o pacto de Quasiontem
jorge pieiro
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o pacto de Quasiontem - jorge pieiro
Dedico, intransitivamente.
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o pacto de Quasiontem - jorge pieiro
sumário o dono do prólogo
instâncias da invalidez nacos alguém caminho de volta leitura para o silêncio palavras recortadas sem cumplicidade daguerre cinzas ao acaso unicórnio bendito fortuna pranto ácido mágico gnomo alinhavo balada da inocência perdida, i balada da inocência perdida, ii primeira lição do abutre segunda lição do abutre quem piazzola escola da morte – a experiência destrutiva
antes do fim, inquisições... epílogo sem triunfo, sem futuro
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o pacto de Quasiontem - jorge pieiro
tenho lido mais palavras que dez gerações e não chego às dálias vermelhas do jardim
Georg A. Schattenmann
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o dono do pr贸logo
a minha liberdade n茫o me deixa ver o voo em que me aprisiono, em fuga...
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o dono do prólogo tentou poemas e viveu viveu viveu com garganta olhos fibras e delírios e engoliu goela abaixo a má temática de engenharias a fúria da combustão o degredo alquimista dos laboratórios de pouco mistério e deu-se ao corpo de faquir e sorriu quando pela primeira vez ficou louco e foi perseguido e sentiu o cano frio de uma metralhadora na cintura e aprendeu que a loucura é um sonho de criança e amou amou amou as unhas todas dos dedos roídos e fugiu pelo mundo no trem da morte direto à Santa Cruz de la Sierra pelos gigantes degraus apontando o relógio do sol de Machu Picchu pelos sapos gigantes do Titicaca pelo mojito pelo charuto perseguindo o paraíso de dentro de um Antonov 26 fugiu do êxtase de São Bernardo e do seio de Maria fugiu da Maria Joana na ponte metálica e amargamente adorada nas asas de um disco voador em plena BR-116 fugiu do velho totem e seu cão enorme numa floresta perdida de Kohlscheid fugiu da fome e do frio navalhado no hotel Corona de Lima fugiu do cemitério de Lommel fugiu do delírio ante os túmulos indecisos de Vasco da Gama e de Camões fugiu da Virgem Santa de Urkupiña rodeada de palhaços e metralhadoras fugiu das visões do mosteiro medieval no céu de Jeri em desacordo com a barba rala de um falso Pedro II 6
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às margens de um rio de chá fugiu da dança dos esqueletos no centro da Estação da Luz fugiu de Almada de Bug de Buda do fogo-fátuo no meio do mato desbravado nas margens do Banabuiú fugiu do próprio fantasma deitado no chão de um quarto escuro num ermo do Ellery e por isso tentou instâncias: inquisições: escombros & sobrevivências
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instâncias da invalidez
em algum lugar do mundo encontrarei a nuvem perdida por conta daquele olhar em sua direção. depois encontro você.
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nacos
violaram o pacto diurno e o sonho se viu traído: este amor pressinto na madrugada ausente o absinto nesta noite de amor vazio.
libido no sonho, evito lábios: Rosa e ainda roço em teu nome!
um passo sem memória cria o soturno aquilo do que restou de uma vez:
nacos
na dama de vermelho engoli minha verdade.
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alguém
quando nesse alguém o que se move ainda é víscera
quando quem tarde se serve é pálido
quando o instinto a morte evita o que em vida ainda é sólido
quando nesse alguém a culpa arde
quando da sorte se presta o vício
quando da posse ainda o que vale apenas o pó seja
sei: o inválido me soa nesse alguém
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caminho de volta
quem a luz segue fluorescente é luz que seduz
conduz girassol ou mariposa a vagar lumes sol a sós
quem rente a tanta luz é mais olhos que reluz toda luz no luxo fluxo ágil e mágico como blues seduz azuis
quem ente a ti ilumina zen a noite amora ao mar imã a lua azula
a luz da luz é ser em ter-te ao sul azul
(se és alguém neste caminho este naco é de uma vez)
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leitura para silêncio
mas ninguém ousa quatro vezes vezes vezes vezes sem sofrer impunemente a vida sem dizer cala cala cala e ninguém ousa quatro vezes vezes vezes vezes sem saber assim a vida impunemente é fim
(é norma sobreviver e ver que viver é tão capim! felizmente me iludia morrer morrer e morrer é estar em ti)
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palavras recortadas sem cumplicidade
até uns poucos loucos girassóis assim alados ainda giram o sol
brio em nós
até uns quantos prantos vozes em silêncio na simples cidade
somos nós
até uns tantos enquanto dois nós atados na musa e cidade
estamos sós
(até que a madrugada ausente sonhe com esta vida tão capim!)
