Skip to main content

MDP: Contos russos juvenis

Page 1

MATERIAL DIGITAL DO PROFESSOR

cb n

Contos russos juvenis Daniela Mountian (Org.)

Carta ao professor O presente manual tem por objetivo oferecer apoio pedagógico àqueles para quem o livro Contos russos juvenis foi pensado e preparado: educandos do ensino médio. A pessoa fundamental para o sucesso desse encontro é justamente você, que educa, a quem convidamos a mergulhar nas fascinantes histórias de alguns dos maiores autores russos de todos os tempos. A coletânea traz quinze contos, de 1781 até 1928, em traduções feitas diretamente do russo para o português. Queremos apresentar a literatura clássica russa destinada ao público jovem, dando uma amostragem vasta de temas e estilos. Buscamos também ampliar o repertório de clássicos para a juventude com obras que dão ao leitor a oportunidade de entrar em contato com uma cultura rica e completamente diferente da dele, o que alargará a percepção que ele tem de si e do mundo. O volume tem uma lógica interna, ou seja, contém contos que se ligam entre si, e também marca pontos importantes do desenvolvimento das letras clássicas russas juvenis até o início do século xx. Além de reunir linguagens e gêneros diferentes, os contos revelam questões literárias, sociais e históricas que serão contextualizadas e aprofundadas nas atividades aqui propostas, as quais incentivarão a pesquisa, a produção de textos e o desenvolvimento de outras multimodalidades. O intuito deste manual é, no fim das contas, ajudar a tornar a leitura um hábito e um prazer na vida de jovens do ensino médio. Esperamos que achem este material proveitoso para o trabalho em sala de aula!

obRas 978-65-86862-06-5 (Estudante) 978-65-86862-07-2 (PRofessoR) elaboRaÇÃo Marina Darmaros é jornalista e tradutora. Formada pela Cásper Líbero em Comunicação Social, tem mestrado em Jornalismo Internacional pela Universidade Russa da Amizade dos Povos (RUDN/Patrice Lumumba) e doutorado em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. cooRdenaÇÃo editoRial Jorge Sallum Suzana Salama Paulo Pompermaier ediÇÃo Ana Lancman Sofia Boldrini Renier Silva assistÊncia editoRial Felipe Musetti diagRamaÇÃo e RevisÃo EdLab Press licenÇas cc-by-nc 3.0 bR instituto solaRis Rua Imaculada Conceição, 41 (Cj 3) 01226-020 São Paulo sp 55 11 36661477 editora@kalinka.com.br

Sumário Carta ao professor 1

Propostas de Atividades I 1.1 Pré-leitura . . . . . . 1.2 Leitura . . . . . . . . 1.3 Pós-leitura i . . . . . 1.4 Pós-leitura ii . . . . . 1.5 Pós-leitura iii . . . . 1.6 Pós-leitura iv . . . . .

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

1

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

. . . . . .

2 3 4 7 10 12 18

1/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

2

Propostas de Atividades II 2.1 Pré-leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2.2 Leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2.3 Pós-leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

20 24 27 31

3

Aprofundamento

35

4

Sugestões de referências complementares 4.1 Filmes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4.2 Séries . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4.3 Sites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4.4 Vídeo . . . . . . . . . . . . . . . . . .

5

1

. . . .

37 37 38 38 39

Bibliografia comentada 5.1 Sobre o conto como gênero . . . . . . . . . . . . . .

39 41

. . . .

. . . .

. . . .

. . . .

. . . .

. . . .

. . . .

Propostas de Atividades I

Orientações para as aulas de Língua Portuguesa, a fim de preparar os educandos para a leitura da obra (seções Leitura e Pré-leitura), assim como para sua análise e problematização (Pós-leitura). Tema “O pescador de momentos”: introduzindo a leitura e o gênero do conto. Conteúdo Apresentação, leitura e compreensão de alguns dos Contos russos juvenis e do gênero do conto em si. Trazemos algumas sugestões, mas o educador pode selecionar os textos que considerar mais pertinentes para a atividade. Objetivos Ajudar o jovem leitor a se familiarizar com o gênero do conto, uma das mais efetivas formas de expressão no letramento literário. Justificativa A experiência direta com o conto como gênero textual é uma maneira muito eficaz de incentivar o gosto pela leitura. Conciso e encerrando em si um rigoroso trabalho de seleção, até mesmo devido à extensão limitada, o conto normalmente tem grande apelo ao trazer um episódio singular ou representativo e um número restrito de personagens.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

2/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Nesta coletânea, são apresentados quinze contos, de 1781 a 1928, de renomados escritores russos, com grande variedade de temas e estilos. Há desde textos de linguagem realista e de denúncia, buscando despertar no jovem preocupação e consciência social, até obras do séc. xx que mostram a transformação da ideia de infância, que agora se expressa em universos lúdicos, incentivando a imaginação e a brincadeira. Por exemplo, em “A pedrinha vermelha” (1911), Sacha Tchórny “traz o olhar e a lógica adorável da criança e os leva para o plano da linguagem” 1 ; em “Sobre como Kolka Pánkin viajou para o Brasil e sobre como Pietka Erchóv não acreditou em nada” (1928), Daniil Kharms, trabalhando elementos do nonsense, apresenta um conto sem didatismos. Metodologia O educador pode iniciar uma leitura coletiva para apresentar o texto escolhido e mostrar sua acessibilidade aos educandos. A recomendação, porém, é que a leitura coletiva abarque um conto completo, e não apenas trechos. Seguem alguns pontos que podem ser selecionados para esta atividade:

1.1

Pré-leitura

Tema Pensando no conto. Veja a habilidade da bncc desenvolvida: BNCC

1

EM13LP49

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Perceber as peculiaridades estruturais e estilísticas de diferentes gêneros literários (a apreensão pessoal do cotidiano nas crônicas, a manifestação livre e subjetiva do eu lírico diante do mundo nos poemas, a múltipla perspectiva da vida humana e social dos romances, a dimensão política e social de textos da literatura marginal e da periferia etc.) para experimentar os diferentes ângulos de apreensão do indivíduo e do mundo pela literatura.

É interessante, nesta fase, explicar ao aluno um pouco sobre o gênero literário com que ele trabalhará, destacando alguns pontoschaves, tais como seguem abaixo. 1 mountian, Daniela (organização, prefácio e paratexto). Contos russos juvenis (manual do professor). São Paulo: Kalinka, 2021, p. 25. Daqui em diante, citado como (mountian, 2021). As outras referências estão descritas na Bibliografia Comentada.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

3/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

• O conto é uma narrativa centrada em um fato ou acontecimento, com uma unidade dramática e se mistura “aos primórdios da própria arte literária” (moisÉs, 2004, p. 87). Recebeu várias acepções ao longo dos séculos; passou por lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais italianas, fábulas francesas até chegar ao século xix e ganhar status literário próprio. Questões sugeridas: Alguém se recorda de algum autor de contos? Tem algum conto favorito? Pode falar sobre ele à sala? • O conto difere do romance e da novela não só pela extensão, mas por ter uma estrutura própria: ele registra de forma literária um episódio singular ou representativo, sem buscar abarcar a totalidade, mas, sim, uma amostra da realidade ou um flagrante. É uma narrativa concisa, de poucas personagens, delineando apenas uma história, um conflito. Como ironizou Cortázar, parafraseando um amigo, nesse combate similar ao do boxe, “o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute”. Já Bosi poetiza (1973, p. 9), “em face da história, rio sem fim que vai arrastando tudo e todos no seu curso, o contista é um pescador de momentos singulares cheios de significação”. • Uma proposta é que o estudante faça uma pesquisa prévia, pela internet ou na biblioteca, sobre o conto como gênero e alguns de seus expoentes. Cabe também pedir ao estudante que busque a diferença entre o conto literário e o popular, folclórico ou fantástico, “como os de Grimm ou Perrault, ainda caracterizados pela oralidade. Estes, de criação espontânea, fazem parte do que André Jolles chamou de ‘formas simples”’ (soaRes, 2007, p. 55).

1.2

Leitura

Nesse momento da Leitura, a habilidade da bncc desenvolvida será: BNCC

2

EM13LP46

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Compartilhar sentidos construídos na leitura/escuta de textos literários, percebendo diferenças e eventuais tensões entre as formas pessoais e as coletivas de apreensão desses textos, para exercitar o diálogo cultural e aguçar a perspectiva crítica.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

4/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Cada conto poderá ser lido individualmente para discussão em aula, mas a leitura coletiva é o caminho que recomendamos para a aproximação inicial dos educandos e os textos, de modo que sejam incentivados a relê-los. Fornecemos a seguir uma proposta de leitura que abarca dois pontos extremos da coletânea: 1) “Conto do tsarévitche Cloro” (1781), um dos primeiros textos em prosa para crianças, escrito por Catarina, a Grande, soberana célebre que incentivou as letras e as artes, e 2) “Sobre como Kolka Pánkin viajou para o Brasil e sobre como Pietka Erchóv não acreditou em nada” (1928), de Daniil Kharms, que se tornou um dos expoentes da literatura infantojuvenil no país nos anos 1920. paRa leR Recontar o tempo: apresentação e tradução da Narrativa dos anos passados. Tese de doutorado (usp) de Lucas Simone sobre a Rus Kievana que pode fundamentar o conhecimento do período e jogar luz sobre a ideia de tempo histórico pretendida por Catarina neste conto.

