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Se não aconteceu, podia ter acontecido

oInimigoPúblico N.º1 SEXTA-FEIRA 26 DE SETEMBRO DE 2003 DIRECTOR LUÍS PEDRO NUNES Daniel Rocha

m u n d o p. 5

Kumba Ialá nos Forcados da Moita

A revelação da identidade do macaco da Indochina n a c i o n a l p. 5

Rio esconde Porto de Menezes Gaia vai deixar de ver a Ribeira c u lt u r a p.8

Rebello vende SPA

Já a tinha registado b o l s a p.8

ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DO PÚBLICO 4936 E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

Cotações da próxima semana extras

Gato Fedorento Markl sem cão Gastão F. Rodrigues e outros

Portas remodela Governo Durão nos EUA apanhado de surpresa Paulo Portas aproveitou a ausência de Durão Barroso em Nova Iorque para remodelar o Governo. O ministro de Estado e da Defesa chegou mesmo a efectuar convites a personalidades. A causa desta “remodelação à revelia” está, nas palavras de Nobre Guedes, na rigorosa dieta a que Portas se sujeitou nos últimos dois meses, com vista a

perder 12 quilos. O jejum terá provocado uma hipoglicemia e consequente “confusão mental” a Portas. Contudo, um dos novos ministeriáveis, Luís Delgado (Defesa), disse-se muito satisfeito por ser chamado a ministro “numa altura em que a crise económica já está mais do que ultrapassada” e que é uma “honra servir o grande exército americano”. P. 2 e 3

Bibi pode ter 14 anos Scolari prepara fuga Reviravolta no Caso Casa Pia

Seleccionador desaparece no 3º jogo

Testes médicos podem vir a demonstrar que Carlos Silvino (Bibi) tem apenas 14 anos. Uma reviravolta no caso Casa Pia que lança mais uma dúvida: como pôde ele ter conduzido a carrinha da instituição sem carta de condução? Onde estava a DGV? P. 6

Esquemas, planos, treinos e estratégias. Está tudo preparado. Scolari já sabe como irá abandonar o jogo da primeira fase do EURO 2004, em que Portugal será eliminado. Todos os contactos internacionais já foram estabelecidos . P.7

contra Jorge Compaio saúda o aparecimento de

informação O INIMIGO PÚBLICO e insurge-se contra os media sem concentração

Seja responsável. Beba com moderação


02 Dietaprovocadesarr Carlos Lopes

oInimigoPúblico 26 Setembro 2003

A sondagem que dava razão a Portas

1.

Qual o melhor político para substituir Barroso?

Paulo Portas 71% Narciso Miranda 10% O gajo que disse “rebento com essa merda toda” 9% “Aquele senhor do PP” 3% Ns/Nr 7%

Portas remodela Governo na ausência de Durão Aproveitando a ausência das primeiras figuras do Estado, o ministro da Defesa fechou-se no Forte de S. Julião da Barra e chegou mesmo a efectuar convites a diversas personalidades. Círculos íntimos de Portas culpam a dieta. LUÍS P. NUNES* aulo Portas aproveitou a ausência do primeiro-ministro e do Presidente da República no País (ambos em Nova Iorque, nas Nações Unidas) para efectuar uma remodelação governamental sem o conhecimento de Durão Barroso. O caso só não tomou proporções de “golpe de Estado” porque, na madrugada de quarta para quintafeira, ao telefonar a Luís Nobre Guedes para convidá-lo para ministro, este deslocou-se de imediato ao Forte de S. Julião da Barra e conseguiu demover o ministro de Estado e da Defesa Nacional de enviar, nessa mesma manhã, os despachos para publicação em Diário da República. O que teria criado um imbróglio constitucional de difícil resolução. Isto para além de provocar uma surpresa ao primeiroministro quando este chegasse dos EUA. Para além de tanto o primeiro-ministro como o Presidente da República se encontrarem fora do País, para estarem presentes na Assembleia-geral das Nações Unidas, Portas ter-se-á aproveitado do facto de Manuela Ferreira Leite, também ela ministra de Estado, se encontrar em “total reclusão” para analisar a possibilidade de Portugal sair do euro (ver texto ao lado), proposta que teve grande apoio do próprio Paulo Portas dias antes.

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Certo é que esta situação de “vazio”, que permitiu uma “remodelação à revelia”, só foi possível devido a uma série de “ausências em cadeia”, onde se destaca a de D. Maria, a cozinheira do Forte de S. Julião da Barra. É que, segundo o próprio Nobre Guedes, na origem do problema está a dieta que Paulo Portas iniciou há dois meses (ver caixa). A agravar a situação esteve o facto de, durante três dias, a cozinheira oficial do forte ter metido folgas em atraso, o que terá feito com que Portas tenha estado dois dias praticamente sem se alimentar. A tese de Nobre Guedes, corroborada por especialistas, é que tudo não passou de uma “confusão mental causada por uma grave hipoglicemia”. Aliás, garante Nobre Guedes, assim que Portas “comeu uma duchaise que estava no mini-bar do secretário de Estado da Defesa e Antigos Combatentes, a questão da remodelação ficou sanada”. Não fosse a intervenção eficaz do bolo (do dia anterior), que repôs os níveis de açúcar no sangue do ministro da Defesa, Portugal poderia ter mergulhado numa crise constitucional sem precedentes. Contactados pel’ O INIMIGO PÚBLICO, diversos constitucionalistas não se mostraram unânimes quanto ao valor legal da remodelação, caso esta tivesse sido publicada em Diário da República.

Alguns consideram que só com a colaboração expressa do Presidente da Assembleia da República (segunda figura do Estado) é que tal poderia acontecer. Mas, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “não é de descurar o facto de esta semana ter estado Lino de Carvalho a substituir Mota Amaral... não me admira nada que o PCP fechasse os olhos e deixasse a remodelação seguir para criar um problema dos diabos ao primeiroministro… isto não lembra ao careca! De resto, e para mostrar que não guardo rancores, aconselho que o Dr. Portas opte por umas tostas integrais com queijo fresco ao almoço e evite hidratos de carbono depois das 20 horas”. Tanto Durão Barroso como Jorge Sampaio recusaram-se a comentar a notícia, sendo que o Presidente da República pensou, por longos momentos, que estávamos a questioná-lo sobre a proposta que terá recentemente comunicado a Ferro Rodrigues sobre a necessidade de remodelar a oposição. Já Durão limitou-se a rir, parecendo mesmo não acreditar na informação na posse de O INIMIGO PÚBLICO. Telefonou, no entanto, a George W. Bush, como sempre faz. *com RCM

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2.

Qual a figura com perfil para ministro da Justiça?

Paulo Portas 66% “O gajo que disse rebento com essa merda toda” 9% Kumba Ialá 6% Adelino Granja 5% Pedro Namora 5% Manuel Monteiro 3% Ns/Nr 7%

3.

Qual o ministro das Finanças que melhor governou Portugal?

Salazar 61% Ferreira Leite 12% Paulo Portas 11% Cavaco Silva 4% Vasco Gonçalves 3% Amílcar Theias 2% Ns/Nr 7% Ficha Técnica

Amostra realizada nas Feiras de Carcavelos e Custóias entre as 6h15 e as 6h19 junto de cem feirantes reunidos junto da carroça do homem dos guarda-chuvas, pelo método do megafone e braço no ar (margem de erro de sete por cento – os que estavam mais lá para trás)


anjogovernamental 03

26 Setembro 2003 oInimigoPúblico

José Caria

condição manter todos os cargos que ocupa, nomeadamente o de administrador da Lusa, e deixou escapar que talvez agora “aqueles tipos da SIC me tirem da SIC Notícias e me metam na SIC generalista”. De resto, pediu muito, muito, muito para dar uns nomes de empresários que ele venera para ministros da Economia. Portas não acedeu, mas aceitou que, fosse qual fosse a sua escolha, não se importava que Delgado escrevesse que tinha tido influência na decisão.

