nenhuma verba para o desenvolvimento dos trabalhos. “Foi tudo na camaradagem”, conta a diretora. Ela explica que os
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Fulano de tal
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membros do grupo saíam pela Grande Vitória procurando lugares para as gravações dos sets. Com muita conversa eles convenciam os donos de estabelecimentos a liberarem os locais para as filmagens. Para o figurino, eles compraram algumas roupas, mas também utilizaram peças de integrantes da equipe. Segundo Cristiane, grande parte do figurino de Ruan era do próprio ator Ricardo. Mesmo com a pouca infraestrutura e o orçamento limitado, o grupo conseguiu fazer um bom trabalho. A alegria de fazer o que se gosta era evidente em seus olhares. Eles se mostravam confiantes de que tudo daria certo e executavam cada uma de suas funções com habilidade. “O que ajuda é que todos são muito bons no que fazem”, conclui a diretora.
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Passei na Ufes, mas quero outro curso! ››› Máyra Novais e Naiara Gomes
Com a intenção de ingressar na universidade pública, estudantes escolhem cursos menos concorridos já pensando na reopção Dizer “eu passei” simboliza uma vitória. A felicidade é expressa em lágrimas, sorrisos, gritos e até mesmo silêncio. Ser primeiro, segundo ou trigésimo colocado não importa. Na disputa por uma vaga em uma universidade federal, o importante é passar. Mas, entre os aprovados, existem aqueles que já entram com a intenção de mudar de curso.
Ludmilla Menezes, 25 anos, se encaixa nessa situação. Em 2004, tentou o vestibular da Ufes para Desenho Industrial e não passou. Mas a vontade de fazer o curso era grande. Por isso, quando ela soube que poderia pedir reopção, resolveu prestar novo vestibular para outro curso. “Analisei e vi que Artes Visuais tinha um corte baixo e a grade de disciplinas era semelhante à de Desenho Industrial”, explica. Em 2006, Ludmilla se tornou caloura de Artes Visuais e já no segundo semestre de 2007 conseguiu a reopção. “Fiquei muito feliz por saber que todo o esforço não havia sido em vão”. Essa mudança de curso, entretanto, pode ser difícil. Rodolpho Toniato é estudante do quinto período de Tecnologia Mecânica na Ufes, mas entrou com a ideia de pedir reopção para Engenharia Mecânica. “Em 2009 não abriram vagas para reopção. Tentei por vestibular, mas não consegui. Ano passado também não havia vagas remanescentes. Mas dessa vez fiquei em sexto suplente no vestibular e fui chamado. Enfim, consegui a tão suada vaga”, explica Rodolpho. Maria Beraldi Passini também entrou na Ufes com a mesma intenção de Ludmilla e Rodolpho. Ela prestou vestibular para o curso de Educação Física em 2006, mas não conseguiu passar. No final de 2007, tentou o vestibular mais uma vez, mas optou por outro caminho, o da reopção. Por questão de afinidade com as discursivas e pela concorrência, Ludmilla passou no curso de Artes Maria escolheu Arquivologia. “PeVisuais, mas faz Design dagogia e Arquivologia tinham as discursivas que eu gostava, história e literatura. Escolhi Arquivologia e passei”, explica. O que a estudante não esperava era se apaixonar pelas disciplinas e desistir de trocar para Educação Física. Hoje, Maria é estudante do sétimo período do curso que nem pretendia terminar. “Não cogito mais a hipótese de fazer Educação Física, não tem nada a ver comigo”, expressa com alegria. Os casos de Ludmilla, Rodolpho e Maria são exemplos de que, independentemente da forma de ingresso no curso, fazer o que realmente gosta é o mais importante.
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Primeira Mão
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Maria queria Educação Física, mas se encantou por Arquivologia
Nova resolução Até o ano passado, o processo de reopção, transferência, remoção ou novo curso era feito por entrevista, coeficiente ou prova. A partir deste ano, há uma comissão designada pelo Reitor para cuidar do assunto - o Processo Seletivo para Vagas Surgidas (PSVS). O estudante deve agora fazer uma prova específica para o curso escolhido. A resolução está no site www.psvs.ufes.br.
O que você faz dentro do ônibus? Conheça a história de pessoas que aproveitam ao máximo o tempo que gastam para deslocar-se de um lugar a outro ››› Drieli Volponi e Sabrina dos Santos
No ponto de ônibus, com agulha e linha nas mãos, ela começa mais um sapatinho de bebê. Maria da Conceição, 47 anos, costuma andar a pé. Mas quando usa o transporte coletivo, aproveita para preparar o artesanato que aprendeu aos 13 anos. Assim que entra no coletivo, ela começa a fazer o seu crochê. De ponto em ponto uma nova correntinha vai surgindo e o sapatinho de bebê toma forma. “Quando o ônibus está cheio, a viagem parece durar uma eternidade. Mas quando está vazio, eu posso sentar e fazer crochê. Como meu dia-a-dia é corrido, tenho que aproveitar todo tempo livre”, explica. Com as mãos firmes e sem olhar para elas, a habilidade de quem faz esse trabalho há anos é visível. Quando lhe pergunto com quem aprendeu o crochê, a resposta vem com um largo sorriso: “Aprendi sozinha. Eu ficava olhando a minha bisavó fazer, então fui tentando até conseguir”. Enquanto alguns passageiros leem, conversam ou olham para o nada, outros se perguntam ou perguntam à própria Maria como ela consegue fazer isso dentro do coletivo. “As pessoas até chegam para dizer que forçar a vista dentro do ônibus pode descolar a retina. Mas eu não ligo, meu crochê é uma terapia”. De fato, ler dentro de veículos em movimento não causa descolamento da retina. Durante a viagem, embarcam e saltam muitos passageiros. Não sabe Maria que, enquanto ela se concentra no seu crochê, outras pessoas fazem novas amizades e até organizam festas, sobretudo quando o tempo até o destino é longo.
Aniversário › Glícia Andrade, agente de saúde, conta que em 2006 fazia pré-vestibular e passava uma hora e meia dentro do ônibus no trajeto escola–casa: “Nós pegávamos o 211 Santo André/Jardim Camburi e, como quase todo mundo descia no ponto final, dava até para fazer festa dos aniversariantes de cada mês”. Glícia fala mesmo de festa de aniversário, com salgadinho, bolo, refrigerante e até o
famoso penetra. “Recolhíamos dinheiro para comprar as coisas, mas outras pessoas entravam no ônibus e acabavam participando. Era como coração de mãe, sempre cabia mais um”. Parece fácil fazer uma festa assim, mas Glícia explica que dá trabalho, porque é preciso convencer todo mundo a participar e recolher o dinheiro. “Sempre tem aquele que fica com vergonha e faz de tudo para se esquivar, às vezes por conta do valor, são cinco reais por pessoa. Mas é um meio de distração para todos nós, que depois de um dia exaustivo voltamos para casa de bom humor”. A agente de saúde cai na gargalhada ao se lembrar como eles conseguiam cantar parabéns, comer as guloseimas e tomar refrigerante com o veículo em movimento. “Era muito engraçado. Como o 211 fazia a rota pela Beira Mar e São Pedro, que tem muitas curvas, ficava mais difícil beber o refrigerante, que a qualquer momento podia derramar”. Ela compara essa época com o percurso que faz hoje: “Em 2006 a gente sempre queria aproveitar ao máximo o tempo que passava junto e a festa no coletivo era uma excelente opção”. Em conversas com outros passageiros, descobrimos que as comemorações não se restringem a festas de aniversário. A técnica em higiene dental Simone Justino participou de um chá de bebê para a esposa de um motorista. “Ele disse que ia ser papai. Decidimos fazer um chá de fraldas. Cada passageiro levou um pacote e ele ficou super feliz”, conta. Simone hoje utiliza uma rota diferente e diz que que em seu atual percurso as pessoas são mais fechadas. “Eu falo só com quem eu conheço. As pessoas têm a cara amarrada e só sabem reclamar do tempo que gastam dentro do ônibus”, relata desapontada. Depois de algumas histórias, o ônibus chegou ao seu destino. Está na hora de desembarcar. Primeira Mão
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Um dia na sala de aula Conheça o cotidiano de jovens que estão concluindo o Ensino Médio no tradicional colégio Maria Ortiz
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››› Marcelle Desteffani e Francine Leite
Em meio às construções históricas do Centro de Vitória está o Colégio Estadual de Ensino Médio Maria Ortiz. A escola, que existe desde 1936, é tombada como Patrimônio Cultural e Arquitetônico do Espírito Santo. Localizada ao lado do Palácio Anchieta, em uma rua estreita de paralelepípedo, a Maria Ortiz é cercada por um muro de alvenaria e ferro, frente ao jardim e às castanheiras do pátio.