Figura 1: Ilustração de Fido Nesti para o “Conto do tsarévitche Cloro”, de Catarina ii (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

“Conto do tsarévitche Cloro” (1781) A literatura russa infantil se consolidou no romantismo, mas teve um avanço importante na segunda metade do século xviii, no reinado de Catarina ii (1729– 1796), como visto no prefácio do livro. Naquela época, a aristocracia se recusava a falar russo (os nobres, em geral, se comunicavam em francês) e a população não era alfabetizada, por isso a maior parte das publicações literárias para a infância ainda era composta por títulos estrangeiros. Catarina é considerada pioneira na prosa literária infantojuvenil russa por dois textos, e um deles é o “Conto do tsarévitche Cloro”, que dedicou aos netos, Alexandre, futuro imperador, e Constantino. “Conto do tsarévitche Cloro”, que introduz a coletânea, relata a trajetória do filho de um tsar bondoso e justo. Um dia, os pais do tsarévitche Cloro o deixam com sete babás e partem para defender o reino. É quando um cã quirguiz fica sabendo da beleza e da inteligência de Cloro, atrai o menino e o leva para seu reino. Para se libertar de lá, o tsarévitche precisa, segundo as ordens do cã, encontrar “uma rosa sem espinhos, que não pique”. Guiado pelo neto do cã, Juízo, que lhe mostra o “caminho reto”, o tsarévitche inicia sua jornada. • Se hoje a imaginação e a liberdade são normalmente estimuladas nos livros para crianças e jovens, antes os contos destinados a eles eram mais edificantes e didáticos, e essa parábola de Catarina, a Grande, é exemplo disso. A parábola é um texto curto e de estrutura simples que evidencia questões éticas e morais. Ela dialoga com a fábula, mas nesta são os animais que encarnam virtudes morais, enquanto são as pessoas que o fazem na parábola — definida por Massaud Moisés como: “narrativa curta, não raro identificada com o apólogo

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

5/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

e a fábula, em razão da moral, explícita ou implícita, que encerra, e da sua estrutura dramática. Todavia, distingue-se das outras duas formas literárias pelo fato de ser protagonizada por seres humanos” (moisÉs, 2004, p. 337). Questões sugeridas: Sabem o que é uma parábola? Quais elementos éticos e morais foram destacados pela imperatriz? São elementos atemporais? A obra tem caráter moralizante? As personagens são desenvolvidas? paRa veR O Mágico de Oz (Victor Fleming, 1939)

• O enredo deste conto lembra alguma outra história? O filme O maravilhoso mágico de Oz (1939), baseado em livro de Frank Baum, tem algo em comum com a parábola de Catarina? No Mágico de Oz, a menina Dorothy precisa seguir reto pela “estrada de tijolos amarelos” para encontrar o mágico de Oz, mas surgem distrações que a desviam do caminho. Mesmo assim, Frank Baum (1856-1919) fazia parte de uma corrente que afirmava que a função da literatura era divertir e entreter, e não moralizar, papel que, segundo ele, caberia à família e à escola. Vale estimular a discussão nesse sentido, dividindo a sala em dois grupos, para que cada um defenda um ponto de vista. 2. “Sobre como Kolka Pánkin viajou para o Brasil e sobre como Pietka Erchóv não acreditou em nada” (1928) Figura 2: Foto de Daniil Kharms (digitalizada na Casa de Púchkin, São Petersburgo. Domínio público. Direitos da foto, do acervo de Daniela Mountian, cedidos à Kalinka).

Muito diversa do edificante conto de Catarina, a Grande, é a produção de Daniil Kharms, fundador de um coletivo de vanguarda chamado obeRiu (1928) e precursor do teatro do absurdo na Rússia, hoje comparado a autores como Franz Kafka e Eugène Ionesco. As obras de Kharms para adultos só tiveram reconhecimento após 1990 (décadas depois de sua morte trágica e precoce), mas os textos infantojuvenis dele, além de virarem seu ganha-pão, estavam entre os favoritos das crianças russas. “O excêntrico Kharms, na década de 1920, vestia-se com itens da indumentária de Sherlock Holmes (seu herói favorito), participava ativamente de círculos de vanguarda, praticava jiu-jítsu, ioga e xadrez e se interessava pelo ocultismo e pela cabala” (mountian, 2021, p. 359). Sua irreverência se reflete na imaginação solta em suas obras, como lemos neste conto.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

6/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

• O que chama a atenção no modo como Kolka e Pietka lidam com fantasia e realidade? Os dois materializam essa oposição em diálogos hilários, em que um está sempre contradizendo o outro. A história desses dois meninos de Petersburgo que fazem uma viagem imaginária ao Brasil tem um humor que se constrói pelo ilógico, insólito e irracional: “Pietka”, disse Kolka, “olhe só que Brasil!”. “E isto aqui é o Brasil?”, perguntou Pietka. “Seu tonto, será que você mesmo não vê?”, disse Kolka. Aqui, o professor pode introduzir brevemente a noção de nonsense, à qual voltaremos na pós-leitura. Questões sugeridas: A verossimilhança é importante para a história? A lógica da realidade cotidiana se aplica ao enredo? Será que todo texto deve conter um sentido lógico e racional? É possível definir as fronteiras entre realidade e fantasia no conto? paRa leR Sobre os estereótipos do Brasil na Rússia. https://bit.ly/3kYgnMv

• O texto de Kharms trabalha com uma visão bem-humorada e estereotipada de Brasil que se disseminou na Rússia nos anos 1920. Pode ser que os alunos já tenham ouvido falar em estereótipo, por isso valeria perguntar se alguém poderia explicar o termo. Outras questões sugeridas: os educandos conhecem algum estrangeiro, têm exemplos de estereótipos sobre o Brasil que são repetidos em culturas estrangeiras? O que o estudante acha que os russos pensam sobre o Brasil hoje? E o que ele conhece sobre a Rússia? Os alunos podem pesquisar pela internet e apresentar alguns estereótipos sobre a Rússia, fazendo uma verificação sobre a veracidade deles e mostrá-los à classe. Esta atividade poderá ser complementada com uma proposta de escrita que sugerimos para a pós-leitura.

1.3

Pós-leitura i • Espera-se que os educandos assimilem as questões básicas que envolvem a escrita de um conto: uma narrativa mais breve, com ênfase naquilo que é essencial à história (com poucas personagens). À diferença da novela e do romance, elimina as análises minuciosas e as complexidades do enredo, delimitando o tempo e o espaço. No trabalho com contos, é importante que os estudantes assimilem a maneira como o escritor recriou um evento real ou criou um evento ficcional, que tipo de tratamento literário deu às personagens e à

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

7/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

narração (primeira ou terceira pessoa), e qual foi o trabalho envolvido de seleção e de harmonização dos elementos selecionados (por exemplo, normalmente o passado das personagens é descrito em poucas linhas no conto, pois a narrativa fica concentrada em um episódio particular). Conheça a habilidade da bncc abordada: 3

Habilidades de Língua Portuguesa

EM13LP01

Todos os Campos de atuação social

BNCC

Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.

• O educador pode incentivar debates sobre alguma ideia contida no texto, realizar atividades escritas e orais ou avaliações, com o objetivo de aferir o desempenho dos alunos e alunas em relação à leitura e compreensão dos contos. • Exercícios de escrita divertidos podem ser sugeridos na fase pós-leitura. Pode-se, por exemplo, propor aos alunos que invertam a locação do conto de Kharms, em uma redação de uma página: “Sobre como José Silva viajou para a Rússia e sobre como João Santos não acreditou em nada”, ou uma variante feminina. paRa veR “Esqueci como se chama”, dir. Luis Felipe Labaki. Encenação de conto de Daniil Kharms. youtube.com/ watch?v=TynrL12SQ6U (Acesso em 21/03/2021)

• De quais histórias que usam do fantástico, do mundo imaginário e do nonsense o estudante se recorda? Talvez o filme Alice no país das maravilhas (dir. Tim Burton, 2010), baseado no livro homônimo de 1865 de Lewis Caroll? Este é considerado, junto com Edward Lear (1812-1888), “um dos pais da literatura nonsense vitoriana” (leaR, 2016, p. 13) — e ambos foram referência para Kharms. O termo nonsense (“sem sentido”), no contexto literário, foi tomado de empréstimo do título de um livro de Lear: A book of nonsense (Um livro de nonsense), de 1846. A temática da viagem a lugares fantásticos é uma permanente na obra de Lear, que, com problemas respiratórios, percorreu diversos países europeus em busca de tratamento: “se os cenários ‘exóticos’ inspiravam os desenhos

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

8/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

de Lear, também as pessoas, as línguas e os costumes diversos que encontrou serviram-lhe de inspiração” (leaR, 2016, p. 17). Outro que parece seguir a linha do nonsense de Lear é o brasileiro Sérgio Capparelli (1947), cuja obra poética é pura viagem ao mundo mágico infantojuvenil. Seu poema “O Buraco do Tatu”, em que o bichinho percorre o mundo apenas cavando túneis, pode ser lido ao lado do texto de Kharms. Reparemos no seguinte trecho: O tatu cava um buraco À procura de uma lebre, Quando sai pra se coçar, Já está em Porto Alegre. O tatu cava um buraco E fura a terra com gana, Quando sai pra respirar, Já está em Copacabana. O tatu cava um buraco E retira a terra aos montes, Quando sai pra beber água, Já está em Belo Horizonte. (apud KeRsley, 2011, p. 337) Figura 3: Autocaricatura de 1870 Edward Lear (1812-1888), pai do nonsense (Wikipédia; Domínio público).

• Após a leitura do restante do livro em casa, outros temas podem ser trabalhados. Muitos protagonistas são púberes nos contos. Seria interessante que se fizesse uma tipologia das personagens crianças e adolescentes. Por exemplo, o menino acrobata, Serguei, que recupera o cão em “O poodle branco”, ou o garoto de “Bobinho”, de Nikolai Leskóv. Leskóv tinha uma religiosidade particular que se manifesta neste conto: o “bobinho” tem uma alma generosa, é desapegado de tudo e está sempre pronto a sofrer pelo próximo, e por isso é considerado um tolo. O autor aqui descreve uma personagem com traços de iuródivyi, figura embrenhada na cultura popular russa, de caráter religioso, definida como um misto de louco e profeta. Fazendo uma pequena digressão, outro ponto a ser trabalhado na história de Leskóv é o formal: o autor utiliza elementos dos contos populares russos, como a oralidade e a narrativa da experiência (cujos aspectos podem ser aprofundados pelo professor no ensaio de Walter Benjamin “O

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

9/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

narrador”, que mencionamos nas sugestões de leitura). No texto de Leskóv, diferentemente de um texto informativo de jornal, os leitores se tornam quase ouvintes. Enfim, depois de feita uma galeria de personagens, o educando poderia apontar com qual ele mais se identifica e por quê.

Tempo estimado Quatro a cinco aulas de 50 minutos.

1.4

Pós-leitura ii

Tema Podcast de audiocontos. Figura 4: Retrato de Nikolai Leskóv (1831-1895) feito por Fido Nesti (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

BNCC

4

Habilidades de Linguagens e suas Tecnologias

EM13LGG703 Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais.

Acima, temos a habilidade da bncc abordada. Conteúdo Criação de um episódio de podcast literário com análise de um dos contos e leitura de trechos. Leia sobre outra habilidade da bncc envolvida: BNCC

5

EM13LP16

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Produzir e analisar textos orais, considerando sua adequação aos contextos de produção, à forma composicional e ao estilo do gênero em questão, à clareza, à progressão temática e à variedade linguística empregada, como também aos elementos relacionados à fala (modulação de voz, entonação, ritmo, altura e intensidade, respiração etc.) e à cinestesia (postura corporal, movimentos e gestualidade significativa, expressão facial, contato de olho com plateia etc.).