Saraiva Estou em reunião de editores, diga que não me encontrou

A remodelação selvagem O filme A Génese A crise teve origem no início da semana, quando D. Maria, a cozinheira do Forte S. Julião da Barra, que nos últimos dois meses tem mantido o ministro a “bifinho e arrozinho branco”, anunciou que necessitava de ausentar-se para “ir à terra”, o que faz sempre por altura das vindimas. Portas contava estar fechado esta semana a trabalhar até altas horas, como é seu costume. O ministro juntou então um gabinete de crise, onde foram analisadas as alternativas. Nenhum dos elementos do seu staff se mostrou disponível para confeccionar um “late dinner” ao ministro, tanto mais que a maioria sai praticamente às horas em que o ministro chega para trabalhar. Devido às restrições orçamentais, a contratação de catering estava fora de questão. “Isto parece o fim do mundo. Nem os tipos da Telepizza cá chegam!”, declarou um dos mais próximos colaboradores de Portas. Perante este impasse, o ministro terá decidido resolver ele próprio o problema, tendo então telefonado à sua amiga Cinha Jardim, que se comprometeu levar uma “saladinhas e umas quiches” ao amigo.

A Remodelação Contudo, a preenchida agenda social de Cinha Jardim e a necessidade de comparecer em 14 festas por noite acabou por comprometer o acordo. Como resultado, terça e quarta-feira o ministro da Defesa não terá jantado. Facto pelo qual a própria Cinha se diz responsável,

Delgado Servir o exército dos EUA? Claro!

confessando “estar para morrer” ou “pra merrer”, conforme a grafia. Na madrugada de quinta-feira, com quase 48 horas de jejum (dado que raramente mete qualquer coisa no estômago antes das quatro da tarde), Paulo Portas começou a fazer convites para as pastas ministeriais. A própria Cinha estava na calha para a Justiça, dado o seu perfil, e a grande experiência em “rave parties”. Um dos primeiros a serem contactados foi Luís Delgado, a quem Portas tratou por “meu Dick Cheney”. Delgado aceitou de imediato o cargo de ministro da Defesa, e disse-se honrado por ir comandar umas “Forças Armadas que estão sob a alçada dos Estados Unidos da América”. Considerou-se um “homem de sorte” por ir pertencer ao Governo num momento em que “a crise económica está mais que ultrapassada, tal como venho a escrever diariamente desde Março”. Delgado colocou como

Seis bicas depois (com adoçante), decidiu contactar António José Saraiva, director do Expresso, para ministro da Cultura. A ideia de Portas era convidar para o seu núcleo uma das vozes mais críticas à sua pessoa, como se pode comprovar em 291 editoriais do semanário de Balsemão. A sua tese era de que com Saraiva na Cultura “é como se entrasse na clandestinidade… nunca mais se ouve falar nele”. Contudo, dado que eram 4h29 da manhã, o arquitecto encontrava-se em reunião de editores do jornal, pelo que não atendeu o telefone.

O Resgate Constitucional Foi então que ligou a Nobre Guedes a perguntar-lhe que pasta ministerial é que este queria. Nobre Guedes tinha-se deitado tarde, pois estivera numa jantarada com amigos do Conselho Superior de Magistratura a comemorar as declarações à SIC do presidente do Tribunal da Relação de Lisboa (“Tire daqui isso, senão parto esta merda, não me filme”). Quando o seu amigo e companheiro de partido lhe perguntou por que é que Portas estava a fazer convites deste género, ele respondeu que tudo começara quando quis saber como era ser primeiro-ministro. Depois, entusiasmara-se. “Afinal, já tenho 41 anos e ainda não fui Presidente da República nem primeiro-ministro. Ou melhor, agora até sou e, se sou, posso remodelar e isto segue já para a Imprensa Nacional para sair em Diário da República!”. Foi então que Nobre Guedes vestiu uns jeans sobre o pijama, combinou com um pólo Ralph Lauren e seguiu para S. Julião da Barra, tendo obrigado Portas a engolir a duchaise pertencente ao secretário de Estado Rocha de Freitas.

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Guedes Vesti uns jeans por cima do pijama e resolvi a situação

Sampaio “É o que dá dietas malucas” “Em termos abstractos, uma pessoa em crise hipoglicémica pode fazer os maiores disparates, mas normalmente o maior perigo que as pessoas correm quando estão nesse estado clínico é ir às compras... Ui, gasta-se o que se tem e o que se não tem... Agora, remodelar um governo, não sei... Teria que falar com o paciente em questão para poder opinar”. Quem o afirma é Daniel Sampaio, psiquiatra e especialista em distúrbios alimentares que, por motivos deontológicos, se recusou a tomar conhecimento sobre quem era o ministro da Defesa em causa. A dieta de Portas foi esta semana tornada pública pelo matutino 24 Horas, que garante que o ministro da Defesa está decidido a perder 12 quilos, tendo instruído todo os elementos do seu staff a não o deixarem cair em tentação. Portas chegou mesmo a exarar uma Ordem de Serviço a proibir elementos do Ministério, nomeadamente os seus colaboradores mais jovens, a maioria saídos da Juventude Popular, a comer pastilhas elásticas à sua frente. E adianta o psiquiatra: “Não nego, à partida, que se possa justificar certos comportamentos devido às dietas malucas, mas, repito, estaria mais convencido em acreditar que esse ministro – cuja identidade desconheço – tivesse decidido comprar seis submarinos novos, dez jaguares verdes para o Ministério e oferecido as Selvagens ao Rumsfeld para que ele construísse lá um chalé”.

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04Política oInimigoPúblico 26 Setembro 2003

Paulo Ricca

Estatuto Editorial

Se não aconteceu, podia ter acontecido. 1. O INIMIGO PÚBLICO é um jornal semanário satírico de referência, que não cede à tentação do facilitismo da notícia falsa sensacionalista.

2. N’O INIMIGO PÚBLICO, todas as notícias são OBJECTIVAMENTE falsas, mas EQUILIBRADAS, pois buscam sempre ouvir os testemunhos falsos de ambas as partes, seguindo as regras de ouro do jornalismo.

3. Assim, na senda de grandes jornais mundiais, como o “New York Times”, O INIMIGO PÚBLICO inventa factos, relatos, acontecimentos e personagens, mas garante ao leitor que os irá apresentar de forma verosímil, por vezes plausível e outras não.

4. O INIMIGO PÚBLICO não entra em campanhas persecutórias nem urde cabalas, porque tem uma visão equilibrada do mundo e considera que TODOS, sem grandes excepções, são passíveis de ser satirizados nas suas páginas.

5. Os jornalistas e articulistas d’O INIMIGO PÚBLICO assinam sempre os seus textos. Contudo, nem sempre os nomes com que assinam são os seus nomes verdadeiros. Tal depende da vontade destes. E depende da vontade do director, o que pode ser, no limite, confundido com mera cobardia.

7. Dentro destes pressupostos, O INIMIGO PÚBLICO não aceita de forma alguma que, quer os seus leitores, quer eventuais figuras públicas que se suponham visadas, se ofendam, se achem difamadas ou vilipendiadas por qualquer artigo ou opinião publicada.

9. Afinal, se não aconteceu, podia ter acontecido. Este é o nosso compromisso. O Director

Rio esconde Porto de Menezes

OS BLOGS DOS FAMOSOS “Estou com dúvidas em relação ao nome que vou dar ao meu blog. Pensei em “Calúnia Infame”, mas depois achei que não queria confusões com tipos de direita. Passou -me pela cabeça o nome “Alerta Amarelo”, mas era chato ter sempre à perna gajos da PJ, com comentários provocatórios. Tomei uma decisão: tendo em conta as notícias sobre o PS que cheiram mal que, todos os dias, chegam ao Largo do Rato, o meu blog vai chamar-se “O Rato Fedorento”. (“O Rato Fedorento”, blog de Ferro Rodrigues)

Espelho separa cidades ui Rio encomendou à Vidreira da Fontela (grupo Saint Gobain) a concepção e desenvolvimento de uma gigantesca cortina de vidro espelhado, que preserve de olhares alheios a magnífica panorâmica do Centro Histórico do Porto, classificado como Património da Humanidade pela Unesco. Para quem olhar a encosta das caves de Gaia a partir do Porto, a cortina funcionará como um mero vidro transparente. Ao invés, quem olhar da margem esquerda para o Porto, verá a imagem de Gaia reflectida na superfície espelhada. Há já alguns meses que Rio tinha confessado a Agostinho Branquinho, amigo de longa data e sócio na cadeia de clínicas dentárias Vital Dent, a sua profunda irritação pelo facto de o arqui-rival Menezes estar a tirar partido da vista tipo postal ilustrado do Porto, para aumentar a notoriedade e as receitas turísticas do seu concelho. Compete agora aos técnicos da Vidreira da Fontela viabilizarem tecnicamente a solução gizada pela dupla Rio/Branquinho, que contrataram ao Departamento de Engenharia Mecânica da FEUP o estudo de implantação da cortina, que terá uma altura aproximada de