A escola é aconchegante e sua arquitetura nos convida a um passeio histórico. O assoalho do chão é de madeira e não há verniz, o que acentua sua aparência de antiguidade. Os corredores, onde os adolescentes se encostam para conversar ou por vezes passam correndo, são estreitos e curvilíneos. Os pavimentos são ligados por escadas de madeira datadas da mesma época da fundação da escola. Ao passar, ouvimos o barulho do “crec-crec” que os tênis apressados deixam para trás. Para evitar acidentes, os degraus ganharam uma faixa retangular antiderrapante. A construção rebuscada contrasta com a simplicidade de seus alunos e funcionários, e também com o sistema de ensino, comum a todas as escolas da rede estadual. O uniforme dos estudantes é composto por camisa de malha estampada com as cores e o nome da escola, em branco e azul, e bermuda de tactel azul-marinho ou calça jeans. O tênis também é obrigatório para os 1055 alunos das 34 turmas da escola. As marcas dos que por ali passam ficam no chão, nas carteiras e nas paredes da escola, que não ganha nenhuma verba extra do governo por ser patrimônio histórico. “É muito complicado receber a quantidade de adolescentes que temos. A escola é ‘sacudida’ todos os dias”, desabafa Alex Zorzal, atual diretor do colégio.
Primeira Mão
Julho 2011
O sino toca às sete horas da manhã do dia 29 de abril de 2011. Os estudantes, distribuídos pela rua entre o pátio frontal e o Palácio Anchieta, começam a entrar vagarosamente. Eles têm tempo. O segundo sinal, anunciando o início das aulas, bate às 7h15. Na porta principal, a coordenadora Jeanete Amorim espera os alunos com um simpático sorriso matinal. Ela está de visual novo, com o cabelo curto recém tingido. Quem passa é só elogios: “Tá bonita, Jeanete!” Sem graça, ela explica que pintou o cabelo no dia anterior, para reparar uma tintura alaranjada malsucedida. Deu certo. Apesar de ter chegado somente este ano na escola, Jeanete já é muito querida. Conversa com os estudantes sobre assuntos variados e ouve, principalmente, seus problemas pessoais. “Assim, passo a entender o adolescente e ele não dá tanto trabalho”. Ao seu lado, uma aluna do primeiro ano entrega as fichas da merenda, repetindo a cada estudante que passa: “salada de frutas e biscoito de sal”. Esta não é a merenda preferida, poucos aceitam. Jeanete explica que a entrega das fichas é uma forma de controle da quantidade de alimento a ser preparado, evitando desperdícios. A coordenadora observa todos os que passam para saber o motivo de tantas havaianas e rasteirinhas. A forte chuva dos dias anteriores é a principal desculpa: os tênis continuam molhados. Para a alegria dos alunos, desta vez não tem advertência, que acontece quando o uniforme não está completo.
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Soa o sinal para a aula começar. A professora Eliane Saudino sobe as escadas calmamente em direção ao 3ºMM03 (turma 03 do 3º ano do Ensino Médio Matutino). Quando entra na sala, a maioria dos alunos está em pé, conversando. Às 7h20 muitos ainda estão chegando à escola e não são corrigidos pelo atraso. As carteiras já não formam filas e sim aglomerados de quatro ou cinco alunos, que só param de falar quando Eliane solta um grito.
Dos 35 estudantes matriculados na turma, apenas 25 comparecem à aula daquela sexta-feira. A matéria é conhecida como JET (Juventude, Educação e Trabalho). Mas nem mesmo os alunos sabem o que a sigla significa. Trata-se de uma disciplina incluída no currículo escolar do Espírito Santo em 2009, com o objetivo de elaborar um plano de desenvolvimento pessoal e profissional para o aluno, além de ensinar o comportamento solidário e cidadão no trabalho e nas relações pessoais. A professora Eliane acha que a disciplina pode incentivar o trabalho em detrimento do estudo. Para ela, uma forma de resolver essa questão seria os alunos estudarem em horário integral. Pela manhã aula normal e à tarde experiência profissional dentro da própria escola. “Mas ainda não estamos preparados. Falta estrutura e programação no sistema educacional”, opina. Eliane também não concorda com a forma de aplicação dos programas de estágio do Estado (Menor Aprendiz e Jovens Valores), que contratam estudantes para o trabalho em empresas privadas ou em órgãos públicos. Para ela, é uma maneira de empregar mão-de-obra barata. “Deveria haver um acompanhamento direto da escola. Eu tento orientá-los em relação ao emprego, para não serem explorados”. A Secretaria de Educação do Espírito Santo (Sedu), porém, informou que a JET não tem como objetivo estimular o estágio, mas orientar o aluno a decidir o que vai fazer após concluir o ensino médio: prosseguir nos estudos, ingressando no ensino superior; ou fazer um curso na educação profissional e trabalhar.
A sala é pequena, com paredes verde-água e três ventiladores de teto. Portas com grades, que ficam o tempo todo fechadas, dão para uma sacada. Um quadro branco de pincel à frente e um quadro negro de giz inutilizado ao fundo completam o cenário. O chão de madeira tem as marcas dos pés de ferro das mesas e cadeiras, que são rabiscadas com frases, desenhos e contas. A porta da sala, sempre entreaberta, está com a pintura descascando. Uma televisão laranja ao lado direito do quadro chama a atenção. Há quatro anos ela está ali, mas poucas vezes funcionou. Faltam tomadas para os equipamentos. A professora Eliane reclama. “Não existe planejamento nas escolas. O Governo manda equipamento, mas não oferece os suportes necessários”.