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daguerre
mas no espaço da água a chama
meus olhos
na velocidade do silêncio o socorro no tempo da memória
seus olhos
a festa na altura do riso o dente na gravidade da veste a nudez na massa da sombra
ausências
o flácido da intensidade na luz
a fotografia
sem mais, o gesto
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cinzas ao acaso
rente ao milênio a hora da pedra lacrada à chusma de folhas caídas de outono e sobre a cidade a formiga tonta e estranha vai rente ao milênio
na hora da pedra a solidão derrama em cinzas versos: contraído num acaso qualquer o vento agoniza em frestas desejos e a morte lapidada no instante sopra em areias
tácito o prazer formiga e não desalinha folhas tão breves do calendário
(tu ainda estás neste daguerreótipo)
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unicórnio
o que habitas é um monstro: iceberg de medo: invisível no avesso caiu um naquele – dia
dentro nenhum gemido foi cínico nessa imersão o monstro é
a felicidade
ainda que paire sobre o mito
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bendito
a lua me dissolveu desisti mesmo assim
ainda que a máquina de soldar o medo flore de uma pele: flandres em toda agonia é mais calar-se morrer
ainda que o minério bruto ao monte seja chuva quando se chora entulhos de já ter sido prenúncio
do sol ferido algo algo ainda soma ao destino de ter, ser-se aos entulhos concebidos
e ainda o que se apascente na vida seja resto ainda é gesto no que me sou banido
o que restou?
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fortuna
se carregas a palavra sacra e ficas no rumor dessa sombra, morte ao cotidiano exercício
e se não te quero por amor te quero estilhaçar a sombra sobre o ombro que a veste se quer ultraje
e se te resignas pela gana de viver serás única por desígnios ultimada
por isso beijo-te anônima e teu ocaso me consumirá a sorte
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pranto
a pedra é pranto memória fossilizada de outrora lágrimas a pedra é silêncio frente à cena do espanto
nostalgia da água a pedra não se masca templo de todos os rudes ou fortaleza dos medos
a pedra são prisões de qualquer homem sem grito desse é o destino do pó a solidão de ostra pedra tão preciosa
(serás a minha fortuna)
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ácido
se o ácido alimento das nuvens me corrói quando agora delas bebo o chumbo que se é cor sobre o azul azula o céu
se pensar que devo a brahman ao tao esse nada de sobreviver ou desistir em raiz no inteiro vácuo do olho no centro onde não me atinjo penso
se cabe na língua a pestana e o silêncio na despedida do trovão o chão por esses dias de areia e só findo e dá-se o pássaro por bicar o invisível
sei agora se esse mistério por onde os olhos de voejar chorarão
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mágico
olhos catam o naufrágio de um bêbado em canoa de gim um proscrito de astro pela voz de babel
ombros murchos no rabisco: prosas em papelão, talho de cega lâmina, a memória, olho o deserto na ampulheta ávida, areia metáfora inútil, o homem dá-se com a terra, o verme nele serpenteia, e a lua por um fio que se raia, teia pela esquina a grande aranha
ressonante em fímbrias, o cortejo em seu corpo de tal o trôpego em desuso sonha-se o mágico
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gnomo
mas no vulgar pretérito de salvar morcegos e amar este inferno sou rapina de angústia e folia em pinheiro sem resinas num caule de rústica aflição estou húmus em floresta de carne
a matriz da solidão está nas vísceras do amor
mas se uma fera de deus nas entranhas encontro entre nuvens e o véu despido dádiva de tudo árvore e diáspora tatuadas no coração escolho o útero para ser eterno e pertencer ao lugar de plástico na face maquiada
do clown secreto vazio onde gnomo
(mágico e ácido)
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alinhavo
aquilo que insiste na cara pela sua grandeza bem ou mal se franze e óbvio e descortinado nos mágicos o pensamento é mais ágil e o homem que passa com os seus sustentáculos oculares insiste na captura do mito em fúria e em expansão se desfia ao abrir a escrita de sua lógica – não se injeta vida pela veia do pulso sedutor do imprevisível tudo o que passa é colapso – e o rapto do poema é a paga sem desejo e é a pele do coração roído ou doloroso quando em ser tal como um símbolo vadio ao delírio destino é a rota desprotegida nas entrelinhas da razão
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balada da inocência perdida, i
tenho das balas atiradas contra o sábio o esboço das trajetórias a pólvora alvoroçada pelo indicador iconoclasta a súbita inglória teu fígado mastigo de abutre tu, assassina, a que me prometeste a palavra roubaste-a para quê? de que te serve esse fel se não percebes o açúcar dos delírios?