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50 metros (o cálculo do ângulo de visão ainda é definitivo) e irá desde o tabuleiro inferior do ponte Luiz I até à Alfândega. Instado a comentar o projecto de Rio, Luís Filipe Menezes diz que perdeu a capacidade de espantar-se com as iniciativas do presidente da Câmara do Porto e desvalorizou o impacto da cortina. Uma fonte próxima do autarca de Gaia confidenciou ao INIMIGO PÚBLICO que Menezes está convencido de que Rio não terá tempo para implementar o projecto até ao fi m do seu mandato. “Mas se o conseguir, não tenham dúvidas que o doutor Luís Filipe Menezes se candidatará ao Porto nas próximas autárquicas, tendo como ponto principal do seu programa o derrube da ‘vergonhosa cortina de vidro’”. A produção e implantação da cortina está orçamentada em 600 mil euros. De acordo com Branquinho, a verba pode ser facilmente recuperada através da concessão de uma faixa de publicidade na face da cortina virada para Gaia e do merchandising. «Temos de aproveitar o carácter inédito da situação. O Porto vai ser a primeira cidade a usar uma cortina para proteger a sua paisagem privada», afi rma Branquinho.

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SACO NA CABEÇA O INIMIGO PÚBLICO acertou

O FIEL INIMIGO

No número zero elaborado no início de Julho, escrevemos que a cantora Dina, popularizada por ter escrito o hino do CDS, iria compor o hino do novo partido de Manuel Monteiro. Inesperadamente, sem que nada o fizesse prever, Dina veio afirmar que, de facto, iria compor o hino da Nova Democracia. Nada apontava que a nossa notícia falsa fosse, afinal, verdadeira. Aos leitores e aos visados as nossas desculpas.

Nas centenas de entrevistas que concedemos no pré-lançamento d’O INIMIGO PÚBLICO, em todas mencionámos o facto de o último jornal assumidamente satírico em Portugal ter sido O FIEL INIMIGO, de Júlio Pinto. Possivelmente, para nos criar problemas, a dita imprensa séria ignorou sistematicamente a menção a esse jornal, com o qual partilhamos até parte do nome. Embora alheios ao facto (de não termos sido citados na íntegra), as nossas desculpas.

Jornal PÚBLICO Director José Manuel Fernandes

Director Luís Pedro Nunes

oInimigoPúblico

Redactores Fernando Marques, João Macdonald, Jorge Fiel, Jorge Marmelo, Luís Costa, Nuno Costa Santos, Rui Baptista Colaboradores Permanentes Filipe Homem Fonseca, José de Pina, Miguel Góis, Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira, Rui Cardoso Martins, Tiago Dores, Zé Diogo Quintela

“Se não aconteceu… podia ter acontecido!” O Inimigo Público é um jornal satírico, sendo que todo o seu conteúdo é ficcional. Publishers Nuno Artur Silva/Daniel Deusdado

Colunistas João Nunes (John Snow), Carlos Quevedo (autor convidado), Pessoa Importante nº1 (Anónimo XXI), Pessoa igualmente Importante nº2 (Gastão F. Rodrigues), Pessoa também Importante nº3 (Marcos Pombal)

Colaboram ainda Projecto Gráfico Silva!designers Designers Ana Carvalho, Hugo Pinto, Ivone Ralha, Jorge Guimarães Fotografias Público

Cartoon António Jorge Gonçalves, Nuno Saraiva Ilustração Alberto Faria

O INIMIGO PÚBLICO é um projecto conjunto Público/Produções Fictícias/Farol de Ideias paoa o Público oinimigopublico@publico.pt

“Hoje o dia foi especialmente produtivo - passei o dia a ver blogs. Só não vi “O Défice Descontrolado”, da Ferreira Leite. Ela conseguiu criar um mecanismo estranho: um tipo entra no blog dela e começa logo a descontar. Ainda se fosse como aqueles sites que dão para ver fotos de miúdas giras…”. (“O Cherne desnorteado”, blog de Durão Barroso) “Onde é que estava o ministro Figueiredo Lopes quando o bacalhau à braz que a sua mulher estava a fazer na cozinha pegou fogo?!”. (“Muito Incendiário”, anónimo). “Fosga -se! Hoje não consegui desencantar nenhum núcleo pedófilo!!!” (“Protagonismo Fácil”, blog de Felícia Cabrita). “Hoje estive na net a procurar notícias. Fui ao “Escuta aí, Vai!”, o blog daquele rapaz, o Rui Teixeira . Depois passei pelo da Cabrita e pelo “Retalhos da Vida de um Casapiano Famoso”, do Pedro Namora. Quero aqui deixar o meu protesto: actualizem lá os vossos blogs! Eu, como procurador-geral da República, tenho o direito de saber quem é que está acusado neste processo da Casa Pia!” (“O Gato Constipado”, blog de Souto Moura). “Gosto de saber que este ano há Verão de São Martinho em Novembro. Alguém irá à prova da água -pé fazer novos amigos. Prevê -se que a colheita seja boa. Haverá castanhas a granel, das grandes e das pequenas, e alguém poderá entusiasmar-se e pedir umas assaduras ou um pica -pau. No Natal, haverá neve debaixo dos lençóis”. (“Blog Cifrado”, de Carlos Cruz). NUNO COSTA SANTOS


Mundo05

26 Setembro 2003 oInimigoPúblico

Kumba Ialá vai integrar o Grupo dos Forcados Amadores da Moita

GLOBO OCULAR

Presidente deposto da Guiné-Bissau exila-se em Portugal por amor à Festa Brava.

K

Cartaxo, que garante ter sido nessa altura que o presidente deposto passou a usar um barrete em todas as aparições públicas. A paixão de Kumba Ialá pelos touros foi abafada durante anos pelos seus afazeres políticos, mas ressurgiu em força nos últimos meses, chegando a perturbar o andamento das reuniões do Governo deposto da Guiné-Bissau. “Quando se zangava com um ministro, o senhor Presidente punha as mãos na cintura e gritava: Eh touro! Eh, tourinho lindo!”, relata um ex-colaborador de Ialá. Foi o amor pelos touros que levou também Kumba Ialá a cortar, na Guiné-Bissau, as emissões da RTP Internacional. “Ou transmitem touradas ou mando fechar esta porcaria”, ameaçou Ialá numa carta enviada para o Conselho de Administração da RTP, revelada na edição desta semana do Correio de Bissau. Quando o Governo português lhe fez finalmente a vontade, ordenando a transmissão da Corrida Anual da Casa do Pessoal da RTP, Kumba Ialá já tinha sido deposto pelo general Veríssimo Correia Seabra.

França “Na Eslováquia vimos um Papa imóvel a entrar no Papa móvel” Le Canard Enchainé 17/09/03

África do Sul Após 60 milhões de silêncio, Marte aproveitou a recente proximidade com a Terra para prestar algumas declarações: “Fiquei muito espantado com tamanho pequenino da Terra....tem-se uma ideia feita, enfi m, lá porque tem vida orgânica e tudo, imagina-se que se trata assim de uma coisa do tamanho de Júpiter... mas não... e para mais é quase tudo água”. Anastrophe 20/09/03

Estados Unidos David Clifford

umba Ialá, o deposto Presidente da República da Guiné-Bissau, vai exilarse em Portugal, onde pretende juntarse ao Grupo dos Forcados Amadores do Aposento da Moita. “Barrete já eu tenho, agora venham de lá os toiros”, disse Ialá ao INIMIGO PÚBLICO. A notícia foi recebida com alívio em Bissau, onde a indefinição sobre o futuro de Ialá estava a tornar-se um problema complicado para o Governo de transição presidido pelo general Veríssimo Correia Seabra, mas ameaça abrir uma crise nos círculos tauromáquicos portugueses. É que Kumba Ialá não abdica de usar o barrete vermelho que o celebrizou, apesar de ter sido previamente informado de que, de acordo com a tradição, o verde é a cor oficial dos barretes dos forcados amadores portugueses. “Vermelho é cor de campino e não de forcado! Se começamos a abrir excepções a Festa Brava corre o risco de ir por água abaixo”, resume o crítico tauromáquico Maurício do Vale. O crítico garante que o que está em causa não é a cor da pele de Kumba Ialá, mas antes a cor do seu barrete, mas sugere maliciosamente que o ex-Presidente deveria juntar-se antes aos Forcados da Chamusca, “onde, de certeza, se sentiria mais em casa”. O interesse de Kumba Ialá pela Festa Brava terá nascido durante as garraiadas da Universidade Católica de Lisboa, onde o ex-Presidente se licenciou em Teologia. “O Kumba não tinha medo de nada. Enfrentava o touro de caras e nas pegas até dispensava ajudas”, conta um excolega de curso, hoje pároco numa freguesia do