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Por todos os lados do 3ºMM03 o barulho é generalizado. O comportamento no ambiente de trabalho é o tema da primeira aula, mas os alunos parecem pouco se importar com isso. Eles estão mesmo preocupados é com o debate da aula de português, a última daquele dia. Quando Guilherme de Souza, 17, se arrisca a falar, diz algo que não corresponde ao que a professora Eliane está explicando. Jean Moraes não perde a oportunidade: “Que bote errado, brother”, caçoando do colega. Jean é um extrovertido garoto de 17 anos. Tem olhos e cabelos castanhos, pele clara e altura mediana. É sempre caçoado por adorar experimentar penteados moicanos. Mora na Vila Rubim com o padrasto, um irmão mais velho e a mãe, que abandonou o pai quando o menino tinha apenas três meses. “Nunca senti falta dele”, desabafa. A professora pergunta insistentemente se alguém fez a pesquisa sobre a Revolução Industrial e seus impactos até hoje. Forma-se uma discussão de dois minutos sobre o tema e a aula acaba. Quase todos os alunos saem da sala e ficam no corredor conversando com os colegas de outras turmas. Entra no 3ºMM03 uma jovem com óculos de grau e cabelo preso, Primeira Mão
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vestindo blusa com um tigre estampado, calça jeans e sapatilha. Ela usa brincos e cordão comprido. Os alunos conversam o tempo todo, e não param nem para ouvir a demorada chamada. Sim, a mocinha é a professora. A aula é de inglês e não se ouve sequer um good morning. Beatriz Gonçalves explica o exercício do dia, mas ninguém se interessa em começar a fazer. Beatriz é uma das que utiliza apostila, da qual os alunos precisam tirar cópias. Segundo o diretor Alex, este ano serão escolhidos os livros para as disciplinas que ainda usam apostilas: inglês, sociologia e filosofia. Esse material é emprestado aos alunos da rede pública, e devolvido no final do ano para ser utilizado pela próxima turma. De três em três anos, os livros são renovados pelo Governo. Paula Siqueira, 17, que senta em uma das primeiras carteiras, decide migrar para a mesa da professora. Lá permanece durante toda a aula. Elogia o cordão de Beatriz: “Que bonito! Parece uma homenagem ao casamento real.” (Naquele dia, o príncipe William da Inglaterra se casava com Kate Middleton). Elas riem juntas. A professora sai da sala sem avisar e demora cerca de 20 minutos para voltar. Enquanto isso, todos conversam e poucos fazem o exercício. Dois alunos ouvem música em um único fone de ouvido, sentados no chão, na parte da frente da sala. O que é proibido, segundo o diretor da escola. Eles não levam nenhuma notificação por isso. Quatro alunas bastante maquiadas e com bolsa e sapatilha da moda, sentadas bem na frente do canto direito, ajeitam as cadeiras para formarem um grupo. Desde a primeira aula, um estudante dorme no fundo da sala e não é incomodado.
zação do ensino. “O aluno de escola pública, para mim, é a sociedade, o que há de mais concreto”. Para a professora de português, Silvia Alvarenga, há 17 anos no Maria Ortiz, o problema da rede pública é uma política educacional não voltada para a formação do aluno. “Eles estão muito preocupados com estatística, em passar de ano. Comigo não. Eu esqueço o meu lado de sistema e penso no aluno. Eu não quero saber de estatística e de sair na mídia. O que me interessa é a formação do aluno”. É ano de vestibular para a turma 3ºMM03. Apesar de não conversar muito durante as aulas, Letícia é faladeira e conta que quer fazer Psicologia, porque tem problemas na família e sofreu muito quando o irmão morreu. Já Manoel pensa em tentar Arquitetura. Sua mãe, porém, prefere Jornalismo. Guilherme de Souza diz com convicção que vai prestar vestibular para Engenharia Civil. Já tem até as preferências de universidades: uma no Sul do país, outra em São Paulo, o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e a Ufes. Lázaro do Rosário também já decidiu. Quer cursar Engenharia Mecânica e sabe até com o que vai trabalhar. “Quero ser inspetor
A coordenadora Jeanete entra na turma para avisar que a merenda mudou. O cardápio agora é pão com carne. Os estudantes se animam mais, apesar de não gostarem da comida servida na escola. Ainda assim, Jean se recusa a comer. “Vou namorar na hora do recreio. Não posso ficar com bafo”. Agora, na rede pública estadual, a merenda é terceirizada. Os alunos reclamam que a variedade da alimentação é restrita. Na maioria das vezes servem bisnaga e biscoito. O diretor argumenta que poderia melhorar, mas a terceirização é boa pela funcionalidade. Quando a professora Beatriz retorna está quase no fim da aula. Letícia Barros e Manoel Ferreira, ambos de 17 anos, contam que a maioria dos alunos não se interessa pela disciplina de inglês porque fazem curso de idioma disponibilizado pela Sedu. Manoel reside em Viana. Como a maioria dos alunos da escola Maria Ortiz, mora longe do local onde estuda. De acordo com o diretor, essa pode ser uma forma de escapar da realidade de periferia dos bairros mais distantes. O perfil social dos estudantes é heterogêneo. “A gente percebe uma volta da classe média para a escola pública”, conclui. A professora Eliane Saudino ressalta que a rede pública educacional está se reerguendo e acredita na revaloriPrimeira Mão
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ultrassom. Depois de me formar, vou fazer um curso nessa área”. Suelen e Jean ainda não resolveram o que vão fazer, assim como a maioria da turma. Guilherme é estudioso e prefere os números. Quando a aula de química começa, puxa logo sua carteira, se afastando dos colegas, para prestar mais atenção. A professora Taysnara Tassimari chega toda arrumada. Maquiagem escura, brincos combinando com a blusa estampada em preto e branco, calça jeans, rasteirinha no pé e acessórios dourados. A matéria do dia: química orgânica, com seus alcenos e alcanos. A maioria dos alunos está com o caderno aberto, atenta, mas eventualmente conversando entre si. “Psiu, ei”. É assim que a professora chama a atenção da turma, quando escuta alguém cochichando. Eles interrompem a aula para tirarem suas dúvidas. Taysnara não para de falar um minuto, mas cai na gargalhada quando Manoel faz a piada: “Se a fórmula nuclear possuir somente um carbono então o nome é meteno”? Todos riem e o chamam de tarado. A professora explica o nome correto para aquele tipo de ligação. O professor de filosofia aparece na porta para deixar as provas com uma aluna. Todos querem receber, mas Taysnara diz que só vai entregar no fim da aula. Ainda assim, os que estão mais próximos conseguem pegar sua avaliação. Jean comenta que os alunos tiraram notas iguais e solta um: “Por que será?” A professora cobra atenção, porque neste ano a química entrará pela primeira vez na prova do Paebes (Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo). “Gente, vocês precisam estudar para eu ganhar o bônus. Se ganhar, dou