Objetivos Incentivar o jovem leitor a novos letramentos, multiletramentos e multimodalidades por meio da produção cultural digital em grupo. Conheça as habilidades da bncc relacionadas com a atividade:

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

10/43


MateRial digital do pRofessoR

BNCC

6

EM13LP45

cb n

Habilidades de Língua Portuguesa Campo jornalístico-midiático

Analisar, discutir, produzir e socializar, tendo em vista temas e acontecimentos de interesse local ou global, notícias, fotodenúncias, fotorreportagens, reportagens multimidiáticas, documentários, infográficos, podcasts noticiosos, artigos de opinião, críticas da mídia, vlogs de opinião, textos de apresentação e apreciação de produções culturais (resenhas, ensaios etc.) e outros gêneros próprios das formas de expressão das culturas juvenis (vlogs e podcasts culturais, gameplay etc.), em várias mídias, vivenciando de forma significativa o papel de repórter, analista, crítico, editorialista ou articulista, leitor, vlogueiro e booktuber, entre outros.

BNCC

7

EM13LP53

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Produzir apresentações e comentários apreciativos e críticos sobre livros, filmes, discos, canções, espetáculos de teatro e dança, exposições etc. (resenhas, vlogs e podcasts literários e artísticos, playlists comentadas, fanzines, e-zines etc.). paRa leR Uma fonte de inspiração pode ser o texto do jornalista e professor de produção de podcasts Thiago Kaczuroski: medium.com/@othiagokazu (Acesso em 21/03/2021).

Justificativa A realização de um episódio de podcast literário visa a diversificar as produções culturais contemporâneas ao mesmo tempo que se amplia o repertório de clássicos estrangeiros, possibilitando ao jovem absorver a cultura impressa e ir além com a multimodalidade. A atividade incentivará o letramento em novas mídias, permitindo que todos sejam produtores, imbricando ainda mais as práticas de leitura e produção, consumo e circulação de textos. Leia sobre as habilidades da bncc abordadas: BNCC

8

EM13LP17

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Elaborar roteiros para a produção de vídeos variados (vlog, videoclipe, videominuto, documentário etc.), apresentações teatrais, narrativas multimídia e transmídia, podcasts, playlists comentadas etc., para ampliar as possibilidades de produção de sentidos e engajar-se em práticas autorais e coletivas.

BNCC

9

EM13LP28

Habilidades de Língua Portuguesa Campo das práticas de estudo e pesquisa

Organizar situações de estudo e utilizar procedimentos e estratégias de leitura adequados aos objetivos e à natureza do conhecimento em questão.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

11/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Metodologia A ideia é dividir a sala em grupos de três ou quatro alunos. Inicialmente, após escolherem um ou dois contos a serem trabalhados, eles fazem um fichamento e, a partir disso, juntos, escrevem um texto analítico, do qual sairá o roteiro do podcast literário. O episódio pode conter trechos lidos da obra, de modo a torná-lo mais interessante — um recurso para enriquecer a leitura desses excertos é a multiplicidade de locutores no caso de diálogos, além do narrador. A gravação poderá ser feita pelo celular, editada por aplicativos simples no aparelho e publicada em serviços como o Spotify ou SoundCloud. Uma opção no caso de impossibilidade de acesso a esses equipamentos é a leitura dramática dos contos em sala de aula. Saiba quais são as habilidade da bncc trabalhadas no fim do processo: BNCC

10

EM13LP18

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Utilizar softwares de edição de textos, fotos, vídeos e áudio, além de ferramentas e ambientes colaborativos para criar textos e produções multissemióticas com finalidades diversas, explorando os recursos e efeitos disponíveis e apropriando-se de práticas colaborativas de escrita, de construção coletiva do conhecimento e de desenvolvimento de projetos.

BNCC

11

EM13LP34

Habilidades de Língua Portuguesa Campo das práticas de estudo e pesquisa

Produzir textos para a divulgação do conhecimento e de resultados de levantamentos e pesquisas – texto monográfico, ensaio, artigo de divulgação científica, verbete de enciclopédia (colaborativa ou não), infográfico (estático ou animado), relato de experimento, relatório, relatório multimidiático de campo, reportagem científica, podcast ou vlog científico, apresentações orais, seminários, comunicações em mesas redondas, mapas dinâmicos etc. –, considerando o contexto de produção e utilizando os conhecimentos sobre os gêneros de divulgação científica, de forma a engajar-se em processos significativos de socialização e divulgação do conhecimento.

Tempo estimado Cinco a seis aulas de 50 minutos.

1.5

Pós-leitura iii

Tema Romantismo, realismo e outras estéticas literárias. Conteúdo Características do romantismo, do realismo e de outras tendências presentes nos Contos russos juvenis.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

12/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Objetivos Conectar a leitura dos Contos russos juvenis ao currículo escolar de literatura do ensino médio, auxiliando os alunos a identificarem nos textos elementos dos períodos literários pertinentes. Justificativa Esta proposta de letramento busca a via curricular do ensino médio ao propor que o estudante aplique os conhecimentos literários obtidos em sala nos textos trabalhados. Conheça a habilidade da bncc envolvida: BNCC

Habilidades de Língua Portuguesa

12

EM13LP52

Campo artístico-literário

Analisar obras significativas das literaturas brasileiras e de outros países e povos, em especial a portuguesa, a indígena, a africana e a latinoamericana, com base em ferramentas da crítica literária (estrutura da composição, estilo, aspectos discursivos) ou outros critérios relacionados a diferentes matrizes culturais, considerando o contexto de produção (visões de mundo, diálogos com outros textos, inserções em movimentos estéticos e culturais etc.) e o modo como dialogam com o presente.

Metodologia aula:

Algumas questões podem ser debatidas em sala de

Romantismo Como lemos no prefácio do livro (mountian, 2021), a literatura infantil despertou a atenção dos escritores durante o romantismo, quando histórias fantásticas se destacaram, com dois mundos distintos, o da realidade e o da fantasia. Ou seja, o leitor sabe distinguir quando o narrador trata de uma e de outra. Um dos contos mais emblemáticos desse momento é “A cidadezinha da tabaqueira” (1834), de Vladímir Odóievski (1802–1869), em que um menino entra dentro de uma caixinha de música — os objetos que ganham vida deixam transparecer traços da obra de E. T. A. Hoffman (1776–1822). A linguagem do conto tem um tom terno e infantil, com o uso de onomatopeias. Questões sugeridas: O aluno sabe que recurso linguístico é esse? Pode dar exemplos na obra? Poderia versar sobre a interação dos elementos da caixinha de música? Eles existem coletivamente, ou seja, um depende do outro, e a caixinha só funciona com cada um fazendo a sua parte (uma espécie de “alegoria da sociedade”):

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

13/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

— Zás, zás, zás — respondeu a rainha —, que menino desmiolado, que menino tonto! Olha para tudo e não vê nada! Se eu não tocasse no cilindro, o cilindro não giraria; se o cilindro não girasse, não engancharia nos martelinhos, os martelinhos não bateriam, os sininhos não tocariam; se os sininhos não tocassem, não haveria música! Zás, zás, zás! paRa leR “Aleksandr Nikoláievitch Afanássiev e o conto popular russo”: dissertação de mestrado de Flávia Cristina Moino, usp (Acesso em 21/03/2021).

paRa veR “Prisioneiro das montanhas”, versão contemporânea do conto de Tolstói (1996, Serguei Bodróv, Rus, caz)

Além da prosa fantástica, no romantismo surge o interesse pelo folclore, que se refletiu no florescimento de estudos folclóricos russos, como expressão de nacionalismo. Histórias populares, transmitidas oralmente, passaram a ser coletadas e sistematizadas. O caso mais representativo é o da coletânea Contos russos populares (1865-1863), de Aleksándr Afanássiev. São histórias simbolicamente muito ricas e marcadas pela oralidade, sem trazer em geral refinamento literário: quem começou a dar forma poética a elas foi Aleksándr Púchkin (1799-1837), o poeta mais amado da Rússia. De criação espontânea, elas fazem parte do que André Jolles chamou de “formas simples” (apud gotlib). Nossa coletânea não traz contos populares russos em si, mas alguns procedimentos narrativos deles são utilizados por autores como Leskóv e Sologub. Questões sugeridas: Conhece alguma história do folclore brasileiro? Você ouviu a história de alguém ou leu num livro? Você se identifica com ela?

Realismo Em geral, as grandes obras do realismo russo, escritas por nomes como Ivan Turguêniev (1818–1883), Fiódor Dostoiévski (1821–1881) e Lev Tolstói (1828–1910), tangenciam questões sociais e humanitárias. E a mesma tendência se revelou nos contos infantis, que respondiam a anseios de um momento histórico conturbado, já que as reformas institucionais do tsar Alexandre ii nos anos 1860 tiveram reflexo em toda a sociedade. A literatura infantojuvenil passou a ser alvo de interesse de escritores e críticos. Muitos nesse período achavam que crianças não tinham que ser poupadas da realidade e que deveriam ler textos para adultos desde o início da adolescência, uma concepção de infância diferente da de hoje. Mas Lev Tolstói, além de escrever livros emblemáticos como Anna Kariénina e Guerra e paz, dedicou boa parte de sua vida a projetos educacionais, editoriais e literários voltados exclusivamente para os pequenos russos. Escreveu vários textos dedicados ao público juvenil que se tornaram clássicos do gênero, como “О prisi-

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

14/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Figura 5: Lev Tolstói (1828-1910) rodeado de crianças na inauguração da Biblioteca Nacional do Povo em Iásnaia Poliana. Foto (1910): A. Saviéliev (1883-1923) (Wikipédia russa; Domínio público).

oneiro do Cáucaso”, incluído na coletânea, conto tão conhecido na Rússia que foi adaptado duas vezes para o cinema. “Com ritmo contagiante e temas universais (traição, amizade, esperança, audácia, etc.), o narrador de Tolstói, que adota o ponto de vista russo, mantém o colorido local ao descrever os tártaros, sem cair na caricatura simplória, usando da técnica contrastiva e de uma linguagem saborosa e ao mesmo tempo simples, sem excessos” (mountian, 2021, p.19). Embora suas obras tenham elementos românticos, Ivan Turguêniev (1818 –1883) é outro representante do realismo russo com textos que, sem deixar de tocar em questões universais (como o amor e a morte), exploram dilemas sociais. Os contos que integram suas

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

15/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Memórias de um caçador (1852), por exemplo, tiveram tanta repercussão na Rússia que contribuíram para a emancipação dos servos em 1861. Apesar de gostar de crianças, o escritor quase não deixou obras para elas. No entanto, o tristíssimo conto “Mumu” (1854), mesmo não tendo sido escrito unicamente para o público juvenil, foi adotado pelas escolas russas e é uma das histórias sobre animais mais conhecidas do país. “Baseado num acontecimento real, o conto retrata o duro destino da doce Mumu, a spaniel de Guerássim, um brutamontes surdo-mudo, de caráter duro, mas inocente, que todos temiam e de algum modo respeitavam” (mountian, 2021, p. 19).

Figura 6: Ilustração de Fido Nesti para “Mumu”, conto de Ivan Turguêniev (1818-1883) (Kalinka.; Direitos cedidos à Kalinka).

Figura 7: Retrato de Anton Tchékhov (1860-1904) feito por I. Levitan (1860-1900) em 1885/1886 (Wikipedia.; Direitos cedidos à Kalinka).