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Acusado de ter um problema com a bebida para além de ser ditador

“Não podemos impedir que anoiteça” A primeira entrevista após ter sido deposto do poder. O INIMIGO PÚBLICO: O Frankfurter Allgemeine Zeitung acusou-o de ser alcoólico e ditador. É verdade? KUMBA IALÁ: As coisas não são bem assim. Além do mais, a natureza desenvolve-se por si mesma, sem intervenção humana. IP: Mas bebe ou não bebe em excesso? KI: Acabei de dizer-lhe e volto a repetir: nós não podemos impedir que anoiteça hoje e que daqui a 24 horas amanheça outra vez. IP: Está a admitir que é alcoólico? KI: Estou a dizer-lhe que só Deus é infalível e o que diz é 100 por cento verdadeiro e inalterável. IP: Não está a responder à minha pergunta. E as respostas que está a dar são iguais às que deu numa entrevista ao Expresso... KI: Não me provoque. Liberdade de imprensa não significa libertinagem de imprensa. IP: Mas... KI: Nem mas, nem meio mas! Fique sabendo que os frustrados se escondem

normalmente atrás dos órgãos de comunicação social para exprimir os seus ideais utópicos e criar distúrbios. Considere isto um aviso. IP: Só gostava de saber se... KI: Não gostava e não vai saber. O jornalismo é absolutamente indispensável em qualquer sociedade democrática, mas não pode ter a pretensão do vento. IP: Como assim? KI: Embora tenha plena liberdade de circulação, o vento não consegue perfurar a parede. IP: Qual parede? KI: A parede do cabrão do macaco da Indochina! IP: Isso já parece mania da perseguição. Afi nal quem é esse macaco da Indochina de que já falava no seu livro de pensamentos políticos e filosóficos? KI: É o gajo que se atrapalha com a beleza de uma mulher elegante. IP: Voltemos à vaca fria...

KI: Nem frias nem quentes. Por questões de natureza religiosa não toco em carne de vaca. IP: Mas se vai integrar o Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, isso parece um contra-senso. KI: Bem pelo contrário. Uma vaca é uma vaca. Um touro é um touro. Do mesmo modo que o comprido é a negação do curto, bem como o alto o é em relação ao baixo, que assim se apresentam com a igualdade de posição de relatividade. IP: Nos forcados, vai ser rabejador? KI: [Kumba Ialá esboça um sorriso nervoso, agita-se na cadeira, solta um arroto, e pede para não responder]. IP: E quanto à acusação do Frankfurter Allgemeine Zeitung? KI: Sobre esse assunto só volto a falar na presença do meu advogado. Já falei para Frankfurter, que fica na Allgemeine: como toda a gente sabe: e vou processar o senhor Zeitung.

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Após o concerto na Praça Vermelha, foi o próprio presidente Vladimir Putin a assinar um decreto urgente a banir do país a música de Paul McCartney da fase pós-Beatles (...) No início, tudo terá corrido com normalidade dado que o concerto abriu com “Yesterday” e “Back in the USSR”. Mas depressa o ambiente mudou quando Sir Paul anunciou que iria cantar um tema chamado “Silly Love Songs”, tendo a multidão entrado em debandada quando tocou os primeiros acordes do execrável tema de 1976. Borowitz Report 18/09/03 Advogado egípcio processa judeus por terem entrado ilegalmente no Egipto durante o Êxodo; Judeus ameaçam ripostar com um processo por 400 anos de escravatura – acordo extrajudicial esperado. Ironic Times 20/09/03

Grã-Bretanha O Governo inglês anunciou que John Prescott (Deputy Prime-Minister e braço direito de Blair) vai ser substituído por uma máquina de café. Um porta-voz do n.º 10 de Downing Street disse: “John Prescott vai ser substituído por uma máquina de café. A decisão foi tomada na reunião de conselho de ministros. Mr. Prescott tem prestado grandes serviços ao país e ao Partido Trabalhista desde 1970, mas pensamos que é do interesse de todos que ele seja substituído por algo mais útil ao Governo”. Llanelli Scar 21/09/03


06Sociedade oInimigoPúblico 26 Setembro 2003

AP Photo/SIC

Bibi poderá ter apenas 14 anos Surpresa total

Uma primeira bateria de testes feita à estrutura óssea de Carlos Silvino deixa em aberto a possibilidade de um dos principais arguidos do escândalo da Casa Pia ser, afinal, menor de idade. DESBANDA NUNO SARAIVA

TIAGO DORES notícia caiu que nem uma bomba nos meandros do processo Casa Pia. Uma equipa de médicos efectuou um conjunto de análises aos ossos de Carlos Silvino e concluiu que existe forte possibilidade de Bibi ter apenas 14 anos.

A

De acordo com o coordenador da referida equipa, que preferiu não ser identificado por motivos de segurança, “o tamanho diminuto do crânio do senhor Carlos Silvino só pode indicar uma de duas coisas: ou se trata de um homem com gravíssimas perturbações mentais ou de um indivíduo extremamente jovem. Ora, como eu não aprecio nada fazer

juízos de valor sobre as pessoas, garanto que o senhor Carlos Silvino tem 14 anos ou eu não me chamo Orlando Feliciano!” O moderno método científico de datação experimentado em Carlos Silvino foi já empregue, por exemplo, no último Campeonato da Europa de Futebol de Sub-17, para atestar da idade dos atletas, tendo sido considerado um estrondoso sucesso. Não foi detectado nenhum futebolista em situação irregular, pelo que os especialistas concluíram que não é tão raro como se possa imaginar ter ossos de um adolescente de 16 anos e uma hipertrofia da próstata já bastante significativa. Estes avanços recentes no campo científico põem de parte o método tradicional e pouco fiável de determinação da idade da pessoa, tecnicamente designado por “Método Tradicional e Pouco Fiável de Determinação da Idade da Pessoa” que, muito sucintamente, se pode explicar em 3 passos: 1º - Pegar no B.I. do indivíduo 2º - Ler a data inscrita no campo “Data de Nascimento” 3º - Determinar a idade, subtraindo ao ano em que nos encontramos o ano de nascimento A notícia da nova idade de Bibi desencadeou uma reacção imediata junto de quem acompanha de perto o drama das crianças da Casa Pia. O advogado de uma das alegadas vítimas afirmou mesmo que “se queriam inventar que o Bibi é menor de idade, tinham-lhe falsificado o Bilhete de Identidade. Punham que o tipo tinha nascido a 29 de Fevereiro e a coisa batia mais ou menos certa.” E acrescentou que “por falar nisso, vou mandar fazer uns B.I. novos para uns sujeitos... Miúdos! Para uns miúdos que arranjei para depor, de maneira que, se quiserem, não me custa nada mandar fazer mais um”. A confirmar-se que Carlos Silvino tem 14 anos, o caso pode arrastar-se eternamente. É que, assim sendo, caberá à PSP, à GNR e à Direcção-Geral de Viação entrar em acção, para investigar como é que um jovem de 14 anos conduziu, durante 18 anos, as carrinhas da Casa Pia. E depois ainda há aquela questão da pedofilia.