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pontos extras para vocês”. O colégio Maria Ortiz atingiu a primeira colocação na disciplina de matemática entre todas as escolas estaduais, em 2010. Em português ficou em segundo lugar. O Paebes visa diagnosticar o desempenho dos alunos em diferentes níveis de escolaridade e áreas do conhecimento, além de subsidiar a implementação, reformulação e monitoramento de políticas educacionais. Por nota, a Sedu explica que os resultados das avaliações são repassados para as escolas, para que suas equipes revejam projetos pedagógicos e definam mais claramente metas de aprendizagem. Antes mesmo de tocar o sinal para o recreio, a professora de química libera os que já terminaram de copiar os exercícios. Alguns alunos saem da sala com todo o material. Outros decidem ficar jogando baralho. No pátio, aos fundos do colégio, forma-se uma grande fila para pegar a merenda. Do lado de fora do refeitório, o ambiente é escuro, com poças de água no chão e infiltração nas paredes. Dentro, porém, os alunos contam com mesas e cadeiras novas que chegaram naquele dia, que foram colocadas próximas à cozinha. Em frente ao refeitório está a cantina, onde são vendidos picolés e guloseimas. O pátio tem também um banheiro masculino e outro feminino. Na frente deles, mesas e banquinhos de alvenaria. Os vinte minutos de recreio parecem passar voando. Mas isso não é muito problema. É hora da aula de matemática, uma das preferidas da turma do 3ºMM03. Jean, que senta sempre ao fundo da sala, vai para uma das primeiras carteiras. A professora Edna Pereira troca Lorena Messias de lugar. Onde ela senta, não dá para acompanhar o que está no quadro. Além do mais, a menina fala alto e conversa bastante. Edna logo percebe que os alunos não estão com a matéria de matemática sobre as carteiras. “Quem estiver preocupado com português não vai pro céu. A Silvia é má, mas
eu sou mazinha”, se referindo à professora de português. Edna dedica toda a aula à resolução de questões do Vest Ufes 2010. Os estudantes escutam atentos e participam ativamente da aula. Quando um aluno dispersa, ela sempre arruma um jeito de chamar a atenção dele, fazendo piadas ou mesmo brigando, mas sem perder o bom humor. A professora é uma das que mais estimula a turma para o vestibular. Guilherme questiona o motivo de a escola ficar entre os primeiros colocados do Paebes, mas ter pouca aprovação nas universidades. Edna diz que, no ano passado, 15 alunos do colégio passaram na Ufes. Os estudantes reclamam que a prova das federais é bem diferente do conteúdo e das avaliações da escola e a maioria não se considera capaz de ter sucesso. Tarek Salla , 17, quer mudar de colégio. Ele aproveita a discussão para reclamar que nenhum professor responde a suas dúvidas. Edna retruca dizendo que ouve sempre nas reuniões de professores que ele conversa demais nas horas impróprias (Tarek também fez essa reclamação na aula de química, e a professora deu a mesma resposta). “A gente está explicando e você não presta atenção. Você está na melhor escola. Se quer mudar, tudo bem”, diz Edna. A professora termina de resolver a questão e o sino toca. Ela se despede da turma cantando e batendo palmas: “Tia Silvia vem aí, olé olê olá”. Na sexta que vem tem prova, e pode cair tudo. Segundo Edna, terceiro ano é ano de revisão. Já sentados em grupos, a turma se prepara para o debate que está por vir. Na aula de Português, eles vão discutir sobre cubismo e dadaísmo. A professora preferida do 3ºMM03 já entra na sala brigando, faz rapidamente a chamada e inicia as discussões. Silvia Alvarenga é curta e grossa. Os alunos começam a explicar o tema enquanto ela escuta atentamente, intervindo quando necessário. Lorena, na sua vez, começa a falar com palavras pouco conhecidas e Silvia logo questiona. Ninguém sabe responder de onde surgiu o nome Cubismo. Levemente irritada, a professora explica. Outra aluna faz uma pergunta, mas Silvia não responde, dizendo que deve adiantar a matéria e tudo o que tinha pra falar já foi dito. Silvia é formada em Letras, estudou durante o período militar e acredita que não teve um bom rendimento na faculdade, mas conseguiu superar isso na sala de aula. “Ensinando você vai entendendo o que está acontecendo na época”. Conforme conta, deixou muito tempo para trás. Por duas vezes largou o magistério para tentar concurso público. Mas resolveu voltar, porque é ali que ela realmente se realiza. “Os nossos alunos são muito carentes de informação. A educação está muito fraca. Quando chega no ensino médio, você tem que recuperar todo o ensino fundamental. E no fotografia
Marcelle Desteffani e Francine eite PrimeiraLM ão
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terceiro ano, os alunos já estão mudando o comportamento e mais voltados para o mercado de trabalho, para o vestibular. Então eu sei que posso cobrar mais. E eu cobro muito mesmo”. A professora afirma que é muito exigente porque o aluno tem por obrigação aprender. Mas é necessário entrar no mundo dele. Só assim acredita ser possível conquistá-lo. Sua personalidade em sala de aula é resultado da criação que teve. A mãe semianalfabeta sempre a cobrou muito em questão de estudo. “Hoje a família não está preparada, mas a escola tem que estar. Os alunos merecem o melhor. E se a escola pública não estiver preparada, eu estou”. Gleissa Santana, 18, é uma garota tatuada, com piercing no nariz e unhas pretas. Nitidamente nervosa, ela introduz a explicação do próximo grupo. A professora Silvia tenta acalmá-la, mas de nada adianta. Gleissa está lendo, ao invés de se expressar com suas próprias palavras. A professora reclama e a menina fica ainda mais tensa. Suas pernas balançam freneticamente. Todo o grupo perde ponto por ter deixado a colega explicar o conteúdo sozinha. O próximo grupo é o dos nerds. Larissa Ricas, 17, se destaca e se desenvolve muito bem na sua vez. Ela é uma menina calada. Só conversa com o colega que senta atrás dela, mas ele faltou naquele dia. Durante todas as aulas não arredou o pé de sua carteira, a primeira do canto direito. Sempre com o caderno aberto e fazendo os exercícios, ela ouve atentamente o que o professor está dizendo, apesar de não participar tanto das aulas. Larissa, assim como vários colegas, faz estágio e não sabe o que vai tentar no vestibular. A professora libera os alunos antes do sinal tocar. Hora de ir embora. NOTA * Esta matéria foi inspirada na reportagem “O Brasil é Aqui”, de Raquel Freire Zangrandi, na revista Piauí, edição 53.
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Marcas no asfalto ››› Maria Luiza Damiani e Rochana Canal
Como vivem os motociclistas que sobreviveram a graves acidentes de trânsito Ao completar 18 anos, Marcella Venturelli – ou Mel, como gosta de ser chamada – presenteou a si mesma com a tão sonhada Honda Biz. Fazia menos de um mês que ela havia adquirido a moto quando, em uma noite chuvosa de novembro de 2007, sofreu um acidente. Naquela noite, Marcella seguia tranquila para casa, depois de um encontro com as amigas. Quando ela entrou com sua moto no bairro Marcílio de Noronha, em
Viana, já era quase meia noite e a rua estava deserta. De repente, uma mulher que caminhava na calçada entrou na sua frente. Ela não conseguiu desviar e o guidão de sua moto acertou em cheio a perna da moça. Apesar de estar a 60 km/h, Mel foi lançada ao ar após a colisão. Como usava um capacete de mobilete (aqueles abertos embaixo, presos só por uma fita) seu queixo foi o primeiro a tocar o concreto frio do asfalto. Na hora não sentiu dor. Mas começou a desesperar-se quando percebeu
que seus dentes estavam caindo. Por sorte, uma vizinha passou no local e a levou para casa. Sua mãe ficou em estado de choque. Partiram imediatamente para o pronto-socorro. Já no hospital, depois de passado o susto, a dor começou. Mel percebeu que teve um corte profundo no queixo e que perdera oito de seus dentes – seis na parte de cima e dois embaixo. “Lembro que meu canino do lado de baixo caiu inteirinho e que minha boca ficou muito inchada. Estava horrível. Nem parecia que era eu”.