foges agora de mim o rumor da sombra te oculta saúda-te embora invisível o teu fim te vejo parábola dos projetos asfixiados com a tatuagem na íris sonho peso das balas estampidas contra ti ave, sorte! ave morta! profano-te
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balada da inocência perdida, ii
um corte todo olho em sangue e abuso do teu seio não esqueço o sol eclipsado de virgem a fúria do receio e do fogo e pó nas asas de borboleta
me vigio entre a figa e a sorte um segredo é a metamorfose de uma lâmina em desuso pelos em teu lençol bordado com a honra da morte será amor o que amordaço de gemido?
desgraçaste o anjo com teu púbis voraz semente a culpa resta a pira incandescente deu-se a palavra a um deus
silencioso: selaste os vazios com os fios de adaga
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primeira lição do abutre
nada mais vi ver-t’imóvel
este alma te possui nada mais vês entrego-te para chamá-los estes
pó de gêmeos almas dentre entrego-t’estes olhos
sobras
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segunda lição do abutre
carrego a mancha do sangue no olho e vi não a morte ou o instante da definição ou o seco e abafado ruído no chão ou a curiosidade infinita do homem
vi o morto
não o orifício a mala da bala o escarlate convexo do coágulo na margem do corpo foi um dois de um de dois
o fim daquele
foram vários e mais o sofrimento fui e ainda não era o que nem sei o que sou carregando esta mancha do sangue
no olho
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quem quem me quer – para isso – me quer bem quem me sente
quem me consome quem me é dolente quer
que me tente bem que me quer quem me consente
quem sempre sente quer-me também
bem me envolve ente quem me faz de repente
inocente e perdido neste alinhavo de um voo para isso – abutre
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piazzola
se gosto de funerais gosto com o meu amor
gosto de funerais à lua que sobra deles
no peito sei que temes os sons que te rodeiam
às margens das marcas o bandoneon
mas infeliz essa dor:
se gosto de funerais a morte da fanfarra dos obesos
é a alegoria da alegria e o que sobra em meu peito
é amor um funeral se gosto e não basto enquanto é tarde
deito-me sob a terra se gosto de funerais
(por fim)
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escola da morte - a experiência destrutiva
primeiro foi o vazio e minha mártir-mãe ainda sofre e chora, vendo-me sangrar pelos olhos. louco, a escrever, arrancando a goela para não salvar a humanidade... uma pulsão. e eu repito de ti: Pedro, "na minha bagagem de morto, não irei!”
então dou primeiro passo:
a noite esquina de velório cena de fendas o que reluz
(vê o poeta a luz no fosso, mas a alma proscrita impede tenciona o poeta dizer que a noite é trágica - dirá a morte anda pelas esquinas é isso que exprime o que se tenta o que não se explica é poesia)
de pronto:
a espera passos no precipício cenas de espreita o que seduz
(d'espera o poeta vê o quê nenhuns as sombras e o que dizem é silêncio um assassino é sempre! o que não se explica é poesia)
último passo: 30
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alquimia catálise cena dos vapores o que EXPLODE
FIM
o trágico não trai desde primeiro passo
(o limite é a morte do poeta quando não a morte da poesia em quem o que se desfaz não é o espaço ou a vida o que não se explica ainda é poesia)
na noite
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antes do fim, inquisições...
o maior sábio é o que explora a própria ignorância e se apaixona por ela.
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ativos descobridores da panaceia literária, ou delas cobaias, o aprendizado pela palavra é a busca eterna e infinda da perfeição. criadores e criaturas somos os seres mais imperfeitos. relato essas insinuações, apenas para fragmentar o mais-que-imperfeito
*
...e escrevemos quase sempre em miúdo por que miúdas são as origens. mas, sobretudo, porque assim é neste lugar
*
poesia não é só uma tragédia
*
poeta é quem engole luz e se bronha.
*
estamos na idade do fragmento. era nociva ou denunciante. isto é um recomeço
*
é saboroso não chegar ao fim. de onde vem o começo? aonde leva o fim?
*
se as estruturas são rígidas ou frouxas como na aleatoriedade da vida, cabe a cada um escolher a sua forma de (im)perfeição. 33
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realidade e virtualidade simbolizam apenas: que é mais real, o homem ou a sua representação? que é mais virtual: a perfeição ou a impureza de ser?
*
a literatura é a disciplina comum de todas as coisas. e a melhor maneira de esfregar o nosso cérebro é sofrê-lo no dos outros...