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Desporto07

26 Setembro 2003 oInimigoPúblico

Scolari pronto para o EURO 2004 Fuga do Alvalade XXI negociada com “líder do tráfico” do Rio de Janeiro Rui Gaudêncio

uis Felipe Scolari já tem pronto um plano de fuga para depois do jogo em que Portugal será eliminado na primeira fase do Europeu 2004. O seleccionador aproveitou a deslocação ao Brasil – que chegou a ser entendida como umas estranhas férias em Setembro – para encontrar-se com representantes de “Fernandinho Beira-Mar”, líder do tráfico do Rio de Janeiro, e desenhar todos os detalhes da operação. Um alto comando da confiança de “Fernandinho Beira-Mar” esteve em Portugal na última quarta-feira para fazer uma vistoria técnica ao estádio do Sporting e recebeu já 33 por cento do cachet acordado, disse a “O INIMIGO PÚBLICO” um repórter de “O Globo” que obteve a história. Segundo a mesma fonte, Felipe Scolari havia imposto como condição a Gilberto Madaíl, para aceitar o cargo de seleccionador, receber antecipadamente o prémio pela vitória no Europeu, conhecida que é fama da Federação de ficar a dever dinheiro. Para tal, Scolari chegou a prometer o título europeu para Portugal. A FPF já pagou 75 por cento do total. Com o cachet na Suíça, só faltava ao seleccionador preparar um plano de fuga, o que está garantido: às 21h30 de 20 de Junho, altura em que termina o terceiro jogo de Portugal no EURO 2004, um grupo de altos comandos de “Fernandinho Beira-Mar” entrará no Alvalade XXI equipado com fardas de assistência médica para retirar Scolari de emergência, como se tivesse sido vítima de indisposição. Depois, uma ambulância levá-lo-à para fora do estádio, mas, em vez de dirigir-se ao Hospital de Santa Maria, avançará a alta velocidade para a recta do Porto Alto, refugiando-se

L

o seleccionador nas ruínas da estalagem do Touro Bravo. A opção por este local foi tomada por Scolari por considerar ser o local onde melhor passará despercebido, tratando-se de uma zona onde abundam os grandes melões. “A ser verdade, é uma boa decisão. A cabeça do Scolari será facilmente confundida com a de um grande melão branco, de Almeirim, de boa colheita”, comentou Aurélio Márcio, jornalista especialista em seleccionadores nacionais. Scolari passará aí quatro noites até avançar para uma nova fuga que o levará por Castelo Branco, Guarda e Bragança, saindo do país pela fronteira de Quintanilha – um talismã de Scolari pela admiração que tinha pelo prof. Quintanilha da telenovela “O Astro”.

Chegado a Espanha, o treinador será recebido em Madrid na Federação Espanhola de Futebol, onde será agraciado com a Ordem de Mérito desportivo pela moralização que proporcionou à selecção espanhola no recente confronto com Portugal, e assinará depois um contrato como consultor para “olheiro” de outras selecções adversárias de Espanha. Em seguida partirá para gozo de férias em Benidorm. A única zona cinzenta no plano do seleccionador é, neste momento, a da eventualidade de Portugal perder o jogo inaugural, nas Antas, e logo a seguir, ser derrotado na segunda partida, na Luz, e defi nitivamente eliminado. Para esta situação, Scolari encontra-se sem qualquer retaguarda, já que nem “Fernandinho Beira-Mar” quis tomar conta da operação.

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Cotações da próxima semana

MÉDIAS ALTAS

VJS pode deixar Parlamento O deputado socialista Vicente Jorge Silva poderá deixar a Assembleia da República para assumir o lugar de Provedor de Leitores de O INIMIGO PÚBLICO. O convite foi formalizado antes mesmo de estar decidida a linha editorial deste jornal (humor, era para ser Política Internacional), sendo que a decisão do deputado poderá ser acelerada pela saída de Maria Elisa da AR. É o próprio que justifica: “Claro que o dinheiro também poderá pesar na minha decisão, mas acima de tudo tenho consciência de que as únicas vezes que me colocaram questões no Parlamento foram por causa da Maria Elisa... no fundo, eu era o seu deputado-sombra e era a mim que os jornalistas procuravam para comentar as suas acções”. A bancada do PSD lamentou o “desnorte” da Oposição, lamentado o que consideram ser “mais um caso de promiscuidade entre a política e o humor”.

Margarida Marante já tem emprego A jornalista Margarida Marante já arranjou emprego, desta vez na TSF. A operação “Emprego para a Marante” acabou por ser mais simples do que o esperado, pois passou simplesmente por despedir a direcção de uma rádio, após conselho do actual marido e aprovação da administração da Lusomundo, onde se encontra o ex-marido, Rangel e Granadeiro, por ordem inversa à cronologia dos matrimónios.

Anúncio da Martini baseia-se em foto verdadeira!

A descer

A subir

G7

G3

Limpe esta sigla da sua cabeça. Os países mais desenvolvidos do mundo já eram. Faça de conta que é marroquino. Pense bem: onde investiria se fosse marroquino? No Egipto, é óbvio. E se vivesse no Dubai? A opção seria, de caras, na Líbia. “Mercados emergentes”. Eis o que funciona. Compre “Saudi Kadhafi Oil Inc.” no mercado de Tripoli (2.ª loja à direita, depois da entrada no Kash-bah), com a magia do “papel” impresso, títulos reais. Avance para “Vodafone Cairo”, “Vodafone Bombaim” e, sobretudo, “Vodafone Coreia” – compre Norte e Sul, porque ainda há um muro no paralelo 37 e não se pode lá ir pessoalmente. Esqueça a PT. É conversa de tias. “Pê Tê? Pú quê? Ai ê? Nâ pôsse crê! Tâ bê... Vô lâ tê...”. Areje.

Armas, coisas a sério, coisas boas, material do melhor. Está a dar, está a aquecer. No Nasdaq, há por lá umas firmas de armamento que vale a pena espreitar. Coisa boa. Dura. Ligue para o Ministério da Defesa e pergunte quando chega a nossa encomenda de G3. Se não souberem, telefone ao Ângelo Correia. Não, não é inside trading. Já muita gente sabe que a nossa encomenda vai agitar o mercado mundial. Invista em coisas que tenham a ver com compras de armas para a resistência iraquiana. Está para durar. Coisa boa. Espreite também a Bolsa de São Paulo. O PT está a fazer com que os empresários voltem a acreditar. O PT está a crescer para a filha da nossa PT no Brasil. Vai dar conversa. Vai dar trrrimm- trrrimm. Vai nascê muito tê-lê-lê, graças a Deusss. Mas só no Brasiu.

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Para breve, o telemóvel 6.35mm

A fotografia que serve de base à última campanha da Martini é, afinal, uma foto verdadeira, tirada numa unidade hoteleira de luxo portuguesa. Ao que foi possível apurar, a foto (em que se vê um empregado de hotel e uma extraordinária e fabulosa Martini Woman, de decote generoso, a abrir a porta) foi tirada por um fotógrafo paparazzo que estava a seguir a atribulada vida amorosa de uma conhecida figura pública portuguesa, Até ao momento, não foi possível contactar nem a referida figura e muito menos a rapariga Martini. Contudo, prometemos mais pormenores na próxima edição…


08Cultura oInimigoPúblico 26 Setembro 2003

Rebello vende SPA à Madeira Ex-presidente terá registado a SPA na SPA DR

VÁLTER SANTIAGO a reviravolta total no caso da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA): Luís Francisco Rebello vendeu a instituição à Madeira, que não tem nenhuma. “Não sei qual é o espanto”, afi rmou o dramaturgo ao INIMIGO PÚBLICO. “A SPA tem um autor: eu. E uma vez que a SPA está inscrita na própria SPA, o seu autor tem pleno uso sobre a mesma.” Rebello não confirma, mas fala-se num negócio de 280 mil euros entre a SPA e o Governo Regional da Madeira. O novo nome da instituição será Sociedade Madeirense de Autores (SMA). O “caso SPA” nunca chegou a estar verdadeiramente resolvido. Depois da demissão em bloco da presidência de Luís Francisco Rebello, que já durava há 30 anos, e subsequente eleição da lista B, liderada pelo cantor Manuel Freire, Rebello ameaçou criar uma nova sociedade de autores. Nesse projecto estava também Vasco Graça Moura, o cabeça-de-lista perdedor daquele acto eleitoral, mas aparentemente foi Graça Moura que acabou por demover Rebello da ideia. “Vou ser franco”, admitiu a este jornal o poeta e tradutor. “Há mesmo quem diga que eu tenho uma montanha de dívidas para