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Acidentes de moto atendidos pelo Samu 192
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Ela ficou apenas um dia no hospital, mas quinze de licença do trabalho. Para consertar os dentes, foram seis meses de tratamento. Mesmo sem eles, ela levou uma vida normal, trabalhando e estudando. Hoje, além de ter uma grande cicatriz no queixo, ela ainda sofre com infiltração e muita sensibilidade nos dentes. “Vou ter que trocar toda a resina dos novamente. Até hoje me pergunto como isso aconteceu. Mas agradeço por não ter acontecido algo pior”. Perigo crescente › Acidentes como o de Marcella ocorrem todos os dias nas ruas do Espírito Santo. De acordo com levantamento realizado pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), a frota de motocicletas no Estado aumenta a cada ano e nos últimos dez anos houve um crescimento de 274%. Atualmente, existem mais de 350 mil motos circulando pelas estradas capixabas. A facilidade da compra e o preço mais baixo fizeram com que a quantidade de motos nas ruas crescesse de forma assustadora. Os acidentes acompanharam este crescimento. Dados da Secretaria de Saúde (Sesa) revelam que os acidentes de moto representam mais da metade dos chamados de emergência no trânsito atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Quase sempre envolvem carro e moto. Em 2010, o Samu atendeu a 10.485 acidentes, sendo 52% (5.462) envolvendo motociclistas. Dos motociclistas que se acidentam e sobrevivem, a maioria fica com algum tipo de dano, principalmente nos membros inferiores – amputações, infecções tardias e recorrentes (que muitas vezes são mortais), enrijecimento e até perda de movimento. O médico Márcio Laneri trabalha há quatro anos no Samu e disse que acidentes envolvendo motos são sem-
pre preocupantes. Já presenciou desastres de todo tipo, desde escoriações leves até motoqueiros que perderam pernas e braços. Segundo ele, a partir dos 35 Km/h, um acidente de moto pode causar lesões muito graves: “a moto, quando bate, para, mas o corpo do motoqueiro continua em movimento”. Laneri ressaltou que quando o motoqueiro está com o equipamento de proteção individual completo, o EPI, as chances de lesões mais graves são menores. “Moto não tem cinto de segurança, não tem airbag. Quanto mais protegido estiver o motociclista, menos chances de ele sofrer fraturas”. A Sesa informa que o custo médio de um paciente internado por acidente de trânsito é de R$ 10,5 mil /mês, enquanto o de um paciente comum é R$ 4 mil/mês. Os acidentes de moto geram grande demanda por atendimentos nos hospitais: no São Lucas, por exemplo, eles representam 60% das internações. Mais uma marca › Outra experiência com motocicletas foi vivida por Victor. Em uma noite que para muita gente seria um final de dia exaustivo, o dia 10 de Setembro de 2009 foi para ele apenas o início de uma longa história. Victor Ricas de Freitas, 21 anos, havia saído de casa rumo à faculdade onde cursava o 7º período de Direito, pilotando sua 250 cilindradas. Na rotatória do Sambão do Povo, a 50 Km/h, viu um Gol do Corpo de Bombeiros vindo na direção contrária. Num piscar de olhos, o motorista do carro cruzou a pista em local proibido, sem dar seta e sem olhar para os lados. Este foi o último flash visto por Victor. Era seu segundo acidente de moto, mas dessa vez com uma grande diferença: o capacete rachou. Ao ser resgatado pelo Samu, foi levado para Primeira Mão
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o Hospital São Lucas, onde ficou em coma por uma semana e meia com quadro grave de traumatismo craniano e coágulos sanguíneos cerebrais. Ao sair do coma, permaneceu no corredor do hospital por mais dois meses. Por três semanas sua memória falhou. Victor conta que, nesse período, as pessoas iam lhe visitar e ele só falava “oi” e olhava para o teto branco. Às vezes dizia “oi” cinco vezes consecutivas para a mesma pessoa. Todos achavam que ele estava fazendo piada, mas era sua memória que não registrava os fatos. Tudo o que ele sabe do acidente hoje é pelo que viu nas fotos que um amigo tirou, e por depoimentos de pessoas que estiveram no local e no hospital. Ao retornar para casa, ainda ficou por dois meses sem poder sair e tomando remédios. Seus maiores desafios eram voltar a ter equilíbrio, falar normalmente e andar. Mas tudo isso foi superado ao saber pelo médico que ele correu risco de morte ou paraplegia. Era um milagre. Com a voz embargada, Victor só sabia agradecer por estar vivo. A experiência fez com que ele cresse mais em Deus e passasse a valorizar o apoio de pessoas das quais nem esperava. “Você percebe quem gosta de você de verdade”. A maior surpresa foi ver seu chefe do estágio visitando-o naquele corredor feio de hospital. Saber que o estágio mantivera sua bolsa de R$ 525 durante seu afastamento e que seu cargo o esperava foi uma motivação. Hoje, dois anos após o acidente, ainda que tenha voltado a andar e falar, Victor receia pilotar uma moto. Ele já andou novamente, mas o medo permanece. Medo que está na falta de respeito no trânsito, nas imprudências, nas atitudes como andar em corredor, empinar, cortar ou andar em alta velocidade. Coisas que ele mesmo fazia, até sofrer o acidente.
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Prédios
Espaços
››› Angeli dos Anjos, Drieli Volponi e Máyra Novais
Melhores formas de pagamento contribuíram para a expansão do setor imobiliário no Estado. Entretanto, à medida que os apartamentos aumentam em número, diminuem em tamanho Desde o segundo semestre de 2010, o setor imobiliário do Espírito Santo passou por um grande crescimento. Segundo dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES), o crescimento foi de 21,5% em relação ao primeiro semestre do ano passado. Dos mais de 32.336 novos imóveis construídos, cerca de 20 mil já foram vendidos. Desse total, 40% localiza-se no município da Serra, 33% no município de Vila Velha e 24% em Vitória.
A previsão é que os números cresçam ainda mais este ano, já que o momento é favorável à expansão. “O setor imobiliário está passando por um momento muito positivo”, afirma Moacyr Brotas Neto, vice-presidente da Associação das Empresas do Setor Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES) e coordenador do Salão do Imóvel, evento anual de venda de apartamentos. Moacyr ressalta que o crescimento do setor se deu, em parte, devido às melhores formas de financiamento proporcionadas por bancos como a Caixa Econômica Federal, que aumentam a demanda por casa própria. “As classes C e D estão
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comprando com maior facilidade através de financiamentos”. “Apertamentos” › Está cada vez mais comum a venda de apartamentos menores, com quartos bem mais compactos do que os de alguns anos atrás, como explica o engenheiro Fábio Uliana, que é professor do curso de Edificações do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). “Há 15 anos um apartamento de dois quartos tinha 70 metros quadrados, mas atualmente um apartamento com a mesma quantidade de quartos possui cerca de 50 metros quadrados”. Segundo ele, a construção de apartamentos compactos é uma estratégia das construtoras para aproveitar ao máximo o espaço das cidades. “Vitória, por exemplo, não tem muito lugar para se construir, entretanto, muitas pessoas querem morar na capital”. Segundo Moacyr, as novas dimensões de imóveis são uma tendência de mercado. As pessoas já não se preocupam tanto com grandes apartamentos, mas sim com uma boa área de lazer. A auxiliar de serviços gerais Luciana Batista, de 47 anos, comprou um apar-
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tamento há dez meses e mostra que a dimensão dele não foi um fator decisivo na compra. “Meu imóvel tem 50 metros quadrados, mas o importante é que não terei mais que pagar aluguel. Além disso, a forma de pagamento me favorece e o prédio possui dois salões de festa”. Luciana financiou seu imóvel através do programa do governo federal Minha casa, minha vida. O programa foi lançado em 25 de março de 2009, com o objetivo de facilitar a compra da casa própria por famílias que recebam até três salários mínimos. Um bom negócio › O professor Fábio Uliana afirma que muitos compradores de imóveis adquirem os empreendimentos como forma de investir, seja para agregar valor e revender, ou para alugar, como é o caso de Nilton Santos de Mello, 45 anos. “Tenho imóveis alugados na Grande Vitória e no interior do Estado. Há oito anos trabalho com isso”, afirma. O professor Fábio ressalta que investir em imóveis pode ser um bom negócio, pois se trata de um bem durável, que dificilmente perderá valor. “A tendência é que as construções sejam mais valorizadas a cada ano, pois o Espírito Santo está em crescimento”, diz.