Novo realismo Contista por excelência e criador de um novo tipo de realismo, Anton Tchékhov surge em dois textos da coletânea: “Vanka” (1896) e “O fugitivo” (1887), ambos muito conhecidos na Rússia. No comovente “Vanka”, um menino órfão, vivendo em condições miseráveis, “escreve uma carta ao avô para que venha buscá-lo, uma carta sem endereço que nunca chegará…” (mountian, 2021, p.361). Os contos tchekhovianos mudaram o rumo da prosa curta mundial, construídos com tanta sutileza, que o leitor muitas vezes precisa de tempo para enxergá-la. Nádia Gotlib nota que neles a unidade tradicional, com início, meio e fim, é rompida. Como lembra Boris Schnaiderman (apud gotlib, 2006, p. 27) em seu artigo “Por falar em conto”: “é justamente pelo meio que os seus contos inovam”; muitas vezes o fim é inconclusivo neles; o que realmente “importa está em detalhes quase imperceptíveis ou no que foi deixado de dizer” (mountian, 2021, p.21); os enredos não têm um caráter grandioso e se voltam para episódios cotidianos e aparentemente desimportantes. Além disso, Gotlib (2006, p. 25) observa que: “a intenção de Tchékhov-escritor realista é repetidamente anunciada por ele mesmo: representar a verdade, que é ‘a absoluta liberdade do homem, liberdade da opressão, dos preconceitos, ignorância, paixões, etc.’ E denunciar uma situação condenável”. Esse caráter de denúncia também define obras de Aleksándr Kuprin (1870-1938) e de Lídia Avílova (1864-1943). Avílova tem o nome geralmente ligado ao de Anton Tchékhov por ter escrito uma biografia do autor e ter tido uma relação próxima com ele — Tchékhov inclusive dava conselhos sobre os textos dela, elogiados por Tolstói. Além disso, aproximam-na dele a temática social, a predileção pelo conto e algumas marcas de estilo. Em “Primeira mágoa” (1912), te-

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

16/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

mos a história de Gricha, um jovenzinho que se vê diante de seu primeiro dilema ético. Um dia, Ignát, o bom cocheiro a quem o menino havia se afeiçoado, foi preso por ter fugido, antes de trabalhar na família de Gricha, com os cavalos do antigo patrão, que tratava seu empregado como escravo. Algumas questões podem ser colocadas aos educandos: O cocheiro deveria ser preso? Qual foi a grande mágoa do menino? O que ele esperava do pai?

Figura 8: Retrato feito por Fido Nesti de Lídia Avílova (1864-1943) (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

Figura 9: Ilustração de Fido Nesti para “A pedrinha vermelha”, conto de Sacha Tchórny (1880-1932) (Kalinka.; Direitos cedidos à Kalinka).

Simbolismo e outras tendências do início do século xx A Era de Prata, como se convencionou chamar a fase que vai do simbolismo às diversas correntes de vanguarda, se estendeu por um período curto da história russa, por cerca de trinta anos, mas deixou criações impressionantes. O princípio dessa concentração de artistas inovadores se deu no simbolismo russo, que teve seu ápice no começo do século xx. Com o interesse simbolista pelo mito e pelo folclore, muitos representantes desse movimento revisitaram o conto maravilhoso, como Fiódor Sologub, que surge na coletânea com “A filha do fabricante de caixões”, história que traz uma mistura de mundos (típica do escritor) e o tema da morte concentrado na protagonista, com um clima sinistro e gótico que por vezes lembra as aparições de Catherine em O morro dos ventos uivantes (1847), de Emily Brontë. Prenunciando a nova literatura russa infantil, como destaca Mountian (2021), está “A pedrinha vermelha”, de Sacha Tchórny (1875-1937), que ficou conhecido por seus textos satíricos. O conto foi escrito ao gosto infantil, preservando o olhar da criança, e tem uma linguagem saborosa com aliterações, criando onomatopeias que imitam as vozes dos animais, já que o protagonista escutava a conversa deles. O conto de Tchórny, pelo caráter fantástico e até pelas onomatopeias, dialoga com “A cidadezinha na tabaqueira”, de Vladímir Odóievski (1803-1869). Questões sugeridas: O que é aliteração? O estudante pode dar algum exemplo desse recurso linguístico? Os contos “A pedrinha vermelha” e “A cidadezinha na tabaqueira” têm pontos em comum? Como a realidade e a fantasia se relacionam neles? São mundos distintos ou se misturam? No início do séc. xx, a escritora predileta das moças russas era Lídia Tchárskaia (1875–1937), que passava ao largo dos círculos artísticos. “Tchárskaia produzia febrilmente e, por anos, tudo o que publicava virava best-seller. Muitas de suas heroínas românticas, sentimentais e positivas, de caráter marcante (não raro órfãs), movi-

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

17/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

das por valores de moral elevada (bondade, amizade, generosidade), eram popularíssimas na Rússia”, embora em geral não tenham conquistado o respeito dos críticos (mountian, 2021, p.25). Tchárskaia enveredou por vários gêneros e estilos e escrevia sem parar, mas, com a instauração do regime soviético, as coisas mudaram. De autora preferida das russinhas, ela tornou-se uma figura indesejada — teve seus livros proibidos nos anos 1920, após uma enxurrada de críticas negativas dizendo, em geral, que sua obra não condizia com os ditames do novo governo. A escritora viveu na miséria, sem exercer a profissão, entre 1924 e 1938, quando morreu. Nos contos aqui apresentados, temos protagonistas femininas em vidas cotidianas. Em “A mãe”, é retratado o duro ramerrão de uma pobre viúva e, no fim, como ocorre no conto de Avílova, o filho Volódia (Vladímir) passa por um processo de conscientização. Em “A prova”, são descritas as aflições de Nata na véspera de um exame que certamente muitos estudantes vão reconhecer. Os alunos podem discorrer sobre o narrador, o tempo usado (passado próximo ou longínquo, presente), sobre a temática (cotidiana ou não). Tempo estimado Quatro a seis aulas de 50 minutos.

1.6

Pós-leitura iv

Tema Oficina e sarau de minicontos. Conteúdo Oficina para produção de minicontos autorais e sarau para apresentação. Em seguida, a habilidade da bncc abordada: BNCC

13

EM13LP47

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Participar de eventos (saraus, competições orais, audições, mostras, festivais, feiras culturais e literárias, rodas e clubes de leitura, cooperativas culturais, jograis, repentes, slams etc.), inclusive para socializar obras da própria autoria (poemas, contos e suas variedades, roteiros e microrroteiros, videominutos, playlists comentadas de música etc.) e/ou interpretar obras de outros, inserindo-se nas diferentes práticas culturais de seu tempo.

Objetivos Incentivar a escrita e socialização da produção textual por meio dos conhecimentos obtidos sobre o conto, promovendo um trabalho protagonizado por estudantes do ensino médio.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

18/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Justificativa A partir da criação de uma atividade que promova articulação entre áreas do conhecimento, a oficina favorecerá a autonomia dos alunos, além da prática sistemática de leitura, pesquisa e escrita de textos com o conto como base. Leia outra habilidade da bncc que será desenvolvida: BNCC

14

EM13LP20

Habilidades de Língua Portuguesa Campo da vida pessoal

Compartilhar gostos, interesses, práticas culturais, temas/ problemas/questões que despertam maior interesse ou preocupação, respeitando e valorizando diferenças, como forma de identificar afinidades e interesses comuns, como também de organizar e/ou participar de grupos, clubes, oficinas e afins.

Metodologia Pode existir inspiração em um simples objeto inanimado? Segundo o mestre contador de histórias colombiano Gabriel García Márquez, sim: A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. Que tipo de mistério é esse, que faz com que o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão, e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão, morrer de fome, de frio ou do que for, desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada, e que afinal, pensando bem, não serve para nada? Algumas vezes acreditei — ou melhor, tive a ilusão de estar acreditando — que ia descobrir, de repente, o mistério da criação, o momento exato em que uma história surge. […] Dia desses, folheando uma revista Life, encontrei uma fotografia enorme. É uma foto do enterro de Hiroíto. Nela, aparece a nova imperatriz, a esposa de Akihito. Está chovendo. Ao fundo, fora de foco, aparecem os guardas com suas capas brancas, e mais ao fundo ainda, a multidão com guarda-chuvas, jornais e pedaços de pano na cabeça; e no centro da foto, totalmente vestida de negro, aparece a imperatriz, num segundo plano, solitária e muito magra. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. Uma história que, claro, não é a da

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

19/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

morte do imperador, a que a fotografia está contando, mas outra: uma história de meia hora. Fiquei com essa ideia na cabeça, e ela continuou lá, dando voltas. Já eliminei o fundo, me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco, das pessoas… Por um momento, fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva, mas logo descartei também. E então, a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. (mÁRez, 2004 p.14-15) Veja a habilidade da bncc envolvida: BNCC

15

Habilidades de Língua Portuguesa

EM13LP54

Campo artístico-literário

Criar obras autorais, em diferentes gêneros e mídias – mediante seleção e apropriação de recursos textuais e expressivos do repertório artístico – , e/ou produções derivadas (paródias, estilizações, fanfics, fanclipes etc.), como forma de dialogar crítica e/ou subjetivamente com o texto literário.

A ideia aqui é que o jovem escritor dê asas à imaginação e crie um conto de duas a três páginas sobre um acontecimento real ou fictício, aplicando os conceitos aprendidos em sala sobre o gênero. A oficina pode se iniciar com uma troca de impressões sobre a coletânea e sobre a futura redação, a qual os alunos devem trabalhar individualmente: “no fim, só uma pessoa escreve a história (…) Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente, mas na hora de escrever o roteiro, a tarefa tem de ser de um só” (mÁRez, 1995, p.13). Tempo estimado Três a quatro aulas de 50 minutos.

2

Propostas de Atividades II

Orientações gerais para a utilização dos temas e conteúdos presentes na obra com uma abordagem interdisciplinar. Tema Cineclube Catarina: o contexto histórico do surgimento de uma literatura infantojuvenil russa.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

20/43


MateRial digital do pRofessoR

BNCC

16

EM13LP01

cb n

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Relacionar o texto, tanto na produção como na leitura/escuta, com suas condições de produção e seu contexto sócio-histórico de circulação (leitor/audiência previstos, objetivos, pontos de vista e perspectivas, papel social do autor, época, gênero do discurso etc.), de forma a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de análise crítica e produzir textos adequados a diferentes situações.

Acima, leia sobre a habilidade da bncc abordada. Conteúdo O tempo-espaço em que começou a florescer a literatura infantojuvenil na Rússia, ou seja, em meio ao ápice do chamado “despotismo esclarecido” russo: o reinado de Catarina ii (Catarina, a Grande). Objetivos Situar o jovem leitor no contexto histórico russo e mundial em que se inseriu o reinado de Catarina ii, que ajudou a dar os primeiros passos para a consolidação da literatura infantojuvenil russa.