É

com a SPA, resultado de adiantamentos de direitos. Se o boato fosse verdadeiro era um disparate o Luís arrancar o novo projecto no vermelho. A minha mulher convenceu-me a não entrar em mais despesas. Ainda por cima, ainda preciso de traduzir mais cinco séculos da literatura italiana para poder devolver o dinheiro.” Dali à ideia de vender a SPA para tirá-la do controlo de Manuel Freire foi um passo. Luís Francisco Rebello considera que tomou uma decisão patriótica: “Creio que estou a contribuir para o desaparecimento do défice democrático da Madeira. Apesar de eu e Alberto João Jardim estarmos em campos políticos opostos, temos ambos consciência de Estado. A Madeira não tem uma SPA e já vai sendo altura do problema ser resolvido. Se o Manuel Freire e os outros querem uma sociedade de autores, que façam a deles. Esta era minha e resolvi vendê-la à pérola do Atlântico.” Contactado pelo INIMIGO PÚBLICO, Manuel Freire não escondeu o desagrado pela situação. “Isto só aconteceu porque eu sou apenas o presidente-eleito. Quer dizer, era, porque já me demiti, se não tinha de me mudar para a Madeira. Mas o verdadeiro problema é que agora o continente fica sem uma sociedade, portanto não sei bem

o que faça. É tudo muito triste. Vou ter de compor uma canção sobre isto, é o que é, e depois penso melhor no assunto. E nem sei onde é que depois vou buscar os direitos de autor da canção.” Curiosamente, o mesmo problema colocase a Luís Francisco Rebello. É que Rebello, residente em Lisboa, ao vender a SPA à Madeira, ficou sem sociedade de autores no continente que lhe cobre os direitos de autor da própria sociedade de autores que ele vendeu. A única solução seria Rebello mudar-se para a Madeira e inscrever-se na recém-criada SMA. Caso não queira mudar de residência, terá ele mesmo de regressar à sua ideia inicial: criar uma nova sociedade que por sua vez cobrará à SMA os direitos de autor que lhe são devidos pela criação da desaparecida SPA, agora proriedade da SMA. Confrontado com este vazio jurídico, Rebello não se assusta: “Realmente não tinha reparado nisso, mas qualquer coisa hei-de fazer. Não volto é a meter-me em negócios com o Graça Moura. Ainda não chegámos à Madeira, caramba!” O “caso SPA” está longe de acabar e esperam-se novos desenvolvimentos para a semana: o INIMIGO PÚBLICO sabe que Paco Bandeira, arqui-inimigo de Rebello, partiu ontem para o Funchal na esperança de dar o golpe final na instituição. Fonte familiar do cantor disse que Bandeira apanhou o avião muito abalado pelos acontecimentos. “O Paco anda com os nervos em franja e já nem consegue tocar viola. Na família achamos que é a tremura dos cinquenta. Esperamos que não faça mais disparates do que já fez.”

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AS BESTAS CRÍTICAS

AQUÁRIO CRÍTICA DE TELEVISÃO UNGALALAZURINDADABUMBUM, DISSE ELE Embora a expressão se aproxime perigosamente do oxímoro, a «cultura geral» é um tema caro aos concursos televivos. É tudo realmente muito geral, e «cultura» tem menos a ver com Thomas Mann do que com saber onde fica a Quirguízia. «Passo a Palavra» é um concurso de «cultura geral» apresentado por Nicolau Breyner. Nicolau Breyner merece o meu respeito. Não tanto por causa da sua emérita carreira autárquica, mas sobretudo por ser a prova viva que uma excessiva horizontalidade anatómica não impede uma profícua existência horizontal. As regras do concurso são iguais às de trezentos e doze outros «formatos» semelhantes: várias «fases», concorrentes «eliminados», uma «prova» final, o esquema costumeiro de perguntas sortidas, baseadas em iniciais, e respostas acontra-relógio. No início é pedido aos concorrentes que «mostem a fracção». Suponho que terá a ver com o patrocínio da Santa Casa, mas admito teses mais escabrosas. Presença notória no programa são as seis bailarinas meio descascadas que o

apresentador finge seduzir para gáudio do público presente, quando o facto é que, segundo costuma acontecer nas histórias de bastidores de televisão, já devem ter ido todas ao castigo logo no casting e agora o Nicolau já nem sequer lhes atende o telemóvel. Assistir a este concurso exige dose reforçada de aspirina e leite morno. No episódio visionado, foram várias as perguntas de caca que os concorrentes não souberam responder, mesmo com a pista da inicial: o nome próprio de Bush filho (começado por G), um membro do Benelux (começado por H), ou o antónimo de «obeso» (começado por M). Entre as respostas originais, destaque para o facto de o presidente americano (começado por R) que concebeu a ONU ter sido Reagan, e para o realizador do filme Chaimite (começado por J) ser Joaquim Leitão. Nada de grave: é de supor que sete milhões de portugueses não saibam o que é o Benelux ou um antónimo. E todos os filmes portugueses são, no nosso imaginário, de Manoel de Oliveira ou de Joaquim Leitão. O programa inclui também quatro concorrentes «famosos», que ajudam os dois anónimos. Nesta edição, destaque para o cantor Fernando Girão, que fez o seu distintivo UNGALALAZURINDADABUMBUM. E depois, há a parte educativa. Neste programa aprendi as seguintes palavras: ignímovo, bazulaque, pavês, morsega, vatricoso,

esputar e ratinar. As duas últimas já me foram úteis na cama. «Passo a Palavra» demora, salvo erro, cinquenta minutos (fui fazendo outras coisas pelo meio). Tem, por isso, menos setenta minutos do que um telejornal médio. Só por isso, merece uma espreitadela. MARCOS POMBAL «Passo a Palavra», apresentação de Nicolau Breyner, passava, de segunda a sexta, na RTP 1. Ao saber desta crítica a 5 de Outubro acabou com o concurso.

OS FILMES DO JOHN Abuso de “Confiança” Antes de mais, o agente do FBI está feito com os heróis. Digo-lhe isto só para o caso de você baralhar-se e perder o final, como aconteceu com o meu cunhado Marcelino. É que o argumento de “Confiança” dá tantas voltas que até faz inveja ao furacão Isabel. A certa altura, os personagens andam mais perdidos atrás do enredo do que os jogadores do Sporting atrás da bola. Os actores bem tentam salvar a coisa: Dustin Hoffman interpreta o criminoso

Winston King como se fosse uma ratazana viciada em pastilha elástica; Andy Garcia faz um agente corrupto do FBI tão pouco habitual que quase parece que voltou a ser actor; e Rachel Weisz está mais escaldante do que uma mata algarvia no Verão. A única excepção é o protagonista, Edward Burns — quando o vejo só me lembro daqueles modelos portugueses que teimam em ser actores. Mas vamos à história de “Confiança”. Jack Vig é um vigarista que tem o azar de dar o golpe a um poderoso bandido de L.A.. Em contrapartida, promete pagar-lhe uma fatia do próximo esquema, que vai ser um dos grandes — não tão grande como cobrar IVA aos donativos dos incêndios, mas quase. Para o executar conta com o seu bando de sempre e uma nova cúmplice, Lily. A partir daí, sucedem-se os zigues e os zagues mais ou menos surpreendentes, os personagens mais ou menos previsíveis e os diálogos mais ou menos... mais ou menos. No final de “Confiança”, olhei para o bilhete e senti que tinha caído outra vez no conto do vigário. Ou, como dizíamos lá em Hollywood, na “short story of the vicar”. JOHN SNOW “Confiança”, realização de James Foley, guião de Doug Jung, com Edward Burns, Rachel Weisz, Dustin Hoffman e Andy Garcia.


Comentadores09

A COLUNATA anónimo xxi

26 Setembro 2003 oInimigoPúblico

A Ardida Cultural

(Für Elisa) A menina Maria Elisa, nome com que passou a ser conhecida no cabeleireiro quando descobriram que não tinha acabado o curso, qualquer curso, e portanto não era dótôra, a menina Maria Elisa, dizia eu, está de malas feitas para Londres, dizem os jornais. Adida cultural, Londres ou Paris, tanto faz. A menina Maria Elisa tem, como se costuma dizer, um passado. Um passado bastante fibromiálgico, caracterizado por ataques de cansaço e fastio existencial, e dor, muita dor, sempre que a vida não lhe corre a favor. Este correr a favor nada tem de especial, pode ser um gabinete pequenino demais, um ordenado pequenino demais, um posto pequenino demais, uma humilhação grande demais. A menina Maria Elisa, que tem amizades sólidas à esquerda e à direita e é um pilar esfarelado do bloco central, tem, digo eu e diz toda a gente, as costas quentes. E o mundo tem as costas largas. Todos lhe devem qualquer coisa que não lhe dão. E ela vai pedindo mais. Eis, finalmente, o posto certo. A menina Maria Elisa vai iniciar o seu período inglês numa biografia e numa obra reconhecidamente culturais. O que esta mulher tem dado à cultura deste país e o país sem lhe agradecer. Tantas entrevistas, tantas compras, tantos diários maravilhosos no Diário de Notícias. A menina Maria Elisa passouse de malas e bagagens Vuitton para a cultura, esse posto caro aos trepadores, e a cultura agradece-lhe empenhada. A cultura está sempre empenhada. Uma sugestão: o cargo de adido cultural já está tão queimado e a menina Elisa também que o melhor é darem-lhe o nome certo. A menina Maria Elisa vai ser uma ardida cultural em Londres.