Serviços bancários: crescente insatisfação Reclamações aumentaram no início deste ano e, junto com elas, a descrença nos serviços de defesa do consumidor ››› Fernanda Batista e Luiza Boulanger
Quem nunca esperou mais de uma hora na fila de um banco, teve cheques compensados antes da data prevista ou foi cobrado com taxas extras em sua conta bancária? De acordo com informações do Banco Central, no primeiro bimestre deste ano, foram consideradas válidas 841 reclamações de consumidores contra instituições bancárias, 35% a mais do que no mesmo período de 2010. E esse número poderia ser muito maior, uma vez que apenas uma pequena parcela da população se manifesta. Muitas vezes os consumidores nem sabem que estão sendo enganados, ou mesmo não creem nos serviços de defesa ao consumidor. Em todo o país, segundo dados do Banco Central referentes a março deste ano, os débitos não autorizados são campeões de reclamações há mais de um ano. Em segundo lugar estão os esclarecimentos incorretos ou incompletos, seguidos das cobranças irregulares de serviços não contratados, do descumprimento de prazos e dos questionamentos da segurança quanto à operações não reconhecidas pelos clientes. A empresária Paula Noce, 47 anos, já teve vários problemas com seu banco. “Vários cheques entraram antes da data marcada, o que causou uma confusão nas minhas contas. Alguns chegaram a voltar porque o dinheiro ainda não estava disponível”. Ela conta que, para resolver o problema, teve que ir várias vezes ao banco e tentar explicar o ocorrido. “Ir ao banco é sempre chato. Além de enfrentar as filas, tinha que tentar mostrar a eles que o erro não foi meu e sim do banco. Tive muita dor de cabeça”.
talões, mas não consegui resolver o problema e acabei desistindo”. Para ela e muitas outras pessoas, reclamar tornou-se algo sem resultado devido à dificuldade para resolver os problemas. “Para nos defendermos precisamos dos Procons e temos que aguardar dias e mais dias. No final, tudo acaba em um simples acordo de paz, as taxas cobradas indevidamente são retiradas e ninguém paga os dias de trabalho, o tempo perdido, o estresse, a ansiedade”, desabafa. Aversão › Motivos como esses levaram o aposentado André Almeida, 70 anos, a cancelar sua conta bancária e desistir de uma vez por todas dos bancos há mais de duas décadas. “Sempre achei que os bancos levavam grande parte do meu dinheiro, então quando me aposentei resolvi que era hora de me aposentar dos bancos também”. Hoje em dia ele só tem um cartão, que utiliza apenas para retirar a aposentadoria todos os meses. O dinheiro fica guardado em casa, dentro de um cofre, e vai sendo retirado à medida que precisa. “Colocar embaixo do colchão eu não teria coragem, mas o cofre é totalmente seguro, só eu e minha mulher temos a senha.”
Como e onde reclamar › Quando esses problemas acontecem, muitas vezes o cliente não sabe a quem recorrer. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) orienta os consumidores que, primeiramente, procurem o banco e tentem resolver o problema, relatando-o, de preferência, por escrito. Caso a situação não seja resolvida ou demore demais, o cliente deve procurar o serviço de ouvidoria de seu banco, o famoso 0800, obrigatoriamente disponibilizado pelas instituições. Se o próprio banco não resolver o problema, o cliente deve procurar o Procon de sua cidade ou Estado. Se o caso não for solucionado, deve-se recorrer à Justiça. O Idec aconselha o consumidor também a procurar a imprensa que, normalmente, reserva espaços às reclamações dos consumidores. É importante que seja registrada a reclamação no Banco Central, uma vez que ela vai para uma lista divulgada mensalmente, fonte de consulta para outros consumidores. Isso pode ser feito por telefone, carta ou internet.
Maria das Graças partilha da mesma opinião. “Precisamos ficar atentos, pois ao somarmos todas as taxas cobradas concluímos o quanto colaboramos para o enriquecimento de um grupo que, a meu ver, é mais explorador do que prestador de serviços”. Para ela os bancos também não são essenciais. “Não acredito que o banco seja um mal necessário e sim um comodismo muito cansativo”, declara.
No caso da técnica de enfermagem Maria das Graças Santos, 51 anos, era cobrada uma taxa para entrega de talões de cheque. Mas ela não havia solicitado o serviço, pois podia pegá-los diretamente em sua agência, que fica próximo à sua casa. “Por várias vezes fui à agência e liguei para a central de atendimento para tentar cancelar o serviço de entrega dos Primeira Mão
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, o r p m o c Eu , s a r p m o tu c , a r p m o c e el . . . s o m a r p nós com ››› Ana Elisa Bassi e Sérgio Rangel
Febre na internet, os sites de compras coletivas oferecem descontos imbatíveis. Mas fique atento: eles nem sempre são a melhor escolha. Uma empresa oferta um produto, muitos compram e todos levam descontos. Com essa receita, as compras coletivas viraram febre na Internet, com mais de 1.200 sites em operação no Brasil e milhões de clientes cadastrados. Por trás das promoções, no entanto, o serviço tem sido alvo de reclamações frequentes em órgãos e sites especializados.
Um levantamento realizado pelo Instituto de Defesa do Consumidor do Espírito Santo (Procon-ES) constatou que, até o mês de abril de 2011, existiam apenas cinco registros de reclamações referentes a compras coletivas. Em contrapartida, o site “Reclame AQUI” registrou, até maio deste ano, cinco mil queixas contra os sites “Groupon” e “Peixe Urbano” – maiores páginas de compras desse tipo no país. As principais queixas são decorrentes do despreparo dos fornecedores para atender a demanda dos cupons vendidos, além da cobrança em duplicidade e dificuldade de cancelar a compra. Para Almy Fróes, analista de sistemas e colunista do blogue “Não Acredito”, os problemas começam já na hora do pedido. “A maioria desses sites não tem estrutura para suportar o grande número de pedidos simultâneos”, alerta. As reclamações só não são maiores porque, muitas vezes, o valor pago pelo serviço foi pequeno.