Figura 10: Retrato feito por Fido Nesti de Catarina, a Grande (1729-1796) (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

Justificativa A literatura infantojuvenil passou a ser valorizada na Rússia no romantismo, a partir da segunda década do século xix. Mas, ainda no final do século anterior, houve eventos importantes para a consolidação das letras russas infantis (como a criação da revista Leitura infantil para o coração e a razão) e um aumento de publicações voltadas para esse público (mountian, 2021, p. 12). Além disso, foi no fim do século xviii que surgiu este que é considerado o La Fontaine russo: Ivan Krylóv (1769–1844). A própria imperatriz Catarina, a Grande (que reinou de 1762 a 1796), pregando os ideais de Rousseau, achava que conhecimento do mundo deveria ser adquirido desde a infância pela leitura. Prussiana de nascimento, ela manteve permanente correspondência com filósofos franceses, como Voltaire, que chegou a visitar a corte de São Petersburgo, então capital russa. As “Luzes” da imperatriz foram, porém, mais lenda que realidade em alguns âmbitos: embora ela tenha realizado reformas administrativas importantes, incentivando as universidades de Moscou e São Petersburgo, estimulando as ciências naturais, apoiando a agricultura na Ucrânia e nas margens do Volga, foi implacável com antagonistas políticos. Durante seu reinado, foi criada a Zona de Assentamento para Judeus, que restringia a circulação deles no restante do império.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

21/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Conheça as habilidades da bncc envolvidas: BNCC

17

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

EM13CHS203 Comparar os significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas (civilização/barbárie, nomadismo/sedentarismo, esclarecimento/obscurantismo, cidade/campo, entre outras).

BNCC

18

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

EM13CHS603 Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).

Metodologia Após a expansão do Grão-Ducado de Moscou para leste (Urais e Sibéria), noroeste e sul, a Rússia se tornou um dos reinos que passou por reformas inspiradas no Iluminismo. Foi no reinado do tsar Pedro, o Grande, que o país começou a adotar costumes da Europa ocidental, com imposições que iam desde a obrigatoriedade de todo nobre se barbear e usar trajes europeus (os nobres russos usavam barbas longas e vestimentas à moda oriental) e de aprender a ler e a escrever, até a impressão do primeiro jornal russo, o Notícias (Viédomosti), em janeiro de 1703. Tudo isso após o jovem Pedro ter realizado uma inspiradora jornada de dois anos por países europeus que começara em 1697. Alguns anos depois de retornar, o tsar determinou a construção de São Petersburgo (capital do império a partir de 1712) e passou a introduzir costumes europeus na Rússia, ignorando as queixas dos nobres. Mas a época áurea do chamado “despotismo esclarecido” ocorreu no reinado de Catarina, a Grande (1729–1796). Ela escreveu uma cartilha para os netos em 1781 e alguns textos e diálogos edificantes. Duas obras suas são consideradas pioneiras da prosa infantil russa: “Conto do tsarévitche Cloro” (1781) e “Conto dо tsarévitche Fеvei” (1783), que, “sem viés nacionalista”, ressaltam valores universais, como justiça e bondade, como observado no prefácio (mountian, 2021, p.11).

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

22/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Para realizar esta atividade, sugerimos que os alunos pesquisem, individualmente ou em grupo, pela internet ou na biblioteca, sobre o reinado de Catarina, a Grande, e sobre o contexto mundial que permitiu o desenrolar do chamado “despotismo esclarecido”. paRa leR Em seguida, podem ser exibidos trechos da série Catarina, a “De calendários a batatas: 5 legados de Grande (Philip Martin, 2019, disponível no hbo go), principalmente Pedro, o Grande, para a Rússia” do primeiro capítulo, que vale ser mostrado integralmente. Após a exibição, a sala formará uma roda de conversa para debater alguns pontos: Quais tendências iluministas de Catarina são retratadas pelos autores na série? O aluno pode fazer menções à relação da soberana com Voltaire e às concepções dela sobre casamento e divórcio retratadas no episódio; à sua ideia de abolir a servidão (o que só será realizado, efetivamente, pelo tsar Alexandre ii em 1861); à presença de Thomas Dimsdale (médico inglês que desenvolveu um método de prevenção de varíola por inoculação para proteção de cepas mais virulentas e foi convidado para ir ao Império Russo em 1768 por Catarina, para inocular a imperatriz, o filho e 140 membros da corte — realizando a “variolação” antes do “pai da imunologia” Edward Jenner, que testou seu procedimento de vacinação contra a varíola em 1796); à escrita, em seu quarto, sobre ideias de igualdade diante da lei. Na via contrária, quais indícios de despotismo poderiam ser apontados? Quem foi Ivan vi, o “prisioneiro número 1” de Shlisselburg? E por que a relação de Catarina com o filho, Paulo, era tão turbulenta? Como a política externa russa de Catarina ii deu continuidade à de Pedro I? Após se aprofundar mais na história da imperatriz russa, o estudante consegue captar outras nuances na obra escrita para os netos que aparece em Contos russos juvenis? Leia sobre a habilidade da bncc desenvolvida: BNCC

19

EM13LP02

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Estabelecer relações entre as partes do texto, tanto na produção como na leitura/escuta, considerando a construção composicional e o estilo do gênero, usando/reconhecendo adequadamente elementos e recursos coesivos diversos que contribuam para a coerência, a continuidade do texto e sua progressão temática, e organizando informações, tendo em vista as condições de produção e as relações lógico-discursivas envolvidas (causa/efeito ou consequência; tese/argumentos; problema/solução; definição/exemplos etc.).

Tempo estimado Três a quatro aulas de 50 minutos.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

23/43


MateRial digital do pRofessoR

2.1

cb n

Pré-leitura

Tema A mulher nos Contos russos juvenis. Conteúdo Análise da figura feminina, sobretudo a da mãe, na literatura russa ao longo de um período que cobre desde o século xviii ao início do xx. Objetivo Abranger uma diversidade de temas e de contextos sociais, culturais e históricos que se mostra de suma importância para a vida de mulheres. Os contos reunidos na coletânea trazem personagens femininas de origens geográficas, classes sociais e faixas etárias diferentes, tornando possível ao aluno fazer comparações, com o auxílio de professores da área de ciências humanas. Em seguida, a habilidade da bncc envolvida: BNCC

20

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

EM13CHS603 Analisar a formação de diferentes países, povos e nações e de suas experiências políticas e de exercício da cidadania, aplicando conceitos políticos básicos (Estado, poder, formas, sistemas e regimes de governo, soberania etc.).

Justificativa Ao longo do século xviii, o aumento da indústria caseira ou doméstica europeia teve um grande impacto no papel das mulheres, já que a economia doméstica se caracterizava pela combinação entre agricultura e manufatura (apenas a exploração agrária era insuficiente para sustentar uma família). Assim, como escreve Wendy Goldman: O desafio plebeu à autoridade patriarcal desde baixo se combinava com o desafio filosófico desde cima, uma vez que debates sobre a mulher e a família atraíam pensadores livres do Iluminismo. Embora as filosofias não estivessem preocupadas diretamente com a libertação das mulheres, elas moldavam a discussão do papel das mulheres de uma maneira totalmente nova ao abri-la para questões de diferença de gênero e para o potencial de igualdade das mulheres (goldman, 2014, p. 37).

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

24/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Mas, enquanto muito do pensamento filosófico na época era novo, as conclusões dos filósofos continuavam a ser conservadoras. Por exemplo, Diderot, ao mesmo tempo que criticava instituições e costumes que limitavam a mulher, acreditava que as mulheres eram propensas, como um defeito de nascença, à histeria e incapazes de manter concentração mental. Assim, as expressões limitadas de feminismo contidas na Revolução Francesa demonstraram que as demandas pela emancipação da mulher não poderiam ser realizadas enquanto o lar desempenhasse papel central na produção. Em seus momentos mais radicais, os filósofos questionaram a superioridade “natural” do homem e defenderam mais oportunidades educacionais para as mulheres. Voltaire e Diderot questionaram a desigualdade legal e Montesquieu defendeu que o caráter feminino não era inato, mas sim o resultado de uma educação ruim e de oportunidades limitadas (goldman, 2014, p. 38). Nesse sentido, a Rússia esteve entre os países pioneiros ao permitir que pessoas do sexo feminino tivessem suas próprias instituições de ensino superior (já que elas não podiam frequentar as existentes). Em 1869 foram fundados os primeiros cursos superiores para mulheres, os Cursos Lubianskie de Moscou e os Cursos Alartchinskie de São Petersburgo, ali seguidos dos Cursos Vladimirskie (1870), para homens e mulheres, dos Cursos Guerrier (1872), em Moscou, e dos Cursos Bestujev (1878). Isso permitiu pela primeira vez que cientistas, professoras rurais e revolucionárias obtivessem formação superior no país. Vale lembrar que, na década de 1920, quando Virginia Woolf foi convidada a palestrar em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres (o que deu origem ao ensaio Um teto todo seu), ela relatou que, refletindo sobre o colóquio, resolveu se sentar no gramado de Oxbridge e foi de lá expulsa por um bedel horrorizado: “Ele era um bedel; eu era uma mulher. Aqui era o gramado; ali estava o caminho. Somente os estudantes [do sexo masculino] e os professores eram admitidos aqui” (woolf, 2014, p. 15). Só em outubro de 1920 as mulheres passaram a ser admitidas formalmente em Oxford. A chamada “questão feminina” passou a povoar o pensamento e a cultura russos em meados do século xix. Manifestações de au-

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

25/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

toras russas a respeito da condição feminina começaram a se evidenciar em escritos das décadas de 1830 e 1840, deixando um legado significativo. Os avanços dos sociais-democratas europeus na questão da mulher certamente influenciaram suas contrapartes russas, mas os círculos progressistas na Rússia há tempos defendiam as ideias de união livre e de igualdade das mulheres. A ênfase de George Sand no amor e nos imperativos emocionais do coração encontrou um público entusiasta entre a aristocracia russa na década de 1830, e as defensoras da educação feminina nos anos 1850 reiteraram muitos debates europeus sobre o potencial das mulheres (goldman, 2014, p. 64). Figura 11: Retrato feito por Fido Nesti de Lídia Tchárskaia (1875-1938), escritora russa infantojuvenil mais lida no início do séc. xx (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

Os anos 1850 podem ser considerados um marco na primeira onda da luta pela emancipação feminina. O movimento avançou durante a segunda metade do século xix e atingiu seu ápice entre as Revoluções de 1905 e 1917, estendendo-se até 1920. Assim, a representação feminina na literatura russa é uma fonte de estudo valiosíssima para se compreender a situação da mulher antes de sua emancipação em várias partes do mundo. Conheça a habilidade da bncc abordada: BNCC

21

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

EM13CHS201 Analisar e caracterizar as dinâmicas das populações, das mercadorias e do capital nos diversos continentes, com destaque para a mobilidade e a fixação de pessoas, grupos humanos e povos, em função de eventos naturais, políticos, econômicos, sociais, religiosos e culturais, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a esses processos e às possíveis relações entre eles.