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TOON ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

OBITUÁRIO Carlos Quevedo*

O DIÁRIO DE GASTÃO Sexta

MANUEL MONTEIRO Parece que foi ontem, mas já muitas décadas passaram desde que este sempre jovem líder despertou para a política. O 25 de Abril surpreendeu-o no primeiro ano do liceu. Dizem que naquela altura o seu coração pendia para o PS. Não sabemos se era verdade, mas se foi, não foi isso que o impediu de chegar a fazer parte da direcção da Juventude Centrista em 1981, apenas sete anos mais tarde. Sempre jovem e frontal levou quatro anos a ser presidente daquela organização, cargo que desempenhou nada mais nada menos que durante cinco anos, “frontalmente”, como gostava de dizer. Amigo fiel e leal, não hesitou quando numa época difícil foi eleito presidente do CDS, num acto de gratidão ao seu amigo Paulo Portas, adicionou as siglas PP ao nome do seu querido partido. Ainda hoje se fala com orgulho do CDS/PP. Humilde e trabalhador abandonou a vida pública para terminar os estudos entretanto abandonados na sua entrega patriótica para ser alguém. Voltou à política e mais uma vez não quis ser um elemento de discórdia na sua família. Política, claro. Cheio de ideias renovadoras e originais decidiu, mais uma vez com frontalidade, ser uma pedrada no charco. Com a genialidade política que sempre o caracterizou, fez o inesperado: fundou um novo partido político - o Partido da Nova Democracia.

egresso da viagem oficial à Turquia, onde fui assessorar o Presidente da República na reconhecida qualidade de primeiro especialista português no “Corno de Ouro”. Sua Excelência insistiu em ouvir-me antes de proferir o seu já famoso discurso aos turcos, onde os aconselha a terem “muita paciência”. Ao contrário dos portugueses, que não perceberam a subtil alusão do discurso presidencial, os turcos entenderam e encaixaram com sabedoria oriental.

R A sua maneira de estar na política fez história. Mas não fazia mais do que o que sempre pregou: não caiu em demagogias nem em nenhuma espécie de populismo. Dedicou-se a participar em eventos políticos memoráveis como a conferência no Centro Cultural de Chiloango, em Cabinda. As suas cartas abertas aos dirigentes do aparelho do Estado foram a coluna vertebral de uma estratégia ousada e cheia de frontalidade que utilizou para ingratamente nunca chegar ao poder. Quem pode esquecer aquelas palavras cheias, mais uma vez, de frontalidade, com que começavam todas as suas cartas: “Senhor (Presidente, Primeiro-Ministro, Director de Jornal, Director da Revista Caras, etc.), sei que foi por causa de pressões inomináveis que o Senhor (Presidente, PrimeiroMinistro, Director de Jornal, Director da Revista Caras, etc.) recusou o encontro que lhe propus...” Incansável, frontal e corajoso nunca vergou. Não foi por acaso que a fatalidade o surpreendeu diante do computador a escrever essas mesmas palavras dirigidas ao seu gerente de conta: “(...) sei que foi por causa de pressões inomináveis que o Senhor Gerente de Conta recusou o encontro que lhe propus...”

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* Colaborador convidado.

Sábado etomo o meu jogging diário no Parque Eduardo VII, e quem é que eu encontro? O arquitecto Saraiva, que me explica estar ali para confirmar se o editorial que tinha escrito essa manhã sobre as relações entre a arquitectura modernista do Salazar e os pedófilos importantes que mandam nisto fazia algum sentido. Concordando no essencial com a sua tese, de que é no Restelo, no Parque, na Alameda, e na Praça do Império, que os mais velhos procuram os mais novos, separámo-nos com uma cordial “adeus, pá”. Ficou, no entanto, uma dúvida a pairar: porque é que há tanta caca de cão nas alamedas e jardins do Estado Novo?

R

Segunda asso a manhã em frente ao espelho a ensaiar o meu discurso de tomada de posse como Presidente de Honra do Concurso Internacional de Sósias de António Guterres, patrocinado pela Internacional Socialista e pelo “Dinner’s Club”. Nos Estados Unidos, onde os clubes locais de “Tony Guterres Look-a-like” proliferam descontroladamente, há quem não acredite que o grande ídolo das matinés tenha morrido, sem dúvida depois de um “Tony Guterres look-a-like” ter sido detectado no gabinete de Koffi Anan a falar ao telefone.

P

Terça reparo a minha intervenção perante a Comissão Permanente da Assembleia da República, que solicitou um parecer erudito sobre a polémica decisão de encerrar o acesso dos jornalistas às casas de banho dos deputados. Sendo escasso o material disponível na Torre do Tombo sobre a questão, não deixa de ser verdade que nada se parece tanto com um urinol como certos recantos do Parlamento, o que explica a de outro modo incompreensível concentração de jornalistas no local. Mas é também verdade que, pondo-me na pele de um político, não gostaria de ter a Felícia Cabrita a investigarme por cima do ombro nos momentos mais íntimos. O meu conselho será o de que os deputados utilizem antes as facilidades do Gambrinus. Os jornalistas podem continuar a utilizar os jardins anexos ao Parlamento, de acordo com precedentes históricos.

P

Quinta ceito o convite do Núncio Apostólico para participar num seminário sobre “A Igreja e a Declaração Electrónica de IRS através da Internet”. É um assunto fascinante, sabendo-se que 99 por cento dos utilizadores da Internet o fazem para ver mulheres nuas, e aguardo com ansiedade o momento do encontro com Sua Eminência, uma pessoa que eu nunca tive ocasião de conhecer, certamente porque é solteiro. GASTÃO F. RODRIGUES

A


GATO FEDORENTO EDITORES, PUBLICAI: Segundo cálculos estatísticos que eu próprio efectuei, cada português lê, em média, 17 livros por mês. A conta é fácil de fazer: 80% dos portugueses lê 0 (zero) livros por mês, mas o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa lê 62.257.932, o que acaba por resultar numa média de 17 obras lidas por cabeça. RAP FOI VOCÊ QUE PEDIU UMA DEMISSÃO? Uma das facetas mais ridículas da política portuguesa é a insistência com que, em certas ocasiões, a oposição exige a demissão de membros do governo. Ainda recentemente, Ferro Rodrigues mostrou que é um fã desta estratégia política. Ora, pedir a demissão de um ministro é como aquelas cenas dos filmes de acção, em que os polícias estão a perseguir um criminoso e gritam: “Pára! Larga a arma!” É certo que isto é dito de forma bastante persuasiva, mas não é suficiente para alguma vez ter convencido algum larápio. Imaginemos que, na próxima deslocação do executivo à Assembleia da República, se assiste ao seguinte diálogo entre o chefe do executivo e o líder da oposição: FERRO RODRIGUES: Dr. Durão Barroso, o meu partido exige a demissão do Ministro do Ambiente. DURÃO BARROSO: Hum... Está bem. F.R.: Perdão? D.B.: Está bem. Se Vossa Excelência acha que ele tem feito um mau trabalho, então vou demiti-lo. E mais? F.R.: Mais? D.B.: Sim, homem! Quer mais alguma