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Pensar no bolso? A lógica dos sites de compras coletivas envolve a quantidade, catalisando o poder das compras em grupo. Uma promoção é disponibilizada por um curto período de tempo e vale, apenas, se um número mínimo de compras for atingido. Os criadores dos sites declaram que essa é uma forma de fazer com que as pessoas experimentem novos produtos e serviços que, ao preço normal, não teriam condições. É o que explica Fernando Chiabai, coordenador de operações do site “Compregol”. “Não se trata de ‘desova’ de produtos e sim de promoções e vantagens que o consumidor só consegue comprando coletivamente”. Conhecer os locais e produtos ofertados pode evitar problemas. É importante ler todas as informações sobre a compra, para que não se perca o prazo de validade, dias em que o cupom emitido é valido e o que está incluído. Guardar todos os e-mails, desde confirmações de compra até respostas a dúvidas também é fundamental. O consumidor deve ficar de olho na hora de adquirir o produto. Sobre as promoções em salões de beleza e estética, o cabeleireiro Beto Serqueira ressalta que muitas vezes os sites não especificam os produtos que serão utilizados, apenas os serviços. “Às vezes é preciso utilizar um produto inferior para que o lucro seja mantido, o que não é correto. Os clientes devem ficar atentos à qualidade – questão que parece fundamental, mas nem sempre é observada”. Registrar a reclamação junto ao site e ao fornecedor do produto também é muito importante. Caso a resposta seja insatisfatória, o cliente deve acionar o Procon ou outros órgãos de Defesa do Consumidor. Promoção sob medida › Sem grande repercussão, esse modelo de compras foi lançado nos Estados Unidos em 2008. A ideia era boa, mas a hora errada. Hoje, com a popularização das redes sociais, o conceito voltou repaginado e está fazendo sucesso. No Brasil, a previsão é que se movimente cerca de um bilhão de reais com as compras coletivas. Além dos sites tradicionais, há aqueles voltados para públicos, cidades ou regiões específicas. Os exemplos são vários e até inusitados. O site Sirva-se (www.sirva-se.com.br), no ar desde outubro de 2010, disponibiliza ofertas de gastronomia. O Oferta Saudável (www.ofertasaudavel.com.br) dá descontos em academias, restaurantes naturais e lojas de produtos macrobióticos. Há até o site para adultos Peixereca (www.peixereca.com.br), que oferta de artigos eróticos a acompanhantes. Primeira Mão
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Um mundo criado por você Nos jogos virtuais, tudo pode ser do seu jeito. E você ainda conta com a ajuda de amigos e conhecidos ››› Carlos Scherrer e Cássia Ramos
Bem vindo a Cássia! Com cerca de 5100 cidadãos, “Cássia” é uma cidade em plena expansão. Criada há cerca de dois meses, a cidadela já evoluiu no número de construções e moradias, sem falar nas plantações, que a cada dia rendem produtos mais que suficientes para abastecer todo o negócio. E como se não bastasse, em Cássia já pode ser encontrada até a sede de uma grande empresa no ramo de café. Com tudo isso, “Cássia” alcançou o 39º nível de desenvolvimento e em breve galgará novas fases e desafios. Em “Alterocopismoville” a situação é parecida. A cidade já ultrapassa os 5300 habitantes e possui ambientes agradáveis para a diversão de seus moradores. Entre órgãos públicos, estabelecimentos comerciais e um banco, encontramos locais para respirar o ar puro, como áreas floridas e um mini zoológico. Isso sem falar na fonte de três cascatas que embeleza todo o ambiente. Esse desenvolvimento extraordinário dá-se devido ao empenho de seu administrador, mais um assíduo e já viciado jogador, que em menos de duas semanas está prestes a alcançar o 20º nível de desenvolvimento em Cityville, jogo do Facebook . As cidades descritas acima não passam de ferramentas de diversão para nossa reportagem. Experiência que nos transportou para o mundo virtual, uma opção de lazer e interação que a cada ano se mostra mais lucrativa financeiramente. Seus idealizadores descobri-
Fotografia Drieli Volponi
ram uma maneira sensacional de fazer dinheiro com as carências e vícios de muitos. Segundo pesquisa divulgada pelo jornal Folha de São Paulo, em fevereiro desse ano, o número de usuários de jogos em redes sociais chega a 25 milhões, somente no Brasil. E a venda de itens complementares a games como FarmVille, Rede do Crime ou Colheita Feliz movimenta R$200 milhões por ano no país. Com o desenvolvimento de novos jogos, há uma expectativa de que esse Há dois meses jogando CityVille, André encontrou no jogo uma opção de lazer e interação mercado cresça 50% ainda esse ano e chegue a R$300 milhões. Números que nos fazem questionar: o que leva os usuários de redes sociais a investirem tempo e dinheiro nesses jogos? Pergunta que só pode ser bem respondida por quem esteve ou está inserido no meio. Jeane Carla da Silva, 32 anos, artesã, moradora de Nova Venécia (ES) e simpatizante declarada da internet e seus benefícios, conta que não consegue parar de jogar FarmVille: quer cumprir suas metas e organizar sua fazenda. “Sei que toma tempo, pois preciso entrar todos os dias para não perder nada do que já fiz ou ficar para trás nos níveis. Pode parecer bobo, mas é divertido”, declara. Já para Lucas Marchi do Vale, 21, trainee administrativo de uma grande empresa, esses jogos não passam de onda. “Você vê que todo mundo começa a jogar e entra pra ver qual é a sensação. No início é
até divertido, mas com o tempo, enjoa. São muitos detalhes para dar conta e não tenho tempo”. O universitário André Cunha Barbosa Lima, 23, há cerca de dois meses encontrou, em Cityville, a opção perfeita para ocupar o pouco tempo que lhe resta durante a semana. “É um espaço bem pensado, que me faz lembrar jogos antigos. E o melhor: proporciona uma interação com amigos distantes, com os quais não tenho mais a oportunidade de conviver no dia a dia”. Mergulhados nesse mundo, vimos que a interação entre os jogadores - podendo um ajudar ao outro; os artifícios para prender usuários - como a espera para atingir objetivos em plena internet 2.0; e o incentivo ao espírito competitivo “amistoso” são fatores que levam muitos a aderir de vez à essa vivência virtual.
De olho na notícia ››› Lucas Schuina e Victorhugo Amorim
A jornalista Suzana Singer fala sobre seu trabalho como ombudsman na Folha de São Paulo
Suzana Singer começou a trabalhar na Folha de São Paulo em 1989. Desde o ano passado, a jornalista de 45 anos é responsável por ouvir as reclamações e críticas dos leitores do jornal e fazer uma avaliação interna do conteúdo publicado diariamente. Aos domingos, ela assina uma coluna na versão impressa da Folha, na qual discute os maiores erros cometidos pela publicação durante a semana. Eventualmente, também faz comentários sobre outros órgãos de imprensa. O nome de sua função é denominado por uma palavrinha sueca: ombudsman.
Este termo surgiu nos países escandinavos para designar o profissional de órgãos públicos que mediava as demandas da comunidade. Na década de 1960, essa função foi assimilada pela mídia norte-americana, criando o ombudsman de imprensa. O objetivo era ter alguém para avaliar o material veiculado diariamente, de maneira independente, trazendo a público debates outrora limitados às reuniões internas das redações. Em 1989, a Folha de São Paulo se tornou o primeiro jornal latino-americano a ter um ombudsman. Suzana Singer é a décima jornalista a exercer o cargo na Folha.
Em geral, um ombudsman trabalha em local afastado da redação e não pode ser demitido no meio do contrato. Essas são medidas adotadas para que os profissionais possam trabalhar com independência, já que eles eventualmente entram em confronto com seus companheiros de trabalho. No primeiro ano de funcionamento do cargo na Folha, por exemplo, houve uma briga emblemática entre o ombudsman Caio Túlio Costa e Paulo Francis, então um dos um dos principais colunistas do jornal e também da TV Globo. Depois de Costa ter escrito o artigo “Sobre Paulo Francis – ou o infantilismo tardio”, no qual afirma que os textos do colega de trabalho deveriam ser lidos como ficção, não como jornalismo, eles passaram a se atacar publicamente em suas respectivas colunas. Francis, notoriamente agressivo e incontinente, chegou a escrever que Costa tinha “cara ferrujosa de lagartixa pré-histórica”, dentre outras gentilezas. A polêmica só cessou com a intervenção da direção do jornal, meses depois. Até o momento, Suzana Singer não se envolveu em grandes confrontos. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Singer fala um pouco sobre seu trabalho.