*
e palavra, por mais especial que seja, é sempre um punhal que nos busca o coração como alvo, enquanto somos cúmplices
*
pergunto. em qual pássaro voo azul; a noite é um cão rosnando; das janelas, os edifícios estão em seus quadradinhos abafados; o céu enegrecido abocanha estrelas; e a vida é um osso ancestral prestes a romper? em saudade legítima, isso são presságios de guerra e sabedoria. mas em rosto de tristeza não cabe só um dilúvio. há outras certezas. digo. meu medo é o de escolher um paraíso falsificado. se descobrir, algum dia, certamente terei vencido a melancolia dos espaços vazios.
*
acalentamos o sacrifício por uma dose de clarividência. o que buscamos é a novidade? a intromissão da glória? uma estética? o espírito que nos emudece se derrete em chumbos... possivelmente, desconfiamos de quaisquer parâmetros cartesianos na (i)lógica poética. mesmo abstraindo-nos de todas as convenções, sequer alcançamos o teor sagrado do espírito que borbulha, que ousa ramificar nervosamente a servidão da nossa mente. 34
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a natureza humana é pródiga na incerteza. esse é o precipício da escritura. e a razão desse escrutínio de entranhas se estabelece muito anteriormente à própria ação. o que se passa em certas linhas invisíveis, só alguns percebem. porque não há mais que uns a resistir nesse universo milimétrico do imaginário. outros são apenas os que descobrem os instintos, as obviedades, os anelídeos do jardim... a vocação do pássaro não está na gênese do voo, mas no bicar da casca do ovo.
*
há que se considerar o fragmento como o aperitivo que precede as grandes transpirações. insólito, o fragmento aniquila a unidade comum apropriada pelo senso. em contrapartida, elastece o imaginário, e as concepções se desvinculam da cadeia formal do pensamento. a liberdade é uma frase mantida em sua própria consistência. essa abertura de infinito é que pode/deve negar, ou não, as estruturas de uma vida. o fragmento, pois, é a unidade simbólica do processo da inteligência, onde vivemos exilados. o que se escreve é um contrassenso diante de uma tumultuada ilusão. isto garante uma efemeridade ou o desabrigo da imortalidade. um relato, talvez. ou a ausência de palavras que se despedaçam oníricas.
bendito é o lugar onde não somos...
*
jamais haveria agonia poética, caso a natureza humana fosse exemplarmente reconhecida pelo poder memorial de seus escolhidos. conhecer e recriar sem limites o óbvio é a melhor forma de descobrir o ninho dos dragões ou de perpetuar o estreluzir após seu autoapocalipse ou de repassar a sagração dos antigos sinos da catedral de todas as emoções universais. escolher a fortuna da poesia é debulhar o acaso. é nessa esfera que a ausência invalida a exatidão. por isso mesmo é que investir nos segredos é perpetuar a própria vida naquilo que se repete cotidianamente. revelar é reinventar a natureza e suas obviedades... 35
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* o destino reconhece que o homem vive suas circunstâncias entre o afogamento neurótico da busca e o deslumbramento delirante da lua sob os pés. em ambos os casos, os motivos são paradoxalmente suficientes para transformarem qualquer vida em resquícios. o meio termo de uma existência apenas transpira em eventualidades. atento, ponho-me no equilíbrio de um salto. e o que represento ou admito representar é o júbilo do pretérito; é o misterioso segredo do acaso; a corda de náilon azul do insucesso; a pedra milenar... as visões que escolho são possibilidades de voo diante do abismo perseguido.
*
porque ninguém foi chamado a entender da criação; porque ninguém deve se desesperar ante a causa aflita da incompreensão do mundo e de suas idiossincrasias; porque tudo estará resolvido independentemente do programado apocalipse... porque desconhecer é a prática viva da descoberta, a tarefa de nosso tempo é abusar da linguagem, é lançar a enigmática garrafa de s.o.s. no oceano igual ao azul e à profundeza, é desordenar o senso comum, em benefício de todas as dúvidas. diante de uma hecatombe, o compromisso de babel. a intenção de um arauto, antes de gargalhar frente à vítima arrependida. é esconder a lâmina da arma na carne do anjo da guarda. assim seja o irracional!
*
entre a vida e a morte, o fragmento do tempo. uma folha dá-se ao mormaço da solidão em alvoroço. este sacrifício contínuo de palavras e imagens regam pomares de acaso. relato: o grande tempo... até que a oscilação do pêndulo dê-se ao enguiço das engrenagens... quando será que todos os segredos se proclamarão? quando um oceano aliviar a sede? desistir o deserto de suas miragens? fugir o fogo das águas? ser eterno é muito longo, sem repouso. convém aos cucos emudecerem. 36
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*
...pois a vida se calibra com a morte.