Metodologia São diversas as personagens femininas representadas em Contos russos juvenis, procedentes de épocas, camadas sociais e contextos diversos. Apresentado o contexto da luta pela emancipação feminina russa, é interessante sugerir aos alunos e alunas que escolham uma das personagens para redigir uma breve análise. Tatiana, de “Mumu” (1854), por exemplo, é simbólica: às portas da abolição da servidão russa, que ocorrerá em 1861, a lavadeira surge como instrumento de “conserto” do homem; ela é um semiobjeto obrigado a acatar a ordem da patroa de colocar seu sapateiro alcoó-

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

26/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

latra na linha, estigmatizada e vítima de preconceito supersticioso (porque tinha marcas de nascença na face esquerda, que indicavam mau presságio), etc. Há ainda as patroas terríveis e déspotas de “O poodle Branco” (1907) e “Mumu”; mães diversas: a “mãe solo” trabalhadora e viúva retratada em “A mãe” (1912); a que deixa o garoto no hospital em “O fugitivo” (1887); a mãe cúmplice do filho em “A pedrinha vermelha”; a mãe que negligencia o filho em “Primeira mágoa” e a babá, do mesmo conto, que tinha as funções de mãe e a quem faltava consciência de classe. Por fim, as meninas, como a bondosa adolescente tártara, Dina, que ajuda Jílin a fugir em “O prisioneiro do Cáucaso” (1872); a assustadora Zoia, em “A filha do fabricante de caixões” (1918), que tenta esfaquear o herói, o qual foge para viver; a doente Nadiejda, cujo nome, não por acaso, significa “esperança” em russo, de “O elefante”; e a estudiosa Natália de “A prova” (1912). paRa O pRofessoR LER Outra opção é trabalhar a autoria feminina. São três as autoras “Ainda sobre escrita feminina: em que representadas na coletânea: Catarina ii, Lídia Tchárskaia e Lídia consiste a diferença?” Avílova. Tendo em mente as biografias das escritoras e fazendo pesquisas adicionais, em diálogo com as disciplinas das Ciências Humanas, o educando pode analisar os contos aqui apresentados com base na escrita literária de autoria feminina e se perguntar: existe uma escrita feminina? Se sim, quais seriam as características dela? A escrita feminina poderia ser produzida por homens? Saiba qual a habilidade da bncc que será no fim envolvida: BNCC

22

Habilidades de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas

EM13CHS102 Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.

Tempo estimado Três a quatro aulas de 50 minutos.

2.2

Leitura

Tema A relação com os animais em Contos russos juvenis. Conteúdo Análise da importância dada aos animais em diversas histórias de Contos russos juvenis.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

27/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Objetivos Levar o jovem leitor a pensar as relações da personagem com a natureza e os animais e seu significado na obra e na vida. Justificativa Muitas obras reunidas nesta coletânea trazem animais como protagonistas. Não é só o caso de “Mumu” e “O poodle branco”, que ressaltaremos aqui, mas também o de “O elefante” e de “A pedrinha vermelha”. Além disso, os desequilíbrios sociais, evidenciados nessas obras, algumas vezes são apaziguados pela ternura das relações das pessoas com os animais. Metodologia Para realizar esta atividade, sugerimos que os professores da área de Ciências Humanas se concentrem nos contos “Mumu” (1854), de Turguêniev, e “O poodle branco” (1907), de Kuprin, e no dialogismo e intertextualidade que permeiam as obras. A certa altura do conto, a cachorrinha Mumu, depois de ter sido vendida às escondidas por um criado a mando da patroa, volta com um farrapo no pescoço para o dono, o mudo Guerássim. É simbólica a cena em que Mumu, ao retornar, começa a lamber Guerássim, que dormia: “Um grito prolongado de felicidade saiu de seu peito mudo; ele agarrou Mumu, estreitou-a no peito; em um instante, ela já lhe lambia o nariz, os olhos, o bigode e a barba…”. A cena não por acaso é retomada no fim do conto de Kuprin, quando Artô, o poodle, é resgatado e reencontra seu dono dormindo, o velho tocador de realejo: (…) antes de o velho recobrar os sentidos, o cachorro já lhe lambia, com ganidos felizes, as faces, os olhos, o nariz e a boca. O vovô despertou, viu a corda no pescoço do poodle, viu o menino deitado ao lado, coberto de poeira, e compreendeu tudo (mountian, 2021, p.280). Figura 12: Ilustração de Fido Nesti para “O poodle branco”, conto de Aleksándr Kuprin (1870-1938) (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).

O desfecho de “O poodle branco” é aparentemente positivo: o menino acrobata consegue recuperar Artô, o cachorro que fora roubado da dupla de saltimbancos pelo caseiro de uma família abastada, para satisfazer as vontades de um menino mimado e histérico. Porém, a imagem final é desoladora: os corpos estirados em uma taberna, que se assemelham a cadáveres, prenunciam o difícil futuro que os saltimbancos teriam pela frente (mountian, 2021, p.376). Além disso, a clara menção ao conto de Turguêniev (acima referida), além de prestar homenagem a um dos maiores estilistas russos, destaca o futuro sombrio dos amigos.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

28/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Turguêniev “era filho de um nobre empobrecido que se casara por interesse com uma rica herdeira mais velha. Teve uma infância influenciada pela mãe, que, apesar de apegada ao filho, era despótica com ele e cruel para com os numerosos servos” (beRnaRdini, 2018, p. 43). É interessante notar que, em “Mumu”, o protótipo da patroa é a própria mãe de Turguêniev, Varvara Petrovna; e o de Guerássim, um criado da mãe, Andrei. Mas, ao contrário de Guerássim, que faz um gesto de protesto ao deixar a casa da patroa e voltar à aldeia, Andrei, após ter afogado sua cachorra Mumu, fica até o fim da vida na casa da mãe de Turguêniev. Leia sobre a habilidade da bncc abordada: BNCC

23

EM13LP50

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Analisar relações intertextuais e interdiscursivas entre obras de diferentes autores e gêneros literários de um mesmo momento histórico e de momentos históricos diversos, explorando os modos como a literatura e as artes em geral se constituem, dialogam e se retroalimentam.

Algumas questões podem ser colocadas ao aluno: • Por que Guerássim afogou sua cachorra, a única criatura com a qual ele tinha uma conexão depois da partida de Tatiana? Guerássim amava Mumu perdidamente e, depois da morte dela e da partida de Tatiana, ele nunca mais se interessou por mulheres ou por animais, ou seja, ao matar a cadelinha, ele praticamente cometeu um suicídio… Vale notar que há uma aproximação da spaniel com a criada Tatiana: Guerássim encontra a cadela após perder o amor de sua vida. • Em um trecho de “O poodle branco”, a patroa da datcha (espécie de chácara) luxuosa diz: “escute, velho insano! Não existe coisa que não possa ser vendida”. Repensando os dois contos, o aluno deve escrever uma redação sobre a frase: “é verdade que tudo tem um preço?”. O ponto de partida deve ser uma reflexão, por parte do educando, acerca do fato de o velho saltimbanco ter se recusado a vender o cachorro por uma soma com a qual poderia comprar uma mercearia. • A intertextualidade pode se dar pelo gênero (como no texto de Catarina, que revisita um gênero antigo), pelo tema e pelo estilo. E ela pode ser feita via paródia ou via estilização. Como

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

29/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

escreve Mountian (2011, p. 54), no início do século xx, Iúri Tyniánov, um teórico russo, inovou a compreensão do elemento paródico: Tyniánov […] pode ser considerado o precursor dessa abordagem, levando a paródia no contraste com a estilização. Tanto a paródia como a estilização inserem outra fala na obra, mas na paródia está sempre implícito um conflito, um embate, enquanto na estilização há um prosseguimento. A paródia estabelece um deslocamento, que dá à fala original outra função, produzindo uma inversão do discurso. A essência da paródia não é definida pelo cômico, mas pela descontinuidade de dois planos. No caso apontado, a intertextualidade se dá por estilização e sobretudo no campo temático: a relação afetiva de pessoas desprovidas de tudo (o caseiro Guerássim e o tocador de realejo Lodýjkin) com os cães, a ameaça de perda — o sacrifício do animal, em um caso, e a recuperação dele, em outro. Sugere-se que seja feito um debate com os estudantes, junto dos professores de ciências humanas, questionando quais outras relações intertextuais são estabelecidas entre esses dois contos da coletânea. Como a orfandade é tratada em “O poodle branco” e “Vanka”? Em “Primeira mágoa” e “O poodle branco” surge a questão da ausência de documentos: como a falta deles influencia o destino das personagens? Conheça outra habilidade da bncc desenvolvida aqui: BNCC

24

EM13LP03

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Analisar relações de intertextualidade e interdiscursividade que permitam a explicitação de relações dialógicas, a identificação de posicionamentos ou de perspectivas, a compreensão de paráfrases, paródias e estilizações, entre outras possibilidades.

Tempo estimado Três a quatro aulas de 50 minutos.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

30/43


MateRial digital do pRofessoR

2.3

cb n

Pós-leitura

Tema “A alma do conto em uma imagem”: a leitura paratextual de Contos russos juvenis. A seguir, a habilidade da bncc relacionada: BNCC

25

EM13LP50

Habilidades de Língua Portuguesa Campo artístico-literário

Analisar relações intertextuais e interdiscursivas entre obras de diferentes autores e gêneros literários de um mesmo momento histórico e de momentos históricos diversos, explorando os modos como a literatura e as artes em geral se constituem, dialogam e se retroalimentam.