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Primeira Mão
Julho 2011
Primeira Mão › Passados 22 anos desde que o primeiro ombudsman da América Latina apareceu nas páginas da Folha, poucos jornais brasileiros adotaram a função (no Espírito Santo, por exemplo, nenhum jornal possui esse cargo). Quais as razões disso? Suzana Singer › O fato de haver tão poucos ombudsmans no Brasil mostra que o cargo incomoda, porque implica dar a uma pessoa independência para que ela critique o seu próprio empregador. Acho que isso explica a iniciativa da Folha não ter sido muito seguida. PM › Um ombudsman deve se resguardar de algumas críticas ao veículo de comunicação que representa? SS › Não. PM › Caso surgisse uma nova briga entre o ombudsman e um colunista do jornal com a mesma intensidade como a que aconteceu entre Caio Túlio Costa e Paulo Francis em 1989, como a senhora acha que a direção da Folha reagiria? SS › Não interviria, mas acho que essa briga deixou uma lição de que o ombudsman deve evitar esse tipo de confronto de opinião. O leitor não ganha nada com isso. PM › Na sua primeira coluna como ombusman está escrito: “Estou em busca do leitor silencioso, que se irrita com a
“Já fui acusada de petista, tucana, reacionária, careta e antiamericana. Acho que é sinal de que mantenho a neutralidade” Folha, mas se esquece dela antes de ter tempo de mandar um e-mail reclamando”. A senhora já encontrou esse “leitor silencioso”? O que um jornal deve fazer para se manter antenado com as reais necessidades dos leitores? SS › Tenho feito diariamente contato com leitores que não me procuram. Sorteio nomes na lista de assinantes do jornal e peço que avaliem o jornal. Isso me permite ter uma ideia mais clara do que pensam, mas não tem valor estatístico. Para saber mesmo como está o leitor do jornal, só com pesquisas amplas, como a Folha faz a cada quatro anos. PM › Como foi a cobertura da Folha e da imprensa brasileira nas últimas eleições? É possível citar casos de pressão, sobretudo de partidos políticos, que teve de suportar durante o período? SS › Não sofri pressão de partidos políticos, apenas de militantes, especialmente do PT e do PSDB, que consideravam a cobertura da Folha parcial. É difícil fazer um balanço da imprensa brasileira, mas, sobre a Folha, considero que depois de um começo desequilibrado, o jornal retomou a imparcialidade perto do final do primeiro turno. PM › A Folha tem conseguido cumprir o que promete no Manual de Redação?
SS › Em muitos pontos sim, em outros, não. Fazer jornal é uma batalha diária contra os erros. PM › É sempre difícil encontrar o tom adequado em coberturas jornalísticas de crimes de grande repercussão. Afinal, existe algum exemplo claro de cobertura equilibrada nesses casos? SS › Não conheço um modelo que sirva como exemplo a ser seguido, mas acho que o importante é atender ao interesse do leitor sem se misturar às fórmulas chamadas sensacionalistas, que são as que apelam aos instintos mais primitivos do público. PM › O pai da senhora, o economista Paul Singer, é um dos fundadores do PT e seu irmão, André Singer, foi Porta-Voz e Secretário de Imprensa do Palácio do Planalto no primeiro mandato do governo Lula. É incômodo ter familiares envolvidos com um partido político? SS › Poderia ser, mas não é. Já fui acusada de petista, tucana, reacionária, careta e antiamericana. Acho que é sinal de que mantenho a neutralidade. PM › A senhora costuma criticar as reportagens baseadas em fontes em off. O que deve ser feito para que os leitores possam ter mais confiança no noticiário? SS › A questão do off é muito difícil de lidar,
porque, dependendo da reportagem, significa em última instância acreditar ou não no que diz o jornal. Mas deve-se evitar esse tipo de situação ao máximo, dando detalhes, contextualizando, tentando mostrar documentos etc. PM › Quais são as reclamamações mais frequentes em relação à Folha? E quem são os “reclamões”? SS › As mais frequentes são sobre política (dizem que a Folha tem um viés antigoverno), futebol (o jornal não cobre bem determinados times), serviço (reportagens que não dão informações a mais para o leitor) e apontamento de erros (principalmente de português). Temos alguns leitores frequentes, que escrevem sempre para o ombudsman, são os tais reclamões, mas que ajudam no meu trabalho. PM › Qual o seu local de trabalho? Como é o seu contato com a redação? SS › Fico no oitavo andar, separada da redação. Tenho contato através do blogue da crítica interna (qualquer jornalista pode colocar uma resposta a algum apontamento que eu tiver feito). PM › Como ombudsman, o que achou dessa entrevista? SS › Muito boa, mostra que vocês pesquisaram antes de fazer as perguntas.
No Espírito Santo, nada de ombudsman Na opinião de dois editores dos jornais impressos de maior tiragem do Estado, a função de ombudsman é desnecessária, ao menos no contexto local. “De uns seis anos para cá, a nossa redação mudou bastante. Hoje, nós temos um contato maior com o leitor, através das redes sociais, e-mails e telefones”, afirma André Hees, 43 anos, que trabalha há 20 em A Gazeta, atualmente exercendo o cargo de Editor Executivo. Para Hees, ter um ombudsman é uma maneira da Folha reforçar a imagem de jornal pluralista – o que é legítimo, destaca. Ele diz que na redação há uma avaliação interna quase diária e, além disso, eles possuem um conselho de leitores formado por oito assinantes que fazem críticas ao jornal. Assim como Hees, Joel Soprani, 45 anos, editor de Regional/Internacional/Ciência e Tecnologia em A Tribuna, também acredita que as formas de avaliação e atendimento ao leitor Primeira Mão
Julho 2011
já adotadas são suficientes. “Acho importante o papel do ombudsman, mas não podemos comparar a Folha com A Tribuna. Nosso jornal tem uma abrangência muito menor, por isso o sistema de avaliação que fazemos ainda corresponde”, afirma Soprani, que trabalha há 23 anos no veículo. Mas o jornal já chegou a contratar consultores externos para fazer uma avaliação de conteúdo. Alberto Dines, por exemplo, foi um deles.
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››› Tamiris Vieira
Canção ao Lado “Se era p’ra ouvir a Deolinda, entraram no sítio errado. Nós estamos numa casa ali ao lado”, canta a voz doce de Ana Bacalhau, em “Canção ao lado”, faixa que dá nome ao primeiro álbum lançado pela banda portuguesa Deolinda, em 2008. Formado por Pedro Martins, Luís José Martins, Ana Bacalhau e José Pedro Leitão, Deolinda é um grupo de música popular portuguesa inspirado no tradicional fado.
Em 2008 o álbum “Canção ao Lado” alcançou a lista dos mais ouvidos em Portugal, além de conquistar o disco de ouro e o de platina, que corresponde à venda de mais de 40 mil discos. A voz de Ana Bacalhau interpreta, junto ao som suave dos instrumentos, canções leves com letras criativas, que facilmente envolvem quem as ouve.
33 ››› Victorhugo Amorim
Com o objetivo de colocar em discussão o tema da adoção, considerado pelo diretor como tabu, Kiko Goifman narra sua própria história no documentário “33”. Ele decide buscar sua mãe biológica em 33 dias sua idade em 2003, época da filmagem - e documentar essa busca. O documentário é um road movie que mostra a viagem de Kiko de São Paulo - onde ele mora atualmente - até Belo Horizonte - sua cidade natal. Com um certo tom noir, “33” é guiado por entrevistas feitas com seus parentes, detetives, porteiros, parteiras, personagens envolvidos diretamente ou não com o fato. O que aconteceu no Edifício Genoveva, quando sua mãe adotiva foi receber a adoção? O que uma cartomante, ex-babá de Kiko, vai descobrir, através das cartas, sobre sua mãe biológica? Conseguirá Kiko achá-lá em 33 dias? Será que os conselhos de detetives realmente irão ajudá-lo? A cada dia surgem mais pistas e mais dúvidas. Veja e descubra o final dessa viagem.
››› Rochana Canal
Neste livro, o jornalista norte-americano Joseph Mitchell nos dá uma aula de como fazer bom jornalismo, descritivo e analítico, com personagens anônimos. Descobrimos o quanto da vida, que às vezes consideramos banal, pode ser extraordinário. Seu personagem Joe Gould é “um literato maltrapilho que vivia pelas ruas do bairro boêmio de Greenwich Village carregando lápis, cadernos, guimbas de cigarro e piolhos. Vivia da boa vontade alheia e dizia saber falar a língua das gaivotas”. Mitchell é tão minucioso em sua narrativa que a gente se sente dentro da história. É uma experiência única descobrir as mazelas pelas quais Gould passa para sobreviver. Além de emocionante, “O segredo de Joe Gould” tem uma linguagem fácil e fluida. Não dá vontade de parar de ler.
Livro
O Segredo de Joe Gould