demissão? F.R.: Bom, há o Ministro da Educação e o Ministro da Cultura. D.B.: Considere-os demitidos. E mais? F.R.: Já que estamos com a mão na massa, também podia demitir o Ministro da Defesa, o da Agricultura e Pescas, o da Administração Interna, o dos Negócios Estrangeiros e o da Saúde. D.B.: Amanhã, estarão todos no desemprego. Só lhe quero é pedir uma coisa em troca. F.R.: Diga, diga... D.B.: Eu, como primeiro-ministro, peço a sua demissão como líder do PS. F.R.: Argh! (PARA OS SEUS COLEGAS DE BANCADA) Agora é que ele me lixou. Mas que golpe de mestre! Não estava nada à espera disto. (PARA DURÃO BARROSO) Parabéns, senhor primeiro-ministro! Vou-me retirar definitivamente deste plenário. Mas antes, permita-me que me despeça dos meus colegas de partido. D.B.: Faça favor... F.R.: Peço a sua demissão como primeiroministro! D.B.: Apre! F.R.: Ah, ah! Caiu que nem um patinho. D.B.: Boa estratégia! (PARA OS SEUS MINISTROS) E eu a julgar que o Ferro estava morto para a política... Bem, vamos convocar novas eleições. MG JÁ VI ESTE FILME NO HOTEL VITÓRIA: Estreou recentemente entre nós o filme Good Bye, Lenin!. A história é simples: uma mulher, na antiga RDA, acorda de um coma de oito meses e o filho, para não a chocar, fin-

ge que o muro de Berlim ainda não caiu. Carlos Carvalhas vai processar o autor do filme por plágio. O PCP anda a fi ngir que o muro não caiu desde 1989. RAP TODA ARTILHADA: Há um fenómeno que me intriga, chamado tuning. Consiste em pegar num carro normal e, acrescentando-lhe topo o tipo de extras – jantes, ailerons, escapes especiais, etc –, transformá-lo num veículo capaz de ferir a vista ao Stevie Wonder e rebentar os tímpanos a metade da população chinesa. Bom, isto talvez seja exagero. A um terço da população chinesa, vá. A minha dúvida é esta: será que os adeptos do tuning estendem este conceito à sua vida privada? Se sim, como é que eles fazem com as mulheres? Palpita-me que o fã do tuning começa por escolher uma mulher bastante discreta. Não perdendo o paralelo com os carros, digamos que escolhe um modelo base: acessível e que não gaste muito. A partir daí, começa a investir também na senhora. Com o dinheiro que sobra dos vidros fumados (prioridades são prioridades), adquire umas unhas de porcelana e umas lentes de contacto coloridas para equipar a patroa. Pelo meio, vai poupando uns trocos para os quilos de base que a mulher gasta aos cem e, quando chega o subsídio de natal, é finalmente tempo do extra mais desejado: o implante de silicone nos seios, que é o equivalente àqueles chips que se põem no motor para dar mais cavalos. E é assim que o homem do tuning fica com uma esposa que descobriu num cabeleireiro de Massamá, é verdade, mas que podia perfeitamente ter descoberto numa casa de passe de Massamá. TD

NEVE: O Verão acabou. O Inverno vai começar. (Ok, ainda não vai começar, mas faz de conta que sim, a bem deste comentário.) Com o frio, milhares de portugueses rumam aos picos da Europa em direcção à “neve” para praticarem desportos de Inverno – ou, como diz quem vive na “neve”, para se locomoverem. Afinal, o que é que move o esquiador português? (além da força exercida sobre duas tabuinhas lisas, numa inclinação acentuada.) Mais do que uma semaninha de diversão ao ar livre, acho que, subconscientemente, o português vai à “neve” por uma questão de estatuto social. Não, não é para se identificar com os socialmente superiores. Pelo contrário. Não é o desejo de ser rico que o move, é o medo de ser pobre. Senão, vejamos. Um português vai à neve e paga bem para: acordar todos os dias às 8 da manhã, viver num T0 com kitchenette, ir às compras e achar que é tudo caro, sofrer ao frio e à chuva enquanto enfrenta bichas sucessivas para apanhar dois ou três transportes diferentes – sempre lotados – até ao destino final. Ou seja, um português de classe média, médiaalta, paga mais de cem contos por semana para experimentar viver como um português de classe baixa. Quando volta, não é com sobranceria que anuncia a toda a gente que esteve na “neve”. É com compaixão. No fundo, o português vai à “neve” para se poder lembrar, durante o resto do ano, da sorte que tem. Aquilo que para os invejosos é um sinal de exibicionismo é, na realidade, um banho voluntário de humildade que se toma uma vez por ano. E isso é um asseio bonito. ZDQ

Gato Fedorento é um espaço com opiniões, nenhuma das quais devidamente fundamentada. Escrito por: Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela. Mais do mesmo em www.gatofedorento.blogspot.com

HÁ VIDA EM MARKL NUNO MARKL


ContraInformação11

26 Setembro 2003 oInimigoPúblico

Entrevista. Jorge Compaio dá ao INIMIGO PÚBLICO uma entrevista exclusiva, cumprindo assim uma tradição na imprensa portuguesa que consiste em o PR dar uma entrevista exclusiva a qualquer jornal ou revistazeca nova que apareça no mercado.

“Também escrevo nos media sem concentração, pá” RUI CARDOSO MARTINS JOSÉ DE PINA FILIPE HOMEM FONSECA INIMIGO PÚBLICO: Num ano de profunda crise, como vê o aparecimento de um novo jornal? JORGE COMPAIO: Onde, pá? IP: Este… O INIMIGO PÚBLICO. JC: Ah, peço desculpa. Vejo com muito bons olhos. O INIMIGO PÚBLICO vem preencher um espaço importantíssimo. Já era altura de surgir uma publicação à altura da política portuguesa, um jornal que está de acordo com a tradição histórica dos nossos parlamentares e dos nossos governantes: não se pode confiar em nada do que ele diz. IP: Vemos que o senhor Presidente continua atento à Comunicação Social portuguesa… JC: Sim, sabem que uma das coisas que me tem preocupado é a excessiva concentração

dos media. IP: Connosco não tem de preocupar-se. Aqui é tudo escrito à balda, sem concentração. JC: Ah, então vamos dar-nos bem, porque eu também sou um bocado assim. IP: Temos reparado nisso nos seus discursos. O senhor Presidente completou 64 anos na semana passada… Sentiu-se como na canção dos Beatles, “When I’m 64”, a ficar velhote e careca, mas ainda amado? JC: Não, porque nessa canção não se fala num maluco com uma caçadeira à procura deste velhote de 64 anos no Palácio de Belém. Isso deve querer dizer qualquer coisa sobre o estado do país. IP: Dentro de dois anos e meio, vai ter um sucessor em Belém. Aposta no seu camarada de partido, Toneca Guterres? JC: Acho estranho que, depois de um presidente que está sempre a falar em “pás”, ainda pensem lá pôr a “picareta falante”.

Belém é um palácio, não é um estaleiro de obras, pá… IP: Pode revelar-nos qual será a sua próxima iniciativa? Vai fazer alguma Presidência Aberta? JC: Já não estou para isso, pá. Vou é fazer Presidências Fechadas. IP: Presidências Fechadas?! JC: Feitas por videoconferência: eu no meu gabinete em Belém e as populações lá nas terras delas. Os cidadãos vêem -me a mim, mas eu não os vejo a eles. Sabe, o meu irmão Daniel Compaio, que é psiquiatra, diz que eu tenho de proteger-me. Aconselhou -me a não enfrentar cara a cara os problemas do país. Fico traumatizado. IP: E o que é que o traumatiza mais? JC: Foi uma tragédia vermos as imensas manchas verdes destruídas diante dos nossos olhos impotentes… Como é que é

possível, em tão pouco tempo, ficarmos sem área verde? As pessoas desesperadas, a chorar… Mas deixemo-nos de lamúrias: voltar a cobrir tudo de vegetação tem de ser um desígnio nacional! IP: Vemos que o coração do senhor Presidente está com os portugueses: os fogos foram uma coisa terrível… JC: Quais fogos, pá? Eu estou a falar do novo estádio do Sporting! Porcaria de relva… IP: E vai intervir pessoalmente na polémica da má construção e manutenção das obras públicas, revelada com a queda da ponte da IC19? JC: Toda a gente sabe que eu não gosto nada do George W. Embuste, mas ele emprestoume um capacete de kevlar, que ponho sempre que passo debaixo da ponte pedonal da estação de Belém. É que eu quero chegar ao fim do mandato, pá. Mas atenção, a queda das coisas não é má por si só. Este Governo, por exemplo, já devia ter caído e não cai, infelizmente.

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2:00PM

Seja responsável. Beba com moderação.

BEVERLY HILLS


O Primeiro  

Primeiro numero do suplemento humoristico

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