Conteúdo Análise das ilustrações e dos elementos gráficos da coletânea em sala de aula, junto dos professores de Artes. Objetivos Apresentar os diversos sentidos das ilustrações, explorar os paratextos como elementos compositivos do livro e desenvolver um projeto que amplie a experiência literária juvenil. Justificativa Para um trabalho eficiente com a literatura infantil e juvenil, é preciso apresentar os diversos sentidos das ilustrações, explorar os paratextos como elementos compositivos do livro (enquanto objeto) e criar um projeto que amplie e emancipe a experiência literária dos jovens leitores. Além disso, como escreve Pelegrini (2003 apud betta, pontes, 2020, p. 130), a sociedade contemporânea é midiatizada por imagens: “a cultura contemporânea é sobretudo visual. Videogames, videoclipes, cinema, telenovela, propaganda e história em quadrinhos são técnicas de comunicação e de transmissão de cultura cuja força retórica reside sobretudo na imagem”. Assim, o exercício de análise de imagens é uma atividade de grande relevância no processo de construção e estabelecimento de conhecimento: “Didi-Huberman sugere que a imagem seja feita não só de sentidos, mas também de sintomas (uma ruptura dentro do saber) e conhecimento (ruptura dentro do caos), levando a inquietações do pensamento” (Reis, 2013 p. 1). Este trabalho com os educandos evidenciará a importância das imagens e dos paratextos no livro, ampliando e qualificando o processo de leitura literária e proporcionando a oportunidade de o educando desenvolver sua sensibilidade ao consumir essas produções e realizar conexões.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

31/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Leia sobre outra habilidade da bncc abordada: BNCC

26

EM13LP14

Habilidades de Língua Portuguesa Todos os Campos de atuação social

Analisar, a partir de referências contextuais, estéticas e culturais, efeitos de sentido decorrentes de escolhas e composição das imagens (enquadramento, ângulo/vetor, foco/profundidade de campo, iluminação, cor, linhas, formas etc.) e de sua sequenciação (disposição e transição, movimentos de câmera, remix, entre outros), das performances (movimentos do corpo, gestos, ocupação do espaço cênico), dos elementos sonoros (entonação, trilha sonora, sampleamento etc.) e das relações desses elementos com o verbal, levando em conta esses efeitos nas produções de imagens e vídeos, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de apreciação.

Metodologia Nesta atividade, os alunos terão a oportunidade de explorar as imagens do ilustrador Fido Nesti. Nascido em São Paulo, em 1971, Nesti produz ilustrações para capas, livros e quadrinhos há mais de trinta anos, tendo publicado sua obra também no jornal Folha de S.Paulo e na revista The New Yorker, com a qual colaborou por quase dez anos, entre outros veículos. A educação imagética e paratextual da literatura no contexto escolar pode trabalhar os diversos sentidos da imagem (que pode ser representativa, descritiva, narrativa, simbólica, expressiva, estética, lúdica, conativa, metalinguística ou fática) e buscar a valorização dos paratextos. Formato, título, capa: tudo pode e deve ser explorado durante a leitura. Isso tudo contribui para a formação dos leitores, aguçando seu olhar: A leitura dos paratextos constitui o primeiro contato do leitor com o material escrito e, dessa maneira, pode servir como um “guia de leitura”, pois a compreensão dos paratextos antecipa questões que podem ser respondidas quando a criança entrar no livro e começar a lê-lo (silva; souza, 2016, p. 79; apud betta, pontes, 2010, p. 132). As ilustrações de Fido, de traço forte, estão inseridas na contemporaneidade por dialogarem com hq, universo muito atraente para o público juvenil. Ao mesmo tempo, elas refletem minuciosamente os costumes, trajes e cenários descritos ou deduzidos dos contos da coletânea. Quanto à relação com hq, Fido lembra que é espontânea:

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

32/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

É natural, porque trabalho muito com hq. Boa parte da minha carreira foi voltada para ilustrações, mas intercalada com hqs. E depois dessa revolução tecnológica, com o fechamento de muitas revistas, a hq ganhou mais espaço no meu trabalho. Meu traço tem um quê de cartunesco, como se costuma falar, e fica no meio termo entre algo mais, talvez, realista e artístico, com um quê de quadrinho, pois gosto de dosar também. 2 Ramos e Nunes (2013 apud betta, pontes) descrevem o papel de uma ilustração bem elaborada como de “abrir frestas” na história, tornando-se atrativos visuais que fazem o leitor “mergulhar” nela. Com um traçado preciso feito a nanquim, que é posteriormente tonalizado no computador, as imagens de Fido também são dotadas de grande expressividade. O ilustrador observa na entrevista: Acho muito importante na formação infantojuvenil as referências pictóricas que o leitor tem nas primeiras leituras. Eu guardo na memória até hoje as imagens dos livros que eu tinha quando criança, por isso tenho sempre esse cuidado e capricho no desenho e em tentar traduzir a minha visão do texto sintetizando os detalhes. Eu busco ir atrás da alma do conto em uma imagem. Para elaborar as imagens para Contos russos juvenis, Fido realizou uma extensa pesquisa, envolvendo não apenas os períodos tratados na obra, como detalhes dos diferentes povos retratados. Isso pode ser percebido, por exemplo, nas vestes de Dina, a moça tártara que ajuda Jílin a fugir em “O prisioneiro do Cáucaso”, ou na gaita de fole que surge no conto de Catarina ii, uma versão regional russa antiga que é mais rudimentar, composta por um saco de couro com três aberturas. A datcha de “A pedrinha vermelha” também foi minuciosamente pesquisada para compor o plano de fundo da imagem. Assim, cada uniforme, cada capacete, cada detalhe foi estudado pelo artista. A apresentação teórica irá surpreender os alunos pela profundidade e pelo trajeto necessário para se desenvolver a narrativa visual dos livros infantojuvenis. 2

Trecho de entrevista telefônica concedida à editora Kalinka para o material digital do professor de Contos russos juvenis em 10/02/2021.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

33/43


Figura 13: Ilustração de Fido Nesti para “O prisioneiro do Cáucaso”, conto de L. Tolstói (Kalinka; Direitos cedidos à Kalinka).


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Como primeiro passo para a análise das imagens pelos alunos, sugerimos que o educador, junto dos professores de artes, apresente algumas funções inerentes a elas, conforme a proposição de Camargo (1998 apud betta, pontes): representativa, descritiva, narrativa, simbólica, expressiva, estética, lúdica, conativa, metalinguística, fática e pontuação. Contos russos juvenis traz na capa, por exemplo, um espelhamento de um menino num velho, que mostra o início e o fim da vida, numa cena inspirada na ilustração do conto “O fugitivo” (1887), de Tchékhov. Os alunos podem tentar localizar as cenas desenhadas nos contos, discuti-las, selecionar suas ilustrações prediletas, desenhar outras e compartilhar com a classe suas impressões. Para que a proposta não intimide os estudantes menos interessados no desenho, pode-se sugerir que as ilustrações sejam experimentais e que tenham o texto apenas como ponto de partida — afinal, a atividade não tem como finalidade avaliar as habilidades técnicas do educando, mas colocá-lo diante da construção de uma narrativa visual, o que lhe dará uma nova experiência com o texto literário. Tempo estimado Duas aulas de 50 minutos.

3

Aprofundamento

Lev Tolstói e a questão educacional O conde Lev Tolstói (1828– 1910), descendente de uma antiga linhagem da nobreza russa, nasceu em Iásnaia Poliana, a 200 quilômetros de Moscou, propriedade onde está enterrado, conforme seu desejo. Em Iásnaia Poliana, Tolstói, já casado com Sófia Andréievna, escreveu Guerra e paz (1863–69) e Anna Kariénina (1873–78), obras que o consagraram mundialmente. Mas bem antes disso, com apenas 21 anos, lá criara uma escola para camponeses, sinalizando uma preocupação que o acompanhará a vida toda. Quando tinha três anos, o futuro escritor e pedagogo perdeu a mãe e, poucos anos depois, o pai, em Moscou, tendo sido criado por tutoras em Iásnaia Poliana e em Kazan. O jovem ingressou na Universidade de Kazan, em 1843, para cursar a Faculdade de Línguas Orientais (turco e árabe), da qual, por problemas em algumas disciplinas, transferiu-se para a de Direito, que também abandonou. Lev Tolstói sempre teve mais facilidade para aprender sozinho e,

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

35/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

com métodos próprios, adquiriu conhecimentos de muitas línguas, ciências, filosofias e artes (era um grande apreciador de música e chegou a compor uma valsa). Ele começou a escrever um diário em 1841, hábito que nunca perdeu, e a publicar no início da década seguinte. Infância — sua primeira novela, parte de uma trilogia (depois vieram Adolescência e Juventude) — saiu na revista O contemporâneo em 1852, quando servia no Cáucaso. Além do inquestionável legado literário que deixou à história da literatura russa e universal, Lev Tolstói contribuiu enormemente para a questão pedagógica. A escola camponesa que criou em Iásnaia Poliana, em 1849, passou por várias fases, ganhando novos formatos à medida que ele aperfeiçoava suas ideias, as quais desenvolvia de forma autodidata, usando fontes variadas de pesquisa. Embora houvesse outros professores, Tolstói também lecionava. Um de seus maiores colaboradores e discípulos, Vassíli Morózov, conta como os alunos “ficavam acordados, até altas horas, para ouvirem os contos do conde Tolstói, contos que depois eles próprios recontavam à sua maneira e o autor anotava as suas versões” (beRnaRdini, 2018, p. 158). Com a experiência adquirida em sua escola, ele próprio compôs uma enorme Cartilha, cuja primeira versão, publicada em 1871, tinha mais de 756 páginas. “No preparo desse empreendimento nada modesto, Tolstói estudou fábulas e contos populares alemães, árabes, gregos, indianos e judeus para adaptá-los às crianças camponesas” (mountian, 2021, p. 17), mesmo assim foi criticado pelo caráter simplista do conteúdo. Reformulando este material e refinando seu método de ensino, criou a Nova cartilha, que foi adotada pelas escolas populares e reeditada dezenas de vezes: A Nova cartilha, publicada em Moscou em 1875, com 5 fascículos em caracteres menores, é ao mesmo tempo uma revisão e uma complementação da primeira. No primeiro fascículo — o método para aprender a ler — as letras são apresentadas em quadrados dentro de uma tabela e já não há exercícios com sílabas separadas, passando-se diretamente à sua combinação em palavras e, em seguida, em pequenas frases, progressivamente maiores, nas quais são focalizados letras e grupos de letras, tanto do ponto de vista da escrita como da pronúncia (beRnaRdini, 2018, p. 161).

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

36/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Lev Tolstói, no ensino, valorizava a vivência do próprio aluno, de modo que se estimulassem, com liberdade, a criatividade e o amor pelo saber. Como se sabe, o conde não era desprovido de rígidos preceitos morais, mas muitas de suas ideias pedagógicas são extremamente avançadas. “Seus alunos não levavam lições para estudar em casa, não eram obrigados a se lembrar das lições do dia anterior, tinham liberdade para escolher o lugar onde se sentar nas salas de aula (bancos, chão, mesas ou parapeito das janelas), bem como o assunto que queriam estudar”, observa Belkiss Rabello em Contos da nova cartilha – Primeiro livro de leitura (TOLSTÓI, 2005). A Nova cartilha era acompanhada por quatro Livros russos para leitura, nos quais o autor criou e adaptou, à sua maneira, lendas e fábulas universais. Alguns desses textos podem ser lidos em português, como este que se segue: O veadinho disse uma vez ao cervo: — Paizinho, você é maior e mais ligeiro que os cães, e ainda tem enormes chifres para se defender; por que, então, tem tanto medo deles? O cervo sorriu e disse: — Está falando a verdade, filhote, mas há uma infelicidade: quando ouço os latidos de um cachorro não consigo pensar em mais nada, e saio correndo (TOLSTÓI, 2013, p. 24). Já no quarto livro de leitura, foi incluído “O prisioneiro do Cáucaso”, história baseada na experiência militar do escritor e que integra a coletânea Contos russos juvenis.