*
uma linha a mais nas mãos de cada dia, enquanto a noite não destoa de suas estrelas. mesmo com esse palco desarmado, a vida é uma vítima sublime. quem desconhece o lugar? quem não é uma frenética aparição com dúvidas eternas? a marca desses poderes é uma pedra verde. não somos mais que humanos. há kryptonitas em nossas algemas. apesar de tudo.
*
a reflexão é a empresa do mistério. a algaravia do silêncio. a esperança é o corte no primeiro umbigo. o modelo especular da divindade ante a descrença e a possibilidade do voo diante do abismo. como corromper a ordem das divindades? a minha gana é de silêncio enfeitado como um duende nômade e perverso... a tua presença me desfaz de árvores. o que pode acontecer quando a mortalha do corpo se despede e acorda a imortalidade do espírito. essa melodia do diabo amoroso... de eras o refúgio no torso do vácuo... o espelho de olhos obtusos: o amor selva dos galhos e mar onde se findam os afetos de fato... na hora do eterno a confissão do réu por supor o abcesso ou decerto o segredo.
*
não existe conflito: o belo é um diamante perdido. se há ilusão de encontrá-lo, o desejo representa a verdade mais íntima. o que está inscrito na caverna mais abissal. o amor é uma estrela de ficção, um lume emprestado. afinal, tudo não é ficção, até a nossa súbita morte? todas as visões atingem o improvável do belo e do amor. conto isso, para desafiar o célebre e o obscuro. reconto o próprio conflito... 37
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*
ainda relato: cansei das mortes premeditadas pelos deuses. o azedo ou o mel não são apenas obstáculos passageiros à viagem ao zinco final dos futuros. como uma flor na pele, descobri a necessidade do breu na faísca dos seixos. agora, só preciso escolher o elemento vital das vertigens para tornar-me abismo...
*
o invisível crepita. que outra afirmação permite-se diante de rumores? há um mercado de sombras em burburinho dentro de cada nós. e jamais poderemos expulsar essas sombras. um dia, seremos parte dessa multidão. e a perda da inocência reviverá o prazer nessa cópula com o inusitado. qual desses dias, o justo?
*
todo homem devia colecionar ninhos vazios. neles, sacrificados pelo abandono, revela-se o aprendizado do voo. a primeira queda, a glória. assim como o silêncio interrompido pela visão, ninhos vazios recuperam a inocência dos segredos. é quando se descobre que o destino é suave e voa, corpo seguro que inventa precipícios...
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epílogo sem triunfo, sem futuro
no livro, o fim não fora tão forte quanto a realidade. o louco chorou naquele dia. para ele, seu delírio estava morto.
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desisto. há poesia na poeira. por mim, renuncio a fala. prego o corpo na água que nunca escorre da goteira. banho de mim como castigo, banho de fogo. estas entranhas desmentem. por pouco, um perdão.
por esse poema ancestral travado na última vértebra e que lá esteja para sempre. que nunca mais saia antes de asa. fique lá. pelo menos uma esperança anuncie ao poeta. chega de ânsia. os gritos soam mesmo entre brechas. perdão. pena. aquele nada de onde irrompiam a fúria e a firula anunciam o primeiro fim.
sou eu quero assim. basta de vida! por que tamanha imprecisão? quero um poema, simplesmente um poema sem nadas precisos. um poema descontente com a virtude de qualquer poeta. um simplinho. só. mas dificílimo cortar esse acabo de aço. onde a lâmina, meu deus? no ranço pensado ou na quasitura das coisas improváveis? na mentira ou no vesúvio da lavra? no corpo ou no torto ou no morto? 40
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dificílimo sem o seio em minha mão. ou assim desisto? há tanto tempo amordaço a luz! como escapar da sombra que só sobra? meto um poema no bolso. falo dele. meto o poema muito longe de mim e de ti. e entre nós os cegos. entender é parcial: satanás roubando porcos do abismo.
se tu andas por aí, como desencontrar-me? peso que não sou poeta, só ético, antitético. tu me dizes para não desistir. e eu não sei de quê.
Quasiontem saiu por um lado e desistiu. hoje está aqui. perplexo ante as janelas tantas que o céu emoldura edificante. criança, repito frações, mas não são as mesmas de Quasiontem. ele tem em mim o delírio. eu nele o lírio em nada lírico. por isso insisto: não sou fácil ser ágil.
e por não poder menos que desistir, o poema se é suicida. pele de poeta em mim a reboque. finda. e eu que quis fazer valer a história me engasgo de palavras. só consigo a convulsão mal dita de uma desistência.
nem errar eu sei.
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