4 4.1

Sugestões de referências complementares Filmes • Anna Kariénina. (Direção: Joe Wright. Reino Unido, 2013) Neste filme conceitual, é recriado o drama de uma das mais poderosas personagens de Tolstói, Anna Kariénina, que tem seu pedido de divórcio negado e é privada do direito de ver seus filhos. • A última estação. (Direção: Michael Hoffman. Reino Unido, Rússia, Alemanha, 2009).

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

37/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Filme dramatiza os últimos momentos da vida de Lev Tolstói, na estação ferroviária de Astapovo. Também aborda a disputa entre a esposa de Tolstói, Sófia, e seu discípulo Vladímir Tchertkóv pelos direitos de sua obra. • O barbeiro da Sibéria (Dir. Nikita Mikhalkóv. 1999, Rússia, França, Itália, eua, República Tcheca). Há um trecho do filme que retrata o Entrudo e dá uma ótima ideia do que eram as feiras e as festas religiosas, como a da celebração da Páscoa, na Rússia. • O mágico de Oz (Direção: Victor Fleming. Estados Unidos, 1939) A clássica história da menina Dorothy e seu cachorro que precisam da ajuda do poderoso mágico de Oz para retornar à casa. O filme é citado na atividade I de leitura. • Prisioneiro das Montanhas. (Direção: Serguei Bodróv. Rússia, Cazaquistão, 1996) Dois soldados russos são feridos durante a guerra de independência da Tchetchênia e levados a uma vila por um checheno, que pretende trocá-los pelo seu filho, prisioneiro do Exército russo.

4.2

Séries • Catarina, a Grande (Philip Martin, 2019, disponível no hbo go). A série retrata o reinado de Catarina, a Grande, em momento de expansão e modernização do Império Russo. • Os últimos czares A série conta sobre o fim da dinastia Románov e sobre o início das revoltas populares na Rússia do século 20.

4.3

Sites • Exposição virtual do museu Hermitage3 Localizado em São Petersburgo, na Rússia, é um dos maiores museus de arte do mundo. Em seu site, é possível fazer uma visita virtual e explorar o museu com uma visão de 360º. Último acesso: 02/04/21.

3

https://www.hermitagemuseum.org/wps/portal/hermitage/ panorama/virtual_visit/panoramas-m-1?lng=en Acessado em 21/03/2021.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

38/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

• Museu de História da Rússia4 Site com extenso arquivo sobre a história da Rússia, possui visitas online com fotos de objeto históricos, manuscritos originais e uma biblioteca virtual. Último acesso: 02/04/21.

4.4

Vídeo • labaKi, Luis Felipe. Esqueci como se chama.5 Leitura do conto de Daniil Kharms “Você foi ao zoológico” com tradução e direção de Labaki na ocasião de lançamento da antologia Esqueci como se chama. Último acesso: 08/04/21. • mountian, Daniela. A vanguarda dos livros russos infantis. Curso de inverno. usp/2020. Canal de Serviço de Cultura e Extensão fflch/usp6 : O curso oferece um breve panorama da literatura russa para crianças produzida nos anos 1920 e 1930, do ponto de vista literário e gráfico. Na introdução, traz um apanhado do desenvolvimento da literatura russa infantojuvenil desde o século xviii. Último acesso: 08/04/21.

5

Bibliografia comentada • beRnaRdini, Aurora Fornoni. Aulas de Literatura Russa. São Paulo: Kalinka, 2018. A antologia reúne ensaios e resenhas de Aurora Fornoni Bernardini escritos ao longo de mais de trinta anos e publicados em prestigiosos jornais e revistas. • betta, Thiago; pontes, Rodolfo. A ilustração do conto infantil: uma proposta para a educação literária imagética e paratextual na sala de aula. Literartes, n° 13, 2020, p.128-149 O artigo trata de uma pesquisa acerca das experiências com ilustração de livros em sala de aula. • goldman, Wendy. Mulher, Estado e Revolução. São Paulo: Boitempo, 2014. 4

https://www.russianhistorymuseum.org/ Acessado em 21/03/2021. https://www.youtube.com/watch?v=TynrL12SQ6U Acessado em 21/03/2021. 6 https://www.youtube.com/watch?v=2l4v9rkW6H4 Acessado em 21/03/2021. 5

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

39/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

O livro trata das mudanças sociais pela qual passou a sociedade soviética nas duas primeiras décadas pós-revolução, com foco nas mulheres, e na relação que estabeleceram com o Estado revolucionário. • figes, Orlando. Uma história cultural da Rússia. São Paulo: Record, 2018. Nas quase mil páginas deste livro, o historiador Orlando Figes analisa os grandes artistas e as mais importantes manifestações culturais russas, apresentando o espírito de uma nação com força e poder suficientes para sobreviver a qualquer chefe de Estado. Começando no século xviii com a construção de São Petersburgo e culminando com os desafios impostos à identidade russa pelo regime soviético, Figes reúne os elementos que formaram a nação russa, examinando como artistas, escritores e músicos moldaram a cultura nacional e influenciaram o espírito persistente desse povo. • leaR, Edward. Conversando com varejeiras azuis. São Paulo: Iluminuras, 2016. Limeriques e canções do pai do nonsense, o desenhista e escritor inglês Edward Lear. • moino, Flavia. Aleksandr Nikoláievitch Afanássiev e o conto popular russo. Dissertação de mestrado (FFLCH). Universidade de São Paulo, 2008. Mestrado sobre contos populares russos e a representação da Baba-Iagá. • moisÉs, Massaud. A criação literária. São Paulo: Cultrix, 2001. Oferece uma eficiente introdução à Teoria da Literatura. • moisÉs, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004 Com mais de setecentos verbetes, é uma obra de referência indispensável a todos os interessados por literatura. • mountian, Daniela; peRpetuo, Irineu; simone, Lucas. “Falando Russo”. Folha de S. Paulo, 2018. folha.uol.com.br/especial/2018/falando-russo7 . 7

https://www1.folha.uol.com.br/especial/2018/falando-russo/ #20 Acessado em 21/03/2021.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

40/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

Nesta série especial produzida para situar o leitor na história e cultura do país-sede da Copa do Mundo de Futebol de 2018, diversos temas são abordados, como curiosidades culturais inusitadas, vocabulário, política, etc. Último acesso: 02/04/21. • Reis, Ana Paola dos. A análise de imagens como método de pesquisa e recurso didático. Conferência Fido Palermo 2013.8 Último acesso: 02/04/21. O artigo apresenta as particularidades a serem consideradas ao incluir a imagem como objeto de pesquisa. mountian, Daniela. Simbologia do caos em “O Diabo Mesquinho” de Fiódor Sologub. Dissertação de mestrado (/textscfflch). Universidade de S. Paulo, 2011. O trabalho analisa, por meio de procedimentos como o da paródia, O Diabo Mesquinho (1892-1902), romance-chave de Fiódor Sologub, expoente do simbolismo russo. • uRso, Graziela Schneider (org.). A revolução das mulheres. São Paulo: Boitempo, 2002. O livro é uma antologia com dezenas de artigos, panfletos e ensaios de autoras russo-soviéticas. • woolf, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2017. O livro é um ensaio baseado em palestras da autora nas faculdades de Newham e Girton em 1928, nas quais refletiu acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. Essa obra é citada na atividade ii de pré-leitura.

5.1

Sobre o conto como gênero • andRade, Mário. de. “Contos e contistas” in: O empalhador de passarinho. 3 ed. Brasília: inl, 1972, p. 5-8. Escrito a propósito de uma pesquisa da Revista Acadêmica que procurava determinar os dez melhores contos brasileiros; o artigo discute a questão do gênero.

8 https://fido.palermo.edu/servicios_dyc/encuentro2010/ administracion-concursos/archivos_conf_2013/1131_85939_ 1689con.pdf Acessado em 21/03/2021.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

41/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

• benjamin, Walter. “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Walter Benjamin: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 3ª ed., 1985. Benjamin nota que o jornal vem cheio de informações e, portanto, não existe mais narrador para ele — de certa forma, a informação mata a narrativa da experiência —, e que Leskóv é do tempo em que a narrativa da experiência importa. Assim, segundo Benjamin, Leskóv dialoga com seus leitores, que são praticamente ouvintes, e a narrativa é inesgotável, sempre mais interpretável que a informação. • coRtÁzaR, Julio. “Alguns aspectos do conto”; “Do conto breve e seus arredores” e “Poe: o poeta, o narrador e o crítico”. In: Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993, p.147-163, p. 227-237 e 103-146. “Alguns aspectos do conto” é resultado de uma conferência feita aos cubanos, em 1963, e trata de questões referentes aos contos de Cortázar e aos contos em geral, buscando acompanhar o processo da criação, analisando a peculiaridade do gênero e questionando o caráter revolucionário dos escritores. “Do conto breve e seus arredores” parte de uma afirmação de Quiroga para discutir a esfericidade do conto, suas relações com a poesia e prosa, além de tecer considerações sobre o conto fantástico. “Poe: o poeta, o narrador e o crítico” é um texto que examina com consciência e entusiasmo a obra de Poe e acompanha a tradução de sua obra para o espanhol feita por Cortázar. • gotlib, Nadia. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2006. A autora situa o conto enquanto narrativa, discutindo-o enquanto um “gênero” com características próprias, relatando também seu percurso, de suas origens remotas e anônimas até sua afirmação com autoria literária. • jolles, André. Formas simples. Trad. de Álvaro Cabral. São Paulo, Cultrix, 1976. Este livro examina o conto como forma simples, ao lado de outras (como legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável, chiste), traçando diferenças quanto à forma artística.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

42/43


MateRial digital do pRofessoR

cb n

• mÁRez, Gabriel García. Como contar um conto. Rio de Janeiro: Casa Jorge Editorial, 2004. O livro traz a transcrição de uma oficina de escrita (de roteiros) dada por ninguém menos que Gabriel García Márquez. • poe, Edgar Allan. “Filosofia da composição”. In: Ficção completa, poesia & ensaios. Org., trad. e notas por Oscar Mendes, em colaboração com Milton Amado. Rio de Janeiro, Aguilar, 1981. p. 11-20. Neste texto, Poe reforça sua teoria da unidade de efeito e os modos de se obter essa unidade, explicitando seu processo consciente de composição. • tchÉKhov, Anton. Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita. Organização: Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 2007. Conselhos de escrita retirados de cartas e apontamentos de Anton Tchékhov.

Daniela Mountian (Org.) Contos russos juvenis, Editora Kalinka

43/43


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MDP: Contos russos juvenis by EdLab Press - Issuu